O Mundo de Sofia
“São Tomás de Aquino”
Alberto prosseguiu:
— Nessa altura, a influência dos árabes era dominante na Espanha. Os árabes tinham conservado viva durante toda a Idade Média uma tradição aristotélica e, a partir aproximadamente de 1200, eruditos árabes foram para o Norte de Itália a convite dos príncipes locais. Assim, muitos dos seus escritos foram divulgados e por fim traduzidos do grego e do árabe para o latim. E isso, por seu lado, criou um novo interesse no que diz respeito às ciências da natureza.
Além disso, foi de novo equacionada a relação entre a revelação cristã e a filosofia grega. Nas questões das ciências naturais, todos os caminhos passavam por Aristóteles. Mas quando é que se devia escutar o “filósofo” — e quando é que se devia ater exclusivamente à Bíblia? Ainda estás a seguir?
Sofia acenou vivamente que sim e o monge prosseguiu:
“São Tomás de Aquino”
— O maior e mais importante filósofo da baixa Idade Média foi “S. Tomás de Aquino”, que viveu entre 1225 e 1274. Era natural da pequena vila de Aquino entre Roma e Nápoles, mas ensinou em Paris. Eu chamo-lhe filósofo, mas ele era igualmente teólogo. Nessa altura, não havia uma verdadeira separação entre filosofia e teologia. Muito resumidamente, podemos dizer que S. Tomás “cristianizou” Aristóteles, da mesma forma que Santo Agostinho o fizera com Platão no início da Idade Média.
— Não era um pouco estranho cristianizar filósofos que tinham vivido tantos séculos antes de Cristo?
— Sim, mas por “cristianização” dos dois grandes filósofos gregos entendemos que eles foram interpretados e entendidos de forma a não constituírem uma ameaça para a doutrina cristã. Acerca de S. Tomás de Aquino, diz-se que “agarrou o touro pelos cornos”.
— Eu realmente não sabia que a filosofia tinha alguma coisa a ver com tourada.
— S. Tomás de Aquino fazia parte daqueles que queriam conciliar a filosofia de Aristóteles com o cristianismo. Dizemos que ele realizou a grande síntese entre fé e saber. E conseguiu-o por que partiu da filosofia de Aristóteles e a tomou à letra.
— Ou pelos cornos. Infelizmente, esta noite quase não dormi e por isso receio que tenhas de me explicar isso melhor.
— S. Tomás de Aquino não acreditava numa contradição inevitável entre o que a filosofia ou a razão, por um lado, e a revelação cristã ou a fé, por outro, nos dizem. Freqüentemente, o cristianismo e a filosofia dizem-nos o mesmo. Por isso, podemos examinar com a ajuda da razão as mesmas verdades que lemos na Bíblia.
— Mas como é que isso é possível? Pode a razão dizer-nos que Deus criou o mundo em seis dias? Ou que Jesus era filho de Deus?
— Não, só podemos ter acesso a essas “verdades de fé” através da fé e da revelação cristã. Mas S. Tomás de Aquino achava que havia também uma série de “verdades teológicas naturais”, ou seja, verdades que podem ser alcançadas tanto através da revelação cristã como através da nossa razão inata ou “natural”. Uma verdade dessas é, por exemplo, dizer-se que Deus existe. S. Tomás acreditava, portanto, em dois caminhos que levam a Deus. Um dos caminhos passa pela fé e pela revelação, o outro pela razão e pelos sentidos. Das duas vias, a que passa pela fé e pela revelação é a mais segura, porque podemos facilmente errar se confiarmos apenas na razão. Mas para S. Tomás não é preciso haver nenhuma contradição entre a doutrina cristã e um filósofo como Aristóteles.
— Então podemos confiar tanto em Aristóteles como na Bíblia?
— Não, não. Aristóteles só percorre uma parte do caminho, porque não conheceu a revelação cristã. Mas percorrer apenas uma parte do caminho não significa enganar-se. Por exemplo, não é falso dizer que Atenas fica na Europa. Mas também não é muito preciso. Quando um livro apenas te informa que Atenas é uma cidade européia, devias consultar ainda um atlas. E aí ficas a saber toda a verdade: Atenas é a capital da Grécia, um pequeno país no sudeste da Europa. Se tiveres sorte, talvez fiques ainda a saber alguma coisa sobre a Acrópole. Para não falar de Sócrates, Platão e Aristóteles.
— Mas a primeira informação acerca de Atenas também estava correta.
— Exato! S. Tomás quer mostrar que há apenas uma verdade. Quando Aristóteles apresenta algo que reconhecemos como verdadeiro por intermédio da razão, isso não entra em contradição com a doutrina cristã. Podemos obter uma parte da verdade com a ajuda da razão e da observação — e Aristóteles fala acerca dessas verdades quando, por exemplo, descreve o reino vegetal e o reino animal. Uma segunda parte da verdade foi-nos revelada por Deus através da Bíblia. Mas as duas partes da verdade coincidem em muitos pontos importantes. Há algumas perguntas a que a Bíblia e a razão nos respondem exatamente da mesma maneira.
— Por exemplo, que Deus existe?
— Exato. A filosofia de Aristóteles também pressupunha que Deus existe — ou uma primeira causa que põe em movimento todos os processos naturais. Mas não descreve Deus mais detalhadamente. Aí, temos de nos basear na Bíblia e na mensagem de Jesus.
— Mas é mesmo verdade que Deus exista realmente?
— Isso é obviamente discutível. Mas, ainda hoje, a maior parte das pessoas admitiria que pelo menos a nossa razão não pode provar que Deus não existe. S. Tomás foi mais longe. Acreditava poder provar a existência de Deus com base na filosofia de Aristóteles.
— Nada mau!
— Segundo ele, com a razão também podemos reconhecer que tudo tem de ter uma “primeira causa”. Deus, para S. Tomás, revelou-se aos homens por meio da Bíblia e por meio da razão. Logo, há uma teologia “revelada” e uma teologia “natural”. O mesmo se passa no domínio da moral. Podemos ler na Bíblia como é que devemos viver segundo a vontade de Deus. Mas Deus também nos dotou de uma consciência que nos habilita a distinguir o justo do injusto numa base “natural”. Também existem “duas vias” para a vida moral.
Podemos saber que não devemos maltratar os outros mesmo que não tenhamos lido na Bíblia que devemos tratar os outros como gostaríamos de ser tratados por eles. Mas, também neste caso, os mandamentos da Bíblia são a norma mais segura.
— Acho que estou a perceber — disse então Sofia. — Da mesma forma, podemos saber que há uma trovoada quando vemos o relâmpago e ouvimos o trovão.
— É isso. Mesmo que sejamos cegos, podemos ouvir o trovão. E mesmo que sejamos surdos, podemos ver a trovoada. É óbvio que o melhor é poder ver e ouvir. Mas não há nenhuma contradição entre aquilo que vemos e o que ouvimos. Pelo contrário — as duas impressões enriquecem-se mutuamente.
— Compreendo.
— Deixa-me dar mais um exemplo. Quando lês um romance — por exemplo — “Vitória” de Knut Hamsun.1
— De fato, já o li...
— ...não descobres também alguma coisa acerca do autor, só porque lês o romance escrito por ele?
— Pelo menos posso partir do princípio de que há um autor que escreveu o livro. — Podes saber algo mais acerca dele?
— Acho que tem uma concepção bastante romântica do amor.
— Ao leres esse romance — uma criação de Hamsun —, também ficas a saber qualquer coisa acerca do próprio Hamsun. Mas não podes esperar informações muito pessoais sobre o autor. Podes, por exemplo, saber através de “Vitória” que idade tinha o autor quando o escreveu, onde morava ou quantos filhos tinha?
— Claro que não.
— Mas uma biografia acerca de Knut Hamsun fornece-te esse tipo de informações. Só numa biografia — ou autobiografia — podes conhecer melhor a pessoa do autor.
— Sim, é verdade.
— A relação entre a Criação de Deus e a Bíblia é mais ou menos assim. Se observarmos a natureza, podemos saber que Deus existe. Pode mos ver que ele gosta de flores e de animais, de outra forma não os teria criado. Mas só encontramos informações acerca de Deus na Bíblia — ou seja, na autobiografia de Deus.
— Esse é um exemplo inteligente.
— Mm... Pela primeira vez, Alberto mergulhou nos seus pensamentos e não deu resposta.
— Isso tem alguma coisa a ver com Hilde? — perguntou Sofia.
— Nós nem sequer sabemos se Hilde existe.
— Mas descobrimos aqui e ali vestígios dela. Postais e um lenço de seda, uma carteira verde, uma meia... Alberto acenou afirmativamente.
— E parece depender do pai de Hilde o número de pistas que quer deixar. Mas, até agora, só sabemos que existe uma pessoa que escreve os postais. Acho que ele devia também escrever qualquer coisa acerca de si mesmo. Mas ainda havemos de voltar a falar sobre isso.
— São doze horas. Eu tenho mesmo de voltar para casa antes do fim da Idade Média.
— Vou concluir dizendo em poucas palavras como é que S. Tomás de Aquino adotou a filosofia de Aristóteles em todos os domínios que não colidiam com a teologia da Igreja. Isso é válido para a sua lógica, a sua filosofia do conhecimento e ainda para a sua filosofia da natureza. Ainda te lembras do modo como Aristóteles descreveu uma escala ascendente da vida, desde as plantas e os animais, até ao homem? Sofia acenou afirmativamente.
— Já Aristóteles acreditava que esta escala remetia para um Deus que representava uma espécie de vértice máximo da existência. Este esquema era facilmente adaptável à teologia cristã. S. Tomás acreditava num grau de existência crescente, desde as plantas e os animais até aos homens, dos homens até aos anjos, e dos anjos até Deus. O homem, tal como os animais, possui um corpo com órgãos dos sentidos, mas o homem também possui uma razão que pensa. Os anjos não têm corpo nem órgãos dos sentidos, mas em vez disso têm uma inteligência direta e imediata. Não precisam de “discorrer”, como os homens, não precisam fazer deduções. Sabem tudo o que os homens podem saber, mas não precisam avançar progressivamente às apalpadelas como nós. Uma vez que os anjos não têm corpo, nunca vão morrer. Não são eternos como Deus, visto que também eles foram criados por Deus, mas não têm um corpo do qual poderiam ser separados, e por isso nunca hão de morrer.
— Isso soa maravilhosamente.
— Mas acima dos anjos reina Deus, Sofia. Ele pode ver e saber tudo numa única visão de conjunto.
— Nesse caso, também nos está a ver agora.
— Sim, talvez nos esteja a ver. Mas não “agora”. Para Deus, o tempo não existe como para nós. O nosso “agora” não é o “agora” de Deus. O fato de passarem algumas semanas para nós não significa que também passem para Deus.
— Mas isso é inquietante! — exclamou Sofia, colocando a mão na boca.
Alberto olhou para ela, e Sofia explicou:
— Recebi novamente um postal do pai de Hilde. Escreveu qualquer coisa assim: “Se passa uma semana ou duas para Sofia, não significa que passe o mesmo tempo para nós.” É quase o mesmo que disseste sobre Deus!
Sofia viu que o rosto no capuz castanho se contorceu num veemente trejeito.
— Ele devia ter vergonha!
Sofia não percebeu o que Alberto queria dizer com aquilo. Talvez fosse apenas uma maneira de falar. E prosseguiu:
— Infelizmente, S. Tomás de Aquino também adotou a concepção aristotélica da mulher. Talvez ainda te lembres que, para Aristóteles, a mulher era uma espécie de homem imperfeito. Ele achava ainda que os filhos apenas herdavam as características do pai, porque a mulher era passiva, enquanto o homem era ativo. Segundo S. Tomás, estas reflexões estavam de acordo com as palavras da Bíblia — onde está escrito, por exemplo, que a mulher foi criada da costela do homem.
— Que absurdo!
— Talvez seja importante acrescentar que os mecanismos de ovulação nos mamíferos só foram descobertos em 1827. Por isso, talvez não fosse de surpreender que o homem fosse considerado aquele que fornece a forma e dá a vida na reprodução. Podemos também notar que para S. Tomás a mulher só era inferior ao homem enquanto criatura física. Para ele, a alma da mulher é tão importante como a do homem. No céu, há igualdade entre os sexos, muito simplesmente porque já não há diferenças corporais entre os sexos.
— Mas isso é um fraco consolo. Na Idade Média não havia filósofas?
— Na Idade Média, a Igreja era fortemente dominada pelos homens. Mas isso não significa que não tenha havido pensadoras. Uma delas era “Hildegard von Bingen... Sofia arregalou os olhos:
— Ela tem alguma coisa a ver com Hilde?
— Que perguntas fazes! Hildegard viveu entre 1098 e 1179 como freira na Renânia. Era mulher, mas, no entanto, foi pregadora, escritora, médica, botânica e cientista. Foi um exemplo de que na Idade Média as mulheres eram freqüentemente mais práticas — e mesmo mais científicas — que os homens.
— Eu perguntei se ela tem alguma coisa a ver com Hilde!
— Existe uma antiga concepção cristã e hebraica segundo a qual Deus não é apenas homem. Ele também tem um lado feminino ou “natureza maternal”. Porque também a mulher foi criada à imagem de Deus. Em grego, este lado feminino de Deus chamava-se “Sophia”. “Sophia” ou “sofia” significa “sabedoria”.
Sofia abanou a cabeça perplexa. Porque é que nunca ninguém lho dissera? E porque é que nunca fizera perguntas acerca disso? Alberto prosseguiu:
— Entre os Judeus e na Igreja grega ortodoxa, “sophia” — ou a natureza maternal de Deus — desempenhou um papel determinado durante a Idade Média. No ocidente caiu em esquecimento. Mas depois veio Hildegard. Ela conta que Sofia lhe apareceu em visões. Tinha uma túnica dourada enfeitada de pedras preciosas...
Nesse momento, Sofia levantou-se bruscamente do banco. Sophia mostrara-se a Hildegard em visões...
— Talvez eu também apareça a Hilde.Voltou a sentar-se. Pela terceira vez, Alberto colocou-lhe a mão no ombro.
— Isso é o que temos de descobrir. Mas é quase uma hora. Tens de ir para casa almoçar e nós temos à nossa frente uma nova época. Vou marcar-te um encontro no Renascimento. Hermes irá buscar-te ao jardim. E com isto o estranho monge levantou-se e caminhou em direção à igreja. Sofia ficou sentada pensando em Hildegard e Sophia, Hilde e Sofia. De repente, sentiu um calafrio na espinha. Levantou-se de um pulo e chamou pelo professor de filosofia disfarçado de monge.
— Na Idade Média havia algum Alberto? Alberto retardou um pouco os seus passos, virou a cabeça e disse:
— S. Tomás de Aquino teve um professor de filosofia famoso. Chamava-se “Alberto Magno”! Com isto, inclinou a cabeça e desapareceu na entrada da igreja de Santa Maria.
Sofia não se deu por satisfeita. Voltou também à igreja. Mas esta estava completamente vazia. Ter-se-ia ele afundado no chão?
Ao deixar a igreja, o seu olhar pousou numa imagem de Nossa Senhora. Aproximou-se e examinou-a com minúcia. De repente, descobriu uma gota de água por baixo de um dos olhos da imagem. Seria uma lágrima?
Sofia precipitou-se para fora da igreja e correu para casa de Jorunn.