O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 21 de 83

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O Mundo de Sofia

Conhece-Te a Ti Mesmo!

No templo de Delfos, havia uma inscrição famosa:

 

CONHECE-TE A TI MESMO!

 

Isso porque os homens nunca deviam julgar que eram mais do que homens — e nenhum homem podia escapar ao seu destino.

 

Entre os gregos contavam-se muitas histórias acerca de pessoas que tinham sido vítimas do seu destino. Com o decorrer do tempo, foram escritos vários dramas — tragédias — acerca destas personagens “trágicas”. O exemplo mais famoso é a história do Rei Édipo que, querendo fugir ao seu destino, acabou mesmo por cair nas suas garras.

 

“História e medicina”

Não era apenas a vida de pessoas individuais a ser determinada pelo destino, segundo a opinião dos gregos na Antiga Grécia. Eles pensavam também que o curso do mundo era governado pelo destino. Acreditavam, por exemplo, que o desenlace de uma guerra podia ser atribuído à intervenção divina. Ainda hoje, muitos acreditam que Deus ou outras forças místicas governam os acontecimentos históricos.

 

Mas enquanto os filósofos gregos procuravam encontrar explicações naturais para os processos da natureza, também se formava pouco a pouco uma ciência da história, cujo objetivo era encontrar causas naturais para o curso da história. Já não se atribuía aos desejos de vingança dos deuses o fato de um Estado perder uma guerra. Os historiadores gregos mais conhecidos foram Heródoto (484-424 a. C.) e Tucídides (460-400 a.C.).

 

Os gregos acreditavam que os deuses eram responsáveis pelas doenças. Assim, as doenças contagiosas eram freqüentemente vistas como castigo dos deuses. Em contrapartida, os deuses podiam tornar os homens saudáveis se lhes fossem oferecidos os sacrifícios devidos.

 

Esta idéia não é tipicamente grega. Antes de se desenvolver, em tempos mais recentes, a ciência médica moderna, predominava a opinião segundo a qual cada doença tinha uma causa sobrenatural. A palavra “influenza” (gripe), que ainda hoje é utilizada, significava originalmente que alguém estava sob a “influência” nefasta dos astros.

 

Muitas pessoas em todo o mundo ainda pensam que várias doenças — como, por exemplo, a AIDS — são um castigo de Deus. E muitos acreditam que um doente pode ser curado de maneira sobrenatural.

 

Enquanto os filósofos gregos refletiam sobre a natureza, desenvolvia-se igualmente na Grécia uma ciência médica, que procurava encontrar explicações naturais para a saúde e para a doença.

 

Esta ciência médica grega foi supostamente fundada por “Hipócrates”, que nasceu cerca do ano 460 a.C. na ilha de Cós.

 

A proteção mais importante contra a doença residia, segundo a tradição hipocrática, na moderação e numa vida saudável. Para um ser humano é natural estar bem; por isso, se se adoece, deve-se procurar o motivo num desequilíbrio físico ou psíquico.

 

A vida saudável reside na moderação, na harmonia e em “uma mente sã num corpo são”. Hoje ainda se fala acerca de “deontologia médica”.

 

Significa que um médico tem que exercer a sua profissão seguindo determinadas normas éticas. Por exemplo, um médico não pode receitar drogas a pessoas saudáveis. Um médico está também sujeito a um segredo profissional que lhe proíbe contar aquilo que um paciente lhe revelou sobre a sua doença. Estas idéias vêm de Hipócrates. Os seus discípulos tinham de prestar um juramento ainda hoje conhecido como o juramento hipocrático:

 

“Juro por Apolo, o médico, por Escolápio, por Higéia e por Panacéia, tomando por testemunhas todos os Deuses e todas as Deusas, que cumprirei com todas as minhas posses e conforme o meu saber o seguinte juramento: Considerar e amar como a meus pais aquele que me ensinou esta arte; viver com ele e, se necessário for, repartir com ele os meus bens; olhar pelos seus filhos como se fossem meus irmãos e ensinar-lhes esta arte, se assim o pretenderem, sem receber qualquer pagamento ou promessa escrita; ensinar aos meus filhos, aos filhos do mestre que me ensinou e a todos os discípulos que se inscrevam e que concordem com as regras da profissão, mas só a estes, todos os preceitos e conhecimentos. Prescrever aos doentes, segundo as minhas possibilidades e o meu saber, o regime conveniente para o seu bem e nunca prejudicar ninguém. Não receitar drogas perigosas para agradar a quem quer que seja, nem lhe dar conselhos que possam causar a sua morte. Não dar às mulheres meios de abortarem. Conservar a pureza da minha vida e da minha profissão. Não fazer operações para tirar pedras, mesmo nos enfermos em que a doença seja manifesta, e deixar esta operação aos especialistas nessa arte. Em todas as casas a que eu for, entrar somente para benefício dos meus doentes, evitando qualquer prejuízo intencional ou qualquer sedução, bem como, em especial, os prazeres do amor com mulheres ou com homens, quer sejam livres ou escravos. Manter secreto e nunca revelar aos outros tudo o que possa vir a saber no exercício da minha profissão, fora da minha profissão ou na convivência diária com as pessoas e que não deva ser divulgado. Se eu mantiver e observar este juramento com fidelidade, que possa ter alegria em viver e praticar a minha arte, respeitado por todos os homens e em todos os tempos, mas se eu me desviar dele, ou o violar, que me suceda o contrário”.

 

Quando acordou na manhã de sábado, Sofia sobressaltou-se. Teria apenas sonhado, ou teria visto, de fato, o filósofo?

 

Tateando, procurou debaixo da cama. Sim — aí estava a carta que chegara nessa noite. Tinha lido sobre a crença no destino, no que dizia respeito aos gregos. Não podia ser apenas um sonho.

 

Seguramente que tinha visto o filósofo! E mais — tinha visto com os seus próprios olhos que ele ficara com a sua carta.

 

Sofia levantou-se e espreitou para debaixo da cama.

Retirou as folhas escritas.

 

Mas o que era aquilo? Bem atrás, junto à parede, estava uma coisa vermelha. Seria um lenço? Sofia enfiou-se debaixo da cama e retirou um lenço de seda vermelho. Nunca tinha visto aquele lenço.

 

Examinou bem o lenço de seda e soltou um grito quando viu que na bainha estava algo escrito a preto: “Hilde”.

 

Hilde! Mas quem era esta Hilde? Como era possível que os seus caminhos se cruzassem desta forma?