O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 26 de 83

Páginas do PDF

O Mundo de Sofia

“A arte do diálogo”

Conhecemos a vida de Sócrates principalmente através de Platão, que era seu discípulo, também ele um dos maiores filósofos da história.

 

Platão escreveu muitos diálogos — ou conversas filosóficas — nas quais faz participar Sócrates.

 

Quando Platão põe as palavras na boca de Sócrates, não podemos dizer com certeza que Sócrates as tivesse verdadeiramente pronunciado.

 

Por isso, não é fácil distinguir a doutrina de Sócrates da de Platão. Este problema é válido, também, para muitas outras personalidades históricas que não deixaram fontes escritas. O exemplo mais famoso é obviamente Jesus. Não podemos ter a certeza de que o “Jesus histórico” tenha dito, de fato, aquilo que Mateus ou Lucas puseram na sua boca.

 

Da mesma forma, permanecerá sempre um enigma aquilo que o “Sócrates histórico” disse realmente.

 

Quem era “realmente” Sócrates não é muito importante. É principalmente o seu retrato por Platão que inspira os pensadores ocidentais de há quase dois mil e quatrocentos anos.

 

“A arte do diálogo”

O que distinguia, na verdade, a atividade de Sócrates era o seu desejo de não ensinar os homens. Em vez disso, parecia querer ele mesmo aprender com o seu interlocutor. Assim, não ensinava como um vulgar professor de escola: dialogava.

 

Mas não se teria tornado um filósofo famoso se apenas tivesse escutado os seus interlocutores. Também não teria sido condenado à morte.

 

E, principalmente no início, apenas punha questões. Alegava, humildemente, nada saber. No decurso do diálogo, levava freqüentemente os outros a reconhecerem os pontos fracos das suas reflexões. Podia suceder então que o interlocutor fosse encostado à parede e tivesse de reconhecer, por fim, o que era o justo e o injusto.

 

Diz-se que a mãe de Sócrates era parteira, e Sócrates comparava a sua atividade à arte da obstetrícia.

 

Não é a parteira que dá à luz a criança, ela apenas está presente e ajuda a mãe.

 

Sócrates compreendeu também que a sua tarefa era ajudar os homens a “parir” o saber correto, porque o verdadeiro saber tem de vir de dentro e não pode ser enxertado. Só o conhecimento que vem do interior é a verdadeira “inteligência”.