O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 22 de 83

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O Mundo de Sofia

Capítulo VII: Sócrates

 

 

...a pessoa mais sábia é aquela que sabe que não sabe....

 

Sofia vestiu um vestido de Verão e desceu para a cozinha. A mãe estava debruçada sobre o lava-louça.

 

Sofia decidiu não dizer nada sobre o lenço de seda.

 

— Já foste buscar o jornal? — perguntou Sofia em voz baixa. A mãe voltou-se.

 

— Não queres ser simpática e ir buscá-lo por mim?

Sofia correu pelo caminho de saibro e espreitou para a caixa do correio verde.

 

Apenas jornais. Mas também não podia esperar uma resposta imediata. Na primeira página do jornal leu algumas linhas acerca do contingente norueguês da ONU no Líbano. Contingente da ONU — não era o que estava escrito no postal do pai de Hilde?

 

Mas tinha um selo norueguês.

 

Talvez os soldados noruegueses da ONU tivessem uma caixa de correio apenas para eles. Quando voltou à cozinha, a mãe afirmou ironicamente:

 

— De repente os jornais passaram a interessar-te muito.

 

Felizmente, não disse mais nada acerca da caixa do correio ou alguma coisa semelhante, nem durante o café-da-manhã nem durante o resto do dia. Quando foi às compras, Sofia foi a correr para a toca com a carta que falava do destino.

 

O seu coração deu um pulo quando encontrou um pequeno envelope branco junto à caixa das cartas do seu professor de filosofia. Sofia julgou saber quem o tinha colocado lá.

Este envelope também tinha as bordas úmidas. E apresentava dois golpes profundos, exatamente como o envelope branco que recebera no dia anterior. Teria o filósofo estado ali? Conheceria ele o seu esconderijo secreto? Porque é que os envelopes estavam molhados? Sofia ficou atordoada com todas estas perguntas. Abriu o envelope e leu o que estava escrito na folha.

 

“Cara Sofia!

 

Li a tua carta com grande interesse — e também com muita pena porque não posso aceitar o teu convite para tomar café em tua casa. Havemos de nos encontrar um dia, mas, por enquanto, não posso ser visto na Curva do Capitão.

 

Devo ainda acrescentar que já não posso entregar as minhas cartas pessoalmente.

 

Com o decorrer do tempo, isso seria demasiado arriscado. O meu pequeno mensageiro levará as próximas cartas.

 

Em compensação, as cartas serão depositadas diretamente no teu esconderijo secreto, no jardim. Daqui em diante, podes entrar em contato comigo quando sentires que há necessidade disso. Nesse caso, tens de usar um envelope cor-de-rosa com uma bolacha doce ou com um torrão de açúcar. Quando o mensageiro encontrar uma dessas cartas, não deixará de ma trazer.

PS. Não é nada divertido recusar o convite de uma jovem. Mas por vezes é necessário.

 

PS2. Se encontrares um lenço de seda, quero pedir-te que o conserves cuidadosamente. Acontece, por vezes, que os objetos são trocados, principalmente na escola e em locais semelhantes, e esta é na verdade uma escola de filosofia.

 

Cumprimentos cordiais,

 

Albert Knox”.

 

Sofia já tinha catorze anos, e já recebera várias cartas durante a sua breve existência, pelo menos no Natal ou nos aniversários.

 

Mas esta era a carta mais estranha que alguma vez recebera.

Não trazia selo. Nem sequer tinha estado na caixa do correio. Esta carta fora depositada diretamente no esconderijo supersecreto de Sofia, junto à antiga sebe.

 

Também era estranho que a carta se tivesse molhado, estando um tempo primaveril seco. Mas o mais estranho era, obviamente, o lenço de seda. O professor de filosofia tinha mais uma aluna. Está bem! E esta outra aluna tinha perdido um lenço de seda vermelho. Está bem! Mas como é que conseguira perder o lenço debaixo da cama de Sofia?

 

E Alberto Knox... que nome tão esquisito!

 

De qualquer forma, esta carta provara que havia uma relação entre o professor de filosofia e Hilde Möller Knag. Mas que o pai de Hilde confundisse as moradas, era completamente incompreensível. Sofia ficou muito tempo sentada, questionando-se sobre que relação poderia haver entre ela própria e Hilde. Por fim, suspirou, resignada. O professor de filosofia dissera que se encontrariam um dia. Iria ela, nessa altura, conhecer também Hilde? Virou a folha. Descobriu então que havia algumas frases no verso.

 

“Existe um pudor natural?

 

A pessoa mais sábia é aquela que sabe que não sabe. O verdadeiro conhecimento vem de dentro.

 

Quem sabe o que é correto, age corretamente.”.

Sofia já sabia que as frases curtas dos envelopes brancos a iriam preparar para o conteúdo do envelope grande que, entretanto, receberia em seguida. E nesse momento, teve uma idéia: se o “mensageiro” lhe levava para a toca o envelope amarelo, Sofia podia esperar por ele. Ou por ela? De qualquer modo, havia de agarrar a pessoa em questão até que lhe contasse mais qualquer coisa a respeito do filósofo! Na carta estava escrito que o mensageiro era pequeno. Tratar-se-ia de uma criança?

 

“Existe um pudor natural?”

 

Sofia sabia que “pudor” era uma palavra antiquada para designar certas inibições — por exemplo, deixar-se ver nu. Mas seria realmente natural ter pudor em relação a isso? Ser natural equivalia a dizer que era válido para todos os homens. Mas em muitos países do mundo era natural estar nu!

 

Seria a “sociedade” a estabelecer o que era permitido e o que não era? Quando a avó era jovem, era completamente impossível tomar banhos de sol em “topless”. Mas hoje em dia, a maior parte das pessoas achava isso “natural”, apesar de ser totalmente proibido em muitos países. Sofia coçou a cabeça.

 

Seria isto filosofia?

 

Depois podia ler-se: “A pessoa mais sábia é a que sabe que não sabe”.

 

Mais sábia que quem? Se o filósofo queria dizer com isso que uma pessoa que sabia que não sabia tudo era mais sábia do que uma que sabia pouco e que pensava que sabia muito — sim, nesse caso não era muito difícil partilhar a sua opinião. Sofia nunca tinha pensado nisso. Mas quanto mais pensava, mais claro lhe parecia que, no fundo, saber que não se sabe é uma espécie de saber. Ela não conseguia imaginar nada mais estúpido do que pessoas que defendiam opiniões que julgavam irrefutáveis, quando, na realidade, nada sabiam sobre isso.

 

Em seguida, havia a frase sobre o conhecimento que vinha de dentro. Mas, sem dúvida, todo o conhecimento vinha primeiro do exterior passando depois para a cabeça das pessoas. Por outro lado, Sofia lembrava-se bem de situações em que a sua mãe ou os professores, na escola, tinham tentado ensinar-lhe qualquer coisa em que ela não estava interessada. Se aprendera de fato alguma coisa, também tinha, de algum modo, contribuído para isso. Podia acontecer-lhe compreender algo subitamente — e era isso que era designado por “saber”.

 

Sim, Sofia achava que tinha resolvido as primeiras perguntas muito bem. Mas em seguida vinha uma afirmação tão estranha que a deixara perplexa. “Quem sabe o que é correto, age corretamente”.

 

Queria isso dizer que um assaltante de bancos não tinha uma idéia melhor quando assaltava um banco? Sofia achava que não. Em vez disso, estava convencida de que tanto as crianças como os adultos podiam fazer bobagens — dos quais se arrependeriam mais tarde — e que o faziam tendo plena consciência de que poderiam ter agido de uma forma mais correta. Enquanto ainda estava sentada, ouviu de repente, do lado da sebe que ia dar ao bosque, ramos secos a estalarem. Seria o mensageiro? Sofia sentiu de novo o coração aos pulos. Mas teve ainda mais medo quando se deu conta de que, o que se aproximava, arfava como um animal.

 

Logo em seguida, entrou na toca um cão grande, vindo do bosque. Devia ser um labrador. Segurava na boca um grande envelope amarelo que deixou cair aos pés de Sofia. Tudo se passou tão depressa que Sofia não conseguiu sequer reagir. Passados poucos segundos, tinha o grande envelope nas mãos — e o cão amarelo desaparecera de novo no bosque. Só depois de tudo isto se ter passado é que o choque surgiu. Sofia pôs as mãos no colo e começou a chorar.