O Mundo de Sofia
“Um ser estranho”
Sofia foi de novo para o jardim, e correu para a caixa do correio. Haveria mais alguma coisa? Encontrou um outro envelope amarelo, no qual estava escrito o seu nome. Olhou à sua volta, mas não conseguiu descobrir ninguém. Correu para a orla do bosque e olhou em redor, mas não encontrou ali vivalma. De repente, pareceu-lhe ouvir ramos a estalar mais à frente no bosque.
Mas não tinha a certeza absoluta, e não faria sentido ir ao encalço de alguém que tentava fugir-lhe.
Sofia abriu a porta de casa com a chave e colocou a mala da escola e a correspondência para a mãe no chão.
Foi para o quarto, pegou na grande caixa de biscoitos onde guardava a sua coleção de pedras, pôs as pedras no chão e colocou os dois envelopes grandes na caixa. Foi de novo para o jardim com a caixa nas mãos, depois de ter dado de comer a Sherekan.
— Bichano, bichano, bichano!
Sentada de novo dentro da toca, abriu o envelope e retirou várias folhas escritas à máquina. Começou a ler.
“Um ser estranho”
Cá estamos de novo. Com certeza já percebeste que este pequeno curso de filosofia vem em doses pequenas. Eis mais algumas observações introdutórias. Estás a seguir-me, Sofia? Receberás a continuação.
Eu já disse que a capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos? Se não o disse, digo-o agora: A CAPACIDADE DE NOS SURPREENDERMOS É A ÚNICA COISA DE QUE PRECISAMOS PARA NOS TORNARMOS BONS FILÓSOFOS.
Todas as crianças pequenas possuem essa capacidade, isso é óbvio. Com poucos meses de vida, começam a aperceber-se de uma realidade completamente nova. Mas quando crescem, esta capacidade parece diminuir. Qual será o motivo?
Poderá Sofia Amundsen responder a esta pergunta? Se um recém-nascido pudesse falar, diria certamente muitas coisas sobre o estranho mundo a que chegou. Porque ainda que a criança não possa falar, vemos como aponta à sua volta e agarra com curiosidade os objetos no quarto.
Quando começa a falar, a criança fica parada cada vez que vê um cão e chama:
— ão, ão! Começa a agitar-se no carrinho, e move freneticamente os braços: — ão, ão!
Nós, que temos mais idade, sentimo-nos talvez pouco à vontade com o entusiasmo da criança. — Sim, sim, isso é um ão ão! — dizemos muito sabedores. — Mas agora senta-te. Não estamos assim tão entusiasmados. Já tínhamos visto cães antes.
Provavelmente, esta cena repete-se algumas cem vezes até que a criança possa passar por um cão sem ficar fora de si. Ou por um elefante, ou por um hipopótamo. Mas muito antes que a criança aprenda a falar corretamente — ou antes que aprenda a pensar filosoficamente — o mundo tornou-se para ela algo habitual.
É pena. Será a minha tarefa impedir que tu, cara Sofia, te tornes uma daquelas pessoas para quem o mundo é evidente. Para termos a certeza, vamos fazer duas experiências mentais, antes de começarmos com o curso de filosofia propriamente dito. Imagina que dás um passeio pelo bosque. De repente, descobres à tua frente uma pequena nave espacial. Da nave espacial, um marciano desce e olha fixamente para ti... O que pensarias numa situação dessas? Bom, isso, no fundo, é indiferente. Mas já pensaste que tu mesma és também um marciano?
Obviamente, não é particularmente provável que alguma vez encontres com uma criatura de outro planeta. Nem sequer sabemos se há vida nos outros planetas. Mas é possível que tu encontres contigo mesma. Pode acontecer que um belo dia fiques surpreendida e te vejas de um modo completamente diferente. Talvez isso se passe precisamente num passeio pelo bosque.
Eu sou um ser estranho, pensas tu. Sou um animal misterioso...
Pareces acordar de um sono de muitos anos como a Bela Adormecida. Quem sou eu? — perguntas. Sabes que estás num planeta do universo. Mas o que é o universo?
Se te descobrires desta maneira, descobriste algo tão misterioso como o marciano que mencionamos anteriormente. Não só descobriste um extraterrestre, mas sentes interiormente que tu própria és um ser desses.
Ainda me estás a seguir, Sofia? Vamos fazer mais uma experiência:
Certa manhã, o pai, a mãe e o pequeno Tomás, que tem dois ou três anos, estão sentados na cozinha durante o café-da-manhã. De repente, a mãe levanta-se e vira-se para o lava-louça: nesse preciso momento, o pai começa a voar em direção ao teto, enquanto Tomás observa.
O que te parece que Tomás diz? Provavelmente, aponta para o pai e diz: — O pai voa!
Certamente que Tomás ficaria admirado. Mas o pai faz coisas tão estranhas que um pequeno vôo acima da mesa já não tem importância aos seus olhos. Todos os dias faz a barba com uma máquina engraçada, por vezes sobe ao telhado para orientar a antena da televisão — ou enfia a cabeça junto ao motor do carro e aparece depois todo negro.
Depois, é a vez da mãe.
Ela ouviu o que Tomás disse e volta-se rapidamente. Como achas que reagirá vendo o marido a esvoaçar sobre a mesa da cozinha?
O frasco da marmelada cai-lhe imediatamente da mão, começará a gritar de medo.
Talvez tenha de ir ao médico, mesmo depois de o pai se ter sentado de novo na cadeira. (Ele já devia ter aprendido há muito tempo como se comportar à mesa!).
Porque é que Tomás e a mãe reagem de forma tão diferente? É uma questão de hábito.
(Toma nota disto!). A mãe aprendeu que os homens não podem voar. Tomás não. Ainda não distingue o que é possível do que não é.
Mas o que dizer do mundo, Sofia? Achas que o mundo é possível? Também está suspenso no espaço.
O mais triste é que ao crescermos não nos habituamos apenas à lei da gravidade, habituamo-nos, simultaneamente, ao mundo.
Aparentemente, perdemos durante a nossa infância a capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com isso, perdemos algo essencial — algo que os filósofos querem reavivar. Porque em nós algo nos diz que a vida é um grande mistério. Já tivemos essa sensação muito antes de termos aprendido a pensar nisso.
Vou ser mais preciso: apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a todos os homens, nem todos os homens se tornam filósofos. Por diversos motivos, a maior parte está presa de tal forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito escasso. (Descem para a pele do coelho, acomodam-se e permanecem lá em baixo para o resto da vida).
Para as crianças, o mundo — e tudo o que existe nele — é uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefação.
Os adultos não o vêem assim.
A maior parte dos adultos vê o mundo como qualquer coisa completamente normal.
Os filósofos constituem uma exceção notável. Um filósofo nunca se conseguiu habituar completamente ao mundo. Para um filósofo ou para uma filósofa o mundo é ainda incompreensível, inclusivamente enigmático e misterioso. Os filósofos e as crianças pequenas possuem uma importante qualidade em comum.
Podes dizer que um filósofo permanece durante toda a sua vida tão capaz de se surpreender como uma criança pequena.
E agora tens que te decidir, cara Sofia: és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou és uma filósofa que pode jurar que isso nunca lhe acontecerá?
Se simplesmente abanas a cabeça e não te sentes nem como criança nem como filósofa, é porque te acostumaste tão bem ao mundo que este já não te surpreende. Nesse caso, o perigo está eminente.
E por isso te ofereço este curso de filosofia, para prevenir. Não quero que tu pertenças à categoria dos apáticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de modo consciente.
Este curso é completamente grátis. Por isso, também não te será restituído dinheiro se não o fizeres. Se em determinada altura quiseres interromper o curso, não há problema. Basta deixares-me uma mensagem na caixa do correio, por exemplo, uma rã viva. De qualquer modo, tem de ser algo verde, pois não queremos assustar o carteiro. Breve sumário: um coelho branco é retirado de uma cartola vazia. Dado que é um coelho muito grande, este truque leva muitos bilhões de anos. Na extremidade dos pêlos finos nascem todas as crianças humanas.
Por isso, podem surpreender-se com a inacreditável arte da magia. Mas à medida que envelhecem, deslizam cada vez mais para o fundo da pelagem do coelho. E permanecem ali. Lá em baixo estão tão confortáveis que nunca mais ousam subir novamente pelos pêlos finos. Só os filósofos se atrevem a fazer a perigosa viagem à procura das fronteiras extremas da linguagem e da existência. Alguns deles perdem-se pelo caminho, mas outros agarram-se bem ao pêlo do coelho e chamam os homens que, bem acomodados em baixo, na pele do coelho, comem e bebem tranquilamente.
— Senhoras e senhores — gritam — estamos suspensos no espaço. Mas nenhum dos homens em baixo, na pele, se interessa pelo ruído que os filósofos fazem.
— Meu Deus, que barulhentos! — dizem.
E continuam a falar como até então: — Podes passar-me a manteiga? Como estão as ações hoje? Qual é o preço do tomate? Já sabes que Lady Di deve estar de novo grávida?
Quando, nessa tarde, a mãe chegou a casa, Sofia estava quase em estado de choque. A caixa com as cartas do filósofo misterioso estava bem escondida na toca. Depois de ter tentado estudar um pouco, Sofia ficara a pensar no que tinha lido.
Tantas coisas sobre as quais nunca tinha refletido antes! Já não era nenhuma criança — mas também não era ainda verdadeiramente adulta.
Sofia reconheceu que já tinha começado a penetrar profundamente na pelagem do coelho retirado da cartola negra do universo. Mas o filósofo impedira-a. Ele — ou ela? — agarrara-a firmemente pela nuca e trouxera-a de novo para o pêlo, no qual brincara quando era criança. Ali fora, na extremidade do pêlo fino, tinha visto de novo o mundo como se fosse pela primeira vez. O filósofo salvara-a da indiferença quotidiana. Ouvindo a mãe entrar, Sofia puxou-a para o quarto, e fê-la sentar numa cadeira.
— Mãe, não achas que é estranho viver? — começou.
A mãe ficou de tal modo perplexa que não lhe ocorreu nenhuma resposta. Normalmente, Sofia estava sempre sentada a fazer os trabalhos da escola quando ela chegava a casa.
— Bom, por vezes é — disse.
— Por vezes? Quero dizer — não achas estranho que haja um mundo?
— Mas Sofia, de que é que estás falando?
— Estou a fazer-te uma pergunta. Mas provavelmente achas o mundo completamente normal?
— Sim. Mas o mundo é normal. A maior parte das vezes.
Sofia compreendeu que o filósofo tinha razão. Para os adultos, o mundo era evidente. Tinham adormecido no sono eterno da vida quotidiana.
— Tu apenas te habituaste tanto ao mundo, que já não te surpreendes — disse ela.
— Desculpa, mas eu não estou entendendo nada.
— Estou a dizer que te habituaste demasiado ao mundo. Por outras palavras: estás completamente embrutecida.
— Não podes falar comigo desse modo, Sofia.
— Então, vou dizê-lo de outra maneira. Já te acomodaste na pele do coelho que neste momento é tirado da cartola negra do universo. E agora, vais pôr as batatas a cozer. Depois, lês o jornal, e depois de uma soneca de meia hora vais ver o noticiário na televisão.
No rosto da mãe, esboçou-se uma expressão preocupada. De fato, foi à cozinha e pôs as batatas a cozer. Em seguida, voltou à sala de estar, e aí fez Sofia sentar-se.
— Tenho que falar contigo — começou. Sofia apercebeu-se pelo tom de que se tratava de algo sério.
— Não tomaste nenhuma droga, pois não, pequena?
Sofia não pôde deixar de se rir, mas compreendeu o motivo dessa pergunta.
— Estás a brincar? — perguntou. — Com isso ainda se fica mais apático.
Nessa tarde não se falou mais em droga nem em coelhos brancos.