O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 40 de 83

Páginas do PDF

O Mundo de Sofia

“A escala da natureza”

 

Quando Aristóteles quer “pôr ordem” na existência, ele aponta primeiro para o fato de que tudo o que há na natureza pode ser dividido em dois grupos principais. Por um lado, temos as “coisas inanimadas” — como pedras, gotas de água e torrões de terra. Nelas não está inerente nenhuma potencialidade de mudança. Essas coisas inanimadas só se podem alterar, segundo Aristóteles, por ação do exterior. Por outro lado, temos as “coisas animadas”, nas quais é inerente a possibilidade de se alterarem.

 

No que diz respeito às coisas animadas, Aristóteles salienta que devem ser divididas em 2 grupos — por um lado o reino vegetal (ou plantas) e por outro os seres animados. Por fim, os seres animados podem dividir-se em subgrupos — nomeadamente os “animais” e os “homens”.

 

Tens de admitir que esta classificação, apesar da imprecisão em relação às plantas, é clara e compreensível.

 

Entre as coisas animadas e não animadas existe uma diferença essencial. Também entre as plantas e os animais existe uma diferença essencial, por exemplo, entre uma rosa e um cavalo. E eu gostaria de pensar também que existe uma diferença essencial entre um cavalo e um homem. Mas onde é que residem exatamente essas diferenças?

 

Consegues responder a isto? Infelizmente, não tenho tempo para esperar que escrevas a resposta e a coloques num envelope cor-de-rosa com um torrão de açúcar, por isso respondo eu mesmo imediatamente. Quando Aristóteles classifica os fenômenos da natureza em diferentes grupos, parte das qualidades das coisas, ou, mais exatamente, do que elas podem fazer ou do que elas fazem.

 

Todos os seres vivos (plantas, animais e homens) têm a faculdade de assimilar a alimentação, de crescer e de se multiplicar. Os homens e os animais têm ainda a capacidade de sentir e de se mover na natureza.

 

Todos os homens têm ainda a faculdade de pensar — ou, justamente, de ordenar as suas impressões sensíveis em diferentes grupos e classes.

 

Deste modo, não há na natureza limites verdadeiramente definidos. Vemos uma passagem gradual de plantas mais simples para plantas mais complexas, de animais simples para animais complexos. No cimo desta escala está o homem — que, segundo Aristóteles, reúne toda a vida da natureza. O homem cresce e alimenta-se, tal como as plantas, tem sensações e a capacidade de se mover, tal como os animais, mas, além disso, tem uma característica muito particular, que só o homem possui: a capacidade de pensar racionalmente.

 

Deste modo, o homem possui uma centelha da razão divina, Sofia. Sim, eu disse “divina”. Em alguns passos, Aristóteles explica que tem de haver um Deus que deu origem a todos os movimentos da natureza. Deste modo, Deus representa o vértice absoluto na escala da natureza.