O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 39 de 83

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O Mundo de Sofia

“Lógica”

 

 

A distinção entre “forma” e “matéria” também tem um papel importante na descrição que Aristóteles faz do modo como o homem conhece os objetos na natureza.

 

Quando conhecemos algo, ordenamos as coisas em classes ou grupos distintos. Eu vejo um cavalo, depois vejo mais um cavalo — e em seguida mais um. Os cavalos não são totalmente idênticos, mas há algo que é comum a todos os cavalos e aquilo que é comum a todos os cavalos é a “forma” do cavalo. O que é diferente ou individual pertence à “matéria” do cavalo.

 

Desta forma, os homens ordenam as coisas e colocam-nas em locais distintos. Colocamos as vacas no curral, os cavalos na cavalariça, os porcos na pocilga e as galinhas no galinheiro. O mesmo sucede quando Sofia Amundsen arruma o seu quarto. Põe os livros na estante, coloca os livros da escola na pasta e as revistas na gaveta da cômoda. Os vestidos são dobrados cuidadosamente — a roupa interior numa prateleira, as camisolas noutra e as meias numa gaveta. Repara que fazemos o mesmo nas nossas cabeças: separamos coisas que são feitas de pedra, de lã e de borracha. Distinguimos as coisas animadas das inanimadas, e subdividimos ulteriormente estas coisas em “plantas”, “animais” e “homens”.

 

Estás a compreender, Sofia?

Aristóteles queria fazer uma arrumação profunda no quarto da natureza. Procurou provar que todas as coisas na natureza pertencem a diversos grupos e subgrupos. (Hermes é um ser vivo, mais exatamente, um animal, mais exatamente, um vertebrado, mais exatamente, um mamífero, mais exatamente, um cão, mais exatamente, um labrador, mais exatamente, um labrador macho).

 

Vai ao teu quarto, Sofia.

 

Levanta um objeto qualquer do chão. Seja o que for que tu levantes, descobrirás que aquilo em que tocas pertence a uma ordem. No dia em que vês algo que não consegues classificar sofres um choque. Se, por exemplo, descobrisses uma pequena coisa acerca da qual não conseguias dizer com segurança se pertence ao reino vegetal, animal ou mineral, acho que não te atreverias a tocar-lhe.

 

Falei de reino vegetal, reino animal e reino mineral. Estou a pensar naquele jogo em que um pobre diabo é enviado para o corredor enquanto os outros imaginam algo que ele deve adivinhar quando regressa à sala. Os outros decidem pensar no gato do vizinho “Tareco” que, nesse momento, está sentado no jardim. Em seguida, o pobre jogador entra de novo e começa a adivinhar. Os outros só podem responder “não” ou “sim”. Se o jogador é um bom aristotélico — e nesse caso não é de modo algum um pobre diabo, a conversa pode decorrer mais ou menos assim:

 

— É concreto? — (Sim!)

 

— Pertence ao reino mineral? — (Não!)

— É animado? — (Sim!)

 

— Pertence ao reino vegetal? — (Não!)

 

— É um animal? — (Sim!)

 

— É um pássaro? — (Não!)

 

— É um mamífero? — (Sim!)

 

— É todo o animal? — (Sim!)

 

— É um gato? — (Sim!)

 

— É o Tareco? (Siiiiiim! Risos...)

 

Foi, portanto, Aristóteles quem descobriu este jogo. Por seu lado, a Platão cabe a honra de ter inventado o “esconde-esconde”; e a Demócrito já atribuímos a honra de ter descoberto o jogo do Lego.

 

Aristóteles foi um homem meticuloso e metódico que queria pôr em ordem os conceitos dos homens. Por isso, foi ele quem fundou a “lógica” como ciência. Estabeleceu várias regras precisas para determinar que conclusões ou que demonstrações são válidas logicamente. Vamos ver um exemplo: se eu afirmo primeiro que “todos os seres vivos são mortais” (1a premissa), e afirmo em seguida que “Hermes é um ser vivo” (2a premissa), posso deduzir a conclusão: “Hermes é mortal”. (Chama-se silogismo esse tipo de construção lógica).

 

O exemplo mostra que a lógica de Aristóteles trata da relação entre termos, neste caso “ser vivo” e “mortal”.

 

Mesmo sendo forçoso admitir que o silogismo dado é cem por cento sustentável, temos de reconhecer que ele não nos diz propriamente nada de novo. Já sabíamos que Hermes é “mortal”. (Porque é um cão, e todos os cães são “seres vivos” — logo, “mortais”, ao contrário das pedras). Sim, Sofia, já sabíamos isso. Mas nem sempre a relação entre grupos ou coisas nos parece tão evidente. Por vezes, pode ser necessário ordenar os nossos termos.

 

Vou contentar-me com um exemplo: será verdade que crias de rato podem mamar leite da mãe como sucede com as ovelhas ou os porcos?

 

Isto parece muito estranho, mas não nos podemos esquecer de que os ratos não põem ovos. (Quando é que eu vi um ovo de rato ultimamente?). Mas dão à luz crias — tal como os porcos ou as ovelhas. Mas os animais que dão à luz crias são chamados mamíferos — e os mamíferos mamam o leite das mães. Com isto, atingimos o nosso objetivo. Tínhamos a resposta dentro de nós, mas foi preciso refletir primeiro. De momento, tínhamo-nos esquecido de que os ratos mamam realmente leite das mães. Talvez seja porque nunca vimos as crias dos ratos a mamar, certamente porque os ratos se envergonham um pouco à frente dos homens quando têm de alimentar as suas crias.