O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 69 de 83

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O Mundo de Sofia

Capítulo XXII: Berkeley

 

...como um planeta que gira vertiginosamente à volta de um sol incandescente....

 

Alberto pôs-se à janela que dava para a cidade e Sofia foi ter com ele. Passado um pouco viram um pequeno avião a hélice aparecer por cima dos telhados. Uma longa faixa estava presa ao avião.

 

Sofia esperava publicidade a um grande concerto ou uma coisa do gênero na faixa que esvoaçava ao vento como uma grande cauda atrás do avião.

 

Mas quando este se aproximou, ela viu que o que estava escrito era completamentediferente: “PARABÉNS PELO TEU ANIVERSÁRIO, HILDE!”.

— Importuno — foi o único comentário de Alberto.

 

Nuvens escuras revolviam-se nas colinas a sul em direção à cidade. O pequeno avião desapareceu numa destas nuvens pesadas.

 

— Receio que haja um temporal — afirmou Alberto.

 

— Nesse caso, eu vou de ônibus para casa.

 

— Se ao menos o major não estivesse por detrás do temporal!

 

— Mas ele não é onipotente, pois não?Alberto não deu resposta. Voltou para junto da mesa e sentou-se na cadeira.

 

— Temos que falar ainda um pouco de Berkeley — disse ele. Sofia já voltara a sentar-se. Deu-se então conta de que tinha começado a roer as unhas.

 

— “George Berkeley” era um bispo irlandês que viveu entre 1685 e 1753 — começou Alberto, e em seguida calou-se por muito tempo.

— Berkeley era um bispo irlandês... — Sofia retomou o fio.

 

— Mas também era filósofo...

 

— Sim?

 

— Ele acreditava que a filosofia e a ciência do seu tempo constituíam uma ameaça para a concepção cristã do mundo. Além disso, via o materialismo, cada vez mais difundido, como uma ameaça à crença cristã de que Deus cria e mantém vivas todas as coisas na natureza.

 

— Sim?

 

— Ao mesmo tempo Berkeley era um dos empiristas mais coerentes.

 

— Ele achava que não podemos saber mais acerca do mundo do que o que sentimos?

 

— Não apenas isso. Berkeley achava que as coisas no mundo são exatamente como nós as sentimos, mas não são “coisas”.

— Tens de explicar isso melhor.

 

— Ainda te lembras que Locke tinha apontado para o fato de nós não podermos dizer nada sobre as “qualidades secundárias” das coisas. Não podemos afirmar que uma maçã é verde e ácida. Somos “nós” que sentimos essa maçã desse modo. Mas Locke dissera também que as “qualidades primárias” — como solidez, peso e gravidade — pertencem de fato à realidade exterior à nossa volta. Esta realidade exterior tem, portanto, uma “substância” física.

 

— Eu continuo a ter uma memória boa. E pensava que Locke tinha apontado uma diferença importante.

 

— Ah, Sofia, se fosse só isso!

 

— Continua!

 

— Para Locke — como para Descartes e Espinosa — o mundo físico era uma realidade.

 

— Sim?

— E é precisamente isso que Berkeley põe em dúvida e para isso ele recorre a um empirismo conseqüente. Ele afirma que a única coisa que existe é o que nós sentimos. Mas não sentimos “matéria” ou “substância”. Não sentimos as coisas como “coisas” palpáveis. Quando pressupomos que aquilo que sentimos tem uma “substância” subjacente, estamos a tirar conclusões precipitadas. Não temos nenhuma prova empírica para essa afirmação.

 

— Que absurdo! Observa isto. Sofia bateu com o punho na mesa.

 

— Au! — exclamou, tal foi a força com que bateu — Isto não é uma prova de que a mesa é uma mesa verdadeira e é matéria ou substância?

 

— O que é que sentiste?

 

— Uma coisa dura.

 

— Tiveste uma clara percepção sensível de uma coisa dura, mas não sentiste a verdadeira “matéria” da mesa. Da mesma forma, podes sonhar que bates em algo duro, mas no teu sonho não há nada duro, pois não?

 

— No sonho não.

 

— Além disso, uma pessoa pode ser persuadida de que “sente” todas as coisas. Uma pessoa pode ser hipnotizada e sentir calor e frio, carícias suaves e socos duros.

 

— Mas se não era a mesa que era dura, o que me levou a senti-la?

 

— Segundo Berkeley, é a “vontade” ou “espírito”. Ele também achava que todas as nossas idéias têm uma causa exterior à nossa consciência, mas que esta causa não é de natureza material. Ela é, segundo Berkeley, espiritual.

 

Sofia voltou a roer as unhas. Alberto prosseguiu.

 

— Segundo Berkeley, a minha alma pode ser causa dos meus pensa-mentos — como quando sonho —, mas só uma outra vontade ou espírito pode ser causa das idéias que constituem o nosso mundo material.

 

Tudo vem do espírito, “que realiza tudo em tudo e através do qual tudo subsiste”, afirma ele.

 

— E que espírito é esse?

 

— Berkeley está naturalmente a pensar em Deus. Ele achava que nós poderíamos afirmar que sentimos a existência de Deus mais clara-mente do que a de qualquer homem.

— Mas não é óbvio que existimos?

 

— Bom... tudo o que vemos e sentimos é, segundo Berkeley, um efeito do poder de Deus. É que Deus está intimamente presente na nossa consciência e provoca nela toda a multiplicidade de idéias e sensações às quais estamos constantemente expostos. Toda a natureza à nossa volta e toda a nossa existência residem em Deus. É a única causa de tudo o que existe.

 

— Para dizer a verdade, estou espantada.

 

— “Ser ou não ser” não é toda a questão. A questão é também “o que” nós somos. Somos realmente pessoas de carne e osso? O nosso mundo é constituído por coisas reais — ou estamos apenas rodeados pela consciência? Sofia começou mais uma vez a roer as unhas. Alberto prosseguiu:

 

— Berkeley não põe apenas a realidade material em dúvida. Ele duvida também de que o tempo e o espaço tenham uma existência absoluta ou autônoma. Mesmo a experiência do tempo e do espaço pode residir apenas na nossa consciência. Uma ou duas semanas para nós não têm de ser uma ou duas semanas para Deus...

 

— Disseste que para Berkeley este espírito, no qual tudo repousa, é o Deus cristão.

 

— Sim, foi o que eu disse. Mas para nós...

— Sim?

 

— ...para nós esta vontade ou espírito que realiza tudo pode ser também o pai de Hilde.

 

Sofia emudeceu. A sua expressão parecia um grande ponto de inter-rogação. E, simultaneamente, uma coisa tornou-se clara.

 

— Acreditas nisso? — perguntou.

 

— Não consigo ver nenhuma outra possibilidade. Esta é talvez a única explicação possível para tudo o que presenciamos. Estou a pensar nos diversos postais e notícias que surgiram nos mais diversos locais. Estou a pensar no fato de Hermes falar de repente e estou a pensar nos meus lapsos involuntários.

 

— Eu...

 

— A idéia de eu te ter chamado Sofia, Hilde! Eu sempre soube que tu não te chamavas Sofia.

— O que estás a dizer? Estás a enlouquecer de vez!

 

— Sim, tudo gira e gira, minha filha. Como um planeta que gira vertiginosamente à volta de um sol incandescente.

 

— E esse sol é o pai de Hilde?

 

— Podes dizer isso.

 

— Achas que ele se tornou uma espécie de deus para nós?

 

— Para ser sincero, sim. Mas devia ter vergonha!

 

— E quanto a Hilde?

 

— Ela é um anjo, Sofia.

 

— Um anjo? — É a ela que se dirige este “espírito”.

— Achas que Alberto Knag fala a Hilde sobre nós?

 

— Ou escreve sobre nós. Nós não podemos sentir a matéria da qual a nossa realidade é feita. Pelo menos foi o que aprendemos. Não podemos saber se a nossa realidade exterior é constituída por ondas sonoras ou por papel e letras. Segundo Berkeley, só podemos saber que somos feitos de espírito.

 

— E Hilde é um anjo...

 

— É um anjo, sim. E com isto, terminamos por hoje. Parabéns, Hilde! Uma luz azulada invadiu então a sala. Passados poucos segundos, ouviram um trovão a ribombar, e a casa foi abalada. Alberto estava com um olhar ausente.

 

— Tenho de ir para casa — disse Sofia. Levantou-se de um pulo e correu em direção à porta de entrada. Ao abrir violentamente a porta, Hermes, que dormia debaixo dos cabides, acordou.

 

Quando Sofia saiu, parecia dizer:

 

— Adeus, Hilde!

Sofia desceu as escadas precipitadamente e correu para a rua. Aí, não se via ninguém. Entretanto chovia a cântaros.

 

Dois carros passaram pelo asfalto molhado, mas Sofia não conseguia encontrar um ônibus. Correu até à praça principal e continuou a correr pela cidade. Enquanto isso, um único pensamento se revolvia na sua cabeça.

 

“Amanhã faço anos”, pensava ela. E não era extremamente duro ter de reconhecer, um dia antes de fazer quinze anos, que a vida é um sonho? Era como sonhar ter ganho um milhão e, pouco antes de o grande Prêmio ser pago, compreender que tudo fora apenas um sonho.

 

Sofia correu pelo campo de jogos molhado. Nessa altura viu uma pessoa a correr na sua direção. Era a mãe. Relâmpagos potentes rasgavam o céu. A mãe abraçou Sofia.

 

— O que se passa conosco, minha filha?

 

— Não sei — Sofia chorava. — É como um pesadelo.