O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 55 de 83

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O Mundo de Sofia

“Israel”

No islamismo, existe uma aversão geral pela fotografia e pela arte plástica. Os homens não devem competir com Deus em “criar” algo.

 

Mas na Igreja Cristã há muitas imagens de Deus e de Jesus, talvez estejas a pensar.É verdade, Sofia, e isso é precisamente um exemplo do fato de o cristianismo ter sido influenciado pelo mundo greco-romano.

 

(Na Igreja Ortodoxa — ou seja, na Grécia e na Rússia — existe ainda uma proibição de criar imagens esculpidas, isto é, esculturas e crucifixos com cenas da história bíblica).

 

Ao contrário das grandes religiões orientais, as três religiões ocidentais defendem uma separação entre Deus e a sua Criação. O fim não é a libertação da reencarnação, mas ser-se libertado do pecado e da culpa. Além disso, a vida religiosa baseia-se mais na oração, no sermão e na leitura da Bíblia do que na concentração e na meditação.

 

“Israel”

 

Agora, não quero entrar em concorrência com o teu professor de religião, cara Sofia, mas vamos ainda observar rapidamente a influência hebraica no cristianismo.

Tudo começou quando Deus criou o mundo. Podes ler na primeira página da Bíblia como isso sucedeu. Mas depois, os homens insurgiram-se contra Deus. O castigo não foi apenas a expulsão de Adão e Eva do paraíso. A morte também surgiu no mundo.

 

A desobediência dos homens em relação a Deus representa o fio condutor de toda a Bíblia. Se continuarmos a folhear o “Gênesis”, podemos ler acerca do dilúvio e da arca de Noé. Depois lemos que Deus fez um pato com Abraão e o seu povo. Este pato estabelecia que Abraão e o seu povo respeitariam os mandamentos de Deus. E Deus prometeu proteger os sucessores de Abraão. Mais tarde, este pato foi renovado, quando “Moisés” recebeu as Tábuas da Lei no monte Sinai (a lei mosaica!). Isto aconteceu cerca de 1200 a.C. Nessa época, os israelitas tinham vivido muito tempo no Egito como escravos, mas com a ajuda de Deus o povo foi reconduzido a Israel.

 

Cerca do ano 1000 a.C., muito antes de existir algo que se chamasse filosofia grega — ouvimos falar de três grandes reis em Israel.

 

O primeiro foi “Saul”, seguiu-se-lhe “David”, e após David veio “Salomão”. Todo o povo israelita estava unido num reino e, principalmente no reinado do rei David, viveu um período de prosperidade política, militar e cultural. Quando os reis eram consagrados, eram ungidos pelos sacerdotes. Por isso, tinham o título de Messias, que significa “o ungido”. No contexto religioso, os reis eram vistos como intermediários entre Deus e o povo. Por isso, os reis podiam ser igualmente designados por “filhos de Deus”, e o país por “reino de Deus”.

 

Mas o período de esplendor não durou muito. O reino foi dividido em duas partes: “reino do Norte” (Israel) e o “reino do Sul” (Judéia). No ano de 722 a.C., o reino do Norte foi ocupado pelos assírios e perdeu toda a importância política e religiosa. No Sul, as coisas não correram muito melhor. O reino do Sul foi conquistado pelos babilônios no ano 586 a.C..

O templo de Jerusalém foi destruído, e uma grande parte do povo foi levada para a Babilônia. Este “cativeiro babilônico” só terminou no ano de 539 a.C.. O povo pôde regressar a Jerusalém e reconstruir o grande templo.

 

Mas até ao início da nossa era, os judeus estiveram sempre sob domínio estrangeiro.

 

Os judeus perguntavam-se porque é que o reino de David fora destruído e porque é que desgraças após desgraças se abatiam sobre o povo.

 

Deus tinha prometido proteger Israel. Mas o povo também prometera observar os mandamentos divinos. Por fim, difundiu-se a idéia de que Deus castigara Israel devido à desobediência.

 

A partir aproximadamente de 750 a.C. surgiu uma série de “profetas” que anunciaram o castigo de Deus sobre Israel, porque o povo não observava os mandamentos do Senhor. “Um dia, Deus julgará Israel”, diziam. Esses profetas são designados por “profetas do dia do juízo”.

 

Cedo surgiram também profetas que profetizavam que Deus salvaria uma parte do povo e enviaria um “príncipe da paz”, ou um rei da paz, da estirpe de David. Este príncipe da paz deveria erigir de novo o antigo reino de David e assegurar ao povo um futuro feliz.

 

“O povo que caminha na escuridão, verá uma grande luz”, afirmou o profeta Isaías, “aqueles que habitam na terra da sombra da morte, sobre eles brilhará a luz”.