O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 32 de 83

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O Mundo de Sofia

“O mundo das idéias”

E agora vem Platão. Ele interessa-se tanto por aquilo que é eterno e imutável na natureza — como por aquilo que na moral e na sociedade é eterno e imutável. Sim, para Platão trata-se de uma mesma coisa. Ele procura obter uma “realidade” própria que seja eterna e imutável. E na verdade é precisamente para isso que temos filósofos. Para eles não se trata de eleger a mulher mais bela do ano ou a verdura mais barata. (Por isso, eles nem sempre são populares!). Os filósofos procuram dar pouca atenção a essas coisas frívolas e efêmeras. Procuram mostrar o que é “verdadeiro” em si, “belo” em si, e “bom” em si.

 

Com isto, temos uma idéia dos contornos do projeto filosófico de Platão. A partir de agora, consideramos uma coisa de cada vez. Vamos tentar compreender a visão deste pensador que deixou vestígios profundos em toda a filosofia européia posterior.

 

“O mundo das idéias”

 

Empédocles e Demócrito já tinham mostrado que todos os fenômenos na natureza “fluem”, mas que apesar disso há “algo” que nunca se transforma (as “quatro raízes” ou os “átomos”). Platão confronta-se igualmente com esta problemática — mas de uma forma completamente diferente.

 

Platão achava que tudo o que podemos tocar e sentir na natureza “flui”. Não há, portanto, nenhum elemento eterno. Tudo o que pertence ao “mundo sensível” é composto por uma matéria que o tempo consome. Mas ao mesmo tempo, tudo é constituído por uma forma intemporal que é eterna e imutável.

Compreendeste?

 

Porque é que os cavalos são iguais, Sofia? Talvez penses que eles não o são de todo. Mas há algo que é comum a todos os cavalos, algo que permite que nunca tenhamos problemas em reconhecer um cavalo.

 

Um cavalo particular “flui”, obviamente. Pode ser velho e coxo, com o tempo ficará também doente, e morre. Mas a verdadeira “forma de cavalo” é eterna e imutável.

 

Assim, o eterno e imutável não é nenhum “elemento primordial”. O eterno e o imutável são modelos espirituais ou abstratos, a partir dos quais se formam todos os fenômenos.

 

Vou ser mais preciso: os pré-socráticos tinham dado uma explicação verdadeiramente útil para as transformações na natureza, sem ter que pressupor que algo se “transforma” efetivamente. Na natureza há partículas minúsculas, eternas e constantes que não entram em desagregação, segundo eles. Pois bem, Sofia! Mas não tinham nenhuma explicação aceitável para o modo como estas partículas minúsculas que eram elementos constituintes de um cavalo podiam produzir quatro ou cinco séculos mais tarde um cavalo totalmente novo! Ou talvez um elefante, ou um crocodilo. Platão quer dizer que os átomos de Demócrito nunca se podem tornar um “crocofonte” ou um “eledilo”.

 

E foi precisamente este o ponto de partida das suas reflexões filosóficas.

Se já percebes o que quero dizer, podes saltar esta parte. Por precaução, vou explicar melhor: tens uma caixa de peças de Lego e constróis um cavalo. Depois, desmanchas o que fizeste e colocas novamente as peças na caixa.

 

Não podes esperar ter um novo cavalo se apenas agitas a caixa. Como é que as peças do Lego conseguiriam produzir por si mesmas um novo cavalo? Não, tu tens de montar de novo o cavalo, Sofia. E se o consegues é porque tens em ti uma imagem do aspecto do cavalo. O cavalo de Lego foi, portanto, formado a partir de um modelo que se conserva inalterado de cavalo para cavalo.

 

Conseguiste resolver a pergunta acerca dos cinqüenta bolos iguais? Imaginemos agora que cais do espaço sideral para a terra e que nunca tinhas visto uma pastelaria.

 

Deparas com uma pastelaria atraente — e vês, num tabuleiro, cinqüenta biscoitos em forma de homem, exatamente iguais. Calculo que coçarias a cabeça e te questionarias como é que podiam ser todos exatamente iguais.

 

É fácil de imaginar que a um falta um braço, um outro perdeu talvez um bocado da cabeça, e o terceiro tem uma barriga demasiado gorda. Mas depois de uma reflexão fundada chegas à conclusão de que todos os biscoitos possuem um denominador comum. Apesar de nenhum deles ser totalmente perfeito, tens a idéia de que têm que ter uma origem comum.

 

Compreendes que todos os biscoitos foram feitos a partir de uma mesma forma.

 

E não é tudo, Sofia: terás então o desejo de ver esta forma. Porque é óbvio que a forma tem de ser indescritivelmente mais perfeita — e de certo modo mais bela — do que uma das suas frágeis cópias.