O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 57 de 83

Páginas do PDF

O Mundo de Sofia

“Paulo”

Deixo a cargo do teu professor de religião mais esclarecimentos acerca da personalidade de Jesus e da sua mensagem. Não é uma tarefa fácil. Espero que ele também vos possa esclarecer como Jesus foi um homem único. De um modo genial, ele usa a linguagem do seu tempo e dá simultaneamente às idéias antigas um conteúdo completamente novo e mais vasto. Não admira que ele tenha sido crucificado. A sua radical mensagem de salvação punha a nu tantos interesses e jogos de poder que tinha de ser afastado.

 

No caso de Sócrates, vimos como pode ser perigoso apelar à razão dos homens.

 

No caso de Jesus vemos como pode ser perigoso pedir um amor incondicional pelo próximo e um perdão igualmente incondicional. Ainda hoje vemos como Estados poderosos vacilam se são postos perante pedidos simples de paz, amor e alimento para os pobres e perdão para os inimigos do Estado.

 

Sabes ainda como Platão ficou contrariado pelo fato de o homem mais justo de Atenas ter de pagar com a vida. Para o cristianismo, Jesus é o único homem justo que alguma vez viveu. Porém, foi condenado à morte. Para o cristianismo, ele morreu pela humanidade. E isso é freqüentemente designado como a “paixão” de Cristo. Jesus foi o “servo sofredor” que assumiu a culpa de todos os pecados dos homens para nos reconciliar com Deus e nos salvar da Sua punição.

 

“Paulo”

Poucos dias após a crucificação e o enterro de Jesus surgiram rumores de que ele havia ressuscitado dos mortos. Deste modo, mostrou que era mais do que um homem, que era verdadeiramente “filho de Deus”.

 

Podemos dizer que a Igreja cristã teve início nessa manhã de Páscoa, com o anúncio da ressurreição de Jesus. Já Paulo esclareceu isto: “Se Jesus não ressuscitou, então a nossa prédica é vã, vã a nossa fé”.

 

A partir daquele momento, todos os homens podiam ter esperança na ressurreição da carne. Jesus foi crucificado para a nossa salvação. E agora, querida Sofia, tens de reparar que não se trata da “mortalidade da alma” ou de uma forma de reencarnação.

 

Essa era uma concepção grega — conseqüentemente indo-européia. Mas o cristianismo ensina que não há nada no homem — por exemplo, nenhuma “alma” — que fosse imortal por si. A Igreja acredita na ressurreição da carne e na vida eterna, mas é justamente graças a Deus que somos salvos da morte e da perdição.

 

Não é nosso mérito, nem se deve a nenhuma qualidade natural ou inata.

 

Os primeiros cristãos começaram então a anunciar a “boa nova” da salvação através da fé em Jesus Cristo.

Com a sua mensagem de redenção, o reino de Deus estava iminente. Todo o mundo podia então ser conquistado por Jesus. (a palavra “Cristo” é uma tradução grega da palavra hebraica “messias” e significa, portanto, “o ungido”).

 

Poucos anos após a morte de Jesus, o fariseu Paulo converteu-se ao cristianismo.

 

Através das suas muitas viagens de missionário por todo o mundo greco-romano, o cristianismo tornou-se uma religião universal. Tomamos conhecimento disso nos Atos dos Apóstolos. A pregação de Paulo e as suas diretivas fornecidas aos cristãos foram também difundidas por meio das epístolas que enviou às primeiras comunidades cristãs.

 

Esteve também em Atenas.

 

Caminhava na ágora da capital da filosofia. E estava indignado, “de tal forma via a idade tão idólatra”, segundo se diz. Visitou a sinagoga de Atenas e falou com os filósofos epicuristas e estóicos da cidade. Levaram-no ao Areópago. Aí, disseram: “também podemos saber que doutrina nova é essa que ensinas? Porque tu trazes algo novo para os nossos ouvidos; por isso, gostaríamos muito de saber o que é.”.

 

Estás a imaginar isto, Sofia? Aparece um judeu na ágora de Atenas e fala acerca de um redentor que foi crucificado e que ressuscitou dos mortos. Já durante a visita de Paulo a Atenas podemos ter uma idéia do choque entre a filosofia grega e a doutrina cristã da salvação.

 

Mas Paulo conseguiu ser ouvido pelos atenienses. Enquanto está no Areópago — entre os imponentes templos da Acrópole — faz o seguinte discurso:

 

“Atenienses”, começa, “eu vejo que sois em todos os aspectos muito religiosos. Indo a passar, vi os vossos cultos e encontrei um altar sobre o qual estava escrito:

 

Ao Deus desconhecido. Agora, anuncio-vos aquele ao qual prestais culto sem saber. Deus, que fez o mundo e tudo o que nele há, uma vez que é o senhor do céu e da terra, não habita nos templos feitos pelos homens. Também não é servido pelas mãos dos homens, como se precisasse de alguém, ele que dá a todos a vida e o alento por toda a parte.

 

E de um só fez todo o gênero humano, para que habitasse em toda a face da terra, e colocou o limite para o tempo e o lugar da habitação; para que busquem o Senhor como que às apalpadelas. E na verdade, ele não está longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos; como também disseram alguns dos vossos poetas: nós somos da sua linhagem.

 

Sendo nós da linhagem de Deus, não devemos pensar que a divindade é igual às imagens douradas, prateadas e de pedra feitas pela arte dos homens. E na verdade, Deus não teve em conta o tempo da ignorância; mas ordena a todos os homens, por toda a parte, que façam penitência, porque ele estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça através de um homem que escolheu e no qual todos têm fé, depois de o ter ressuscitado dos mortos.”

 

Paulo em Atenas, Sofia.

 

Estamos a falar de como o cristianismo se infiltra progressivamente no mundo greco-romano, como algo diferente, muito diferente da filosofia epicurista, estóica ou neoplatônica. Porém, Paulo encontra nesta cultura um apoio sólido. Diz que a busca de Deus está presente em todos os homens, o que não era uma coisa nova para os gregos. O que Paulo anuncia de novo é que Deus se revelou aos homens e que foi verdadeiramente ao seu encontro.

 

Não é apenas um “Deus filosófico” ao qual os homens podem aspirar com a razão.

 

Também não se assemelha a nenhuma imagem de “ouro, prata ou pedra” — já era suficiente o que havia na Acrópole e na ágora. Mas Deus “não habita em templos feitospelos homens”. É um Deus pessoal que intervém na história e morre na cruz pelos homens.

 

Depois de Paulo ter feito o seu discurso no Areópago, os Atos dos Apóstolos contam que alguns fizeram troça dele por ele ter contado que Cristo tinha ressuscitado dos mortos. Mas alguns ouvintes afirmaram também:

 

“Queremos que nos voltes a falar disso.” Outros juntaram-se, por fim, a ele e tornaram-se cristãos. Entre estes estava uma mulher, “Damaris”, e devemos reparar nisso. Nessa altura, houve muitas mulheres que se converteram ao cristianismo.

 

Paulo prosseguiu a sua atividade missionária. Poucas décadas depois da morte de Cristo existiam comunidades cristãs em todas as cidades gregas e romanas mais importantes — em Atenas, Roma, Alexandria, Éfeso, Corinto. No decorrer de três, quatro séculos, todo o mundo greco-romano estava cristianizado.