O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 17 de 83

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O Mundo de Sofia

“A teoria atomista”

Quando a sua mãe chegou a casa e viu a casa de bonecas de Sofia, disse de imediato:

 

— Que bom ver que ainda consegues brincar como uma criança!

 

— Bah! Eu estou a trabalhar em investigações filosóficas complexas.

 

A mãe suspirou profundamente. Estava certamente a pensar no coelho e na cartola. Quando Sofia regressou da escola no dia seguinte, encontrou um grande envelope amarelo com muitas folhas. Foi para o seu quarto. Queria ler tudo imediatamente, mas nesse dia também queria ter a caixa do correio debaixo de olho.

 

“A teoria atomista”

 

Aqui estou de novo, Sofia. Hoje vou falar sobre o último grande filósofo da natureza. Chamava-se Demócrito (aproximadamente 460-370 a.C.) e vinha da cidade portuária de Abdera, a norte do Mar Egeu. Se conseguiste responder à pergunta acerca das peças do Lego, não te será difícil compreender o projeto deste filósofo.

Demócrito concordava com os seus predecessores ao afirmar que as transformações observáveis na natureza não significavam que algo se alterasse realmente. Admitiu, portanto, que tudo tinha de ser composto de elementos pequenos e invisíveis, eternos e imutáveis. Demócrito designava estas pequenas partículas por átomos.

 

O termo “átomo” significa “indivisível”. Para Demócrito, era fundamental afirmar que aquilo a partir do qual tudo é formado não pode ser dividido em partes cada vez menores. Se os átomos pudessem ser constantemente divididos em partes cada vez menores, a natureza teria começado a fluir como uma sopa cada vez mais líquida.

 

Os elementos constitutivos da natureza tinham ainda de se conservar eternamente — porque nada pode nascer do nada. Nisto, Demócrito estava de acordo com Parmênides e os eleatas. Além disso, os átomos eram sólidos e compactos. Mas não podiam ser iguais. Porque se os átomos fossem iguais, não teríamos uma explicação válida para o fato de poderem ser combinados de modo a formarem tudo, desde papoulas e oliveiras à pele de cabra e cabelo humano.

 

Existe uma quantidade infinita de átomos diferentes na natureza segundo Demócrito. Alguns são redondos e lisos, outros são irregulares e curvos. E precisamente porque têm formas tão diversas, podem ser combinados para formarem corpos completamente diversos. Mesmo sendo numerosos e diferentes, todos são eternos, imutáveis e indivisíveis.

 

Quando um corpo — por exemplo, uma árvore ou um animal — morre e entra em decomposição, os seus átomos dispersam-se e podem ser utilizados de novo em novos corpos. Os átomos movem-se no espaço vazio e agregam-se para formar as coisas que vemos à nossa volta.

 

E agora já percebes o que eu queria dizer com as peças do Lego? Elas possuem mais ou menos as propriedades que Demócrito atribuiu aos átomos, e precisamente por isso se pode construir tão bem com elas. Em primeiro lugar, são indivisíveis. São diferentes em forma e em tamanho, são sólidas e impenetráveis.

 

Além disso, as peças do Lego têm “ganchos”, com os quais podem ser encaixadas umas nas outras; por isso podem ser transformadas em todas as figuras possíveis.

 

Esta combinação pode ser mais tarde desfeita e depois construírem-se novos objetos a partir das mesmas peças.

 

E foi justamente o fato de poderem ser sempre usadas de novo que tornou o Lego tão popular. Uma e a mesma peça de Lego pode fazer hoje parte de um carro, e amanhã de um palácio. Além disso, é possível dizer que as peças do Lego são “imortais”. As crianças de hoje podem brincar com as mesmas peças com que os seus pais brincaram quando ainda eram pequenos.

 

É claro que também podemos construir objetos de barro. Mas o barro nem sempre pode ser reaproveitado, pois se desfaz em partes cada vez menores, até se reduzir a pó. E estas minúsculas partículas de argila não podem ser reunidas para formar novos objetos.

 

Hoje, podemos quase afirmar que a teoria de Demócrito estava certa. A natureza é de fato formada por diversos átomos, que se combinam uns com os outros e se separam de ovo. Um átomo de hidrogênio que está numa célula na extremidade do meu nariz pertenceu, outrora, à tromba de um elefante. Um átomo de carbono do meu miocárdio esteve já na cauda de um dinossauro.

Hoje em dia, a ciência descobriu que os átomos se dividiam em “partículas elementares” ainda menores. A essas partículas elementares chamamos prótons, nêutrons e elétrons. E talvez estas se deixem dividir em partículas ainda menores. Mas os físicos concordam em afirmar que tem de haver um limite. Têm de existir as partículas menores a partir das quais a natureza é formada.

 

Demócrito não tinha acesso aos aparelhos eletrônicos do nosso tempo. O seu único instrumento era a razão. Mas a razão não lhe deixava nenhuma alternativa. Se aceitarmos que nada se pode alterar, que nada surge do nada e que nada desaparece, nesse caso a natureza tem de ser formada por elementos constitutivos minúsculos que se combinam e se separam uns dos outros.

 

Demócrito não tinha em conta uma “força” ou um “espírito” que interviesse nos processos naturais. As únicas coisas que existem, segundo ele, são os átomos e o espaço vazio. Dado que ele só acreditava no que é “material”, denominamo-lo materialista.

 

Nos movimentos dos átomos não há uma finalidade consciente. Isso não significa que tudo o que acontece seja ao “acaso”, porque tudo segue as leis constantes da natureza. Demócrito achava que tudo o que acontece tem uma causa natural, uma causa que reside nas próprias coisas. Teria dito um dia que preferia descobrir uma lei da natureza a tornar-se rei da Pérsia.

 

Segundo Demócrito, a teoria atomista esclarecia também as nossas “sensações”. A percepção que temos de alguma coisa deve-se ao movimento dos átomos no vazio. Quando vejo a lua, o que acontece é que os “átomos lunares” atingem o meu olho.

 

E a “alma”? Não pode ser constituída por átomos, por “coisas” materiais? Para Demócrito a alma era constituída por “átomos de alma” redondos e lisos. Quando um homem morre, os átomos da alma dispersam-se em todas as direções e podem dar vida a outra alma.

Isto significa que o homem não possui uma alma imortal.

 

Este é um pensamento partilhado hoje por muitas pessoas. Acreditam, como Demócrito, que a alma está ligada ao cérebro, e que não podemos ter nenhuma forma de consciência quando o cérebro se decompõe.

 

Com a sua teoria atomista, Demócrito pôs um ponto final provisório na filosofia da natureza grega. Estava de acordo com Heráclito quando pensava que, na natureza, tudo flui; porque as formas vêm e vão. Mas por detrás de tudo o que flui, há algo eterno e imutável que não flui: os átomos, segundo Demócrito.

 

Durante a leitura, Sofia espreitava freqüentemente pela janela para verificar se o misterioso autor das cartas aparecia junto à caixa do correio. Nesse momento, olhava fixamente para a rua, enquanto refletia sobre o que tinha lido.

 

Segundo Sofia, Demócrito pensara de um modo simples e genial. Ele encontrara a solução para os problemas do “elemento primordial” e do “devir”. Esta questão era tão complicada que os filósofos tinham trabalhado muito nela durante várias gerações.

 

Por fim, Demócrito resolvera todo o problema, tendo usado simplesmente a sua razão.

Sofia quase se riu. Tinha de ser verdade que a natureza era formada por partículas minúsculas que nunca se alteravam. Ao mesmo tempo, Heráclito tinha razão em afirmar que todas as formas na natureza “fluem”, porque todos os homens e animais morrem, e mesmo uma montanha se desagrega lentamente. No entanto essa montanha é constituída por partículas pequenas e indivisíveis que nunca se quebram.

 

Demócrito colocara novas questões. Por exemplo, afirmara que tudo acontece de uma forma mecânica. Não aceitava a idéia de forças espirituais na existência — ao contrário de Empédocles e Anaxágoras.

 

Além disso, Demócrito não acreditava que o homem tivesse uma alma imortal.

 

Poderia ela ter a certeza de que ele tinha razão nesse aspecto?

 

Não estava tão segura disso. Mas ela também estava apenas no início do seu curso de filosofia.