O Mundo de Sofia

Jostein Gaarder · Capítulo 74 de 83

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O Mundo de Sofia

Capítulo XXVII: Hegel

 

 

...o que é racional é real...

 

Hilde deixou cair o grande “dossiê” no chão com um estampido. Ficou deitada na cama e a olhar fixamente para o teto. Tudo parecia andar à roda. O seu pai tinha conseguido efetivamente que ela ficasse tonta. Que pirata!

 

Como é que ele podia fazer isto? Sofia tinha tentado falar diretamente com ela. Exortara Hilde a rebelar-se contra o pai. E tinha realmente conseguido inculcar uma idéia em Hilde. Um plano...

 

Sofia e Alberto não podiam tocar num cabelo do seu pai, isso era claro. Mas Hilde podia! E através de Hilde, Sofia também. Hilde estava de acordo com Sofia e Alberto no fato de o seu pai ter ido longe demais com o jogo das sombras. Apesar de ter concebido Sofia e Alberto, havia limites para a demonstração do seu poder.

 

Pobre Sofia, pobre Alberto! Estavam tão indefesos em relação à fantasia do pai de Hilde como uma tela está indefesa em relação ao projecionista. Hilde queria dar-lhe uma bronca quando ele chegasse a casa. Em contornos nítidos, ela via nesse mesmo instante o esboço de um golpe astuto. Foi para a janela e olhou para a enseada. Eram quase duas horas. Abriu a janela e gritou em direção ao barracão dos barcos: — Mãe! Pouco depois, a mãe apareceu.

 

— Daqui a uma hora levo-te umas sanduíches. Está tudo bem?

 

— Sim.

 

— Ainda tenho que ler um pouco sobre Hegel.

 

Sofia e Alberto sentaram-se na poltrona em frente à janela que dava para o pequeno lago.

 

— “Georg Wilhelm Friedrich Hegel” era um verdadeiro filho do Romantismo — começou Alberto. — Quase podes dizer que ele seguiu fielmente o desenvolvimento do espírito alemão. Nasceu em Estugarda em 1770 e iniciou um curso de teologia em Tubinga com dezoito anos. A partir de 1799 trabalhou com Schelling em Iena, onde o movimento romântico estava no apogeu. Depois de ter sido docente em Iena, recebeu uma cátedra em Heidelberg — o centro do Romantismo nacional alemão. Finalmente, tornou-se professor em Berlim em 1818 — exatamente na época em que esta cidade começava a tornar-se um centro espiritual da Europa. Em Novembro de 1831, morreu de cólera, mas nessa altura o “hegelianismo” já tinha grupos de discípulos em quase todas as universidades alemãs.

 

— Então ele apanhou o principal.

 

— Sim, e isso também é válido para a sua filosofia. Hegel uniu nela quase todas as idéias que se tinham desenvolvido com os românticos e sintetizou-as. Mas ele era também um forte crítico da filosofia de Schelling, por exemplo.

 

— O que é que criticou nela?

 

— Schelling e os outros românticos tinham visto o mais profundo fundamento da realidade no chamado espírito do mundo. Hegel também emprega o conceito “Weltgeist”, mas dá-lhe outro significado.

 

Quando Hegel fala de espírito do mundo ou de “razão do mundo”, quer dizer a soma de todas as manifestações humanas, pois só o homem tem espírito. Nesta acepção, ele também fala do percurso do espírito do mundo através da história. Não podemos esquecer que ele fala da vida, dos pensamentos e da cultura dos homens.

 

— Então este espírito é menos assustador. Já não está à espreita como uma inteligência adormecida em pedras e árvores.

— E tu sabes ainda que Kant tinha falado da “coisa em si”. Apesar de negar que os homens pudessem ter um conhecimento claro dos segredos mais íntimos da natureza, ele apontou para uma espécie de verdade inatingível. Segundo Hegel, esta verdade era fundamental-mente subjetiva — e negou que pudesse haver uma verdade acima ou além da razão humana. Todo o conhecimento é conhecimento humano.

 

— Ele queria trazer a filosofia de volta à terra?

 

— Sim, talvez possas dizer isso. Mas a filosofia de Hegel é tão abrangente e diversificada que temos de nos contentar por agora com a clarificação de alguns dos pontos mais importantes. É difícil dizermos que Hegel tinha uma filosofia própria. Aquilo a que chamamos a filosofia de Hegel é principalmente um método para compreender a evolução da história. Por isso, quase não podemos falar sobre Hegel sem mencionarmos a evolução da história. A filosofia de Hegel não nos ensina realmente nada sobre a “natureza profunda da vida”, mas pode ensinar-nos a pensar de um modo frutífero.

 

— E isso também é muito importante.

 

— Todos os sistemas filosóficos anteriores a Hegel tinham tentado estabelecer critérios eternos para aquilo que o homem pode saber acerca do mundo. Isso sucede em Descartes e Espinosa, Hume e Kant. Qualquer deles queria investigar qual era o fundamento de todo o conhecimento humano. Mas todos tinham falado sobre os pressupostos intemporais para o conhecimento do mundo.

 

— Não é esse o dever do filósofo?

— Hegel achava impossível encontrar esses pressupostos intemporais. Segundo ele, as bases do conhecimento humano mudam de geração para geração. Por isso, também não há para ele “verdades eternas”. Não há razão intemporal. O único ponto fixo em que o filósofo se pode basear é a própria história.

 

— Não, tens de me explicar isso. A história altera-se constantemente, como é que pode ser um ponto fixo?

 

— Um rio também se altera constantemente. Mas isso não significa que não possas falar sobre esse rio. Mas não podes perguntar em que parte do vale o rio é mais verdadeiro.

 

— Não, porque o rio é em toda a parte igualmente rio.

 

— Para Hegel, a história era como o curso de um rio. O menor movimento na água num ponto determinado do rio é na realidade determinado pela queda da água e pela agitação da água mais acima. Mas também é importante que pedras e curvas há no rio no ponto em que tu estás e o observas.

 

— Acho que estou a perceber.

 

— A história do pensamento — ou da razão — é como o curso desse rio. Contém todas as idéias que gerações de pessoas pensaram antes de ti e que determinam o teu pensamento do mesmo modo que as condições de vida da tua época. Por isso, não podes afirmar que uma determinada idéia é eternamente verdadeira. Mas essa idéia pode ser verdadeira onde tu estás.

 

— Mas isso não significa que tudo é falso — ou que tudo é verdadeiro, pois não?

 

— Não, uma coisa só pode ser verdadeira ou falsa em relação a um contexto histórico. Se argumentas a favor da escravatura no ano de 1990 tornas-te ridícula, na melhor das hipóteses. Há dois mil e quinhentos anos não era tão ridículo, apesar de já nessa época haver vozes progressistas que defendiam a abolição da escravatura. Mas podemos tomar um exemplo mais próximo. Há apenas cem anos ainda não era irracional queimar extensas áreas de floresta para se obter terreno arável. Mas hoje é extremamente irracional. Nós temos condições completamente diferentes — e melhores — para julgarmos.

 

— Agora compreendi.

 

— Também a razão, diz Hegel, é algo dinâmico, é um processo. E a “verdade” é apenas este processo. Não há critérios exteriores ao processo histórico que possam decidir o que é mais verdadeiro ou racional.

 

— Exemplos, por favor.

 

— Não podes examinar diversas idéias da Antiguidade ou da Idade Média, do Renascimento ou do Iluminismo e dizer que isto estava certo e aquilo errado. Por isso, também não podes dizer que Platão estava errado ou que Aristóteles tinha razão. Também não podes dizer que Hume estava errado enquanto Kant ou Schelling tinham razão. Isso é um modo de pensar anti-histórico.

 

— Pois, não me parece bem.

 

— Não podes arrancar nenhuma filosofia nem nenhuma idéia do seu contexto histórico. Mas, e agora estou a falar de um aspecto novo, uma vez que os homens compreendem sempre coisas novas, a razão é “progressiva”. Significa que o conhecimento humano está constantemente em expansão e em progresso.

 

— Assim, a filosofia de Kant seria um pouco mais correta do que a de Platão?

 

— Sim. O “espírito do mundo” desenvolveu-se no tempo que medeia entre Platão e Kant. Se regressarmos à nossa imagem do rio podes dizer que agora leva mais água. Entre as duas épocas passaram mais de dois mil anos. Kant não pode pretender que as suas “verdades” fiquem na margem como pedras imóveis. As suas idéias também não são a última conclusão da sabedoria e a geração seguinte criticá-las-ia seriamente. Foi exatamente o que se passou.

 

— Mas este rio do qual estás a falar...

 

— Sim?

 

— Para onde corre?

— Hegel explicou que o espírito tem cada vez mais consciência de si mesmo. Os rios são cada vez mais largos quanto mais se aproximam do mar. Segundo Hegel, na história, o espírito do mundo desperta lentamente para a consciência de si mesmo. O mundo existiu sempre, mas, através da cultura e do desenvolvimento do homem, o espírito fica cada vez mais consciente do seu valor intrínseco.

 

— Como é que ele podia ter tanta certeza disso?

 

— Para ele era uma realidade histórica, não era de modo algum uma mera profecia. Para quem estuda a história, segundo ele, torna-se claro que a humanidade caminha em direção a um autoconhecimento e a um autodesenvolvimento cada vez maiores. A história mostra um inequívoco desenvolvimento no sentido de uma racionalidade e liberdade progressivamente maiores. Naturalmente, tem todo o tipo de hesitações, mas em geral avança de modo imparável. Para Hegel, a história dirige-se a um fim.

 

— Então estamos sempre a desenvolver-nos. Que bom, nesse caso ainda há esperança.

 

— A história é para Hegel uma longa cadeia de pensamentos, cujos elos não se ajustam ao acaso, mas segundo leis determinadas. Quem estuda a história pormenorizadamente há de reparar que geralmente uma nova idéia é exposta com base noutra anteriormente expressa. Mas se uma nova idéia é apresentada, será forçosamente contestada por outra nova idéia. Deste modo, surgem duas formas de pensar opostas e entre elas uma tensão. Esta tensão é superada quando uma terceira idéia que preserva o melhor dos dois pontos de vista precedentes é apresentada. Hegel chama a isto o processo “dialético”.

— Tens um exemplo?

 

— Talvez ainda te lembres que os pré-socráticos tinham discutido a questão do elemento primordial e do devir.

 

— Sim.

 

— E os eleatas declararam que qualquer transformação era impossível. Por isso, tinham de negar todas as alterações, mesmo que as sentissem com os sentidos. Os eleatas tinham exposto uma perspectiva, e Hegel chama a essa perspectiva uma “tese”.

 

— Sim?

 

— Mas cada vez que uma perspectiva é apresentada, surge uma perspectiva contrária. Hegel chama-lhe “negação”. A negação da filosofia dos eleatas era a filosofia de Heráclito, que afirmava que “tudo flui”. Surgiu então uma tensão entre duas formas de pensar diametralmente opostas. Mas esta tensão foi “suprimida” quando Empédocles afirmou que ambos estavam parcialmente certos e parcialmente errados.

 

— Sim, começo a compreender...

 

— Os eleatas tinham razão em dizer que por princípio nada se altera; mas não era verdade que não podemos confiar nos nossos sentidos. Heráclito tinha razão ao dizer que podemos confiar nos nossos sentidos; mas não tinha razão ao dizer que “tudo” flui.

 

— Porque existe mais do que um elemento primordial. A composição altera-se, mas os elementos não.

 

— Exato. O ponto de vista de Empédocles, que medeia entre os pontos de vista opostos, é designado por Hegel a “negação da negação”.

 

— Meu Deus!

 

— Ele também chamava aos três estádios do conhecimento “tese, antítese” e “síntese”. Podes dizer que o racionalismo de Descartes é a tese — o qual foi depois criticado pela antítese empírica de Hume. Mas esta oposição, a tensão entre duas formas de pensamento opostas foi superada pela síntese de Kant. Kant deu razão por um lado aos racionalistas, por outro aos empiristas. Ele mostrou também que ambos estavam errados em pontos importantes. Mas a história não termina com Kant. A síntese de Kant tornou-se o ponto de partida para uma nova cadeia de pensamentos tripartida ou “tríade”. Porque a síntese também se torna tese e segue-se uma nova antítese.

 

— Mas isso é extremamente teórico.

 

— Sim, é teórico. Mesmo que isto pareça verdade, Hegel não queria de modo algum espartilhar a história num esquema. Ele achava poder retirar este modelo dialético da própria história. Estava fortemente convicto de ter encontrado leis para o desenvolvimento da razão — ou para a evolução do espírito através da história.

 

— Compreendo.

 

— Mas a dialética de Hegel não se aplica apenas à história. Mesmo quando discutimos — ou debatemos — pensamos dialeticamente. Tentamos detectar os erros de uma forma de pensar. Hegel chamou-lhe “pensamento negativo”. Mas quando tivermos descoberto os erros de uma forma de pensar conservamos ainda o que estava correto nela.

 

— Exemplos, por favor!

 

— Quando um socialista e um conservador se reúnem para resolver um problema social, será logo patente uma tensão entre ambas as maneiras de pensar. Mas isso não quer dizer que um tem toda a razão e o outro está completamente errado. É perfeitamente pensável que ambos estejam parcialmente certos e parcialmente errados. No decurso da discussão conservar-se-ão, se eles são inteligentes, os melhores argumentos de ambos os lados.

 

— Esperemos que sim.

 

— Se estamos no meio de uma discussão destas, infelizmente nem sempre é fácil verificar o que é mais racional. No fundo, é a história que tem de mostrar o que é verdadeiro e o que é falso. O que é racional é real, segundo Hegel.

— Isso quer dizer que o que sobrevive está certo?

 

— Ou ao contrário: o que está certo sobrevive.

 

— Não tens um pequeno exemplo? Isso parece tudo tão abstrato.

 

— Há cento e cinqüenta anos muitos lutavam pela igualdade de direitos para as mulheres. E muitos lutavam encarniçadamente contra a igualdade. Se hoje examinarmos os argumentos de ambos os lados, não é difícil reconhecer quais eram os mais racionais. Mas não podemos esquecer que posteriormente sabemos sempre mais. Provou-se que aqueles que lutaram pela igualdade de direitos tinham razão. Muitas pessoas teriam certamente vergonha se tivessem de ler o que o seu avô disse acerca deste tema.

 

— Sim, percebo. O que é que Hegel achava?

 

— Sobre a igualdade?

 

— Sim, não é disso que estamos a falar?

 

— Queres ouvir uma citação?

— Sim.

 

— “A diferença entre homem e mulher é a mesma que entre o animal e a planta” — escreveu ele. “O animal corresponde mais ao caráter do homem, a planta mais ao da mulher, pois o seu desenvolvimento é mais tranqüilo, e o princípio que lhe está subjacente é principalmente a unidade indeterminada do sentimento. Se as mulheres estão no topo do poder, o governo está em perigo, porque elas não agem de acordo com as exigências da universalidade, mas de acordo com uma inclinação e opinião arbitrárias. A formação das mulheres dá-se, por assim dizer, na atmosfera da imaginação, mais através da vida do que da aquisição de conhecimentos. Enquanto o homem atinge o seu lugar apenas através da aquisição das idéias e de muito empenho técnico.”

 

— Obrigada, já chega. Prefiro não ouvir mais citações dessas.

 

— Mas a citação é um exemplo brilhante de que a nossa noção do que é “racional” se altera constantemente. Mostra também que Hegel era um filho do seu tempo — tal como nós. Muito do que nos parece hoje “evidente” não passará o teste da história.

 

— Tens um exemplo?

 

— Não, não tenho.

 

— Porque não?

— Porque eu apenas poderia falar do que já está em vias de transformação. Eu não poderia, por exemplo, dizer que andar de carro será tido um dia como algo terrivelmente estúpido porque destrói a natureza. Hoje, já muita gente pensa assim. Por isso, seria um mau exemplo. Mas a história vai mostrar que muito do que todos nós temos por evidente não passará o teste da história.

 

— Compreendo.

 

— E podemos reparar ainda noutra coisa: o fato de os homens no tempo de Hegel fazerem estas afirmações extremas sobre a inferioridade da mulher apenas acelerou o desenvolvimento do feminismo.

 

— Como assim?

 

— Os homens apresentaram — como teria dito Hegel — uma tese. A razão pela qual eles achavam isso importante era obviamente o fato de as mulheres já terem começado a insurgir-se. Não é preciso ter uma opinião tão decidida sobre uma coisa com a qual todos estão de acordo. Quanto mais eles discriminavam as mulheres, mais forte se tornava a antítese ou negação.

 

— Acho que estou a compreender.

 

— Podes dizer que adversários enérgicos são o melhor que pode acontecer a uma idéia. Quanto mais extremistas melhor, porque mais forte será a reação a que terão de fazer face. Sob o ponto de vista puramente lógico ou filosófico existe também uma tensão dialética entre dois conceitos.

 

— Exemplos, por favor!

 

— Quando reflito sobre o conceito “ser”, tenho também que introduzir o conceito oposto “não-ser”. É impossível pensarmos que existimos sem nos lembrarmos em seguida que não existiremos sempre. A tensão entre “ser” e “não-ser” é resolvida no conceito “devir”. O processo do devir significa de certo modo que uma coisa é e não é.

 

— Compreendo.

 

— A razão de Hegel é uma razão dinâmica. Uma vez que a realidade é caracterizada por antíteses, uma descrição da realidade também tem que ser contraditória. Vou dar-te um exemplo: diz-se que o físico dinamarquês “Niels Bohr” pendurou uma ferradura sobre a porta da sua casa.

 

— Diz-se que traz sorte.

 

— Mas isso é apenas superstição, e Niels Bohr era de fato tudo menos supersticioso. Quando, certa vez, um amigo o visitou, perguntou-lhe: — “Não acreditas numa coisa dessas, pois não?”. “Não”, respondeu Niels Bohr, “mas disseram-me que funciona”.

— Não tenho palavras. — A resposta foi bastante dialética; alguns diriam que é contraditória. Niels Bobr era conhecido, bem como o poeta norueguês Vinje, por uma visão dialética do mundo. Ele afirmou certa vez que existem dois tipos de verdade, as superficiais, cuja antítese era incontestavelmente falsa, mas também as profundas, cuja antítese era tão verdadeira como elas próprias.

 

— Que tipo de verdades eram essas?

 

— Se, por exemplo, digo que a vida é curta...

 

— Eu estou de acordo.

 

— Numa outra ocasião posso abrir os braços e dizer que a vida é longa. — Tens razão. De certo modo, também é verdade.

 

— Para terminar vou dar-te ainda um exemplo de como uma tensão dialética pode provocar uma ação espontânea que leva a uma mudança súbita.

 

— Diz!

 

— Imagina uma moça que diz sempre: “Sim, Mamãe”, “Claro, Mamãe”, “Como queiras, Mamãe”, “Sim, vou já fazer isso, Mamãe!”.

— Sinto um calafrio nas costas.

 

— Certo dia, a mãe irrita-se por a filha ser sempre tão obediente e grita enervada: “Não sejas tão obediente!”, e a filha responde: “Sim, Mamãe!”

 

— Nesse caso, eu dava-lhe uma bofetada.

 

— É, não é? Mas o que farias se ela tivesse respondido: “Não, eu quero ser obediente”.

 

— Seria uma resposta estranha. Talvez lhe desse à mesma uma bofetada.

 

— Por outras palavras, estamos num impasse. A tensão dialética agravou-se tanto que tem de haver uma mudança.

 

— Referes-te à bofetada?

 

— Temos de mencionar ainda um último aspecto da filosofia de Hegel.

— Sou toda ouvidos.

 

— Lembras-te que Caracterizamos os românticos como individualistas?

 

— O caminho misterioso conduz ao interior.

 

— Justamente este individualismo encontrava na filosofia de Hegel a sua “negação”. Hegel dava um grande peso àquilo a que chamava “poderes objetivos”, isto é, a família e o Estado. Podes dizer que Hegel não perdeu o indivíduo de vista; apenas o via principalmente como um elemento orgânico da comunidade. A razão, ou o espírito, são visíveis principalmente na colaboração entre homens, segundo Hegel.

 

— Explica-te!

 

— A razão manifesta-se principalmente na língua. E a língua é algo no qual nascemos. A língua norueguesa passa bem sem o senhor Hansen, mas o senhor Hansen não pode viver sem a língua norueguesa. Não é o indivíduo que forma a língua, mas a língua que forma o indivíduo.

 

— Sim, podes dizer isso.

— Assim como o indivíduo nasce numa língua, também nasce no seu contexto histórico. E ninguém tem uma relação “livre” com esse contexto. Quem não encontra o seu lugar no Estado é uma pessoa anti-histórica. Talvez te lembres ainda que esta idéia também era importante para os grandes filósofos de Atenas. O Estado é tão inconcebível sem cidadãos como os cidadãos sem o Estado.

 

— Compreendo.

 

— Para Hegel, o Estado é “mais” do que o cidadão individual. E é mais do que a soma de todos os cidadãos. Hegel acha impossível que alguém se despeça, por assim dizer, da sociedade. Quem encolhe os ombros em relação à sociedade em que vive e prefere “encontrar-se a si mesmo” é, segundo ele, um louco.

 

— Não sei se estou de acordo, mas está bem.

 

— Para Hegel, não é o indivíduo que se encontra a si mesmo, mas o espírito.

 

— O espírito encontra-se a si mesmo?

 

— Hegel tentou mostrar que o espírito regressa a si em três estádios, ou seja, torna-se consciente de si mesmo em três estádios.

— Continua!

 

— Em primeiro lugar, o espírito toma consciência de si no indivíduo, o que Hegel designa “espírito subjetivo”.

 

O espírito atinge uma consciência mais elevada de si na família, na sociedade, e no Estado, que Hegel designa por “espírito objetivo”, porque é uma razão que se manifesta na interação entre os homens. Mas há ainda um terceiro estádio...

 

— Estou ansiosa.

 

— A forma mais elevada de autoconhecimento é atingida pelo espírito no “espírito absoluto”. E este espírito absoluto é a arte, a religião e a filosofia. Dentre estas, a filosofia é a forma mais elevada da razão, pois na filosofia o espírito reflete sobre o seu papel na história. Só na filosofia é que o espírito se encontra a si mesmo. Deste ponto de vista, poderíamos dizer que a filosofia é o espelho do espírito.

 

— Isso parece tão misterioso que tenho que assimilá-lo com calma. Mas a última coisa que disseste agradou-me.

 

— Eu disse que a filosofia é o espelho do espírito.

— Isso é bonito. Achas que isso tem alguma coisa a ver com o espelho de latão?

 

— Sim, já que perguntas.

 

— O que queres dizer com isso?

 

— Eu penso que este espelho de latão tem uma importância especial, uma vez que está sempre a vir à baila.

 

— Então também tens uma idéia de qual é a importância dele?

 

— Não, não. Eu apenas disse que o espelho não seria mencionado tantas vezes se não tivesse uma importância especial para Hilde e o seu pai. Mas só Hilde pode revelar qual é a sua importância.

 

— Isto foi ironia romântica?

 

— É uma pergunta sem esperança, Sofia.

— Por que?

 

— Nós não podemos ser irônicos. Somos vítimas indefesas dessa ironia. Quando uma criança desenha alguma coisa numa folha de papel, não podes perguntar ao papel o que representa o desenho.

 

— Deixas-me arrepiada.