O Papa e Mussolini
Capítulo quatro
NASCIDO PARA COMANDAR
Na primavera de 1923, o Partido Popular estava numa posição insustentável. Acima de tudo, dependia do apoio da Santa Sé, mas Pio XI tinha decidido deixar de apoiá-lo. Em abril, por instrução papal, o jornal diário do Vaticano disse aos seus leitores que, devido aos esforços de Mussolini em favor da Igreja, não havia mais necessidade de um partido católico. No fim do mês, La Civiltà Cattolica adotou a nova linha do papa, cantando loas ao governo fascista. “Os berros dos pelotões de Mussolini, ‘abaixo o bolchevismo!’, estão atraindo adeptos e simpatia de uma ponta à outra da Itália (...) No pensamento, no sentimento e na ação, o fascismo consiste simplesmente em protesto e revolta contra o socialismo”, declarou a revista, entusiasmada. A publicação também elogiou Mussolini por seus esforços para restaurar a ordem, a hierarquia e a disciplina. “O fascismo procura colocar os valores espirituais de volta no lugar de honra que já ocuparam, como requer em especial a batalha contra o liberalismo, e restaurar os mais evidentes deles: a criação religiosa e a inspiração
católica do país”, proclamou em suas páginas.1 Animado por esses sinais de que o papa achava a organização política católica dispensável, Mussolini lhe deu um ultimato: ou o Partido Popular lhe dava apoio incondicional, ou ele demitiria os dois ministros católicos de seu governo e expulsaria o partido de sua coligação. Quando o fundador do partido, Don Luigi Sturzo, e seus colegas recusaram a proposta, os ministros
foram obrigados a abandonar seus cargos. 2
Pio passou a achar intolerável que Don Sturzo continuasse a servir como líder do Partido Popular. O jornal católico de Roma, Corriere d’Italia, publicou um apelo de um prelado próximo do papa solicitando ao padre que renunciasse. Os leitores entenderam que o pedido vinha do
próprio pontífice.3
Nos bastidores, Pio de fato exigia a renúncia de Sturzo, mas o padre demorou a obedecer. Impaciente com a lentidão, o papa mandou que Tacchi Venturi, seu representante especial junto a Mussolini, conversasse
com o fundador do Partido Popular.4 Sturzo advertiu que, ao forçar sua saída, o pontífice estaria enfraquecendo o único partido “que é verdadeiramente inspirado por princípios cristãos de vida civil e (...) hoje serve para limitar (...) o governo arbitrário da ditadura”. A súplica não
comoveu Pio XI nem um pouco. 5
Apesar de relutante, Don Sturzo concordou em obedecer à ordem papal. O pontífice encarregou Tacchi Venturi de discutir com Mussolini o momento certo de fazer o anúncio público e convencê-lo a minimizar a repercussão da notícia na imprensa. O papa disse que o governo não
deveria “alardear vitória” em hipótese alguma.6 Nas vinte e quatro horas seguintes, o jesuíta conferenciou estreitamente com Mussolini para
orquestrar o afastamento de Sturzo.7
Pio esperava que apaziguar Mussolini dessa maneira ajudasse a pôr fim à violência contra ativistas do Partido Popular e padres, mas sua ação surtiu o efeito contrário. Quando ficou claro que o papa havia retirado seu apoio ao partido católico, seus membros se viram cada vez mais isolados e sujeitos a depredações dos squadristi locais. No fim de agosto, um jornal fascista proclamou que o maior inimigo do regime não era mais o socialismo, mas o Partido Popular. Bandos fascistas logo saíram à caça.
Giovanni Minzoni era o jovem pároco de uma pequena cidade perto de Ferrara, cerca de cinquenta quilômetros a nordeste de Bolonha. Durante a guerra, ficara conhecido por sua coragem como capelão militar no front, e sua popularidade com a juventude da região e sua devoção ao Partido Popular atrapalhavam os esforços locais de recrutamento do Partido Fascista. Certa noite, quando seguia por um beco escuro a caminho do salão de lazer da paróquia, o padre percebeu que estava sendo seguido. Antes que pudesse voltar, dois homens saltaram em cima dele, deram-lhe porretadas na cabeça e fugiram. Sangrando muito, Minzoni conseguiu ficar de joelhos e caiu de novo. De alguma maneira, levantou e saiu cambaleando rumo à sua igreja, mas desmaiou antes de chegar. Paroquianos horrorizados encontraram-no esparramado no chão, o crânio esmagado, mas ainda vivo, e o levaram para dentro. À meia-noite o padre estava morto.
Como de costume, Mussolini atribuiu o ataque a “assassinos” desconhecidos, que seriam perseguidos de forma impiedosa e levados a julgamento. Mas, apesar de terem sido encontrados, os agressores nunca
foram punidos.8 O arcebispo de Ferrara preferiu não comparecer ao sepultamento de Minzoni, mandando um padre fascista em seu lugar. O jornal do Vaticano publicou uma breve nota sobre o assassinato,
comentando que o episódio havia entristecido o primeiro-ministro.9 Pio não tocou no assunto, aceitando a afirmação de Mussolini de que a
violência era obra de “idiotas” e “camaradas indisciplinados”.10
Em meados de agosto, durante a mais recente onda de violência, o embaixador belga na Santa Sé, Eugène Beyens, teve um encontro com o papa, que lhe pareceu mais preocupado com o perigo do comunismo do que com qualquer ameaça de violência fascista. “Nada é mais fatal para a civilização do que o comunismo. Em poucos dias, destrói a obra de séculos”, disse-lhe Pio. A única forma de deter o avanço do comunismo seria a formação de uma aliança entre a França, a Bélgica e a Alemanha, inimigas acirradas de um passado nem um pouco distante. “Mussolini não é nenhum Napoleão, nem sequer um Cavour”, comentou o papa, “mas só ele compreendeu o que era preciso para livrar o país da anarquia a que fora reduzido por um sistema parlamentar impotente e três anos de guerra.” E acrescentou: “Veja como ele conseguiu fazer com que o país o siga. Que ele reviva a Itália! São esses homens predestinados à grandeza que conseguem trazer a paz hoje ausente. Que Deus nos dê logo esses
guias, para que conduzam e iluminem a humanidade!” 11
* * *
MESMO NAQUELES PRIMEIROS anos, quando, sob o ponto de vista formal, era apenas o primeiro-ministro de um governo de coalizão, Mussolini procurava alimentar um culto à sua personalidade. Começou a aparecer com mais frequência trajando o uniforme de líder da milícia fascista, com
camisa negra e botas de cavalaria.12 A educação que recebera o levava a pensar que os esportes eram passatempo da elite, não de pessoas do seu nível social, mas passara a esquiar, esgrimir, dirigir carros de corrida, remar, cavalgar e jogar tênis. As lições de pilotagem haviam sofrido um revés em 1920, quando caíra com seu avião; por sorte, escapara apenas com ferimentos leves. Não era ruim como esgrimista, porém nunca foi um bom jogador de tênis, apesar de ter um campeão mundial como professor particular. Muitas fotos suas em estações de esqui mostram-no segurando bastões, mas sem camisa e até mesmo sem esquis, dando uma
ideia de como se sentia confiante no esporte. 13
Como a família tinha tendência a engordar, Mussolini receava o excesso de peso. Comia pouca carne, não bebia nada que tivesse álcool e verificava o peso todos os dias. Assustado com a cintura cada vez mais larga da irmã, tentava, com seu charme rude, convencê-la a fazer dieta, mas não parecia obter sucesso. “Vi as últimas fotos. Você está terrivelmente gorda. Precisa muito perder peso. Atenha-se ao essencial, como eu, porque a gordura não é apenas nociva, ela mata”, escreveu-lhe
em 1925.14 Preocupado com o cabelo, que ficava cada vez mais ralo e recuava na testa, passou a esfregar todo tipo de loção no couro cabeludo, checando nervosamente, todas as manhãs, se tinham surtido efeito. Anos depois, desistiu dessa batalha, raspando a cabeça para ficar parecido com
um imperador romano. 15
Quando Rachele o provocava sobre o seu hábito de borrifar grandes quantidades de água de colônia no rosto e no corpo todas as manhãs, ele respondia que um homem que não era atraente para as mulheres não
servia para nada. 16 Rachele e os três filhos não tinham ido com ele para Roma, e Benito não estava nem um pouco ansioso para tê-los ao seu lado. De início, hospedou-se no Hotel Savoia, depois no Grand Hotel. Margherita Sarfatti fixou residência no Hotel Continental, não muito longe dele. Quando Mussolini saiu furtivamente de seu apartamento para visitar a amante pela primeira vez, seu motorista alertou os seguranças. Não demorou para que mensageiros do hotel, que mais pareciam policiais disfarçados, rondassem os corredores do Continental, vigiando as furtivas
visitas de Mussolini.17
“Amado querido, meu amado!”, começava uma carta com o logotipo do Continental que Sarfatti lhe escreveu no ano-novo de 1923, dois meses depois que ele assumiu a chefia do governo. “Quero começar o ano escrevendo seu nome numa folha de papel; Benito, meu amor, meu amante, meu amado. Eu sou, grito para os telhados, eu me regozijo em ser, apaixonada, inteira, devotadamente sua.” Sempre que podia dar uma escapada, Mussolini ia ver Sarfatti na casa de veraneio dela, nas montanhas perto do lago de Como, ao norte de Milão. Ali faziam longos passeios, a pé ou a cavalo, seguidos discretamente pelos guarda-costas dele. As situações mais difíceis para a escolta policial do primeiro-ministro eram quando Mussolini, que adorava dirigir em alta velocidade, levava a amante e a filha de catorze anos dela para dar uma volta em seu Alfa
Romeo. 18
Margherita logo encontrou um apartamento para Mussolini em Roma, onde poderiam ter mais privacidade; ela lhe arranjou também uma governanta, Cesira Carocci. Mulher dura, de cabelos curtos, alta, magra e destituída de todas as graças sociais, a nova funcionária logo passou a ser chamada de la ruffiana, a alcoviteira. Ferozmente dedicada ao patrão, ajudava a organizar não só as visitas de Margherita, mas também as de outras mulheres.
Mussolini não gostava de luxo, e seu apartamento minúsculo não tinha sequer cozinha. A sala de estar, que visitantes descreviam como impregnada por um cheiro enjoativo de água de colônia barata, tinha uma mesa com os violinos do líder fascista. Na época em que Edda ainda era bebê, enquanto aguardava o carro que o levaria ao seu escritório, ele por vezes acionava sua pianola e tocava um acompanhamento de
violino. 19
Levando em conta o número de casos duradouros que Mussolini manteve, além do desfile de companhias casuais de uma noite — ou, mais exatamente, de uma tarde —, é incrível que não só achasse tempo para comandar o país, mas também insistisse em examinar os detalhes mais triviais do governo. Só confiava no irmão Arnaldo, que ficara encarregado do Il Popolo d’Italia e com quem falava todas as noites por telefone, e, um pouco menos, em Sarfatti. Examinava todo dia uma pilha enorme de relatórios policiais e políticos, encontrava-se com um grande número de pessoas e lia um monte de jornais. “Tenho o hábito de ler todos os jornais italianos, incluindo aqueles que não merecem ser lidos”,
disse ele a um deputado.20
Oriundos da elite aristocrática, ou, mais comumente, da elite profissional, os primeiros-ministros anteriores não tinham base eleitoral nas massas, não contavam com o respaldo de nenhum partido político real e tinham pouco ou nenhum interesse por popularidade. A ideia de viajar pelo país fazendo comícios públicos era algo que, se fosse sequer concebível, eles teriam achado de mau gosto.
Foi nesse cenário que entrou o antigo agitador socialista de Milão, o filho de ferreiro que se gabava das origens humildes, o homem que transpirava um apelo popular viril. Em pouco tempo, Mussolini passou a viajar de cidade em cidade — para lugares que nunca tinham visto um chefe de governo —, exortando as multidões curiosas com seus discursos lentos e hipnotizantes, proferidos em staccato. Estava se tornando um mestre em hipnose das multidões. O que ele percebeu, de uma forma que nenhum dos seus antecessores notara, foi que o povo era governado acima de tudo pela emoção, menos preocupado com o mundo externo do que com o universo simbólico que só Mussolini era capaz de criar.
Em Cremona, Mussolini usou aquela que se tornou uma das suas mais poderosas artimanhas retóricas, um pedido ritual de resposta da multidão.
— De quem é a vitória? — berrava ele.
— Nossa! — respondia a plateia. — De quem é a glória?
— Nossa!
— De quem é a Itália?
— Nossa! 21
De maio a outubro de 1923, Mussolini visitou cidades grandes e pequenas, de Veneza, Lombardia e Piemonte, no norte, passando pela Emília, pela Toscana e pelos Abruzos, no centro, até Nápoles, no sul, além das duas grandes ilhas da Itália: Sicília e Sardenha. Nas seis décadas transcorridas desde que a Sardenha passara a fazer parte da nação, nenhum primeiro-ministro fizera uma visita oficial à região. No ano seguinte, ele repetiu a ronda. As pessoas ansiavam por um líder forte, um salvador que trouxesse estabilidade, ordem e um futuro mais brilhante. Os mais abonados o viam como o homem que contivera a ameaça comunista. Para os demais, era o figlio del popolo, o homem comum, alguém como
eles. 22
Para a comunidade diplomática estrangeira em Roma, Mussolini era uma figura intrigante e enigmática. O embaixador da Bélgica na Santa Sé registrou suas observações sobre ele numa recepção diplomática: com os pés plantados no piso, o queixo projetado para a frente, o primeiro-ministro não disse mais do que duas palavras aos que foram cumprimentá-lo. “Sua face séria, altiva, seu jeito taciturno, eram impenetráveis. Tudo o que se decifrava em sua máscara de bronze, nos olhos duros, era uma rara energia.” Mussolini causava uma impressão indelével, lembrava o embaixador: “Desde aquela noite, guardei a visão assustadora de um homem que parece absolutamente imune ao medo ou
a qualquer emoção.”23
No trato com o papa, Mussolini manteve sua bem calibrada mistura de pressão e recompensa. Enquanto os camisas-negras continuavam atacando líderes e sedes locais do Partido Popular, o primeiro-ministro se apresentava como a única pessoa capaz de controlar os fascistas fanáticos. Ao mesmo tempo, cumulava a Santa Sé de dinheiro e privilégios. Forçou a aprovação de uma nova lei que permitia à polícia demitir qualquer editor cujo jornal falasse mal do pontífice ou da Igreja. Cedeu ao pedido do Vaticano de que só livros aprovados pela Igreja fossem usados para ensinar religião nas escolas. Concordou em fechar salões de jogos. Conferiu reconhecimento estatal à Universidade Católica de Milão, anunciou sua oposição ao divórcio e tomou providências para salvar o Banco de Roma, estreitamente ligado ao Vaticano e que estava à beira da falência. Os crucifixos voltaram às salas de aula, e os feriados religiosos foram incorporados ao calendário civil. Mussolini também contribuiu com generosos fundos para reconstruir igrejas arruinadas durante a guerra.
A lista não parava de crescer.24
Como o papa bem sabia, o apoio que o líder fascista obtinha da Igreja em retribuição por essas medidas era inestimável. Foi o que declarou o Vaticano, em setembro de 1923, num “Programa de colaboração dos católicos com o governo de Mussolini”. O documento informava que o primeiro-ministro tinha percebido que estaria em melhor situação se não ficasse tão dependente dos fascistas que o haviam levado ao poder. Tratava-se de um bando indisciplinado, que ele não conseguia controlar por completo. Mussolini precisava de uma “nova massa” de apoio, e os católicos poderiam oferecer isso melhor do que ninguém, pois estavam acostumados ao comando hierárquico. Era verdade que, a princípio, alguns membros da hierarquia da Igreja haviam se mostrado céticos com relação a ele, mas precisavam confessar que tinham errado: “Tiveram que reconhecer que nenhum governo italiano, e talvez nenhum governo no mundo, teria conseguido fazer tanto em prol da religião católica em apenas um ano.”
Mas essa não era a única razão para que o Vaticano apoiasse Benito: “Os católicos pensam com horror no que poderia ter acontecido na Itália se o governo do Ilustre Mussolini fosse derrotado, quem sabe por uma insurreição de forças subversivas, por isso têm todo o interesse em apoiá-lo.” Em resumo, as instruções do Vaticano concluíam: “Em todos os sentidos, a constituição pelos católicos de uma massa de apoio ao governo do Ilustre Mussolini parece ser a mais confiável e tranquilizadora
combinação imaginável na Itália.” 25
* * *
EM NOVEMBRO, POR ordem de mussolini, os fascistas saquearam a casa do antigo primeiro-ministro Francesco Nitti, no centro de Roma. A polícia nada fez para intervir, e os saqueadores desfilaram triunfantes pelas ruas da cidade. Em certa manhã do mês seguinte, Giovanni Amendola, que fizera parte do gabinete de ministros e era o muito respeitado chefe da oposição liberal no parlamento, foi atacado perto de casa, também no centro de Roma. Quatro fascistas esmagaram-lhe o pescoço e o rosto a porrete, depois pularam para dentro de um carro que os esperava e partiram em alta velocidade. Ao noticiar o ataque, o jornal de Mussolini, Il Popolo d’Italia, afirmou que Amendola havia recebido apenas o que merecia. Não se sabe se a ordem partiu do próprio primeiro-ministro, mas o ataque era parte de uma campanha mais ampla de intimidação que ele incentivava
com veemência.26
Ao norte da Itália, em Munique, capital da Baviera, a revolução fascista incitava outros acólitos de Mussolini a cometerem atos de violência. Em 8 de novembro, Adolf Hitler, um bigodudo agitador de trinta e quatro anos, esforçando-se para imitar a Marcha sobre Roma que ocorrera no ano anterior, anunciou uma revolução numa grande cervejaria local. O movimento nazista já tinha adotado a saudação do braço levantado dos fascistas italianos. Os seguidores de Hitler, berrando “Sieg Heil!” até ficarem roucos, conseguiram ocupar o quartel-general da polícia, mas fracassaram na tentativa de tomar o Ministério da Guerra bávaro. Dez pessoas morreram, e Hitler foi preso. Ele passaria um ano na cadeia, mas faria bom uso desse tempo, redigindo seu chamado às armas, Mein Kampf. Na época, Mussolini não fazia ideia de que, um dia, seu destino se vincularia estreitamente ao do feroz e insubmisso preso alemão.
Em abril de 1924, a Itália se preparava para uma nova eleição nacional, a primeira desde que Mussolini chegara ao poder. A violência fascista explodiu. Enquanto tratava os inimigos a porretadas e atos ainda piores, o primeiro-ministro continuou a tomar medidas em benefício da Igreja. Uma nova lista de feriados oficiais incluía vários dias santos católicos que o Estado jamais reconhecera. Mussolini também adotou suas primeiras medidas contra organizações protestantes, sabendo que, com isso, agradaria ao papa: negou permissão aos metodistas para erguer um grande templo em Roma e rejeitou propostas da Associação Cristã de Moços para construir centros na Itália. Seminaristas católicos foram isentados do serviço militar, e três semanas antes da votação Mussolini aumentou espetacularmente os pagamentos do governo aos bispos e padres da Itália,
para grande regozijo deles. 27
No começo de abril, La Civiltà Cattolica, a voz não oficial do Vaticano, publicou o último número antes da eleição, explicando que a má conduta de alguns membros anticlericais do Partido Fascista não deveria obscurecer o fato de que Mussolini vinha trabalhando de forma incansável para melhorar as relações entre o governo e a Santa Sé. A revista lembrou aos leitores todos os benefícios que os fascistas já tinham conseguido para a Igreja, em comparação com o pouco que o Partido
Popular realizara.28
O dia da eleição caiu em 6 de abril. Em sua base em Ferrara, Italo Balbo, um dos membros do Quadrunvirato da Marcha sobre Roma, deu suas instruções aos camisas-negras. Em cada seção eleitoral, eles deveriam pegar o primeiro eleitor que saísse da cabine e dar-lhe uma surra aos gritos de “Seu safado, você votou nos socialistas”. Era verdade que o pobre coitado talvez tivesse votado nos fascistas, mas, se fosse o caso,
“pior para ele”, disse Balbo.29
Na esteira do espancamento de candidatos, do incêndio de jornais e da destruição das cédulas de oposição, a bancada fascista — que incluía simpatizantes não fascistas — obteve dois terços dos votos; sozinhos, os fascistas conquistaram duzentas e setenta e cinco cadeiras, o que lhes dava maioria absoluta mesmo sem contar com os aliados. Dos partidos de oposição, o Partido Popular ficou com trinta e nove cadeiras, o Socialista, com quarenta e seis, e o Comunista, com dezenove. Alguns outros assentos foram distribuídos entre republicanos, liberais e vários grupos menores. Mussolini estava triunfante. “É a última vez que haverá uma
eleição como essa. Da próxima vez, votarei em nome de todos.” 30
No dia seguinte, bandos fascistas atacaram os ativistas e padres do Partido Popular em lugares onde a organização tivera bom desempenho. Numa pequena cidade perto de Veneza, camisas-negras armados chegaram à noite à residência de um desses párocos. Encontrando apenas a irmã dele em casa, espancaram-na e, em seguida, para não deixar por menos, surraram também o padre ajudante.
Como reação à quantidade de ataques dessa natureza contra o clero e organizações católicas, alguém na secretaria de Estado da Santa Sé preparou uma circular para ser distribuída a todos os bispos da Itália, ordenando-lhes que não participassem das comemorações da vitória fascista e proibindo-os em particular de celebrar missas especiais de ação de graças para os fascistas. Contudo, embora tenha sido impressa, a circular nunca saiu do Vaticano. À margem do rascunho do documento (agora nos arquivos) há a seguinte anotação: “Isto não deve mais ser distribuído. Por ordem do Monsenhor Secretário.” Gasparri, sem dúvida depois de discutir o assunto com o papa, decidira que era melhor não
fazer nada que pudesse ofender Mussolini.31
* * *
A ESSA ALTURA, Pio XI já tinha estabelecido sua rotina. Os subordinados viviam nervosos, com medo de suas repreensões. O papa era seco e rude com quem lhe desagradava e não se intimidava nem mesmo com os mais exaltados chefes de Estado. Ao visitar o pontífice no Vaticano, o rei da Espanha, Afonso XIII, cometeu o erro de pedir que Pio nomeasse mais cardeais sul-americanos; havia apenas quatro provenientes da região. Furioso com o que lhe pareceu uma tentativa de influenciá-lo, o papa decidiu cancelar a elevação do seu mordomo, monsenhor Ricardo Sanz de Samper, que era da Colômbia. Não queria dar a impressão de ter se
curvado à vontade do rei.32
No entanto, um visitante ocasional poderia lhe despertar lembranças de antigas paixões. Pio convidou o intelectual francês Jean Carrère para uma audiência privada e pediu sua opinião sobre figuras literárias italianas e francesas. Enquanto Carrère respondia, o papa — segundo a descrição do intelectual —, olhava-o com uma grave expressão de “superioridade cortês”. Mas então o francês mencionou Manzoni e definiu Os noivos como uma das obras-primas universais. Ao pronunciar essas palavras, “me pareceu que meu venerável interlocutor se transformou. Da polida benevolência que demonstrara até aquele momento, ele se desmanchou em sorrisos e afabilidades”, recordou Carrère. Manzoni, disse-lhe o papa, não era apenas um grande romancista, mas também um grande poeta, e, para deleite do intelectual francês, o pontífice vestido de branco pôs-se a recitar versos de um poema do escritor que sabia de cor, numa cadência
suave e musical.33
Enquanto Bento XV parecia esmagado pelo peso do cargo, Pio XI projetava o vigor de um alpinista. “Parecia nascido para comandar”, disse Confalonieri, o padre levado por ele de Milão para servir como seu secretário particular. O papa irradiava autoridade, como diria mais tarde o
embaixador da França. 34 Era também muito rigoroso quando se tratava de seguir os procedimentos adequados. Certa tarde, enquanto passeava pelo jardim do Vaticano, viu no chão um envelope endereçado com grandes letras de fôrma “Para Sua Santidade”. Nesse dia, o arcebispo de Bolonha o acompanhava na caminhada. Sem pensar duas vezes, o arcebispo abaixou-se para pegar o envelope e entregá-lo ao papa.
“Deixe-o onde estava”, repreendeu Pio XI. “Não é assim que se manda uma carta.”
O arcebispo colocou o envelope de volta no chão, e os dois
continuaram a caminhada. 35
Apesar de ter passado muitos anos em bibliotecas, o pontífice não tinha, segundo o monsenhor Confalonieri, a personalidade de um bibliotecário, mas sim de um pequeno comerciante. O jovem sacerdote atribuía essa característica às origens do pontífice, pois a região industrial onde Pio nasceu era conhecida por produzir homens desse tipo. O papa pensava em termos concretos e não se sentia à vontade improvisando nada. Insistia em refletir muito sobre tudo e estudava com cuidado todos os relatórios que lhe chegavam às mãos. Uma vez tomada uma decisão, mantinha-se firme. As críticas serviam apenas para fazê-lo fincar pé. O antigo secretário de Estado, o cardeal Merry del Val, reclamava que Pio
XI era “teimoso como uma mula”. 36
Apesar das óbvias diferenças, o papa e Mussolini eram parecidos em muitos aspectos. Não tinham amigos de verdade, pois amizade implicava igualdade. Ambos insistiam em ser obedecidos, e todos à sua volta tremiam de medo de dizer qualquer coisa que lhes desagradasse. Formavam uma dupla incompatível, mas o pontífice logo reconheceu as vantagens de vincular sua sorte à do antigo “come-padre”. Como resultado disso, menos de um ano depois da Marcha sobre Roma a revolução fascista se tornara uma revolução clero-fascista. Uma nova parceria tinha nascido. Mas essa aliança não tardaria a enfrentar uma ameaça inesperada, pois algo que quase derrubou Mussolini estava prestes a acontecer.