O Papa e Mussolini
Capítulo vinte e um
HITLER EM ROMA
Em 12 de março de 1938, de manhã cedo, o Exército alemão entrou na Áustria. No dia seguinte, Hitler, triunfante, declarou o país uma província do Reich alemão. Em 14 de março o Führer chegou a Viena,
para alegria geral, recebido com repicar de sinos.1 “Judeus humilhados por multidões em Viena: famílias forçadas a esfregar o chão das ruas”, dizia uma manchete do New York Times. “Um pequeno país que travou uma batalha contra o destino”, observou o jornal em editorial, “deixou ontem de existir.” A manchete do Times de Londres era mais vívida: “O
Estupro da Áustria.” 2
No dia seguinte, Hitler teve um encontro com o cardeal Theodor Innitzer, arcebispo de Viena e chefe da Igreja Católica na Áustria. “Aqueles que são responsáveis por almas e os fiéis”, proclamou o cardeal, “darão apoio incondicional ao grande Estado alemão e ao Führer, porque a luta histórica contra a ilusão criminosa do bolchevismo e pela segurança da vida alemã, pelo trabalho e pelo pão, pelo poder e pela honra do Reich e pela unidade da nação alemã obviamente conta com a bênção da Providência.” Innitzer ordenou aos padres que lessem sua declaração em todas as igrejas. Um fac-símile dessa declaração — sem faltar as palavras finais escritas à mão: “E Heil Hitler!” — foi colado nos muros de Viena e
em toda a Áustria.3
Os nazistas marcaram um plebiscito no mês seguinte para legitimar o seu domínio, e os bispos austríacos se juntaram ao cardeal para divulgar uma declaração a ser lida em todos os púlpitos austríacos: “Temos o prazer de reconhecer”, diziam eles aos católicos da Áustria, “que o movimento Nacional-Socialista fez e está fazendo coisas excelentes na área da reconstrução nacional e econômica, assim como na área da política social.” E prosseguiam: “Também estamos convencidos de que, pela ação do movimento nazista, o perigo do bolchevismo ateísta e destrutivo foi evitado.” Eles recomendavam aos fiéis que votassem no
sim, juntando a Áustria ao Terceiro Reich.4
A tomada da Áustria por Hitler foi um golpe no prestígio de Mussolini, pois fazia bastante tempo que o Duce defendia a ideia de uma Áustria independente sob influência italiana. E, como muitos italianos, ele não ficou nada satisfeito com a aparição de uma Alemanha poderosa e
agressiva em sua fronteira setentrional. 5 Quando visitou o país poucos meses antes, Mussolini havia recebido dos líderes nazistas a promessa de
que eles não entrariam na Áustria sem primeiro consultá-lo.6 Mas a consulta se limitara a uma carta de Hitler, dois dias antes da invasão,
informando-o da ação iminente. 7
Pio XI ficou surpreso, chocado e constrangido com a humilde aceitação, por Mussolini, da invasão nazista da Áustria. “Estou triste como papa”, disse ele, “mas estou ainda mais triste como italiano.” O papa ficou furioso com o arcebispo de Viena. “Assinou tudo o que puseram na sua frente, tudo o que queriam (...) E ainda acrescentou, por conta própria, ‘Heil, Hitler!’.” Os arcebispos de Salzburg e os Graz tinham seguido o exemplo de Innitzer sem pestanejar. O pontífice disse algumas palavras sobre os defeitos de caráter do povo austríaco, que, para
sua decepção, infelizmente eram partilhados também pelo clero de lá. 8
Na noite de 1o de abril, um programa da rádio do Vaticano criticou duramente os bispos austríacos por apoiarem a conquista nazista. No dia seguinte, o jornal do Vaticano juntou-se às críticas, ressaltando que os bispos tinham preparado sua declaração sem a aprovação do Vaticano. Pacelli, num encontro com o embaixador italiano, qualificou o comportamento do cardeal Innitzer como constrangedor para a Igreja. Em geral, Pacelli era sereno, embora nervoso, mas estava furioso. Disse que em seu cargo, infelizmente, às vezes tinha que lidar com “pessoas
sem caráter”.9
Mas depois, quando falou com o embaixador alemão, foi muito mais circunspecto. Bergen queixou-se das “declarações inoportunas” da rádio do Vaticano. Pacelli tentou convencê-lo de que o programa de rádio não era “oficial nem mesmo semioficial, nem inspirado pelo Vaticano”, e que o papa também nada tinha a ver com ele. Neste ponto Pacelli esticou o princípio da negação até seus limites extremos, e o embaixador alemão tinha boas razões para perceber que ele estava mentindo. A estação de rádio era um projeto do papa, que convocara o vencedor do Prêmio Nobel Guglielmo Marconi para ajudar a projetá-lo. Com Marconi ao seu lado, o pontífice a tinha inaugurado em 1931, com sua fala de meia hora
— em latim — alcançando os dois lados do Atlântico. 10
O embaixador alemão achou que tinha um aliado em Pacelli. “O cardeal acrescentou, em confiança”, informou Diego von Bergen a Berlim, “que depois dessa desagradável surpresa ele tentará instituir algum controle sobre a rádio do Vaticano. O cardeal reiterou seus protestos de
ardente desejo de paz com a Alemanha.” 11
O papa convocou Innitzer ao Vaticano. O arcebispo de Viena disse que chegaria na tarde de 5 de abril, mas precisava voltar no dia seguinte de manhã, porque tinha um encontro marcado com Hitler, o qual não
queria perder.12 Indignado, Pio mandou dizer que não estava acostumado a obedecer horários ditados por cardeais. Innitzer só voltaria à Áustria
quando o papa permitisse.13
30. Cardeal Theodor Innitzer, arcebispo de Viena, deposita o seu voto no plebiscito nazista,
em 10 de abril de 1938
No encontro, Pio disse a Innitzer que seu comportamento era infame e o instruiu a retratar-se do elogio que fizera ao novo regime. “A solene declaração dos bispos austríacos do dia 18 de março”, começava, “não teve, obviamente, a intenção de expressar aprovação àquilo que não está em conformidade com a lei de Deus, com a liberdade e com os direitos da Igreja Católica.” Ressaltava que a concordata da Áustria com o Vaticano tinha que ser respeitada, e que as crianças da Áustria deveriam ser livres para receber uma educação católica. O texto, informou o embaixador alemão, foi “arrancado do cardeal Innitzer com uma pressão que só poderia ser chamada de extorsão”. Innitzer, escreveu Bergen, “resistiu ao máximo, mas só conseguiu umas poucas concessões”. No dia seguinte, a declaração do arcebispo foi publicada nas páginas de
L’Osservatore Romano 14 .
Pio também estava aborrecido com Mussolini, que tinha prometido proteger a independência da Áustria, mas nada fizera para impedir a invasão nazista.
— O Duce —, observou o papa ao velho amigo Eugène Tisserant — perdeu a cabeça há algum tempo.
— Santíssimo Padre —, respondeu o cardeal francês — ele a perdeu, acredito, em sua viagem a Berlim.
— Ele a perdeu muito antes disso — retrucou o pontífice. 15
Cada vez mais os franceses viam Mussolini e Hitler como almas gêmeas, parte da mesma ameaça totalitária à paz mundial. À medida que crescia a raiva dos franceses pelo apoio do papa ao ditador italiano, Pio XI se tornava alvo de críticas contundentes. “De um lado”, escreveu o cardeal Baudrillart em seu diário, “nos jornais extremistas, eles o acusam de não cumprir sua missão moral e de capitular. De outro, alguns até sugeriram, devaneando, que lhe fosse oferecido um estado temporal em outro lugar (não Avignon), para que não ficasse mais à mercê (ou não se tornasse cúmplice) da Itália.” Concluiu ele: “Como o cardeal Pacelli deve
estar envergonhado! Que fim para o reino de Pio XI!” 16
* * *
NA ESTEIRA DA tomada da Áustria pelos nazistas, Mussolini se sentiu usado. Humilhado pela invasão que jurara impedir, convocou Tacchi Venturi e lhe disse que era hora de acabar com os sonhos hitlerianos de dominação mundial. Meias medidas seriam inúteis, advertiu, e qualquer esperança de que o nazismo de alguma forma simplesmente desaparecesse sem luta era ingenuidade. Seria preciso algo muito dramático, e logo.
Quem estava em posição de agir? O único homem que poderia deter Hitler, disse o Duce ao estupefato jesuíta, era o papa. Excomungando
Hitler, ele poderia isolar o Führer e enfraquecer os nazistas.17
O que ele propôs era tão explosivo que Tacchi Venturi nem sequer registrou por escrito. Pediu um encontro urgente com o papa para
transmitir a Pio o que Mussolini lhe dissera. 18 Sabendo que o Duce podia ser muito temperamental — e, de qualquer maneira, sem querer tomar uma medida tão draconiana — o papa nunca pensou a sério em aceitar a sugestão.
Curiosamente, o Vaticano parece ter chegado a considerar a excomunhão de Hitler, embora não haja provas de que o papa tivesse conhecimento disso. Foi em janeiro de 1932, um ano antes de o Führer chegar ao poder. A base para a excomunhão não era a ideologia pagã de Hitler, nem sua campanha de ódio racial, mas o fato de ter sido testemunha de um casamento que a Igreja não aprovava. Naquele mês, um alto funcionário da Igreja alemã disse ao embaixador da Itália na Alemanha que Hitler estava com sérios problemas com o Vaticano. Joseph Goebbels, seu acólito, tinha se casado, e o Führer servira de testemunha. Goebbels, como Hitler, era católico, mas a mulher com quem se casara era não só divorciada, mas protestante, e a cerimônia fora oficiada por um pastor protestante. Por um pecado como esse, a excomunhão, informou o alto prelado alemão, estava sendo discutida. Se a excomunhão foi, de fato, considerada, o Vaticano decidiu não levá-la
adiante. 19
31. Mussolini inaugura o prédio Luce com o padre Pietro Tacchi Venturi e Achille Starace, em
10 de novembro de 1937
* * *
MUSSOLINI LOGO SE acalmou, convencido de que a tomada da Áustria pelos alemães era inevitável. Analisando melhor, a demonstração de força de Hitler apenas reforçou a sua decisão de continuar a ser aliado dos nazistas. Agora, longe de querer que Pio atacasse Hitler, ele voltou a temer que o papa jogasse os italianos contra a aliança alemã. Com a visita do Führer a Roma marcada para um futuro próximo, o Duce temia um fiasco.
Quando as notícias da iminente visita do ditador alemão a Roma começaram a aparecer com mais frequência nos jornais, muita atenção passou a ser dedicada à questão de saber se Hitler visitaria ou não o
papa.20 Embora desprezasse o Führer, Pio em princípio não se recusaria a recebê-lo. Hitler era líder de um país com imensa população católica e de um governo com o qual o Vaticano mantinha plenas relações diplomáticas. Mas o papa sabia que muita gente fora da Itália ficaria insatisfeita de ver Hitler no Vaticano. Isso sem dúvida deixaria os franceses furiosos, e um relatório advertiu o pontífice de que os Estados
Unidos também ficariam indignados. 21
De início, o Duce esperava que um encontro histórico entre o Führer e Pio fosse um dos pontos altos da visita triunfal do alemão à Cidade
Eterna. 22 Se Hitler fosse a Roma e evitasse o Vaticano, milhões de católicos ficariam ofendidos. Nenhum chefe de Estado que mantivesse relações com a Santa Sé tinha ido a Roma nos anos anteriores sem ver o
papa.23
Embora Pio estivesse insatisfeito com a visita iminente, Mussolini ainda poderia contar com ele para tomar algumas providências. O Duce estava preocupado com a lealdade dos estrangeiros que viviam nas instituições religiosas romanas que, nos termos do Tratado de Latrão, desfrutavam do estatuto de extraterritorialidade. Em 26 de março, Ciano procurou o cardeal Pacelli para pedir a ajuda do papa. A fim de identificar todos os estrangeiros suspeitos de apoio antinazista e colocá-los sob vigilância durante a visita, a cooperação da polícia papal era indispensável. Uma semana depois veio a resposta: “A Secretaria de Estado tem a honra de comunicar, com toda a solicitude, à Embaixada [italiana] que Sua Santidade se dignou a conceder a autorização solicitada.” A polícia italiana entraria em contato com a polícia vaticana para cuidar da
vigilância.24
Apesar de querer preservar sua estreita ligação com Mussolini, Pio XI estava aborrecido com a escala monumental das festividades planejadas para a chegada do Führer. Uma visita menos aparatosa seria compreensível, disse ele ao embaixador italiano. Mas como poderia o governo preparar “a apoteose do Signor Hitler, o maior inimigo que Cristo e a Igreja haviam tido nos tempos modernos”? Ele rezava para que Deus chamasse a sua alma de volta para Ele antes de presenciar uma cena tão dolorosa. Ao contemplar essa possibilidade, enquanto falava com Pignatti, o papa ficou com a voz embargada. A desgraça para o país que
ele amava era quase mais do que podia aguentar. 25
Três dias antes da chegada do Führer, Pio deixou o Vaticano e foi para seu palácio de verão em Castel Gandolfo. Mandou fechar todos os museus do Vaticano durante a visita de Hitler e instruiu os bispos nas cidades ao longo do trajeto do ditador alemão que não comparecessem a recepções em sua homenagem. Diante dos protestos papais, o governo desistiu da ideia de instalar gigantescos holofotes para iluminar São
Pedro. 26 L’Osservatore Romano publicou a notícia da ausência do papa, mas
negou que ela tivesse qualquer relação com a chegada do Führer. 27
Para o pontífice, a temporada em Castel Gandolfo foi agridoce. Eram tempos difíceis, física e espiritualmente, e ele tinha a sensação de que seria o último verão em seu retiro nas colinas Albinas. Alguns sinais de que pensava assim podem ser percebidos na inusitada recepção que ofereceu ao chegar. Após abençoar a multidão reunida na piazza para lhe dar as boas-vindas, ele convidou seus assistentes para uma pequena comemoração. Na sala dos afrescos, quando os monsenhores se
aproximaram para conversar, mandou servir vermute para todos.28
* * *
NO COMEÇO DA noite de 3 de maio, Hitler chegou à estação ferroviária de Roma, acompanhado por Ribbentrop, Goebbels, Hess, Himmler, outros líderes e diplomatas nazistas, um bando de jornalistas alemães de
uniforme e, escondida dos olhos do público, sua amante Eva Braun.29 Por se tratar do chefe de Estado alemão, o protocolo ditava que Hitler fosse recebido pelo rei, e não por Mussolini. Quando o Führer desembarcou do trem, o Duce ficou de lado, bufando de raiva, obrigado a ocupar papel de coadjuvante no momento pelo qual tanto ansiara nos meses anteriores. Hitler ficou surpreso por ser recepcionado não pelo homem que ele próprio saudara como imperador romano, mas pelo pequenino rei de grande bigode branco.
Juntos, o monarca e o Führer embarcaram numa magnífica carruagem e seguiram pelas ruas cheias de gente, com soldados italianos em fila dupla de frente para as multidões mantidas atrás de barreiras de madeira. Holofotes iluminavam os antigos monumentos de Roma. A fumaça que se erguia, de pó de magnésio queimando em imensos vasos romanos, dava uma dimensão de mistério às ruínas do Fórum e do monte Palatino.
O convidado e o anfitrião foram para a residência real, o vasto palácio do Quirinal. Não formavam um casal feliz. O rei confidenciou aos amigos mais chegados que, em sua opinião, Hitler era um degenerado mental e um viciado em drogas. O Führer, por sua vez, perguntou-se por que não fora recebido pelo aliado fascista e descreveu o palácio real como “melancólico, desconfortável e muito parecido com uma loja de antiguidades”. Quando mostraram o trono real ao cupincha de Hitler, Joseph Goebbels, ele comentou que, a rigor, o assento deveria ser do Duce. “Aquele ali”, sussurrou, apontando para o rei, “é pequeno demais
para ele”. 30
No dia seguinte, em Castel Gandolfo, em comentários feitos para centenas de recém-casados, o papa lamentou as “coisas tristes” que estavam acontecendo em Roma, a aparição de “outra cruz que não é a Cruz de Cristo”. “É evidente”, observou Pignatti, “que o papa sentiu necessidade de aliviar a pressão e, por causa do seu temperamento, pode-se até dizer que o fez de maneira relativamente suave. Mas será que vai
parar por aí?” E ele mesmo respondeu à pergunta. “Duvido muito.” 31
Mussolini tinha trabalhado durante meses para garantir que Hitler ficasse impressionado com a Itália fascista. Além de Roma, eles visitariam Nápoles e Florença. Em todas as cidades, o dia da chegada da comitiva seria decretado feriado. Arcos de triunfo foram construídos e iluminação especial foi instalada. Havia faixas e bandeiras penduradas por toda
parte. 32
Depois de várias cerimônias em lugares sagrados de Roma, o grupo seguiu para Nápoles. Escoltado pelo rei, o desfile marchou com grande pompa até o porto, onde Mussolini os aguardava no encouraçado Cavour para um dia de manobras navais, complementado por uma noite na ópera. O pior momento da viagem para o Führer ocorreu naquela noite, quando, depois da ópera, o alemão ficou do lado de fora, de fraque, ao lado do rei, que usava seu uniforme real de gala, enquanto inspecionavam a guarda de honra. Enquanto mantinha o braço direito erguido na saudação nazista, Hitler segurava freneticamente o colete com a mão esquerda, numa tentativa de subjugar as abas agitadas. Seu ajudante disse
que ele parecia um afobado maître de restaurante.33
32. Mussolini, Hitler e o rei Vítor Emanuel III, maio de 1938
Depois de voltar a Roma para mais três dias de manobras militares, ópera, recepções e discursos, o grupo partiu para Florença, no último dia da visita. Mais de cem mil cartazes e bandeiras — italianas e nazistas — foram colocados nas janelas ou estendidos no alto dos edifícios para a ocasião; havia grinaldas de flores por toda parte. Novas luzes triplicaram a iluminação da cidade. Ladeando as ruas havia dezoito mil milicianos fascistas, três regimentos de infantaria, centenas de policiais de Florença e de Roma e mil e quinhentos carabinieri de todo o país que haviam sido levados até lá. Durante três semanas a polícia tinha verificado a documentação dos que entravam na cidade de carro. Pessoas de lealdade duvidosa foram presas preventivamente. De acordo com o cônsul geral dos Estados Unidos, “muitos judeus foram obrigados a, ou ‘aconselhados
a’, ou acharam sensato, sair de Florença durante a visita”.34
Os dois — Hitler primeiro e Mussolini depois — desfilaram em triunfo de carro pelas ruas da cidade enfeitada de suásticas. Na majestosa piazza , uma multidão enorme aclamou os ditadores; então Hitler forçou o
relutante Duce a levá-lo para um passeio pelas galerias de arte Uffizi.35 Na estação ferroviária, quando Hitler se preparava para partir, os dois homens se despediram calorosamente. “Agora, nenhuma força”, proclamou o Duce, “poderá jamais nos separar.” Os olhos do Führer se
encheram de lágrimas.36
Saber até que ponto os italianos se entusiasmaram com a visita do Führer é algo questionável. William Phillips, o embaixador americano em Roma, contrastou os vivas calorosos a Mussolini com “as apáticas saudações dadas a Hitler”. Mas concluiu que o Duce tinha conseguido o que queria, pois o Führer ficara encantado com a visita, impressionado,
em especial, com as ruínas da Roma antiga.37
Enquanto Mussolini e Hitler proclamavam sua admiração recíproca diante de centenas de milhares de delirantes italianos, o papa fervia de raiva. Poucos dias depois da visita, ele disse ao embaixador francês Charles-Roux que a escala colossal do tributo a Hitler foi o que mais o
irritou — o mais recente sinal de servilismo da Itália ao Führer. 38 L’Osservatore Romano fez o possível para ignorar a visita. La Civiltà Cattolica concluiu seu seco relato com uma nota sombria: a grandiosidade dos festejos oficiais não bastava para esconder o desapontamento dos católicos — o chefe de um país que abrigava vinte e sete milhões de católicos tinha viajado a Roma, mas não “prestou homenagem Àquele que é amado pelos milhões de católicos como pai e Supremo Pastor de suas almas e venerado como o Vigário de Jesus Cristo na Terra”. O resultado, na opinião de La Civiltà Cattolica, foi “uma grave e escancarada ausência” que
deslustrou muito a visita.39
Essa opinião não era universalmente partilhada pelo clero católico. Ignorando as advertências do papa, muitos clérigos foram incapazes de conter o entusiasmo pelo desfile triunfal dos ditadores. Na diocese de Orte, na linha de trem entre Roma e Florença, párocos se juntaram às comemorações, enfeitando as batinas pretas com medalhas militares que tinham adquirido na Grande Guerra. Sabendo que a fé fascista dos franciscanos locais era profunda, o bispo de Orte os aconselhara a não participar das comemorações. Mas, no dia em que Hitler passou, eles cobriram por completo o seu mosteiro com bandeiras italianas e nazistas e até enfeitaram o campanário com suásticas. Pior, os frades posicionaram as centenas de crianças de sua escola ao longo da linha de trem. Quando o trem passou, os frades fizeram os pequenos discípulos cantarem “Viva
Mussolini! Viva Hitler!”.40