O Papa e Mussolini
Capítulo dezessete
INIMIGOS EM COMUM
No começo de novembro, falando para um grupo de mulheres na sólida basílica central de Milão, o arcebispo da cidade entoou loas a Mussolini: “O Líder providencial do nosso povo italiano, povo de santos — como ele o diz muito bem —, de heróis, de gênios, de colonizadores, com aquela intuição que é exclusivamente dele e que, assim, a todas supera no atual momento histórico, quer convocar vocês, mulheres italianas católicas, para uma grande missão.” O arcebispo de Amalfi, fazendo eco a temas expressos por bispos no país inteiro, atacou os males das sanções como obra de maçons e anglicanos e apresentou o Duce como o novo Moisés: “Regozijo-me com a futura grandeza que é o destino da Itália no mundo. A Itália, pátria de santos e heróis. A Itália reconciliada com a Igreja e abençoada pelo papa. A Itália posta pelo governo fascista num
desígnio legislativo moral e cristão.” 1
O pontífice era obrigado a lidar com a reação internacional à indecorosa febre guerreira do clero italiano. O embaixador britânico na Santa Sé, Hugh Montgomery, bombardeou o Vaticano com trechos publicados dos discursos coléricos de bispos e implorou a Pio que desse um basta naquilo. O papa respondeu que mandara representantes seus conversarem com os transgressores para convencê-los a moderarem sua
retórica.2 Mas os discursos e os protestos da Grã-Bretanha continuaram.
A Grã-Bretanha e a França tinham preparado uma proposta para acabar com a crise, e o papa depositava grande esperança nela. O plano dividiria a Etiópia, dando à Itália algumas das melhores terras etíopes. Em meados de dezembro, o acordo fracassou quando seus termos foram vazados para a imprensa, e pressões políticas na Grã-Bretanha e na França o bloquearam. O ministro do Exterior britânico renunciou, caído em
desgraça.3
Mussolini declarava insistentemente que não faria concessões. Nada o
impediria de conquistar toda a Etiópia. 4
No fim de novembro, o Duce decidiu organizar uma Giornata della Fede, literalmente um Dia da Fé ou Dia da Aliança de Casamento (fede significa tanto “fé” quanto “aliança de casamento”). Tratava-se de uma brilhante ideia que ligaria mais ainda os italianos — em especial as mulheres — ao esforço de guerra. Para mostrar amor ao país e apoio à guerra, todos os bons italianos deveriam doar suas alianças de casamento à Pátria.
Os bispos da Itália deveriam insistir com os católicos para que entregassem suas alianças de ouro e abençoar as alianças de aço que os doadores receberiam em troca. Ao saber do papel que iam desempenhar, os prelados bombardearam o Vaticano com pedidos de instruções. O papa não estava nem um pouco ansioso para que o alto clero da Itália participasse de modo tão público do esforço de guerra, ainda mais porque cartas iradas de católicos do exterior denunciavam o aparente endosso do Vaticano ao massacre fascista na Etiópia. Mas o pontífice não queria provocar Mussolini. Temendo que uma circular aos bispos vazasse, ele decidiu encarregar um representante de transmitir a mensagem oralmente: “Seja cauteloso. (...) Não emita juízo sobre a justiça ou a injustiça da campanha abissínia e, acima de tudo, evite usar quaisquer palavras que possam ofender o outro lado, ou que o outro lado ache
desagradáveis.” 5
Embora alguns representantes do alto clero compartilhassem o
desconforto de Pio, para a grande maioria era impossível se conter.6 Se chegaram mesmo a receber a mensagem do papa, o certo é que a ignoraram. A imprensa católica estava repleta de artigos elogiando a guerra santa para levar o cristianismo e a civilização aos selvagens; clérigos destacados — como o arcebispo de Milão e o reitor da Universidade Católica — haviam abraçado a causa da guerra; e o próprio Pio nunca chegou a manifestar diretamente ao clero suas apreensões. Portanto, em seus boletins diocesanos e em suas homilias, os bispos recomendavam aos bons católicos que oferecessem suas alianças de casamento para a causa santa. Padres criaram comitês paroquiais para assegurar a máxima participação local e, no dia determinado, doaram suas próprias cruzes
peitorais de ouro.7
Em Milão, o cardeal Schuster abençoou vinte e cinco mil alianças de
aço — para substituírem as de ouro — em sua capela particular.8 O arcebispo de Messina, diocese empobrecida da Sicília, informou a seus padres que esperava dos católicos leais pelo menos trinta quilos de ouro em doações. Do outro lado da ilha, o bispo de Monreale exigiu que seus padres derretessem os ex-votos que os fiéis tinham doado ao longo dos anos. Na província toscana de Grosseto, um pároco pediu permissão ao bispo para derreter os sinos no alto da igreja com o objetivo de apoiar o
Duce e a guerra. 9
No Dia da Fé, 18 de dezembro, o país foi tomado por um frenesi
patriótico.10 Mussolini se ausentara de Roma para inaugurar a nova cidade de Pontinia, uma de suas criações onde antes havia terrenos pantanosos. O arcebispo local abriu a cerimônia. “Ó, Duce! Os que pensam que podem fazer nosso povo se curvar estão iludidos. (...) Hoje a Itália é fascista, todos os corações italianos batem em uníssono com o vosso, e toda a Nação está pronta para qualquer sacrifício que seja necessário para o triunfo da paz e da civilização cristã e romana.” No fim dos seus comentários, o arcebispo tirou a cruz peitoral e o anel episcopal,
acrescentando-os à bolada do dia. 11
Nunca, desde o tempo em que os papas governavam os Estados Papais, a Igreja Católica tinha se identificado tão estreitamente com o governo. Nunca, desde os tempos das Cruzadas, havia desempenhado papel tão central em instigar os católicos para uma conquista externa.
A febre guerreira alimentava teorias conspiratórias sombrias, com padres e bispos advertindo os fiéis de que os países que se opunham à invasão o faziam por ódio tanto à Itália fascista quanto à Igreja Católica
Romana. 12
O Vaticano incentivava essas opiniões. Um dia depois do Natal, o monsenhor Pizzardo disse ao enviado do Vaticano ao Canadá que ele
deveria neutralizar a oposição à guerra na Etiópia.13 A oposição, explicou ele, tinha como alvo tanto o fascismo quanto a Igreja. Era “uma aversão que vem naturalmente”, acrescentou, “contra um grande Estado católico como a Itália, que mantém boas relações com a Santa Sé”. Os ataques eram motivados pelo “ódio dos inimigos da Igreja que, atacando a Itália, gostariam de desferir um golpe contra a Igreja Católica e a Santa Sé”.
Em sua resposta, o enviado do Vaticano ressaltou que a oposição à guerra etíope era generalizada no Canadá. Infelizmente, escreveu, protestantes, comunistas e “os que são muito apegados a princípios democráticos” se opunham ao fascismo havia tempos. Mas “a gente boa e os políticos mais imparciais têm sido obrigados a admitir que o fascismo está fazendo um trabalho maravilhoso”. Quanto à advertência de Pizzardo sobre os inimigos ocultos da Igreja, acrescentou, ele faria o
melhor que pudesse para difundir a mensagem. 14
* * *
NO MESMO MÊS em que Mussolini realizou o Dia da Fé, Pio XI anunciou a nomeação de vinte novos cardeais. Catorze eram italianos. Deu-se muita importância a esse fato: como apontaram vários observadores, quase todo mundo na Secretaria de Estado era italiano, e todos os núncios eram italianos. Na Alemanha, artigos de jornal e círculos políticos ligaram a escolha dos novos cardeais à crescente influência do regime fascista no Vaticano. Um jornal alemão notou, com pesar, o contraste entre o entusiástico apoio dos bispos da Itália à guerra de Mussolini na Etiópia e a recusa dos bispos da Alemanha a mostrar o
mesmo entusiasmo pelo regime nazista. 15
Contrariando as expectativas, o novo arcebispo de Westminster, Arthur Hinsley, não estava entre aqueles que receberam o chapéu cardinalício. Dois meses antes, ele defendera o papa, dizendo que havia pouco que o pontífice pudesse fazer para impedir a guerra. “É um pobre velho desamparado”, explicou, “com pouca força política para se defender, para vigiar os inestimáveis tesouros do Vaticano e para proteger o diminuto Estado que lhe assegura a devida independência.” A linha de defesa do arcebispo não tinha agradado ao papa, e sua denúncia do fascismo como regime tirânico — uma “deificação moderna do cesarismo” — enfurecera Mussolini. A decisão de Pio de passar por cima de Hinsley foi atribuída por muitos a seu desejo de não ofender o
Duce.16
O governo italiano aplaudiu calorosamente as escolhas do pontífice para o Sacro Colégio. Ele não apenas devolvera aos italianos uma clara maioria, mas também, como disse um informante da polícia, “pode-se declarar com toda a confiança que, dos catorze [italianos] nomeados,
quase todos são — mais ou menos — amigos do regime”. 17
O arcebispo de Westminster não foi o único clérigo desconsiderado. Em 9 de janeiro, o papa chamou Tacchi Venturi para lhe dizer que, embora desejasse nomeá-lo cardeal, achava que o momento não era oportuno. “Pobre padre”, disse o pontífice ao seu abatido enviado, “o chapéu cardinalício ia para você! Mas o que se pode fazer?” Em vista do delicado momento internacional, nomear cardeal seu representante pessoal junto a Mussolini poderia ser mal interpretado. E os ingleses, perguntou Pio, o que pensariam? De qualquer maneira, disse ele ao jesuíta, era importante demais preservá-lo em suas funções, o que teria
sido impossível caso ele se tornasse cardeal. 18
Um dos vinte homens que receberam o chapéu cardinalício naquele mês de dezembro foi Camillo Caccia, alvo frequente de acusações de pederastia. O mestre de cerimônias do papa achou que a promoção lhe era mais do que devida. Quando a lista dos cardeais de 1929 havia sido
divulgada, Caccia ficara furioso ao ver que seu nome não fora incluído. 19 Em outubro de 1930, os jornais de Turim informaram que circulavam boatos de que ele estava em vias de ser nomeado arcebispo da cidade. As reportagens, de acordo com um informante da polícia no Vaticano,
provocaram “comentários indecentes”.20 Em março de 1931, outro informante contou que Caccia estava furioso com o comandante dos gendarmes papais por ter denunciado um recente relacionamento íntimo de Caccia com um jovem padre. Pio soube da história e não ficou nada satisfeito. Antes, lembrava o informante, só os velhos laços com o pontífice tinham salvado Caccia do destino que o papa reservara para
monsenhor De Samper em circunstâncias parecidas. 21
Apesar das histórias que cercavam Caccia, rumores de que Pio XI ia nomeá-lo cardeal ganharam força. Isso provocou uma nova explosão de acusações em 1933, e outras pessoas no Vaticano afirmaram ter visto Caccia com meninos e rapazes em situações comprometedoras. Entre eles, um conde da aristocracia negra — as famílias romanas de elite leais ao papa em sua batalha de décadas contra o novo Estado italiano — falou sobre a vez em que Caccia, em seu apartamento no Vaticano, fora flagrado acariciando dois estudantes enquanto os enchia de vinho e outras bebidas alcoólicas. Interrogados, os meninos, ainda bêbados, disseram que o prelado os atraíra para seus alojamentos prometendo-lhes um bom dinheiro. O clero de Roma, dizia o informante, não gostava do pontífice por considerá-lo um déspota mal-humorado. Se, apesar da reputação predatória de Caccia, Pio o nomeasse cardeal, sua popularidade, pelo
menos segundo o informante, cairia ainda mais. 22
Caccia recebeu um claro sinal de favor papal e a presunção de que enfim seria nomeado cardeal quando Pio lhe pediu, em agosto de 1934, que integrasse a delegação papal no congresso eucarístico em Buenos
Aires.23 Mas quase na mesma época outro informante da polícia levantou dúvidas sobre as intenções do pontífice. Um dos defensores de Caccia falara bem do mestre de cerimônias, durante uma audiência com Pio, elogiando o trabalho árduo que ele desempenhara em nome do papa. Devido à cintura cada vez mais larga, argumentou o amigo, Caccia estava tendo dificuldade para manter o ritmo frenético, por isso talvez fosse hora de recompensá-lo. Pio, irritado com o pedido, deu as costas ao visitante.
“Faça-o comer menos!”, rosnou.24
Mas o Santo Padre conservava uma afeição por Caccia, que conhecia desde menino em Milão, e por isso, no fim, acrescentou-o à lista dos novos cardeais em 1935. Se as alegações contra ele eram conhecidas dentro do Vaticano, aparentemente não diminuíram o entusiasmo com que foi recebido pelos novos colegas. “Robusto, jovial e bem-humorado”, comentou o embaixador britânico na Santa Sé, em meados de 1938, “o cardeal Caccia é talvez o membro mais popular do Sacro
Colégio.”25
* * *
O PAPA CONTINUAVA preocupado com o impacto da guerra etíope junto aos americanos. Em 4 de janeiro, fazendo eco à sugestão do cardeal Pacelli, aconselhou o Duce a intensificar sua propaganda a favor da guerra
nos Estados Unidos.26 Mussolini disse a Pio que não se preocupasse, pois a situação havia melhorado muito, em especial graças àquele “padre irlandês” — o pregador radialista Charles Coughlin — “que partiu para a ofensiva com métodos essencialmente americanos, extremamente
eficientes com os cidadãos de lá”.27 Desde que as sanções tinham sido anunciadas, Coughlin usava seu programa radiofônico de meia hora, transmitido todos os domingos, para denunciá-las. “A Liga das Nações e suas sanções”, disse a seus milhões de ouvintes no fim de novembro, “existe com um só propósito: agir quando os interesses britânicos estão
em jogo.”28
Quando um problema de fato surgiu nos Estados Unidos, Mussolini estava certo de poder contar com o pessoal do Vaticano para ajudá-lo. No começo de 1936, a influente revista jesuíta America publicou um
artigo criticando a guerra. 29 O Duce mandou seu embaixador conversar com o chefe da ordem dos jesuítas para pedir ajuda.
Tendo começado suas atividades em meados do século XVI, os jesuítas tinham a reputação de serem os intelectuais da Igreja, e Pio mantivera a tradição de se aconselhar com eles. Eleito superior geral da Companhia de Jesus em 1915 — cargo que ocupou até morrer, mais de vinte e cinco anos depois —, Włodzimierz Ledóchowski vinha de uma família de aristocratas poloneses. Quando menino, servira como pajem na corte imperial austríaca. Seu pai, um conde, fora oficial de cavalaria no Exército austríaco. O tio, cardeal, destacara-se na Cúria, servindo como
líder da Congregação para a Propagação da Fé.30 O escritório de Ledóchowski, na sede mundial dos jesuítas, ficava a uma pequena distância do Vaticano.
22. Włodzimierz Ledóchowski, superior geral da Companhia de Jesus
O príncipe Bernhard von Bülow, que serviu como chanceler do Império Alemão na primeira década do século, descreveu Ledóchowski em suas memórias: “O superior geral é um homem de estatura mediana, com os olhos inusitadamente inteligentes, as feições enrugadas e moldadas de um sábio e a segurança de modos de um aristocrata nato.” Em 1924, quando visitou o líder jesuíta em Roma, o príncipe ficou impressionado com a simplicidade de sua sala, onde não havia quase nada além de uma imagem da Virgem e alguns retratos de papas. Compreendeu logo por que os superiores gerais jesuítas hesitavam em aceitar nomeações para o
cardinalato: o cargo que exerciam era mais influente.31
Ledóchowski presidira uma rápida expansão da ordem jesuíta, aumentando a sua presença nas Américas ao mesmo tempo em que multiplicava missões na Ásia. Embora fosse em certo sentido tirânico e sem dúvida severo, não era desprovido de senso de humor. Certo dia, um de seus colaboradores mais próximos entrou no escritório para falar com ele quando reparou em um jesuíta grandalhão que deixava a sala. “Você não o conhece?”, perguntou o superior geral. “É o padre B, um dos melhores que temos. Viu como está gordo? Quando se senta, ocupa pelo menos três lugares. É por isso que sempre o mando para as cerimônias oficiais. Porque a imprensa diz: havia uma grande representação da
Companhia de Jesus.”32
O líder jesuíta não fazia segredo de seu entusiasmo pelo regime fascista. Desde o instante em que Mussolini chegou ao poder, Ledóchowski fez o que pôde para acabar com a oposição da Igreja ao
Duce.33
Em seu encontro no começo de 1936, o embaixador italiano disse ao jesuíta que Mussolini queria que o editor antifascista de America fosse demitido e que um editor favorável ao regime entrasse em seu lugar. Ledóchowski atendeu prontamente. “De imediato, sem hesitação, o Padre Geral me entregou a cabeça do diretor da revista jesuíta americana”, escreveu Pignatti. Logo assumiu um novo editor,
devidamente entusiástico da causa fascista.34
Feliz com aquele apoio, Pignatti comentou que os inimigos da Itália eram inimigos da Igreja. Ledóchowski concordou. Os ataques que Mussolini vinha sofrendo por travar uma guerra na Etiópia, respondeu ele, eram apenas “um pretexto com o qual o judaísmo internacional está
lucrando para prosseguir em seu ataque à civilização ocidental”. 35
* * *
O DUCE SOFRIA imensa pressão. “Se a Liga das Nações tivesse seguido o conselho de Eden [Anthony Eden, secretário do Exterior britânico] e ampliasse as sanções contra a Itália para incluir o petróleo, eu teria sido obrigado bater em retirada na Abissínia em uma semana. Teria sido, para
mim, uma catástrofe indescritível”, diria mais tarde a Hitler. 36 A economia italiana sofria o impacto dos custos da guerra e das sanções. A calma aparência pública de Mussolini, disse o principal conselheiro
financeiro do papa, mascarava seu “estado de depressão física”. 37
A propaganda fascista tinha imaginado que a guerra seria a marcha breve e triunfal de um exército europeu moderno através do interior árido de um país defendido por selvagens de lança em punho, mas, em vez disso, as tropas italianas experimentavam constrangimentos em sequência. Em 6 de dezembro, dois meses depois da invasão inicial, quando os italianos começaram a bombardear a cidade de Dessie, um fotógrafo tirou uma foto do imperador, Haile Selassie, atirando com uma metralhadora contra aviões italianos que sobrevoavam o local. Pior, o fotógrafo também registrou aviões italianos bombardeando o hospital americano, com as unidades da Cruz Vermelha aparecendo com clareza na imagem. Ainda naquele mês, os etíopes juntaram dezenas de milhares de soldados e por algum tempo impediram o avanço do Exército da Itália. No começo de janeiro, os italianos marcharam sobre Tembien, sem saberem que um exército de mais de cem mil etíopes os esperava. Unidades de camisas-negras encabeçavam o ataque. Metade dos oficiais milicianos foi morta num único dia. No último minuto, a chegada de aviões italianos despejando ogivas de gás venenoso salvou os
sobreviventes em pânico de uma retirada abrupta.38
A invasão italiana, que perdera o rumo, voltou aos trilhos em fevereiro de 1936, graças, em boa parte, ao uso de armas proibidas por tratados internacionais. Os etíopes não possuíam força aérea e, quando os aviões italianos lançavam bombas incendiárias em aldeias e gases venenosos contra os moradores em fuga, eles não tinham como reagir. “Trabalho muito divertido, trágico, mas belo”, escreveu Vittorio, filho de Mussolini, a respeito dos ataques aéreos, dos quais ele, além do irmão Bruno e do cunhado Galeazzo Ciano, participavam. Quando as vítimas dos ataques de gás venenoso foram exibidas pela imprensa mundial, os jornais italianos alegaram que as deformidades dos etíopes eram causadas
pela lepra.39
“Mussolini tem contado com muita sorte, muita sorte”, observou Pio XI, em meados de março de 1936. Uma semana antes, Hitler enviara tropas alemãs à Renânia, desviando a atenção internacional da guerra na
Etiópia.40 Animado por uma recente série de vitórias militares, o Duce deixou claro que a guerra terminaria no campo de batalha. Nas semanas anteriores à ocupação de Adis Abeba, no começo de maio, a debandada assumiu proporções de quase genocídio. O chefe do Partido Fascista Achille Starace, no comando de uma unidade motorizada, supervisionava o incêndio das aldeias por onde o exército passava. Os feridos, com muita sede, cambaleavam rumo aos lagos para beber, mas a água que encontravam era saturada de gás mostarda, que conduzia a uma morte
agonizante. Dezenas, talvez centenas, de milhares morreram.41
Conforme o exército italiano se aproximava de Adis Abeba, Haile Selassie percebeu que tudo estava perdido. Em 2 de maio, num gesto que indignou alguns conterrâneos orgulhosos, ele e seu entourage fugiram da cidade num trem. Na capital que ele deixou para trás, os guerreiros, sem liderança e em busca de armas e dinheiro, saquearam casas, lojas e escritórios. Alguns tentaram incendiar a cidade para que os italianos não a tomassem. Os europeus se amontoaram nas embaixadas, que foram atacadas. O caos foi assustador, porém breve, pois em 5 de maio o general Badoglio entrou em Adis Abeba à frente de uma coluna de dois mil veículos, precedida por carros repletos de jornalistas italianos que
estavam ali para registrar o triunfo.42
No dia seguinte, Tacchi Venturi enviou a Mussolini uma carta de
congratulações.43 “Excelência”, escreveu ele, “depois de ter agradecido a Deus pela vitória e pela paz romana, permita-me dirigir uma palavra de alegria sincera e ardente a Vossa Excelência! O Senhor o ajudou, de maneira maravilhosa, a não desistir nas horas mais difíceis e incertas. Os corações de todos os bons católicos italianos suplicam a Deus que continue lhe dando sua divina ajuda, para que os frutos da vitória sejam verdadeiramente aqueles que se tem o direito de esperar de um vencedor
país católico apostólico romano.”44
Em 9 de maio, uma multidão de cem mil romanos se reuniu na Piazza Venezia. Erguendo bandeiras fascistas e acenando com lenços, os presentes fixaram os olhos na sacada de Mussolini. Outros milhares entupiam as ruas vizinhas. Cantos ritmados e trovejantes de “Du-ce! Du-ce!” sacudiam as velhas paredes.
Em todo o país, em cidades e vilarejos, por menores e mais remotos que fossem, os sinos das igrejas convocaram todos os moradores para a praça central. Alto-falantes entravam em ação, prontos para transmitir o discurso de Mussolini. Em Roma, três rajadas de trombetas soaram no palácio do Duce, mas poucos conseguiram ouvir; a iminência da aparição dele criou uma agitação quase impossível de aguentar. Por fim, o grande homem foi até a sacada e pôs-se de pé, ereto, imóvel, as mãos no parapeito de mármore, os ombros largos afastados, a expressão no rosto quadrado imutável, como se ele também fosse de mármore. Mussolini franziu as sobrancelhas em concentração fascista, inclinando o torso para trás enquanto levantava o braço direito numa saudação romana. Urros da multidão ecoaram pela piazza. Só então o rosto dele se abrandou num sorriso benévolo, como se de certa forma recompensasse o povo pela adoração e fé.
“A Itália”, proclamou o Duce, “enfim tem o seu império.”
A multidão explodiu. A piazza, escreveu uma testemunha, era como um templo sob uma cúpula celestial. Mussolini acenou em agradecimento, mas silenciou os espectadores. Tinha mais a dizer.
Os etíopes se tornariam súditos do Reino da Itália, explicou. O rei da Itália agora teria mais um título: Imperador da Etiópia.
— Erguei bem alto vossos emblemas, vossos braços e vossos corações — convocou Mussolini — para saudar, depois de quinze séculos, o ressurgimento do Império nas fatídicas colinas de Roma. Sereis dignos dele? — perguntou à multidão.
— Sim! — berraram todos em resposta.
— Vossos gritos são como um juramento sagrado, que vos une perante Deus e perante os homens, na vida e na morte. Saudai o rei! — disse o Duce. Nesse momento, ele ergueu o braço direito na saudação fascista; e as multidões na Piazza Venezia e nas praças centrais de cidades e vilarejos de toda a Itália estenderam os braços e gritaram de alegria.
No dia seguinte, nas catedrais e igrejas do país, milhões de italianos
celebraram missas especiais de ação de graças.45
* * *
O FIM DA guerra foi um grande alívio para Pio XI. Ele nunca a quisera, e ela havia colocado o Vaticano sob grande pressão. Mas a situação internacional continuava a lhe pesar bastante sobre os ombros. O pontífice temia que o conflito tivesse empurrado Mussolini ainda mais na direção dos braços de Hitler. Temia também que a conquista na África subisse à cabeça do Duce e que o ditador voltasse sua atenção para o Adriático. A Albânia, disse o papa ao encarregado de negócios francês no começo de junho, provavelmente seria o próximo país na lista de
Mussolini.46
O papa se sentia cada vez mais fraco. Em abril, não tinha aparecido em São Pedro para celebrar a missa do domingo de Páscoa. Abandonara as caminhadas diárias, limitando-se a raros passeios pelos jardins do Vaticano em seu grande sedã americano. Um elevador fora instalado no palácio Apostólico para que ele não precisasse mais subir e descer as escadas entre
os aposentos particulares e o estúdio.47
Mussolini estava triunfante, aborrecido apenas com o fato de que, finda a guerra, as sanções da Liga das Nações continuavam em vigor.
Mais uma vez pediu ajuda ao Vaticano. 48 O cardeal Pacelli fez o que pôde para atender. Durante um encontro com o embaixador britânico, insistiu em que não haveria paz na Europa enquanto as sanções não
fossem suspensas.49 Pacelli repetiu essa mensagem nos encontros quinzenais com embaixadores europeus. O papa também fez a sua parte, dizendo ao embaixador francês que as sanções não tinham mais qualquer
sentido prático.50 51 Em 7 de julho, a Liga das Nações suspendeu-as.
Curiosamente, o embaixador da Itália na Santa Sé, Bonifacio Pignatti, achou que Mussolini estava exagerando o seu apreço ao apoio do papa. O pontífice, disse ele ao Duce, agira apenas em interesse próprio. Não se passava um dia sem que um enviado da Santa Sé perambulasse pelos corredores e pelas salas dos ministérios, inclinando-se sobre funcionários para sussurrar algum pedido. Pio tinha muito a perder se algo acontecesse ao regime fascista.
Não havia dúvida, acrescentou Pignatti, de que o apoio entusiástico, quase universal, do clero italiano e da hierarquia do Vaticano ao esforço de guerra tinha sido valioso. Mas “não se esqueça de que, no conflito ítalo-etíope, o papado se via enfrentando uma coalizão judaico-maçônico-bolchevique”, firmemente apoiada pelo protestantismo. Se a Santa Sé apoiara a guerra de Mussolini, disse ele, isso se devia ao fato de que a Igreja estava travando a própria batalha santa contra os mesmos
inimigos. 52 Pelo visto, a teoria da conspiração de Tacchi Venturi conquistara mais um adepto.
A Etiópia foi o maior triunfo de Mussolini, ou pelos menos assim lhe parecia. Todos os dias, durante a guerra, ele acompanhara ansiosamente a movimentação das tropas, mudando pequenas bandeiras italianas de lugar
no gigantesco mapa que tinha em seu gabinete.53 Antes dele, ninguém havia prestado a menor atenção à Itália. Agora, os líderes mundiais não paravam de falar sobre o que o Duce faria. Bispos e padres o tinham inundando com suas cruzes de ouro e seus bens sagrados. Vítor Emanuel III o agraciara com a mais alta honraria militar do Estado, a Grã-Cruz da Ordem de Saboia. O rei também se oferecera para fazê-lo príncipe, mas ele recusara. “Majestade, fui e sou apenas Mussolini”, disse ao monarca. “As gerações de Mussolinis sempre foram gerações de camponeses, e isto
para mim sempre foi motivo de orgulho.” 54
A profecia feita um ano antes por Margherita Sarfatti na janela que dava para a Piazza Venezia se revelaria certeira. Agora, o sentimento de importância de seu antigo amante não tinha limites. Parecia que sua confiança nos próprios instintos chegara ao ponto de fazê-lo pensar que o papa não era o único indivíduo infalível na Cidade Eterna. Com a ajuda do sicofanta Starace, ele logo elevaria o culto da personalidade a níveis assustadores, com estátuas, retratos e fotografias em toda a parte. Pintados em letras garrafais, seus slogans — “Acredite, obedeça, lute”, “Mussolini tem sempre razão”, “Muitos inimigos, muita honra” — cobriam as
paredes de casas e celeiros. 55 Alunos de escolas secundárias já recitavam uma “oração para o Duce”, agradecendo a Deus por Mussolini, “que amo mais do que qualquer coisa no mundo”. Terminavam com uma
promessa: “Humildemente lhe ofereço minha vida, ó, Duce!” 56
Centenas de milhares de jovens e milicianos fascistas começariam a passar as tardes de sábado — apelidadas de “sábado fascista” — praticando o novo passo romano. Embora Mussolini dissesse que era baseado na marcha militar das legiões da Roma antiga, sua semelhança com o passo de ganso nazista não passou despercebida. Nesse ponto, também, Sarfatti tinha razão. Mussolini conduzia a Itália para os braços da Alemanha nazista, um desastre anunciado.