O Papa e Mussolini
Capítulo vinte e seis
FÉ NO REI
Sem acreditar que Mussolini pudesse violar tão descaradamente a concordata que servira tão bem aos dois, Pio XI escreveu ao Duce para adverti-lo de sua insensatez.
“Ao Nosso Querido Filho”, começava o papa, prosseguindo sem mencionar o primeiro artigo da nova lei, que estabelecia que “o casamento entre um cidadão italiano da raça ariana com uma pessoa pertencente a outra raça é proibido”. Em vez disso, fez objeções ao artigo 7o, que violava com nitidez a cláusula da concordata segundo a qual casamentos aprovados pela Igreja teriam efeitos civis. “Essa vulnus [ferida] pode ser evitada com facilidade”, disse o papa ao Duce, “se em vez do texto do artigo acima mencionado (...) for adotada a versão que apresentamos aos seus colaboradores, mas que infelizmente não foi aceita.” O papa anexou o texto que recomendava, uma revisão do artigo 7o que Buffarini rejeitara com tanta raiva no dia anterior. Com isso ficaria permitido o casamento entre dois católicos, independentemente de sua
“raça”.1
Num último e desesperado esforço para fazer o ditador mudar de opinião, Tacchi Venturi lhe fez um apelo pessoal. Como alguém que servira o Duce durante tantos anos e que tinha sempre dado provas de
lealdade e amor, ele lhe suplicava que aceitasse o pedido do papa.2
Mussolini rejeitou o apelo de última hora do pontífice sem pensar duas vezes, informando-lhe, na manhã seguinte, que não faria qualquer mudança na lei. Furioso com a rejeição, o papa decidiu apelar para o rei. Pio XI nunca tinha escrito a Vítor Emanuel com outro objetivo que não fosse apenas cerimonial. Dessa vez lhe pedia “para intervir com Vossa autoridade suprema para obter aquilo que fomos incapazes de conseguir (...) com o Vosso Primeiro-Ministro”. O papa chamava a atenção do rei para o tratado que tinha sido solenemente assinado em seu nome, em 1929, e para o fato de que a lei matrimonial proposta se chocava diretamente com suas cláusulas. Ele anexou o texto de sua versão
alternativa para o artigo 7o 3 .
Anos depois, na esteira de uma guerra desastrosa, os italianos realizariam um referendo para decidir se mantinham a monarquia. Voltaram-se contra o rei, acusando-o de não ter encarado o ditador. Em nenhum outro momento a covardia de Vítor Emanuel foi mais clara — ou, olhando para trás, mais humilhante — do que na aprovação de todas as leis raciais propostas por Mussolini. Enquanto judeus eram expulsos de escolas e demitidos dos empregos, vilipendiados pelo Estado e despojados de seus meios de subsistência, o rei continuava a assinar todos os projetos de lei que Mussolini lhe submetia em seus encontros, que ocorriam duas vezes por semana no palácio do Quirinal. Em certo sentido até agravando a situação, o rei não tinha empatia alguma pela deificação nazista da raça ariana, ou pelas tentativas de Mussolini de elaborar uma variante italiana; ele simplesmente não tinha coragem de enfrentar o Duce.
A resposta do rei ao papa em 7 de novembro refletia a mesma
covardia.4 Vítor Emanuel agradeceu ao pontífice pela carta e disse que tinha encaminhado uma cópia para Mussolini, na esperança de que fosse possível encontrar uma solução que “conciliasse os dois pontos de vista”.
E isso foi tudo.5 De sua parte, Mussolini mais uma vez mandou dizer ao papa que não poderia aceitar seu pedido, pois fazê-lo seria minar a
intenção da nova lei matrimonial.6
No começo da semana, Ciano teve um encontro com Hermann Göring, chefe da força aérea alemã e ministro do Planejamento de Hitler. Apesar da sua obsessão pelos nazistas, o genro janota de Mussolini achava muitos dos líderes do governo alemão bastante grosseiros. Deixou um vívido retrato de Göring em seu diário: “Em trajes civis, usando um terno cinza caro e chamativo. A gravata, de nó antiquado, traz um anel de rubi espetado. Outros grandes rubis nos dedos. Na lapela, uma grande águia nazista com brilhantes. Lembra vagamente ‘Al Capone’.”
Depois Ciano pôs o sogro a par de suas discussões com Göring. E tocou no assunto do apelo do papa ao rei. “Não posso dizer”, observou
Ciano, “que o Duce esteja muito abalado.” 7
Ciano fez parte de um grupo que almoçou naquele dia na embaixada americana em Roma. O convidado de honra era ninguém menos que o arcebispo de Chicago, o cardeal Mundelein, em visita ao Vaticano. O presidente Roosevelt, para demonstrar solidariedade a Mundelein na esteira da tempestade causada pelo cardeal ao denunciar Hitler no ano anterior, recebera-o na Casa Branca antes de sua partida. O presidente instruiu o embaixador Phillips a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para mostrar o apoio americano ao arcebispo durante a estada dele na
Itália. 8
O núncio papal também estava no almoço, e, ao ver Ciano, abriu caminho entre os convidados para falar com ele. A nova lei matrimonial constava da agenda do Conselho de Ministros para o dia seguinte, e o genro do Duce estava preocupado. Mussolini andava tão agitado com o assunto que o texto acabara ficando muito mais drástico do que a versão anterior. Ciano achava que seria um desastre se a lei viesse a pôr fim ao apoio do Vaticano ao regime fascista.
— O que o papa vai fazer? — perguntou ele a Borgongini.
— Não sei, porque o papa não conta a ninguém o que vai fazer — respondeu o núncio. — Mas pode ter certeza de que será algo grande.
— Um protesto diplomático ou um protesto público? — insistiu Ciano, nervoso. Borgongini respondeu que não sabia, mas sugeriu que Ciano, como ministro do Exterior, interviesse para a manutenção do Tratado de Latrão. — E o que podemos propor agora? Tanto o Santo Padre quanto o Chefe do Governo vêm tratando disto. Portanto eu, como ministro das Relações Exteriores, e o senhor, como núncio, não podemos fazer nada.
Borgongini argumentou que não era tarde demais, que Ciano poderia propor uma comissão bilateral para examinar a questão. Quando Ciano lhe perguntou o que poderia dizer para persuadir o Duce, o núncio ressaltou, mais uma vez, que poucos casamentos seriam afetados. No fim da conversa, Borgongini saiu convencido de que, se pudesse, Ciano faria
alguma coisa para impedir uma crise com o Vaticano.9
Aquela noite, 9 de novembro de 1938, continua gravada na memória histórica como Kristallnacht, uma noite de horrores na Alemanha. Usando como pretexto o assassinato na França de um diplomata alemão por um adolescente judeu refugiado da Polônia, saqueadores nazistas reduziram sinagogas a cinzas, pilharam lojas de judeus e caçaram e espancaram judeus aterrorizados. Dezenas deles foram assassinados, dezenas de milhares, presos, e muitos mandados para campos de concentração. Centenas de sinagogas foram destruídas por incêndios, e milhares de comerciantes de origem judaica foram roubados. Depois da violência, o governo alemão anunciou que os judeus não podiam mais ser donos de lojas ou de qualquer outro negócio, exercer ofícios, ou entrar em teatros e salas de concerto, e que aquilo que restara de suas propriedades seria confiscado e transferido para cristãos. Centenas de judeus cometeram suicídio. Ciano recebeu um longo relatório do embaixador italiano na Alemanha repleto de pormenores macabros. Pacelli recebeu um longo
relato do núncio em Berlim.10
A imprensa católica italiana pouco disse sobre os horrores sofridos pelos judeus da Alemanha. O semanário diocesano de Veneza concentrou todo o seu desdém no adolescente judeu que matou o diplomata nazista, o “judeu que friamente apontou o seu revólver (...) armado, no coração, de um profundo sentimento de ódio, vingança e rancor”. E acrescentou: “Confessamos nossa incapacidade de compreender como pode um homem, com calculada premeditação, atacar um funcionário pacífico e desconhecido.” Sobre o assassinato em massa dos judeus patrocinado pelo
governo da Alemanha, o semanário diocesano não disse nada. 11
Enquanto sinagogas eram incendiadas e judeus eram perseguidos e capturados na Alemanha, o padre Tacchi Venturi estava na cama, incapaz de dormir. Sabendo que o Conselho de Ministros de Mussolini se reuniria no dia seguinte, ele tentava encontrar um jeito de impedir um rompimento entre seus dois patronos. Levantou-se, acendeu a luz e redigiu uma carta para o Duce.
“A mudança que estou propondo”, escreveu, “salva os princípios básicos da lei”: a afirmação de que os italianos são arianos, e os judeus, não. “Ela apenas abre uma exceção.” Mais uma vez Tacchi Venturi lembrou que esses casos seriam raríssimos. “Se levarmos em conta o reduzido número de cidadãos italianos de raça judia, a aversão que têm quase todos os judeus a se casarem com cristãos, e os cristãos com judeus, ainda que convertidos, não tenho medo de afirmar que haverá menos de cem casamentos entre esposos de raças diferentes, mas ambos professando a religião católica.” O fato de que o jesuíta, normalmente astuto, acordasse no meio da noite só para repetir argumentos que já apresentara
tantas vezes ao Duce mostra como estava desesperado.12
Enquanto isso, Roberto Farinacci, feliz por desempenhar a sua parte em pressionar o Vaticano, ajudava o Duce a conquistar apoio popular para as leis antissemitas. Apresentou as novas medidas como enraizadas nos ensinamentos da Igreja Católica Romana. No verão anterior tinha publicado uma série de artigos antissemitas em seu jornal, citando La Civiltà Cattolica para justificar a campanha. Deu a um deles o título de “Uma lição de catolicismo para católicos”. Em 7 de novembro, numa palestra muito divulgada que fez em Milão, e anunciada como “A Igreja e os judeus”, ele citava bastante o Novo Testamento para afirmar que a Igreja Católica era a fonte original das medidas antissemitas fascistas. Infelizmente, lamentava ele, o papa tinha mostrado nos últimos tempos sinais de afastar-se desse ensinamento central da sua Igreja. “Que aconteceu”, perguntava, “para fazer com que a Igreja oficial hoje seja filossemita em vez de antissemita? (...) Por que os comunistas, maçons, democratas, todos os inimigos jurados da Igreja, a elogiam agora e lhe oferecem ajuda?” Sua resposta era simples: “Para usá-la contra o fascismo.”
Il Regime Fascista deu ao discurso de Farinacci uma cobertura de página inteira, acrescentando um encarte histórico em três colunas com o título “As disposições dos conselhos e os papas contra os judeus através dos
séculos”.13 Muitos jornais reproduziram a reportagem. Il Giornale d’Italia, que havia sido o primeiro a publicar o Manifesto de Cientistas Raciais, resumiu a mensagem central em poucas palavras: “O honrado Farinacci conclui, entre fervorosos aplausos, declarando que é impossível para os católicos fascistas renunciar àquela consciência antissemita que a Igreja
formou através dos milênios.” 14
Em sua reunião de 10 de novembro, o Conselho de Ministros do governo aprovou as novas leis raciais. O Duce aguardou ansioso para ver se o papa cumpriria as ameaças. Apesar de toda a sua bravata, não queria ver o Vaticano voltar-se contra ele. O apoio da hierarquia da Igreja, do pontífice aos párocos, mostrara-se valioso demais, e ele agora tinha ambições maiores para o seu regime. Perder o apoio da Igreja poderia
custar-lhe caro. 15
O Duce só não estava mais preocupado porque, durante as semanas de frenéticas negociações, arriscada diplomacia e lamentações do papa, nem Pio XI, nem seu enviado jesuíta, nem seu secretário de Estado, nem o núncio jamais tinham expressado qualquer oposição ao grande volume das leis raciais destinadas a despojar os judeus dos seus direitos como cidadãos italianos. A Santa Sé não havia protestado contra a expulsão de crianças judias ou de professores judeus das escolas, nem contra a expulsão de professores judeus das universidades. Nem Pacelli, nem os dois enviados do papa — o núncio oficial e o jesuíta oficioso — jamais tinham dito uma palavra para contestar a decisão do governo de tratar os judeus como um perigo para a saudável sociedade italiana. Para qualquer pessoa ansiosa por ver um sinal da opinião do Vaticano sobre a nova campanha de perseguição, incluindo párocos e bispos em busca de orientação sobre como reagir, a mensagem era clara. O Estado enfim ouvira as advertências que apareciam no jornal do Vaticano e eram repetidas com regularidade na revista supervisionada pela Santa Sé, La Civiltà Cattolica , e em boa parte da imprensa católica, dos boletins semanais diocesanos aos jornais mais importantes.
A recente abertura dos Arquivos Secretos do Vaticano trouxe à luz um informe que deixa claro que, no entendimento da Santa Sé, o acordo negociado por Tacchi Venturi com Mussolini em 16 de agosto, prometendo não criticar as leis raciais em troca de tratamento favorável à Ação Católica, continuava em vigor. Preparado no começo de novembro na Secretaria de Estado, o documento relata os tratos do Vaticano com o governo fascista sobre a campanha antissemita. Depois de uma descrição dos comentários feitos em 28 de julho por Pio XI denunciando o “nacionalismo exagerado”, vem uma longa seção intitulada “Acordo Mussolini-Tacchi Venturi (16 de agosto de 1938)”. A anotação diz: “Enquanto isso o Santo Padre orientava o padre Tacchi Venturi a buscar um acordo. E o padre Tacchi Venturi teve êxito. O acordo de 16 de agosto de 1938 consiste de três pontos”. Então, o texto passa a resumi-
los. 16
Mussolini supunha que a Santa Sé estava lucrando demais com a aliança com o Estado fascista para colocá-la em risco. Durante anos, o Vaticano vinha se aproveitando das relações privilegiadas com o regime para confiscar livros e revistas que julgava ofensivos, impedir que protestantes fizessem prosélitos e impor os padrões de modéstia feminina da Igreja. Mussolini era, no fim das contas, o “homem da Providência” que havia garantido que cada grupo da juventude fascista tivesse um padre responsável, que os impostos italianos fossem usados para pagar despesas da Igreja e que o clero católico ocupasse posições de honra em todas as cerimônias de estado.
37. As leis raciais, expostas em La Difesa della Razza, 20 de novembro de 1938
Se tivesse visto o telegrama confidencial que o cardeal Pacelli mandou aos núncios papais em todo o mundo no dia seguinte à aprovação da lei matrimonial, Mussolini se daria conta de que sua jogada fora bem-sucedida. Ao proibir o casamento entre dois católicos de raças diferentes, informou-lhes Pacelli, a nova lei claramente violava a concordata. Que lições deveriam os núncios tirar disso, e o que dizer àqueles que lhes perguntassem? Pacelli fez o possível para minimizar o conflito: “Deve-se notar que a violação da concordata é limitada a um pequeno número de casos (...) Algumas dúzias, enquanto todo ano na Itália mais de trezentos mil casamentos religiosos são celebrados e continuarão a ser, todos
registrados segundo a lei.”17
A carta oficial de protesto do Vaticano ao governo italiano não poderia ter sido mais humilde. O papa resolveu não dizer nada. Apesar de tantas ameaças, no fim ainda preferia que o conflito não prejudicasse as relações entre a Igreja e o regime fascista, benéficas para os dois lados. Pio mandou Pacelli preparar a carta, que deveria ser entregue não ao rei, nem mesmo a Mussolini ou Ciano, mas a Pignatti, o embaixador italiano.
A mensagem começava dizendo que a nova lei matrimonial entrava em conflito com o artigo 34 da concordata. Depois de observar que a Igreja acolhia pessoas de qualquer raça, Pacelli tentou mais uma vez minimizar as objeções da Santa Sé à nova teoria racial do regime. A Igreja, escreveu ele, preocupava-se havia muito com a mistura de raças. “A Igreja, sempre mãe amantíssima”, explicava o futuro papa, “em geral aconselha seus filhos a não contraírem matrimônios que apresentem riscos de progênie defeituosa e, nesse sentido, está disposta, dentro dos limites do direito divino, a apoiar os esforços das autoridades civis a alcançar este mesmo objetivo virtuoso.” Mas, quando, apesar de a Igreja desaconselhar, dois católicos de raças diferentes insistiam em se casar, ela não poderia negar esse sacramento a eles.
A nota de Pacelli acatava a opinião dos fascistas — e dos nazistas — de que os judeus eram uma raça à parte. Ele não fez qualquer esforço para corrigir a noção do governo sobre possíveis efeitos físicos nocivos de uma “mistura racial” entre católicos italianos e judeus e minimizou o impacto que a nova lei teria. Casamentos entre católicos e judeus convertidos ao catolicismo eram extremamente raros, escreveu, “raridade essa favorecida também pela aversão comum tanto a católicos quanto a israelitas a se unirem com pessoa de outra raça”.
O secretário de Estado concluía a carta expressando seu pesar por ter se tornado necessário protestar contra a ferida infligida à concordata, mas finalizou em um tom positivo. Manifestou a esperança de que o governo ainda pudesse fazer as modestas alterações necessárias para restaurar a
harmonia com o Vaticano.18
O protesto público, como se viu, viria na edição de 15 de novembro de L’Osservatore Romano, num artigo de primeira página intitulado, muito brandamente, “Com relação ao novo decreto-lei”. Pacelli reviu o texto com atenção antes da publicação. “Ele quis dar ao texto”, disse Tardini, “um tom calmo e sereno, entre outras razões para não prejudicar a possibilidade de futuros aprimoramentos nas leis e de um fim para o
conflito.”19 O artigo refletia a linguagem usada na carta formal de protesto de Pacelli. E terminava manifestando a esperança de que um acordo ainda pudesse ser encontrado para resolver o “exíguo número de
casos afetados”. 20
Mas havia uma história dramática por trás do suave protesto publicado na edição de 15 de novembro do jornal do Vaticano. Às dez e vinte daquela manhã, o monsenhor Tardini, secretário para Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, recebeu um recado urgente: Pio XI queria vê-lo de imediato. Deveria levar o material preparado para o artigo de L’Osservatore Romano. Temendo o que vinha pela frente, Tardini pegou o arquivo e correu para os alojamentos do pontífice. “Encontrei o papa com o rosto vermelho e agitado”, lembrava-se. Pio tinha nas mãos um exemplar do jornal.
Por que, quis saber o papa, a parte mais importante do artigo estava faltando, a que ele tinha revisto e aprovado no dia anterior? Ele queria que o artigo incluísse o texto de suas cartas ao Duce e ao rei. Acima de tudo, queria mostrar a resposta do monarca. A carta de Vítor Emanuel, insistia Pio XI, dizia a Mussolini que alterasse a lei matrimonial para atender às preocupações do papa. O pontífice queria que o mundo soubesse que Mussolini havia ignorado o pedido real.
Tardini tentou acalmá-lo. Sim, disse ele, o papa tinha mandado publicar o texto das cartas, mas devia ter esquecido que na noite anterior o cardeal Pacelli o demovera da ideia. Não só não era costume publicar correspondência diplomática sem o consentimento da outra parte, argumentara Pacelli, como a resposta do rei, que Pio tinha em tão alta conta, era, na verdade, constrangedoramente vaga e, no fim, sem eficácia alguma. O efeito de publicá-la teria sido mostrar ao mundo que o rei “não tinha a menor importância”. E havia ainda outra razão para que Pacelli não quisesse publicar a carta de Vítor Emanuel: ela chamaria a atenção para o fato de Mussolini não ter se dignado a responder, o que colocaria o Duce sob uma luz negativa. Quando Pacelli tocara no assunto, o papa o interrompera: “Cortesia soberana em oposição à suprema vilania!” O cardeal manteve sua opinião com bravura. Destacar o fato de Mussolini não ter respondido, insistia, poderia provocar represálias do governo.
A tentativa de Tardini de lembrar essa conversa a Pio XI não ajudou em nada a abrandar a raiva do papa. Num aparte, Tardini observou que o pontífice — famoso pela atenção aos detalhes — cada vez mais esquecido. Era por ter esquecido por completo a conversa com o secretário de Estado na noite anterior que ele ficara tão aborrecido com a peça de L’Osservatore Romano. Quando Tardini mencionou a esperança de Pacelli de que Mussolini ainda fizesse algo para amenizar o impacto da nova lei, o papa voltou a ficar agitado. “Mas quem lhe dá essa esperança?” Se havia algum motivo para esperanças, achava o pontífice, era o fato de o rei ter pedido a Mussolini que agisse, e era exatamente esse pedido que tinha sido excluído do artigo.
A essa altura, o cardeal Pacelli juntou-se ao grupo, e o papa partiu para cima dele com grande energia. Disse que sentia muito desgosto ao ver o que havia sido feito do artigo. Pacelli demonstrou preocupação com a saúde do pontífice, que não estava bem e não dormia. Mas essas tentativas de distrair o papa foram inúteis.
— Quem escreveu o artigo? — perguntou o papa.
— Fui eu, Santidade — respondeu Tardini.
— Não gostei nada dele — disse o pontífice.
O cardeal Pacelli, sem querer ficar de lado enquanto Tardini levava a culpa, interrompeu:
— Santidade, eu examinei o artigo e assumo toda a responsabilidade.
Um pouco mais calmo, o papa insistiu em corrigir o problema publicando a resposta do rei no número seguinte do jornal do Vaticano. Mas nem Pacelli nem Tardini queriam permitir isso. Tardini foi procurar Tacchi Venturi, que talvez pudesse convencer Pio a mudar de ideia. O jesuíta correu para o Vaticano.
Tacchi Venturi disse ao pontífice que havia conversado com pessoas próximas a Mussolini e tinha o prazer de informar que o tom comedido do artigo de L’Osservatore Romano daquele dia causara ótima impressão. Se ele achava que a notícia agradaria ao papa, estava muito enganado. Pio o interrompeu: “Não admira que eu esteja aborrecido! Mas esta noite vou fazê-los publicar um novo comunicado de imprensa!” Tacchi Venturi
ficou apavorado, mas seus apelos não demoveram o pontífice.21 Mais uma vez o cardeal Pacelli e seus colegas, deixando o papa desabafar a raiva, conseguiram se impor. L’Osservatore Romano nunca publicou a carta
do rei.22
Embora os italianos possam ser perdoados por acreditarem que a campanha fascista contra os judeus contava com o apoio do Vaticano, pelo menos um influente prelado italiano mostrou-se contra a maré. Sua objeção foi uma surpresa: o cardeal Ildefonso Schuster, arcebispo de Milão, tinha sido um dos partidários mais eloquentes e entusiásticos de Mussolini. Ainda no ano anterior, o embaixador francês na Santa Sé havia informado que Schuster, “conhecido por seus sentimentos muitos fascistas”, dera uma palestra na Escola de Misticismo Fascista elogiando
Mussolini por estabelecer um novo império católico romano. 23 Em 1930, o arcebispo recebera uma carta assinada por trezentos católicos de Milão que o repreendiam por ter abraçado, sem qualquer espírito crítico, os fascistas, o que levou as autoridades governamentais a pedirem a lista dos
signatários. 24 Em setembro de 1937, um informante da polícia disse que a perspectiva de Schuster vir a suceder ao adoentado Pio XI encontrava forte resistência entre os cardeais fora da Itália, que o consideravam
exageradamente vinculado ao regime fascista. 25
Mas no domingo, 13 de novembro, falando no Domo de Milão, Schuster fez o que ninguém no Vaticano faria: denunciou as leis raciais da Itália como produto de uma ideologia neopagã e afirmou que a Igreja jamais poderia aceitá-las. “É inútil querer estabelecer uma harmonia bilateral entre religião e pátria. O Estado fascista está criando sua própria ética que não tem nada, absolutamente, em comum com a ideia religiosa.” E acusou Mussolini de seguir Hitler de maneira servil, adotando uma ideologia racista de origem nórdica e pagã.
Com esse discurso, Schuster deixou de ser o queridinho dos fascistas de Milão, passando à condição de inimigo número um aos olhos dos líderes do partido. Só em 1951 o texto dos seus comentários enfim apareceria na revista diocesana de Milão, mas o jornal católico L’Italia informou sobre ele em 15 de novembro, provocando acalorada discussão e incredulidade. Segundo um informante secreto da polícia em Milão, o que mais assustou as pessoas foi a advertência do arcebispo de que um dia a ideologia racista do nazismo se voltaria contra os próprios italianos. “Nessa questão”, escreveu o informante, “o cardeal Schuster expressou
um temor extraordinariamente disseminado no norte da Itália.” 26
O governo não respondeu à carta de Pacelli protestando contra a lei matrimonial. Em 22 de novembro, três dias depois de a lei ter sido oficialmente publicada, Pacelli mandou um bilhete a Pignatti manifestando pesar pelo fato de as exceções solicitadas pelo Vaticano não
terem sido incluídas.27 Uma semana depois, Pignatti respondeu dizendo que, apesar de o governo ter tentado resolver as diferenças em relação ao texto da nova lei e de estar disposto a abrir algumas exceções, o Vaticano não aceitava nada menos do que o reconhecimento de todos os casamentos entre católicos, independentemente de raça. Isso o Estado fascista não poderia admitir. Pignatti destacou que o Vaticano tinha reconhecido a “boa base ética” das preocupações do Estado e desaconselhado “casamentos que acarretem o perigo de produzir crianças
defeituosas”. 28
Se os protestos do Vaticano contra as leis raciais foram limitados e débeis, o coro de denúncias provenientes dos Estados Unidos esteve longe disso. Devido aos estreitos laços dos italianos com os Estados Unidos, Mussolini temia que a população da Itália mudasse de opinião. A imprensa fascista não demorou a partir para o contra-ataque. O motivo de os Estados Unidos serem tão desfavoráveis, explicaram os jornais, era o fato de os judeus controlarem o governo e a imprensa daquele país.
Um jornal romano chegou a afirmar que os judeus tinham “controle total” do país. Disse que eles ocupavam cinquenta e dois dos setenta e cinco cargos mais importantes do governo dos Estados Unidos e controlavam setenta e cinco por cento da indústria americana. A “mesma força oculta que prevalece na Inglaterra, na França e na Rússia”, informou o jornal, “é absolutamente dominante em Washington. É em Washington que as atividades antifascistas e os planos das democracias, que são sinônimos de judiaria e maçonaria, são coordenados”. Acusando o presidente Roosevelt, “judeu pela raça”, de ser o “Papa da Judiaria Mundial”, perguntava quando, afinal, os italianos reconheceriam essa
terrível verdade. 29
A atmosfera no Vaticano ia se tornando cada vez mais incerta. À medida que a situação se deteriorava depressa, o papa ficava mais e mais fraco. Em 25 de novembro, Pio XI sofreu um ataque cardíaco. Embora tenha se recuperado mais uma vez, ninguém achava que fosse durar
muito. 30
* * *
O CARDEAL PACELLI continuava a ser o mais forte aliado de Mussolini no Vaticano. Depois do inesperado ataque do arcebispo Schuster, Pignatti, temeroso de que outros seguissem o exemplo, foi ver o secretário de Estado para lhe pedir que enviasse instruções por escrito a todos os bispos da Itália dizendo-lhes para não criticar a campanha antissemita.
O embaixador italiano achou Pacelli compreensivo, mas nem um pouco disposto a se expor. “O cardeal”, escreveu Pignatti, “observou que seria fácil dar o conselho que sugeri oralmente, mas que colocá-lo por escrito já seria mais difícil.” O embaixador sabia que Pacelli poderia ser pressionado e insistiu. “No fim”, disse Pignatti a Ciano, “o secretário de Estado me disse que algo já tinha sido feito na esfera da diocese de Roma. Além disso, anotou meu pedido, prometendo pensar na melhor maneira
de cuidar das outras dioceses da Itália.”31
Mussolini estava preocupado com sinais de que as leis raciais talvez estivessem corroendo o entusiasmo dos italianos pelo regime. Relatos policiais de cidades com números significativos de judeus davam conta de uma insatisfação generalizada. Um informante da polícia em Milão observou que, embora algumas pessoas estivessem sendo conquistadas pela propaganda antissemita, “uma grande maioria ainda considera exageradas muitas dessas medidas e condena o chefe do governo e o Grande Conselho por só terem tomado essas decisões porque a Alemanha as impôs como uma das condições necessárias para a formação do eixo Roma-Berlim”. Outro motivo de aborrecimento era que os fascistas encarregados da aplicação da política davam a seus próprios clientes os cargos deixados vagos pelos judeus. Além disso, estavam comprando
propriedades judaicas a uma pequena fração do seu valor. 32
Tendo perdido seus empregos e suas propriedades e tido os filhos expulsos das escolas, os judeus da Itália estavam desesperados. Vizinhos católicos, até então amigos, agora atravessavam a rua, nervosos, para não terem que cumprimentá-los. Havia boatos sobre planos nazistas de estabelecer campos de concentração. Os suicídios de judeus se multiplicaram. Angelo Formiggini, conhecido editor e poeta, escreveu para seus colegas dizendo que, embora fosse um bom italiano, não podia tolerar aquela perseguição sem fim. Numa carta à mulher, que não era judia, explicou que só a morte poderia livrá-la de abusos. Depois de despachar as cartas no correio, subiu os cento e noventa degraus da torre medieval que se avulta na piazza central de Modena e saltou. Uma poça de sangue manchou os paralelepípedos ao redor do corpo despedaçado.
“Morreu como um judeu”, gracejou o chefe do Partido Fascista, Achille Starace, ao saber da notícia. “Saltou de uma torre para não gastar
dinheiro com uma bala.” 33