O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 17 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo catorze

 

O INIMIGO PROTESTANTE E OS JUDEUS

 

Na manhã de 11 de fevereiro de 1932, o terceiro aniversário do Tratado de Latrão, uma caravana de quatro limusines pretas abriu caminho até o Vaticano. Carabinieri em uniformes festivos seguiram a cavalo entre os carros. Saudados à entrada da Cidade do Vaticano por guardas suíços, os veículos entraram no pátio de São Dâmaso. Ali foram recebidos pelos gendarmes papais, que carregavam uma bandeira papal, e por um contingente da Guarda Palatina de Honra, em suas golas de rufo, com suas alabardas reluzentes presas no flanco. Mussolini surgiu, trajando seu fraque diplomático. Ricos desenhos dourados cobriam suas mangas, e uma larga tira de ouro descia de cada lado da calça. Segurava o chapéu de

plumas em uma das mãos, uma espada cerimonial presa à cintura. 1

Havia meses que a imprensa especulava sobre a visita. Em setembro do ano anterior, três dias após o Duce e Tacchi Venturi assinarem o acordo que punha fim ao conflito em torno da Ação Católica, um título na primeira página do New York Times anunciou: “Mussolini visitará o papa

esta semana”.2 Depois disso, uma série de reportagens e de despachos diplomáticos informavam que a esperada visita do Duce ao pontífice não

demoraria, mas cada data prevista passava sem que o encontro ocorresse.3

Por fim, o ditador marcou a visita para fevereiro.4

Como parte dos preparativos, Pio XI conferiu a Mussolini uma honraria papal especial. Numa manhã de janeiro, Borgongini chegou ao palácio Venezia para a apresentação. O Duce, muito feliz e trajando roupas formais, recebeu-o com satisfação. O núncio lhe entregou uma carta do pontífice. O ditador estudou o documento com atenção. “Sou um dos poucos italianos que leem e compreendem latim!”, gabou-se, implausivelmente. Borgongini deu a Mussolini o presente do papa, a Ordem da Milícia Dourada, um belo colar com uma cruz de ouro. O

antigo agitador anticlerical era agora cavaleiro da corte papal. 5

No dia do histórico encontro com Pio, o Duce chegou com a cruz papal pendurada no peito. Estava adiantado doze minutos e, para o constrangimento de todos, monsenhor Pizzardo, encarregado de recebê-lo, não apareceu. Os guardas papais não tinham ideia do que fazer, além de permanecer em posição de sentido e prestar continência. Junto à porta, tendo a honra de ser uma das primeiras pessoas a verem a chegada de Mussolini, estava a idosa irmã do pontífice. No entanto, ela sem dúvida ficaria quieta. Por fim, Pizzardo apareceu descendo as escadas com pressa, atrasado porque Pio o mantivera na biblioteca para lhe dar instruções de última hora. Acompanhados de gendarmes, guardas suíços e camareiros papais, eles subiram as escadas.

19. Mussolini recepcionado pelo monsenhor Pizzardo ao chegar ao Vaticano para se

encontrar com o papa, 11 de fevereiro de 1932

 

Mussolini subiu a ampla escadaria em curva que conduzia à sala Clementina. O ornamentado salão tinha afrescos renascentistas nos dois terços superiores das imensas paredes e no teto inteiro. Numa das paredes, um friso representava as virtudes cardeais, enquanto um friso na parede contrária representava as virtudes teologais. O afresco A apoteose de São Clemente , de Alberti, adornava o teto. Mosaicos coloridos cobriam a parte inferior das paredes e todo o piso da grande sala retangular. As vinte pessoas convidadas para assistir à histórica chegada do Duce pareciam perdidas em meio àquela magnificência.

Contudo, logo o monsenhor Caccia Dominioni, mestre de cerimônias e encarregado de acompanhar Mussolini à biblioteca do papa, entrou na sala para receber o ditador e ficou ao mesmo tempo surpreso e confuso. Entre os homens formalmente vestidos havia uma mulher, uma jornalista estrangeira. Aquilo era impossível. Nenhuma mulher tinha permissão para estar presente numa ocasião como aquela. E o Duce já estava na metade da escadaria.

— Signorina, eu lhe suplico que saia imediatamente — pediu Caccia.

A loura enrubesceu de vergonha, mas não saiu.

— Tenho o direito de estar aqui, monsenhor — respondeu ela.

— Aqui quem decide os direitos sou eu — retrucou ele. — A senhora não tem o direito de estar aqui. Cumpro ordens do Santo Padre. — A mulher acenou com o convite, como se o repreendesse. Caccia, ouvindo o grupo de Mussolini subir a escada, ficou mais nervoso e agitado. — Signorina, não quero adotar outra coisa que não palavras suaves. Mas, se não sair imediatamente, serei obrigado a agir — ameaçou, olhando para uma dupla de imponentes gendarmes parados ali perto.

Furiosa e humilhada, a mulher cedeu, e um prelado a levou a uma saída nos fundos. Nesse momento, Mussolini entrou, e Caccia o cumprimentou efusivamente. Os guardas suíços apresentaram suas armas, espadas para o alto.

Caccia conduziu o Duce por uma sequência de salas esplêndidas, cada uma com seu contingente de soldados papais, guardas nobres e altas autoridades da Igreja. Chegaram à sala do Pequeno Trono, e dali o

ditador entrou na biblioteca do papa, onde Pio o aguardava. 6 Como fora combinado de antemão por sua própria insistência, Mussolini não se curvou nem beijou o anel do pontífice, reverências normalmente esperadas de um chefe de governo católico. O papa não permitiu fotografias, mas um artista de uma revista popular capturou a cena para o público. Mostrava Pio, de manto branco, solidéu papal e sapatos vermelhos, sentado numa de suas poltronas ricamente estofadas em frente à escrivaninha e voltado para o Duce, que estava sentado de paletó diplomático bordado e calça com tiras douradas, a cruz do papa presa ao

pescoço.7

20. Mussolini e Pio XI na biblioteca do papa, 11 de fevereiro de 1932

 

O encontro histórico teve cobertura da imprensa mundial. “O papa e o Duce se dão as mãos em pacto de amizade”, dizia a manchete do Chicago Daily Tribune. O título na primeira página do New York Times

declarava: “Papa e Mussolini se aproximam em encontro no Vaticano”. 8 Mas a melhor descrição que temos do encontro — a única vez em que os dois homens se reuniram na vida — vem do próprio ditador, que redigiu à mão um relato para o rei.

Pio XI convidou-o a se sentar, perguntando como a filha do Duce, Edda, estava se sentindo em Xangai, onde o marido servia como cônsul italiano.

Depois de algumas amabilidades desse tipo, o pontífice tocou no assunto que considerava mais premente. “O proselitismo protestante”, disse ele ao surpreso Mussolini — que não esperava que esse tema estivesse no topo da agenda daquele encontro — “está avançando em quase todas as dioceses da Itália, como mostra um estudo que encomendei aos bispos. Os protestantes estão cada vez mais audaciosos e falam de ‘missões’ que pretendem organizar na Itália”. O papa disse que eles tiravam proveito da linguagem infeliz da concordata, que se referia a religiões não católicas como cultos “permitidos”. Pio se opusera a essa frase, preferindo que fossem descritas como “toleradas”.

O Duce observou que havia apenas cento e trinta e cinco mil protestantes na Itália, trinta e sete mil deles estrangeiros — grãos de areia entre os quarenta e dois milhões de católicos.

O pontífice admitiu que os protestantes eram pouco numerosos, mas argumentou que, apesar disso, representavam uma grande ameaça. Entregou ao ditador um longo relatório sobre o assunto. Nos anos seguintes, bombardearia Mussolini com pedidos para conter os protestantes.

A conversa então se voltou para o recente conflito sobre a Ação Católica, e neste ponto temos que tratar com cautela as palavras que, segundo Mussolini, o papa teria dito. Depois de manifestar contentamento com a solução amistosa da disputa, Pio acrescentou (de acordo com o Duce): “Não vejo, no complexo de doutrinas fascistas — que tendem a afirmar os princípios da ordem, da autoridade e da disciplina —, nada que seja contrário aos ensinamentos católicos.”

O papa disse ainda que compreendia o princípio do “fascismo totalitário”, mas só no tocante ao reino material. Havia também necessidades espirituais, afirmou, e para essas o que se fazia necessário era o “totalitarismo católico”.

“Concordei com a opinião do Santo Padre”, comentou Mussolini. “Estado e Igreja operam em dois ‘planos’ diferentes e, portanto, uma vez delimitadas as esferas recíprocas, podem colaborar um com o outro.”

Por fim, o pontífice expressou seu pesar com o que acontecia na Rússia, onde, disse ele, os bolcheviques estavam empenhados em destruir o cristianismo. “Por baixo disso”, afirmou Pio, “há também o desprezo anticristão do judaísmo.” Ele recordou a época em que era núncio na Polônia: “Vi que em todos os regimentos bolcheviques os comissários civis eram judeus.” O papa achava que os judeus da Itália eram exceção. Falou com afeto ao Duce de um judeu de Milão que dera um grande presente para a Igreja e da ajuda que recebera do rabino de Milão na decifração de “certas nuances do idioma hebraico”.

No fim do encontro, Pio presenteou Mussolini com mais três

medalhas papais. 9 O Duce então se dirigiu ao escritório da Secretaria de Estado, onde passou vinte minutos com o cardeal Pacelli. Em seguida, foi escoltado até a basílica de São Pedro, para se ajoelhar perante o altar da Madona. Quando fotógrafos de jornal tentaram bater uma foto sua rezando, ele se levantou no mesmo instante e os enxotou. “Não. Não.

Quando alguém está rezando”, disse, “não deve ser fotografado.”10 Ninguém poderia fotografar o ditador de joelhos.

Mussolini chegou em casa muito bem-disposto. Ansiosos para ouvir os detalhes da visita, os filhos se reuniram à sua volta. Rachele não ficou tão impressionada, interrompendo o relato entusiasmado do marido para perguntar, cáustica: “Você beijou-lhe também os pés?” Assim,

abruptamente, a narrativa do Duce terminou.11

 

21. Mussolini no Vaticano, logo após a reunião com o papa, 11 de fevereiro de 1932; na

frente, a partir da esquerda: monsenhor Caccia Dominioni, Cesare de Vecchi, Mussolini

 

No mês seguinte, numa orgia de títulos honoríficos, Mussolini e o rei retribuíram as honras. Concederam ao cardeal Pacelli a Ordem Suprema da Santíssima Anunciação — a mais alta condecoração da Itália, que fazia dele “primo” do rei — e conferiram a Grã-Cruz dos Santos Maurício e Lázaro a Pacelli e a dois subsecretários de Estado, os monsenhores Pizzardo e Ottaviani. Contudo, o que mais chamou a atenção do clero foi a honraria concedida a alguém que não tinha nenhum cargo oficial na

Santa Sé: o padre Pietro Tacchi Venturi também recebeu a Grã-Cruz. 12

O papa embarcou num período de colaboração com o ditador italiano. Para o bispo de Nice, que estava em Roma, Pio explicou que era graças a Mussolini que a Igreja Católica ocupava novamente uma posição de poder na Itália. Quando o bispo lembrou-lhe da contundente batalha em torno da Ação Católica, o pontífice culpou os anticlericais que cercavam o Duce. “Ainda o vejo”, disse o papa, “sentado na mesma cadeira onde o senhor está, dizendo-me: ‘Reconheço que cometemos

alguns erros, mas tive que lutar contra todos os meus auxiliares.’”13

 

* * *

 

NAQUELE MESMO ANO, o papa comemorou seu septuagésimo quinto aniversário, desencadeando uma enxurrada de admiração na imprensa mundial. Num longo artigo, a revista do New York Times se manifestou efusivamente sobre a “surpreendente descoberta” de que, por trás da “tranquila erudição do chefe da Biblioteca do Vaticano, havia traços de um inato condutor de homens”. (O perfil do Times ecoava, sem saber, um comentário feito por Cesare de Vecchi depois de um encontro com o papa, três anos antes: “Todas as vontades cedem perante a do Santo Padre”, disse ele, acrescentando que não tinha dificuldade em imaginar Pio XI à frente de um governo ou de um exército. “Toda intriga possível

se desmancha em contato com esse bloco de granito.”) 14 Pio ainda caminhava vigorosamente como um homem muito mais jovem, afirmava

o artigo do Times, e passava quase todas as horas de vigília trabalhando. 15

O papa sem dúvida mantinha uma programação sufocante. Durante o Ano Santo de 1933-1934, dois milhões de peregrinos foram a Roma, e ele se encontrou com muitos deles, dando inúmeros discursos e celebrando incontáveis missas. Assinalando o aniversário de mil e

novecentos anos da crucificação, o Ano Santo foi de Páscoa a Páscoa.16

Pio XI não era um destacado orador. Em audiências públicas, improvisava seus comentários enquanto ia falando, sempre num lento staccato , pausando aqui e ali para ponderar cada novo pensamento. Referia-se com frequência à “Casa do Pai” ou “ao Pai Comum dos fiéis”. Outras vezes tirava vantagem de um dia santo, ou explorava alguma característica — nacional ou profissional — do grupo de visitantes para desenvolver seu tema. Tinha uma merecida reputação de prolixidade, e, devido à extensão de seus discursos, ao tamanho das multidões que atraía e ao calor muitas vezes sufocante, não era raro alguém na plateia desmaiar antes que ele terminasse. Durante a Quaresma de 1934, discorreu para um grupo de pregadores sobre a virtude de fazer sermões curtos — falando durante quarenta e cinco minutos para dar esse

recado. 17

Cardeais da Cúria e outros prelados do Vaticano continuavam a viver com medo dele. O pontífice, observou o arcebispo de Paris, nunca admitia um erro e tinha o hábito de proferir frases incisivas que considerava verdades inquestionáveis. Gaetano Bisleti, o venerável cardeal que coroou Ratti com a tiara papal em 1922, preparava-se para as audiências com ele indo à sua capela favorita no Vaticano, ajoelhando-se no piso de mármore e rezando para que o papa não encontrasse falhas no que ele tinha a dizer. Monsenhor Alberto Mella, que, após a nomeação de Caccia como cardeal, tornou-se mestre de cerimônias, rezava para todos os santos do céu antes de entrar no estúdio de Pio, na esperança de que o papa não achasse que ele estava pedindo demais. Numerosos cardeais, temendo aproximar-se do pontífice e atrair sua ira, recorriam a Pacelli, na esperança de que ele usasse suas habilidades diplomáticas para

conseguir o que queriam de Pio.18

No entanto, o papa conhecia o valor da palavra branda, em especial quando lidava com leigos. Um visitante que estivesse na presença do pontífice no palácio Apostólico fazia três genuflexões. Esperava-se que não católicos se curvassem como os católicos, o que não era fácil para alguns. Certo dia, um grupo de protestantes visitou o papa. Todos se apoiaram em um joelho, exceto um homem que, pouco à vontade, continuou desafiadoramente em pé, apesar de ligeiramente instável. Os ajudantes do papa ficaram tensos, trocando olhares furtivos para decidir quem resolveria a situação. Mas, enquanto hesitavam, Pio foi até o retardatário e perguntou: “Não quer receber a bênção de um simples velho?” Isso foi demais para o recalcitrante, que também dobrou o

joelho. 19

Na tradição dos monarcas europeus, o papa conservava sacolas de dinheiro nas gavetas da biblioteca para dar a suplicantes merecedores. Domenico Tardini, subsecretário de Pizzardo na Congregação para Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, estava incumbido de coordenar o socorro aos russos e, com frequência, precisava pedir dinheiro. Prelado romano de baixa estatura, queixo quadrado e bastos cabelos negros lanosos, Tardini era bastante sensível aos ânimos do pontífice. “Às nove com o papa, outra hora de audiência”, escreveu em seu diário em 9 de abril de 1934. “Hoje também ele está de excelente humor: o infalível termômetro cuja escala é o tamanho das doações que faz.” Enquanto Tardini explicava melhor o seu pedido, Pio XI, absorto, arrumava as moedas de ouro que havia tirado da gaveta, organizando-as por tamanho em pilhas sobre a mesa.

Quando estava bem-disposto, o papa, não muito conhecido pelo senso de humor, era capaz de fazer comentários espirituosos. No começo daquele ano, ele convocara com urgência o embaixador francês para discutir um assunto que o preocupava. Ao chegar, o embaixador pediu desculpas por não estar usando seus costumeiros trajes formais. O papa sorriu: “Sim, eu sei”, disse. “Em geral o senhor aparece encadernado em

couro. Hoje veio de brochura.” 20

Noutras ocasiões, Pio XI era mais irritável. “Hoje”, escreveu Tardini em 5 de outubro, “o papa está mais pronto do que nunca a contradizer e se opor. Tudo depende do seu estado de espírito, de alguma dolorosa experiência do passado, da (...) má digestão, não sei. Mas o certo é que o papa está sempre pronto a desconfiar e a fazer exatamente o oposto do que alguém lhe sugerir.” Tardini, que o conhecia bem, encontrou uma solução. Quando estava de mau humor, o pontífice fatalmente negava qualquer pedido. Por isso, nesses dias, Tardini propunha o contrário do que desejava, na certeza de que teria êxito. Pelo menos era o que dizia. “Foi o que fiz hoje”, escreveu em seu diário, “e com excelentes

resultados.”21

Embora cumprisse uma sufocante rotina de trabalho, Pio tinha suas modestas diversões. Amante da ordem, mantinha cada objeto em sua mesa no lugar apropriado e não desperdiçava nada. Chegava a guardar um monte de fitas tiradas dos pacotes que abria. Filho de um gerente de fábrica de tecidos, adorava pequenos projetos mecânicos. Durante anos, conservou uma minúscula chave de fenda na escrivaninha, para tentar consertar relógios. Quando um borrifo de óleo ou uma gota de tinta sujava sua túnica branca, ele fazia o possível, se ninguém estivesse

olhando, para limpá-la aos esfregões.22

Agora que já não precisava se apresentar como “prisioneiro do Vaticano”, Pio descobrira outra diversão. Em 10 de julho de 1933, numa carruagem com as cortinas fechadas, saiu de Roma pela primeira vez, com destino à propriedade papal em Castel Gandolfo, nas colinas Albanas. O ar puro e ameno da região, os vinhos famosos e a beleza natural atraíam distintos romanos até lá desde os tempos antigos. A propriedade papal não era utilizada desde 1869. Em sua primeira visita, o Santo Padre inspecionou as obras de restauração. A partir do ano seguinte passou a permanecer ali nos verões, a princípio durante dois meses, em 1934 e 1935, depois por períodos mais longos. Em seu palácio de veraneio, todo dia os assistentes lhe traziam documentos para examinar, e ele concedia audiências. Mas o ritmo era bem mais lento. Passeando pelos amplos jardins, o papa podia contemplar, cem metros abaixo, o lago formado pela boca de um vulcão fora de atividade. Respirar ar puro e se sentir perto da natureza lhe davam grande prazer, evocando lembranças

da vida na cidade pequena que deixara para trás. 23

 

* * *

 

MUSSOLINI NÃO DEVERIA ter ficado surpreso com a insistência de Pio em

obter sua ajuda no combate à ameaça protestante. 24 Na esteira da concordata, o papa ficara insatisfeito com as novas instruções divulgadas pelo governo, especificando como as religiões não católicas deveriam ser tratadas. “Eu disse ao chefe do governo”, lembrava-se o núncio, que levou a Mussolini a queixa do papa, “que o desejo de equiparar a Religião Católica aos cultos protestantes, parasitas que vivem de prejudicar a verdadeira religião, não era apenas inteiramente injusto, mas

ofensivo para nós.” 25 No ano seguinte, 1931, o papa mandou o núncio voltar para renovar suas súplicas. A propaganda protestante, disse ele ao Duce, representava o maior perigo que o país tinha diante de si. O

governo precisava agir com mais agressividade contra ela.26

Ao tentar fazer com que o regime contivesse os protestantes, o pontífice buscava argumentos que, a seu ver, pudessem agradar a Mussolini. Nenhum lhe parecia mais promissor do que afirmar que a lealdade à Igreja Católica e ao regime fascista eram uma coisa só. O protestantismo, insistia o papa, era anti-italiano, uma força estrangeira que representava um grande perigo tanto para o Duce quanto para a Igreja.

Membros da Ação Católica estavam sempre atentos a sinais de atividade protestante. Num caso típico, em maio de 1931, os líderes da organização numa cidade no centro da Itália escreveram a Mussolini denunciando um homem que distribuía literatura protestante. Pediram ao Duce que tomasse providências para que “a propaganda protestante seja

proibida em qualquer forma”.27

De sua parte, Mussolini relutava em acabar com reuniões protestantes e confiscar sua literatura. Em novembro de 1932, quando o papa mais uma vez mandou o núncio exigir ação, o Duce o interrompeu. “É melhor não exagerar”, respondeu o ditador, impaciente. A campanha causava má impressão em líderes de países protestantes, observou ele — que estavam horrorizados com as histéricas arengas antiprotestantes do

jornal do Vaticano. 28

Sem se deixar abater, poucos meses depois o papa reiterou sua convicção de que os protestantes da Itália eram “a grande cruz” que ele tinha que carregar. Ao ouvir essa declaração do núncio, Mussolini repetiu que havia poucos protestantes na Itália. Em mais uma vez isso não satisfez

nem um pouco o pontífice. 29

Embora o núncio Borgongini fosse o principal enviado do papa nesses esforços, Tacchi Venturi também teve seu papel. Passaria anos tentando convencer o Duce de que uma vasta conspiração maligna, encabeçada pelos protestantes e pelos judeus, estava agindo tanto contra o ditador

fascista quanto contra a Igreja Católica.30 Ele recorria a uma rede de informantes para saber das notícias mais recentes sobre essa trama secreta. Em junho de 1933, mandou uma cópia de um desses relatórios ao cardeal Pacelli.

“Acredito que, ao lhe comunicar as informações em anexo, não estou sendo incoveniente”, escreveu Tacchi Venturi num bilhete. Sobre a exatidão do relatório, disse a Pacelli: “Não acredito que seja possível ter quaisquer dúvidas, pois o autor é não apenas tão honesto quanto se pode ser, como também está situado numa posição especialmente favorável para saber do que está falando.”

O informante secreto de Tacchi Venturi contava que, pouco tempo antes, tinha visto uma circular do ministro do Interior endereçada a todos os prefeitos da Itália, recomendando-lhes que ficassem de olho na atividade política dos padres. Isso lhe pareceu estranho, dizia, pois “o mundo inteiro sabe do grande entusiasmo com que todo o clero, todas as associações católicas italianas e todos os católicos da Itália amam o Duce e o Regime”.

Havia apenas uma explicação para o fato de o governo estar desperdiçando recursos nessa vigilância: “No centro do governo, ou seja, nos ministérios, existem altos funcionários burocráticos judeus ou maçons, cujo objetivo é fazer com que os prefeitos pensem que o clero e

os católicos deveriam sempre ser considerados (...) inimigos!”31 Em vez de perder tempo investigando padres, disse ele, as autoridades governamentais deveriam examinar “as formidáveis, dissimuladas e subversivas atividades dos judeus, dos maçons e dos protestantes, que, disfarçados de admiradores do fascismo, tornaram-se praticamente os senhores feudais da Itália, como nunca o foram no passado”. Mussolini

precisava ser avisado.32

 

* * *

 

A ACUSAÇÃO DE que judeus eram uma força maléfica por trás de uma conspiração mundial contra o cristianismo e a civilização europeia era ouvida no Vaticano havia muito tempo; os jesuítas de La Civiltà Cattolica estavam entre os seus mais ávidos proponentes.

Um artigo intitulado “A revolução mundial e os judeus” fora publicado na revista supervisionada pelo Vaticano no fim de outubro de 1922, quando os fascistas marchavam sobre Roma. Descrevia um mundo caótico, onde forças secretas orquestravam greves e agitações trabalhistas tendo como objetivo a revolução comunista. As massas crédulas que participavam dessas revoltas eram simples burros de carga, manipuladas por um poder oculto que, pelo que apontavam indícios contundentes, vinha “do gueto”.

O futuro do mundo, advertia o artigo, seria determinado pela batalha então travada na Rússia. Os líderes do reino de terror bolchevique não eram “russos nativos”, mas “intrusos judeus” que mascaravam de modo malicioso a verdadeira identidade atrás de pseudônimos de aparência eslava. Uma lista dos quinhentos e quarenta e cinco mais altos funcionários do regime bolchevique revelava, segundo o autor, que os verdadeiros russos não passavam de trinta. “Os da raça judaica totalizam quatrocentos e quarenta e sete”; o resto era uma miscelânea de nacionalidades. Em suma, embora os judeus fossem menos de cinco por cento da população russa, “essa minúscula minoria hoje invadiu todas as

avenidas do poder e impõe sua ditadura ao país”.33

O artigo de 1922 tinha grande significado, pois seu argumento seria usado pelos nazistas como justificativa central para sua campanha antissemita. Adotado por publicações da Igreja em toda a Itália e mais além, o mito de que os líderes revolucionários russos eram quase todos judeus — e não “russos de verdade” — tornou-se uma das mais importantes e mortais justificativas para ações governamentais contra a

população judaica da Europa.34

A edição seguinte de La Civiltà Cattolica, a primeira a ser publicada depois que Mussolini chegou ao poder, trazia notícias da Áustria sob o título “Socialismo judaico-maçônico tiraniza Áustria”. Depois da Grande Guerra, informava a revista, as dezenove lojas maçônicas de Viena haviam formado uma Grande Loja. “Todos os seus altos funcionários, sem exceção, eram judeus.” O objetivo era governar o mundo “sob a dominação dos maçons, estes também sob o poder dos judeus”. Se os judeus da capital austríaca impusessem sua vontade, advertia a publicação, “Viena não passará de uma cidade judaica, casas e bens serão todos tomados por eles, os judeus serão chefes e senhores, e os cristãos, seus servos”. A Áustria, concluía La Civiltà Cattolica, “será absolutamente súdita, tributária e escrava dos judeus; em resumo esta é a ideia

norteadora dos nossos líderes socialistas judaico-macônicos”. 35

Essa crença numa conspiração mundial de judeus, maçons e protestantes não era compartilhada por Mussolini na época, mas nos anos seguintes o enviado jesuíta do papa, Tacchi Venturi, faria de tudo para

convencê-lo a ver o mundo sob essa ótica.36

Em 1925, na Romanha, região natal de Mussolini, a revista oficial da Ação Católica, La Risveglia, publicou uma série de artigos advertindo contra a ameaça judaica. Judeus e maçons, alertava a publicação, controlavam em sigilo as finanças internacionais e estavam “tentando, com ganância satânica, sugar toda a energia do espírito cristão”. Enquanto não se rebelassem contra esses agentes de satanás, os cristãos continuariam a ser explorados. Em outro artigo, provavelmente calcado na matéria de 1922 de La Civiltà Cattolica, a revista da Ação Católica culpava os judeus pela Revolução Russa e pelo comunismo. “Os judeus, adoradores do ouro, sonham em esmagar o espírito indomável de Cristo”, advertia. Adotando a acusação medieval de que os judeus realizavam rituais envolvendo sacrifícios humanos, La Risveglia os taxava de “sugadores

insaciáveis de sangue cristão”.37 Outros artigos publicados naquele ano reproduziam a falsa acusação de que a grande maioria dos “comissários” do governo russo era formada por judeus, descritos como “raça” parasita,

cujo objetivo era atormentar cristãos e reduzi-los a escravos. 38

Durante décadas, o Vaticano havia satanizado aqueles que julgava os beneficiários do vilipendiado Iluminismo: liberais, maçons, judeus e protestantes. Apresentava-os como agentes diabólicos que buscavam enfraquecer a fé do povo na única religião verdadeira. Em toda a Itália, a

imprensa católica atiçava esse temor. 39 Pio XI compartilhava amplamente dessa visão de mundo. Em sua encíclica Mortalium animos, de 1928, proibiu os católicos de fazerem parte de grupos que incentivassem o diálogo entre as religiões.

Em março de 1928, o Santo Ofício da Inquisição — chefiado pelo papa — ordenou a dissolução da organização católica internacional chamada Amigos de Israel. Lançado dois anos antes, o grupo adotava a meta, aceita pela Igreja, de converter os judeus. Entre seus membros havia não apenas milhares de padres, mas duzentos e setenta e oito bispos e dezenove cardeais.

No entanto, seus líderes logo cruzaram a fronteira do que o Vaticano considerava aceitável. Para convencer os judeus a se converterem, eles achavam importante tratá-los com respeito. Criticavam tanto o ensinamento tradicional da Igreja de que os judeus eram assassinos de Cristo amaldiçoados por Deus quanto a crença popular de que os judeus eram obrigados a beber o sangue de crianças cristãs como parte dos ritos da Páscoa judaica.

O cardeal Merry del Val, antigo secretário de Estado e, na ocasião, secretário do Santo Ofício, comandou o ataque do Vaticano aos Amigos de Israel. Ficou indignado com o pedido do grupo de que a frase “pérfidos judeus” fosse eliminada das orações da Sexta-Feira da Paixão. Em fevereiro de 1928, notificou os funcionários de que a organização só poderia continuar existindo caso se restringisse a rezar pela conversão dos judeus, abandonando suas outras atividades. Os Amigos de Israel tinham se tornado um joguete dos judeus, advertiu o cardeal, uma ferramenta involuntária da trama judaica malévola para “penetrar na sociedade moderna em todos os lugares” e na tentativa de “reconstituir seu reino de Israel em oposição ao Cristo e sua Igreja”. Num encontro com o papa no começo de março, Merry del Val descobriu que Pio XI concordava com sua opinião de que “por trás dos Amigos de Israel veem-se a mão e a

inspiração dos próprios judeus”. 40

O papa também julgava importante agir, mas temia que banir uma organização da Igreja chamada Amigos de Israel o expusesse a acusações de antissemitismo. Insistiu em que se acrescentasse ao decreto de dissolução do grupo uma passagem declarando que a Igreja se opunha ao

antissemitismo. 41 Para garantir que os fiéis entendessem o que o decreto significava, pediu a Enrico Rosa, seu conselheiro de confiança e antigo editor de La Civiltà Cattolica, que explicasse os fundamentos da decisão nas páginas da revista.

O decreto de dissolução, escreveu Rosa em “O perigo judaico e os ‘Amigos de Israel’”, condenava o antissemitismo “em sua forma e em seu espírito anticristãos”. Ele explicou que, “na penosa luta contra o perigo judaico”, La Civiltà Cattolica “sempre teve o cuidado de equilibrar caridade e justiça, evitando e (...) explicitamente combatendo os excessos de antissemitismo”. Mas a Igreja também precisava se proteger “com igual diligência do grande perigo que os judeus representavam”. Os católicos não podiam ignorar esse perigo. No século XIX, os judeus tinham conquistado direitos iguais — decisão o que a Igreja se opunha havia muito tempo; desde então, eles tinham ficado “ousados e poderosos, tornando-se, sob o pretexto da igualdade, cada vez mais predominantes e privilegiados, em especial na esfera econômica”.

Rosa culpou os judeus pelas revoluções Francesa e Russa. Advertiu que, em face da ameaça judaica, os governos da Europa se comportavam com uma negligência incompreensível. Como resultado, os judeus haviam estabelecido sua “hegemonia em muitos setores da vida pública, em especial na economia e na indústria, assim como nas altas finanças, onde consta que detêm um poder ditatorial. Ditam leis a países e governos, em questões políticas e financeiras, sem temer quaisquer rivais”. Em toda a Europa, concluía, os judeus trabalhavam “maquinando

para alcançar a hegemonia mundial”.42

 

* * *

 

OS JUDEUS E os protestantes da Itália se sentiam cada vez mais marginalizados. A situação da amante de Mussolini, Margherita Sarfatti, era um bom termômetro: percebendo que a identificação do regime com o catolicismo se estreitava, ela decidiu se batizar. Tacchi Venturi realizou

a cerimônia em 1928, e os dois filhos dela logo seguiram seus passos. 43

Em 1933, a imprensa fascista acatava as advertências da imprensa católica sobre uma conspiração judaica contra a Igreja e o Estado fascista. Um jornal genovês, depois da obrigatória ressalva de que nada tinha contra os judeus como indivíduos, proclamou a necessidade “de combater o sectarismo internacional judaico-sionista-maçônico-bolchevique, que constitui uma imensa e poderosa realidade, operando

em detrimento da civilização cristã”. 44

Enquanto Tacchi Venturi se concentrava no perigo judaico, o papa estava mais preocupado com a ameaça representada pela difusão do

comunismo. 45 Em 1932, o novo embaixador francês, François Charles-Roux, prestando informações ao ministro do Exterior da França, escreveu sobre a “mania” papal de continuamente advertir sobre o perigo comunista. Aturdidos com o dramático êxito dos nazistas na recente eleição na Alemanha — o Partido Nazista se tornara o maior do país —, os franceses estavam mais ansiosos para discutir a ameaça representada por Hitler. Mas Pio insistia que era com a ameaça comunista, e não com a

ascensão dos nazistas, que a França deveria se preocupar. 46

Ainda naquele ano, depois que Franklin Roosevelt foi eleito para a presidência dos Estados Unidos, o papa ouviu rumores de que o novo presidente talvez conferisse reconhecimento diplomático à União Soviética. Temia que esse reconhecimento a Moscou viesse a dar grande impulso à propaganda comunista nos Estados Unidos. Pio mandou Pacelli entrar em contato com o delegado apostólico em Washington. A pressão da Igreja americana seria mais eficiente do que a do Vaticano, explicou, sugerindo que o cardeal Patrick Joseph Hayes, arcebispo de Nova York,

abordasse Roosevelt em nome da hierarquia eclesiástica americana.47

Enquanto isso, o pontífice continuou insistindo para que o governo fascista restringisse os direitos protestantes na Itália. Até aquele momento, a polícia tinha permitido que os protestantes se reunissem em particular, de preferência em suas próprias casas, proibindo qualquer encontro público. Mas em 1934, em resposta à contínua pressão do papa, o governo concordou em proibir as reuniões particulares também, caso o objetivo delas fosse atrair novos adeptos.

Para a infelicidade de Pio, os juízes hesitavam em aplicar a nova proibição. Argumentavam que ela entrava em conflito com a constituição italiana e com a referência a “cultos admitidos” do texto da concordata. O papa mandou o núncio se queixar ao ministro da Justiça, que foi receptivo, mas disse que havia pouco que pudesse fazer. Infelizmente,

explicou, os juízes às vezes decidiam casos por conta própria. 48

 

* * *

 

PIO TEVE MAIS êxito em outra frente. Pouco depois de assumir o poder, como vimos, Mussolini decidira exigir o ensino da religião católica nas escolas primárias; a concordata de 1929 estendia a exigência às escolas secundárias. Mas o papa não gostou nem um pouco quando soube que o governo planejava permitir que as escolas secundárias com um número suficiente de alunos não católicos os instruíssem em sua própria religião. Em março de 1933, o superintendente escolar de Turim estava prestes a autorizar o rabino-chefe da cidade a dar aulas de religião a estudantes judeus. Pio comunicou a Mussolini a sua insatisfação. De modo significativo, não se concentrou nos judeus, e sim nos protestantes. “Vossa Excelência não deixará de ver a gravidade da questão”, escreveu o cardeal Pacelli ao embaixador italiano em nome do Santo Padre, “quando refletir sobre o fato de que, se esse precedente for aberto, haverá o perigo

de um pedido idêntico da parte dos protestantes.” 49

Depois desse protesto, o governo revogou a autorização dada ao rabino em Turim e suspendeu uma autorização similar já em vigor para o

rabino de Milão.50 Pio XI contou ao Duce sobre o “grande prazer” que

sentira ao saber da notícia.51