O Papa e Mussolini
Capítulo dezesseis
ATRAVESSANDO A FRONTEIRA
As ambições — e o ego — de Mussolini não paravam de crescer. Ele queria ser visto como o homem que devolvera a Roma seu antigo esplendor. Para isso era necessário um novo império. Os olhos do Duce se voltaram para a Etiópia, que, com exceção da Libéria, era a única parte da África que ainda não caíra em mãos europeias, com a vantagem adicional de fazer fronteira com duas colônias italianas, a Somalilândia e a Eritreia.
O Duce já tinha dado uma pista de suas intenções. No fim de 1934, forças etíopes dispararam contra um grupo de soldados italianos em Wal Wal, do outro lado da fronteira etíope, dentro da Somalilândia italiana. A imprensa da Itália apresentou o incidente como um assalto à honra nacional. Mussolini ameaçou guerra se a Etiópia não pedisse desculpas e
oferecesse indenização. 1 Com muito barulho, enviou várias divisões do exército à Somália e uma frota de navios ao mar Vermelho, com ordens
para aguardar novas instruções.2 Pio XI, longe de estar satisfeito, temia que uma invasão italiana na Etiópia pusesse em risco missionários católicos em toda a África.
Enquanto isso o papa se tornava mais consciente do peso da idade. Os esforços do Ano Santo anterior, que terminara na Páscoa de 1934, deixaram-no exausto. Tinha desistido dos enérgicos passeios pelos jardins do Vaticano, descobrindo que até mesmo andar pelo corredor o deixava
sem fôlego. O calor também o incomodava. 3 Nas partes mais pobres da velha cidade e nas favelas que se expandiam pela periferia, eletricidade e água corrente eram raridades, e a tuberculose e o tracoma eram muito
comuns.4 No ano anterior, Roma fora tomada por uma epidemia de tifo. No verão de 1934, o idoso papa não via a hora de voltar para o palácio de verão nas colinas Albanas. “Dá para ver como está feliz”, disse Domenico Tardini, assistente de Pizzardo, no dia da partida do pontífice. “Parece um menino em véspera de tirar férias do colégio.” Tardini aproveitou-se do humor inusitadamente alegre de Pio para conseguir trinta e quatro mil liras do fundo de socorro à Rússia. “Ah”, escreveu
Tardini, “se o papa saísse mais vezes!”5
Como relatou um informante, Pio agora estava, “se possível, ainda
mais irascível, intratável e desconfiado”. 6 Em funções públicas, vestido com seus mantos brancos elaborados, ele irradiava um senso de imobilidade régia que fazia todos à sua volta parecerem inquietos e nervosos. Sua franja estava ficando grisalha, mas a voz ainda era firme e ressoante, e os olhos, atrás das lentes grossas, sempre atentos. E, apesar de ter desacelerado fisicamente, insistia em ser informado de tudo e em
formar todas as decisões. 7
Enquanto o papa estava preocupado com a ameaça de invasão de Mussolini, outras correntes da Igreja adotaram atitude bem diferente. O bolonhês L’Avvenire d’Italia, o jornal católico mais influente do país, fazia eco à imprensa fascista. Os etíopes eram bárbaros pagãos. A guerra levaria
civilização — e cristianismo — aos selvagens. 8
O conflito iminente deixava o pontífice numa situação delicada. As consequências poderiam ser desastrosas não apenas para a Itália e a Etiópia, mas para a Europa como um todo. Muita gente pensava que só o papa poderia evitá-la, e pedidos vindos do exterior recomendavam que ele advertisse publicamente Mussolini a desistir. Mas Pio sabia que desafiar o ditador num assunto tão importante poria em risco a aliança dos dois.
Em 27 de agosto de 1935, duas mil freiras de vinte países embarcaram em vários ônibus no Vaticano. Iam para uma audiência com o papa em Castel Gandolfo, última parte da sua excursão. Pio se dirigiu a elas, elogiando o seu trabalho, falando por mais de uma hora. Então, para concluir, pronunciou uma bênção. Pizzardo, que tinha ajudado a organizar o encontro, estava radiante ao lado dele. Mas, sem que ninguém esperasse, em vez de parar por ali, o pontífice pôs-se a refletir sobre uma questão inteiramente diferente. Uma guerra de conquista, disse ele às freiras, jamais poderia ser tolerada. Seria “uma guerra injusta, uma coisa além de qualquer imaginação (...) seria indescritivelmente
horrível”. 9 O sorriso de Pizzardo murchou.
“As freiras, em sua maioria estrangeiras”, escreveu monsenhor Tardini em seu diário, “escutaram com interesse e prazer. Escutando com interesse ainda maior, mas sem qualquer prazer, estava monsenhor Pizzardo. Que desastre!” Com as freiras nos ônibus de volta, para impedir que elas falassem sobre os comentários do papa, ele insistiu em que passassem a viagem inteira rezando. No Vaticano, quase em prantos, Pizzardo parecia “desanimado, arruinado, pálido, desesperado”. Murmurava o tempo todo as palavras do papa: “Uma ‘guerra injusta’,
uma ‘guerra injusta’.” 10
Na manhã seguinte, quando a notícia do discurso do pontífice chegou ao conhecimento de Giuseppe Talamo, embaixador interino da Itália na
Santa Sé, ele correu para o Vaticano.11 “Monsenhor Pizzardo demonstrou consternação”, lembrava-se o diplomata italiano, “dizendo-me que nada tinha sugerido a decisão inesperada do pontífice de tocar em questão tão melindrosa, sem antes, de maneira alguma, pedir conselho à Secretaria de Estado.”
Talamo recomendou a Pizzardo que abrandasse o discurso do papa para publicação no jornal do Vaticano. Pizzardo lhe assegurou que ele e seus colegas já estavam fazendo “o possível para suavizar e atenuar” os comentários do pontífice. Naquela noite, o jornalista do L’Osservatore Romano que havia transcrito o discurso entregou o texto datilografado e, com Tardini, fez uma “intervenção cirúrgica”. “Aqui cortei uma palavra, ali acrescentei outra”, lembrava-se Tardini. “Aqui modifiquei uma frase, ali apaguei outra. Em resumo, mediante um esforço sutil e metódico,
conseguimos suavizar muito a crueza do pensamento papal.”12 O texto que produziram estava longe de ser a clara denúncia de uma invasão que as freiras tinham ouvido; em vez disso, era uma obscura série de asserções passíveis de várias interpretações.
Na manhã seguinte veio a parte mais melindrosa. Tardini precisava obter a aprovação do papa para o texto mutilado. Ao entregar as páginas datilografadas a Pio, tentou parecer desinteressado. O rosto quadrado assumiu uma expressão de grande sinceridade. O repórter do L’Osservatore Romano, explicou ele, pedia perdão ao Santo Padre por não ter conseguido registrar com exatidão cada palavra sua. O pontífice falara durante uma hora e vinte minutos, e o repórter ficara exausto. Também tivera a atenção prejudicada por uma terrível dor de dente. E, no fim do discurso, a luz do entardecer já estava fraca, pois a audiência fora realizada ao ar livre, tornando especialmente difícil registrar as últimas palavras do papa com fidelidade.
Quando Pio começou a ler, Tardini tentou ir embora, mas o pontífice o deteve erguendo a mão. Pôs de lado todas as páginas, menos as últimas, e foi direto aos comentários finais. Leu resmungando. Sempre que o papa erguia os olhos para encará-lo, Tardini tentava esconder o nervosismo. Pio leu em voz alta seus mutilados comentários sobre a guerra. Apesar disso, Tardini continuava fingindo ignorância: “Adotei a pose de alguém que queria prestar atenção a alguma coisa que não sabia bem o que era”, escreveria ele mais tarde, acrescentando, entre parênteses: “Eu sabia de cor esse trecho do discurso!” Pio continuava alternando o olhar entre o texto e Tardini. Toda vez que lia uma frase modificada, dizia: “Certamente não foi assim que eu falei.” Sempre que o papa levantava uma objeção, Tardini humildemente se oferecia para corrigir qualquer erro. Mas, no fim, o pontífice se limitou a dizer: “Não, vamos deixar assim mesmo.” Era tudo o que Tardini e seus superiores, Pizzardo e
Pacelli, desejavam.13
Mas até o texto diluído desagradou ao embaixador interino. Enquanto a imprensa fascista citava seletivamente alguns trechos para mostrar o apoio papal à guerra, fora da Itália os comentários, mesmo na versão
expurgada, eram usados para mostrar a oposição do pontífice. 14 Aborrecido com o fato de a imprensa fascista afirmar que seu discurso dava claro apoio à guerra, Pio ordenou ao jornal do Vaticano que publicasse uma coluna na primeira página expressando seu descontentamento com a distorção das suas palavras. Talamo não gostou. “Falar, a esta altura, da conhecida teimosia e da insistência senil do pontífice”, disse ele a Mussolini, “não seria respeitoso, mas não deixaria de ser verdade.”
Em sua reunião regular de sexta-feira com Pacelli, naquela semana, Talamo encontrou um ouvido solidário. “O cardeal secretário”,
informou ele ao Duce, “me manifestou sua consternação.” 15
A bem da verdade, embora Eugenio Pacelli fosse secretário de Estado havia muitos anos, suas relações com Pio eram caracterizadas pela formalidade e pela distância emocional. No começo do ano, ao saber que Jean Verdier, arcebispo de Paris, estava em Roma para uma visita, Pacelli pediu para vê-lo. Uma grande cerimônia estava planejada para abril no centro francês de peregrinação de Lourdes, e Pacelli estava ansioso para participar. Mas só poderia ir se Pio pedisse, e tinha receio de tocar no assunto. Um pouco envergonhado, pediu a Verdier que falasse a esse respeito em suas conversas com o pontífice. Foi dessa maneira indireta
que ele recebeu a bênção do papa para a viagem.16 Verdier descreveu as relações de Pacelli com Pio naqueles anos como “cordiais, pelo menos
até onde o temperamento do velho papa dava espaço à cordialidade”. 17
* * *
NO COMEÇO DE setembro, a Liga das Nações se reuniu para discutir a possibilidade de a Itália invadir a Etiópia, país-membro da organização. A
liga ameaçou impor severas sanções econômicas se Mussolini o fizesse. 18
Desde que a polêmica sobre a Ação Católica fora resolvida, quatro anos antes, o papa tornava cada vez mais público o seu apoio ao regime. Em setembro de 1932, celebrou uma missa especial em São Pedro para milhares de jovens pertencentes às organizações de fascistas no exterior em peregrinação a Roma. No mesmo mês, dezenas de milhares de membros de grupos italianos de juventude fascista passaram duas semanas fazendo exercícios nos arredores de Roma, acompanhados por um grande número de padres, cujos chapéus traziam uma cruz em cima do emblema fascista. O papa recebeu centenas desses padres no Vaticano e os
abençoou por sua importante obra.19
O entusiasmo da Santa Sé pelo Duce foi manifestado mais uma vez no décimo aniversário da Marcha sobre Roma. O apoio de L’Osservatore Romano ao ditador dificilmente poderia ter sido mais arrebatado. Mussolini tinha realizado “mudanças vastas, profundas, colossais em todos os setores da administração pública”, informou o jornal do Vaticano. Desde o seu primeiro discurso no parlamento, em 1921, havia “exaltado a incomparável beleza da ideia católica e da missão da Igreja no mundo”. O jornal lembrava aos leitores que fora Mussolini quem colocara o crucifixo nas salas de aula e nos tribunais do país. Ele introduzira a instrução religiosa nas escolas e promovera a amizade entre a Igreja e o
Estado com o Tratado de Latrão. 20
* * *
NAS SEMANAS SEGUINTES aos comentários improvisados de Pio XI às freiras, o cardeal Pacelli e o monsenhor Pizzardo tentaram convencer o papa a guardar para si mesmo sua oposição à guerra de Mussolini. Em 13 de setembro, Pacelli mandou avisar ao ditador que o pontífice não
tentaria impedir uma invasão. 21
Mas Pio ainda tinha esperança de dissuadir o Duce. Em 20 de setembro, ditou uma carta em que explicava por que a guerra seria um erro. Embora a Itália tivesse uma força militar muito superior, os etíopes tirariam vantagem do terreno dificultoso, que conheciam melhor. Mesmo que os italianos viessem a conquistar o país, o papa previu — com presciência, como se veria — que as forças da Itália enfrentariam intermináveis ataques guerrilheiros, para não falar nas dificuldades criadas
pelas altas temperaturas e pelas doenças. 22
Temendo que uma carta formal do pontífice se opondo à guerra enfurecesse Mussolini, Pacelli o convenceu a mandar Tacchi Venturi transmitir suas opiniões ao Duce de maneira informal. Pio chamou o jesuíta e lhe deu um texto para servir de orientação, mas advertiu que Mussolini não poderia de forma alguma ter acesso a uma cópia. O documento datilografado, que Pacelli preparara, começava elogiando o objetivo declarado pelo ditador de dar à Itália espaço para se expandir e exercer seu direito de defesa. Em seguida listava as preocupações do pontífice, ressaltando a que ele achava mais convincente para Mussolini: a
possibilidade de que, se desse errado, o Duce seria responsabilizado.23
Nada disso teve qualquer efeito sobre o ditador. Na noite de 2 de outubro, ele caminhou a passos largos até a sacada do palácio Venezia e arrebatou a multidão com a notícia de que tinha mandado tropas italianas marcharem sobre a Etiópia. Os edifícios balançaram quando dezenas de milhares de pessoas começaram um coro cadenciado: “Duce! Duce! Duce!”
De uma grande janela do outro lado da piazza, Margherita Sarfatti contemplava a cena. Embora seu poder de sedução como amante tivesse acabado e, nos anos anteriores, Mussolini a mantivesse afastada, ela continuava a ser uma propagandista fiel e eficiente do Duce, em especial no exterior. Mas a recente ascensão dos nazistas na Alemanha a deixara horrorizada. Sabia que lançar uma guerra em desafio à Liga das Nações e arriscar-se a entrar em conflito com a Grã-Bretanha e a França significaria jogar a Itália nas mãos de Hitler. Havia qualquer coisa de terrivelmente errado.
Sarfatti virou-se para um amigo que estava com ela e comentou:
— É o começo do fim.
— Por que diz isso? — perguntou o amigo. — Acha que perderemos a guerra?
— Não... Digo isso porque infelizmente vamos ganhá-la... E ele
perderá a cabeça.24
No dia seguinte, Tacchi Venturi, sempre ansioso para fortalecer o clima de boa vontade entre o Duce e Pio, assegurou a Mussolini que o papa não atrapalharia seus planos. “Neste gravíssimo momento”, escreveu, “o Santo Padre ficou satisfeito com o que soube por meu intermédio e me disse para não perder de forma alguma a primeira oportunidade que aparecesse para lhe contar sobre o seu
contentamento.” 25
Com receio de que a invasão isolasse a Itália, o papa tomou a extraordinária providência de fazer um apelo ao rei George V, da Grã-Bretanha. Não foi a primeira tentativa — em agosto, ele quisera enviar uma mensagem ao monarca por intermédio do arcebispo de Westminster, mas, sabendo o que havia por trás do pedido de audiência
do arcebispo, o rei inventou um pretexto para não vê-lo. 26
O cardeal Pacelli preparou nova carta para George V, em inglês. “Majestade”, começava, “o Santo Padre me deu a incumbência especial e pessoal de apresentar a Vossa Majestade a seguinte questão de maneira muito confidencial.” O pontífice “não vê como seria possível evitar o conflito com a Etiópia, porque a Itália teve recusado o mínimo a que ele supõe que ela tem o direito de reclamar, em virtude dos acordos, ou seja, um simples Mandato (não um Protetorado de fato) sobre as regiões periféricas do Império Etíope”. As demandas de Mussolini eram razoáveis, dizia Pacelli, argumentando que as partes da Etiópia em questão eram áreas onde reinavam “escravidão e desordem”, e onde o Negus — o governante etíope Haile Selassie — tinha pouca influência.
O atônito enviado britânico pegou o envelope de Pacelli e passou um telegrama para Londres pedindo instruções. O ministro do Exterior britânico se recusou a aceitar a carta. O apelo do papa foi devolvido sem
sequer ter sido aberto. 27
* * *
AO AMANHECER DE 3 de outubro, cento e dez mil soldados, sob o comando do general Emilio de Bono, o líder de cavanhaque da Marcha sobre Roma, entraram na Etiópia pela Eritreia, ao sul. As tropas incluíam não apenas soldados italianos, mas eritreus e somalis sob comando da Itália. Participavam da invasão variados grupos de milicianos fascistas mais ou menos treinados, todos muito orgulhosos e agitados por enfim terem a oportunidade de fazer algo tangível pelo Duce e pela pátria. As forças se estendiam por um front de setenta quilômetros de largura, com duas mil e trezentas metralhadores, duzentos e trinta canhões e cento e cinquenta e seis tanques. Cento e vinte e seis aviões aguardavam em aeroportos eritreus para dar cobertura aérea. Dentro de poucas horas, uma unidade topou com um pequeno forte e o primeiro soldado italiano foi morto. Os italianos, até então felizes e entregues a canções patrióticas, viram, com horror, um paramédico cobrir com um lençol o corpo ensanguentado do camarada. “Ninguém achava que fosse possível morrer tão depressa”, comentou um deles. Logo aviões italianos começaram a despejar bombas incendiárias na cidade vizinha de Adua. Os filhos de Mussolini, Bruno e Vittorio, pilotavam aeronaves Caproni 101 durante o raide; forças italianas reduziram boa parte da cidade, incluindo o hospital, a um monte
de cinzas. Centenas de moradores morreram. Os italianos avançaram.28
Poucos dias depois da invasão, por cinquenta e quatro votos a quatro, a Liga das Nações impôs sanções à Itália, aplicáveis a todas as exportações e às exportações consideradas importantes para o esforço de guerra,
embora não incluíssem petróleo.29
Ainda na mesma semana, o conde Bonifacio Pignatti, o novo embaixador italiano na Santa Sé, apresentou suas credenciais ao papa. O anúncio no começo do ano de que Cesare de Vecchi estava deixando o cargo para ser ministro da Educação tinha sido recebido com
preocupação pelo Vaticano, onde ele já era visto como amigo. 30
Pignatti, de cinquenta e sete anos, embaixador na França e veterano com trinta anos de experiência no corpo diplomático italiano, contrastava de maneira notável com seu antecessor. De Vecchi chegara ao cargo sem qualquer experiência diplomática, devendo sua fama aos tempos de chefe fascista de Turim e ao fato de ser um dos líderes da Marcha sobre Roma. Já Pignatti servira em embaixadas italianas em toda a Europa e na América do Sul. De estatura mediana e cabelos grisalhos, ajustava-se confortavelmente a seus ternos de embaixador. Em resumo, ao contrário
do chocante De Vecchi, ele parecia de fato um diplomata.31
No primeiro encontro com o novo embaixador, Pio XI deu a impressão de estar cansado e desatento, embora tenha ficado mais animado quando começaram a falar sobre a guerra. Apesar do otimismo demonstrado pelo papa quanto aos possíveis resultados dos esforços de mediação franceses, Pignatti não tinha tanta certeza de que eles renderiam frutos. O pontífice não disse uma palavra de protesto sobre a recém-lançada invasão e agradou mais ainda a Pignatti quando manifestou sua
opinião desfavorável sobre a Liga das Nações. 32
O enviado britânico à Santa Sé, que também notou a mudança na atitude do papa, ofereceu uma explicação. Pio desaprovara com veemência a guerra iminente e tentara convencer Mussolini a desistir. Mas, uma vez que o Duce a tinha lançado, ele não tinha a intenção de prejudicar o esforço de guerra, “com medo de que a queda do fascismo pudesse resultar numa guerra malsucedida, e que um regime comunista ou anticlerical tomasse o poder com desastrosas consequências para o papado”. O embaixador francês, por seu turno, via certa tristeza na difícil situação de Pio: o pontífice imperioso se sentia impotente em face do zelo belicoso de seu próprio clero italiano e, ao mesmo tempo, era
afetado pela má impressão que seu silêncio causava no exterior. 33
O clero católico da Itália fez o possível para despertar o entusiasmo popular pela guerra. Em 28 de outubro, numa cerimônia na bela catedral de Milão para comemorar o décimo terceiro aniversário da Marcha sobre Roma, o cardeal Ildefonso Schuster proferiu uma comovente homilia que chamou atenção internacional. Monge beneditino conhecido por sua severidade ascética, Schuster se tornara arcebispo de Milão em 1929. Assim como o papa, via a civilização ocidental engajada numa batalha épica entre o bem e o mal, uma luta do divino contra o demoníaco. Para ele, Mussolini e o regime fascista eram aliados cruciais da Igreja. “Ao cardeal Schuster”, comentou Cesare de Vecchi, “só faltava usar camisa negra, pois, fora isso, estava sintonizado com a filosofia do partido como
se fosse seu mais aplicado membro.”34
Poucos meses antes da missa de comemoração da Marcha sobre Roma, o cardeal Schuster depositara um buquê de flores no altar dos fascistas mortos e fizera uma pausa para rezar pela alma deles. “O ato do cardeal”, escreveu um informante em Milão, “recebeu comentários muito favoráveis nos vários círculos onde se nota a fascistização crescente
do clero.”35 Durante a missa comemorativa no Duomo, autoridades do governo fascista, milicianos e figurões do partido cercaram o cardeal enquanto ele explicava que a comemoração da Marcha sobre Roma não era apenas uma celebração política, “mas um feriado essencialmente católico”. O fascismo trouxera a restauração da Itália católica, e a guerra na Etiópia deveria ser vista sob essa luz. Juntos, a Igreja e o Estado fascista tinham uma “missão nacional e católica” a cumprir numa época em que, “nos campos da Etiópia, a bandeira da Itália leva triunfalmente a Cruz de Cristo, destrói as correntes dos escravos e prepara o caminho para os
Missionários do Evangelho”.36
Mussolini mandou retransmitir o discurso pelas emissoras de rádio
italianas, e a foto do cardeal enfeitou a capa de um semanário popular. 37 Seus colegas na França, porém, não ficaram tão satisfeitos. “O cardeal Schuster”, escreveu Alfred Baudrillart, cardeal desde o fim de 1935, “é
um fascista convicto.” 38
Durante os tensos meses de guerra, o Duce se voltou para a Igreja não apenas em busca de apoio interno, mas também de auxílio internacional. Estava especialmente ansioso para conseguir a ajuda do papa a fim de
impedir que as sanções econômicas da Liga das Nações se espalhassem. 39
Em numerosas e longas conversas com o cardeal Pacelli em meados de novembro, Pignatti insistiu com o Vaticano para garantir a ajuda dos seus núncios no esforço de guerra. Convencer bispos e outros católicos influentes do mundo da justiça dos objetivos do conflito travado pela Itália seria crucial. O cardeal respondeu que esses esforços já estavam em andamento — e que o Vaticano já tinha conseguido muita coisa. Pacelli chegou a acrescentar por conta própria alguns conselhos. Era essencial, disse ele a Mussolini, obter o apoio americano. O Duce deveria lançar “uma intensa e inteligente campanha de propaganda italiana nos Estados Unidos, nos jornais, nas universidades e nas revistas, usando os meios e os
modos mais adequados à mentalidade americana”.40
Como Pacelli sabia, Mussolini receava que os Estados Unidos — que não eram um país-membro da Liga das Nações — se juntassem ao boicote internacional. Em outros tempos, governos tanto republicanos quanto democratas tinham adotado uma atitude benevolente em relação ao ditador, julgando que ele proporcionava a liderança forte de que os italianos, um tanto quanto erráticos e indisciplinados, necessitavam. O presidente Roosevelt, apesar de ter pouca simpatia pessoal por Mussolini, achava que o Duce conquistara muita coisa para a Itália. A imprensa americana era simpática a ele. Mas a guerra provocou uma mudança acelerada. Jornais americanos notavam semelhanças cada vez maiores entre a Itália fascista e a Alemanha nazista. “Um tirano é um tirano, por mais que filosofe e sorria com benevolência”, declarou o New York Times em um editorial. Roosevelt tinha uma visão bem mais sombria e, no
começo de 1936, denunciou publicamente o fascismo italiano. 41
A campanha coordenada pelo governo da Itália e pelo Vaticano, visando basicamente a comunidade ítalo-americana, foi um sucesso. A imprensa ítalo-americana continuava a apoiar Mussolini. Na Filadélfia, duzentos mil cidadãos americanos de origem italiana marcharam em
protesto contra as sanções da Liga. 42 Em outras cidades com grandes populações de imigrantes italianos, houve manifestações semelhantes, e petições inundaram o Congresso. A voz mais influente de todas, o padre radialista Charles Coughlin, ouvido por dezenas de milhões de americanos todos os domingos, bradava contra as sanções semana após
semana. 43
Filho de imigrantes nascido em 1891 em Hamilton, Ontário, e ordenado em Toronto, Coughlin se mudara para Detroit no começo dos anos 1920, pregando numa igreja simples de estrutura de madeira que ele mesmo construíra. Ali, lançou um modesto programa radiofônico dedicado a assuntos religiosos. Por volta de 1930, o jovem padre começou a ampliar seus objetivos, concentrando-se nas aflições dos pobres. Apoiou Roosevelt em sua primeira tentativa de chegar à presidência no ano de 1932, mas logo se voltou contra ele e, em 1934, fundou o próprio partido político, o União Nacional pela Justiça Social. Mais ou menos nessa época, começou a denunciar os “banqueiros judeus” e a apoiar Mussolini. Com a chuva de contribuições, Coughlin — já então a figura religiosa mais popular do país — substituiu a modesta igreja de estrutura de madeira por um santuário ultramoderno. A característica mais notável da construção era a grande torre de pedra coroada por um potente transmissor de rádio. Os protestos veementes de Coughlin deixavam muita gente assustada dentro da hierarquia da
Igreja. 44
O projeto de lei de Pittman-McReynolds, propondo que os Estados Unidos se juntassem às sanções, provocou uma torrente de protestos entre a comunidade ítalo-americana. Soterrados por milhares de cartas e incontáveis delegações ítalo-americanas, os congressistas, nas palavras do chefe da agência de controle de armas dos Estados Unidos, “tremeram na
base”. O projeto de lei foi derrotado. 45
Todo soldado italiano que ia para a Etiópia recebia um exemplar de uma nova coletânea de orações, Soldado, Reza!. Na introdução, Agostino Gemelli, infatigável reitor da Universidade Católica de Milão, recomendava aos jovens italianos que lutassem:
Vai para onde a Pátria te manda e Deus te chama, disposto a tudo...
Confia, ainda que Deus te peça para sacrificar a vida... Soldado da Itália, teu sacrifício, somado ao sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus entre os homens, trará a salvação e a
grandeza da Pátria. 46
Nos meses seguintes, os bispos da Itália superaram uns aos outros em sua ardorosa profissão de fé fascista e na proclamação do respaldo divino à guerra. O monsenhor Navarra, bispo de Terracina, perto de Roma, captou o estado de espírito: “Ó, Duce! (...) Hoje a Itália é fascista e os corações de todos os italianos batem em uníssono com o vosso. (...) Deus vos abençoe, ó, Duce! Que ele vos sustente em vossa obra diária, titânica
e assegure (...) a vitória aos exércitos italianos.”47
* * *
COM A ITÁLIA cada vez mais isolada, teorias da conspiração ganharam novo impulso. Uma delas era o complô protestante-judaico-maçônico-comunista que muitos na Igreja denunciavam havia tempos. No começo de novembro, o arcebispo de Amalfi enviou uma circular para os seus padres com uma mensagem a ser divulgada para os paroquianos nos sermões dominicais: “A Liga das Nações está agindo sob influência de forças ocultas.” Em seguida, apresentava uma lista: “A maçonaria, o bolchevismo, o anglicanismo” estariam combatendo a Itália porque não aguentavam ver o regime fascista vivendo “em perfeita colaboração com
a Igreja Católica”.48
Denúncias britânicas e francesas da guerra enfureciam o Duce, que temia os possíveis impactos das sanções econômicas. Isso deu uma nova oportunidade a Tacchi Venturi, que havia anos tentava convencer Mussolini da veracidade dessas teorias conspiratórias.
Em 30 de novembro, o jesuíta chegou ao palácio Venezia, enviado por Pio XI para discutir as esperanças de um fim rápido para a guerra. Não demorou a tocar no assunto que mais o preocupava.
— Vossa Excelência leu os artigos “Quem quer a guerra? Por trás da questão etíope?” nos números de 16 e 30 de novembro do jornal [francês] La Revue Hebdomadaire?
— Sim, eu os li.
— Então o senhor viu como o autor anônimo demonstra com clareza que a maçonaria, aliada aos comunistas e bolcheviques, construiu uma frente única com o objetivo de tentar acabar com o fascismo e com Mussolini e provocar uma revolução na Itália. É uma revolução que ela considera, não erradamente, um meio indispensável para instalar um império bolchevique no país. — Antes que Mussolini pudesse responder, Tacchi Venturi completou o quadro: — Acredite em mim, Excelência, estamos lidando com uma terrível arapuca armada com a cumplicidade da Liga das Nações, que está sob domínio dos judeus e dos maçons.
O Duce ouviu o enviado do papa contar a história da conspiração judaico-maçônico-bolchevique para destruí-lo. Quando Tacchi Venturi terminou, o ditador, agitado, berrou que a Grã-Bretanha e a França estavam colocando o resto do mundo contra ele. “Estão loucos”,
afirmou, “para começar uma guerra europeia.” 49
Mussolini falou pouco sobre os judeus, mas cada vez mais via a oposição à guerra como uma conspiração. Quando se encontrou com Tacchi Venturi duas semanas depois, foi o Duce quem levantou o fantasma de um complô internacional. A Terceira Internacional Socialista, a maçonaria e os liberais tinham formado uma frente comum contra a Itália, disse o ditador ao jesuíta. O objetivo deles era “destruir a qualquer custo o Regime que a governa”.
“Ninguém tem ou pode ter qualquer dúvida a esse respeito”,
respondeu o enviado do papa. 50