O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 31 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo vinte e oito

 

UMA NUVEM NEGRA SE DISSIPA

 

Apesar de ter se encontrado com Pio XI muitas vezes, o embaixador francês nunca estivera em seus aposentos particulares. Agora, poucas horas depois da morte do papa, ele se juntou à cena macabra do andar de cima do palácio papal. Entrou numa sala grande, de teto alto, sua aparência majestosa arruinada, na sua opinião, pela mixórdia de obras de arte incompatíveis, amadorísticas, que cobriam as paredes. Uma delas exibia “um bordado exótico de gosto medíocre”, oferta das freiras que o teceram. Outros objetos variados, dados de presente ao pontífice por missões do mundo inteiro, decoravam o resto da sala.

Depois de assinar o nome num livro de convidados, Charles-Roux seguiu pelo estreito corredor que levava ao dormitório do papa. Ali jazia o corpo do pontífice na cama de armação de ferro, trajando batina branca, com um solidéu papal vermelho de bordas de arminho enterrado até as orelhas. A cabeça repousava num travesseiro simples. Nas mãos, juntas sobre o peito, havia um crucifixo e um rosário. “A vida”, observou o embaixador francês, “abandonara aquele corpo em estado lamentável.” O rosto estava completamente mudado, “derrotado, arruinado”. Uma grande vela ardia em cada canto da cama. Soldados da Guarda Nobre ladeavam-no, em posição de sentido, segurando o sabre.

Ao voltar pela sala de recepção, Charles-Roux ficou horrorizado. Outros homens da Guarda Nobre, aguardando sua vez, matavam o tempo conversando, em pequenos grupos, com altos prelados e funcionários laicos. Os homens falavam alto, não demonstrando o menor

sinal de tristeza ou respeito. 1

“O papa está morto”, escreveu Ciano em seu diário em 10 de fevereiro. “A notícia deixa o Duce totalmente indiferente.” Naquela tarde, Ciano foi ao Vaticano prestar sua homenagem. O cardeal Pacelli o recebeu e acompanhou até a Capela Sistina. O corpo emaciado do pontífice tinha acabado de chegar. Jazia numa alta plataforma sob o teto abobadado, que exibia afrescos de Michelangelo. De onde estava, Ciano só conseguia ver as sandálias brancas e a bainha do manto papal. Quando voltavam para o pátio, lembrava-se Ciano, Pacelli “falou comigo sobre as relações entre o Estado e a Igreja com expressões muito agradáveis e

esperançosas”.2

Mussolini ainda estava aflito, e, de qualquer forma, tornara-se tão enamorado de si mesmo que seus auxiliares tiveram que massageá-lo para que ele conseguisse manifestar algum sinal de luto. O Vaticano esperava que o Duce fosse ao velório naquele dia na Capela Sistina, mas ele não apareceu. Um dos presentes notou a sua ausência: “Hoje o rei foi visitar o corpo por volta das sete da noite”, anotou em seu diário. “Mussolini não foi, talvez porque não se dignasse a ir; talvez porque não quisesse

desagradar a Hitler.”3

Pignatti e Ciano tinham refletido muito sobre aquele momento. Apesar de Mussolini afirmar, de vez em quando, que não se importava com o que poderia acontecer no iminente conclave, ambos sabiam que era muito importante que o papa seguinte fosse alguém com quem pudessem trabalhar. O medo constante de que o pontífice pudesse fazer

algo para jogar os católicos da Itália contra eles havia sido um pesadelo.4

E, apesar de dizer que tinha pouco interesse no conclave, o Duce ouviu uma coisa que o deixou preocupado. Ao que parecia, enquanto arrumavam o quarto do papa, funcionários do Vaticano tinham descoberto, em cima da escrivaninha, um documento secreto que entregaram na mesma hora ao cardeal Pacelli. Em 12 de fevereiro, Mussolini pediu a Ciano que descobrisse de que se tratava. Ciano repassou a ordem para Pignatti e resolveu aproveitar aquele dia de

fevereiro inusitadamente quente e ensolarado em seu clube de golfe. 5 Mussolini também tinha outros planos. Quando, às quatro e meia da tarde, Clara Petacci chegou ao apartamento deles no palácio Venezia, levando sanduíches e um buquê de violetas, teve a surpresa de encontrar o amante já à sua espera, sentado numa poltrona, lendo jornal. Clara achava que ele chegara antes para se certificar de que nada de incriminador restara do seu encontro amoroso anterior. “Dê-me um beijo”, disse o Duce, “venha sentar-se em meu colo.” Nas horas seguintes, enquanto os fiéis formavam fila diante do corpo do papa no

Vaticano, o casal fez sexo duas vezes. 6

 

38. O cardeal Pacelli acompanha Galeazzo Ciano para ver o corpo de Pio XI, 10 de fevereiro

de 1939

 

Enquanto o ditador se mantinha ocupado dessa maneira, Pignatti seguia para um encontro com o núncio Borgongini para indagar sobre o documento secreto que Pio teria deixado e sobre outra história perturbadora que tinha ouvido. Um jornal estrangeiro noticiara que, durante a reunião dos bispos da Itália na manhã de sábado, no Vaticano, um dia depois da morte do papa, cada um recebeu uma cópia de um documento secreto denunciando o fascismo. O pontífice determinara, como seu último desejo, que recebessem sua mensagem, caso não vivesse para entregá-la ele mesmo. Borgongini assegurou ao embaixador que a história não poderia ser verdadeira, uma vez que ele próprio estivera com os bispos naquela manhã. Sugeriu que o boato talvez tivesse surgido porque, ao sair do Vaticano, cada bispo levava um grande envelope na mão. Num dos seus últimos momentos, o papa tinha decidido dar a cada bispo mil liras para cobrir despesas de viagem e patrocinar uma missa em sua cidade de origem em homenagem à ocasião. Era esse o conteúdo dos

envelopes que o repórter vira.7

Não está claro se os rumores de que Pio XI ia fazer uma denúncia do fascismo surgiram de vazamentos sobre os planos do pontífice relativos a uma encíclica secreta contra o racismo. Todos os indícios indicam que os padres LaFarge e Gundlach, apesar de insatisfeitos com o fato de seus esforços terem sido sabotados, guardaram o voto de sigilo, e nem Ledóchowski nem Rosa tinham o menor interesse em que ninguém de fora soubesse do plano do papa. Pio XI, tendo recebido o texto apenas três semanas antes de morrer, nunca teve chance de fazer nada com ele.

Ao saber da preocupação de Mussolini, Pacelli não perdeu tempo. Em 15 de fevereiro, ordenou ao secretário do pontífice que juntasse todo o material escrito que Pio produzira quando preparava seu discurso. Também mandou a gráfica do Vaticano destruir todas as cópias já impressas do discurso, cópias que o papa tencionava entregar aos bispos. O vice-diretor da gráfica deu sua palavra de que destruiria tudo ele mesmo, de modo que não sobrasse “nem uma vírgula”. Pacelli tomou essas providências dois dias depois de saber dos receios de Ciano de que o texto do discurso papal fosse divulgado. Pacelli também pegou o material que Ledóchowski enviara para o pontífice três semanas antes — e que desde então ficou conhecido como a “encíclica secreta” contra o racismo —, ansioso para garantir que ninguém mais o visse.

As palavras que o papa preparara com tanto esmero em seus últimos dias de vida não seriam vistas enquanto Pacelli vivesse. Só vinte anos mais tarde, quatro meses após a morte de Pacelli, o papa João XXIII, num dos seus primeiros atos, divulgaria trechos do discurso. Mas ele suprimiu as passagens mais críticas ao regime fascista, supostamente para proteger Pacelli, suspeito de ter sepultado o discurso a fim de não ofender Mussolini ou Hitler. O mundo só viu o texto na íntegra quando o Vaticano abriu os arquivos do papado de Pio XI em 2006.

O discurso estava longe de ser a retumbante denúncia do regime fascista que Mussolini temia, mas o Duce não teria gostado que ele fosse ouvido pelos bispos da Itália e, depois, lido por milhões de pessoas mundo afora. O papa lamentava os esforços para esconder e deturpar seus discursos e aconselhava os bispos a ficarem atentos quando falassem com “os chamados hierarcas” do governo. “Tenham cuidado, caríssimos Irmãos em Cristo, e não esqueçam que em geral há observadores e informantes (seria melhor chamá-los de espiões) que, por iniciativa própria ou porque estão incumbidos de fazê-lo, escutam-nos para condená-los, depois, como se sabe, mesmo não tendo entendido nada e, se necessário, entendendo exatamente o contrário.” Lamentou “esses pseudocatólicos que parecem felizes quando julgam perceber uma discordância ou discrepância entre um bispo e outro, melhor ainda entre um bispo e um papa”. Recomendou aos bispos que jamais usassem o telefone para dizer coisas que não quisessem que fossem divulgadas, pois era provável que suas linhas estivessem grampeadas. (“Em todos esses anos não usamos sequer uma vez o telefone”, disse o papa com orgulho.)

Pio XI lamentou de passagem a perseguição da Igreja na Alemanha e repreendeu com severidade aqueles que a negavam. Seus comentários finais atingiram o ponto que ele desejava ardentemente partilhar com os bispos: estava ansioso para ver o dia em que “todos os povos, todos os países, todas as raças se juntassem e todos do mesmo sangue no vínculo

comum da grande família humana” se unissem na única “verdadeira Fé”. 8

Junto ao texto do discurso de sábado do papa, Pacelli pegou as anotações que o pontífice tinha preparado para a fala de domingo aos bispos. Apesar de não terem sido encontradas, Tardini viu o material e deixou uma descrição. Entre os pontos mais importantes que Pio planejava abordar estavam três que não teriam agradado ao Duce: a Ação Católica, a situação religiosa na Alemanha, e a “ferida infligida à

concordata pela proibição de casamentos entre arianos e não arianos”. 9

Mussolini jamais saberia que Pacelli fora quem tinha dado a ordem para suprimir os últimos projetos do papa. O que lhe disseram, em vez disso, foi que o Sacro Colégio de Cardeais decidira, numa reunião especial sepultar o discurso, por julgá-lo hostil demais a Mussolini. Os cardeais, ou pelo menos a maioria italiana, segundo lhe informou Pignatti, agora estavam ansiosos para concentrar seus votos numa pessoa

que tivesse uma atitude mais conciliatória para com o regime fascista. 10

Mussolini esperava que Pignatti estivesse certo, mas tinha motivo para se preocupar. As conjecturas sobre a escolha mais provável variavam, estonteantemente, de Jean Villeneuve, arcebispo de Quebec — tido como o mais provável não italiano —, ao recente antagonista de Mussolini, o cardeal Schuster. The Boston Globe publicou fotos do cardeal Schuster e do cardeal Giovanni Piazza, patriarca de Veneza, que segundo

o jornal seriam os candidatos mais fortes. 11 The New York Times dava Piazza como favorito, seguido por oito candidatos, ordenados de acordo com suas supostas chances. Eugenio Pacelli estava no fim da lista. Não tinha experiência pastoral — todos os outros presidiam arquidioceses —, e havia uma longa tradição de não escolher um secretário de Estado ou

um camerlengo; Pacelli era as duas coisas. 12

Apesar de muita gente de fora achar que Pacelli tinha poucas chances, havia muito Mussolini vinha recebendo relatos de informantes da polícia identificando-o como o favorito. Constava que Pio XI via seu secretário de Estado como o sucessor mais qualificado. Na verdade, segundo Mussolini foi informado, o papa tinha despachado Pacelli em muitas missões no exterior — França, América do Sul, Estados Unidos e outros países — para ajudá-lo a conquistar o apoio dos cardeais estrangeiros. Tudo isso era boa notícia para o Duce. Um relatório secreto da polícia no ano anterior descrevera Pacelli como “homem de grande mérito intrínseco, excelente italiano, grande e sincero amigo do nosso regime”. E dava um conselho: por essa razão, “os bons círculos do Vaticano contam, ardorosamente, com a sabedoria do nosso governo, que — em especial neste momento —, dizem eles, deveria evitar a todo custo mostrar — mesmo remotamente — qualquer simpatia pelo cardeal

Pacelli”.13

Depois da morte do papa, relatos similares continuaram a chegar. Um informante da polícia falou com o cardeal Angelo Dolci, ex-núncio papal, que também considerava Pacelli a escolha mais provável. “Dolci, que é um bom italiano, muito simpático ao fascismo e admirador do Duce”, disse o informante, “continua convencido de que Pacelli seria um verdadeiro amigo do regime como pontífice.” O cardeal Dalla Costa, de Florença — visto como homem tão santo que era capaz de realizar milagres —, também era tido como candidato forte. Se um desses dois fosse eleito, o conclave seria muito curto; se não fosse, poderia arrastar-se

por semanas.14

O governo decretou feriado no dia do funeral do papa, fechando escolas, escritórios e cinemas. Relutante, Mussolini compareceu à cerimônia, realizada na Igreja de Sant’Andrea della Valle, em Roma, assim como outras altas autoridades do governo, além do rei e da

rainha.15

Para Mussolini e os outros líderes fascistas, era como se eles tivessem acordado e descoberto que uma dor irritante que os afligia havia muito tempo tinha desaparecido por milagre. A mão firme de Pacelli podia ser sentida em toda parte. Nos oceanos de tinta que o Vaticano e a imprensa católica dedicaram ao papado de Pio XI, seu conflito com o regime não foi mencionado, nem seu conflito com Hitler e os nazistas. Os jornais italianos entenderam logo a mensagem. Em sua prodigiosa cobertura do papado de Pio XI, deram grande destaque à Conciliação. Se o papa algum dia tivera algo de negativo a dizer sobre Mussolini ou o fascismo,

isso foi esquecido.16

No dia da morte do papa, Pignatti deu ao Ministério do Exterior uma lista de todos os conclavistas, com as respectivas idades, do cardeal Pignatelli di Belmonte, de oitenta e oito anos, ao cardeal Tisserant, de cinquenta e cinco. Dos sessenta e dois membros do Sacro Colégio, trinta

e cinco eram italianos. 17

No dia 18, enquanto os cardeais se reuniam em Roma, Diego von Bergen, embaixador da Alemanha na Santa Sé, foi falar com seu homólogo italiano. Bergen estava ansioso para contar a Pignatti sobre sua recente conversa com o cardeal Pacelli: o cardeal ficara comovido com a mensagem de pêsames de Hitler e pedira que seu agradecimento pessoal e o do Sacro Colégio fossem transmitidos ao Führer. Pacelli também queria que Hitler soubesse que ele esperava que a conciliação entre o Reich e a Santa Sé agora fosse possível. A mensagem tinha agradado bastante ao governo nazista.

“O embaixador me disse”, contou Pignatti, “que, se a escolha do conclave recaísse sobre o cardeal Pacelli, Pacelli faria o possível para reconciliar-se com a Alemanha e, provavelmente, teria êxito.”

O embaixador italiano deu um conselho a Bergen, com a intenção de ajudar as duas causas. As relações do Reich com o Vaticano só poderiam ser reparadas, disse ele, se o governo alemão tomasse a iniciativa de melhorar o clima. Em primeiro lugar, os jornais alemães precisavam baixar o tom das críticas ao Vaticano. Os cardeais prestavam muita atenção ao que se dizia na imprensa estrangeira, e artigos hostis recentes

da Alemanha não estavam ajudando. 18

Pignatti também recomendou ao embaixador da Alemanha que fizesse o possível para que os quatro cardeais alemães assumissem uma atitude conciliatória no conclave. Se pregassem uma guerra santa contra o regime nazista, advertiu ele, “tudo estaria perdido”. Era crucial que convencessem os outros cardeais de que um acordo com os nazistas ainda estava ao alcance. Bergen disse que telegrafaria na mesma hora para Berlim a fim de pedir um fim às polêmicas na imprensa. Quanto aos

cardeais alemães, declarou-se otimista.19

Para o embaixador italiano, a questão do comportamento dos cardeais alemães no conclave era importante demais para ficar por completo nas mãos de Bergen. Em 21 de fevereiro, ele visitou Ledóchowski para pedir

ajuda; o superior geral dos jesuítas disse que faria o possível para ajudar.20

Com a aproximação do conclave, Pignatti voltou a procurar a embaixada alemã, falando com o vice de Bergen, Fritz Menshausen. O enviado nazista, informou Pignatti, “insistiu diversas vezes na candidatura de Pacelli como papa e de Tedeschini” — antigo núncio na Espanha — “como secretário de Estado. Seria a melhor solução para a Alemanha e

deveria possibilitar um alívio nas relações entre a Santa Sé e o Reich”.21

Pignatti corria de um cardeal italiano para outro, tentando convencê-los a escolher um papa que fosse favorável ao regime fascista e não criticasse os nazistas em público. Os cardeais alemães apoiaram Pacelli, portanto ele achava que, se os cardeais franceses entrassem na linha, o resto dos não italianos faria o mesmo. Os cardeais italianos eram outra história. Criticavam Pacelli “por uma fraqueza de caráter, por ser facilmente influenciável e por de vez em quando tropeçar, como acontece com as pessoas fracas”. Pignatti repassou tudo isso a Ciano, acrescentando: “Esses pontos, na minha opinião, têm muito

fundamento.” 22

O trem que trazia o cardeal Baudrillart de Paris chegou a Roma em 20 de fevereiro. Profundamente dedicado a Pio XI, o francês ficou perturbado ao ouvir tantos colegas fazerem críticas ao pontífice. “Neste país deixa-se rapidamente de ser um grande homem”, observou o cardeal. Dois dias depois de chegar, foi ver Pacelli que, não sem alguma hesitação, se dispôs a refletir sobre suas próprias chances no conclave.

“No fim das contas”, previu Baudrillard, “ele será um conciliador.”23

Quem mais resistia entre os cardeais franceses era Eugène Tisserant, que achava Pacelli ansioso demais para agradar aos alemães; preferia o antigo núncio na França, Luigi Maglione. Os cardeais franceses discutiram o assunto e chegaram a um acordo: Pacelli como papa e Maglione como secretário de Estado. Tisserant foi ver Pacelli, que, aparentemente sem saber que Tisserant lhe fazia restrições, confidenciou-lhe seu nervosismo. Estava convencido de que os cardeais italianos da Cúria não gostavam dele e não lhe dariam seu voto.

— Seria melhor que eu pegasse meu passaporte e fosse para a Suíça logo depois do conclave — disse Pacelli, referindo-se ao lugar onde costumava passar férias.

— Os cardeais franceses vão aguentar firme — respondeu Tisserant, tentando tranquilizá-lo. — No entanto, a decisão deles será unânime e mais sólida se souberem que o senhor planeja escolher o cardeal Maglione como secretário de Estado.

— Pode lhes dar a minha palavra — retrucou Pacelli, e o negócio foi

fechado. 24

 

* * *

 

“O GRANDE DIA o chegou.” Era quarta-feira, 1 de março, e o conclave ia começar. Baudrillart acordou às 5h30 e, depois de celebrar missa, partiu para o Vaticano. Vestiu-se com outros cardeais, e depois todos marcharam para a Capela Paulina, onde uma missa foi celebrada, seguida por um “glacial e monótono” sermão em latim que poucos conseguiram decifrar. No começo da noite, os três últimos cardeais chegaram — William O’Connell, arcebispo de Boston; Sebastião Leme, arcebispo do Rio de Janeiro; e Santiago Copello, arcebispo de Buenos Aires. O navio

deles tinha aportado em Nápoles naquela manhã. 25

Enquanto os outros cardeais foram amontoados em pequenos quartos do palácio Apostólico, o cardeal Pacelli, como camerlengo, teve o privilégio especial de ficar em seu próprio apartamento, tecnicamente dentro da restrita área do conclave. Os outros cardeais jantaram juntos.

Pacelli jantou sozinho. 26

Na manhã seguinte, os cardeais fizeram fila para entrar na Capela Sistina, alguns mais velhos andando com dificuldade. Cada um encontrou o seu lugar marcado com a pequena mesa coberta, formando duas filas ao longo da capela, uma de frente para a outra. A essa altura estava claro que ou o príncipe herdeiro de Pio XI, Eugenio Pacelli, ganhava numa primeira votação, ou, se seus detratores conseguissem bloquear a eleição, o conclave se estenderia por muitos dias.

Três cardeais foram escolhidos por sorteio para contarem os votos. Então o silêncio tomou conta da capela à medida que cada cardeal enfiava a pena no tinteiro e rabiscava o nome do seu candidato num pedaço de papel. Um a um eles se levantaram e formaram uma fila. Ao aproximar-se do altar, cada um se ajoelhava, oferecia uma prece e recitava o juramento, em latim, depois depositava o papel dobrado com o voto.

Na primeira votação, Pacelli recebeu trinta e dois votos, uma pequena maioria dos sessenta e dois cardeais presentes. Nove tinham votado em Dalla Costa, o arcebispo de Florença, e sete em Maglione, o antigo núncio papal na França. Pacelli precisava de mais dez votos para alcançar a necessária maioria de dois terços. Outros favoritos, no passado, tinham conseguido maioria e desaparecido, por não conseguirem angariar mais apoio. “Quem entra no conclave como papa sai como cardeal”, diz o velho adágio, não sem alguma base histórica.

Para uma segunda rodada, os cardeais sentaram-se às suas mesas, cada um escrevendo no papel o nome de sua escolha e dobrando-o. Mais uma vez formaram uma fila e, seguindo o velho rito, levaram o voto até o altar. Dessa vez Pacelli obteve mais oito votos, mas ainda não bastava. Outra vez, palha molhada foi acrescentada às tiras de papel na lareira, para que uma fumaça negra se formasse acima do palácio Apostólico. As duas votações da manhã estavam concluídas. Nenhum papa fora eleito. Os cardeais fizeram uma pausa para almoçar.

Quem esperava que Pacelli fosse barrado teve uma decepção quando os cardeais se reuniram depois do almoço para a terceira votação. Apenas catorze ainda resistiram ao que a muitos parecia inevitável. Eugenio Pacelli, que por nove anos servira como secretário de Estado de Pio XI, recebeu quarenta e oito votos. Ultrapassara os dois terços exigidos, com

sobra de meia dúzia de votos. Era seu sexagésimo terceiro aniversário.27

 

39. O recém-eleito papa Pio XII abençoa a multidão na praça de São Pedro, março de 1939.

O cardeal Caccia Dominioni está na frente, à direita do papa

 

Antes que se pudesse anunciar o novo papa ao mundo, ele precisava declarar formalmente sua aceitação. O alto e descarnado Pacelli — sério, digno e piedoso — tremia, mas, como observou Baudrillart, “não foi capaz de fingir que recusaria o cargo que havia tanto tempo desejava”. O cardeal-diácono, Camillo Caccia Dominioni, andou a passos largos até a loggia de São Pedro para falar à multidão agitada que mantinha os olhos pregados na porta desde que a fumaça branca havia subido. “Habemus papam ”, entoou. Quinze minutos depois, o novo papa apareceu na sacada para abençoar a multidão entusiástica. Adotou o nome de Pio XII, em homenagem não só ao homem com quem passou tanto tempo, mas

também a Pio IX e Pio X, heróis dos tradicionalistas da Igreja.28

Naquela noite, Pignatti deu a notícia a Ciano, atribuindo o êxito de Pacelli ao fato de ter deixado claro para os colegas que, embora como secretário de Estado tivesse executado fielmente as ordens do papa, preferia uma atitude bem mais obsequiosa para com a Itália e a

Alemanha.29

Ciano recebeu a boa notícia quando voltava de uma viagem a Varsóvia. Em seu diário, recordou a conversa que teve com Pacelli no dia da morte do papa: “Ele foi muito conciliador e parece também que nesse meio-tempo melhorou as relações com a Alemanha. Na realidade, Pignatti só me disse ontem que ele era o cardeal preferido pelos alemães.” Em Roma, na tarde do dia seguinte, Ciano foi ver Mussolini, que estava satisfeito com a eleição de Pacelli. O Duce disse a Ciano que ajudaria o novo papa dando-lhe conselhos sobre como governar com a eficiência a Igreja. Mussolini ordenou à imprensa que elogiasse o novo papa: “Comente com aprovação a eleição do novo pontífice”, diziam as instruções, “lembrando sua piedade, sua cultura e sua vasta experiência

política.” 30

Mal passadas quarenta e oito horas desde a eleição, o papa Pacelli convocou o embaixador alemão, encontrando-se com ele na manhã de 5 de março. Pio XII tinha pressa em assegurar ao governo nazista que buscava uma nova era de entendimento. Depois de dizer a Bergen o quanto se sentia perto do povo alemão por ter passado tantos anos em Munique e Berlim, ele tocou no assunto principal. Compreendia que países diferentes adotassem diferentes formas de governo, e não era função do papa julgar os sistemas que outros países escolhiam. Lembrou a Bergen que eles dois mantinham uma boa relação pessoal havia trinta

anos. Manifestou o desejo de que isso não mudasse. 31

Bergen ficou satisfeito, mas se viu na posição inusitada de ter que advertir o governo nazista contra as expectativas exageradamente promissoras. “A atitude da nossa imprensa para com o novo papa”, escreveu ele ao Ministério das Relações Exteriores da Alemanha três dias depois, “tem sido observada bem de perto, não só no Vaticano, mas também em círculos italianos, e recebida com satisfação.” Ele tinha mandado para Pio XII cópias de vários artigos positivos saídos na imprensa alemã sobre a sua eleição, na esperança de que ajudassem a convencê-lo a acabar com o tom antinazista de L’Osservatore Romano. Mas acrescentou uma advertência: “O inegável relaxamento da tensão que predomina aqui desde a morte do papa despertou fortes esperanças em alguns setores de uma remoção imediata das diferenças entre a Alemanha e o Vaticano.” Para evitar “expectativas exageradamente otimistas” e “superar as consideráveis dificuldades”, aconselhou ele, “paciência e

tempo são necessários, além de boa vontade”. 32

Uma semana depois, em 12 de março, quarenta mil pessoas se reuniram em São Pedro para assistir à coroação do novo papa. Uma procissão de dois mil prelados em seus mantos abastados e de convidados distintos, muitos de uniforme diplomático ou militar, marchou com solenidade. Um pelotão da Guarda Suíça em uniforme de gala com reluzentes alabardas abriu caminho, seguido por uma longa fila com representantes de todas as ordens religiosas e, mais atrás, centenas de bispos e cardeais, com seus mantos escarlates, cobertos por vestes brancas e douradas. Enfim veio a figura sombria do novo pontífice, usando uma mitra cravejada de joias brilhantes, carregado num trono por funcionários de libré de veludo vermelho. Atrás dele caminhavam dois prelados portando imensos leques de pena de avestruz, que abanavam com delicadeza, seguidos por mais homens da Guarda Nobre e da Guarda Suíça, os comandantes com brilhantes armaduras de prata e elmos

emplumados.33

O homem que teria a honra de colocar a tiara papal na cabeça de Pacelli era ninguém menos do que o cardeal Caccia Dominioni. De alguma maneira, o Vaticano e a política fascista tinham conseguido ocultar o rastro de acusações de pederastia do cardeal. O último episódio nos arquivos da polícia tinha acontecido pouco tempo antes. Enquanto viajava num ônibus em Roma, em agosto, um policial teve a atenção despertada pelas caixas de cigarro que um jovem mensageiro carregava. Desconfiado, o policial descobriu que elas não tinham o selo fiscal exigido pela lei italiana. Quando perguntou ao rapaz onde tinha conseguido o contrabando de cigarros, ele respondeu que fora presente de um figurão do Vaticano. Pressionado, o menino identificou o cardeal Caccia. Quando a polícia telefonou ao cardeal para apurar a história, ele confirmou o relato, e pediu que o menino fosse deixado em paz. “Como Caccia Dominioni tem reputação de pederastia”, concluiu o informante da polícia, “estão dizendo que a razão da oferta dos cigarros foi fácil de

explicar.” 34

Joseph Kennedy, enviado pessoal do presidente Roosevelt à cerimônia de coroação, tinha outro tipo de interesse sexual em mente enquanto andava pelo corredor ao lado do uniformizado Galeazzo Ciano. “Nunca na vida conheci um asno mais pomposo”, comentaria Kennedy mais tarde. Enquanto marchava pela basílica, Ciano não parava de fazer a saudação fascista, comportando-se de tal maneira que parecia que ele “tentava dividir as homenagens com o papa”. No chá em honra da ocasião, Ciano passou o tempo todo acossando mulheres bonitas. No jantar, “não conseguia falar a sério durante cinco minutos, com medo de que as duas ou três moças, convidadas para convencê-lo a vir, pudessem desaparecer”. Pelo que observou de Ciano e ouviu sobre Mussolini, Kennedy ficou “achando que poderíamos obter resultados muito melhores mandando uma dúzia de coristas bonitas a Roma do que um

bando de diplomatas e uma frota de aviões”. 35

 

* * *

 

EM 15 DE março, três dias depois da coroação do papa, o exército alemão tomou conta do resto da Tchecoslováquia. Em Praga, no dia seguinte,

Hitler proclamou o país um protetorado da Alemanha. 36 Poucos poderiam negar que a Europa estava prestes a passar por outra guerra terrível.

No dia seguinte ao triunfal discurso do Führer em Praga, Ciano teve seu primeiro encontro com o novo papa e ficou feliz de ver que ele não tinha mudado, que continuava “bondoso, cortês e humano”. Pio XII manifestou sua preocupação com a situação alemã, mas disse a Ciano que planejava assumir uma atitude mais conciliatória com o Reich e esperava ver melhoras nas relações do Vaticano com Berlim. Se esses esforços dessem resultado, comentou, o governo nazista teria que fazer a sua parte. Ciano, satisfeito com o que ouviu, disse acreditar que Mussolini poderia ajudá-lo a convencer Hitler a cooperar. Com relação ao recente conflito do Vaticano com o governo italiano, o novo papa “se declarou otimista”, escreveu Ciano. Prometeu remover o cardeal Pizzardo da chefia da Ação Católica e confiar sua direção a um comitê de arcebispos diocesanos. Mussolini havia muito queria que Pizzardo fosse demitido, mas Pio XI jamais concordou.

O Vaticano tinha perguntado recentemente aos bispos da Itália se ainda havia alguma tensão entre grupos da Ação Católica em suas dioceses e autoridades dos governos ou do Partido Fascista locais. As respostas chegaram nas semanas seguintes à morte de Pio XI. Com a notável exceção de Milão, onde o cardeal Schuster relatou dificuldades, o quadro era animador. Praticamente todos disseram que as relações eram excelentes. O novo papa fez a sua parte, instruindo Dalla Torre a evitar publicar qualquer coisa em L’Osservatore Romano que o governo italiano ou o alemão pudessem achar “irritante”. Para Mussolini e todos aqueles que desejavam um retorno aos dias felizes de cooperação entre o Vaticano e o regime fascista, foi como se uma nuvem negra se

dissipasse. 37