O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 34 de 38

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O Papa e Mussolini

Nota do autor

 

A Igreja Católica Romana combateu heroicamente o fascismo italiano, ou pelo menos é o que se costuma dizer. Os papas se opuseram à ditadura, furiosos por ela ter privado o povo dos seus direitos civis. A Ação Católica italiana, a organização laica da Igreja, destacou-se como uma das mais poderosas forças de oposição ao regime. As “leis raciais” fascistas de 1938, nessa consoladora narrativa, provocaram protestos indignados do Vaticano, que denunciou seu cruel tratamento aos judeus.

Infelizmente, como os leitores viram nestas páginas, essa versão tem pouca relação com o que de fato aconteceu. A Santa Sé desempenhou papel central no estabelecimento e na manutenção do regime fascista. A Ação Católica trabalhou em estreita colaboração com as autoridades fascistas para aumentar o alcance repressivo da polícia. Longe de se opor ao tratamento aos judeus como cidadãos de segunda classe, a Igreja forneceu a Mussolini os argumentos mais fortes para adotar essas medidas tão severas contra eles. Como se mostra aqui, o Vaticano fez um acordo secreto com o ditador para evitar qualquer crítica às infames “leis raciais” antissemitas em troca de um melhor tratamento às organizações católicas. Esse fato é amplamente desconhecido na Itália, e, apesar de todas as provas apresentadas neste livro, não tenho dúvida de que muitos o negarão. Que o Duce e seus asseclas contavam com os homens próximos do papa para manter sob controle as crescentes dúvidas de Pio XI a respeito de Mussolini e Hitler é uma história constrangedora por numerosas razões, incluindo o fato de que um dos principais atores desses esforços foi o cardeal Eugenio Pacelli, o homem que sucederia Pio XI. Não há causa mais cara hoje aos tradicionalistas da Igreja do que ver Pacelli — papa Pio XII — proclamado santo.

Com a abertura, em 2006, dos arquivos do Vaticano relativos a esse dramático período, a história completa daqueles anos, com toda a sua riqueza, seus altos e baixos emocionais e suas surpresas, pode enfim ser contada. Os registros diários feitos pelo cardeal Pacelli dos seus encontros com o papa, além de dezenas de milhares de outros documentos que lançam luz sobre esta história, estão disponíveis no Arquivo Secreto do Vaticano. Documentos preciosos também se encontram em outros recém-abertos arquivos da Igreja sobre o período, incluindo os da sede dos jesuítas em Roma. Ali, encontramos abundantes documentos do obscuro enviado particular a Mussolini, padre Pietro Tacchi Venturi.

Apesar de oferecerem novas e preciosas revelações, os documentos da Igreja não contam toda a história. Boa parte dela deve ser desvendada nos registros do próprio regime fascista. Graças aos seus arquivos, nenhum outro período da história apresenta descrições tão vívidas de intrigas vaticanas, ou relatos tão francos de seus escândalos. Um cujas façanhas estão impiedosamente registradas num grosso arquivo da polícia fascista é o protegido do papa que se tornou cardeal naqueles anos, apesar de uma longa série de acusações de pederastia. É nesses arquivos policiais, também, que ficamos sabendo da estranha tentativa de assassinato sofrida pelo padre Tacchi Venturi e do segredo que ele tentava esconder com tanto desespero. Dispomos de tudo isso graças à ampla rede de espiões fascistas no Vaticano, cujos relatórios enchem dezenas de caixas nos arquivos estatais. Eles contam histórias de prelados brigando pelo poder que nenhum documento da Santa Sé registraria. Descrevem investigações papais cujas constrangedoras revelações permanecem ainda hoje guardadas em arquivos “pessoais” do Vaticano, fora do alcance da nossa visão.

Ao longo dos sete anos de pesquisas para este livro, compilei cópias digitalizadas de vinte e cinco mil páginas de documentos desses diferentes arquivos. Além disso, examinei com atenção milhares de páginas de cartas diplomáticas, memórias e diários italianos, franceses, britânicos, americanos e alemães. O trabalho quase nunca era tedioso, pois as surpresas não paravam. O desafio de juntar documentos de diferentes arquivos para resolver antigos quebra-cabeças era inebriante.

As relações entre as duas figuras épicas que estão no centro deste livro acabaram se revelando mais intrigantes do que eu suspeitava de início. Não porque Mussolini e o papa fossem tão diferentes — embora, é claro, em muitos sentidos as duas figuras dificilmente poderiam ser mais distintas —, mas por tudo o que tinham em comum. Ambos eram de temperamento explosivo. Ambos ficavam furiosos quando eram acusados de fazer papel de bobo para o outro. Ambos exigiam obediência incondicional dos subordinados, cujos joelhos literalmente tremiam de medo de provocar sua ira. Um acabou se desiludindo com o outro, apesar de terem medo do que poderia acontecer se sua aliança fosse desfeita.

Estas páginas, portanto, narram a história de dois homens que chegaram ao poder em Roma no mesmo ano e que, juntos, mudaram o curso da história do século XX. Erudito, respeitável e devoto, Pio XI passara grande parte da vida adulta examinando velhos manuscritos. Tinha saudade dos tempos medievais, quando não se contestavam os princípios fundamentais da Igreja. Mussolini, apóstolo da novidade, era um agitador, um fanfarrão violento e um anticlerical visceral. Como os leitores deste livro puderam ver, o relacionamento dos dois não acabou bem. Pio XI, que a princípio saudara Mussolini como o Homem enviado pela Providência, terminou a vida achando que tinha sido manipulado. O Duce não foi mais feliz. Como disse aos membros do Conselho Geral Fascista, o papa foi um desastre.