O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 32 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo vinte e nove

 

RUMO AO DESASTRE

 

Na Sexta-Feira da Paixão, 7 de abril, Mussolini enviou tropas italianas para a Albânia. O novo papa, sob pressão internacional para denunciar a invasão, nada disse. “Nem uma palavra de sua boca sobre a sangrenta Sexta-Feira da Paixão”, queixou-se um importante intelectual católico

francês.1 O embaixador da Itália na Santa Sé ficou muito aliviado com a nova atmosfera no Vaticano. “Agora está claro”, disse Pignatti a Ciano duas semanas depois, “qual é a paz que Pio XII invoca para a

humanidade. Não é a paz de Roosevelt, mas a do Duce.”2

O contraste entre os dois papas era óbvio para todos que os conheciam. O repórter americano Thomas Morgan, que passou anos em Roma e com frequência encontrou os dois, descreveu-os como homens de temperamentos opostos. Enquanto Pio XI era “gladiatório, desafiador, autoritário e inflexível”, seu sucessor era “convincente, consolador, simpático e conciliatório”. Ou, como disse o embaixador francês Charles-Roux, um montanhista de Milão foi sucedido por um burguês romano; um homem pronto a dizer o que pensava substituído por um

diplomata cauteloso. 3

O governo nazista também ficou satisfeito com as tentativas feitas pelo novo papa de reparar o dano causado por Pio XI. Em suas memórias, Ernst von Weizsäcker, chefe do Ministério do Exterior alemão que logo sucederia Bergen como embaixador alemão na Santa Sé, escreveu: “Se Pio XI, tão impulsivo e enérgico, tivesse vivido um pouco mais, muito provavelmente haveria um rompimento nas relações entre o Reich e a

Cúria.” 4 Mas, como se viu, no aniversário de Hitler, 20 de abril, o núncio papal em Berlim transmitiu pessoalmente ao Führer os votos de felicidades do novo pontífice. Em toda a Alemanha, sinos tocaram em comemoração. Os jornais alemães cobriram de elogios o papa Pacelli, louvando-o por cumprimentar calorosamente Franco e seus compatriotas pela conquista da Espanha. Os jornais deram atenção especial aos comentários do papa equiparando comunismo e democracia. Ao repassar todas essas informações a Ciano, o embaixador italiano em Berlim observou que o novo pontífice tinha chegado num momento oportuno. Quando o mundo condenava a invasão nazista à Tchecoslováquia, o Reich precisava, “talvez pela primeira vez, que a Igreja estivesse a favor e

não contra”.5

 

40. Papa Pio XII, março de 1939

Em maio, o papa teve um encontro com Giuseppe Bottai, ministro da Educação da Itália e um dos homens mais chegados a Mussolini. Embora a sala fosse a mesma que Pio XI usara, Bottai ficou impressionado com a diferença. No começo do seu papado, Pio XI tinha mantido um escritório espartano, mas à medida que envelhecia ia acumulando lembranças, bem como os tomos que consultava com mais frequência. Na descrição de Bottai, o idoso Pio XI cercara-se de uma “pitoresca confusão de móveis, enfeites, bugigangas, documentos, jornais, livros”. Já Pio XII sentava-se em meio a “uma ordem meticulosa”. Sua escrivaninha continha apenas objetos indispensáveis. Acima de tudo, em comparação com o volúvel e inflamável Pio XI — certo de que Deus o guiava, inclinado a digressões —, seu sucessor transpirava calma e tinha o ar de

quem sabia bem qual era a sua função.6

Nos meses seguintes, Mussolini foi ganhando confiança, seguro de que uma nova era, mais feliz, tinha chegado. Uma das muitas boas notícias que recebeu foi a decisão do papa, em julho, de restabelecer relações com a direitista Action Française. Em resposta a um pedido do líder Charles Maurras — protofascita e o mais destacado antissemita da França —, o papa revogou a decisão tomada por Pio XI, em 1926, de proibir a participação católica na organização. A medida desagradou não apenas ao governo francês, mas também a alguns dos mais influentes clérigos da

França.7

Pio XII, informou Pignatti, não era só um conservador, mas “tem clara simpatia, eu quase diria uma queda, pela nobreza, coisa que traz no sangue”. Os nobres romanos estavam encantados. Seu antecessor, de modestas origens sociais, tinha mostrado pouca deferência para com eles e, com o passar dos anos, cortara seus privilégios. Pio XII, produto da aristocracia negra, agiu com rapidez para restabelecer as velhas

prerrogativas.8

Mussolini recebeu outro relatório animador sobre o novo papa, dessa vez vindo da Suíça. Seu embaixador naquele país conversou por um longo período com o núncio papal, que acabara de voltar de Roma. O clima no Vaticano, segundo o núncio, estava “totalmente mudado”, como “uma lufada de ar fresco”. O Santo Padre falava “com muita simpatia pelo fascismo e com sincera admiração pelo Duce”. Estava convencido de que uma reorganização da Ação Católica na Itália eliminaria uma grande fonte de atrito com o regime. Com relação à Alemanha, o novo pontífice não poderia estar mais ansioso para chegar a

um acordo.9

Muita gente na Igreja também estava satisfeita com a mudança. Depois de anos do teimoso e combativo Pio XI, as audiências com Pio XII eram um alívio. Em contraste com os longos monólogos de Pio XI, o novo papa escutava com atenção os visitantes e parecia jamais esquecer qualquer coisa que lhe dissessem. Como Pio XI, seu sucessor seguia a tradição de fazer as refeições sozinho. Eram, se fosse possível, ainda mais simples do que as do antecessor, e, enquanto comia, ele gostava de ver seus canários esvoaçarem dentro da gaiola que mantinha na sala de jantar. Mas Pio XII aceitava sem hesitação posar para fotografias com pequenos grupos de visitantes, coisa que Pio XI considerava abaixo da sua dignidade, e, ao contrário de Pio XI, usava com prazer o telefone. “Aqui é Pacelli”, ouviu Francis Spellman, sem conseguir acreditar, quando o novo papa resolveu ligar para o velho amigo, recém-nomeado arcebispo

de Nova York.10

Depois da tensão dos últimos meses da vida do papa Achille Ratti, todos os elementos do regime clero-fascista logo estavam de volta. Uma cerimônia realizada numa das mais importantes igrejas de Roma em abril de 1940 foi emblemática. A associação nacional da juventude feminina fascista fazia campanha havia muito, sob a orientação dos padres ligados a seus grupos locais, para tornar Santa Catarina a santa padroeira da Itália. As moças conseguiram o que queriam logo depois que Pacelli se tornou papa, e, para assinalar a primeira comemoração do novo feriado nacional, o bispo que supervisionava a associação da juventude feminina fascista presidiu uma missa especial. Cada uma das duas mil moças presentes levava uma rosa branca que elas, uma depois da outra, depositaram no

altar da igreja.11

Mas os prazeres comuns da vida em Roma estavam em vias de ceder lugar às realidades da guerra. No começo da manhã de 1 o de setembro de 1939, tropas alemãs invadiram a Polônia. Prenderam e assassinaram muitos padres católicos, mas o papa limitou seus comentários a um apelo genérico pela paz e pela fraternidade. Não queria tomar partido, em parte

devido à crença de que era provável que os nazistas vencessem. 12 Dois dias depois, a Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha. No mês seguinte, sob a supervisão de Adolf Eichmann, forças alemãs começaram a deportar judeus da Áustria e da Tchecoslováquia para campos na Polônia. A Segunda Guerra Mundial e o Holocausto tinham começado.

Na primavera de 1940, exércitos alemães marcharam de uma conquista para a próxima. Ansioso para dividir o butim, em 10 de junho Mussolini declarou guerra à França e à Grã-Bretanha. Mandou às pressas forças italianas para o sul da França, pensando em tomar posse de algum território antes que as tropas nazistas ficassem com tudo. Motivados por seu característico entusiasmo, muitos italianos achavam que a guerra seria

curta. Tacchi Venturi previu que acabaria antes do Natal. 13

Os judeus da Itália viviam em desespero, vilipendiados como inimigos do Estado, milhares desempregados, os filhos expulsos das escolas. A fim de angariar apoio para sua campanha antissemita, o governo continuava recorrendo generosamente a imagens católicas, citando textos da Igreja. O principal veículo do governo para difundir sua bile antissemita ainda era a quinzenal, colorida e lustrosa La Difesa della Razza. Boa parte do seu conteúdo era canibalizado de material católico antissemita. A edição de abril de 1939, publicou, tipicamente, um artigo intitulado “Cristo e os cristãos no Talmude”, e outro chamado “Católicos e judeus na França”. Artigos como “Os eternos inimigos de Roma” diziam aos leitores que a Igreja sempre tratara os judeus como cidadãos de segunda classe, para proteger os católicos contra suas ações predatórias. O inimigo, para La Difesa della Razza, assim como para a Santa Sé, era a Revolução Francesa,

apresentada como obra de uma conspiração liberal-maçônico-judaica. 14

Mussolini começou a utilizar outra vez os préstimos do padre Tacchi Venturi. Duas semanas depois da coroação do papa, o Duce convocou o jesuíta para lhe dizer que queria que o pontífice orientasse o clero da

Espanha a apoiar Franco ainda com mais vigor do que antes. 15 Queria também a ajuda do papa para que os padres da Croácia incentivassem os fiéis a apoiarem a Itália em vez da Alemanha; e pediu ao papa que mobilizasse o clero na América Latina para combater o sentimento pró-

Estados Unidos na região.16

Enquanto isso, La Civiltà Cattolica, a publicação supervisionada pelo Vaticano, tentava conquistar apoio católico para as leis raciais. Em novembro de 1940, a revista elogiou um novo livro publicado pelo governo que explicava a variedade italiana de racismo, comparando de maneira favorável sua campanha racial à da Alemanha. A campanha da Itália seguia fielmente os ensinamentos católicos, enquanto a alemã recorria a teorias biológicas enganosas. Quando o ex-reitor da Universidade de Roma, um judeu que se convertera ao catolicismo, escreveu para o secretário de Estado do Vaticano se queixando do artigo,

o monsenhor Tardini respondeu defendendo o texto.17

 

* * *

 

O DESTINO DAS tropas da itália logo mostrou a falsidade das fanfarronadas militaristas de Mussolini. Mal equipados, mal comandados e mal treinados, os soldados italianos se revelaram incompetentes. De modo emblemático, três semanas depois da declaração de guerra da Itália, Italo Balbo, extraordinário aviador fascista, morreu quando uma unidade italiana de artilharia antiaérea derrubou por engano seu avião no momento em que ele aterrissava num aeródromo italiano na Líbia.

Invadindo a Albânia, depois a Grécia, juntando forças com os alemães no Norte da África e no front oriental na Rússia, os italianos precisaram ser socorridos diversas vezes pelos alemães. No outono de 1942, tropas da Itália e suas aliadas alemãs recuaram perante as forças aliadas que avançavam no Norte da África. Naquele inverno, duzentos mil soldados italianos combateram ao lado dos alemães no front oriental na desastrosa Batalha de Stalingrado. Quase metade foi morta ou aprisionada. A maré tinha virado, e ficava claro que as potências do Eixo marchavam rumo à derrota. O entusiasmo inicial dos italianos pela guerra desapareceu. No começo de julho de 1943, centenas de aeronaves aliadas despejaram bombas em Roma, mirando alvos militares, mas causando milhares de baixas entre os civis.

No sábado, 24 de julho, o Grande Conselho do Fascismo se reuniu pela última vez. Como sempre, Mussolini estava sentado à sua mesa numa extremidade da ampla Sala do Mapa do Mundo. Diante de longas mesas que se estendiam de um lado e do outro do Duce, sentavam-se os figurões do fascismo italiano. A reunião começou no meio da tarde, quando Mussolini, muito pretensioso, soltou uma de suas tiradas, culpando generais incompetentes pelos recentes desastres militares. Escarneceu em particular dos sicilianos, que tinham saudado as tropas aliadas como libertadoras.

Dino Grandi, muito bem vestido, de cavanhaque, um dos luminares do regime, sentado perto do Duce, levantou-se e pronunciou um discurso como o ditador nunca tinha ouvido. Grandi proclamou que o único culpado pela situação desastrosa em que o país se encontrava era Mussolini. “O povo italiano foi traído por Mussolini”, disse Grandi, que tinha sido ministro do Exterior do Duce e embaixador na Grã-Bretanha, “no dia em que a Itália começou a ser germanizada.” Mussolini, prosseguiu, “nos mergulhou numa guerra que é contra a honra, os interesses e os sentimentos do povo italiano”.

Estupefato, com a confiança abalada, o ditador quis interrompê-lo, mas suas tentativas eram cada vez mais débeis, enquanto Grandi propunha a sua deposição e a volta da democracia parlamentarista. Então, Grandi se virou para Mussolini: “Você acha que ainda conta com a devoção do povo italiano? Você a perdeu no dia em que entregou a Itália à Alemanha. Você pensa que é soldado: a Itália estava arruinada no dia em que você colocou as divisas de comandante. Há centenas de milhares de mães que gritam de dor: Mussolini matou meu filho!”

Sentados às mesas compridas, alguns membros do Grande Conselho, atônitos e furiosos, juraram a Grandi: “Você pagará com a cabeça por sua traição!”, gritou um deles. Aqueles que concordavam com Grandi pensaram se deveriam apoiar sua moção, que exigia a deposição do ditador, a devolução do controle das forças armadas da Itália de Mussolini para o rei e a restauração da ordem constitucional. Nervosos, refletiram sobre que fim poderiam ter aqueles que ousassem votar a favor.

Passava muito da meia-noite e já era 25 de julho de 1943. Depois de horas de debates acalorados, a fatídica votação foi realizada. Dezenove dos vinte e sete homens — apesar do medo de não sobreviverem àquela noite — votaram a favor da moção. Ficaram aliviados, talvez até um pouco surpresos, quando saíram da sala e nenhum miliciano fascista os deteve.

Mussolini foi direto para casa, furioso, mas confiante no apoio do rei. Mais tarde, quando saiu para informar a Vítor Emanuel o que tinha acontecido, sua esposa, Rachele, tentou impedi-lo. Ela não confiava nem um pouco no monarca. Agora que não havia mais dúvida de que Mussolini estava do lado perdedor da guerra, o rei covarde estaria ansioso para jogar toda a culpa nele e encontrar uma maneira de se livrar da responsabilidade pelo desastre, em cuja criação desempenhara papel tão importante. Vítor Emanuel mandou prender Mussolini e designou o general Pietro Badoglio, herói da guerra etíope, para chefiar um governo interino.

As semanas seguintes foram caóticas. O regime que governara a Itália por duas décadas tinha caído, mas não se sabia ao certo o que poderia acontecer. O rei e outros líderes italianos queriam escapar o quanto antes do controle de Hitler. Mas, com milhares de soldados italianos lutando ao lado dos nazistas na Europa Oriental, tropas nazistas combatendo ao lado de tropas italianas na Sicília e acampadas em outras partes da península, desvencilhar-se dos alemães não era tão fácil.

Tacchi Venturi percebeu uma oportunidade. Em 10 de agosto, em meio à confusão que tomara conta de Roma, escreveu ao cardeal Maglione lembrando-lhe de todos os esforços feitos pelo Vaticano em benefício dos católicos que continuavam a ser considerados judeus pelo Estado. Incrivelmente, ainda tentou polir a imagem do Duce na Santa Sé. Mussolini, escreveu ele, tinha considerado “penosa” a situação dos católicos tratados como judeus pelas leis raciais. Já em julho de 1941, afirmou, o ditador havia preparado uma nova lei para aliviar o problema. Se a guerra não tivesse atrapalhado, ela teria entrado em vigor.

O enviado jesuíta tinha excelentes relações no Ministério do Interior e, segundo disse a Maglione, achava que elas seriam favoráveis às mudanças que o Vaticano vinha recomendando. Pediu permissão para fazer três pedidos. O primeiro era que famílias mistas — ou seja, aquelas que tivessem um judeu convertido — fossem consideradas “plenamente arianas”. O segundo era garantir que os judeus em processo de conversão antes de 1 o de outubro de 1938, e só batizados depois, fossem considerados cristãos, e não judeus. O terceiro era permitir o reconhecimento pelo Estado de casamentos entre dois católicos, um deles

nascido judeu.18 Em 18 de agosto Maglione respondeu dizendo que Pio

XII tinha dado sua aprovação.19

Em seguida, Tacchi Venturi teve um encontro com o ministro do

Interior para fazer seus pedidos. 20 De acordo com o relato bastante revelador que posteriormente preparou para Maglione, ele os limitou às três mudanças aprovadas pelo papa. Teve o cuidado de não pedir o fim das leis raciais, que, segundo escreveu para o cardeal secretário de Estado, “de acordo com os princípios e a tradição da Igreja Católica, contêm algumas cláusulas que deveriam ser revogadas, mas sem dúvida incluem

outras merecedoras de confirmação”. 21

Embora a situação política em Roma tivesse ficado caótica depois da prisão de Mussolini, é espantoso que nem o astuto Tacchi Venturi, nem o politicamente experiente cardeal Maglione, nem o próprio Pio XII percebessem que as leis antissemitas que apoiavam havia tanto tempo não podiam mais ser sustentadas.

Em 8 de setembro, o rei anunciou que tinha assinado um armistício com os Aliados. Temendo o avanço de tropas alemãs, ele e Badoglio fugiram, de modo degradante, para a cidade adriática de Brindisi, no sul, que estava sob controle aliado, não deixando quaisquer ordens para as forças armadas italianas. Hitler, que se preparava para aquele momento desde que o Duce fora deposto, inundou a península italiana de tropas. Num resgate dramático, forças alemãs arrancaram Mussolini do cativeiro e o instalaram como chefe fantoche da República Social Italiana, com sede em Salò, mais ao norte. Uma violenta guerra civil começou, com soldados aliados avançando para o norte através dos campos de extermínio.

Em 10 de setembro, tropas nazistas chegaram a Roma e tomaram a cidade. Uma de suas mais altas prioridades era perseguir implacavelmente os judeus da Itália e enviá-los para os campos de concentração no norte. Ainda naquele mês, a bordo de um navio da marinha britânica perto de Malta, o marechal Badoglio, representando a Itália, e o general Dwight D. Eisenhower, pelos Aliados, assinaram um pacto comprometendo a Itália com a causa aliada. Uma cláusula, incluída por insistência de Eisenhower, revogava todas as leis raciais e libertava os judeus ainda

prisioneiros em campos de concentração administrados por italianos.22

Na manhã de 16 de outubro, os nazistas cercaram o antigo gueto de Roma e foram de casa em casa caçando judeus. Apesar de a maioria dos cerca de sete mil judeus que ainda moravam em Roma ter fugido, alguns escondendo-se nos mosteiros e conventos da cidade, mil e quinze foram capturados e presos num edifício perto do Vaticano. Ali aguardaram o seu destino.

O cardeal Maglione, alarmado, chamou o embaixador alemão, Ernst von Weizsäcker, para fazer um apelo em favor dos prisioneiros. O Santo Padre, disse o secretário de Estado, sentia-se atormentado por ver tamanho sofrimento infligido a um povo pelo simples fato de pertencer a determinada raça.

O embaixador alemão lhe perguntou:

— O que faria a Santa Sé se as coisas continuassem?

— A Santa Sé não gostaria de ser colocada na posição de ter que proferir uma palavra de reprovação — respondeu Maglione.

Nos quatro anos anteriores, disse Weizsäcker, ele tinha admirado a atitude do Vaticano, sua disposição de “manter um perfeito equilíbrio” ao lidar com os dois lados da guerra. Depois de fazer isso tão bem, perguntou ele, será que aquela era mesmo a hora de pôr em risco as relações do Vaticano com a Alemanha? A ordem, deixou claro o embaixador alemão, viera do próprio Hitler. O secretário de Estado queria, de fato, que ele dissesse ao seu governo que o Vaticano estava pensando em protestar contra a deportação dos judeus de Roma?

“Observei”, escreveu Maglione num relato sobre a perturbadora conversa, “que eu suplicara sua intervenção apelando para seus instintos humanitários. Deixava a seu critério mencionar ou não a nossa conversa, que tinha sido tão amistosa.” E, então, ele disse ao enviado nazista “que a Santa Sé tinha sido, como ele mesmo reconhecia, extremamente prudente, para não dar ao povo alemão a impressão de ter feito ou desejado qualquer coisa contra a Alemanha durante uma guerra terrível”.

“Enquanto isso, repito”, declarou o cardeal Maglione ao embaixador alemão, “Vossa Excelência me disse que ele tentará fazer alguma coisa pelos pobres judeus. Agradeço-lhe por isso. Quanto ao resto, deixo a seu critério. Se o senhor achar mais oportuno não mencionar nossa conversa,

que assim seja.”23

No prédio vizinho, onde os judeus eram detidos, mães amedrontadas tentavam consolar os filhos soluçantes. Dois dias depois, os alemães os embarcaram em trens com destino a Auschwitz. Dos mil, apenas dezesseis sobreviveriam. Nos dois meses seguintes, mais sete mil judeus foram capturados na Itália ocupada pelos nazistas, muitos com a ajuda de italianos leais à República de Salò, de Mussolini. Desde a proclamação das primeiras leis raciais, em 1938, até o fim da guerra, sete anos depois, seis mil judeus na Itália se converteram ao cristianismo na esperança de contar com a proteção da Igreja e evitar o destino de seus irmãos. Ao todo, as forças nazistas e seus camaradas italianos mandaram sete mil e

quinhentos judeus da Itália para Auschwitz. Poucos sairiam vivos.24