O Papa e Mussolini
Capítulo onze
A VOLTA DO FILHO NATIVO
Na época em que o Tratado de Latrão foi ratificado, o cardeal Gasparri, então com setenta e sete anos, já era secretário de Estado havia quinze, sob o comando de dois papas seguidos. Em 1922, depois de ajudar a garantir a eleição de Ratti, ele podia ter certeza de contar com o apoio do pontífice, e Pio dava grande valor à experiência do secretário de Estado. Mas, com o passar dos anos, era talvez inevitável que conflitos surgissem entre os dois, pois o papa não toleraria qualquer outro bolsão
de poder no Vaticano.1
Gasparri raramente saía de Roma, exceto para passar as férias de verão em sua cidade natal nas montanhas, a nordeste da capital. Ali sua família o tratava como uma celebridade, o menino da cidade que alcançara sucesso. Quando Gasparri estava em Roma, seus funcionários iam ao seu escritório todas as manhãs. Ele ficava sentado a uma grande mesa redonda, coberta com pilhas de documentos e correspondências. Gasparri dava uma pequena pilha de papéis a cada funcionário que chegava. Durante as temporadas no refúgio de verão, seus auxiliares se revezavam para lhe submeter documentos. Eles gostavam do cardeal baixo e rotundo, que trajava uma simples batina preta, mantendo o chapéu redondo de tecido de abas largas descansando a seu lado, e costumava passar o tempo sentado debaixo de uma grande árvore, desfrutando a
sombra, o ar puro e a vista.2
O senso de humor simples e informal de Gasparri deixava as pessoas à vontade, mas embaixadores na Santa Sé não o achavam de todo honesto e aberto. Como disse o enviado britânico, ele “está longe de ser franco (...) ou, para ser mais exato, sabe mentir”. Quando o embaixador francês o acusou, certo dia, de não dizer a verdade, Gasparri respondeu que fazia apenas o que se esperava de todos os diplomatas, acrescentando, com um
brilho travesso nos olhos, que se necessário o papa lhe daria absolvição. 3
Thomas Morgan, repórter americano, narra uma visita que fez ao escritório de Gasparri no auge da crise com o governo mexicano que, a partir dos anos 1920, fechou vários seminários e igrejas. Morgan achou Gasparri notavelmente calmo, falando “como um grande sábio”. A Igreja, disse ele, tinha sobrevivido durante séculos e aguentara coisas muitos piores. Continuaria sobrevivendo a seus inimigos.
“Non prevalebunt”, repetiu ele em latim. “Não prevalecerão.”
Quando o cardeal levou o repórter até a porta, os papagaios que ele mantinha na sala começaram a tagarelar. “Non prevalebunt! Non prevalebunt! ” Aparentemente o secretário de Estado havia tirado um tempo
para lhes dar aulas de história da Igreja.4
Já no começo de 1926, porém, circulavam rumores de que o papa não estava satisfeito com o secretário de Estado. Dizia-se que, num esforço para obrigá-lo a renunciar, Pio o humilhava, fazendo-o aguardar na sala de espera antes de recebê-lo e castigando-o de uma forma que, segundo
um informante da polícia, nem um criado toleraria.5
A assinatura do Tratado de Latrão em 1929 seria o maior triunfo público de Gasparri. Poucas fotografias eram mais conhecidas do que uma que o mostra sentado de caneta na mão ao lado de Mussolini. Mas o acordo acabou sendo uma faca de dois gumes. Pio, furioso com os discursos parlamentares de Mussolini e temendo que o ditador não colaborasse no estabelecimento de um Estado católico como ele esperava, resolveu que precisava de um novo secretário de Estado. Em julho, abordou o assunto com Gasparri pela primeira vez, informando-o que achava que era hora de uma mudança e dizendo-lhe que pensasse no assunto. Do seu refúgio nas montanhas, Gasparri respondeu em uma carta ao papa: “Não esqueci (e como poderia esquecer) o que Vossa Santidade me disse em julho passado, que, se não estou enganado, especialmente levando em conta as prováveis batalhas com o governo fascista em defesa da Ação Católica, Vossa Santidade achava oportuno alguém assumir o meu lugar.” Acrescentou que também tinha pensado em deixar o cargo que ocupava havia tantos anos, “mas por razões diferentes da citada por Vossa Santidade”. Na sua idade, disse, já não tinha a memória e a energia
que um dia tivera.6
O papa aguardou mais alguns meses antes de fazer a mudança. Via Gasparri com cada vez menos frequência, recorrendo a outros, em
especial ao subsecretário, monsenhor Pizzardo. 7 O desgaste de esperar ser demitido acabou com toda a discrição diplomática que ainda restava ao secretário de Estado. “É uma vida difícil”, disse Gasparri, suspirando, depois de um encontro com o papa. Pio XI, disse ele ao embaixador
italiano, tinha muitos méritos, mas às vezes era “frio como mármore”. 8
A substituição do secretário de Estado se tornou tema de intensas
conjecturas.9 Gasparri esperava que o papa nomeasse seu discípulo, o cardeal Bonaventura Cerretti, e tinha motivos para achar que o papa talvez ouvisse o seu conselho. Em 1925, pouco depois de Cerretti voltar do seu posto de núncio em Paris e ser nomeado cardeal, Pio sugerira que poderia escolhê-lo para um dia suceder Gasparri. Um dos mais importantes diplomatas do Vaticano, Cerretti servira no México, nos Estados Unidos e na Austrália e representara o papa Bento XV nas negociações de paz do pós-guerra em Paris. Mas, no outono de 1929, ele disse a um jornalista que não queria o cargo. “Com Pio XI”, explicou, “o secretário de Estado não faz quase nada. É mais uma figura decorativa do que alguém com poder ou independência. Não pode assumir nenhuma responsabilidade direta, séria, nem imprimir seu carimbo pessoal no governo da Igreja. Em outras palavras, pode-se dizer que é
apenas um executor das ordens de cima.” 10
Os comentários de Cerretti foram um tanto suspeitos, pois, embora muitos o vissem como a escolha óbvia, ele tinha razões para temer que o papa o preterisse. A simpatia de Cerretti pelos países democráticos e pelo Partido Popular na Itália era bem conhecida, e, como Pio XI bem sabia,
ele se opunha ao acordo que o pontífice fizera com Mussolini.11 Em dezembro, em vez de Cerretti, o papa escolheu seu núncio na Alemanha, Eugenio Pacelli, para ser o novo secretário de Estado. Cerretti ficou indignado. Tinha certeza de que Francesco Pacelli, mero leigo, usara seus frequentes encontros com Pio para engrandecer o irmão aos olhos do papa.
“Que Pio XI preferisse Pacelli a mim, à minha tenaz lealdade, à minha experiência diplomática de mais de trinta anos (...) me deixa furioso só de pensar, não consigo aceitar”, esbravejou Cerretti. “Pacelli e o irmão, servos e escravos do fascismo, cúmplices comprados por Mussolini, trazem descrédito à Santa Sé. Humilham o papado, enfraquecem seu poder e rebaixam sua autoridade moral e educacional aos olhos de todas
as potências católicas.”12
O embaixador de Mussolini na Alemanha, Luigi Aldrovandi, viu a designação com muito mais simpatia. Eugenio Pacelli era uma pessoa de estatura, disse, combinando grande inteligência com a habilidade de permanecer calmo. Exalava dignidade e uma profunda fé religiosa. E, o que talvez fosse o mais importante, achava o embaixador, ele seria amigo do governo fascista. “O monsenhor Pacelli”, informou, “manifestou admiração por Sua Excelência Mussolini mesmo antes do Tratado de
Latrão.” 13
Em muitos sentidos, Pacelli era o oposto de Gasparri. Seu avô paterno servira como ministro no governo papal de Pio IX, fugira com o pontífice em 1848 quando a revolução em Roma o obrigara a ir para o exílio e, ao voltar, ajudara a fundar L’Osservatore Romano. O pai de Pacelli era o decano dos advogados do Vaticano e tinha servido de 1886 a 1905 na câmara municipal de Roma. Eugenio, nascido em Roma, em 1876, fora um menino tímido e frágil, que usava óculos desde muito cedo e gostava de tocar violino. Não tinha interesse algum por esportes ou
brincadeiras infantis. 14
Aos dezoito anos, entrara para o Almo Collegio Capranica, o mais antigo seminário de Roma e, durante séculos, a plataforma de lançamento de muitas altas carreiras diplomáticas na Santa Sé. Embora se saísse bem nos estudos, ansiava pela solidão e tinha saudades de casa. Graças à influência da família, conseguira um arranjo raro que lhe
permitira morar com os pais até terminar os estudos. 15
Em 1901, dois anos depois de sua ordenação, Pacelli concluíra um doutorado em direito civil e canônico e assumira um cargo na Congregação para Assuntos Eclesiásticos Extraordinários na Secretaria de Estado do Vaticano. Não teria ascendido tão rapidamente nos anos seguintes se não tivesse participado da campanha antimodernista, pré-
requisito para avançar sob o papa Pio X. 16 Mas Pacelli era cauteloso e comedido em seu discurso e fizera amizade com Giacomo della Chiesa quando ambos trabalhavam no escritório da Secretaria de Estado. Em 1914, Della Chiesa se tornou o papa Bento XV e promoveu Pacelli a subsecretário de Estado.
Três anos depois o papa nomeou Pacelli núncio na Baviera. Pela primeira vez, o homem de quarenta e um anos deixou a mãe e a casa da família. Alguns anos depois, seria nomeado núncio na Alemanha, mudando-se de Munique para Berlim.
Quando partiu para Munique pela primeira vez, Pacelli ocupou dois compartimentos no trem, um para si e um para as sessenta caixas de
alimentos que levava. 17 Chegando lá, pediu que freiras tomassem conta de sua casa. Uma delas, Pascalina Lehnert, de vinte e quatro anos, estava destinada a desempenhar um papel importante na vida do prelado. Ela se sentiu fortemente atraída pelo núncio. “Alto e magro, o rosto extremamente fino e pálido”, escreveu ela, recordando suas primeiras impressões, “tinha olhos que refletiam a alma e lhe conferiam uma beleza particular.” Acabou achando que ele seria incapaz de cuidar das necessidades diárias sem ela.
Em 1919, Pacelli sofreu um trauma que o acompanharia pelo resto da vida. Em abril daquele ano, no caos do pós-guerra, uma república soviética de curta duração foi proclamada em Munique. Um comandante comunista, chefiando um pelotão de milicianos formado às pressas e armado com fuzis, revólveres e granadas de mão, bateu à porta da nunciatura. Quando os funcionários apavorados abriram a porta, o comandante disse que estava ali para requisitar a limusine do núncio. Pacelli foi chamado para enfrentar os intrusos. Horrorizado pela invasão, ele ficou especialmente pesaroso com o confisco do carro, pois tinha um fraco por sua Mercedes-Benz, a qual descrevia carinhosamente como “uma esplêndida carruagem com o brasão pontifício”. Resistiu à demanda, denunciando-a como uma flagrante violação da lei internacional, e tentou lhes mostrar o certificado de proteção extraterritorial da nunciatura. O comandante, descrito por Pacelli como “um tipo horrível de delinquente”, não se deixou impressionar, e um dos homens apontou um fuzil para o peito do núncio. Os invasores o empurraram de lado e se dirigiram à garagem, mas o chofer havia desativado o carro. Frustrados, os homens disseram a Pacelli que, se a limusine não estivesse pronta no dia seguinte, eles prenderiam todos os presentes no prédio e o explodiriam.
Relatos das vinte e quatro horas seguintes divergem bastante. Em seu relatório a Gasparri, Pacelli disse que, quando os homens saíram, ele foi acometido de uma gripe severa, agravada por “um estômago ruim”, e deixou Munique para se recuperar numa clínica. Mas parece que, assim que o pelotão saiu do prédio, Pacelli, amedrontado, teve um colapso nervoso. Deixou Munique às pressas e foi se recuperar numa casa de repouso a cento e sessenta quilômetros de distância. Quando o pelotão
voltou no dia seguinte, ele não estava mais lá. 18
Durante sua permanência na Alemanha, o prelado fez o possível para impor a disciplina hierárquica do Vaticano — o que não era pouca coisa num país onde bispos costumavam dar muito valor à própria autoridade. O padre Hubert Wolf, um dos principais estudiosos sobre os anos de Pacelli na Alemanha, explica como foi a época que o núncio passou no país:
“Para Pacelli, os bispos eram pouco mais do que coroinhas papais graduados, convocados a só agirem por instrução do papa. (...) Roma queria homens servis, com uma devoção infantil ao Santo Padre. Esse era o critério crucial de Pacelli para um bom bispo, e ele despendeu todos os esforços para instalar exatamente esse tipo de homem e erradicar a
independência da Igreja alemã.” 19
Pacelli ficou impressionado com a pontualidade dos alemães, sua confiabilidade e sua ética de trabalho. Embora nunca tenha superado o medo de voar, ficava encantado com a tecnologia germânica.
Uma das experiências que mais o afetaram nesse país foi a onda crescente de hostilidade aos judeus. Em seus primeiros tempos em Munique, escreveu sobre uma “impiedosa tirania russo-judaico-revolucionária”, e durante os doze anos que passou na Alemanha fez frequentes menções aos antecedentes judaicos de socialistas e
comunistas.20 Em um relatório de 1919, descreveu o líder comunista do fugaz conselho revolucionário de Munique como um “jovem, também russo e judeu. (...) Pálido, sujo, com olhos inexpressivos e voz rouca e vulgar: um tipo verdadeiramente repugnante, mas com rosto inteligente e
astuto”. 21
* * *
CHAMADO DE VOLTA de berlim e feito cardeal em dezembro de 1929, Eugenio Pacelli se tornou secretário de Estado dois meses depois. “Alto, magro, de tez escura, cabelos grisalhos, rosto ascético, olhar vivo, expressão benévola, solidéu vermelho na cabeça pequena e aristocrática, capa roxa de cetim nos ombros, um cinto da mesma cor sobre a batina negra com galões e botões reluzentes, uma cruz de ouro pendurada numa corrente sobre o peito”, assim o descreveu o embaixador francês. O baixo e troncudo “pastor de ovelhas”, como Gasparri se descrevia, foi substituído por um romano de óculos, alto, magro, de porte aristocrático. Era difícil imaginar Pacelli sentado à sombra de uma árvore numa encosta
de morro. 22 Favorito da sociedade romana, arrancava elogios do corpo diplomático do Vaticano por seus modos atenciosos e ponderados. Muito apreciada também era a sua capacidade de falar com vários deles em suas
próprias línguas, sendo fluente em francês, alemão, inglês e espanhol. 23
Em contraste com Gasparri, que quase nunca falava em público, Pacelli era um hábil orador e representaria Pio XI em várias reuniões internacionais da Igreja. Tinha uma memória prodigiosa. “Quando escrevo ou datilografo um sermão ou palestra”, disse, certa vez, “vejo o texto rolar diante dos meus olhos enquanto pronuncio as palavras, como
se estivesse lendo.” 24 Insistia em ser informado sobre tudo e era meticuloso no exame até dos detalhes mais insignificantes, como o endereço escrito em cada envelope a ser postado no correio. Toda noite, seus subsecretários preparavam uma pasta de documentos e cartas para sua assinatura, às vezes mais de cem papéis. Na manhã seguinte ele os devolvia em duas pastas. Uma continha os documentos que havia assinado, a outra, os documentos em que encontrara erros. Todos teriam que ser datilografados de novo. Os assistentes passaram a chamar a segunda pasta de “enfermaria”, e rezavam toda manhã para que houvesse
poucos pacientes.25
“O papa Pio XI”, escreveu um correspondente do New York Times no Vaticano, “não é bem austero, mas sim habitualmente sério (...) quase
nunca sorri ou relaxa”. 26 Outros descreviam o pontífice como “melancólico”. Ao escolher Pacelli, Pio optou por um homem igualmente reservado e que, como ele, sentia o peso do cargo. Mas Pacelli sabia se controlar muito bem. Não tinha o mau humor nem o pendor para o entusiasmo que o papa possuía. Também era um homem de hábitos rígidos, e levou irmã Pascalina para Roma para montar seu apartamento no Vaticano. Houve certa surpresa com o fato de a mulher ser tão nova, mas ela ficaria com Pacelli até ele morrer. A suspeita de que mantinham uma relação imprópria parece infundada. É mais provável que ela tenha assumido o papel de figura materna para tomar conta dele. Sem dúvida era tão protetora quanto qualquer mãe, e muita gente no Vaticano
se ressentia de sua influência. 27
Em pé às seis e quinze, o novo secretário de Estado celebrava uma missa com um grupo de freiras e padres antes de tomar um rápido café da manhã. Então esperava a convocação do papa para o seu encontro matinal. Uma relação estreita, embora formal, desenvolveu-se entre o pontífice erudito e pouco diplomático — oriundo de uma modesta família de cidade pequena — e o experiente Pacelli, um romano bem relacionado politicamente. Nos encontros do início da manhã, o novo secretário de Estado submetia uma agenda e uma pilha de relatórios de núncios e outros materiais para exame do papa.
O cardeal voltava desses encontros com folhas de papel espessas e quadradas onde registrava as instruções do pontífice em sua caligrafia
minúscula e limpa. 28 Os espaçosos escritórios do secretário de Estado ficavam no segundo piso do palácio Apostólico. Pacelli passava pelo gendarme responsável por guardar a entrada externa, um homem que usava um uniforme colorido e um chapéu de pele alto e escuro que faziam-no parecer alguém que Napoleão deixara para trás. Ao se aproximar dos próprios escritórios, Pacelli fazia um aceno de cabeça para o secretário particular, de batina clerical negra, e para o uniformizado soldado da Guarda Nobre de Honra em pé à sua porta. Em seguida, o cardeal chamava os dois subsecretários para repassar as instruções do papa e estudar o plano de trabalho do dia.
Pacelli reservava duas manhãs por semana para seus encontros individuais com os trinta embaixadores acreditados na Santa Sé. Eles esperavam a vez numa grande sala de aparência nobre com paredes vermelhas. Em uma típica manhã, talvez um núncio papal de visita a Roma também o esperasse em uma enfeitada sala contígua, junto a um barbudo delegado apostólico do Oriente, num hábito monacal, e outros dignitários eclesiásticos. Esses homens ocupavam as onze poltronas incrustadas de ouro ao redor de uma mesa pesada coberta com um suntuoso tecido vermelho. Prelados menos graduados — padres, monges e freiras — sentavam-se nas poltronas mais simples que ladeavam a entrada do escritório da Secretaria de Estado. A qualquer momento durante sua conversa com o secretário de Estado, visitantes corriam o risco de serem ejetados se um cardeal que chefiava um dos departamentos
da Cúria chegasse inesperadamente. 29
À uma da tarde, Pacelli fazia uma pausa de meia hora para o almoço. Em seguida, tirava uma hora para dar uma caminhada, às vezes nos jardins da Villa Borghese, do outro lado do Tibre. Um assistente carregando documentos para exame costumava acompanhá-lo, enquanto um policial
ia atrás a uma distância respeitosa. 30 De volta ao Vaticano, o secretário de Estado tinha mais encontros antes de poder ficar sozinho para examinar os documentos do dia. Às oito e meia parava para cear, ia à capela rezar o
rosário e voltava para trabalhar até bem depois da meia-noite.31
Quando Pacelli se tornou secretário de Estado, o sentimento geral entre os diplomatas do Vaticano foi que, em contraste com o amável e confiante Gasparri, ele era um tanto severo e relutante em expressar opiniões próprias. Era sempre cortês, mas reagia às questões difíceis
dizendo que precisava consultar o papa.32 “O secretário de Estado”, escreveu o enviado britânico em seu relatório anual de 1930, “estava, na
prática, reduzido à condição de escriturário.”33
O bispo e erudito francês Alfred Baudrillart registrou uma impressão parecida, descrevendo o cardeal Pacelli como “adoentado e não muito influente”. Ele se lembrava de um encontro constrangedor entre Pacelli e o papa em abril de 1931, num momento em que Pio XI estava chateado com Mussolini pelos ataques do ditador à Ação Católica. O pontífice acabara de saber que um cardeal italiano havia abençoado publicamente a bandeira fascista. Furioso, Pio perguntou se Pacelli sabia de algo sobre o assunto. Quando o apreensivo secretário de Estado respondeu que sim, o papa lhe perguntou, indignado, se tinha aprovado o gesto do cardeal. Arrasado, Pacelli admitiu que tinha, e acrescentou: “Eu lhe avisei, Santo Padre, que seria incapaz de desempenhar as funções de secretário de
Estado.”34
Mas o papa tinha a inteligência e as habilidades diplomáticas de Pacelli em alta conta e, naqueles primeiros anos, não alimentava quaisquer dúvidas sobre a sua lealdade. “Nosso secretário de Estado”, disse Pio certa
vez, “trabalha bem, trabalha muito e trabalha rápido.”35 De temperamento moderado, Pacelli compensava o papa impulsivo, pondo um freio em sua tendência a esbravejar quando achava que os princípios
da Igreja estavam sendo atacados.36
Gasparri, por sua vez, não facilitava em nada a transição de Pacelli. “O senhor veio tomar o meu lugar!”, rosnou ele logo que o novo secretário de Estado chegou a Roma. “Não deveria ter aceitado! Eles me exploraram e agora me mandam embora! O senhor verá que tipo de homem é o papa!” Pacelli, incomodado, fez o possível para acalmá-lo,
mas o encontro deixou marcas.37
“Eles me escorraçaram como um cão”, repetia o antigo secretário de Estado, queixando-se a um colega cardeal de que no encontro final o
papa não lhe dissera uma só palavra de agradecimento.38 A outro amigo, ele perguntava, indignado, como o pontífice pudera tratá-lo tão mal. “Fui eu que fiz do bibliotecário um papa e um soberano, e ele me escorraça como um cão sarnento! Ainda me paga! Acredite, ele ainda me
paga!”39
Gasparri concentrava boa parte do seu fogo contra o monsenhor Pizzardo, seu velho subsecretário, acusando-o de engrandecer o amigo Eugenio Pacelli aos olhos do papa à custa de seu superior hierárquico. O preterido cardeal Cerretti também culpava Pizzardo, repudiando Pacelli como fraco e indeciso, um “escravo nas mãos de Pizzardo, que o
manobra como um títere”. 40
* * *
ASSUMINDO O NOVO cargo no primeiro aniversário do Tratado de Latrão, Pacelli foi logo arrastado pelas comemorações. A tensão criada pelos discursos de Mussolini no parlamento se dissipou quando o Duce cumulou de presentes e honrarias o papa e aqueles que o cercavam. No aniversário propriamente dito, o embaixador italiano presenteou o pontífice com uma bela sobrepeliz de renda de Burano. Encantado, Pio disse a De Vecchi que a usaria no dia seguinte, na capela Sistina, para as cerimônias dos seus oito anos de pontificado. Ao mesmo tempo, o rei concedeu a Gasparri a condecoração mais alta da Itália, a Ordem
Suprema da Santíssima Anunciação. 41
O embaixador da Itália no Vaticano, Cesare de Vecchi, achava que trabalhar com Pacelli seria tranquilo. “Esse cardeal secretário de Estado”, registrou ele em seu diário, “me parece basicamente um homem bom, com quem, à medida que o tempo for passando, teremos uma completa harmonia, uma verdadeira conciliação. Se o papa não fosse tão agitado, as
coisas seriam bem mais fáceis.”42 Uma semana e meia depois, De Vecchi, lamentando-se da dificuldade de lidar com Pio, descobriu que o cardeal Pompili compartilhava de sua opinião: “Não sei se ele conhece os livros”, disse o cardeal-vigário de Roma sobre o antigo bibliotecário, “mas sem dúvida não entende os homens.” Ao registrar esses comentários, De Vecchi acrescentou: “A cada dia percebo que este papa é pouco amado,
mesmo pelas pessoas mais chegadas.” 43
Um mês depois, na reunião que realizavam toda sexta-feira, De Vecchi e Pacelli discutiram a tensão na Europa. “Vejo mais uma vez que ele claramente tem preferência pelos alemães e não gosta dos franceses”, observou De Vecchi. Ciente da estreita ligação de Pacelli com círculos conservadores na Alemanha, o embaixador sugeriu que ele ajudasse o governo fascista a melhorar suas relações com as forças alemãs de direita. “Estou francamente convencido”, escreveu De Vecchi, “de que o cardeal Pacelli pode nos ser muito útil nessa área e espero convencê-lo apelando ao seu patriotismo, de um lado, e à sua afeição pela Alemanha, do outro.
Afeição que nele é muito profunda.”44
A Alemanha logo ocuparia as atenções de todos, pois nas eleições nacionais de setembro de 1930 o Partido Nacional Socialista de Hitler obteve mais de seis milhões de votos, tornando-se o segundo maior partido do país. Em meio à severa depressão econômica da Alemanha, com altos índices de desemprego, paralisia do governo e poderosos movimentos socialistas e comunistas, o que antes parecia impensável — que os nazistas chegassem ao poder — agora era coisa séria. Vendo no movimento nazista uma ameaça pagã à Igreja Católica na Alemanha, o papa acompanhava esses desdobramentos com preocupação.
Em pouco tempo, começaram a aparecer sinais da catástrofe que não demoraria a se abater sobre a Europa. Mas o que mudaria a opinião de Pio XI sobre Mussolini nada tinha a ver com Hitler, e sim com questões que o afetavam de forma mais imediata. A esperança de De Vecchi de que o novo secretário de Estado do Vaticano fosse capaz de manter o exaltado papa na linha estava prestes a ser dramaticamente posta à prova. De repente parecia possível, mesmo provável, que o pontífice, afligido por remorsos pelo acordo que fizera com o ditador da Itália, denunciasse tanto Mussolini quanto o regime fascista.