O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 3 de 38

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O Papa e Mussolini

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PRÓLOGO

 

ROMA, 1939

 

Doente, idoso e com problemas de insuficiência cardíaca que quase o haviam matado no ano anterior, o papa Pio XI suplicava a Deus que lhe desse mais alguns dias de vida. Trajando sua túnica branca, sentou-se à mesa no escritório no terceiro andar do Vaticano, com uma bengala encostada na parede mais próxima. Em um dos lados, estavam a bússola e o barômetro enferrujados que usava para escalar os mais altos picos da Itália, lembranças de um passado longínquo. Um velho diapasão permanecia na gaveta. Muitos anos haviam se passado desde a última vez que o tirara dali. Orgulhoso de sua voz melodiosa e receoso de perder o senso de afinação, treinava sempre que podia, mas só quando tinha certeza de que ninguém o ouvia. Nesse momento, sabendo que o fim estava próximo, examinou todas as gavetas para se certificar de que os documentos estavam em ordem.

Durante anos o papa gozara de boa saúde, impressionando os observadores com sua árdua rotina. Fazia questão de se inteirar dos assuntos do Vaticano nos mínimos detalhes e de decidir pessoalmente todas as questões que tivessem alguma importância. Agora cada dia era um desafio, cada passo causava dor. À noite, incapaz de dormir, ficava acordado na cama, com as pernas latejando por conta das veias varicosas, a asma transformando a respiração numa luta, e, o que era pior, incomodado com um sentimento de que algo dera terrivelmente errado.

Durante o dia, a claridade jorrava em seu escritório pelas três janelas que davam para a praça de São Pedro. Mas já era noite, e a pequena lâmpada de cabeceira lançava uma luz amarelada sobre os lençóis à sua frente. O Senhor o mantinha vivo por alguma razão, pensava ele. Ele era o vigário de Deus na terra. Não poderia morrer antes de dizer o que precisava ser dito.

O papa convocara todos os bispos da Itália a Roma para ouvir sua derradeira mensagem. O encontro estava marcado para 11 de fevereiro de 1939, dali a uma semana e meia, na basílica de São Pedro. Era a comemoração do décimo aniversário do Tratado de Latrão, o histórico acordo que Pio XI firmara com o ditador da Itália, Mussolini, encerrando uma década de hostilidade entre o governo do país e a Igreja Católica Romana. Com esse tratado, a separação entre a Igreja e o Estado, que marcara a Itália moderna desde a sua fundação, sessenta e oito anos antes, tinha chegado ao fim. Uma nova era começara, com a Igreja como parceira solícita do governo fascista de Mussolini.

Dezessete anos antes, em 1922, Achille Ratti, recém-nomeado cardeal, fora surpreendentemente escolhido para suceder o papa Bento XV, adotando o nome de Pio XI. Ainda naquele ano, em meio à violência generalizada, Benito Mussolini, o líder fascista de trinta e nove anos, tornou-se primeiro-ministro da Itália. Desde então os dois homens passaram a depender um do outro. O ditador precisava do papa para assegurar o apoio católico ao seu regime, dando-lhe a legitimidade moral de que tanto necessitava, e o papa contava com Mussolini para ajudá-lo a restaurar o poder da Igreja na Itália. Agora, com a pena na mão, relembrando todos aqueles anos, Pio sentia um arrependimento profundo. Ele se deixara desencaminhar. Mussolini parecia achar que era um deus e aceitara com entusiasmo Hitler, um homem que o papa desprezava por ter enfraquecido a Igreja na Alemanha e patrocinado uma religião pagã pessoal. A dolorosa cena que Roma testemunhara na primavera anterior ainda o incomodava: um mar de bandeiras nazistas vermelhas e negras inundara a cidade quando o Führer alemão passara pelas ruas históricas numa procissão triunfal.

Dois meses depois da visita de Hitler, Mussolini chocou o mundo ao proclamar que os italianos eram uma raça pura, superior. Apesar de viverem em Roma desde antes da época de Jesus, os judeus passaram a ser oficialmente considerados um povo estrangeiro pernicioso. O papa ficou horrorizado. Por que, perguntou ele numa audiência pública, o líder da Itália ansiava tanto por imitar o Führer? A pergunta deixou Mussolini furioso, pois nada o chateava mais do que ser chamado de fantoche de Hitler. Os homens do círculo íntimo de Pio XI correram para reparar o dano. Mais à vontade com os regimes autoritários do que com as democracias e temerosos de perderem os muitos privilégios que Mussolini havia assegurado à Igreja, eles achavam que o papa estava ficando negligente em sua velhice. Pio já tinha alienado os líderes nazistas; e seus homens temiam que agora estivesse pondo em risco os laços do Vaticano com o regime fascista de Mussolini.

Em seu escritório do outro lado do rio Tibre, o ditador esbravejava contra o papa. Se os italianos ainda iam à missa, era só porque ele assim ordenava. Não fosse por ele, os anticlericais estariam fazendo baderna pelas ruas do país, saqueando igrejas e obrigando os padres acovardados a tomarem óleo de rícino. Se todas as salas de aula e todos os tribunais tinham um crucifixo na parede, se padres lecionavam religião em todas as escolas públicas, era por ordem de Mussolini. Se generosos fundos estatais eram usados em apoio à Igreja, era porque ele queria que assim fosse, tudo no esforço para consolidar uma aliança proveitosa tanto para o governo fascista quanto para o Vaticano.

Pio ficou acordado até tarde na noite de 31 de janeiro, como ficara na noite anterior, anotando seus comentários para o encontro de bispos. O outrora atlético e corpulento papa “alpinista” estava emaciado; o rosto, que já fora cheio, tornara-se encarquilhado e encovado. Mas quem o visse não teria a menor dúvida de que estava muito determinado a pronunciar aquele discurso. Não queria morrer antes de alertar os bispos a respeito da existência de espiões fascistas em toda parte, inclusive nos salões da Igreja. Seria sua última oportunidade de denunciar a adesão de Mussolini ao racismo nazista.

Na semana que precedeu o discurso, porém, as últimas reservas de força do papa começaram a se esgotar. Incapaz de se manter em pé, ele permanecia na cama. O cardeal Eugenio Pacelli, que, como secretário de Estado, era o segundo homem do Vaticano, suplicou-lhe que adiasse o encontro. Pio não queria nem considerar essa possibilidade e ordenou que o jornal do Vaticano informasse que estava bem de saúde. Em 8 de fevereiro, com medo de não ter forças para proferir o discurso dali a três dias, mandou a gráfica do Vaticano imprimir uma cópia para cada bispo. Na noite seguinte, seu estado de saúde piorou. Nas primeiras horas da manhã de 10 de fevereiro, a respiração ficou mais difícil. Com cuidado para não deslocar o barrete branco da cabeça, assistentes prenderam-lhe à boca uma máscara de oxigênio. Às quatro da madrugada acordaram o cardeal Pacelli, que correu para o leito papal e ajoelhou-se para rezar. Estava com os olhos vermelhos de lágrimas.

Deitado em sua cama simples de ferro, extinguindo-se rapidamente, Pio XI não demorou a soltar seu derradeiro suspiro. Deus não lhe concedera o último pedido. Os bispos não o veriam na basílica de São Pedro, e sim na capela Sistina, onde, na tarde de 10 de fevereiro, seu corpo arruinado foi exposto numa plataforma alta. Aqueles que o tinham visto no auge de suas forças quase não o reconheciam. Era como se outra pessoa estivesse ali, sob os afrescos de Michelangelo, usando a batina de seda branca do papa e o barrete com forro de arminho vermelho.

Do outro lado do Tibre, Mussolini recebeu a notícia da morte do pontífice com um grunhido de alívio, torcendo para que a onda papal não interferisse em sua vindoura união com Clara Petacci, sua jovem amante de olhos verdes. Mas ainda lhe restava uma preocupação. Ao longo dos anos, o ditador criara uma extensa rede de espionagem no Vaticano, cujos relatórios lia com avidez. Alguns dias antes, os espiões o tinham advertido de que o papa planejava fazer um inflamado discurso de aniversário denunciando a campanha antissemita de Mussolini e seus laços cada vez mais estreitos com o Führer. Ele temia que, se fosse divulgado naquele momento, o texto ainda causasse algum estrago, um profético apelo papal vindo do túmulo.

O ditador acreditava que havia um homem em condições de ajudá-lo. Entrou em contato com o cardeal Pacelli, que, na função de camerlengo, ficou encarregado de cuidar de tudo o que Pio XI deixara para trás, inclusive das páginas escritas à mão em sua escrivaninha e as pilhas de folhetos recém-impressos e prontos para serem distribuídos aos bispos. Mussolini queria que todas as cópias do discurso fossem destruídas.

Tinha motivos para achar que Pacelli lhe obedeceria. Oriundo de uma importante família romana estreitamente associada aos papas por gerações, o cardeal passara os meses anteriores com medo de que Pio XI viesse a contrariar Mussolini. Havia muita coisa em jogo, pensava ele. Era verdade que tinha uma imensa dívida de gratidão com Pio XI, que o nomeara secretário de Estado e o promovera de muitas outras formas. Mas julgava que tinha uma responsabilidade ainda maior de proteger a Igreja. Mandou limpar a mesa do papa e apreender as cópias impressas do discurso.

Três semanas depois, uma grande multidão aguardava impaciente na praça de São Pedro enquanto os cardeais se reuniam em conclave. Quando a reveladora fumaça branca surgiu na chaminé do palácio Apostólico, a multidão aplaudiu. “Habemus papam”, anunciou o cardeal diácono da sacada sobre a entrada principal da basílica de São Pedro. Logo uma figura alta, magra, de óculos, trajando o manto papal branco e a tiara adornada de joias, saiu para dar sua bênção. Eugenio Pacelli adotaria o nome de Pio XII, em homenagem ao homem por quem chorara junto ao leito de morte recentemente.