O Papa e Mussolini
Capítulo dezoito
SONHOS DE GLÓRIA
Quando entrou na biblioteca do papa no começo de 1936, o embaixador da Alemanha, Diego von Bergen, temia que o encontro fosse desconfortável. Era costume de Pio XI receber todos os embaixadores no início do ano. Nos dez minutos que dispensava a cada um, dava sua bênção e logo elogiava ou criticava recentes ações do respectivo governo. Na realidade, o encontro em questão acabou sendo mais desagradável do que Berger esperava.
O papa tinha muitas razões para reclamar. Em 1933, quando Hitler chegou ao poder, dois terços dos estudantes de Munique, capital da Baviera, a maior região católica da Alemanha, frequentavam escolas paroquiais católicas. Em 1935, esse número caíra pela metade. Dali a dois
anos, encolheria para três por cento.1
As “assim chamadas conversas”, lembrava-se Bergen, “são monólogos do papa, que parte do princípio de que suas palavras serão ouvidas sem objeção e recebidas com deferência”.
Berrando, gesticulando e cada vez mais agitado, Pio manifestou seu descontentamento com todas as formas pelas quais o Terceiro Reich perseguia a Igreja. Quando Bergen tentou falar, o papa, indignado, apenas elevou ainda mais a voz. Os dez minutos previstos tinham acabado havia muito, mas o pontífice continuava reclamando. “Sempre houve os que dissessem que a Igreja está condenada a desaparecer”, advertiu ele ao embaixador. “Mas eles é que sempre desapareceram, não a Igreja.” Então Pio apertou a campainha elétrica que mandara instalar na escrivaninha,
instruindo o atendente do lado de fora a abrir a porta para o visitante.2
Aborrecido, Bergen saiu dali para se queixar no escritório do cardeal Pacelli. O antigo núncio na Alemanha era seu velho amigo. Quais partes do que o papa lhe dissera deveriam ser transmitidas aos seus superiores? As duras palavras do pontífice, comentou ele, deixariam-nos furiosos. Pacelli recomendou que relatasse apenas a essência dos comentários de Pio, deixando de fora as partes mais inflamadas.
“Esse episódio mostrou mais uma vez”, diria Bergen ao ministro do Exterior alemão, “que o cardeal Pacelli está sempre se esforçando para apaziguar, para exercer uma influência moderadora sobre o papa, que é difícil de lidar e de influenciar.” Seria melhor, acrescentou, não levar muito a sério as explosões do pontífice. Ao que consta, Mussolini, com base em sua experiência com as diatribes papais, teria aconselhado: “Não fique impressionado com isto. A melhor coisa a fazer é deixar o velho
senhor dizer o que quer.”3
O crescente entusiasmo do Duce pelo Führer enfurecia Pio XI, que tampouco estava feliz com o fato de a Grã-Bretanha e a França não tomarem qualquer medida a fim de parar os preparativos militares da Alemanha. Em 7 de março de 1936, Hitler enviou forças militares alemãs à Renânia, a faixa de terra que faz fronteira com a França, a Bélgica e a Holanda e que, de acordo com o Tratado de Versalhes, de 1919, deveria permanecer desmilitarizada. As tropas alemãs tinham ordem para recuar ao primeiro sinal de contra-ataque dos franceses, mas a França não tomou nenhuma atitude. “Se vocês tivessem mandado duzentos mil soldados”, disse o papa ao embaixador francês na semana seguinte, “teriam prestado
um imenso serviço ao mundo todo.” 4 A Europa se aproximava um pouco mais da guerra.
Os acontecimentos na Espanha também levavam a uma colaboração maior entre o Duce e Hitler. Uma vitória eleitoral na Espanha da Frente Popular, de esquerda, no ano de 1936, foi o estopim de uma rebelião militar. A Igreja, identificada havia muito com as velhas elites, e agora
com os oficiais revoltosos, logo se tornou alvo da ira popular na revolta. 5
A Espanha preocupava o papa desde a abdicação do rei, cinco anos antes. Em 1933, Pio publicou uma encíclica criticando os esforços do
governo espanhol para reduzir a influência da Igreja. 6 Mas o pontífice se inclinava a trabalhar com os elementos mais moderados do governo em busca de uma solução. Seus esforços foram frustrados, tanto por extremistas anticlericais no governo quanto pela hostilidade de muitos membros da hierarquia da Igreja espanhola, que se opunham a qualquer
acordo com os esquerdistas. 7
O início da guerra civil, em julho de 1936, trouxe horrores indescritíveis. Setecentos padres, monges e freiras foram mortos. As orelhas dos padres eram cortadas e passadas adiante como troféus numa praça de touros. Os restos mortais apodrecidos de freiras eram tirados das sepulturas e deixados ao ar livre — jornais franceses publicaram fotos. Mosteiros foram transformados em sedes socialistas, cultos religiosos foram proibidos, e quase todas as igrejas de Barcelona foram incendiadas. Em 12 de agosto, o cardeal Pacelli foi à embaixada espanhola fazer um
protesto. 8
Embora Francisco Franco, líder da revolta militar espanhola, tenha sido às vezes comparado a Mussolini, o Duce não tinha nenhuma afeição particular por ele. Achava que Franco não era grande coisa como general, mantendo-se covardemente longe do front. E o sadismo das forças espanholas era assombroso. “Para elas, executar mil homens é como
comer um prato de macarrão”, comentou o ditador italiano. 9
Motivado menos por camaradagem ideológica com Franco do que pelo desejo de limitar a influência internacional do governo de esquerda na França, Mussolini logo passou a conferenciar com os nazistas sobre a melhor maneira de ajudar na insurreição. Em outubro, as primeiras remessas russas de aeronaves, tanques e outros suprimentos começaram a chegar para respaldar o governo espanhol. A imprensa católica italiana
insistiu para que o Duce mandasse tropas para ajudar os rebeldes.10 Até o fim do ano, ele despachou milhares de milicianos camisas-negras e de
soldados para ajudar Franco.11
O papa não tinha o mesmo entusiasmo pela guerra. Ficava horrorizado com os arrepiantes relatos de atrocidades contra católicos, mas hesitava em endossar uma revolta armada contra um governo eleito. Também não tinha nenhuma vontade de ver Mussolini enredado numa guerra que o
empurraria mais ainda para os braços de Hitler.12
* * *
JUSTAMENTE QUANDO O papa começava a receber os primeiros informes sobre a guerra civil na Espanha, notícias ainda mais perturbadoras chegaram da Alemanha: os nazistas planejavam levar a julgamento centenas de monges e freiras alemães por perversão sexual. Durante todo o ano seguinte, os julgamentos, bastante divulgados, receberiam cobertura de primeira página na imprensa alemã. “Corruptores da juventude usando batina”, alardeava uma manchete. “Insondável depravação no mosteiro”, declarava outra. Os padres eram acusados de atrair crianças sob seus cuidados para induzi-las a atos sexuais e também de seduzir jovens mulheres vulneráveis. Para piorar, as autoridades alemãs reabriram a causa
judicial contra os jesuítas, acusados de exportação ilegal de divisas. 13
Então veio a desconcertante notícia de que Mussolini estava despachando o genro, Galeazzo Ciano, a Berlim para conversas destinadas a fortalecer os vínculos entre os dois países. Ciano experimentara uma ascensão vertiginosa dentro do governo. Aos trinta e dois anos, em 1935, tornara-se ministro de Imprensa e Propaganda. No ano seguinte, o Duce estarreceu o mundo diplomático ao designá-lo para o cargo mais prestigioso do governo depois do seu: ministro das Relações Exteriores. Cada vez mais, talvez até de maneira inconsciente, Ciano tentava imitar os maneirismos do sogro. Mas sua voz aguda e nasalada jamais poderia reproduzir o jeito de falar estrondoso e escandido de Mussolini. Os romanos passaram a chamá-lo, com zombaria, de il Ducellino, “o pequeno Duce”, ou generissimo, uma combinação cômica de genero, “genro”, e generalissimo , a mais alta patente militar. “O genro também ascende”, gracejou um diplomata americano. Facilmente seduzido pelo poder, dando passos maiores do que as pernas e incapaz de resistir a lisonjas,
Ciano foi manipulado sem dificuldade por Hitler. 14 Naquele outubro, três meses depois de iniciada a Guerra Civil Espanhola, ele assinou um acordo secreto de cooperação com o Terceiro Reich. Assim nasceu o
“eixo” Roma-Berlim.15
Um novo embaixador americano na Itália, William Phillips, chegou a Roma mais ou menos nessa época. Em seu primeiro encontro, Ciano causou-lhe boa impressão: era afável, ria muito e falava um inglês excelente. Mas Phillips logo começou a ter dúvidas a respeito do jovem ministro do Exterior da Itália. “Na aparência”, escreveu, “tinha uma
surpreendente cara de menino, embora com tendência ao roliço.”16 De estatura média, Ciano tinha rosto redondo e “cabelos negros brilhosos”, penteados para trás “ao estilo típico de um italiano”. Era evidentemente ambicioso, mas não tinha “critérios morais ou políticos”. Ciano achava o máximo ser um potentado fascista e genro do Duce. Contudo, os outros líderes fascistas o detestavam, ressentindo-se de sua imerecida ascensão ao poder e de seu amor pela la dolce vita. Acima de tudo, estavam furiosos com Mussolini, que pelo visto já o escolhera — sem se dignar a consultá-
los — como seu herdeiro político. 17
O embaixador Phillips teve uma impressão bem diferente de Mussolini. Ao entrar no “vasto e deserto salão de piso polido” para o primeiro encontro, viu uma figura do outro lado, sentada a uma escrivaninha. “Um homem baixo, atarracado e de físico vigoroso veio ao meu encontro”, recordou. “A calvície total parecia exagerar o tamanho da cabeça.” O que mais chamou a atenção do embaixador foram os olhos do Duce, que “de repente pareciam aumentar de tamanho, com o branco sobressaindo”, quando ele fazia uma declaração. A conversa foi em inglês, pois as recentes aulas particulares tinham ajudado bastante Mussolini. Mais adiante, Phillips observaria que, quando usava seu uniforme fascista, o ditador parecia uma figura imponente, mas nas raras ocasiões em que o vira em trajes civis lembrava um “camponês robusto” e um “sujeito
muito mau”. 18
Ao reencontrar Mussolini depois de vários meses, Roberto Cantalupo, embaixador italiano na Espanha, viu um homem que, por efeito da vitória etíope, parecia drasticamente mudado. Mais sólido, o pescoço mais grosso, o rosto maior, tinha a pele de um vermelho-vivo devido aos dias de verão passados na praia. Acompanhado por Ciano, cada palavra sua parecia falsa, como se fosse destinada a uma grande plateia. A distância entre o Duce e Cantalupo, que o conhecia havia muitos anos, pareceu imensa. Depois de alguns minutos desconfortáveis, Cantalupo saiu, mas Ciano o alcançou antes que deixasse o prédio.
— O que achou dele? — perguntou o genro do ditador.
— Não achei nada dele. A pessoa que encontrei foi outra — respondeu o embaixador.
Ciano sorriu.
— Você sabe, ele provou de uma grande glória e, lá das alturas, vê o restante de nós como pequenos, muito pequenos. Vive num mundo próprio. Talvez seja melhor deixarmos que continue lá, no Olimpo, onde pode fazer grandes coisas. Quanto ao resto de nós, cuidaremos das coisas
deste mundo. 19
Giovanni Bottai, um dos líderes fascistas mais chegados a Mussolini, passou por uma experiência parecida ao voltar da Etiópia. “Eu tinha diante de mim não o homem, mas a estátua”, escreveu em seu diário.
Uma “estátua dura, pétrea, da qual saía uma voz fria”. 20
O Duce perdeu um pouco a compostura com um golpe inesperado: Anna Maria, sua filha caçula, de sete anos, contraiu pólio. Debatia-se entre a vida e a morte, enquanto Mussolini assistia, impotente. Por fim, ela se recuperou, embora os sinais da doença permanecessem. Numa entrevista coletiva concedida durante o período de doença da menina, quando jornalistas estrangeiros presentearam o ditador com uma boneca para Maria, lágrimas caíram pelo famoso rosto que mais parecia uma
máscara.21
Mas a doença da filha não amoleceu Mussolini nem um pouco. Ele não dava ouvidos a conselhos. Fazia questão de que, quando viessem vê-lo, ministros e outras autoridades atravessassem depressa a imensa sala do gabinete até sua mesa, fizessem a saudação romana e lhe passassem os documentos solicitados. Depois de responder a perguntas suas e sem fazer qualquer comentário não solicitado, os visitantes deveriam fazer outra
saudação, dar meia-volta e chispar. 22 Tinham sorte quando conseguiam escapar sem ter provocado sua ira. Navarra, assistente do Duce, que esperava do lado de fora da sala, ouvia diversas vezes as estrondosas acusações do ditador. Quando furioso, ele esmurrava a mesa e abria e fechava convulsivamente as pernas, esfregando os calcanhares no escabelo debaixo da mesa. De acordo com Navarra, o escabelo em pouco tempo
estava desgastado.23
Mussolini achava que nada era impossível para ele.24 A Itália seria o maior país do mundo se os italianos seguissem suas ordens. Mas, em meio aos sonhos de conquista e de glória, temia que os italianos fossem por natureza um povo fraco, inadequado para os seus desígnios marciais. Numa reunião do Grande Conselho, em dezembro, disse, pensando alto, que um dia ainda teria que “marchar com as tropas contra Nápoles para
acabar com todos os violões, bandolins, violinos e realejos”. 25
Cada vez mais o Duce relegava as questões do dia a dia para seus auxiliares, e não só porque tinha assuntos mais importantes dos quais cuidar. Ele arranjara uma nova amante, Clara Petacci, que tinha vinte e quatro anos quando o caso começou a sério, em 1936; Mussolini tinha cinquenta e três. A família dela morava num grande apartamento perto da Villa Torlonia. O pai era médico da Santa Sé e cuidava de monsenhores, funcionários e guardas papais. Menos de dois anos antes, ela havia se casado, numa cerimônia prestigiada por dignitários do Vaticano e presidida pelo próprio cardeal Gasparri. O casamento não durou muito.
Jovem cheia de vida, com seios fartos, olhos verdes e cabelos cacheados — produto de dezenas de bobes aplicados todas as noites —, Clara tinha dentes pequenos e uma voz baixa, cálida, rouca. Sua vida girava em torno das ligações telefônicas que a convocavam todas as tardes ao palácio Venezia. Para evitar as fofocas, ela pegava um táxi até um lugar combinado, onde era recebida por um policial de moto e saltava para dentro do sidecar coberto. Na entrada de serviço do palácio, encontrava-se com Quinto Navarra, assistente de confiança de Mussolini, que a conduzia ao apartamento especial que o Duce lhe reservava. Ali ficava deitada num sofá na sala Zodíaco — assim chamada por causa do teto abobadado azul-celeste com uma imagem dourada. Enquanto aguardava o amante, que costumava chegar depois das seis, passava o tempo lendo, ouvindo discos, desenhando modelos para suas roupas e enchendo volumosos cadernos com anotações de diário, nas quais narrava, com
detalhes carinhosos, cada encontro com o grande homem. 26 No closet, guardava uma dezena de vestidos de cores vivas e cheios de babados, além de uma coleção de chapéus espalhafatosos. Navarra, que lhe servia
chá, de vez em quando ficava para um bate-papo. 27
23. Clara Petacci
Embora Mussolini tivesse possuído uma longa fila de amantes, Clara Petacci representava uma novidade. Não que as mulheres anteriores fossem mais velhas ou menos bonitas; o fato é que ele desenvolveu uma inusitada dependência emocional em relação a Petacci. Ele não a considerava de forma alguma sua igual — não demonstrava interesse por suas opiniões. As centenas de páginas publicadas do diário de Clara não dão o menor sinal de que ligasse para qualquer coisa que ela pensava: a única coisa importante era a total devoção dela. Mas o Duce descobriu que não saberia viver sem aquela jovem atraente, sem sua idolatria e sua disponibilidade sexual. Numa época em que o horror de envelhecer só aumentava, Clara lhe dava uma sensação de juventude renovada; e, depois que a filha quase morrera e do isolamento que sentira durante a guerra etíope, ela lhe oferecia alívio das pressões de constantemente ter
que posar como um super-homem italiano.28
* * *
A PRIMEIRA PÁGINA o da edição de 1 de outubro de 1936 do New York Times trazia uma notícia surpreendente: no dia seguinte, Eugenio Pacelli partiria de navio de Nápoles para Nova York, para uma demorada visita aos Estados Unidos. Nenhum ocupante de um cargo tão alto na Santa Sé
tinha visitado o país antes.29 Houve uma revoada de conjecturas nas capitais do mundo sobre as razões que teriam levado o papa a despachar seu secretário de Estado para os Estados Unidos. Ninguém levou a sério a alegação do Vaticano de que a visita era puramente “pessoal”.
Prestou-se muita atenção ao padre radialista Charles Coughlin, cujos ataques cada vez mais violentos a Franklin Roosevelt, no meio de sua campanha para a reeleição em 1936, haviam dividido a comunidade católica dos Estados Unidos e constrangido o Vaticano. A razão da inesperada visita de Pacelli, especulava o New York Times, era o desejo do pontífice de assegurar ao presidente Roosevelt que ele nada tinha a ver com os ataques de Coughlin. Outros jornais previam que Pacelli fecharia a feroz operação radiofônica do padre. Em Roma, o embaixador da Itália na Santa Sé tinha outra explicação para a viagem: Pacelli, em campanha
para suceder Pio XI, buscava o apoio dos quatro cardeais americanos. 30
O bispo Spellman, de Boston, ficou encarregado da visita. Os dois homens voariam de um lado para o outro dos Estados Unidos, viajando mais de treze mil quilômetros, com incontáveis escalas. Pacelli colecionou diplomas honorários de várias faculdades católicas, encontrou-se com quase todos os bispos dos Estados Unidos e discursou para grandes
reuniões de padres e de fiéis, de Boston à Califórnia.31
Desde o momento em que a visita foi anunciada, a imprensa indagava se o cardeal se reuniria com o presidente americano. O padre Coughlin usou seu programa de rádio para advertir o secretário de Estado do Vaticano a não realizar o encontro, que daria a impressão de que a Santa
Sé apoiava a reeleição de Roosevelt. 32 Os ouvintes responderam com um dilúvio de cartas iradas dirigidas ao delegado papal em Washington, acrescentando suas próprias palavras de advertência. (Na falta de relações diplomáticas formais com os Estados Unidos, o Vaticano mantinha um
delegado, não um núncio, na capital.)33 Cedendo à pressão, Pacelli esperou para ver Roosevelt dois dias depois da eleição.
24. Cardeal Pacelli durante sua visita à cidade de Nova York, outubro de 1936
O encontro ocorreu na casa da família do presidente em Hyde Park, Nova York. O único registro da conversa entre os dois veio das recordações de Roosevelt anos depois. O que mais o impressionou, disse o presidente, foi a clara obsessão de Pacelli com a ameaça de uma chegada ao poder dos comunistas nos Estados Unidos. Nisso ele não era muito diferente do padre Coughlin, segundo o presidente. O cardeal não parava de repetir: “O grande perigo nos Estados Unidos é o país se tornar comunista.” Roosevelt respondeu que o verdadeiro perigo era os Estados Unidos se tornarem fascistas.
— Senhor Presidente, o senhor simplesmente não compreende a terrível importância do movimento comunista — disse o cardeal Pacelli.
— O senhor simplesmente não compreende o povo americano —
replicou Roosevelt. 34
Dois dias depois, Pacelli embarcou no transatlântico Count of Savoy,
no porto de Nova York, de volta para casa.35
* * *
NUMA NOITE DE outubro, enquanto o cardeal Pacelli ainda estava nos Estados Unidos, o papa desmaiou, batendo a cabeça num pilar de madeira da cama. Foi um prenúncio do que estava por vir. Em novembro, o outrora vigoroso pontífice teve que ser carregado para suas audiências públicas numa cadeira que funcionários mantinham suspensa. No começo de dezembro, com o coração dando sinais de assustadora fraqueza, o
papa, de setenta e nove anos, ficou confinado ao leito.36
As veias varicosas de Pio XI causavam-lhe dores terríveis, só aliviadas pelos assistentes que lhe massageavam as pernas durante uma hora todos os dias. Ele passava a maior parte do tempo na cama, e o médico lhe fazia
quatro visitas diárias. 37 À noite, os dois clérigos de Milão que assistiam o papa se revezavam à sua cabeceira, pois o desconforto era grande demais para que ele conseguisse dormir. O único compromisso regular que ainda cumpria era com o cardeal Pacelli, que o visitava todos os dias, pois o
pontífice se esforçava para ficar a par de tudo o que acontecia.38
A agonia de Pio era tão grande que o cardeal Pacelli mal conseguia conter as lágrimas. O papa continuava insistindo para que o médico lhe dissesse quanto tempo levaria para ficar bom. “Não quero que me esconda a verdade”, dizia ao discretíssimo médico que gaguejava que não sabia a resposta. O pontífice bebia um pouco de leite de manhã, depois uma sopa rala à tarde, ouvindo música clássica no rádio. Perto do Natal, insistiu em dar aos cardeais a bênção tradicional, que foi oferecida ao lado da cama. Nesse meio-tempo, foram iniciadas, com discrição, as conversas a respeito de um sucessor. A certa altura, Pio parou de perguntar ao médico quando a saúde ia melhorar. Pedia apenas que Deus lhe desse
uma morte digna.39
O Vaticano divulgou muitas histórias falsas para explicar por que o Santo Padre estava de cama. Mas, quando veio o Ano-Novo e ele não reapareceu, os rumores sobre sua saúde precária não puderam mais ser abafados. No começo de janeiro de 1937, L’Osservatore Romano informou que o pontífice sofria de arteriosclerose e de má circulação sanguínea. Havia alguma esperança, de acordo com o jornal do Vaticano, de que sua saúde melhorasse, mas, levando em conta a natureza da doença e a idade
do papa, “certa prudência” era necessária. 40
Pio era menos otimista. Todas as noites, a seu pedido, o secretário lia para ele relatos históricos sobre os últimos dias de outros pontífices. “Hora de ir para casa”, disse ele, cansado. “Precisamos preparar as
malas.”41 Enquanto descansava, olhou para o quadro em frente à sua cama. Mostrava Andrea Avellino, santo padroeiro da boa morte. Sentindo dores e debilitado pela idade, Pio se irritava com seu desamparo. O papa vigoroso, confiante, exigente, que aterrorizava aqueles que o cercavam, parecia sumir depressa. Mas, como ele próprio poderia ter dito, Deus escreve certo por linhas tortas. A maior batalha do papa ainda estava por vir.