O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 22 de 38

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O Papa e Mussolini

Parte três

 

MUSSOLINI, HITLER E OS JUDEUS

CAPÍTULO DEZENOVE

 

ATAQUE A HITLER

 

Ninguém achava que um conclave fosse demorar. Os cardeais avaliavam uns aos outros. Jornalistas americanos rondavam o Vaticano com maços de dinheiro, ansiosos para encontrar alguém que lhes informasse de

imediato quando o papa morresse. 1

O embaixador de Mussolini, Bonifacio Pignatti, mantinha-o a par das manobras de bastidores. Na Itália, informou ele, “a fé no Duce é absoluta e fora de discussão em toda a hierarquia episcopal e no clero”; o sucessor de Pio XI “teria que ser maluco” para atrapalhar as boas relações da Igreja com o governo fascista. Mas fora da Itália as coisas eram diferentes, advertia ele: os “julgamentos de imoralidade” do clero católico conduzidos pelo Terceiro Reich tinham unido cardeais do mundo inteiro contra os nazistas. Eles também não estavam nem um pouco satisfeitos com o assalto a escolas paroquiais e o recente fechamento da imprensa diária católica. A deificação de Hitler e do sangue alemão, junto ao crescimento da juventude hitlerista à custa dos grupos da juventude católica, só piorava a situação. Pignatti temia que a hostilidade dos cardeais contra Hitler afetasse a atitude deles para com o Duce. Embora os cardeais com certeza quisessem um papa que apoiasse a aliança do Vaticano com Mussolini, os não italianos talvez elegessem alguém menos

enamorado do fascismo.2

Contrariando as expectativas, o papa começou a melhorar. Os cardeais que já estavam arrumando as malas para uma viagem a Roma tiveram que desarrumá-las. Pio nunca mais voltaria a ter boa saúde, mas se recuperaria o suficiente para retomar seus deveres mais importantes, reunindo-se com os chefes de congregação da Cúria e até mesmo retomando as audiências públicas, ainda que num ritmo mais lento. No fim de março de 1937, o cardeal Baudrillart, vendo o papa pela primeira vez em meses, comentou que ele “me parece muito mudado, mais magro, o rosto emaciado e enrugado. Sua expressão está mais suave”.

No domingo de Páscoa, o pontífice fez uma comovente reaparição pública, sustentado no alto da sedia gestatoria num cortejo que serpenteou pela lotada basílica de São Pedro. Parecia fraco, o rosto pálido. Muitos choraram de alegria, depois de acharem que nunca mais o veriam. Os olhos do pontífice também estavam úmidos enquanto ele atravessava a vasta e alta basílica. Depois da missa, seus assistentes o carregaram para a sacada externa, onde ele olhou para a multidão que lotava a praça de São Pedro, aguardando sua bênção. “A hora chegou”, lembrava-se Baudrillart. “A voz do papa continua forte e clara. O mundo, este triste

mundo, está abençoado!”3

Poucos dias depois, quando entrou na biblioteca pela primeira vez desde que adoecera, Pio mal pôde conter as lágrimas. Durante muitas noites, deitado na cama sem poder dormir, ele se perguntara se voltaria a vê-la. Nas semanas seguintes, com as dores nas pernas parcialmente aliviadas por meias elásticas e massagens regulares, o papa chegava para as audiências públicas numa cadeira suspensa por duas varas. Dentro do seu apartamento, usava cadeira de rodas. Nos breves, mas preciosos, momentos em que ia até os jardins, caminhava, hesitante, apoiado numa bengala. Agora, realizava o primeiro encontro do dia às dez da manhã, e tirava um longo cochilo depois do almoço. Às segundas-feiras, ficava na

cama o dia inteiro. À noite, relaxava ouvindo música no rádio.4

 

* * *

AS RELAÇÕES DO vaticano com Hitler pioravam. Os julgamentos de fachada dos padres alemães produziam uma ampla cobertura de imprensa, e o número de crianças nas escolas católicas diminuiu até quase desaparecer. Mas a aliança do Vaticano com Mussolini continuava forte. Meses depois de as tropas da Itália terem marchado sobre Adis Abeba, os italianos ainda se inflavam de orgulho patriótico. “O sorriso de Mussolini é como um lampejo do deus Sol”, escreveu um bajulador jornalista

italiano, “esperado e desejado porque traz saúde e vida.” 5 O mais importante jornal católico da Itália, L’Avvenire d’Italia, e L’Osservatore

Romano 6 , do Vaticano, manifestavam apoio entusiástico ao regime.

Os laços do Duce com Hitler praticamente não tinham afetado o apoio do Vaticano a Mussolini, mas fora da Itália o brilho do ditador já declinava. Em fevereiro, o embaixador italiano nos Estados Unidos falou sobre a mudança, em tom preocupado: os americanos começavam a ver o fascismo e o nazismo como duas faces da mesma moeda totalitária, e eles

desprezavam os nazistas. 7

Mas Mussolini ainda contava com o apoio entusiástico dos ítalo-americanos. Como resultado, políticos em áreas com grande contingente de cidadãos de origem italiana relutavam em criticá-lo. Em 1937, o prefeito de Nova York, Fiorello La Guardia, disse a um grupo de judeus que a efígie de Hitler deveria ser posta numa câmara dos horrores na Feira Mundial e, um ano depois, descreveu o Führer como um “covarde desprezível”. Contudo, apesar de leis antissemitas terem sido instituídas na Itália em 1938, La Guardia — cuja mãe italiana vinha de uma família judia — não ousou falar nada publicamente contra o Duce até 1940, quando a Itália invadiu a França e entrou na Segunda Guerra Mundial do

lado dos nazistas.8

No início de 1937, um repórter alemão chegou ao palácio Venezia para entrevistar Mussolini. Do outro lado da sala do Mapa do Mundo, emoldurado por uma gigantesca lareira de mármore, estava sentado seu anfitrião. O Duce se levantou de um pulo, pondo-se em posição rijamente ereta, e estendeu o braço na saudação romana. Perguntou ao visitante alemão como estava o Führer. “Muito bem”, respondeu o repórter, impressionado com o vigor de Mussolini. Sua “face cesárea” parecia rejuvenescida, e as rugas em volta dos olhos tinham desaparecido.

Uma batalha histórica estava para começar, disse o Duce. O comunismo ameaçava destruir a Europa. As democracias tinham se tornado focos de infecção, “propagadoras do bacilo comunista”. A Europa passava por um momento decisivo. “Esta é a época das individualidades fortes e das personalidades predominantes”, explicou o ditador. “Democracias são como areia, areia ao vento. Nosso ideal político de Estado é uma rocha, um pico de granito.” Só a Itália fascista e

a Alemanha nazista poderiam salvar a Europa.9

 

* * *

 

À MEDIDA QUE recuperava suas forças, o papa voltou a pedir a Mussolini que o ajudasse a lidar com Hitler, mas suas esperanças se mostraram vãs. O Duce disse a Tacchi Venturi que havia pouco que ele, ou qualquer outro, pudesse fazer para influenciar o Führer em assuntos de religião. Ao transmitir esse recado ao papa, Tacchi Venturi comentou que Mussolini fizera tudo o que podia. Para evitar que o entusiasmo do pontífice pelo Duce diminuísse, acrescentou rapidamente que, “com a mesma bondade”, o ditador concordara com todos os outros pedidos do pontífice. Censuraria qualquer jornal que o papa julgasse questionável e confiscaria todos os exemplares de um panfleto que os protestantes americanos tinham enviado pouco tempo antes para seus irmãos na

Itália. 10

No verão de 1936, os bispos alemães haviam pedido ao papa que preparasse uma encíclica instando o regime nazista a respeitar os termos da concordata de 1933 com a Igreja. No começo de 1937, em seu leito de enfermo, o pontífice recebeu três cardeais alemães e dois bispos para discutir a proposta. Pacelli, para não contrariar Hitler, aconselhou Pio a não divulgar suas críticas em forma de encíclica: em vez disso, deveria enviar ao Führer uma carta pastoral, a ser distribuída apenas entre os bispos alemães. Mas o papa rejeitou com desdém esse conselho. Queria publicar uma encíclica para que todos os alemães — e todo o resto do mundo — pudessem ler. O resultado foi dramático. No Domingo de Ramos de 31 de março de 1937, bispos e padres em toda a Alemanha leram do púlpito a encíclica Mit brennender Sorge [Com ardente preocupação] para pessoas não acostumadas a qualquer crítica em público

ao regime nazista.11

“É com profunda ansiedade e crescente surpresa que há muito tempo Nós acompanhamos as penosas dificuldades da Igreja [alemã] e as contrariedades que afligem aqueles que permanecem leais no sentimento e na ação.” Assim começava a encíclica. Embora a Igreja tivesse firmado de boa-fé a concordata com o governo alemão, dizia o pontífice, “todos são obrigados a reconhecer, não sem surpresa e repulsa, que a outra parte contratante emasculou os termos do tratado, distorceu o seu sentido e acabou considerando política normal a sua violação mais ou menos oficial”. Pio lamentava a destruição das escolas paroquiais, apesar da cláusula da concordata que as protegia. Repreendeu com severidade aqueles que idolatravam raça e nação, culpando-os por distorcerem e perverterem “uma ordem do mundo planejada e criada por Deus”. Destacou os esforços para mesclar cristianismo e culto da raça: “Só as mentes superficiais poderiam inventar conceitos como o de um Deus nacional, ou de uma religião nacional; ou tentar limitar às fronteiras de um único povo, dentro dos estreitos limites de uma única raça, Deus, o Criador do universo.” Apesar de não mencionar o nazismo pelo nome, agradecia aos padres e leigos “que persistiram em suas obrigações cristãs e na defesa dos direitos de Deus em face de um agressivo paganismo”. A referência era clara.

Embora a encíclica fosse contundente, poderia ter sido mais dura. Durante meses, o Santo Ofício da Inquisição preparara outro documento apresentando uma lista dos fundamentos do nazismo que a Igreja considerava erros graves. Nessa lista havia trechos claramente retirados de Mein Kampf [Minha luta], o livro de Hitler.

Temendo que a classificação da ideologia nazista como anticristã pudesse levar o Führer a rejeitar a concordata por completo, o papa decidira fazer um ataque menos direto. Nisso teve o apoio não apenas de Pacelli, mas também do cardeal Michael von Faulhaber, arcebispo de Munique, a mais importante arquidiocese da Alemanha. Ao longo de todo o projeto de redação, o superior geral dos jesuítas, Ledóchowski, fez o possível para impedir que o pontífice denunciasse Hitler, recomendando-lhe que “não entrasse em assuntos que são muito difíceis e sutis”. O termo “nazista” foi apagado do rascunho; também não havia qualquer menção à perseguição aos judeus. A encíclica deveria ter sido acompanhada por uma lista de erros condenados pela Igreja, incluindo os

fundamentos do nazismo, mas essa parte nunca saiu do Vaticano.12

Apesar de diluída, a encíclica enfureceu Hitler, que ficou indignado não apenas com o ataque público inédito, mas também com a habilidade do papa de distribuir sua mensagem tão amplamente sem que ele tivesse conhecimento. Mandou a polícia fechar todas as editoras católicas e enviou agentes às dioceses e aos mosteiros do país para confiscar arquivos. “Vou cumular a Igreja Católica de desgraças e vergonha”, disse ele a um visitante, “abrindo arquivos monásticos desconhecidos e publicando toda

a imundície que eles contêm!”13 Convencido de que conhecia os pontos fracos da Igreja, ameaçou revelar vívidos relatos de abusos sexuais cometidos pelo clero e tomou providências imediatas para reunir provas incriminadoras. Quando a notícia das incursões policiais se espalhou, o bispo de Berlim e o arcebispo de Breslau mandaram queimar os arquivos relativos a queixas contra padres. Pio XI recomendou a todos os bispos da

Alemanha que seguissem aquele exemplo.14

Com receio de que os jornais italianos mostrassem a encíclica como uma denúncia ao nazismo, mais do que como um apelo para que os termos da concordata com a Alemanha fossem respeitados, o papa

informou ao Duce que a intenção não era essa.15 Pacelli, de sua parte, queria a todo custo evitar um rompimento com o governo nazista,

temendo que a Igreja alemã ficasse indefesa. 16

Em maio, Mussolini levou as preocupações do pontífice ao ministro do Exterior alemão, Konstantin von Neurath. O conflito com a Igreja, disse o Duce, era prejudicial para a reputação do Terceiro Reich. Com base em sua própria experiência, aconselhava os nazistas a permitirem a instrução religiosa em escolas públicas, o que ele fizera na Itália com resultados muito proveitosos. Ao conceder “pequenos favores ao alto clero”, sugeriu Mussolini, citando como exemplo a distribuição de bilhetes de trem gratuitos e a concessão de deduções de impostos, ele conquistara o apoio da Igreja “de tal maneira que até declararam a guerra

na Abissínia uma guerra santa”. 17

Era um conselho que, de uma forma ou de outra, o Duce dava com regularidade aos principais líderes nazistas. No outono anterior, o ministro da Justiça da Alemanha, em visita a Roma, perguntara a Mussolini como ele conseguira manter boas relações com a Igreja na Itália. O ditador se gabou de ter posto o Vaticano na linha depois de um breve período de dificuldades em 1931. Mas advertiu: nunca baixe a guarda. A Igreja Católica, explicou, é como um balão de borracha. Se

não for mantida sob pressão, voltará à sua forma original. 18

 

* * *

 

NO FIM DE maio de 1937, quinhentos padres de Chicago se reuniram num seminário local, como faziam quatro vezes ao ano, para assistir à sua

conferência diocesana. 19 Quando o arcebispo George Mundelein se levantou para falar, não houve qualquer indício de que o que estava prestes a dizer seria de qualquer interesse fora de Chicago. Mas seus

comentários deflagrariam uma cause célèbre internacional. 20 Atacando o regime nazista por perseguir a Igreja, ele disse aos padres: “Talvez os senhores se perguntem como pode um país de sessenta milhões de pessoas inteligentes se submeter, temeroso e servil, a um estrangeiro, a um austríaco colocador de papel de parede, e um muito ruim, e a alguns poucos cúmplices como Goebbels e Göring, que ditam cada passo na

vida das pessoas.” 21

O governo alemão, indignado, exigiu um pedido de desculpas do Vaticano. O cardeal Pacelli, respondendo em nome do papa, recusou-se a fazer isso. Disse que não haveria nada nesse sentido se o governo alemão não mandasse suspender a série constante de ataques à Igreja nos jornais da Alemanha.

Berlim chamou de volta Diego von Bergen, embaixador da Alemanha no Vaticano. “A Santa Sé verá”, advertiu ele, “que sua inesperada e incompreensível conduta nesse caso, enquanto não for remediada, aboliu as condições necessárias para um estado normal de relações entre o governo alemão e a Cúria. A responsabilidade total por esta situação recai

inteiramente sobre a Cúria.” 22

O fato de o cardeal Pacelli assumir a liderança nessa crise se deveu em parte ao estado de saúde do papa, ainda frágil. Enfraquecido pelo coração doente e com dificuldade para respirar por causa da asma, o pontífice quase não tinha mais energia. Um visitante disse que ele parecia ter “um raio de eternidade no rosto”. A doença de Pio XI, observou Pacelli, o tornara “extremamente emotivo”. Em abril, ele disse que não conseguia olhar o papa fragilizado sem chorar. Com cada vez mais frequência, quando lhe cobravam ação, o pontífice respondia: “Isto vai ficar para o

nosso sucessor.”23

Em maio, o papa estava em seu retiro em Castel Gandolfo, onde alto-falantes foram instalados para ampliar sua voz fina durante as audiências públicas. Em seu octogésimo aniversário, ele deveria inaugurar a nova Pontifícia Academia de Ciência, mas teve que cancelar o evento no

último minuto. 24

A tensão entre a Santa Sé e a Alemanha provocava conjecturas de que

o papa enfermo talvez excomungasse Hitler. 25 O desgosto de Pio com os nazistas também impactava sua atitude para com a guerra civil espanhola, pois ele desconfiava dos laços estreitos entre Franco e Hitler. Mussolini ajudava Franco em sua luta contra o “comunismo” enviando soldados e munição, mas se queixava de que o pontífice nada fazia para apoiar a

revolta, apesar de denunciar o comunismo numa encíclica. 26 Num encontro em maio com o primaz da Espanha, cardeal Isdro Gomá, Franco lhe falou da importância de contar com o respaldo público do papa. Gomá concordou e informou à Secretaria de Estado do Vaticano que uma carta assinada pelos bispos espanhóis seria publicada manifestando apoio a Franco. Pacelli recomendou a Pio que mandasse publicar o documento como parte das atas oficiais do Vaticano — as Acta Apostolicae Sedis —, mas o papa enfermo se recusou. “Isto, cardeal, não”,

limitou-se a dizer.27

Para os católicos fora da Itália, o apoio da Santa Sé ao regime fascista italiano ficava cada vez mais incômodo. O último constrangimento sofrido pelo Vaticano ocorreu em 9 de junho, quando rufiões fascistas franceses assassinaram Carlo Rosselli, um dos fundadores da mais importante organização antifascista italiana no exílio. Matteotti, Amendola e, agora Rosselli — os sicários de Mussolini haviam assassinado três importantes líderes da oposição, homens de grande

estatura moral.28

Enquanto isso, Tacchi Venturi trabalhava sem descanso para erradicar as críticas católicas à ditadura italiana. Em 12 de julho, Dino Alfieri, ministro da Cultura Popular, pediu-lhe que cuidasse do problema mais recente. A mais importante revista católica da Inglaterra tinha publicado uma carta atacando violentamente a Alemanha nazista e a Itália fascista. Seu autor, um dominicano, irritou-se com os fascistas britânicos que alegavam contar com o apoio do Vaticano. O dominicano citava a encíclica Non abbiamo bisogno, que Pio XI divulgara em 1931, como argumento de que o papa se opunha ao fascismo.

Informado sobre o assunto, o monsenhor Pizzardo, subsecretário de Estado do Vaticano, redigiu uma carta para o arcebispo de Westminster,

chefe da Igreja Católica na Grã-Bretanha. 29 O ofensivo artigo na revista britânica, queixava-se Pizzardo, “coloca o fascismo italiano e o racismo alemão no mesmo nível com relação à Igreja Católica, como se o primeiro merecesse a mesma reprovação e a mesma condenação do último”. Seu autor deveria ter feito uma distinção mais clara entre os dois regimes. Apesar de a Igreja ter condenado “os excessos do Nacional Socialismo”, a polêmica sobre a Ação Católica italiana em 1931 tinha sido rapidamente resolvida. “Desde essa época”, concluía Pizzardo, “é verdade que não apenas não houve casos de atrito entre a Autoridade Eclesiástica e o governo italiano dignos de nota, como o que tem havido com frequência é uma frutífera colaboração entre eles.”

Pizzardo mandou o rascunho da carta a Tacchi Venturi, que a

devolveu com sugestões que reforçavam o elogio ao regime fascista.30 Aconselhou também que uma cópia fosse enviada ao mestre geral da ordem dominicana, para que ele pudesse acrescentar sua própria e “justa advertência”. Pizzardo acatou todas as mudanças sugeridas e despachou a carta. O ofensor, repreendido, publicou uma humilhante retratação na

revista.31

 

* * *

 

A GUERRA CIVIL espanhola ameaçava arrastar toda a Europa para uma conflagração. Em agosto, submarinos italianos começaram a afundar navios com destino a portos espanhóis controlados pelos republicanos, enquanto Hitler acelerava o rearmamento da Alemanha. Apesar da crescente tensão mundial, Mussolini encontrava tempo para suas visitas diárias à jovem amante, Clara Petacci, e para farsas esporádicas com outras mulheres.

Até então, o Duce tinha sido capaz de ocultar detalhes de seus muitos casos amorosos da imprensa mundial. Isso mudou no começo de 1937, graças a uma sedutora repórter francesa de vinte e nove anos. Magda Fontanges ganhou fama mundial quando feriu à bala o embaixador francês na Itália. Ela explicou que tentara matá-lo por considerá-lo responsável pelo fim do caso dela com Mussolini. O julgamento da moça encheu as páginas da imprensa mundial com reportagens maliciosas descrevendo seus encontros. Mais tarde, Fontanges publicaria seu próprio relato com passagens repletas de sexo numa revista americana, sob o título

de “Fui amante de Mussolini”. 32 Em três partes sensacionais, Magda contou em detalhes de tirar o fôlego como Mussolini a seduzira. A segunda parte abria com uma ilustração de página inteira de Fontanges nos braços de Mussolini, os dois se beijando. Dizia a legenda: “Abraçando-me com força, ele me dá o primeiro beijo. Tenho uma sensação de embriaguez.” Mais adiante, ela descrevia o ninho de amor do ditador no palácio Venezia enquanto ele a levava para o sofá numa sala escura.

“Ele me abraça outra vez, cada vez mais terno”, lembrava-se ela. “Então um frenesi toma conta de mim, ele se torna brutal e diz ‘Você já conhece Il Duce — agora vai conhecer o homem!’”

“Ele tira o sobretudo e, de camisa esporte, parece espantosamente jovem. Sem ligar para nada, a não ser para os próprios instintos, pula em cima de mim. Antes que eu tenha tempo de emitir uma exclamação,

estou presa em seus braços fortes.” 33

O escândalo francês provocou uma enxurrada de relatos na imprensa estrangeira sobre o voraz apetite sexual do Duce. Os relatos, comentou Mussolini, eram muito exagerados. “Se eu tivesse copulado com todas essas mulheres com quem dizem que copulei”, afirmou a um entrevistador, “francamente, eu teria que ser não um homem, mas um garanhão.” Dois anos depois, numa leve conversa com uma conhecida, ele disse, gracejando, que sua carne não lhe permitia ser santo. Apesar de poucas coisas o tentarem — comia basicamente frutas e hortaliças e não se interessava por dinheiro —, ele admitia ter uma fraqueza, que seria sempre um obstáculo para quaisquer aspirações à santidade.

— Você não é o único no mundo — disse ela. — Sempre me perguntei qual seria a utilidade de ter sido virtuoso quando se é velho.

— Na Romanha — respondeu Mussolini — temos um provérbio. (...) “Na juventude, dê a sua carne ao diabo; na velhice, dê os seus ossos

ao Senhor”. 34

Ser mulherengo sempre fora parte do culto de Mussolini, e o caso Fontanges não contribuiu em nada para alterar essa fama. No começo de setembro, enquanto a banda tocava num festival numa praia siciliana, Mussolini dançou com as mulheres do lugar, algumas jovens, outras velhas, algumas magras, outras gordas, algumas atraentes, outras não. “Dançar é uma religião na Romanha”, disse ele. “A dança toma o lugar do catolicismo.”

Enquanto Mussolini gingava ao ritmo da música, seu secretário entrou correndo na pista de dança com um telegrama na mão. Um submarino italiano, ao largo da costa siciliana, tinha acabado de torpedear um cargueiro russo que levava suprimentos para a Espanha republicana. O ataque era parte de um bloqueio recém-imposto que corria o risco de deflagrar uma guerra europeia maior. Depois de uma pausa para ler a mensagem, o Duce mudou de parceira. Ao fim da música, perguntou: “Há outros telegramas? Se a cada volta na pista eles anunciassem outro

torpedeamento, eu nunca pararia de dançar.”35