O Papa e Mussolini
Capítulo dez
COMER UMA ALCACHOFRA
A Itália não tinha feriado patriótico mais importante do que 20 de setembro, data em que, no ano de 1870, tropas italianas conquistaram Roma. Mas, enquanto os patriotas comemoravam o dia, os leais ao Vaticano iam a missas especiais de luto. No começo de setembro de 1929, o papa mandou seu núncio ir ao encontro de Mussolini. Queria abolir o feriado e substituí-lo por um em 11 de fevereiro, para celebrar a
assinatura do Tratado de Latrão. 1
Mussolini não foi receptivo. “Com toda a franqueza”, respondeu, “devo lhe dizer que os italianos não podem renunciar às comemorações de 20 de setembro.” A concordata não falava em aboli-lo. O acontecimento que o feriado assinalava tinha sido bom para todos,
incluindo a Igreja. Era tudo parte dos desígnios de Deus.2
Irritado com a presunção do Duce em querer lhe ensinar quais eram os desejos de Deus, Pio XI respondeu poucos dias depois, por intermédio do núncio, a concordata só não fazia menção explícita à abolição do
feriado porque isso “era óbvio”.3
As negociações prosseguiram até o último minuto, mas o feriado foi mantido naquele ano, embora sem muita fanfarra. Apesar disso, os esforços do pontífice foram recompensados. Numa tentativa de aplacá-lo, o Duce lhe prometera que a data nunca mais seria comemorada.
* * *
DURANTE SETE ANOS, Mussolini havia desencorajado Rachele e o resto da família a irem para Roma, mas em novembro de 1929 a mulher chegou à cidade com os cinco filhos, incluindo Anna Maria, nascida dois meses antes. Mudaram-se para a magnífica Villa Torlonia, palácio do início do século XIX com um vasto terreno, nas cercanias das antigas muralhas da
cidade. 4
A vida familiar de Mussolini era complicada por sua ligação com Margherita Sarfatti, cuja casa em Roma se tornara um salão onde artistas e escritores se misturavam com figurões do fascismo. Aos olhos de Margherita, Rachele era uma camponesa semianalfabeta. Não usava batom ou ruge nem frequentava salões de beleza. Possuía apenas dois casacos modestos, os quais alternava: um curto, de pele de foca, e outro de pele de raposa prateada que, de acordo com um observador, foi “o máximo a que se atreveu em matéria de extravagância feminina”. Insistia em lavar a louça depois das refeições e se recusava a comparecer a cerimônias oficiais, o que sem dúvida era um alívio para o marido. Num canto dos elegantes jardins da propriedade, mandou construir um forno para assar pão, assim como um galinheiro e uma pocilga onde criava dois porcos.
Embora caseira, Rachele estava longe de ser acanhada no que dizia respeito ao marido e aos filhos. “O verdadeiro ditador da família”, observou Edda, “era minha mãe.” Se fazia qualquer coisa de errado quando criança, era da mãe que ela se escondia, temendo apanhar. Contava com a chegada do pai para salvá-la. Edda idolatrava Mussolini, que lhe parecia poético, indulgente e afetuoso, diferente da mãe. Mas era Rachele quem dava estabilidade à família. “Mesmo nas minhas lembranças mais antigas”, dizia Edda, “eu a vejo como tenaz e inabalável.” Rachele também não era de esquecer um rancor. Durante décadas se recusou a falar com a irmã, que tentara tirar proveito da ligação com o ditador. Depois disso, nenhum filho de Mussolini voltou a mencionar o nome da tia na presença da mãe.
Segundo relatou a filha mais velha, apenas meio de brincadeira, o que levou Mussolini a entrar na política foi o desejo de passar o mínimo tempo possível perto da esposa. Quando jovem, “ele preferia os golpes dos cassetetes da polícia e os porretes dos adversários às amargas recriminações da mulher”. Mussolini tinha os próprios aposentos numa ala separada da Villa Torlonia. Embora de vez em quando recebesse uma amante em casa, achava mais seguro usar o escritório para seus encontros
amorosos. 5
* * *
EM DEZEMBRO DE 1929, em meio a grande pompa, o rei Vítor Emanuel III e a rainha Helena foram ao Vaticano prestar homenagem ao pontífice. Sessenta e oito anos depois da fundação do reino italiano, um papa enfim seria cumprimentado por seu monarca. Soldados postaram-se nas ruas para conter as multidões. Guardas suíços usando elaboradas armaduras medievais e capacetes de prata com altos penachos formaram duas filas para que o casal real passasse. Enquanto o séquito seguia até o coração da Cidade do Vaticano, a banda da Guarda Palatina tocou a marcha real. O rei, de uniforme militar, e a rainha, ao seu lado, de vestido branco rendado com véu e manto real brancos, foram escoltados pela escada real até o palácio Apostólico. Atravessaram salas de recepção lautamente decoradas até chegar à sala do pequeno trono, onde Pio XI os aguardava, sentado sob um dossel de veludo.
17. O rei Vítor Emanuel III e a rainha Helena visitam o papa, dezembro de 1929
Depois de uma conversa de vinte minutos, que incluiu uma troca de presentes, o rei e a rainha foram cumprimentar o cardeal Gasparri em seus aposentos. Ali foram tiradas fotografias do grupo. Pio XI achava indigno ser retratado com visitantes, fossem eles membros da família real ou não. O pontífice tampouco cederia à pressão do governo italiano para ir ao palácio do Quirinal retribuir a visita. Governantes iam ao papa. Depois das fotos, o secretário de Estado escoltou o casal real a São Pedro, onde o
rei e a rainha se ajoelharam diante do Túmulo dos Apóstolos. 6 Aquele dia foi árduo para o monarca anticlerical, como notou a irmã de Mussolini, Edvige, que não estava entre os seus admiradores; durante toda a visita ao Vaticano, observou ela, o rei ostentou “uma expressão ainda mais austera
e maliciosa do que de costume”.7
Foi uma época agitada para Pio XI, que ainda naquele mês viajou para além da praça de São Pedro pela primeira vez desde que se tornara papa, quase oito anos antes. Pouco depois das seis da manhã de 20 de dezembro, sem qualquer anúncio público, uma fila de carros partiu do Vaticano para São João de Latrão, do outro lado de Roma. O pontífice estava ansioso para rezar uma missa na igreja onde, cinquenta anos antes, tinha sido ordenado. Foi a primeira vez que um bispo de Roma entrou em sua sé desde que Pio IX se proclamara prisioneiro do Vaticano, em
1870. 8
Pio XI, observou um bispo francês, é “o mais misterioso dos homens. Não se abre com ninguém, nem mesmo com os conselheiros mais próximos. É muito sensível e até emotivo, mas controla-se com sua força de vontade e não se submete a ninguém. É impossível prever que decisão
vai tomar”. 9
* * *
ALGUNS MESES DEPOIS, a filha favorita de Mussolini, Edda, casou-se. Ele esperava que isso lhe trouxesse algum alívio. O Duce a adorava, mas ela parecia sentir prazer em atormentá-lo. De todos os filhos, era de longe a mais parecida com ele: voluntariosa, impulsiva, temperamental, aventureira, tensa e teimosa, com um comentário afiado sempre na ponta da língua e dona de um olhar fulminante, tinha paixão por cavalgar e nadar. Desafiando convenções, usava calça, dirigia carros de corrida e fumava. Com traços bem definidos, feições cinzeladas e porte atlético, contrastava bastante com os bochechudos irmãos mais novos, mais
parecidos com a mãe. 10
Apesar de ter apenas dezenove anos, Edda já se envolvera numa série de namoros breves e intensos — o que deixava o pai furioso. Em julho de 1929, ela o horrorizou ao declarar que estava apaixonada por um judeu. Casar a filha com um judeu, poucos meses depois de ser aplaudido pelo mundo católico por ter conseguido a conciliação com a Igreja, era algo terrível demais para se imaginar. Vendo que as invectivas de sua esposa contra a união não produziam efeito, Mussolini pediu à irmã, Edvige, que tentasse convencer a sobrinha a ter juízo. Edda diria mais tarde que a decisão paterna de castigá-la tomando-lhe o carro foi a medida que mais a fez pensar. Mas ele não precisava se preocupar, pois a volúvel e teimosa Edda logo abandonou o namorado judeu e iniciou um caso com um jovem devasso, sifilítico e cocainômano filho de um rico
industrial.11 Meses depois, a “potranca maluca”, como a família a chamava pelas costas, enfim tomou tento e anunciou o noivado com
Galeazzo Ciano, de vinte e sete anos.12
18. Mussolini com Rachele e os filhos, 1930
O pai de Galeazzo, Costanzo, pertencia ao círculo mais íntimo de Mussolini; era o ministro dos Correios e Telégrafos. Fora capitão da Marinha na Primeira Guerra Mundial e, em 1925, o rei, cedendo ao desejo do Duce de criar uma nova aristocracia fascista, dera-lhe o título de conde. Amplamente suspeito de receber propinas pelos imensos contratos que administrava, Ciano enriqueceu, e o filho, Galeazzo, foi criado num ambiente de grande conforto e ostentação. Cortês e atraente para as mulheres — ou pelo menos era o que pensava de si mesmo —, o jovem Ciano tinha cabelos pretos bem cuidados, penteados para trás. “Não gosto dele”, segredava Rachele, “não é para nós. É um signore.”
Galeazzo foi à casa de Mussolini pedir formalmente a mão de Edda, depois o Duce saiu de seu escritório com o jovem e deu a notícia à família. Rachele fez o que pôde para desencorajar Galeazzo. “O senhor deve saber”, disse ela, “que Edda não sabe fazer nada. Não sabe cozinhar, nem mesmo um ovo, nem tomar conta da casa. Quanto ao caráter, é melhor nem tocarmos no assunto. Sou mãe dela, e é meu dever adverti-
lo.” 13
O casamento, em abril de 1930, foi realizado numa igreja paroquial próxima. Após a cerimônia, centenas de convidados — mulheres de casaco com gola de pelos e homens de terno escuro — se reuniram na Villa Torlonia para a recepção. Diante de uma larga e longa escada que conduzia às grandes e reluzentes colunas da fachada da mansão branca, um documentarista capturou o núncio papal, Borgongini, papeando com o figurão fascista Dino Grandi. Mais tarde, no jardim, o núncio teria a honra de se sentar a uma pequena mesa redonda para comer com Mussolini, que estava sem chapéu, deixando evidente a calvície cada vez mais acentuada. Estudantes romanas de longos vestidos brancos, cada qual com um grande laço branco no pescoço, cantaram em coro. Os irmãos de Edda estavam presentes também, de calças curtas escuras e camisas brancas com o colarinho desabotoado, cabelos penteados para trás. Depois do concerto, as estudantes desfilaram em frente aos noivos. Enquanto Edda mantinha o braço direito erguido na saudação fascista, Galeazzo permanecia com as mãos para trás, segurando a cartola preta.
Os recém-casados e seus pais seguiram para a basílica de São Pedro. Galeazzo e Edda, de vestido branco e touca de renda branca num estilo que lembrava o das melindrosas dos anos 1920, galgaram as imponentes escadarias da basílica, duas crianças pequenas carregando a ponta da longa cauda do vestido. Mussolini, assim como o novo genro, estava de fraque e cartola. Uma multidão entusiástica ergueu os braços na saudação fascista. Dentro da basílica, Borgongini ofereceu ao casal a bênção de Pio XI e deu a Edda um presente do papa, um esplêndido rosário de ouro e
malaquita.14 O jovem casal foi morar com os pais de Galeazzo, mas por pouco tempo, pois a independente e desinibida Edda não aguentava a
corpulenta sogra, a quem passou a chamar de la bertuccia, a macaca. 15
* * *
COM A CHEGADA do outono de 1930, o papa, por intermédio do núncio, lembrou reiteradamente a Mussolini de sua promessa de acabar com o feriado patriótico da Itália. Mas o Duce já não tinha tanta certeza de que o faria, temendo que abolir as comemorações o faria parecer fraco. O pontífice não cedia. Se o 20 de setembro voltasse a ser comemorado, ele
tornaria público o seu protesto.16
Mussolini não ignorou a ameaça. Convocou o núncio ao palácio Venezia, o sólido edifício medieval para onde transferira seu gabinete no ano anterior. Construído pelo papa Paulo II no século XV, ficava numa grande piazza, em diagonal com o monumento a Vítor Emanuel II (ridicularizado pelos críticos por lembrar um monstruoso bolo de casamento). Em 1924, o Duce dera início ao seu programa para ressuscitar a Roma antiga, demolindo as casas e as igrejas — algumas da época do Renascimento — que cobriam o Mercado de Trajano e o Fórum Romano, nas redondezas. Logo destruiria mais construções para criar uma avenida imponente, com trinta metros de largura incluindo as calçadas, que ia da Piazza Venezia, passando pelas ruínas antigas, até o
Coliseu. 17
Assim que o núncio, de óculos e com uma pança que esticava um pouco a batina preta, entrou no gabinete de Mussolini, no primeiro dia de setembro, o Duce o cumprimentou com o costumeiro ar de áspera generosidade. Instalara seu novo escritório na vasta e profunda Sala do Mapa do Mundo. O cômodo tinha dezoito metros de comprimento por quinze de largura, com afrescos no teto doze metros acima. Toda a parede ocidental era coberta pelo mosaico de um imenso mapa-múndi. Mussolini estava de bom humor e parecia bem, a pele bronzeada destacando-se do paletó branco de lã.
Quando Borgongini mencionou a tez bronzeada, o Duce disse que tinha ido à praia todos os dias, para nadar e se submeter ao que chamava de la cura dell’uva, a cura da uva. “A uva”, explicou ele para o atônito núncio, “é o remédio que a natureza deu aos homens, que apesar disso não sabem apreciar as suas virtudes. Um cacho de uvas comido de estômago vazio estimula o fígado, tem um ligeiro efeito laxante e dá uma sensação de fartura durante o dia inteiro.”
O ditador padecia de um estômago nervoso. Em momentos de grande tensão, dores excruciantes costumavam fazê-lo se dobrar e confiná-lo à cama. Um desses ataques, anos antes, ocorrera logo após o Duce anunciar a ditadura e o fizera cuspir sangue. Apesar de especialistas terem sido chamados, nenhum dos médicos que o examinaram apresentou um diagnóstico conclusivo. Assim, o homem que antes era conhecido pela paixão por expressos duplos aderira a uma dieta baseada em chá de camomila, frutas e hortaliças. Em reuniões do Grande Conselho tarde da noite, enquanto membros engoliam um expresso atrás do outro para se manterem acordados, Mussolini bebia copos e mais copos de suco de
laranja preparado na hora. Evitava café e álcool.18
— O senhor sabe por que estou aqui — disse Borgongini.
O Duce então pegou a carta recente do núncio com a ameaça do papa e mostrou os trechos que sublinhara com seu lápis azul. Não se cansava de rabiscar anotações nas margens dos documentos que examinava, usando grossos lápis vermelhos ou azuis, que só substituía quando já
tinham se transformado em meros tocos.19
O ditador balançou a cabeça. O feriado de 20 de setembro era estabelecido por lei, disse ele, e só poderia ser alterado por votação do parlamento.
— Assim sendo, para este ano, vamos minimizar mais ainda as festividades — propôs, conciliador. — Vamos nos livrar das luzes e das bandeiras, a não ser nos edifícios públicos, é claro. Na próxima reunião de gabinete, decidiremos sobre como terminá-lo, e eu apoiarei a decisão
no parlamento.20
— Não, Excelência — respondeu o tenaz Borgongini. — Isto não é uma solução. O feriado tem que ser eliminado, e antes do próximo 20 de setembro. Do contrário, a consciência do Santo Padre o forçará a fazer um protesto público... E o mundo inteiro rirá de nós, dizendo: “Que grande conciliação esta!”
O artigo 6 do Tratado de Latrão, observou o núncio, revogava todos os atos prévios de governo que não se coadunassem com o documento, portanto bastava Mussolini anunciar que o feriado estava sendo abolido como previsto nas cláusulas do acordo.
O Duce pensou um pouco e concluiu que aquela talvez fosse a melhor saída. Conversaria com seus conselheiros jurídicos e daria uma resposta ao núncio o quanto antes.
Levantando-se para sair, Borgongini deu os pêsames a Mussolini pela morte recente de seu jovem sobrinho, filho de Arnaldo. Isso deixou o Duce pensativo, refletindo sobre os últimos dias de sofrimento do rapaz e sobre a profunda fé católica do irmão.
— Também sou crente. Como se não fôssemos! — assegurou o ditador ao núncio. — Mas os homens me tornaram mau —
acrescentou. 21
* * *
O DUCE NÃO demorou a chamar o núncio de volta. Embora fosse necessária uma lei para abolir formalmente o feriado de 20 de setembro, essa proposta estaria na agenda da reunião de gabinete seguinte. Ele seria substituído por um novo feriado em 28 de outubro, aniversário da Marcha sobre Roma.
O papa, respondeu Borgongini, talvez achasse esse acordo aceitável. Mas não ficaria nada satisfeito com a proposta de substituir o velho feriado por outro a ser comemorado em 28 de outubro, em vez de 11 de fevereiro, a data da Conciliação.
“Não vamos discutir isso”, disse Mussolini, erguendo a voz. “Os senhores querem que eu elimine o feriado de 20 de setembro, portanto contentemo-nos com isso. Basta! Não vou permitir que comecem agora a me pedir para mudar o nome da via 20 Settembre, nem que reclamem porque os livros didáticos falam da entrada dos italianos em Roma no dia 20 de setembro.”
Mussolini se levantou. “Tenho coisas mais importantes com as quais
me preocupar”, disse, dispensando o núncio.22
Difícil de intimidar, o papa ainda não estava satisfeito. Apesar de Borgongini lhe ter transmitido as palavras do Duce sobre trocar nomes de rua, ele insistia para que Mussolini mudasse o nome da 20 Settembre, umas das principais vias de Roma. Pio propunha que se chamasse 11 Febbraio, em homenagem à data do Tratado de Latrão.
Ao saber da exigência mais recente do papa, Mussolini convocou o núncio. “Os senhores devem estar querendo desencadear uma feroz reação anticlerical”, disse-lhe o furioso ditador. “Arrependo-me do que fiz com o 20 de setembro (...) Mal concedo uma coisa, os senhores exigem outra, mesmo antes de o gabinete se reunir, mesmo antes de a lei poder ser aprovada, apesar do fato de eu lhe ter dito explicitamente para não falar no nome dessa rua.”
O Duce explicou que havia uma razão para ter mencionado o nome da via no encontro anterior. “Conheço os senhores e já esperava que, tendo conseguido que eu abolisse o feriado, pediriam a abolição da rua, e, depois de se livrarem da rua, quem sabe o que mais?” O que viria em seguida?, perguntou ele. Havia nove mil cidades na Itália, e quem sabia quantas tinham nomes que ofendiam o papa?
Levando o núncio até a porta, Mussolini se acalmou. “Estamos fazendo política como quem come uma alcachofra, uma folha de cada vez”, explicou. “Porque este é meu ponto forte: faço as coisas à minha maneira, sem passos desnecessários. Tenho que seguir a lei ao pé da letra.
Não quero ser o elefante na loja de cristais.” 23
* * *
NA ESTEIRA DO tratado de latrão, Mussolini entrou no que a história denomina era de consenso. Sem enfrentar qualquer oposição
considerável, sua fome de adulação aumentou. 24 Não só passou a exigir que os jornais o chamassem de Duce, mas também insistia para que DUCE
fosse grafado com maiúsculas.25 Imagens suas proliferavam por toda parte, em edifícios públicos, residências e lojas. Jornais e revistas publicavam fotografias suas em poses heroicas, que ele examinava com atenção antes de serem impressas. Excluía todas as que o mostrassem em companhia de
freiras, monges ou padres, convencido de que davam azar.26
Mussolini cultivava também sua imagem cinematográfica. Roma estava cheia de cinemas — um deles tinha até teto retrátil para permitir a entrada de ar —, e as pessoas formavam filas para ver os filmes mais
recentes. 27 O Duce trabalhava de perto com a nova agência nacional de filmes, e uma lei de 1927 exigia que todos os cinemas da Itália apresentassem noticiários.
Um dilúvio desses documentários registrava o ditador inaugurando novos projetos, falando para grupos da juventude fascista, depositando coroas de flores para mártires fascistas e conferindo medalhas a camponesas vestidas impecavelmente. Outros clipes mostravam-no de terno branco inspecionando projetos de obras públicas, ou montado num cavalo castanho, camisa desabotoada, pulando obstáculos arranjados às pressas no terreno da Villa Torlonia. Alguns vídeos se dedicavam a temas mais leves, a um olhar sobre a vida do povo. Alguns narravam os triunfos de famosos pugilistas e ciclistas italianos. Um deles mostrava um festival popular no Trastevere, em Roma, não longe do Vaticano. Frequentadores de cinema viam homens segurando a boca de grandes sacos de aniagem contra o peito, dando pulos pela rua rumo à linha de chegada. Seguia-se uma corrida do ovo, cada competidor (nenhuma mulher entre eles) lutando para manter um ovo numa colher enquanto acelerava pela rua. Uma divertida tomada dos paralelepípedos sujos de ovos depois do evento mostrava que muitos nunca alcançavam a linha de chegada. As risadas no cinema logo amainavam quando Mussolini aparecia na tela — as pessoas se levantavam.
Nem todos ficavam satisfeitos com essa homenagem compulsória ao ditador. Corria um boato de que um dia Mussolini resolveu ir ao cinema usando um disfarce. Quando sua imagem apareceu na tela e todos se levantaram, ele permaneceu sentado. Um homem em pé atrás dele deu um tapinha em seu ombro e sussurrou: “Signore, sinto a mesma coisa, mas eu o aconselharia a ficar em pé se não quiser que um desses capangas aí
rachem a sua cabeça.”28
Nas aparições públicas, os assistentes do Duce tomavam providências para que ele estivesse cercado por multidões embevecidas, ainda que fosse preciso recrutar policiais à paisana. Navarra, assistente pessoal de Mussolini, lembrava-se de que certa vez, quando uma foto do Duce valsando com uma camponesa foi publicada, espalhou-se o boato de que sua parceira de dança era na verdade uma policial disfarçada.
O ditador às vezes esquecia que os operários, camponeses e artesãos com quem se deixava fotografar eram seus próprios agentes policiais. Mas, na cerimônia de inauguração de um novo edifício, a ideia lhe veio à mente. Virando-se para o “pedreiro” em pé ao seu lado, perguntou, em voz baixa, se ele era da polícia.
— Não, Duce! — respondeu o homem.
— Ah, bravo! — exclamou Mussolini, muito satisfeito. — E o que você é, então, o mestre de obras?
— Não, Duce — foi a resposta. — Sargento do Exército.29