O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 15 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo doze

 

 

O CARDEAL PACELLI AGUENTA FIRME

 

“Fascistas pisoteiam retrato do papa”, anunciava a manchete de primeira página do New York Times no fim de maio de 1931. “Multidão chama o pontífice de traidor e queima livros — venda do L’Osservatore Romano

proibida.”1

A tensão viera aumentando durante meses por causa da Ação Católica, ferramenta crucial dos esforços de Pio XI para recristianizar a sociedade italiana. A Ação Católica tinha um escritório nacional, com o presidente laico nomeado pelo Santo Padre. O monsenhor Pizzardo era tecnicamente o “assistente eclesiástico” da organização, mas, como homem chegado ao papa, ele permitia que Pio a mantivesse sob o mais rígido controle. Diretrizes nacionais eram distribuídas para cada diocese, onde a Ação Católica ficava sob a autoridade do bispo local e tinha um conselho que incluía leigos. Em áreas em que a Igreja era mais forte — em geral no centro e no norte do país —, cada paróquia também tinha o próprio conjunto de organizações da Ação Católica, para homens, mulheres, meninas e meninos.

Mussolini sabia como a Ação Católica era cara a Pio XI, mas decidiu que era hora de colocar o papa em seu devido lugar. Exasperados por notícias de jornal que acusavam a organização de abrigar ativistas do Partido Popular e outros inimigos do regime, centenas de universitários fascistas quebraram janelas do centro da Ação Católica na Universidade de Roma. Outros atiraram pedras nas janelas de La Civiltà Cattolica, entraram no prédio e jogaram livros pelos vidros quebrados. Aos gritos de “Abaixo os padres! Abaixo o papa!”, levaram um retrato de Pio XI para a

rua. 2

Furioso, o pontífice ordenou a Pacelli que suspendesse os encontros

regulares com o embaixador italiano. 3 Mas Mussolini, que não ficava nem um pouco atrás do papa em matéria de ego e mau humor, decidiu dar um basta nas pressões de Pio e mandou fechar todos os grupos de

juventude da Ação Católica na Itália. 4

O embaixador da Romênia, durante uma audiência com o papa, cometeu o erro de sugerir que ele mostrasse ao mundo como solucionar desavenças de modo pacífico, propondo que designasse um mediador de confiança para resolver suas diferenças com o Duce. O pontífice retrucou que seus direitos eram dados por Deus e não se comparavam aos de um governante temporal. “Estou preparado para tudo”, disse Pio. “Nunca desistirei do que acredito ser a minha missão, nunca, nunca, nunca!”

Pio XI, lembrava-se o embaixador, “ficou mais agitado, esmurrando a mesa. Por fim se levantou e continuou a protestar, berrando a plenos pulmões. Arquejava e explodia de indignação até que, de repente, talvez percebendo a impressão que seu exaltado discurso me causava, tentou se controlar, sentou-se e, ainda arquejante, acrescentou: ‘Mas como o

senhor pode ver, ministro, continuo calmo.’” 5

A reportagem de capa do New York Times em 1o de junho, informando sobre a decisão de Mussolini de fechar os clubes de juventude da Ação Católica, dizia que as relações entre o papa e o Duce estavam em vias de rompimento. Os quinze mil clubes locais, com mais de meio milhão de

sócios, seriam todos fechados até o dia seguinte. 6 Em protesto, Pio XI proibiu as igrejas da Itália de realizarem as tradicionais — e populares —

procissões de Corpus Christi, marcadas para 4 de junho.7

Temendo que o conflito fugisse ao controle e convencido de que o novo secretário de Estado era fraco demais para evitar o desastre, um grupo de cardeais procurou Pietro Gasparri e propôs que ele se encontrasse com Mussolini. A insatisfação dentro da Cúria vinha crescendo desde o início da crise, alimentada pela raiva dos cardeais por não terem sido consultados e pela crença de que Pacelli era incapaz de lidar com a situação. Gasparri estava convencido de que Pio XI não tinha nenhum senso diplomático — achava que podia tratar Mussolini como tratava um arcebispo, “com quem uma reprimenda funciona mais do que

um debate”. 8 Ainda magoado com a demissão, ele adoraria exercer a função de pacificador, mas disse aos cardeais que só poderia fazê-lo com a

aprovação do papa. O pontífice negou.9

Em abril, correu o boato de que Pacelli ia renunciar. 10 No fim de maio o jornal fascista Il Popolo di Roma informou que o papa estava

pensando em demiti-lo. 11 No começo de junho, o cardeal Sbaretti, secretário do Santo Ofício da Inquisição, disse a Pio que a opinião unânime dos cardeais daquele ofício era de que Gasparri, e não Pacelli, deveria encabeçar as negociações com o governo. Pacelli estava isolado. Os cardeais pró-fascistas achavam-no fraco demais para fazer o teimoso papa recuar; os antifascistas achavam-no ansioso demais para proteger a

aliança do Vaticano com Mussolini.12

Em 9 de junho, Cesare de Vecchi foi ver Pacelli e teve o prazer de

descobrir que ele “estava completamente do nosso lado”. 13 O pontífice dissera a Pacelli para não discutir a crise com o embaixador italiano, mas, pesaroso, o secretário de Estado revelou ao embaixador francês na Santa Sé as instruções do papa e falou do seu desapontamento com a falta de confiança demonstrada pelo Santo Padre. O embaixador se espantou ao saber que o pontífice impedia por completo o secretário de Estado de cuidar da crise. Pacelli, percebendo que não deveria ter falado tanto, suplicou ao diplomata francês que não contasse a ninguém sobre a

conversa. 14

Para tirar partido das divisões no Vaticano, Dino Grandi, o ministro do Exterior da Itália, aconselhou Mussolini a aumentar a pressão. Recomendou que ele chamasse de volta o embaixador italiano e ameaçasse abandonar a concordata. “Estou convencido”, escreveu, “de que, se nos concentrarmos apenas no papa, declarando-nos os mais fervorosos defensores da Igreja e da Religião e ao mesmo tempo mostrando que o pontífice está deixando de cumprir suas obrigações de chefe da religião católica, deixaremos a Santa Sé numa situação muito

difícil.”15

Ainda naquele mês, Giuseppe Talamo, encarregado de negócios e vice de De Vecchi, teve um encontro com Pacelli em seu escritório no Vaticano. “Com um misto de untuosidade e constrangimento”, segundo Talamo, o secretário de Estado lhe disse que o pontífice estava preparando uma declaração sobre o conflito. Pacelli acrescentou que

esperava que a declaração não agravasse ainda mais a situação.16

Na realidade, Pio XI tinha decidido intensificar o ataque e preparava uma longa encíclica visando diretamente o Duce. Temendo que os censores fascistas vetassem a distribuição, ele deu cópias ao prelado americano Francis Spellman, para que ele as contrabandeasse pela fronteira da França. A encíclica, Non abbiamo bisogno (“Nós não precisamos”), apareceu em jornais estrangeiros antes de ser publicada no

L’Osservatorio Romano 17 no começo de julho.

Na encíclica, o papa negava que a Ação Católica da Itália estivesse envolvida em atividades antifascistas e rejeitava a alegação de que o único papel adequado para a Igreja na educação dos jovens era oferecer instrução religiosa. “Para um católico, não está em conformidade com a doutrina do catolicismo querer que a Igreja e o papa se limitem às práticas externas de religião (Missa e Sacramentos) e que o resto da educação pertença totalmente ao Estado.”

No entanto, mesmo em suas invectivas, Pio tinha o cuidado de distinguir entre o bom fascismo — o que reconhecia os direitos da Igreja e seguia os seus preceitos — e o mau fascismo — o que não fazia nada disso. Ao protestar contra os danos que estavam sendo causados à Igreja na Itália, o papa afirmava: “Acreditamos ao mesmo tempo realizar uma

boa obra para o próprio partido [fascista] e para o regime.”18 Embora condenando os que faziam do fascismo um culto pagão do Estado, ele concluía com palavras conciliatórias: “Em tudo o que declaramos até agora, não dissemos que é nosso desejo condenar o partido e o regime como tais. Nosso objetivo foi mostrar e condenar tudo aquilo que no programa e nas atividades do partido é contrário à doutrina católica e à

prática católica.” 19

O papa tinha outros recursos para pressionar Mussolini. Uma grandiosa cerimônia de inauguração da nova estação ferroviária de Milão estava marcada para 1 o de julho, com a presença do próprio rei. Por causa do conflito, o arcebispo de Milão informou que não iria. O monarca, não querendo passar pelo constrangimento de ficar ao lado de um clérigo de baixo escalão, desistiu. Durante anos, nenhuma cerimônia fascista importante tinha sido realizada sem que um alto prelado estivesse lá para

abençoá-la. 20

De maneira surpreendente, em vez de agravar, a encíclica marcou o início do fim do conflito. Com o documento, Pio XI deu vazão à sua raiva. Agora ele parecia pronto a deixar todos os dissabores para trás. Talvez seus conselheiros enfim o tivessem convencido da necessidade de fazer as pazes com Mussolini, ou talvez o tivessem vencido pelo cansaço. Havia coisas demais em jogo para permitir que aquele conflito

continuasse.21

Numa cerimônia em meados de julho, o papa rezou para que um

milagre “ajudasse os cegos a verem”. 22 Pediu a Tacchi Venturi que os auxiliasse a sair do impasse. O Duce deixou claro para o mediador jesuíta

que também estava ansioso para pôr fim às hostilidades.23 Tacchi Venturi se apressou em transmitir essas palavras encorajadoras ao Vaticano. “Se não estou enganado”, escreveu ele a Pacelli, “a prece do Santo Padre do último domingo começa a ser atendida. Que o Senhor acenda sua santa

luz, para que os cegos vejam!”24

O papa confiou ao enviado jesuíta a incumbência de fazer um acordo com o ditador. Em 25 de julho, enunciou suas duas condições para

resolver a disputa.25 Primeiro, queria que Mussolini reconhecesse que a Igreja tinha um papel a desempenhar na educação das crianças e que era seu direito organizar grupos da Ação Católica em conformidade com “seus adequados fins religiosos e sobrenaturais”. Quando, ainda naquele dia, o jesuíta se encontrou com o Duce, Mussolini disse que não teria qualquer dificuldade em concordar com o pedido. Era a segunda condição do papa que representava um problema. Pio XI queria que Mussolini não só reabrisse os grupos de juventude da Ação Católica, mas que reconhecesse que a ordem de fechá-los tinha sido ilegal. Nesse ponto, o ditador não cederia. Exigir um pedido de desculpas era tentar humilhá-lo.

Convencido de que a crise só acabaria se o papa recuasse, Tacchi Venturi foi pedir ajuda a Gasparri. Os dois nunca haviam sido próximos, mas agora tinham uma missão comum.

Depois do encontro, Gasparri mandou uma carta a Pacelli. “Escrevo com uma alma extremamente preocupada”, disse, sublinhando as palavras para dar ênfase. O que Mussolini já concedera ao papa, afirmava Gasparri, era “enorme”. Seria inconcebível se, por uma questão de “procedimento” — ou seja, exigir uma desculpas do Duce —, o pontífice “partisse para uma condenação do fascismo e, com isso, para a renúncia da concordata”. Cabia a Pacelli, como secretário de Estado,

fazer Pio mudar de ideia. 26

“Segundo rumores que circulam há muitas semanas”, informou o encarregado de negócios francês no Vaticano, “o cardeal Pacelli está sendo mantido à distância dos trabalhos preparatórios para a retomada das conversações com a Itália (...) É o papa, e só o papa, que continua a

impor sua vontade e não ouve os conselhos de ninguém.” 27

No fim, quem recuou foi Pio XI. Em meados de agosto, depois de correr de um lado para o outro entre o pontífice e Mussolini, Tacchi

Venturi redigiu um acordo, que ambos assinaram em 2 de setembro. 28 Especificava que a Ação Católica seria organizada em base diocesana, sob a autoridade do bispo local. Ninguém que fosse conhecido por ter criticado o regime poderia ser escolhido para uma posição de liderança, e

a Ação Católica limitaria suas atividades inteiramente à esfera religiosa. 29

O papa tinha cedido à pressão. Divulgara uma encíclica dramática, esperando unir os católicos da Itália. Mas os fiéis, tendo ouvido durante anos todas as autoridades eclesiásticas, do papa ao pároco, elogiar Mussolini como um enviado dos céus, ficaram desorientados com o conflito e queriam que ele fosse resolvido. Vendo-se sozinho, o Santo

Padre voltou atrás.30

Nem todos os padres e bispos da Itália gostaram do acordo. No exílio em Londres, Don Luigi Sturzo, fundador do Partido Popular, observou que, embora não fosse de surpreender que o papa quisesse preservar sua aliança com o regime, era triste vê-lo aceitar um acordo que representava uma vitória total para Mussolini. Outro ex-líder do Partido Popular, também no exílio, foi mais mordaz: “O papa cedeu, recuou, teve medo. Curvou-se diante do altar do Moloque fascista (...) É o que estão dizendo na Itália e no exterior depois da conclusão do malfadado acordo de 2 de

setembro.” 31

Alguns cardeais também resmungaram contra os novos limites impostos à Igreja. De acordo com o encarregado de negócios francês, achavam “que o desejo de apaziguamento do cardeal Pacelli é que prevaleceu durante as negociações”. O diplomata francês conjecturava que Pio estava ficando velho e, tendo dado vazão à raiva inicial, fora

vencido por Pacelli e outros à sua volta. 32 Havia, sem dúvida, muita verdade nessa opinião, embora Tacchi Venturi, e não Pacelli, pareça ter desempenhado o papel mais influente.

Embaixadores estrangeiros na Santa Sé manifestaram surpresa pelo fato de o papa, teimoso e apegado a seus princípios, ter capitulado de modo tão abrupto. Afinal, mal haviam passado dois meses desde que sua encíclica denunciara a reivindicação fascista de monopolizar a educação dos jovens e advertira contra o culto do Estado. O acordo não dizia nada sobre isso; nem continha aquilo que o pontífice exigia de Mussolini fazia muito tempo: uma desculpa pela violência contra as organizações

católicas e pelos insultos contra ele. 33

 

* * *

 

UM DIA DEPOIS de mussolini e Tacchi Venturi assinarem o acordo final, Pio XI chamou o núncio e pediu desculpas por tê-lo excluído das negociações. Instruiu Borgongini a marcar um encontro com o Duce. Era hora de reatar relações pelos canais apropriados.

— Como vai o senhor? — perguntou Mussolini, sorridente, ao cumprimentá-lo dias depois. — Após a tempestade, a bonança.

— Foi por isso que vim — respondeu o núncio. — Achei que, restaurada a calma, era uma boa ideia retomar contato com Vossa Excelência.

— O senhor verá, um longo período de bonança se inicia — disse o ditador, insistindo no assunto.

— Louvado seja Deus!

— Venha e cuidaremos de tudo. — O Duce apontou para uma série de anotações que Tacchi Venturi lhe mandara, com a costumeira lista de pedidos papais. Havia livros a serem banidos e proselitismo protestante a ser erradicado. — Darei ordens imediatamente para que se faça tudo o que os senhores desejam — disse.

O núncio tinha outro pedido: apesar de ser chefe de governo havia quase uma década, o Duce nunca fora ver o pontífice.

— O papa me pediu para dizer que o senhor será o mais bem-vindo dos bem-vindos — informou Borgongini.

Desde a assinatura do Tratado de Latrão, Pio esperava que o Duce o visitasse, mas o ditador hesitara, dando sempre uma desculpa diferente pelo atraso. Nunca ficaria à vontade no Vaticano, cercado de padres, e se sentiria ainda menos à vontade num ambiente tão esplendoroso que o faria, por comparação, parecer insignificante. Mas, depois da recente vitória, ele se sentiu mais seguro, com menor probabilidade de ser visto se prostrando diante do pontífice. Agora que a crise fora superada, estava

convencido de que grandes coisas viriam pela frente.34