O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 26 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo vinte e três

 

O ACORDO SECRETO

 

Em julho de 1938, quarenta mil judeus na Áustria foram detidos e colocados sob “custódia protetora”. A França reiterou seu compromisso de defender a Tchecoslováquia contra a Alemanha. Os alemães responderam levando tropas para a fronteira com a França, o que logo seria seguido de mobilização militar total.

No começo de agosto, no meio dessa marcha assustadora em direção à guerra, o governo italiano deu continuidade ao manifesto racial, baixando uma série de leis antissemitas. A primeira delas proibia todos os judeus nascidos no estrangeiro de frequentar escolas italianas. La Civiltà Cattolica informou os leitores sobre a medida e publicou uma justificativa governamental — notavelmente semelhante às advertências anteriores da própria revista sobre a ameaça judaica: os judeus jamais poderiam ser leais ao país onde viviam, porque sua verdadeira lealdade era para com outros judeus; o judaísmo estava por trás do bolchevismo e da maçonaria; e, apesar de só um em mil italianos ser judeu, os judeus ocupavam muitos

cargos importantes. A situação era intolerável. 1

Em 4 de agosto de 1938, o papa mandou chamar Giovanni Montini. Poucos anos antes, num esforço para agradar a Mussolini, ele demitira Montini do cargo de capelão nacional universitário da Ação Católica. Mas, no fim de 1937, o pontífice havia decidido reabilitar Montini e fazer dele um dos dois subsecretários de Pacelli. A decisão lançou Montini numa trajetória que, um quarto de século depois, o levaria ao trono de São Pedro. Agora, Pio queria que ele redigisse uma carta para Mussolini mostrando em detalhes a posição do papa sobre os judeus e a Ação Católica.

No dia seguinte, Montini entregou um rascunho a Pio, que o revisou com cuidado. No que dizia respeito aos judeus, esclarecia o texto, o pontífice não tinha intenção de interferir na “responsabilidade [do Estado] de tomar medidas oportunas em defesa de interesses legítimos”, mas esperava que Mussolini não fosse além do que a caridade cristã permitia. No tocante à Ação Católica, Pio repelia as ameaças de excluir seus membros do Partido Fascista. A Ação Católica, insistia ele, tinha apenas objetivos religiosos, não sendo, portanto, incompatível com a filiação ao Partido Fascista.

Mais uma vez o cardeal Pacelli convenceu o papa a não mandar a carta para não irritar Mussolini. Em vez disso, Tacchi Venturi comunicou

pessoalmente os pensamentos do pontífice ao ditador.2

Os temores recentes do papa sobre a Ação Católica vinham de um relatório que recebera da cidade de Bérgamo, no nordeste da Itália: fascistas locais tinham atacado um clube da Ação Católica. Quando o cardeal Pacelli transmitiu essa reclamação a Pignatti, o embaixador ficou indignado. O que esperava o Vaticano? Militantes fascistas estavam furiosos com as críticas do papa à campanha racial. Era de esperar que

atos mais violentos ainda acontecessem.3

Dois dias depois, o cardeal Pizzardo, chateado com alegações da imprensa fascista de que era ele quem convencia o papa a denunciar o racismo, teve um encontro com o embaixador. Pizzardo assegurou a Pignatti que jamais tinha conversado com Pio sobre o assunto. A conversa, então, passou para o clima de tensão criado em torno da Ação Católica, e Pignatti propôs uma solução. Se a organização desistisse da prática de filiação formal, isso ajudaria muito a aliviar a tensão. Pizzardo não se comprometeu, dizendo que caberia ao papa decidir. O embaixador suspeitava de que era Pizzardo quem incentivava o pontífice a defender a organização. Ele sabia a quem pedir ajuda. “Como o cardeal Pacelli, cujas relações com o cardeal Pizzardo são notoriamente ruins, não tem nenhuma grande simpatia pela Ação Católica tal como é hoje organizada”, comentou Pignatti em seu relato do encontro, “tentarei

conquistá-lo como aliado nesta questão.”4

Novos indícios do isolamento do papa vieram naquela semana,

quando La Civiltà Cattolica publicou um artigo elogiando o regime. 5 Pignatti ficou muito feliz. No que dizia respeito à campanha contra os judeus, disse ele a Ciano, o apoio dos jesuítas estava sem dúvida com Mussolini. Mas acrescentou uma advertência: os jornais da Itália precisavam parar de dar tanto destaque a esse fato. Os jesuítas não se

deixariam apresentar como adversários do pontífice. 6

Quando Ciano disse a Mussolini que era incapaz de prever o que o papa poderia dizer, o Duce ficou de mau humor. “Não subestimo os poderes dele”, disse, “mas ele não pode subestimar os meus.” Será que o papa não tinha aprendido a lição que lhe dera sete anos antes, na batalha em torno da Ação Católica? “Um sinal meu”, advertiu o Duce, “bastaria

para desencadear todo o anticlericalismo deste país.”7

Como no passado, Roberto Farinacci, o mais fascista dos fascistas, estava ansioso para ajudar Mussolini a pressionar o papa. Nas páginas de seu jornal sediado em Cremona, Il Regime Fascista, ele denunciou Pio XI

por críticas a campanha racial. 8

Saindo em defesa do papa, o bispo de Cremona enviou uma longa carta a Farinacci. Explicava que o pontífice não tivera intenção de criticar o programa racial fascista. Quando fazia objeções ao “racismo”, seu objetivo era condenar a ideologia pagã adotada pelos nazistas. “E, quando certo escritor católico afirmou que a Ação Católica não poderia, por princípio, aceitar o racismo, estava se referindo apenas ao racismo alemão. Não se referia ao racismo italiano.” Pio sem dúvida não condenava a defesa saudável da raça italiana contra o perigo representado pelos judeus da Itália. Se algumas pessoas tinham sido levadas a achar que o papa e a Igreja se opunham à campanha racial, isso ocorrera sem a menor dúvida, porque “os antifascistas e os judeus tinham interesse em distorcer o

significado das palavras do papa, em benefício do próprio antifascismo”.9

Farinacci respondeu em seu jornal. Ao lançar a campanha antissemita, explicou, Mussolini apenas seguia os ensinamentos da Igreja: “Os judeus, subordinados a uma bem organizada Internacional, declararam-se antifascistas em todas as partes do mundo e, por consequência, anti-italianos e anticatólicos. Se este pontífice tem uma fraqueza filossemita, não se pode negar que outros papas foram precursores do fascismo no tocante ao problema racial. Mesmo hoje, posso garantir que nesta questão muitos cardeais não compartilham a atitude do papa e de L’Osservatore

Romano 10 .”

Enquanto Farinacci avivava as chamas, Pio mais uma vez recorreu a Tacchi Venturi para propor um acordo, como fizera na crise anterior em torno da Ação Católica. O jesuíta teve um encontro com o Duce em 8 de agosto, levando-lhe um memorando contendo os pensamentos do papa. Leu o texto em voz alta e, depois de discutir as opiniões do pontífice com o ditador, deixou com ele o memorando.

Dois assuntos “muito graves” vinham aborrecendo o papa, dizia o documento. O primeiro era a “penosa” situação em que se achava a Ação Católica. A imprensa italiana estava repleta de calúnias contra a organização, e, em algumas áreas, não apenas seus líderes, mas também seus membros, corriam risco de intimidação. Em muitas partes do país, membros do Partido Fascista recebiam ordem para deixar a Ação Católica se quisessem permanecer no partido. “Diga a Mussolini”, instruiu o papa, “que, como nos ansiosos dias de julho de 1931, mais uma vez, depois de sete anos, Nós o mandamos [Tacchi Venturi] de volta como nosso representante de confiança, na plena certeza de que ele saberá compreendê-lo e Aquele que o envia.” O papa acrescentou que, se o Duce achasse que ajudaria, estava disposto a conversar com o ditador pessoalmente para chegarem a uma solução.

O segundo assunto “penoso” mencionado no memorando dizia respeito à “questão judaica”. “Reconhecemos”, dizia Pio, “que cabe ao governo do país tomar as medidas oportunas nessa questão em defesa dos seus legítimos interesses, e é Nossa intenção não interferir.” Mas o papa achava que era sua obrigação apelar para o “senso cristão” de Mussolini e adverti-lo “contra qualquer tipo de medida desumana ou anticristã”. Em seguida, tratou da questão dos judeus convertidos e dos judeus que, com permissão da Igreja, casaram com católicos. Lembrava a Mussolini que, nos termos da concordata, só o direito canônico determinava se esses casamentos eram válidos, e ele não deveria fazer nada que infringisse esse direito.

Pio concluiu recordando que nos domínios em que governavam, a Igreja e os papas tinham “tido o cuidado de controlar os filhos de Israel e tomado medidas protetoras contra suas malfeitorias”, mas nunca os haviam maltratado. Apesar de a poderosa liturgia da Sexta-Feira da Paixão chamar os judeus de “pérfidos”, os papas jamais esqueceram que Jesus

Cristo, o Redentor do mundo, veio dos judeus.11

Tacchi Venturi discutiu tudo isso com Mussolini em seu encontro e, depois, informou o papa sobre a reação do Duce aos seus apelos. Pio mandou-o de volta ao ditador na noite de sexta-feira, 12 de agosto, levando outro memorando. Dessa vez Tacchi Venturi entregou o texto do papa para o Duce antes de começarem a conversar. O pontífice gostara de saber que Mussolini não tinha intenção de tomar medidas contra a Ação Católica, desde que ela permanecesse dentro dos limites acordados, e ficou animado com “a moderação e o espírito de razoabilidade com os quais o senhor diz que tratará os israelitas”. O texto não fazia nenhuma outra menção aos judeus, concentrando-se por completo nos temores que ainda lhe restavam sobre a Ação Católica. O papa esperava que um novo acordo pudesse ser firmado para levar o conflito sobre a Ação Católica a uma conclusão pacífica, mas isso só poderia acontecer depois que Mussolini tomasse três medidas: remover o líder anticlerical do Partido Fascista de Bérgamo; reconduzir membros da Ação Católica removidos do Partido Fascista; e reabilitar aqueles que haviam perdido cargos no governo por suas atividades na Ação Católica.

“Sem essas preliminares”, disse-lhe Tacchi Venturi, falando em nome do papa, “acredito, ó, Duce, que nossas calmas discussões não terão facilmente — para meu grande pesar — o mesmo resultado satisfatório que tiveram as de agosto de 1931.” Venturi concluiu lembrando a Mussolini o quanto o respaldo da Igreja tinha sido valioso para o ditador, “não a menor das razões para a vitória italiana na Etiópia”. Tão crucial era o apoio do Vaticano ao regime fascista, afirmou o representante do papa, que “todas as forças terrestres e infernais do antifascismo

cosmopolitano” fariam tudo que pudessem para acabar com ele. 12

Quase um mês se passara desde o anúncio da nova doutrina racial. Embora judeus no mundo inteiro aguardassem ansiosos o que viria em seguida, ainda alimentavam a esperança de que a postura antissemita da Itália não tivesse grande efeito prático. A maior comunidade era, de longe, a de Roma, com onze mil cidadãos judeus, seguida por Milão, com quase sete mil, e Trieste, a cidade portuária mais setentrional, com aproximadamente cinco mil. Os judeus eram mais alfabetizados do que a população em geral e, apesar de quase metade da população italiana ser de agricultores, era raro encontrar um judeu cuidando da terra. Mas os judeus da Itália não estavam, de forma alguma, todos bem de vida. Embora, pelos dados do censo, a categoria profissional predominante entre a população judaica fosse a “do comércio”, isso incluía desde vendedores ambulantes sem dinheiro até prósperos negociantes. A comunidade judaica de Roma não era rica. Muitos ali dependiam da

caridade de seus pares para sobreviver.13

Infelizmente para os judeus da Itália — tanto os ricos quanto os pobres —, Mussolini era muito sério no que dizia respeito a traduzir sua retórica racial em ações. Mas o ditador sabia que não seria fácil despertar o entusiasmo popular por uma cruzada antissemita que tinha sido uma surpresa total para a maioria dos italianos. Se o papa se opusesse publicamente, poderia enfraquecer muito a campanha.

“Três pontos de um acordo prazerosamente alcançado na noite de 16 de agosto de 1938 entre Sua Excelência, o Honrado Mussolini, e o Padre Tacchi Venturi, S. J., a fim de restaurar a boa harmonia entre a Santa Sé e o Governo Italiano que foi perturbada nas últimas semanas”. Esse era o título do documento de três páginas datilografadas que o enviado jesuíta do papa enviou no dia seguinte para o cardeal Pacelli. Mussolini ditara o texto, e Tacchi Venturi o anotara. Seus termos refletiam de perto os pontos que o papa propusera ao Duce na semana anterior.

Dos três pontos do acordo, o primeiro tratava dos judeus, e os demais da Ação Católica. O ponto dois assegurava que a Ação Católica teria permissão para continuar suas atividades de forma plena, sem ser admoestada, e que os membros da Ação Católica que tiveram cancelada a filiação ao Partido Fascista voltariam a ser membros. No ponto três Mussolini aceitava a exigência do papa de demitir o chefe do partido em Bérgamo.

O acordo do padre Tacchi Venturi com Mussolini sobre o tratamento dos judeus era enunciado em detalhes no ponto um, sob o título “O problema do racismo e do judaísmo”. Mussolini prometia que as novas leis judaicas não seriam mais severas do que as que os papas haviam imposto durante séculos aos judeus. Na verdade, algumas restrições aplicadas pelos papas nos Estados Papais seriam especificamente excluídas. Dizia o texto:

 

Com relação aos judeus, os solidéus distintivos — de qualquer cor

— não serão trazidos de volta, nem os guetos, menos ainda seus

bens serão confiscados. Os judeus, numa palavra, podem estar

certos de que não serão submetidos a tratamento pior do que o que

lhes foi dispensado durante séculos e séculos pelos papas que os

receberam na Cidade Eterna e nas terras do seu domínio temporal.

Era o sonho dos jesuítas de La Civiltà Cattolica, compartilhado por Tacchi Venturi e pelo superior geral jesuíta. Os judeus enfim estariam sujeitos a restrições destinadas a proteger a sociedade cristã de sua nociva influência. A revista não oficial do Vaticano tinha recomendado essas medidas a governos europeus durante décadas.

Em troca da promessa de Mussolini de ficar dentro dos limites das restrições aos judeus apoiadas pela Igreja, a Santa Sé se comprometia a não criticar as iminentes leis antissemitas, como declarava o terceiro e último parágrafo da seção:

 

Tendo dito isso [ou seja, que as restrições aos judeus não seriam

piores do que as impostas nos Estados Papais], é do intenso desejo

do Honrado Chefe do Governo que a imprensa católica, os

sacerdotes, os pregadores católicos e similares se abstenham de

discutir o tópico em público. A Santa Sé, e o Sumo Pontífice, não

carecem de meios para se entenderem diretamente com Mussolini

por vias privadas e lhe apresentarem as observações que julgarem

oportunas para a melhor solução do delicado problema. 14

 

Tacchi Venturi ficou satisfeito. O acordo fazia lembrar a última vez em que o papa e Mussolini tinham trocado ameaças, em 1931. Naquela ocasião também uma ruptura parecia perigosamente iminente. Depois que outros fracassaram, ele foi chamado e negociou uma saída amigável com Mussolini, assinando em nome do papa. Desta vez também a ameaça fascista contra a Ação Católica foi evitada.

Na mesma semana o jornal do Vaticano deu seu palpite sobre a necessidade de uma ação do governo contra os judeus. L’Osservatore Romano lembrou que, ao longo dos séculos, os papas tinham restringido os direitos dos judeus a fim de proteger os cristãos. Num trecho que seria reproduzido prontamente por jornais em toda a Itália, o diário explicava que, apesar de os papas sempre terem demonstrado compaixão no trato com os judeus, isso não deveria ser mal-interpretado:

 

Mas — para esclarecer as coisas — isso não significa que os judeus

possam abusar da hospitalidade dos países cristãos. Juntamente com

medidas protetoras houve decretos de restrição e perseguição em

relação a eles. Nisso o governante civil estava de acordo com a

Igreja (...) Enquanto os cristãos eram proibidos de obrigar os judeus

a adotarem a religião católica, de perturbar suas sinagogas, seus

sabás e seus dias de festa, os judeus, por sua vez, eram proibidos de

exercer cargos públicos, civis ou militares, e a proibição se estendia

aos filhos de judeus convertidos. Essas precauções diziam respeito a

atividades profissionais, ao ensino e até mesmo ao comércio. 15

 

Dessa forma o jornal do Vaticano ofereceu um modelo das leis antissemitas que Mussolini poria em vigor menos de três semanas depois.

Na manhã de quinta-feira, 18 de agosto, Tacchi Venturi foi a Castel Gandolfo mostrar o acordo ao papa. Sabia que era preciso tratar o pontífice com o maior cuidado — a raiva de Pio poderia explodir a qualquer momento. Mas o jesuíta sabia também que, se dispusesse de tempo, em geral era possível achar um jeito de obter o apoio papal, ou pelo menos de garantir que o pontífice concordasse.

Como se veria, ele tinha boas razões para temer a ira do papa. Tardini, que se juntou a eles no estúdio de Pio poucos minutos depois das onze horas, percebeu a tensão. Havia qualquer coisa de errado, ele só não sabia o quê.

Na volta para o Vaticano, Tacchi Venturi mostrou a Tardini o acordo e disse que o papa ficara aborrecido com o primeiro dos três pontos, que dizia respeito aos judeus. “Quidquid recipitur pro modum recipientis recipitur”, disse Venturi. A frase, identificada com a filosofia cristã medieval, podia ser traduzida como: “Cada um assimila à sua maneira aquilo que recebe.” Pio, queixou-se o jesuíta, insistia em ver as coisas através de lentes sombrias. Parecia ter ficado irritado em especial com a referência explícita do acordo à forma como os papas tratavam os judeus no passado. Embora tivesse usado o mesmo argumento em sua comunicação anterior com o Duce a respeito dos judeus, não queria identificar o que Mussolini estava

prestes a fazer com as ações dos papas que vieram antes dele. 16

Apesar da explosão de ira de Pio XI, Tacchi Venturi disse a Tardini que esperava que o papa se acalmasse e percebesse que o acordo era bom para a Igreja. Tinha mostrado o rascunho ao cardeal Pizzardo, na sala de espera do escritório do pontífice; esperava que Pizzardo o ajudasse a

convencer Pio a aceitar o pacto.17

Tanto Mussolini quanto os que cercavam o papa estavam ansiosos para que um acordo fosse assinado. Em cartas ao seu primeiro-ministro, o embaixador francês Charles-Roux informou que a polêmica sobre a campanha racial perdia força; a Ação Católica era o pomo de discórdia que ainda restava. “Quanto ao antissemitismo”, escreveu o embaixador, “a tática empregada pelo governo italiano é hábil, e só deixa ao Vaticano a opção de calar.” Os jornais italianos estavam repletos de artigos explicando como os papas, quando tinham poder temporal, haviam discriminado os judeus. Em 17 de agosto, vários jornais publicaram artigos sob o título “Como os papas tratavam os judeus”, citando a

reportagem saída no começo da semana em L’Osservatore Romano. 18 No dia em que Mussolini e Tacchi Venturi minutaram o acordo, Dino Alfieri, ministro da Cultura Popular, convocou os diretores dos jornais de Roma e os correspondentes dos outros jornais italianos. Sua mensagem: baixem o tom das polêmicas com o Vaticano, porque “parece que tudo

está sendo resolvido”. 19

Espalhou-se entre os jornalistas próximos ao Vaticano a notícia de que Tacchi Venturi e Mussolini se aproximavam de um acordo. Enquanto isso, Achille Starace, chefe do Partido Fascista, e Lamberto Vignoli, chefe da Ação Católica, tiveram um encontro para checar os pontos dois e três

do acordo. 20

Em 20 de agosto, o New York Times noticiou o pacto na primeira página. “A tensão entre o Vaticano e o Partido Fascista em torno das associações da Ação Católica, que nas últimas semanas a imprensa italiana acusou de serem hostis às doutrinas raciais da Itália, foi aliviada hoje com o anúncio de que Achille Starace, secretário do Partido Fascista, e Lamberto Vignoli, presidente da Ação Católica italiana, chegaram a um entendimento que coloca suas relações na base dos acordos de setembro de 1931.” O repórter do Times soubera, embora de maneira muito vaga, do pacto secreto no cerne do acordo. Em troca da promessa do Duce de que deixaria a Ação Católica em paz, o Vaticano concordaria com a iminente ofensiva antissemita do regime: “Como resultado das conversas entre Mussolini e o padre Tacchi Venturi, a Ação Católica se comprometeu a não exercer qualquer atividade que possa ser interpretada como hostil à política racial da Itália. Em troca, o partido fascista deu garantias de que medidas retaliativas não seriam tomadas contra membros

do partido que também pertencessem à Ação Católica.”21

Em 21 de agosto, Il Messaggero, de Roma, publicou seu próprio relato do perto sob a manchete “Acordos confirmados entre partido e Ação Católica”. Noticiava o encontro de Starace com Vignoli e o acordo resultante. Descrevia, com precisão, o entendimento que Mussolini alcançara com Tacchi Venturi sobre a Ação Católica: desde que respeitasse os termos da concordata de 1931 e limitasse suas atividades à esfera religiosa, a organização teria liberdade de operar sem ser molestada. Mas, diferentemente do jornal americano, os jornais italianos não fizeram qualquer menção ao que Mussolini esperava do papa em retribuição.

Pio XI retardou o anúncio do acordo pelo Vaticano, buscando mais garantias de que membros da Ação Católica expulsos do Partido Fascista teriam sua filiação restaurada. Depois de novos encontros entre Tacchi Venturi e o Duce, o papa enfim se deu por satisfeito. O jornal do Vaticano noticiou o acordo em 25 de agosto. O conflito em torno da Ação Católica estava resolvido. Mais uma vez, nenhuma menção ao acordo envolvendo o apoio do Vaticano à campanha antissemita de

Mussolini.22

Incentivado pelos conselheiros, o papa aos poucos fez as pazes com o acordo que Tacchi Venturi costurara com Mussolini. Mas continuava insatisfeito com a amizade entre o Duce e Hitler e a aceitação pelo ditador de uma ideologia racial que lhe soava anticristã. Enquanto a imprensa mundial publicava a notícia do acordo, o pontífice, em particular, manifestava sua raiva. “Mande Tacchi Venturi dizer a Mussolini”, disse o papa ao secretário de Estado, “que, se sua intenção é matar o Santo Padre, os métodos que está usando são eficaz.” E acrescentou outra ameaça. Antes de morrer, faria “o mundo saber como a

religião católica e o Santo Padre eram tratados na Itália”. 23

Em público, Pio se tornou mais circunspecto, mas alguns sinais de contínua inquietação transpareciam em seus comentários. Numa palestra para estudantes no edifício da Universidade para a Propagação da Fé em Castel Gandolfo, o papa voltou ao assunto do “nacionalismo exagerado”. O vice de Pignatti, Carlo Fecia di Cossatto, que deu a notícia (Pignatti em tese estava ausente para as férias de agosto), achava que não era coincidência o fato de o pontífice discursar para o mesmo público ao qual tinha falado quando fizera os controvertidos comentários de 28 de julho sobre a nova política racial de Mussolini. Mas dessa vez as palavras do pontífice foram mais prudentes. Como resultado das críticas que recebera, disse o diplomata, o papa “pôs um pouco de água no vinho”. Embora houvesse espaço para “um nacionalismo justo, moderado, associado a todas as virtudes”, disse o Pio, havia também uma forma doentia, um “nacionalismo exagerado”, que lhe parecia “uma verdadeira maldição”. Cossato ficou satisfeito com o tom dos comentários do papa: “A preocupação de suavizar a má impressão causada pelo discurso de 28 de

julho me parece clara.”24

Mussolini, sensível a qualquer insinuação de crítica, não ficou tão

contente.25 “Diferentemente do que se supõe”, disse ele a Ciano, “sou um homem paciente. Mas é bom que não me obriguem a perder a paciência, do contrário reajo destruindo tudo à vista. Se o papa continuar a falar, raspo a camada de clericalismo dos italianos e, num piscar de olhos, faço com que se tornem anticlericais.” Pio estava muito enganado se achava que os italianos eram mais devotados a ele do que ao Duce. “Os homens do Vaticano”, disse ao genro, “são insensíveis e mumificados. A fé religiosa está em declínio: ninguém acredita num Deus que cuida do nosso sofrimento.” E, com boa dose de blasfêmia, acrescentou: “Eu teria desprezo por um Deus que se interessasse pela vida particular do guarda da esquina da Via del Corso.”

Enquanto os que cercavam o papa tentavam convertê-lo às suas opiniões, do outro lado do Tibre Ciano tentava acalmar o sogro. “Na difícil situação internacional”, escreveu ele em seu diário em 22 de

agosto, “um conflito com a Igreja não será benéfico para ninguém.”26

Pressionando ainda mais o pontífice, os jornais italianos continuaram a apresentar a nova campanha fascista como se ela nada mais fosse do que colocar em vigor os ensinamentos tradicionais da Igreja a respeito dos judeus. Em 24 de agosto, uma reportagem do Giornale d’Italia — o jornal que publicara o manifesto racial em primeira mão — recordou a decisão de Pio XI, dez anos antes, de suprimir os Amigos de Israel porque se opunha ao ensinamento da Igreja segundo o qual os judeus eram “pérfidos”. O notoriamente antissemita Il Tevere publicou uma reportagem naquele dia com título idêntico, “A Igreja e os judeus”; o uso do mesmo título em vários jornais era sinal seguro de que o governo tinha plantado as reportagens. “Em todas as épocas”, informou o jornal, “os papas buscaram erguer barreiras às atividades dos judeus, para isolá-los, como se faz com uma epidemia.” Os pontífices tinham tomado medidas mais severas contra os judeus do que as que o regime fascista estava estudando, pois eles tentavam “proteger seus súditos da diabólica influência moral dos judeus”. Depois de ouvir dezenas de cônegos da Igreja advertirem contra a ameaça judaica, concluía o artigo, “a raça

italiana quer se purificar para sempre desse povo pérfido e estrangeiro”.27

O papa mandou o núncio falar com Ciano sobre a persistente tensão. Ciano descreveu o encontro, realizado no fim de agosto, em seu diário:

 

Borgongini Duca, por ordem do papa, veio discutir o anúncio que,

pelo menos por ora, encerrará o conflito entre o partido e a Ação

Católica. Eu o pressionei um pouco, e ele se abriu para falar sobre

o papa. Diz que tem uma personalidade horrível, é autoritário e

quase insolente. No Vaticano, todos morrem de medo dele. O

próprio Borgongini treme ao entrar na sala do pontífice. Ele trata a

todos com arrogância: mesmo os cardeais mais distintos. O cardeal

Pacelli, por exemplo, quando é chamado pelo papa, é obrigado,

como qualquer secretariozinho, a anotar as instruções que lhe são

ditadas. O papa está outra vez em bom estado de saúde. Come

frutas cozidas e um pouco de carne. Bebe vinho tinto em

quantidades limitadas e se exercita o suficiente no jardim. Tem

oitenta e dois anos e ainda dirige o governo da Igreja até os

mínimos detalhes.28

 

O governo estava preparando uma maciça propaganda antissemita,

baseada principalmente em sua revista quinzenal, La Difesa della Razza. 29 Fotografias adulteradas e ilustrações grotescas enchiam suas páginas, narrando a degeneração de judeus e africanos. O primeiro número publicou a imagem do rosto de um homem, de perfil, o nariz enorme curvado para baixo encostando nos lábios grossos. A legenda dizia: “Fotografia típica de um judeu, mostrando com clareza as características

de sua raça.” 30 O retrato que a revista pintava da ameaça judaica coincidia com o das páginas de La Civiltà Cattolica, aprovadas pelo Vaticano, com a adição de uma lenga-lenga pseudocientífica à qual os títulos acadêmicos

do autor davam um verniz de respeitabilidade.31 Os judeus estavam por trás do comunismo e do capitalismo; eram ensinados pelo Talmude a odiar todos os cristãos e a mandar neles; não eram leais ao país em que viviam; conspiravam em segredo contra a Igreja e o fascismo. Uma das reportagens no primeiro número de La Difesa della Razza trazia o título “Cinquenta anos de polêmica em La Civiltà Cattolica” e concluía que “não há incompatibilidade entre a doutrina da Igreja e o racismo, tal

como tem sido manifestado na Itália”. 32

Pignatti, voltando de suas férias de verão no fim de agosto, ficou aliviado ao saber que os comentários do papa à sua mais recente plateia tinham sido inofensivos. Embora Pio XI tivesse tocado de passagem na questão do racismo, nada do que dissera pareceu questionável para o embaixador italiano. Mas Pignatti continuava apreensivo. “Tudo que se pode esperar”, disse ele a Ciano, “é que o papa pare de falar. Com essa

sua mania de falar (...) sempre tememos o pior.” 33