O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 6 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo três

 

O ABRAÇO FATAL

 

Se o cardeal Gasparri e o cardeal De Lai esperavam que o novo papa fosse como uma massa a ser moldada em suas mãos, devem ter tido uma grande decepção. Pio XI não seria um papa fraco. O amor à ordem e o profundo senso de obediência à autoridade logo deram a tônica do seu reinado. “Ele usa sua mitra até quando vai para a cama”, brincou um dos padres do Vaticano. Fazia questão de que suas ordens fossem cumpridas “não imediatamente, e sim mais do que imediatamente”, como gostava de dizer. Não tinha a menor compaixão com clérigos que lhe pediam para ser isentados de alguma das muitas proibições da lei canônica. “As leis existem para serem obedecidas”, afirmava. O prelado francês Eugène Tisserant, que conhecia Ratti desde quando ele era bibliotecário em Milão, viu uma mudança notável. Tinham sido muito íntimos, e Tisserant vira o lado mais gaiato de Ratti. Em 1918, quando o francês, de licença do Exército, visitou-o na Biblioteca do Vaticano, Ratti o apresentou a Bento XV dizendo: “Santo Padre, este é o meu adido militar.” Mas já não parecia o mesmo homem. Ele estava “tão empolgado pela grandiosidade do novo cargo”, observou Tisserant, “que nos parecia

extraordinariamente distante”.1

O apego do novo pontífice ao protocolo ficou claro na primeira audiência que concedeu ao corpo diplomático, duas semanas depois da eleição. Quando os embaixadores e delegados chegaram à Santa Sé, acompanhados de numerosos assistentes, descobriram que o trono papal ficava do outro lado do vasto salão, com apenas seis cadeiras dispostas diante dele. Só os embaixadores, gozando de pleno status diplomático,

tiveram permissão para sentar; o resto ficou em pé.2

Ratti tinha um senso tão desenvolvido da dignidade do trono papal que mantinha seus próprios parentes afastados. O modesto Pio X, ao se tornar papa em 1903, levara para Roma as duas irmãs solteiras, instalando-as num pequeno apartamento em cima de uma loja perto da praça de São Pedro. Elas o visitavam assiduamente para bater papo, bebericar vinho e rezar o rosário juntos. Ratti tinha sido muito chegado aos irmãos, mas, como papa, só os via se marcassem audiência com seu secretário e aguardassem na sala de espera. Nessas ocasiões, fazia questão de que o irmão o chamasse de “Santo Padre” e “Vossa Santidade”. Deixava claro que não queria que essas visitas fossem muito frequentes, pois era o pai de uma família muito maior, que exigia sua atenção. Anos depois, quando o pontífice jazia mortalmente doente, a irmã mais velha suplicou que a deixassem ficar ao lado da cama para confortá-lo, mas foi

barrada.3

Embora o novo papa enfurecesse os zelanti por permanecer fiel à promessa de nomear Gasparri secretário de Estado, a ala modernista da Igreja também não demonstrou muito entusiasmo. O fato de ter decidido honrar Pio IX e Pio X ao escolher seu nome lhes parecia um sinal aziago. Num momento de grande tensão internacional, escreveu um comentarista em Roma, necessitava-se de algo mais do que “a estreiteza mental de um paleógrafo que passou décadas trancado nas salas empoeiradas da Ambrosiana e do Vaticano”. O enviado britânico à Santa Sé também não foi nem um pouco convencido por Ratti. Escreveu que o novo papa causava nos interlocutores a impressão de ser um professor pedante. “Basta trocar o solidéu e a batina pelo capelo e pela beca e temos o nosso diretor de escola, tal como representado nas histórias de estudantes da era vitoriana.” O embaixador, acrescentou que não se podia negar que o novo papa era cordial, mas parecia ver todos os leigos como crianças que precisavam aprender e não como pessoas adultas com quem poderia aprender alguma coisa. Com a Europa convulsionada por ameaças de revolução e a velha ordem em frangalhos na Itália, seria

aquele o homem capaz de enfrentar os desafios que vinham pela frente?4

O novo pontífice cercou-se de funcionários em quem confiava, levando para Roma muitos de seus assistentes em Milão. Para cuidar das suas acomodações e da cozinha, designou Teodolinda Banfi, conhecida simplesmente como Linda: ela já o acompanhava havia trinta e seis anos,

tendo, antes disso, trabalhado catorze anos para a mãe dele. 5 Também convocou o jovem padre milanês Carlo Confalonieri para servir como seu secretário particular, além de outro assistente de Milão, Diego Venini, e um homem de nome curioso, Giovanni Malvestiti (Malvestiti significa

literalmente “malvestido”), para cuidar do seu guarda-roupa. 6 Apesar de ter gostos simples, Ratti adorava a comida de Linda. Em 1926, quando decidiu aposentá-la, avisou aos franciscanos alemães que deveriam substituí-la: “Não quero ter que lembrar vocês: precisão alemã, silêncio

alemão, mas nada de cozinha alemã.”7

Às seis da manhã o despertador o acordava. Depois de fazer as primeiras orações, ele celebrava uma missa em sua capela particular, seguida por um leve desjejum. Seu apartamento, formado por três

cômodos no quarto andar, 8 ficava na ala esquerda do palácio Apostólico, o prédio em forma de U que envolve o pátio de São Dâmaso. Empoleirado sobre as colunas de Bernini, o cômodo dava diretamente para a praça de São Pedro. O quarto de dormir era simples, não muito diferente do dormitório de um pároco de aldeia, com uma cama de estrutura de bronze e uma cômoda antiquada coberta com toalha de mesa. Nas paredes ele pendurou fotografias dos pais e do irmão, além de quadros religiosos.

Depois do café da manhã, o papa descia um andar até o seu escritório — ou, como ele preferia dizer, sua “biblioteca” —, onde começava o dia lendo a correspondência e os jornais italianos, alemães, franceses, britânicos e americanos. Era uma sala grande, com pouca mobília e apenas um pequeno tapete embaixo da escrivaninha. Algumas pinturas antigas pendiam das paredes. O papa sentava-se numa trabalhada cadeira Luís XV, a escrivaninha coberta por pilhas de livros e um grande crucifixo, além de uma bússola e um barômetro, testemunhos de sua nostalgia pelas expedições alpinas. Três janelas, com as cortinas abertas durante o dia para deixar o sol entrar, davam para a praça de São Pedro atrás dele. As visitas que adentravam o escritório viam a silhueta de uma figura branca contra a luz solar sentada atrás da escrivaninha. Havia cadeiras em frente à mesa. Um dos poucos toques pessoais que o papa se permitia era um suporte para livros, no qual mantinha sempre aberto um

dos seus volumes favoritos.9

Pio XI iniciava sua ronda diária de encontros às nove da manhã, em geral com o secretário de Estado. Quando entravam, os visitantes se ajoelhavam sobre uma das pernas, muitas das quais já estavam trêmulas de antemão, pois raramente alguém ficava à vontade na presença do papa, por causa de sua natureza autoritária, seus modos bruscos e sua insistência em que suas ordens fossem obedecidas ao pé da letra. Em seguida, as pessoas se levantavam, davam dois passos e se curvavam outra vez, antes de avançar os dois passos finais e fazer uma terceira genuflexão. Por causa do espaço apertado e do nervosismo, alguns tropeçavam. Luigi Sincero, um dos cardeais mais graduados, comentou que se aprontar para ver o papa era como preparar-se para um exame nos tempos de estudante. Outros altos prelados admitiam recitar preces, nervosos, quando atravessavam a soleira da porta. Ao saírem, os visitantes mais uma vez dobravam um dos joelhos e repetiam as três vênias iniciais, agora de

costas, enquanto recuavam.10

5. Pio XI em sua escrivaninha, 1922

 

Quando o último visitante da manhã saía, o que dificilmente acontecia antes das duas da tarde, o papa ia almoçar. Adorava risoto ao estilo milanês, com açafrão, ou uma espessa sopa italiana de vegetais e um pedaço de carne com vegetais cozidos, com frutas em seguida. Bebia meia taça de vinho e vários copos de água. Talvez não houvesse reflexo mais revelador da sua ideia da dignidade pontifícia do que a insistência em jantar sozinho. Enquanto Pio X e Bento XV faziam as refeições com seus assistentes ou chamavam convidados especiais para os acompanharem, Pio XI não permitia que ninguém comesse em sua presença, embora fizesse os ajudantes ficarem em pé ao seu lado enquanto examinava relatórios e redigia ordens. Um dia, poucas semanas depois de sua eleição, seus cansados assistentes, desanimados com a perspectiva de ficarem anos em pé enquanto o papa comia, mas temerosos de dizerem qualquer coisa, sub-repticiamente levaram pequenos tamboretes e os puseram junto à parede. Quando terminaram seus relatórios, sentaram-se. Surpreso, o papa levantou os olhos do prato, mas nada disse. Os

tamboretes ficaram. 11

Depois de uma sesta, às quatro da tarde, o pontífice saía para o pátio, onde guardas suíços que já o aguardavam ajoelhavam-se, mão direita na

boina, mão esquerda segurando a alabarda.12 Naquelas primeiras semanas, um cocheiro idoso sentava-se com um longo chicote na mão direita, empoleirado em uma carruagem com dois belos cavalos negros. Em poucos meses, a carruagem foi substituída pelo primeiro automóvel do papa. Depois de uma volta de carro, o pontífice fazia uma caminhada de uma hora pelos jardins do Vaticano, geralmente com as mãos nas costas, chapéu de feltro preto sobre o solidéu branco na cabeça. Em dias mais frescos, usava um casaco branco trespassado que chegava aos pés. Não eram passeios vagarosos, mas marchas resolutas, condizentes com o “papa alpinista”, que o levavam a circular repetidas vezes pelos jardins. Um ajudante, usando uma batina preta longa e colarinho clerical, esforçava-se para acompanhá-lo, vários passos atrás.

Finda a caminhada, Pio XI dedicava uma hora a preces particulares antes de retornar ao escritório. Às seis ou sete, iniciava uma nova rodada de encontros, basicamente com membros da Cúria, a administração central da Santa Sé. Depois do último compromisso, rezava o rosário com os secretários. Ceava às dez. A última coisa que fazia antes de dormir era voltar ao escritório e pegar um sólido livro de registros encadernado. Ali anotava todos os presentes que tinha recebido durante o dia e todas as

despesas em que incorrera. À meia-noite, ia para a cama. 13

6. Pio XI durante sua caminhada pelos jardins do Vaticano, acompanhado pelo monsenhor

 

Carlo Confalonieri

 

* * *

 

NAQUELES ANOS, ROMA era um exemplo de contrastes, com o antigo e o medieval chocando-se com o moderno em sua fase inicial. Depois que tropas italianas tomaram a cidade, em 1870, o cenário social se transformou. Mosteiros foram convertidos em prédios governamentais e escolas. Homens do norte afluíam à cidade para assumir cargos públicos na nova capital da Itália, e camponeses empobrecidos do centro e do sul chegavam em carros de boi com tudo o que possuíam. A população crescente de funcionários públicos e empregados da construção civil criava novas oportunidade de trabalho.

Embora a Igreja não governasse mais a cidade, Roma ainda parecia ter um templo católico em cada esquina. Padres de batina negra, freiras de hábito, dominicanos tonsurados com seus mantos brancos, franciscanos de batina marrom, seminaristas católicos gregos de sotainas azuis e faixas vermelhas e um caleidoscópio de eclesiásticos de todos os tipos congestionavam as ruas da cidade. Carabinieri (policiais) de chapéu napoleônico e uma faixa vermelha na calça se misturavam a soldados e policiais. Babás a quem a classe média confiava seus bebês tentavam abrir caminho com seus pequenos encargos nas ruas movimentadas.

Ainda que os romanos ficassem impressionados com tudo o que fosse novidade — como o bonde elétrico, cujos trilhos cruzavam as ruas de paralelepípedo, e os automóveis que começavam a invadir as ruas incrivelmente estreitas, sinuosas e irregulares —, havia sinais abundantes de que a Itália era um país majoritariamente formado por camponeses semianalfabetos. Carroças cheias de vinho desciam da zona rural para entregar produtos às muitas osterie da cidade. Placas nos restaurantes mais elegantes prometiam vini scelti e ottima cucina. Ao lado deles, lojas mais modestas anunciavam simplesmente pane e pasta. Pequenas mercearias, que ostentavam uma profusão de cores graças aos estoques de frutas e hortaliças, ladeavam as ruas, com as minúsculas instalações servindo também como alojamento para os proprietários. No começo da primavera, pequenos tomates do tamanho de uvas chegavam do sul. Verdureiros arrumavam cenouras, nabos e brócolis junto à porta dos estabelecimentos, de modo quase artístico. Os romanos também costumavam fazer compras nas feiras que brotavam todas as manhãs nas pequenas piazze da cidade. Nelas, os feirantes montavam surpreendentes pirâmides de laranjas, maçãs e figos brancos. Vendedores de massas erguiam montes de macarrão e espaguete recém-fabricados. Galinhas depenadas, penduradas pelos pés, balançavam nos toldos das barracas. Fileiras de peixes reluzentes e densamente acomodados atraíam aqueles que tinham condições de comprá-los.

Os mercados maiores, com as barracas protegidas do sol e da chuva por grandes guarda-sóis, atraíam uma grande variedade de fregueses. Mordomos de príncipes, com seus casacos de pele, acotovelavam-se com mulheres pobres de xales tricotados. Depois de regatear o preço, as senhoras acomodavam as modestas compras em grandes lenços quadriculados. Floristas equilibravam imensos cestos transbordantes de asfódelos, mimosas, cravos e violetas na cabeça. Outros ambulantes cantavam as virtudes de sua mistura heterogênea de roupas, facas de bolso e cebolas, tudo pendurado nos ombros ou transportado em bandejas presas ao pescoço.

Aqui e ali, um homem de figura distinta e bem vestida podia ser visto sentado a uma mesa no meio de uma pequena piazza. Em bancos arrumados à sua volta, seus fregueses — na maioria homens e mulheres de idade — aguardavam a vez. Na mesa ele tinha um tinteiro, algumas folhas de papel e um mata-borrão. Escrevia cartas e preenchia formulários para os analfabetos. Os padres sabiam em que ruas ficavam as lojas que vendiam vestes clericais. Seminaristas sabiam onde encontrar quiosques de livros usados. Turistas consultavam seus guias de viagem para localizar as barracas que vendiam antiguidades e joias, nem todas necessariamente falsas. De vez em quando, senhoras de idade paravam numa igrejinha modesta em uma rua secundária para fazer uma prece à desbotada imagem da Madona com o Menino Jesus que adornava a parede de estuque.

Mulas e burros carregavam tijolos e barris, borlas vermelhas pendentes dos arreios e panos escarlates sobre o dorso. Roupas lavadas eram penduradas em cordas que se estendiam de um lado a outro das ruas estreitas. Sapateiros martelavam calçados e cortadores de pedra lascavam seu material em lojinhas minúsculas e escuras. Mulheres gritavam das janelas barganhando com vendedores ambulantes que passavam pelas ruas, em seguida depositavam o dinheiro numa cesta, que descia por uma corda. O ambulante, por sua vez, colocava os produtos e o troco para a viagem de volta. Quando o sol escaldante dava lugar às nuvens e ao aguaceiro, Roma explodia em guarda-chuvas, dos verdes esfarrapados dos catadores de lixo aos negros reluzentes, segurados sobre a elite da cidade por criados de libré. Fora os automóveis, que não precisavam desse objeto, praticamente todos os veículos abriam seus guarda-chuvas. “Há poucas silhuetas mais grotescas em Roma do que os cocheiros, com seus cansados cavalos de pescoço fino e suas periclitantes vitórias, encolhidos debaixo de guarda-chuvas que lembram cogumelos velhos”, escreveu um

observador no início do século.14

O papa não via nada disso, pois nunca se aventurava para além dos muros do Vaticano. Durante décadas, todos os pontífices padeceram a ignomínia de viver num minúsculo pedaço de terra cercado pelo mesmo país que tomara os territórios da Igreja e reduzira drasticamente o seu poder político. A vizinhança do lado de fora dos domínios eclesiásticos, espremida entre os palácios do Vaticano e o Tibre, retinha qualquer coisa do cheiro, do barulho e da atmosfera do antigo regime, uma confusão maltrapilha e superpovoada de pequenas ruas e becos. Só quando os visitantes seguiam para o oeste, pelas ruas estreitas, repletas de vendedores de suvenires sagrados, a magnificência da basílica de São Pedro e da

colunata de Bernini aparecia de repente. 15

 

* * *

 

A DECISÃO DO papa de considerar a possibilidade de apoiar Mussolini surpreendeu muita gente na Igreja. Ninguém ficou mais constrangido do que o padre Enrico Rosa, editor de La Civiltà Cattolica, que, até que Mussolini chegasse ao poder, usara as páginas do jornal para denunciar o fascismo como um dos piores inimigos da Igreja. Dias antes da Marcha sobre Roma, Rosa tinha advertido que o movimento fascista era “violento e anticristão, encabeçado por homens sinistros (...) o esforço falido do velho liberalismo, de maçons, proprietários de terras, industriais

ricos, jornalistas, políticos insignificantes e coisas do gênero”.16

La Civiltà Cattolica foi fundado em 1850, pouco depois do retorno do papa Pio IX a Roma após o exílio a que tinha sido forçado pelo levante de 1848. Duas vezes por mês, o editor levava as provas da edição seguinte ao escritório do secretário de Estado do Vaticano, para aprovação

prévia. 17

Rosa, de cinquenta e dois anos, ingressara na cooperativa editorial jesuíta dezessete anos antes e, em 1915, fora designado chefe do periódico pelo papa Bento XV. Apesar de sua experiência, por alguma razão o editor não percebeu os sinais da mudança de curso de Pio XI. Ao ler a última tirada antifascista de Rosa, o superior geral da Companhia de Jesus, homem para quem o fascismo se mostraria particularmente

agradável, ficou furioso e instruiu o jornalista a mudar de tom.18 Pior ainda: Rosa soube que o papa também havia mudado de opinião. O papa viu em Mussolini algo que lhe agradou. Apesar de todas as diferenças, os dois homens compartilhavam valores importantes: nenhum dos dois tinha qualquer simpatia pela democracia parlamentar; tampouco acreditavam na liberdade de expressão ou de associação. Viam o comunismo como uma

grave ameaça. 19 Achavam que a Itália estava atolada numa crise e que o sistema político vigente não tinha salvação.

Uma conversa entre o papa e o padre Agostino Gemelli — à época recente fundador da Universidade Católica de Milão e homem íntimo do pontífice — oferece um vislumbre da posição de Pio XI diante de Mussolini nas primeiras semanas do novo governo. “Elogio, não”, disse o papa a Gemelli. Mas “oposição abertamente organizada não é boa ideia, pois temos muitos interesses a proteger”. Era necessário ter cautela.

“Olhos abertos!”, aconselhou.20

Pio instruiu Rosa a descartar o artigo crítico sobre o fascismo que redigira para o número vindouro da sua publicação e, no lugar dele,

publicar um editorial mais amistoso.21 “Quando uma forma de governo é constituída de maneira legítima”, escreveu Rosa na nova versão, “muito embora tenha sido, a princípio, defeituosa ou mesmo questionável em vários sentidos (...) é nosso dever apoiá-la, pois a ordem pública e o bem comum assim o exigem. Nem é permissível, seja a indivíduos ou a partidos, tramar para derrotá-la, suplantá-la ou trocá-la recorrendo a

meios injustos.” 22

Embora La Civiltà Cattolica continuasse a denunciar episódios de violência fascista contra organizações da Igreja, nunca mais voltaria a denunciar Mussolini ou o fascismo. Pelo contrário: trabalharia pelos interesses do Vaticano de legitimar o movimento aos olhos de todo bom

católico, na Itália e no resto do mundo.23

 

* * *

 

AS RECÉM-DESCOBERTAS ESPERANÇAS do papa em Mussolini ganharam novo impulso quando o primeiro-ministro concluiu seu discurso de estreia no parlamento pedindo a ajuda de Deus. Desde a fundação da Itália moderna, nenhum chefe de governo italiano tinha deixado escapar a palavra Deus. O secretário de Estado Gasparri também via motivo para ter esperança. “A Providência usa estranhos instrumentos para trazer boa sorte à Itália”, disse ele ao embaixador belga. Mussolini não só era um “notável organizador”, mas também tinha “um grande caráter”. Abafando o riso, Gasparri acrescentou que estava claro que o novo primeiro-ministro nada sabia de religião: Mussolini achava que todos os

feriados católicos caíam no domingo.24

Em dezembro de 1922, Pio XI estabeleceu as metas do seu papado na

primeira encíclica de sua autoria, Urbi arcano.25 Nela, ele lamentava as tentativas de tirar Jesus Cristo das escolas e das salas do governo. Lastimava a falta de decoro das mulheres na “crescente imodéstia de seus trajes e suas conversas e na participação em danças vergonhosas”. Advertiu que a noção de que a sociedade avançava ao se afastar da Igreja era equivocada: “Em face do nosso muito louvado progresso, assistimos com tristeza à recaída lenta, mas certa, da sociedade num estado de barbárie.” Ressaltava a importância da obediência à autoridade apropriada e adotava o programa de Pio X de combate ao “modernismo”. Depreciava a recém-formada Liga das Nações, na qual muita gente da Europa depositava suas esperanças de paz: “Nenhuma instituição meramente humana de hoje poderá ter o mesmo êxito em conceber um conjunto de leis internacionais em harmonia com as condições mundiais que a Idade Média teve na posse da verdadeira Liga das Nações, o Cristianismo.” O plano do papa era criar o Reino de Cristo na terra. No

fundo, era uma visão medieval. 26

Enquanto isso, Mussolini rascunhava seu próprio plano autoritário. “Afirmo que a revolução tem seus direitos”, disse ele em seu discurso inaugural no parlamento. “Estou aqui para defender a revolução dos camisas-negras e dar a ela o máximo poder (...) Com três mil jovens armados em todo o país, prontos para qualquer coisa e quase misticamente preparados para cumprir minhas ordens, eu poderia punir todos aqueles que difamassem e tentassem macular o nome do

fascismo.”27

No fim de dezembro, Mussolini convocou a primeira reunião do Grande Conselho do Fascismo, responsável por tratar das mais importantes questões da política de governo e da organização partidária. No mês seguinte, o conselho aprovou a transformação das diversas milícias fascistas na Milícia Voluntária para a Segurança Nacional. Essas unidades tinham sido criadas pelos chefes fascistas locais; agora, Mussolini estava ansioso para tirar deles o controle. Diferentemente das Forças Armadas regulares, que juravam lealdade ao rei, os milicianos juravam

lealdade a Mussolini.28

Ele agiu com rapidez para cumprir suas promessas ao Vaticano, ansioso para mostrar que podia fazer o que o Partido Popular fora incapaz de realizar: restaurar os privilégios de que a Igreja desfrutava antes da unificação italiana. Mandou colocar crucifixos em todas as salas de aula do país, depois em todos os tribunais e quartos de hospital. Tornou crime insultar um padre ou falar mal da religião católica. Reconduziu os capelães católicos às unidades das Forças Armadas; concedeu subsídios estatais mais generosos a padres e bispos; e, para especial deleite do Vaticano, exigiu que a religião católica fosse ensinada nas escolas primárias. Inundou a Santa Sé de dinheiro, concedendo três milhões de liras para restaurar igrejas arruinadas durante a guerra e subsídios para escolas italianas administradas pelo clero no exterior. Em cidades grandes e pequenas de todo o país, no decorrer das muitas visitas triunfais de Mussolini, bispos e párocos locais eram incentivados a lhe pedirem dinheiro para reparos de suas instalações. No fim de 1923, para polir ainda mais as credenciais católicas do novo primeiro-ministro, ele, a mulher e os três filhos — Edda, Vittorio e Bruno — foram batizados. Rachele, mais coerente em sua fé anticlerical do que o marido, relutou muito. Criada no coração da vermelha Romanha rural, aprendera desde

cedo a desprezar os padres e a riqueza e o poder da Igreja.29

Muitos italianos e observadores estrangeiros não sabiam direito como reagir ao novo líder da Itália e ao seu violento movimento fascista, e a aprovação do Vaticano teve um papel importante na legitimação do novo regime. Em comentários amplamente citados, o cardeal Vincenzo Vannutelli, decano do Colégio de Cardeais, elogiou Mussolini como o homem “já aclamado por toda a Itália como reconstrutor do destino da

nação, de acordo com suas tradições religiosas e civis”.30

Mussolini queria cimentar o vínculo com o Vaticano em uma reunião com o secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Gasparri. Assim como Benito, Gasparri vinha de família humilde. “Nasci em 5 de maio de 1852, em Capovallazza, um dos vilarejos que formam a cidade de Ussita, no meio das montanhas Sibillini, cerca de setecentos e cinquenta metros acima do nível do mar. Ar limpo, vista encantadora, povo saudável, honesto, trabalhador, com famílias numerosas, e a família Gasparri era a mais prolífica de todas”, lembrava-se o cardeal em suas memórias datilografadas. Seus pais tiveram dez filhos. Como caçula, ele era o favorito natural. Os nove irmãos eram “especialmente robustos e cheios de energia”, refletia o religioso, “mas eu era frágil, adoentado, de modo que muitos até previam, e talvez desejassem, que minha vida fosse curta, para tristeza da Mamma”. Enquanto o pai passava noites dormindo no pasto com as ovelhas, o pequeno Pietro entretinha a família. Lia histórias de santos para os familiares, amontoados perto da lareira para se aquecer. Todos choravam juntos quando ele recontava as terríveis provações enfrentadas pelos mártires cristãos. “Mamãe tinha o dom das lágrimas,

transmitido para todos os filhos, em especial para mim.” 31

O encontro entre Gasparri e Mussolini teve que ser planejado com extremo cuidado, pois o secretário de Estado do Vaticano não poderia ser visto com o chefe do governo — a Santa Sé ainda não reconhecia a legitimidade da Itália. O encontro secreto foi organizado por Carlo Santucci, velho amigo do cardeal. Membro de uma família aristocrática íntima dos papas, ele fora um dos primeiros membros do Partido Popular a romper com a organização para apoiar os fascistas. Sua casa tinha uma característica valiosa: ficava num prédio de esquina com entradas por duas ruas.

Em 19 de janeiro, Mussolini chegou de carro com o chefe da Casa Civil, que ficou esperando do lado de fora. Mussolini entrou por uma porta, onde foi saudado pelo pai de Santucci; o cardeal entrou pela outra, onde foi recebido pela mãe do dono da casa.

7. Cardeal Pietro Gasparri, secretário de Estado do Vaticano, 1914-1930

 

Naquele dia, a principal preocupação de Gasparri não era se a Santa Sé estaria disposta a acabar com a democracia na Itália; afinal de contas, o Vaticano não tinha muito apreço por governos democráticos. O que mais o inquietava era saber se poderia confiar na promessa feita por Mussolini de restaurar a influência da Igreja na Itália e qual era a probabilidade de

ele, com o apoio do Vaticano, ser bem-sucedido.32

Para Mussolini — o antigo mangiaprete, ou come-padre, como era conhecido em seus primeiros anos —, havia muita coisa em jogo. Se pudesse ser o homem que restauraria a harmonia entre Igreja e Estado, se conseguisse a bênção papal para o seu governo e encerrasse o conflito, teria êxito onde seus antecessores haviam falhado. Seria um herói em todo o mundo católico.

Durante uma hora e meia, os dois homens conversaram a sós. Quando Gasparri saiu, parou para dizer a Santucci que estava muito feliz com o encontro, chamando Mussolini de “um homem de primeira ordem”. O líder fascista saiu às pressas pela outra porta sem dizer nada. No carro, o chefe da Casa Civil esperava ansioso para saber o que tinha acontecido. “Precisamos ser extremamente cuidadosos”, disse Mussolini, “pois esses homens eminentíssimos são muito espertos. Antes de avançarem mesmo em discussões preliminares, querem ter certeza de que o nosso governo é

estável.” 33

Os dois homens tomaram uma decisão naquele dia: concordaram em escolher um intermediário confidencial, uma pessoa em quem tanto o papa quanto Mussolini confiassem para transmitir suas mensagens nas questões mais sensíveis.

Até hoje não se sabe bem como foi que o velho jesuíta Pietro Tacchi

Venturi, de sessenta e um anos, veio a ser selecionado para a função. 34 Ele nasceu em 1861, numa família próspera da Itália central. O pai, advogado, conservava com orgulho o fuzil que havia usado em 1849 para ajudar a derrotar as forças de Garibaldi e retomar Roma para o papa. Pietro deu início muito cedo a seus estudos para ser sacerdote em Roma, então recém-anexada ao reino italiano. Em 1896, começou a escrever a história oficial da ordem jesuíta e passou boa parte das duas décadas seguintes realizando pesquisas que o levaram a bibliotecas, arquivos e mosteiros em toda a Europa. Publicou o primeiro volume em 1910. Durante a Grande Guerra, Włodzimierz Ledóchowski, o superior geral jesuíta, polonês do Império Austríaco, foi expulso da Itália como estrangeiro inimigo. Tacchi Venturi, que havia sido nomeado secretário geral da ordem em 1914, ficou encarregado das atividades jesuítas em

Roma.35

“Magro e severo”, segundo a descrição de um colega, Tacchi Venturi era a própria imagem do jesuíta austero. Sua calvície criava o efeito de uma face oval; quando visto de trás, suas orelhas pontudas projetavam-se a partir dos limites dos cabelos grisalhos. Trajando a batina preta e o

colarinho branco clerical, transmitia seriedade e vigor. 36

Achille Ratti conheceu o erudito jesuíta em 1899, quando uma das viagens de pesquisa de Tacchi Venturi o levou à Biblioteca

Ambrosiana.37 Aparentemente, Mussolini tinha ouvido falar dele através do irmão, Arnaldo, que fizera amizade com o jesuíta nos meses que

passava em Roma durante a guerra. 38 Então, pouco antes do encontro secreto com Gasparri, Mussolini conhecera Tacchi Venturi. Semanas depois de assumir o poder, Benito percebeu que uma das atitudes mais fáceis que poderia tomar para cair nas graças do papa seria dar a Biblioteca Chigi para o Vaticano. O governo havia comprado o palácio Chigi — na época, assim como hoje, a residência do primeiro-ministro — em 1918. Com o prédio tinha adquirido também a biblioteca particular que começara a ser formada no século XVII pelo papa Alexandre VII e guardava três mil manuscritos antigos e trinta mil livros. Achille Ratti, então bibliotecário do Vaticano, ficara sabendo que o governo estava comprando o prédio e tentara, sem êxito, adquirir a biblioteca. Em resposta à oferta de doação de Mussolini, o Vaticano mandou Tacchi Venturi avaliar a coleção. Ouvindo, certo dia, que o jesuíta estava no prédio, e talvez lembrando que o irmão tinha falado bem dele, Mussolini mandou-lhe um recado para que fosse ao seu gabinete. Aquele encontro, no fim de 1922, seria o primeiro de muitos entre o jesuíta e Mussolini

nas duas décadas seguintes. 39

As primeiras discussões contribuíram pouco para conter a violência fascista contra padres e ativistas católicos suspeitos de simpatizar com o Partido Popular. Três semanas depois de Mussolini se tornar primeiro-ministro, o bispo da cidade de Vicenza, no norte da Itália, denunciou publicamente os ataques mais recentes contra padres locais e declarou que

os agressores seriam excomungados.40 Em Ascoli Piceno, nas montanhas a leste de Roma, um bando fascista abordou um padre que editava um

jornal local e o obrigou a tomar um litro de óleo de rícino. 41

8. Pietro Tacchi Venturi, S. J.

 

 

Em dezembro, quarenta fascistas munidos de porretes invadiram uma reunião de um grupo de jovens católicos no terreno de uma igreja na cidade de Aosta, no noroeste do país, e quebraram portas e janelas, arrebentaram uma mesa de bilhar e atacaram a porrete o crucifixo e as imagens sagradas nas paredes. Quando um espectador indignado tentou

contê-los, eles lhe deram uma surra. 42 Naquela mesma semana, em Pádua, arruaceiros fascistas mandaram um adolescente tirar o crachá da juventude católica. Quando ele corajosamente se recusou, um deles lhe

encostou uma arma na cabeça enquanto outro arrancava o distintivo.43 E, numa noite de dezembro, perto de Vicenza, um carro parou na frente da sede do clube da juventude católica. Sete camisas-negras saltaram do veículo, armados de fuzis. Alguns ficaram do lado de fora, e três entraram na sala. Com suas armas, os homens ameaçaram os vinte jovens apavorados ali reunidos e lhes ordenaram que calassem a boca. Então, apontaram os fuzis para os dois padres que dirigiam a reunião, obrigando-

os a beber garrafas de óleo de rícino. 44 Durante todo o ano de 1923, esses ataques continuaram, registrados e lamentados sem muito destaque pelo jornal diário do Vaticano. Nos anos seguintes, durante os quais a violência viria à tona periodicamente, a imprensa católica passaria a repetir um mesmo refrão: os ataques eram obra de extremistas isolados,

sobre os quais Mussolini não tinha controle.45

Sedes locais da Ação Católica, criada por Pio X em 1905 para servir de estrutura ao laicismo católico, estavam entre os alvos mais frequentes

desses ataques.46 Nenhuma organização era mais cara a Pio XI, que adquiriu a reputação de ser “o papa da Ação Católica”. Homens e mulheres, meninos e meninas, cada um tinha o próprio grupo. Os universitários tinham uma unidade, separados em divisões independentes de acordo com a universidade. As atividades da Ação Católica eram, em teoria, religiosas e educacionais, mas iam muito além disso, pois o papa via seus membros como tropas terrestres para a recristianização da sociedade italiana, o que exigiria bem mais do que rezas e lições. Para vigiar de perto a organização, ele nomeou o monsenhor Giuseppe Pizzardo, secretário de Estado suplente e um dos dois subsecretários de Gasparri. A hierarquia da Igreja estaria no comando. “Vocês só precisam seguir os conselhos e as instruções que vêm de cima”, explicou o

pontífice a um grupo de líderes laicos da Ação Católica. 47

O papa estava insatisfeito e indignado com os ataques contra sacerdotes locais e clubes da Ação Católica. Mas Mussolini estava acostumado a tirar vantagem da violência e convenceu o pontífice de que era o único homem na Itália capaz de manter os arruaceiros sob controle. Quase todos os artigos de L’Osservatore Romano que noticiavam episódios de espancamento e administração de óleo de rícino terminavam com respeitosas súplicas a Mussolini para que os responsáveis fossem punidos. Em certas ocasiões, quando as reações locais eram particularmente intensas, o primeiro-ministro mandava prender alguns rufiões, mas era raro que os culpados fossem levados aos tribunais, e mais raro ainda que fossem condenados.

No começo de 1923, Mussolini tinha boas razões para achar que sua estratégia estava dando resultado. Um acordo com o papa ia tomando forma. Embora não abandonasse a violência que se mostrara tão eficaz para intimidar os adversários, ele não queria enfurecer Pio XI sem um motivo forte para tal. Continuou a restaurar privilégios de que a Igreja não desfrutava havia décadas. Em troca, precisava que o pontífice acabasse com a oposição católica que perdurava contra o seu governo.