O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 5 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo dois

 

A MARCHA SOBRE ROMA

 

Predappio, a pequena cidade da Romanha onde Benito Mussolini nasceu, fica a menos de trezentos e vinte quilômetros da terra natal de Achille Ratti na Lombardia. As experiências de infância dos dois não poderiam ter sido mais diferentes. O fato de Ratti ser mais rico não era o mais relevante, mas sim a diferença entre uma família conservadora, religiosa, e outra imersa nos entusiasmos insurrecionais da Romanha. Os heróis de Ratti eram santos e papas; os de Mussolini eram agitadores e revolucionários.

Achille Ratti já era um padre de vinte e seis anos quando Mussolini nasceu, em 1883. A Romanha era então o centro dos movimentos anarquista e socialista da Itália, e o pai de Benito, Alessandro, um ferreiro falastrão, pregava avidamente sua fé revolucionária para quem quisesse ouvir. Deu ao filho o mesmo nome de Benito Juárez, índio empobrecido que se tornou presidente do México, flagelo das potências coloniais da Europa e inimigo da Igreja. Batizou o filho mais novo de Arnaldo, em homenagem a Arnaldo de Bréscia, padre que encabeçara um levante que expulsara o papa de Roma no ano de 1146 e acabara morrendo na forca. A sofrida mãe dos meninos, Rosa, não compartilhava o ardor revolucionário do marido. Frequentadora da igreja, lecionava na escola primária local. Todas as noites, quando os filhos dormiam, ela fazia o sinal

da cruz sobre suas cabeças.1

A família morava numa quitinete no terceiro andar de um prédio. Benito e Arnaldo dormiam na cozinha, numa cama de ferro forjada pelo pai, cujo colchão era um grande saco de palha de milho. Os pais dividiam o quarto com a irmã deles, Edvige. Para entrar no apartamento, era preciso passar pela sala de aula da mãe, que ocupava o restante do andar.

O casamento de Alessandro e Rosa era tempestuoso. Ele não só tinha amantes, como também costumava chegar em casa bêbado à noite, vindo dos bares locais, e brigar com a mulher. De alguma forma, ela venceu um bate-boca, e Benito, com dez anos, foi estudar numa escola interna próxima, dirigida por monges salesianos. Não ficou lá por muito tempo. Durante uma briga com um colega, puxou uma faca do bolso e feriu o menino na mão. Os salesianos expulsaram-no. Benito não abandonou os modos ruidosos e violentos, mas, garoto inteligente, conseguiu concluir a escola secundária. Começou a trabalhar como professor substituto em 1901, porém perdeu um dos seus primeiros empregos quando o relacionamento que mantinha com uma mulher casada foi descoberto.

Incapaz de arranjar outro emprego, foi para a Suíça à procura de trabalho. Ali ingressou no mundo dos socialistas e anarquistas, atraído pelas animadas conversas sobre revolução. A polícia suíça logo produziu um relatório sobre ele, deixando para a posteridade uma descrição de Benito quando jovem: um metro e sessenta e oito de altura, atarracado, com cabelo e barba castanhos, longo rosto pálido, olhos negros, nariz

aquilino e boca grande.2

Em Lausanne, no ano de 1904, Mussolini concordou em debater com um pastor protestante sobre a existência de Deus. Depois de tentar impressionar a plateia com citações que iam de Galileu a Robespierre, subiu em uma mesa, tirou um relógio do bolso e berrou que, se Deus existisse, Ele o faria cair morto em cinco minutos. A primeira publicação de Mussolini, intitulada “Deus não existe”, saiu no mesmo ano. Nela, continuava seus ataques à Igreja, rotulando os padres de “micróbios negros, tão desastrosos para a humanidade quanto os micróbios da

tuberculose”. 3

Mussolini era apaixonado pelas polêmicas e pela política, e logo passou a dedicar-se às duas coisas. Em 1910, estava de volta a Forlì, na Romanha, perto da casa da família, como editor do semanário socialista local e secretário do Partido Socialista da cidade. Naquele mesmo ano se aventurou como ficcionista, publicando um romance sensual, A amante do

cardeal 4 .

No começo de sua carreira política, Mussolini impressionava como uma mistura de esquerdista indisciplinado e Don Juan. Ostentando um bigode que usaria pelos dez anos seguintes, sempre parecia saber como se tornar o centro das atenções. Tempestuoso e transgressor, mais do que um simples provocador, era alguém que qualquer um gostaria de ter como aliado, e não inimigo. Um dos seus traços mais memoráveis já se exibia: o olhar duro como aço. Ao mesmo tempo ameaçadora e hipnótica, a mirada de Mussolini trespassava os ouvintes. Os olhos pareciam saltar das órbitas. Em 1910, um sindicalista local descreveu a experiência: “Olhou para mim com aquele seu jeito de arquear as sobrancelhas que revela o branco dos olhos, como se quisesse captar uma visão fugaz distante, e que dá aos seus olhos e ao seu rosto o ar pensativo

de um apóstolo.” 5

Em 1912, com menos de trinta anos, Mussolini foi nomeado para um dos cargos mais influentes do Partido Socialista, o de editor do Avanti!, o jornal nacional do partido, com sede em Milão. Mudou-se do modesto posto avançado provinciano de Forlì para a agitada capital financeira e cultural da Itália.

Como editor do Avanti!, Mussolini se lançou contra a facção reformista do Partido Socialista. Insistia que só a ação revolucionária traria uma nova ordem e que a política parlamentar era inútil. Em 1913, quando a polícia ao sul de Roma matou sete agricultores durante um protesto, clamou por vingança: “Morte aos que massacram o povo! Viva a Revolução!”, disse ele num comício em Milão. Em seu jornal, escreveu: “É o nosso grito de guerra. Os que massacram sabem que, por

sua vez, podem ser massacrados.” 6

Quando a guerra começou na Europa, em agosto de 1914, os socialistas a denunciaram como obra de imperialistas belicosos e capitalistas satisfeitos pela possibilidade de usar o proletariado como bucha de canhão. Os operários do mundo deveriam se unir, e não trucidar uns aos outros em nome de Deus e da pátria. Mas, para a surpresa de seus camaradas, dois meses depois do início da guerra, Mussolini publicou um artigo pondo em dúvida a sabedoria da neutralidade italiana. O pacifismo não estava em sua natureza, e ele se irritava ao pensar na Itália observando, de braços cruzados enquanto o resto da Europa brigava. Não está claro se julgava possível convencer os camaradas socialistas a seguirem sua liderança. Se era isso o que pensava, logo descobriu como estava enganado: dentro de um mês ele não só foi tirado do Avanti!, mas também expulso do partido.

Nos anos seguintes, naquilo que seus antigos camaradas consideraram uma transformação inexplicável e pérfida, Mussolini se tornou o pior inimigo dos socialistas. Mantinha o desdém revolucionário pela democracia parlamentar e o encanto pelas possibilidades da ação violenta. Mas se desfez de boa parte do restante da ideologia marxista. Ele percebeu que o caos que cercava o fim da Grande Guerra tinha criado um vazio, e sua intenção era preenchê-lo. Sempre fora dedicado, acima de tudo, a si mesmo e à crença na própria capacidade de chegar ao topo. Então começou a enxergar um novo caminho que talvez lhe permitisse realizar esse sonho.

Quatro anos antes, em 1910, Mussolini tivera uma filha, Edda, com uma amante conterrânea, Rachele Guidi, que mais tarde viria a ser sua esposa. Na época, os três moravam numa quitinete infestada de pulgas em Forlì. Mas a vida amorosa de Mussolini era tão agitada que, durante décadas, circularam rumores de que a mãe de Edda não era Rachele. Mais tarde, Edda escreveria, um tanto irritada, sobre o boato de que sua mãe era, na verdade, Angelica Balabanoff, uma socialista judia russa (e posteriormente secretária da Terceira Internacional Comunista) que se fixara na Itália e se tornara uma das mais importantes amantes e mentoras de Mussolini. “Conhecendo minha mãe como eu conheço”, escreveu Edda em suas memórias, “sei muito bem que ela não ficaria comigo nem

por cinco minutos se eu fosse filha de Balabanoff.” 7

Nascida numa família camponesa pobre, Rachele conheceu Benito aos sete anos, quando ele substituiu a mãe dele como professora na escola primária. Rachele não gostava muito de estudar. Além disso, seu pai morrera quando ela tinha apenas oito anos, e a menina fora posta para trabalhar como criada em Forlì. Embora mais tarde adquirisse um ar matronal, era atraente quando jovem — loura, baixa, magra e de olhos azuis.

Rachele achava que Edda era a primeira filha de Mussolini. Mas, poucos meses antes de a bebê nascer, uma garçonete dera à luz um menino, a quem batizara de Benito. Esse pequeno Benito morreu cedo, mas haveria outros filhos ilegítimos, e pelo menos mais um com o

mesmo nome do pai.8 É compreensível que se indague como Mussolini encontrava tempo para se dedicar à carreira jornalística e à política tendo que lidar com tantos casos amorosos. Suas mulheres eram tão diferentes entre si quanto se possa imaginar. Em 1913, ele teve um filho com outra judia russa que conhecera poucos anos antes, embora nunca viesse a

assumir a criança.9 Naquele mesmo ano, encantou-se com a improvável Leda Rafanelli, de trinta e dois anos, uma das autoras anarquistas mais conhecidas de Milão, que se distinguia por ter adotado o Islã anos antes, após passar alguns meses no Egito. Benito começou a fugir do escritório para visitar o apartamento impregnado de incenso de Rafanelli, um lugar em que as visitas se sentavam no chão. O caso durou até o outono de 1914. Décadas depois, já uma senhora, Rafanelli publicou quarenta cartas

que o jovem Mussolini lhe escrevera naqueles tórridos meses. 10

Em novembro de 1915, um segundo Benito nasceu, filho de outra amante de Mussolini, Ida Dalser, mulher que o idolatrava. Numa provável tentativa de repelir as alegações de Dalser, que insistia em dizer que era sua verdadeira esposa, Mussolini se casou com Rachele. A cerimônia civil, feita às pressas, ocorreu um mês depois do nascimento do filho de Dalser, apesar de, à época, Mussolini estar acamado numa enfermaria com febre tifoide. Quando o amante deixou de responder às suas cartas, Dalser conseguiu um mandado judicial para confiscar a mobília dele. Num acesso de fúria vingativa, ela juntou a modesta coleção de mesas e cadeiras que Mussolini mantinha no quarto de hotel

onde morava e pôs fogo em tudo.11

Antes disso, em novembro de 1914, logo após ter sido retirado do cargo de editor do Avanti!, Mussolini anunciou o lançamento do seu

próprio jornal, Il Popolo d’Italia [O povo da Itália].12 O jornal, que contava inicialmente com o apoio de industriais italianos que se beneficiariam da entrada do país na guerra, permaneceria como o veículo de comunicação

de Mussolini pelas três décadas seguintes. 13

Mais ou menos na mesma época em que lançou o próprio jornal, ele organizou as Fasci d’azione rivoluzionaria, células revolucionárias ou, como ele as descreveria, “uma associação livre de subversivos” que apoiavam a

entrada da Itália na guerra e pediam o fim da monarquia.14 Os grupos fizeram sua primeira reunião em janeiro de 1915, quatro meses antes de a Itália entrar na guerra ao lado da Grã-Bretanha e da França. Logo Mussolini foi recrutado e enviado para o front nas montanhas do nordeste da Itália. Em 23 de fevereiro de 1917, seu serviço militar foi bruscamente interrompido quando um morteiro que ele tentava disparar explodiu no tubo, matando cinco dos seus próprios soldados e perfurando-lhe o corpo com estilhaços. Apesar da cirurgia, ou talvez por causa dela, ele teve infecção e febre, mas sobreviveu e voltou para Milão, onde sua mais importante amante e confidente política o aguardava.

Nascida em 1880 numa rica família judia veneziana, Margherita Sarfatti havia estudado em casa com professores particulares. Aos catorze anos, já sabia francês, alemão e inglês. Lia filosofia, decorava versos de Shelley, estudava crítica de arte e desenvolvera uma paixão pela literatura. Atraente, de olhos verdes e cabelos ruivos, aos dezoito anos se casou com um advogado judeu quase quinze anos mais velho.

Os recém-casados se mudaram para Milão, onde Margherita se aproximou do Partido Socialista e começou a escrever artigos culturais para o jornal da organização. Conheceu Mussolini quando ele chegou à cidade, no fim de 1912. O que a impressionou de imediato foram os olhos dele. Vivos e grandes, pareciam se mover febrilmente enquanto ele falava. Mais tarde, quando o viu em atividade num comício socialista, ficou maravilhada com a capacidade que ele tinha de conquistar a multidão com sua eloquência concisa e vigorosa. Benito lhe parecia um lendário herói de outras eras que, vestindo sua armadura enferrujada e amassada, sempre conseguia derrubar reluzentes cavaleiros em torneios reais. Ele também a fazia pensar em Savonarola, o dominicano do século XV. Mussolini compartilhava com o feroz padre o “estranho brilho

fanático nos olhos e a imperiosa curva do nariz”.15

O caso dos dois começou em 1913. Quando Mussolini voltou da

guerra, em 1917, os dois se tornaram inseparáveis. 16 Em novembro de 1918, a irmã, Edvige, que estava em Milão para as comemorações do armistício, ficou surpresa ao ver que Benito tirara o bigode e usava um terno bom, com camisa de gola branca imaculada e até uma flor na lapela. O irmão lhe pareceu notavelmente arrumado e limpo, e Edvige

adivinhou que estava apaixonado. 17

Em contraste com o romance na vida de Mussolini, motins brutais aconteciam na Itália do pós-guerra. Em muitas cidades do norte, operários tomavam fábricas. A recente Revolução Russa estava fresca na memória de todos, e chamados para pôr fim à democracia “burguesa” e instalar um Estado operário se disseminavam. Na zona rural italiana, ligas camponesas de esquerda atacavam. Proprietários de terras, habituados a ditar os termos para os camponeses, viam-se na defensiva. Centenas de milhares de veteranos não conseguiam encontrar emprego. O governo estava sem recursos e paralisado por pequenas disputas políticas e rixas pessoais. Os socialistas criavam uma espécie de Estado dentro do Estado, assumindo governos municipais e formando cooperativas de trabalho numa vasta faixa do norte do país, do sopé dos Alpes, no noroeste, ao mar Adriático, no leste.

Mussolini encontrou seu eleitorado natural entre os veteranos de regresso à Itália, explorando seu nacionalismo, sua ideia de que o país lhes devia alguma coisa e sua relutância em abandonar aquele tipo de camaradagem de que desfrutavam até pouco tempo antes, quando lutavam lado a lado. Ataques aos oportunistas que lucraram com a guerra, aos derrotistas, aos generais ineptos e aos políticos corruptos se revelaram uma mistura inebriante. Em 23 de março de 1919, ele convocou a primeira reunião do seu movimento fascista.

Junto com o restante do establishment, a Igreja foi um dos primeiros alvos dos fascistas. Mussolini pregava o confisco das propriedades de congregações religiosas e o fim dos subsídios estatais à Igreja. Num artigo de novembro de 1919 no Il Popolo d’Italia, convidou o papa a deixar Roma. Um mês depois, manifestou seu ódio a todas as formas de

cristianismo. 18

Os fascistas tiveram a primeira chance de apresentar candidatos ao parlamento naquele mesmo mês, mas o resultado foi um grande

constrangimento.19 Em Milão, obtiveram menos de dois por cento dos votos e não elegeram ninguém. Nacionalmente, só elegeram um

deputado.20

Embora seu movimento ainda não recebesse grande quantidade de votos, Mussolini atraía muita atenção da política. Pouco antes da eleição, as autoridades prepararam um dossiê confidencial sobre Benito, no qual ele era apresentado como fisicamente imponente, mas sifilítico. A alegação de que contraíra sífilis, doença comum na época, não chega a surpreender, levando-se em conta que ele tinha várias parceiras sexuais. Até o fim da vida de Mussolini se cochichava sobre o assunto, e alguns até atribuíam à sífilis o suposto declínio mental de seus últimos anos de vida. Contudo, a autópsia não encontrou vestígio algum da doença.

Mussolini levantava cedo todos os dias e saía para a redação do jornal por volta do meio-dia, porém só voltava para casa bem depois da meia-noite. Segundo relatórios da polícia, era impulsivo e movido pelas emoções, mas também tinha um lado sentimental, o que explicava um pouco a atração que tanta gente sentia por ele. Inteligente e astuto, possuía grande habilidade para avaliar os pontos fortes das pessoas e tirar proveito de suas fraquezas. Bom organizador, capaz de tomar decisões rápidas, era leal aos amigos, mas capaz de guardar um rancor crônico contra quem fizesse pouco dele. Sem compromisso com qualquer conjunto de convicções em particular, abandonava as velhas crenças e abraçava as novas num piscar de olhos. Acima de tudo, era extremamente

ambicioso, convencido de que seu destino era forjar o futuro da Itália. 21

No começo de 1920, Mussolini já tinha descartado boa parte da ideologia socialista que até então havia proclamado ruidosamente. Percebendo que seu caminho para o sucesso estava em tirar vantagem do caos no país, apresentava-se como representante da lei, da ordem e do orgulho nacional.

Na primavera de 1920, ligas socialistas organizaram uma greve na agricultura no vale do rio Pó. Como o governo nada fez para intervir, os proprietários de terra locais procuraram os fasci. No outono, bandos fascistas armados — usando camisas e barretes negros — saquearam câmaras de trabalho socialistas e outros alvos de esquerda. A Itália moderna nunca tinha visto nada parecido. Embora presidisse de forma negligente a rede desses saqueadores, Mussolini não os organizava diretamente, recorrendo a chefes fascistas locais para executar o trabalho sujo. Em 21 de novembro, um desses bandos invadiu a prefeitura de Bolonha, onde uma administração socialista recém-eleita tomava posse. Dez pessoas morreram na batalha subsequente, e o governo suspendeu a nova administração municipal. A violência se espalhou, com bandos fascistas atacando governos municipais de esquerda, sedes socialistas e sindicatos.

Presidente de um movimento com pouca estrutura, Mussolini lutava para manter controle sobre sua belicosa prole política, pois os chefes fascistas locais estabeleciam redutos próprios em suas cidades. A batalha para transformar um irascível conjunto de feudos violentos de base local numa organização política nacional, hierarquizada, que funcionasse sem

problemas, consumiria suas forças pelos anos seguintes. 22

 

* * *

 

COM O GOVERNO paralisado, o rei dissolveu o parlamento e convocou novas eleições para 15 de maio de 1921, apenas um ano e meio depois do pleito anterior. A campanha resultante disso se desenrolou em meio a uma orgia de violência fascista que engolfou as regiões do norte e do centro do país, além de áreas dispersas do sul. Os bandos — que dispunham de caminhões fornecidos por proprietários rurais —

incendiavam clubes socialistas e sindicatos e atacavam seus líderes. 23

Nas cinco semanas que precederam a eleição de 1921, cem pessoas foram mortas e centenas acabaram feridas. Mas os socialistas mantiveram a maioria das cadeiras, elegendo cento e vinte e dois representantes, aos quais poderiam ser acrescentados os dezesseis eleitos pelo Partido Comunista, uma facção do Partido Socialista que se separara no começo do ano. O católico Partido Popular, outro alvo de ataques fascistas, também conquistou várias cadeiras, elegendo cento e sete deputados. Mussolini e os fascistas tinham feito uma coalizão com membros da velha elite conservadora, mais notavelmente com o então primeiro-ministro Giovanni Giolitti, que via os camisas-negras como o porrete de que precisava para manter os socialistas sob controle. Juntos, obtiveram maioria, com duzentos e setenta e cinco deputados, incluindo trinta e

cinco fascistas, capitaneados por Mussolini. 24

Logo depois que o novo parlamento se reuniu, Mussolini se levantou para fazer seu primeiro discurso. Seria memorável. Centenas de milhões de católicos do mundo inteiro consideravam Roma seu lar espiritual, disse ele. Essa era uma fonte de poder que a Itália não podia ignorar. O fascismo, afirmou, para espanto de muitos que o conheciam, ajudaria a promover a restauração da sociedade cristã. Construiria um Estado

católico apropriado para uma nação católica. 25

A surpreendente aceitação de Mussolini pela Igreja veio sem qualquer consulta prévia às autoridades do Vaticano. O católico Partido Popular atrapalhava seus esforços para se apresentar como a melhor chance de deter o avanço dos socialistas no país. Para que o papa abandonasse a organização católica, Mussolini teria que convencê-lo de que poderia ser de mais serventia à Igreja do que o Partido Popular. Em novembro, o movimento fascista tornou-se formalmente o partido político fascista, adotando um novo programa. Não se falava mais em expropriar

propriedades da Igreja e separar o clero do Estado. 26

Ao tentar garantir o apoio do Vaticano, Mussolini lançava uma isca ideológica — acabar com o regime democrático liberal e impor um Estado católico autoritário — ao mesmo tempo que se utilizava da força bruta. A rigor, já tinha literalmente um porrete, o temido manganello, o cassetete de madeira orgulhosamente brandido pelos camisas-negras. Na visão dos fascistas, o Partido Popular era parte de uma rede mais ampla de instituições católicas na zona rural que interferia em seus projetos. No nível local, essa obstrução incluía grupos da Ação Católica — católicos leigos que participavam de atividades religiosas sob supervisão eclesiástica — e várias cooperativas religiosas. Os squadristi viam todos como alvos legítimos de suas sangrentas incursões noturnas.

Em março de 1922, padres da região de Mântua, ao norte do país, mandaram uma carta para autoridades governamentais protestando contra o espancamento de membros e ativistas da Igreja pelos fascistas. No mês seguinte, em Bolonha, fascistas atacaram dois vereadores do Partido Popular. Ratti, que havia se tornado papa poucos meses antes, ficou especialmente irritado ao saber que camisas-negras tinham saqueado a

sede da Ação Católica em sua região natal, Brianza. 27 Em maio, numa das muitas reportagens que descreviam a violência fascista, o jornal jesuíta de Roma, La Civiltà Cattolica, informou que, certa noite, um grupo de meninos saía de uma reunião do clube de jovens católicos em Arezzo quando um bando de fascistas atacou de porrete e chicote em punho. Nos meses seguintes, o jornal diário do Vaticano, L’Osservatore Romano, publicou uma série de matérias parecidas sobre ataques a ativistas do Partido Popular, clubes católicos locais e padres. Não houve menção a Mussolini, que mantinha publicamente uma distância calculada dessas

incursões.28

Ninguém desempenhava melhor o papel de porrete fascista ao tratar com a Igreja do que Roberto Farinacci, chefe de Cremona, no norte da Itália, outro jovem veterano e ex-socialista das baixas classes médias que dominaram o movimento fascista em seus primeiros tempos. O mais fascista dos fascistas — título que adotou com orgulho —, Farinacci carregava um revólver enfiado numa liga debaixo da calça. Ele personificava não apenas a exuberância, a violência, a intolerância e o autoritarismo do movimento, mas também suas raízes anticlericais. Mais tarde, sempre que precisasse manter o Vaticano na linha, Mussolini recorreria a Farinacci. Mas, naquele momento, a mensagem de Mussolini era clara: ele era a única pessoa no país capaz de manter anticlericais

violentos como Farinacci sob controle. 29

Vendo que a polícia ficava de lado sem fazer nada enquanto bandos de saqueadores fascistas incendiavam seus centros locais e espancavam seus líderes, os socialistas resolveram agir. Em 29 de julho, convocaram uma greve nacional, ameaçando não retornar ao trabalho enquanto o governo não pusesse fim à violência. Mas a greve teve um efeito bumerangue. Bandos fascistas incendiaram sindicatos e obrigaram os grevistas a trabalhar. Em 3 de agosto, os squadristi tomaram a prefeitura de Milão. Só os fascistas, proclamou Mussolini, impediriam que a Itália seguisse os

passos da Rússia. 30

Com o país em tumulto, o governo paralisado e a polícia e as forças armadas demonstrando simpatia pelos fascistas, o novo papa e seus conselheiros mais próximos começaram a duvidar da sabedoria de fazer oposição à cruzada de Mussolini. Pio XI nunca abraçara cem por cento o Partido Popular, que, apesar de fundado com a bênção de Bento, professava com orgulho sua independência em relação ao Vaticano. Pio tampouco era, por ideologia ou temperamento, um entusiasta do governo parlamentarista. Em sua opinião, a Itália precisava de um homem forte para liderá-la, livre da cacofonia das insignificantes disputas multipartidárias. Se pudesse ter certeza de que Mussolini trabalharia para restaurar a influência da Igreja na Itália, o pontífice não insistiria em mostrar ressentimento por seu passado anticlerical. Além dessa cautelosa esperança, porém, o papa tinha um receio: se ele se opusesse aos fascistas e desse o apoio da Igreja ao Partido Popular, Mussolini permitiria que os camisas-negras instalassem o reino do terror contra o clero? O papa temia que, por trás de Benito, houvesse muitos Farinaccis. Sem alimentar a ilusão de que Mussolini adotasse pessoalmente valores católicos ou se importasse com qualquer outra coisa que não o próprio enaltecimento, Pio XI até se disporia a pensar num acordo pragmático se pudesse ter

certeza de que Mussolini honraria suas promessas.31

Em 2 de outubro de 1922, o cardeal Gasparri, secretário de Estado da Santa Sé, distribuiu uma circular para todos os bispos italianos dizendo-lhes que os padres não deveriam se alinhar com nenhum partido político. Enquanto os fascistas traçavam sua estratégia para chegar ao poder, o papa começou a distanciar a Igreja do partido católico.

A situação atingiu um ponto crítico ainda naquele mês. Em 16 de outubro, Mussolini convocou uma reunião dos chefes das milícias fascistas para finalizar os planos de insurreição. Bandos fascistas ocupariam prédios do governo nas principais cidades do país, enquanto outras forças do movimento se reuniriam em diferentes localidades para marchar sobre Roma e tomar os ministérios do governo central.

Como o homem que encabeçaria o novo governo, Mussolini permaneceria em lugar seguro, de onde receberia relatórios de todo o país e partiria para uma espetacular entrada em Roma quando a cidade caísse. Quatro líderes fascistas — Cesare de Vecchi, Italo Balbo, Michele Bianchi e Emilio de Bono —, destinados a se tornarem o “Quadrunvirato” da mitologia fascista, comandariam a marcha sobre a capital. Os outros chefes do partido voltariam para suas cidades e orquestrariam a tomada de prédios de governos locais.

 

3. Mussolini e o Quadrunvirato Fascista em Nápoles, em 24 de outubro de 1922. Na frente,

da esquerda para a direita: Emilio de Bono, Michele Bianchi, Italo Balbo, Benito Mussolini e

Cesare de Vecchi

O que Mussolini fez e onde esteve nas horas que precederam o levante ainda é matéria de debate. Segundo a versão mais aceita, divulgada pelo regime fascista, ele passou a noite de 27 de outubro na ópera de Milão com a mulher, tentando dar uma falsa sensação de segurança às autoridades do governo. Numa versão ligeiramente diferente da história, Margherita Sarfatti, e não Rachele, foi com Mussolini à ópera. E, de acordo com um relato menos lisonjeiro, Mussolini se escondeu na casa de veraneio de Sarfatti no lago de Como, pronto para

cruzar a fronteira suíça se a insurreição fracassasse. 32

Seria perdoável se Mussolini estivesse um pouco desconcentrado na época, pois uma semana antes nascera mais uma filha, Elena. Ele começara um relacionamento com a mãe dela, Angela Curti Cucciati, um ano antes, em meio a seu caso com Margherita Sarfatti. Elena seria um caso à parte entre seus filhos ilegítimos, conquistando a profunda afeição do pai. Anos depois, estaria ao lado de Benito enquanto ele

aguardava seu sórdido fim.33

Mussolini podia estar ou não pensando na filha mas o fato é que teve dúvidas de última hora sobre o assalto a Roma, dando-se conta de que o Exército poderia destroçar com facilidade seus desorganizados rufiões se recebesse ordens para contê-los. Poucas semanas antes, um dos mais importantes generais da Itália tinha previsto, confiantemente, que o

fascismo ruiria ao primeiro tiro do Exército.34

Margherita Sarfatti talvez tenha ajudado Mussolini a dissipar suas dúvidas. “É marchar ou morrer”, teria dito ela. Seja como for, era tarde demais para recuar. Bandos fascistas já começavam a entrar nas cidades do

norte e do centro da Itália.35

Embora a Marcha sobre Roma, em 28 de outubro, viesse a se tornar produto de uma elaborada mitologia fascista, os ataques a instalações de governos locais de todo país iniciados na noite anterior foram mais significativos. Em Perúgia, o prefeito se rendeu aos bandos fascistas. Em Cremona, pelotões de Farinacci cortaram o fornecimento de energia elétrica e invadiram a delegacia de polícia, a prefeitura e outros pontos

estratégicos.36 Em diversos lugares, squadristi fascistas tomaram posição cercando batalhões da polícia, estações de trem e centrais telefônicas. Soldados italianos se preparam para o confronto, mas não atiraram, aguardando ordens de Roma.

Não mais do que vinte e seis mil homens armados com velhos fuzis do Exército, e muitos portando apenas cassetetes, chegaram aos arredores de Roma, seu entusiasmo amortecido pela forte chuva. Posteriormente, a lenda fascista diria que eles eram trezentos mil. Para enfrentar os desorganizados arruaceiros fascistas havia vinte e oito mil soldados italianos, com suas metralhadoras e seus carros blindados prontos para entrar em ação.

O primeiro-ministro Luigi Facta, percebendo que só a ação militar poderia conter a turba fascista, redigiu uma proclamação de estado de emergência. Tropas em todo o país receberam ordens para dispersar os squadristi e prender os líderes fascistas. Às seis da manhã do dia 28, Facta submeteu a ordem a uma reunião de gabinete convocada às pressas. Depois da aprovação unânime dos ministros, às dez para as oito da manhã, prefeitos em todo o país foram avisados de que o estado de emergência seria anunciado em breve. Às oito e meia, pôsteres proclamando o estado de emergência começaram a ser colados nos muros de Roma. Facta chegou ao palácio do Quirinal pouco antes das nove da manhã e colocou a ordem diante do rei. Mas Vítor Emanuel III se recusou a assiná-la. Facta ficou estupefato. Na véspera, tinha discutido a medida com o monarca, que parecia decidido a defender Roma do

assalto fascista. 37

O rei era uma figura curiosa. Seu avô e xará, Vítor Emanuel II, foi o festejado fundador da Itália moderna. Suas tropas saboianas tinham ajudado a derrotar os austríacos no norte e as forças que defendiam os Estados Papais no centro da península. Por privar o papa de suas terras, o rei fundador da Itália foi excomungado. Seu filho, Umberto I, foi assassinado em 1900 por um anarquista ítalo-americano de Nova Jersey, e Vítor Emanuel III subiu ao trono aos trinta anos. Alvo de zombarias pela baixa estatura — cerca de um metro e meio —, o bigodudo monarca nunca se sentiu à vontade como rei. Inteligente e bem informado, detestava lidar com partidos políticos e com o parlamento. Tampouco morria de amores pelo papa ou pelo Vaticano. A seu ver, os padres serviam muito bem para serem capelães do rei. Achava desagradável compartilhar sua capital com outro homem que julgava ter autoridade sobre ela.

Como observou a jornalista americana Anne McCormick, ninguém na Itália causava menos problemas do que o rei, que fugia de qualquer publicidade, evitava interferir no governo e só saía em público quando não tinha escolha. Uma das poucas ocasiões em que aparecia em Roma era na abertura do parlamento, que exigia sua presença. McCormick o viu numa dessas circunstâncias, em 1921. Vítor Emanuel III chegou num coche de cristal puxado por cavalos brancos com arreios adornados de joias, um grupo de corneteiros abrindo caminho. Quando ele entrou na câmara e se sentou, ficou “diminuído pelo tamanho do trono (...) e, quando chutou o escabelo de veludo vermelho, (...) não era muito diferente de um menino infeliz balançando as pernas numa cadeira grande

demais para si”. 38

O rei tinha um forte senso de dever, mas era cauteloso e tímido. Ao examinar as opções de que dispunha na manhã de 28 de outubro, teve medo de que enfrentar os fascistas pudesse levar a mais derramamento de sangue. Sabia que não tinha popularidade, pois carecia tanto da imperiosa confiança capaz de inspirar o temor e a admiração dos súditos quanto do fervor que pudesse despertar a boa vontade do povo. Pessimista inveterado, temia não poder contar com a lealdade do Exército. Também achava que talvez fosse mais prudente ter Mussolini no governo do que lutar contra ele. Depois de anos de agitação social, muitos oficiais superiores e industriais achavam que o líder fascista era sua melhor chance

de acabar com a ameaça socialista e restaurar a ordem. 39

Humilhado, Facta renunciou. Primeiro, Vítor Emanuel III tentou nomear um ex-primeiro-ministro conservador para chefiar um novo governo e dar a Mussolini e a alguns dos seus colegas fascistas cargos no gabinete. Mas, com bandos fascistas ocupando pontos estratégicos em boa parte do norte e do centro da Itália e o rei tendo decidido não mandar o Exército combatê-los, Mussolini pôde rejeitar a proposta no ato. Sem escolha, o rei capitulou, convidando o líder fascista para voltar a Roma e formar um governo.

Mussolini pegou um trem em Milão, saindo do seu vagão-leito na capital na manhã do dia 30. Ao se apresentar no palácio real trajando sua camisa negra, consta que disse ao rei: “Majestade, venho do campo de batalha — felizmente sem sangue.” Com a chegada do líder a Roma, os molhados e exaustos camisas-negras enfim tiveram permissão para entrar na cidade. Cabriolaram pelas ruas cantando, comemorando e saqueando as sedes socialistas locais que encontravam pelo caminho.

Nos dias que se seguiram, Mussolini formou seu gabinete, reservando os dois cargos mais importantes — ministro do Interior, encarregado dos prefeitos e da polícia, e ministro do Exterior — para si próprio. O gabinete incluía dois membros do Partido Popular, além de três fascistas e uma mistura de outros representantes da elite liberal. Ao apresentar ao rei sua lista de candidatos, o novo governante deu início a uma complexa relação que duraria duas décadas. O polido monarca tinha pouca coisa em comum com o campeão da arruaça e da violência, o homem que se

gabava de “não ser sociabilizado”.40 Tampouco se sentia à vontade com o agitador filho de ferreiro que durante anos pregara o fim da monarquia. Mas aprendeu a respeitar a determinação de Mussolini, sua capacidade de acabar com o caos do país, sua falta de venalidade pessoal e seu sonho de

restaurar a grandeza da Itália.41

Num dos primeiros atos como primeiro-ministro, Mussolini levou seu gabinete para uma missa perante o altar do Soldado Desconhecido, no monumento Vitoriano, em Roma. Ali, ordenou aos homens que rezassem de joelhos durante um minuto. Para muitos deles, “deve ter parecido um tempo extremamente longo” gracejou Gasparri, o secretário de Estado do Vaticano. Mussolini desejava convencer o papa de que agiria agressivamente para restaurar os direitos da Igreja. “Mussolini nos mostrou que era um bom católico”, explicou o cardeal Gasparri para o

embaixador da Bélgica. 42

Em meados de novembro, Mussolini se apresentou à Câmara dos Deputados para um voto de confiança. Apesar de haver apenas trinta e cinco deputados fascistas naquele momento, trezentos e dezesseis membros votaram a seu favor. O ex-primeiro-ministro Giovanni Giolitti e outros integrantes do establishment político ainda achavam que seria possível usar Mussolini para destruir os socialistas ao mesmo tempo em que mantinham o controle definitivo do Estado. Membros do Partido Popular seguiram o exemplo, muitos de má vontade. E foi assim que Mussolini chegou ao poder, pelo voto legítimo, num parlamento livremente eleito.

5. Benito Mussolini, o novo primeiro-ministro italiano, novembro de 1922

 

Era uma figura ímpar, transpirando intensa energia. Ainda não adquirira o peito cheio que, mais tarde, adoraria desnudar para as câmeras, de preferência no alto de um palanque, montando a cavalo ou segurando uma enxada. O cabelo tinha recuado, conferindo-lhe uma testa imponente, os fios ralos penteados para trás; o bigode fora retirado havia muito tempo, e, como Mussolini não tinha suíças, seu cabelo era cortado em linha reta nas têmporas, alinhado com as orelhas. Contudo, seus traços mais impressionantes eram a extraordinária vitalidade e os olhos astutos e penetrantes.

Em seus primeiros meses como chefe do governo, Mussolini usava uma jaqueta preta curta e calças justas desfiguradas por um profundo vinco logo abaixo dos joelhos. “Deve ser um pobre coitado”, observou um dos porteiros do palácio Chigi, quartel-general do primeiro-ministro. “Não tem ninguém para passar suas calças.” O contraste com chefes de governo anteriores, provenientes da elite liberal — homens mais velhos, de barba grisalha, em ternos escuros bem-cortados, habituados às finuras da vida —, não poderia ser maior. “Mussolini era um ministro incomum”, disse Quinto Navarra, seu assistente durante muitos anos; “dava-nos a impressão de estarmos diante de um sem-teto, um jornalista

de mangas manchadas de tinta e sapatos de salto gasto.” 43

Antonio Salandra, ex-primeiro-ministro, descreveu a enigmática figura de Mussolini: uma mistura esquisita de jovialidade e vulgaridade, expressão sincera de sentimentos nobres seguida por instintos baixos de retaliação e vingança, rudeza e teatralidade, afirmações tenazes seguidas por imediatas mudanças de rota, eloquência notável e eficaz polvilhada de referências cultas e ignorância presunçosa expressa em gíria de classe baixa. Mas o que mais impressionava o ex-primeiro-ministro e o que, na sua opinião, mais impulsionava Mussolini era a devoção ao culto da própria personalidade. O líder fascista demonstrava excepcional energia e vontade férrea, tentando compensar com intuição o que lhe faltava em

instrução real para chefiar um governo. Era “uma força da natureza”. 44

Pouco depois de se tornar primeiro-ministro, Mussolini precisou comparecer a uma recepção oficial oferecida à família real espanhola, o tipo de ocasião que ele detestava. Quando Benito chegou com a costumeira barba de dois dias no rosto, a rainha Helena, a muito decorosa mulher de Vítor Emanuel III, lançou-lhe um olhar duro. Não foi a única ocasião em que ela notou suas deficiências em matéria de higiene pessoal. Mussolini jamais se acostumaria ao hábito burguês de tomar banho todos os dias, compensando a falha (exageradamente) com frequentes salpicos de colônia barata.

Preparando-se para um dos seus primeiros jantares diplomáticos, realizado na embaixada britânica, Benito aproveitou o conselho do barão Russo, ajudante do primeiro-ministro deixado pela administração anterior.

“É muito simples, Excelência”, explicou o barão. “O senhor se senta ao lado da embaixatriz britânica. Preste atenção a cada movimento que ela fizer. Use a mesma colher, a mesma faca, o mesmo garfo que ela usar. Tudo o que ela fizer, faça também.”

Chegando ao grande salão da embaixada, Mussolini foi o centro das atenções, mas se sentia pouco à vontade. Suas caretas e seus olhos saltados funcionavam bem nos comícios, mas eram recebidos com menos entusiasmo por diplomatas de smoking. O anfitrião do jantar, sir Ronald Graham, embaixador da Grã-Bretanha, já tinha notado a postura de Mussolini em ocasiões anteriores. Relatando a Londres as primeiras impressões que teve do novo primeiro-ministro italiano, Graham admitiu que não gostava nada do fato de que, em suas aparições públicas, Mussolini adotasse desnecessariamente “certas atitudes e maneiras que só poderiam ser descritas como napoleônicas”. E explicou melhor: “Ele andava de um lado para o outro com a mão sobre o peito e enfiada na lapela do sobretudo; o olhar era fixo; nunca sorria e parecia envolto em

uma melancolia feroz.” 45

Na recepção dada por Graham, Mussolini sobreviveu ao jantar de oito pratos observando atentamente lady Sybil, a mulher do embaixador. Ela logo percebeu o que ele fazia, imitando cada movimento de seu garfo e de sua faca. Apesar de ter ficado um tanto perplexo quando ela levou a tigela de sopa à boca, em vez de usar uma das inúmeras colheres para tomá-la, ele a seguiu à risca.

Quando finalmente se preparava para sair, agradeceu à mulher, que fez uma referência indireta à ajuda que lhe dera.

— Só fiquei confuso uma vez — disse Mussolini.

— E quando foi isso? — perguntou ela.

— Eu não sabia que os ingleses tomavam sopa como quem bebe

cerveja. 46

 

* * *

POUCO MAIS DE um ano depois de ter sido eleito para o parlamento, e oito anos após ser expulso do Partido Socialista, o filho de ferreiro tornou-se, aos trinta e nove anos, o homem mais poderoso da Itália. Os anos anteriores tinham sido marcados por uma violência dolorosa e uma incerteza assustadora. Para alguns, o líder fascista representava a possibilidade de retorno à normalidade. Para outros, ameaçava introduzir um novo tipo de guerra social. Mas ninguém poderia imaginar aonde ele levaria os italianos.