O Papa e Mussolini
Parte um
O PAPA E O DITADOR
CAPÍTULO UM
UM NOVO PAPA
Fora do portão do Vaticano, um grupo de pessoas se reuniu para aplaudir os sedãs pretos que entravam lentamente pela muralha medieval. Em sinal de reconhecimento ou de estima, ou por mero hábito, cada cardeal acenava do banco traseiro, numa bênção eclesiástica. Em pé de cada lado do portão havia um guarda suíço, em seu colorido uniforme de arlequim, a mão enluvada tocando o capacete refulgente numa continência. Pouco depois, quando o último cardeal já havia ocupado seu lugar no palácio Apostólico, seis funcionários percorreram os longos e frios salões às pressas, cada qual sacudindo uma campainha. Uma voz berrou “Extra omnes! ” quando os últimos leigos saíram. Segurando um sólido chaveiro antigo, um príncipe da Casa de Chigi, marechal da cerimônia do conclave, trancou a pesada porta pelo lado de fora. O cardeal Pietro Gasparri, o camerlengo, trancou-a por dentro. As janelas foram lacradas. Era terça-feira, 2 de fevereiro de 1922. As portas só seriam abertas outra vez quando houvesse um novo papa.
* * *
APENAS DUAS SEMANAS antes, uma tosse persistente começara a incomodar o papa Bento XV. Apesar de ser um homem baixo, frágil e que mancava desde criança — os mexeriqueiros do Vaticano chamavam-no de “o pequeno” —, não era velho e gozara de boa saúde durante os setes anos em que ocupara o trono de São Pedro. Mas o que de início era uma bronquite transformou-se em pneumonia, e Bento, aos sessenta e oito anos, recebeu a unção dos enfermos. Na tarde do dia seguinte, deitado em sua cama de ferro simples, perdeu a consciência. Na manhã de 22 de
janeiro, estava morto.1
Giacomo della Chiesa fora uma escolha inusitada depois da morte do gentil porém repressivo Pio X, em 1914, bem no início da Grande Guerra. Quando os cinquenta e dois cardeais se reuniram no fim de agosto daquele ano para eleger um sucessor, Della Chiesa era cardeal havia apenas três meses. Nascido numa família aristocrática, mas de forma alguma rica, respeitado pela inteligência e pelo bom discernimento, não parecia talhado para a função de pontífice. Apesar do porte distinto e do trato cordial, era baixo demais e dentuço, além de ter uma pele amarelada e um emaranhado impenetrável de cabelos negros. Tudo nele parecia
ligeiramente torto: o nariz, a boca, os olhos e os ombros. 2
Como jovem padre, Della Chiesa tinha trabalhado na Secretaria de Estado do Vaticano, que cuida das relações da Santa Sé com governos do mundo inteiro. Ali galgou posições até 1913, quando foi mandado para Bolonha como arcebispo.
Havia quem acreditasse que a saída de Della Chiesa do Vaticano tinha sido obra do cardeal Rafael Merry del Val, secretário de Estado do papa Pio X e seu principal parceiro na cruzada para erradicar qualquer vestígio de “modernismo” do clero. Pio X temia que ideias modernas substituíssem os ensinamentos passados pela Igreja havia séculos. Na opinião do papa, as crenças em direitos individuais e liberdade religiosa — além das noções heréticas de que Igreja e Estado deveriam ser separados e de que a fé deveria conciliar as lições da ciência — eram particularmente perniciosas. Acreditando que Della Chiesa era um
moderado, Merry del Val queria vê-lo longe da sede do poder da Igreja.3
Na décima votação, Della Chiesa conseguiu — por pequena margem — os dois terços exigidos. O cardeal Gaetano de Lai, um dos colegas linhas-duras de Merry del Val, humilhou o novo papa ao exigir que os votos fossem contados para ter certeza de que ele não tinha votado em si mesmo.
Pio X falecera numa época assustadora para os italianos, mas a morte do seu sucessor, em 1922, ocorreu num clima de agitação ainda maior. Muitos temiam que a revolução estourasse a qualquer momento, embora não soubessem se seria provocada pelos socialistas ou pelos fascistas. A Grande Guerra, que era a esperança da elite para unir os incorrigivelmente divididos italianos e conseguir que a população apoiasse o governo, não fizera nem uma coisa nem outra. Mais de meio milhão de italianos tinha morrido, e um número ainda maior de feridos retornara ao país. Um Exército desmobilizado encontrou poucos empregos ao voltar para casa. Os líderes políticos da Itália pareciam incapazes de encontrar uma saída para a crise.
Os socialistas — cujo número crescera ao longo das décadas — esperavam aproveitar a maré de indignação popular para chegar ao poder. Operários ocuparam fábricas em Turim, Milão e Gênova. Trabalhadores da agricultura fizeram greves, ameaçando a velha classe de proprietários rurais. Apenas dois anos antes, em 1917, uma revolução comunista conduzira os bolcheviques ao poder e destruíra a velha ordem czarista na Rússia. Incentivados por esse exemplo, manifestantes italianos sonhavam
com um futuro em que operários e camponeses dariam as ordens. 4
Mas os socialistas, por sua vez, tiveram que enfrentar uma ameaça violenta. Pouco depois da guerra, Benito Mussolini, de trinta e nove anos, antes um dos mais destacados socialistas do país, fundou um novo movimento fascista. Isso exerceu forte atração sobre veteranos de guerra insatisfeitos. Bandos fascistas logo apareceram em cidades por toda a Itália. Assim como Mussolini, os primeiros recrutas eram oriundos da esquerda e, também como ele, odiavam a Igreja e os padres. Mas Mussolini logo deixou de atacar os padres e os capitalistas que lucravam com a guerra para denunciar os socialistas, culpados por se oporem à entrada da Itália no conflito. Assim, recrutas começaram a fluir da extrema-direita.
De suas sedes nas cidades do norte e do centro da Itália, fascistas de camisas negras amontoavam-se em carros e saíam pelo interior em violentas incursões, incendiando sindicatos, salas de reuniões de socialistas e redações de jornais de esquerda. Mussolini tinha pouco controle direto sobre esses squadristi, encabeçados por chefes fascistas locais conhecidos como ras. Durante três anos, a partir de 1919, esses bandos cada vez mais numerosos passaram a atacar com frequência funcionários e militantes socialistas, espancando-os e forçando-os a tomar óleo de rícino. Os squadristi tinham um prazer sádico em usar o óleo, que provocava não apenas náusea, mas também uma diarreia humilhante e incontrolável. Prefeitos e vereadores socialistas fugiam em pânico, deixando grandes
porções da Itália nas mãos de rufiões fascistas. 5
Essas “expedições punitivas” também tinham como alvos os membros do partido político católico da Itália. O Partido Popular foi uma nova tentativa dos católicos do país de competir na disputa por influência política. O fato de o Vaticano ver com benevolência a criação de um partido católico italiano era novidade. Em 1861, Vítor Emanuel II, rei do Estado saboiano baseado em Turim, no noroeste do país, proclamara um novo reino da Itália, anexando boa parte da península italiana. Ele adquiriu diversos territórios num misto de rebelião e conquista, entre eles uma grande porção das terras governadas havia séculos pelos papas. Só Roma e seu interior continuavam a fazer parte dos Estados papais. Então, em 1870, o Exército italiano também tomou Roma, declarando-a como a nova capital da nação. O papa Pio IX bateu em retirada para o Vaticano, jurando que dali não sairia até a restauração de seus domínios.
O pontífice excomungou o rei e proibiu os católicos de votarem nas eleições nacionais ou se candidatarem ao parlamento. Com isso, esperava ganhar apoio internacional à devolução de Roma ao controle papal. Mas, à medida que o século XIX avançava, essa possibilidade se tornava cada vez mais remota. Enquanto isso, uma nova ameaça surgiu, com o rápido crescimento do movimento socialista. Desde a época de Pio IX, em meados do século XIX, os papas haviam condenado o socialismo. Em 1891, em sua famosa encíclica Rerum novarum, o papa Leão XIII acusou os socialistas de explorarem “a inveja que o pobre tem do rico”. Criticou ferozmente a proposta deles de abolir a propriedade privada. No alvorecer do novo século, o Vaticano já deixara claro que o socialismo era um dos mais formidáveis inimigos da Igreja.
No começo do século XX, com a ampliação do direito ao voto na Itália, a proibição de votar imposta pelo Vaticano ficou insustentável. Se a Igreja não tomasse alguma providência, os socialistas provavelmente chegariam ao poder. Em novembro de 1918, Luigi Sturzo, um padre siciliano, teve um encontro com o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Gasparri, para conversar a respeito de seus planos para a criação de um partido católico, a ser chamado de Partido Popular Italiano. Ele ofereceria um programa progressista, com o objetivo de afastar camponeses e operários dos socialistas. Foi lançado formalmente no início do ano seguinte, com a bênção de Bento XV. Em 1922, já era
um dos maiores partidos do país.6
* * *
O CONCLAVE DAQUELE ano se transformou num confronto entre duas facções. De um lado havia os cardeais apelidados de zelanti, os intransigentes. Eles viam os dias de Pio X de forma nostálgica e ansiavam por retomar a cruzada da Igreja contra os males dos tempos modernos. Do outro lado, os moderados, conhecidos como os “políticos”, esperavam dar continuidade às políticas de Bento XV, menos radicais e mais em consonância com o mundo para além da Igreja. O secretário de Estado de Pio X, Rafael Merry del Val, encabeçava os zelanti. Pietro Gasparri, secretário de Estado de Bento, comandava os moderados. O conclave tomou a forma de uma batalha épica em torno dos rumos que a Igreja Católica seguiria no século XX — uma batalha que se tornou ainda mais dramática pela incerteza do resultado. Parecia impossível que qualquer das facções obtivesse os dois terços necessários para ganhar a
eleição, e não havia nenhum óbvio candidato de conciliação. 7
Se o cardeal Gasparri era por vezes chamado de pecoraio, pastor, não era no sentido idílico. Com sessenta e nove anos à época do conclave, vinha de uma família camponesa que vivia em uma pequena aldeia de criadores de ovelhas nos montes Apeninos, na região central da Itália. O apelido — que ele adorava — se devia às conotações italianas de ser um caipira, um parvenu entre os sofisticados da hierarquia eclesiástica. Quando Gasparri era criança, sua família seguia os rebanhos para as montanhas na primavera, voltando no outono para o vale, onde Pietro era enviado à escola paroquial. Menino inteligente, ingressou em seminários católicos para completar sua instrução, mas, ao contrário de muitos outros integrantes do serviço diplomático do Vaticano, não estudou na prestigiosa Pontifícia Academia de Nobres Eclesiásticos, tradicionalmente destinada aos filhos da aristocracia.
Gasparri tornou-se um homem baixo e rotundo, um sacerdote que parecia se mover sem que os pés saíssem do chão. Suas roupas “mostravam uma inusitada indiferença ao asseio”. Mas era popular no corpo diplomático, compensando em bonomia o que lhe faltava em verniz. Muito gesticulador, com olhos brilhantes e riso fácil e frequente, estava sempre ajeitando o barrete na cabeça. Gasparri se via — e era visto por outros — como detentor da astúcia, da intuição, da tenacidade e da capacidade de trabalho próprias de um camponês. “Os olhos negros e
tenazes”, notou um observador, “traíam sua sutileza.” 8
O conclave começou na noite de 2 de fevereiro, na capela Sistina. Cada um dos cinquenta e três cardeais recebeu uma cadeira diante de sua pequena mesinha pessoal. Entre os ausentes estavam os dois cardeais dos Estados Unidos, ainda num navio em algum ponto do Atlântico. Os trinta e um italianos eram maioria, e qualquer candidato só conseguiria ser eleito com forte apoio deles. No altar na frente da capela havia um grande crucifixo com seis velas acesas. A cada vez que um voto era anunciado, os cardeais se aproximavam do altar, um de cada vez, por ordem de precedência. Ao pé do altar, eles se ajoelhavam, passavam um momento rezando e recitavam um voto em latim prometendo escolher o homem que, na sua opinião, Deus queria que fosse eleito. Em seguida, depositavam o papel dobrado com seu voto e então se curvavam diante da cruz antes de voltar para o seu lugar.
Duas votações eram realizadas de manhã e duas à tarde. Três cardeais, escolhidos por sorteio, contavam os votos. Nos dias que se seguiram, o solene ritual foi repetido catorze vezes, perturbado em apenas uma ocasião, quando, ao se levantar da cadeira, um cardeal dominicano
esbarrou na mesa, derramando um vidro de tinta na batina branca. 9
Doze cardeais receberam votos. No segundo dia, Merry del Val obteve o que seria seu recorde, dezessete. Gasparri recebeu vinte e quatro na sexta votação, mas empacou nesse número na sétima e na oitava. Em frente ao Vaticano, uma grande multidão de romanos — tanto curiosos quanto devotos — aguardava com ansiedade. “Só uma coisa é certa:
ninguém sabe de nada”, informou o jornal francês Le Figaro. 10 O cardeal Gasparri passou a noite depois da oitava votação acordado na cama, convencido de que jamais seria papa. Pela manhã, antes que o terceiro dia de votação começasse, ele foi ver o mais novo participante do conclave, Achille Ratti. Para surpresa do cardeal, nomeado poucos meses antes, Gasparri disse que insistiria para que seus eleitores votassem no jovem prelado.
* * *
RATTI NASCEU EM 1857, na pequena cidade de Desio, na região profundamente católica de Brianza, ao norte de Milão, onde o pai comandava uma fábrica de seda. A mãe, católica devota, era uma mulher organizada e intimidadora, dessas que parecem nascidas para administrar algo maior do que uma casa. Posteriormente, Ratti costumava falar nela com profundo afeto e respeito, mas nunca mencionava o pai. Na época em que o cardeal nasceu, Desio e Milão faziam parte do Império Austro-Húngaro, e as lembranças mais antigas que ele guardava eram de quando tinha dois anos e o pai lhe contara que forças francesas e saboianas
estavam lutando contra o Exército austríaco ali perto. 11 Dali a algumas semanas, a colcha de retalhos de ducados e reinos que havia muito compunham a península italiana foi dissolvida, e uma nova e unificada nação italiana ganhou forma.
Como não havia escola em Desio, aos dez anos Achille foi morar com o tio, um pároco da minúscula cidade de Asso, perto do lago de Como. A presença frequente de padres das redondezas, um grupo muito sociável, animava a casa do tio. Achille decidiu que queria ser padre e logo partiu para um seminário. No verão, ele não voltava para a casa dos pais, e sim para a do tio. O seminário impunha uma disciplina feroz. Os padres tinham que obedecer sem questionar, e as regras eram seguidas ao pé da
letra. Nada disso incomodava o menino estudioso. 12 Os colegas chamavam-no de “o velhinho”, pois Achille preferia ficar sozinho
meditando a sair para brincar com os outros meninos. 13
Em 1875, Ratti ingressou no seminário em Milão para se tornar sacerdote. Lia vorazmente, não apenas os clássicos italianos, como Dante, mas também literatura inglesa e americana. Manifestava tanta preocupação com os desafios enfrentados por Jim, o parceiro escravizado de Huckleberry Finn na história de Mark Twain, que os colegas o apelidaram de l’africano. O apelido não pegou, mas Achille se declarava muito feliz com ele, dizendo que um dia haveria de servir como missionário na África. O autor predileto de Ratti era o escritor milanês Alessandro Manzoni. Um dia, muitos anos depois, quando Achille já era papa, o mestre de cerimônias entrou no seu estúdio e, como era de hábito, ajoelhou-se à espera de instruções. O papa andava de um lado para o outro, absorto na leitura em voz alta de um trecho do romance Os noivos, de Manzoni. Só vinte minutos depois parou e notou a presença do sacerdote ajoelhado. Pediu desculpas pela demora, mas acrescentou com um sorriso: “São páginas que merecem ser ouvidas de joelhos,
monsenhor!”14
Depois de quatro anos em Milão, Ratti se mudou para Roma, a fim de continuar seus estudos na Faculdade de Lombardo, recém-aberta. Roma tinha sido governada por papas por mais de um milênio, mas nove anos antes fora conquistada e passara a ser a capital da recém-unificada nação italiana.
Com um metro e setenta e três de altura, tronco robusto e ralos cabelos louros, Ratti já usava os óculos redondos que se tornariam sua marca registrada e lhe davam a aparência de um jovem erudito. Ordenado em Roma, na grande basílica de São João de Latrão, em dezembro de 1879, ele permaneceu mais três anos na Cidade Eterna, estudando na Universidade Gregoriana, onde os jesuítas do corpo docente lecionavam em latim.
Em 1882, voltou para Milão e logo foi nomeado professor de oratória sacra e de teologia do Grande Seminário da cidade. Apesar da matéria que lecionava, ele não era muito eloquente. Preocupado demais em ser completamente claro, falava muito devagar, lutando para encontrar as palavras certas e corrigindo-se quando dizia algo que não lhe parecia
perfeito. 15 Nunca muito sociável, Ratti de certa maneira se sentia mais à vontade entre livros do que entre pessoas. Depois de seis anos como professor, tornou-se assistente da Biblioteca Ambrosiana de Milão, que, entre suas inigualáveis coleções de manuscritos antigos, possuía tesouros como o Codice atlantico, de Leonardo da Vinci. Ratti sabia não apenas latim, mas também grego, francês e alemão.
Porém, Ratti não era apenas um rato de biblioteca. Quando jovem em Milão, desenvolveu uma paixão por alpinismo e ingressou na seção local do Clube Alpino Italiano. No inverno, junto com o companheiro de escaladas, um colega sacerdote, ele pesquisava tudo que pudesse encontrar sobre a melhor forma de abordar as montanhas que escalariam no verão seguinte. Estava convencido de que o êxito era uma questão de planejamento. De 1885 a 1911, participou de cem escaladas alpinas, todas
com mais de dois mil e quatrocentos metros de altura.16 O choque do ar frio, o poder dos penhascos alpinos e a paisagem que se estendia lá
embaixo, tudo isso era um testemunho da glória da criação de Deus.17
Quando o prefeito da Biblioteca Ambrosiana morreu, em 1907, o cinquentão Ratti assumiu seu lugar. Quatro anos depois, o chefe da Biblioteca do Vaticano decidiu que era hora de encontrar um sucessor. Como diretor de uma biblioteca que só perdia em reputação para a do próprio Vaticano, Achille Ratti não chegou a ser uma escolha surpreendente. O jornal de Milão deu a notícia da nomeação acompanhada de uma fotografia. Nela aparecia um prelado calvo, mas a característica mais notável de Ratti continuava a ser os óculos redondos. Junto com sua postura séria — alguns diriam melancólica —, os óculos lhe davam um ar de austero intelectual da Igreja. Mas ele tinha um interesse paternal pelos funcionários da biblioteca. Para ajudá-los a alimentar suas famílias durante a Grande Guerra, pediu permissão a Bento XV para transformar o pátio da Biblioteca do Vaticano numa horta para uso deles. Quando um funcionário adoecia, Ratti ia pessoalmente levar-
lhe doces ou um bom vinho. 18
Se tivesse continuado como bibliotecário do Vaticano, como supôs que aconteceria, Ratti jamais estaria numa posição que lhe permitisse tornar-se papa em 1922. Mas em março de 1918 recebeu um pedido surpreendente: Bento XV queria que ele fosse imediatamente a Varsóvia como seu representante pessoal. Ainda não está claro por que o papa o escolheu para a delicada missão. Ratti não tinha experiência alguma em diplomacia e nenhum conhecimento especial sobre a Polônia. Estranhamente, ao discutir sua nomeação, os cardeais da Congregação para Assuntos Eclesiásticos Extraordinários se enganaram e pensaram que
ele falava polonês.19 Aos sessenta e um anos, Ratti ficou apreensivo com a nova tarefa, mas, obediente, partiu em maio. Fora levado a supor que se ausentaria por apenas alguns meses, com a incumbência de preparar um relatório para o papa sobre a situação polonesa.
A carnificina da Grande Guerra mal terminara quando ele chegou a Varsóvia, no momento em que os poloneses se preparavam para o renascimento de seu país independente. Fazia um século que a maior parte da nação vivia sob domínio russo, e o restante passara muito tempo sob controle alemão ou austríaco. A missão de Ratti era delicada, pois as fronteiras do novo Estado polonês ainda não estavam assentadas, e a tensão era grande.
Viajando pelo país, um dos sentimentos que o bibliotecário do Vaticano ouvia os sacerdotes expressarem com mais frequência era o ódio contra os judeus, vistos como inimigos da Polônia católica. Enquanto o contingente judaico na Itália era minúsculo — apenas um habitante em mil —, na Polônia um décimo da população era de judeus. Dez anos antes, Ratti tivera aulas de hebraico com o rabino-chefe de Milão, e a população judaica da cidade, amplamente assimilada, não lhe dava
qualquer preocupação. 20 No entanto, embora suas próprias relações com a pequena comunidade judaica de Milão fossem cordiais, ele sabia que o Vaticano tinha uma visão muito mais negativa dos judeus.
A história da demonização dos judeus pela Igreja é antiga, remontando a pouco depois das origens do cristianismo como seita judaica. Em 1555, o papa Paulo IV baixou uma bula papal, Cum nimis absurdum, ordenando que todos os judeus em terras sob seu controle vivessem em guetos. O contato de judeus com cristãos deveria ser severamente limitados e eles só poderiam trabalhar nas funções mais servis. O papa argumentava que os judeus haviam sido condenados por Deus à “eterna escravidão” pelo pecado de terem assassinado Jesus e rejeitado seus ensinamentos. Só em 1870, com a conquista italiana de Roma, a população judaica foi
plenamente libertada dos guetos da cidade.21
Nas duas últimas décadas do século XIX, La Civiltà Cattolica, a revista jesuíta quinzenal supervisionada com rigor pelo Vaticano, atacara os judeus de modo implacável. A publicação não era lida pelas massas católicas, pois era destinada a um público mais intelectualizado. Na verdade, sua principal função era oferecer aos formadores de opinião católicos, aos editores de jornal e às camadas superiores do clero o acesso à perspectiva do Vaticano sobre assuntos do momento. Alguém na posição de Achille Ratti na Biblioteca Ambrosiana podia ler todos os números publicados.
“Os judeus”, advertia a revista em uma de suas inúmeras denúncias, “crianças eternamente insolentes, obstinadas, sujas, ladras, mentirosas, ignorantes, pragas e flagelo dos próximos e dos distantes (...) conseguiram pôr as mãos em (...) toda a riqueza pública (...) e praticamente sozinhos assumiram o controle não apenas de todo o dinheiro (...) mas da própria lei nos países onde têm permissão de ocupar cargos públicos.” A revista supervisionada pelo Vaticano insistia que fazia muito tempo que a Igreja ensinava que os judeus deveriam continuar separados dos cristãos. Caso contrário, a população judaica reduziria os católicos a escravos: “Ah, como estão errados e iludidos aqueles que acham que o judaísmo é apenas uma religião (...) e não uma raça, um povo e uma nação!” Em sua condição de pernicioso grupo estrangeiro, acusava a revista, os judeus jamais poderiam ser leais ao país em que viviam, pois planejavam explorar
a generosidade daqueles que tolamente lhes concediam direitos iguais.22 Poucos meses depois de Ratti ser eleito papa, a publicação daria prosseguimento à campanha numa série de artigos que responsabilizavam os judeus pela Revolução Russa e faziam soar o alarme contra uma vasta
conspiração judaica destinada a governar o mundo.23
Imerso em uma Igreja na qual essas opiniões sobre os judeus estavam profundamente enraizadas, Ratti não poderia deixar de ser afetado pelo arraigado antissemitismo que encontrou na Polônia. Os vários relatórios escritos que recebeu mostravam como os membros da elite católica polonesa estavam preocupados com a ameaça judaica. Os judeus eram acusados de terem se aliado aos invasores alemães na guerra que ocorrera pouco tempo antes e de atuarem como agiotas gananciosos em cidades e vilarejos do país. Ratti ficou particularmente impressionado com a
acusação de que o movimento bolchevique era obra dos judeus.24 Em outubro de 1918, ele atribuiu a mais recente agitação na Polônia aos “partidos extremistas empenhados em provocar a desordem: os
anarcossocialistas, os bolcheviques (...) e os judeus”. 25 Uma onda de pogroms , atos de violência em massa, levou ao assassinato de muitos judeus e ao incêndio criminoso de suas casas na Polônia. Incumbido por Bento XV — menos simpático às teorias conspiratórias antissemitas do que seus antecessores — de verificar se as histórias dos pogroms eram verídicas, Ratti respondeu que era difícil dizer. Mas insistiu em afirmar que a população judaica do país era um elemento perigoso: embora os poloneses fossem católicos bons e leais, ele temia “que pudessem cair nas garras das más influências que lhes preparam armadilhas e os ameaçam”. Ratti não deixou dúvidas sobre quem eram esses inimigos, acrescentando: “Uma das piores e mais fortes influências sentidas aqui, talvez a mais forte e a
pior de todas, é a dos judeus.”26
No outono de 1919, o Vaticano reconheceu oficialmente o novo Estado polonês. Ratti teve sua missão prorrogada e foi designado núncio papal. No verão seguinte, depois de uma série de batalhas contra as forças polonesas no Báltico e na Ucrânia, o Exército Vermelho avançou Polônia adentro e chegou perto de Varsóvia. Homens, mulheres e crianças se armaram, prontos para defender a cidade. Muitos estrangeiros fugiram, mas Ratti se manteve firme. Em 15 de agosto, enquanto os habitantes armados aguardavam, nervosos, uma contraofensiva polonesa expulsou as tropas bolcheviques. Para Ratti, a experiência foi traumática. A convicção de que as democracias ocidentais eram incapazes de compreender a
ameaça comunista o acompanharia pelo resto da vida.27
Em 1921, Bento XV chamou Ratti de volta à Itália, nomeando-o arcebispo de Milão. Com pouca experiência pastoral, pois atuara como bibliotecário durante a maior parte da vida, Ratti foi uma escolha inusitada, mas Bento ficara impressionado com sua competência, sua
devoção à Igreja e seu desprendimento.28 O fato de que Ratti vivera a maior parte da vida em Milão sem dúvida pesou na balança. Com a nomeação veio o chapéu cardinalício, tradicionalmente concedido ao
chefe da maior e mais rica arquidiocese da Itália.29
* * *
NO MEIO DO conclave, quando perceberam que nem Merry del Val, nem qualquer um de seus próprios candidatos levaria a melhor, os zelanti também decidiram marcar um encontro secreto com Achille Ratti. Pareciam ter achado que ele poderia ser um bom candidato de conciliação, uma vez que não se identificava com qualquer das duas facções. Também pensavam que seria mais fácil influenciar alguém com tão pouca experiência na hierarquia da Igreja, em especial se ele atribuísse sua eleição ao apoio deles. O cardeal De Lai, chefe da congregação do Vaticano encarregada de escolher bispos, procurou Ratti com uma oferta, falando em nome dos doze cardeais do seu grupo.
2. Achille Ratti, arcebispo de Milão, 1921
— Votaremos em Vossa Eminência, se prometer que não escolherá o cardeal Gasparri como secretário de Estado — disse-lhe De Lai.
— Espero e rezo para que, entre tantos cardeais de alto mérito, o Espírito Santo escolha outra pessoa — respondeu Ratti. — Mas, se eu for escolhido, é de fato o cardeal Gasparri que vou nomear como meu
secretário de Estado — acrescentou. 30
Não se sabe se Ratti já tinha feito uma promessa para Gasparri, embora isso pareça provável. Principiante em assuntos do Vaticano, é possível que desejasse ter o experiente diplomata ao seu lado. Ou talvez fosse mais astuto do que pensavam, reconhecendo o valor de um secretário de Estado que o ajudasse a se proteger das demandas dos zelanti.
— Vossa Eminência cometeria um erro grave — advertiu o cardeal De Lai.
— Receio que não seja o único erro que eu provavelmente cometeria se me sentasse no trono de Pedro, mas sem dúvida seria o primeiro.
Na décima segunda votação, a última do terceiro dia, vinte e sete
cardeais deram seu apoio ao arcebispo de Milão.31 No dia seguinte, bem cedo, os cardeais se reuniram mais uma vez na capela Sistina. Às dez da manhã começaram a depositar o décimo terceiro voto, que mais uma vez foi inconclusivo. Só na votação seguinte Achille Ratti ultrapassou a marca dos dois terços.
Cinquenta e dois cardeais formaram círculos concêntricos em torno do atônito prelado, sentado com as costas retas na cadeira e a cabeça inclinada, como se os ombros suportassem um novo peso. O cardeal diácono fez a pergunta obrigatória, numa voz que até os quase surdos seriam capazes de ouvir e entender. “O senhor aceita a eleição que o escolhe canonicamente para ser o sumo pontífice?”
Ratti não respondeu de imediato, e alguns cardeais ficaram nervosos. Depois de dois minutos, ele levantou a cabeça e respondeu em latim. A voz tremia de emoção. “Apesar de profundamente consciente do meu desmerecimento”, foi o que disse. Os cardeais sabiam que tinham um
novo papa.32
Enquanto isso, um trem vindo de Nápoles parava na estação de Roma, do outro lado do Tibre. Dele saíram os dois cardeais americanos, William O’Connell, de Boston, e Dennis Dougherty, da Filadélfia. Depois da longa travessia oceânica a bordo do navio Woodrow Wilson e de viajar o mais rápido possível de Nápoles para Roma, os dois ficaram muito chateados ao descobrir que haviam chegado tarde demais. O’Connell tinha um motivo especial para ficar descontente, pois devia sua carreira em grande parte à proteção do cardeal Merry del Val. Se ele e Dougherty estivessem lá para lhe dar apoio, talvez as coisas tivessem sido diferentes. Mais irritante ainda era o fato de que a mesma situação ocorrera quando Pio X morrera, sete anos e meio antes: nenhuma providência fora tomada para dar aos americanos tempo de chegar a Roma. Naquela ocasião, O’Connell também só chegara quando o novo
papa já estava eleito.33
Da capela Sistina, Ratti foi escoltado para um provador, onde vestiu o manto papal branco pela primeira vez. Três mantos tinham sido preparados, para fazer face a qualquer eventualidade: um pequeno, um médio e um grande. O de tamanho médio lhe serviu com perfeição. Ele usava uma batina branca, meias brancas de seda e sandálias vermelhas de seda com uma capa vermelha de veludo, as bordas forradas de arminho. Na cabeça, sobre um barrete branco, pôs um camauro, um chapéu papal com acabamento de arminho, enfiado até as orelhas. Quando ele voltou para a capela Sistina e caminhou para o trono em frente ao altar, os cardeais se ajoelharam. Então se aproximaram dele, um de cada vez, beijando-lhe o pé e pedindo a bênção. Se seguisse a prática de seus quatro predecessores, o homem que adorava caminhar pelas montanhas nunca
mais deixaria os claustrofóbicos confins dos palácios do Vaticano.34
O mundo assistia ansioso para ver quem emergiria do conclave. Os quarenta milhões de italianos, dos quais noventa e nove por cento eram católicos, eram os mais interessados, mas os duzentos e sessenta milhões de católicos romanos fora da Itália aguardavam a notícia com igual
ansiedade.35
Multidões aguardavam na praça de São Pedro desde o início do conclave, os olhos voltados para a chaminé, onde a fumaça produzida pela queima dos votos de papel depois de cada votação lhes diria se um
novo pontífice tinha sido eleito. 36 Em quatro dias, a chaminé soltara treze vezes uma fumaça negra. No entanto, perto do meio-dia do quarto dia, enquanto a multidão ensopada se apinhava sob um céu chuvoso, braços começaram a apontar para a fumaça branca que subia do palácio Apostólico. Quarenta e cinco minutos depois, um cardeal surgiu na sacada central da igreja de São Pedro, de frente para a praça, e ergueu lentamente o braço direito. “Habemus papam... temos um papa.” Achille Ratti escolhera o nome de Pio XI, explicando que Pio IX fora o papa da sua juventude e Pio X o chamara a Roma para dirigir a Biblioteca do
Vaticano. 37 O homem que até poucos anos antes presidira um pequeno grupo de bibliotecários agora era responsável pelos trezentos milhões de católicos do mundo.
As multidões delirantes começaram a avançar para a porta da basílica de São Pedro. Desde 1870, quando tropas italianas tomaram Roma e os papas se proclamaram “prisioneiros do Vaticano”, nenhum pontífice havia aparecido ao ar livre, nem mesmo numa das janelas que davam para a praça de São Pedro. Todos os três papas eleitos desde a morte de Pio IX tinham dado a bênção aos fiéis dentro da basílica.
Algo surpreendente atraiu os olhares da multidão. Membros da nobre guarda papal apareceram no balcão em cima da imponente porta central de São Pedro, de frente para a praça, e penduraram um tapete vermelho com o brasão papal na balaustrada. Quando o pontífice emergiu no balcão, vestido de branco, para abençoar o povo, o silêncio se espalhou pela vasta praça e todos se ajoelharam. Nenhum dos presentes esqueceria a visão de soldados italianos, posicionados na praça para manter a ordem, apresentando suas armas junto com a Guarda Suíça. Juntos eles saudaram
o novo papa. 38 Foi um raro momento de paz numa cidade tomada pelo pânico. A violência e o caos se disseminavam pelo país, e o governo estava paralisado. Antes do fim do ano, o novo pontífice teria que tomar uma decisão de enorme importância.