O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 30 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo vinte e sete

 

UMA MORTE CONVENIENTE

 

Depois de dezesseis anos alimentando sua parceria com o Vaticano, Mussolini começou a deixar que a megalomania, a intensa admiração pelo Terceiro Reich e o sentimento de invencibilidade interferissem em seu julgamento político. O papa se sentia miseravelmente usado. Cada vez mais frágil, sabia que a morte não tardaria.

O assalto à concordata na Itália e a perseguição da Igreja na Alemanha tinham semeado a infelicidade entre os cardeais. “Nossa atitude na questão racial e em especial com relação aos judeus”, disse Pignatti a Ciano em meados de dezembro, “tem tido fortes repercussões no Sacro Colégio, cuja maioria agora pode ser considerada desfavorável ao fascismo.” Os cardeais temiam que Mussolini viesse a imitar Hitler e lançasse uma campanha contra a influência do clero na Itália.

O ditador italiano continuava desafiador e, na opinião de Pio, sem demonstrar o respeito devido ao pontífice. Desiludido e desanimado, o papa temia não ter sido merecedor da sagrada confiança nele depositada. Havia deixado os sentimentos patrióticos de cidadão italiano prejudicarem seu discernimento. Prometeu fazer o que pudesse no pouco tempo que ainda lhe restava para corrigir seus erros.

Ao saber da nova determinação do papa, Pignatti ficou apavorado. “O pontífice ameaçou fazer alguma coisa antes de morrer que seja lembrada na Itália por muito tempo”, disse ele a Ciano, enfatizando as palavras. Pio XI, advertiu ele, poderia usar as comemorações do décimo aniversário do Tratado de Latrão para pronunciar uma genérica “condenação do

fascismo”.1

Informado sobre essa última advertência, Mussolini explodiu. Pio já morreria tarde. O papa não se dava conta de tudo o que o ditador tinha feito por ele. Não era de hoje que os italianos ressentiam o poder da Igreja. Ele, Mussolini, era quem mantinha os críticos da Igreja sob controle. Se o papa queria jogar o próprio jogo, ele também jogaria o seu, pois sabia como “estimular as sensibilidades anticlericais do povo”. A Igreja estava em declínio havia muito, essa queda só estagnara graças aos esforços do Duce para não deixá-la cair. Se os italianos ainda iam à missa, era só porque sabiam que o seu Duce queria que eles fossem. Depois de uma série de veementes protestos dessa natureza, o ditador se acalmou e, sem dúvida incentivado por Ciano, reconheceu, relutante, que não era hora de o papa convocar os católicos para abandonarem o regime fascista.

Ele precisava encontrar uma maneira de impedir o rompimento. 2

Um bispo francês em visita a Roma em meados de dezembro achou o papa muito inquieto, triste, desanimado e ainda se queixando de que Mussolini não respondera à sua carta pessoal sobre a lei matrimonial. “Você é jovem”, disse Pio ao prelado francês. “Viverá para ver mais

coisas horríveis do que a Igreja viu durante séculos.”3

Na véspera do Natal, os cardeais se reuniram em volta do papa no Vaticano para receber sua bênção anual. Pacelli, Tardini e os outros membros do clero próximos a Pio estavam nervosos. Em geral, ele mandava o texto de antemão para a Secretaria de Estado, mas não dessa vez.

Sentado no trono, o pontífice segurava as anotações manuscritas com as mãos trêmulas. Começou num tom muito caloroso. Dia 11 de fevereiro seria o décimo aniversário da concordata, lembrou aos cardeais. Agradecimentos deveriam ser feitos “ao mais nobre dos soberanos e ao seu incomparável ministro, a quem se deveria dar crédito por uma obra tão benéfica e importante ter sido coroada de bom resultado e de um êxito gratificante”.

Mas, após elogiar Mussolini, ele repetiu as palavras que poucos meses antes tinham deixado o Duce tão furioso: lamentou “a recente apoteose em Roma, preparada para uma cruz que é inimiga da Cruz de Cristo”. Depois, vinculou a aparição da suástica na Cidade Eterna à ferida recém-

infligida na concordata e à perseguição de membros da Ação Católica. 4

Aborrecido, o cardeal Pacelli tentou convencer o papa a apagar a frase ofensiva sobre a suástica na versão publicada de sua fala. Era irrelevante para o argumento principal do pontífice, afirmou, pois ele vinha se concentrando na Itália e não na Alemanha. Mas Pio sabia exatamente o que estava dizendo. Precisava advertir os italianos contra os nazistas. Os rogos de Pacelli, lembrava-se Tardini, foram todos em vão. “O papa se manteve firme.” No dia seguinte, L’Osservatore Romano publicou seu texto

na íntegra. 5

Mais uma vez, Mussolini ficou furioso, vendo os comentários do papa

como outro ataque ao eixo Roma-Berlim.6 O iminente aniversário do Tratado de Latrão aos poucos adquiria a aparência de um confronto dramático. Pio achava que Mussolini tinha duas opções: usar a data para mostrar ao mundo que ainda observava o acordo ou, esnobando o papa, declarar guerra ao Vaticano. O núncio, ansioso para aliviar a tensão, propôs que o Duce visitasse Pio XI no dia do aniversário, mas o ditador rejeitou a sugestão. Já tinha prestado seu tributo ao papa uma vez, e não o

faria de novo. 7

Os homens do círculo mais íntimo do Duce temiam que ele estivesse perdendo o contato com a realidade. Às vezes Mussolini reconhecia com clareza a importância do apoio do Vaticano e até criticava Hitler por hostilizar a Igreja. No entanto, ficava cada vez mais imprudente. No fim do ano, em seu refúgio costeiro na Romanha, refletiu muito sobre as fatídicas decisões a serem tomadas nos meses seguintes. O embaixador francês na Itália capturou o clima: “Os amigos do ditador, seus íntimos, são (...) os primeiros a confirmar que ele está se cercando de um véu de sigilo cada vez mais impenetrável, que ele já não é o mesmo de antes, que mudou muito, que já não recebe ninguém e que ninguém, hoje, salvo talvez Ciano, sabe o que ele está preparando ou em que direção está

indo.”8

 

* * *

 

O CASO DO duce com Clara Petacci era cada vez mais objeto de comentários depreciativos, mas ele estava decidido a não desistir dela. Dois meses antes, uma de suas antigas empregadas foi pedir ajuda. Ele lhe deu algum dinheiro, mas, antes de partir, ela, tímida, perguntou se ele sabia o que Roma inteira comentava. Com relutância, o Duce insistiu para que a mulher dissesse o que sabia. “Dizem”, contou ela, “que o senhor tem uma jovem amante que é filha de um figurão do Vaticano.”

“A fofoca de sempre, fantasie”, retrucou o Duce, que não gostou nem um pouco daquilo. Tivera muitas amantes nos anos anteriores e nunca sentira medo de que a descoberta desses casos prejudicasse a sua reputação. De fato, até achava que eles contribuíam de modo positivo para a sua imagem. Mas ser vinculado ao Vaticano dessa maneira lhe

parecia desagradável. 9

De volta ao seu gabinete no dia de Ano-Novo, Mussolini ligou para Clara às nove e quinze da manhã, depois mais três vezes antes de enfim telefonar, às duas e quinze da tarde, para dizer que ela podia se juntar a ele. Quando a amante chegou, ele estava sentado numa poltrona no escuro, apenas com uma pequena luz acesa do lado. Havia caído no sono. Quando acordou, pediu à jovem que se sentasse em seu colo, então fizeram sexo. Ele comeu uma tangerina enquanto se vestia, depois voltou para o gabinete e retornou às sete e meia da noite. Sentado com uma pilha de papéis, resmungava imprecações enquanto lia: “Esses porcos franceses! Ouça isto (...) Que idiotas!” Andou de um lado para o outro, o humor piorando, e disse a Clara que a odiava, como costumava fazer antes de cumulá-la de declarações de amor. “Jamais amei alguém”, disse ele. “Tive muitas mulheres, mas era como uma porta giratória.” Agora estava muito menos selvagem, disse: e só tinha relações com as duas mulheres que ela sabia — Romilda Ruspi e Alice Pallottelli —, e mesmo assim porque tinham dado à luz filhos dele. Outrora tinha amado Margherita Sarfatti, admitiu, mas por uns dois anos, e a traíra com regularidade. Em seguida, os amantes ligaram o fonógrafo e ouviram a Quinta Sinfonia de Beethoven, abraçados, com o casaco de pele de Clara estendido por cima. “Ele segura minha cabeça contra o peito e de vez em quando me acaricia”, escreveu Clara em seu diário, “mas está sempre um

pouco distraído.” 10

No dia seguinte, o Duce convocou Ciano e Pignatti para discutir os acontecimentos recentes. Ainda meditava sobre a frase “incomparável ministro” que o papa empregara referindo-se a ele em sua fala de Natal. Tinha certeza de que o papa estava sendo sarcástico, achando que ele era um idiota. “Não queremos um conflito”, disse Mussolini aos dois homens, “mas não recuaremos diante de ninguém, e nesse caso vamos despertar o adormecido rancor anticlerical.” Temeroso da direção que a raiva do Duce poderia tomar, Pignatti tentou defender o pontífice, e Ciano também achou que seria loucura arriscar-se a excluir a Igreja. Mas Mussolini queria pressionar e preparou uma dura nota de advertência para

que seu embaixador entregasse ao secretário de Estado do Vaticano. 11

Pignatti apresentou a nota do Duce a Pacelli no dia seguinte. O cardeal insistiu em afirmar que a frase que tanto aborrecera Mussolini — “incomparável ministro” — tinha sido sincera. O papa quis manifestar seu apreço a tudo o que Mussolini fizera pela Itália e pela Igreja. Pignatti respondeu que as relações com a Santa Sé atravessavam um momento perigoso. Se o Vaticano não tivesse cuidado, advertiu, acabaria se

metendo em encrenca. 12

O que tornou os últimos meses de vida do papa tão penosos foi a constatação de que o sonho de fazer da Itália um Estado confessional — onde a maquinaria do regime autoritário estivesse a serviço da Igreja — tinha sido muito ingênuo. É verdade que ele conseguiu o que nenhum papa moderno tinha conseguido: fazer o governo impor a vontade da Igreja à população italiana. O clero católico agora desempenhava papel ativo em muitas instituições estatais — de escolas a grupos de juventude patrocinados pelo governo — das quais tinha estado ausente. Mas a batalha em torno da lei matrimonial deixara claro que em qualquer assunto que Mussolini considerasse essencial para o regime era ele quem decidia, e não o papa.

O Daily Mail, de Londres, publicou uma reportagem do seu correspondente em Roma afirmando que Pio XI planejava uma reunião secreta de cardeais para redigir uma enérgica e inequívoca denúncia do racismo. Havia rumores de que o papa preparava em segredo uma encíclica com o mesmo objetivo. O cardeal Pacelli negou os rumores, mas disse ao embaixador italiano que o pontífice tinha advertido que “teria mais a dizer e na sua idade não tinha medo”. Ao transmitir essas observações a Ciano, Pignatti lembrou, muito nervoso, o comentário de Pio de que “antes de morrer poderia fazer alguma coisa de que a Itália se

lembrasse por muito tempo”. 13

 

* * *

 

OS COMENTÁRIOS CRÍTICOS do papa sobre o racismo tinham dado aos líderes da Igreja algum espaço para fazerem as próprias críticas. O cardeal Schuster, de Milão, fora o caso mais clamoroso. A possibilidade de outros altos prelados seguirem o seu exemplo deixava Mussolini e seus acólitos

muito preocupados.14

Roberto Farinacci encabeçou o ataque a Schuster, perguntando em Il Regime Fascista como alguém que tinha sido um “superfascista” podia tão de repente ter passado para o outro extremo. Decerto, nada tinha a ver com a religião católica, afirmou Farinacci, pois ao combater os judeus o fascismo combatia “os inimigos do cristianismo, que ofendem e insultam

a Cristo”. 15 Farinacci pediu ajuda ao reitor da Universidade Católica de Milão, o padre Gemelli, daria uma importante palestra pública em Bolonha.

Dois dias antes da data marcada, Farinacci enviou uma carta a Mussolini, dizendo ao Duce que recentemente tinha conseguido fazer Giovanni Cazzani, o bispo de Cremona, pronunciar um sermão em apoio à campanha antissemita. E acrescentou: “Espero ter convencido o padre Gemelli a pronunciar uma do mesmo tipo em Bolonha.”

Uma semana depois L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, publicaria o sermão do bispo de Cremona, o que dava uma aparência de apoio do Vaticano à campanha racial. Todos os bispos da Itália estavam de acordo em relação ao tratamento dado aos judeus, explicou no prefácio o editor do jornal, e suas ideias estavam em perfeita harmonia com as do papa.

“O exagerado racismo germânico”, advertiu o bispo Cazzani, era uma “doutrina contrária à verdade revelada”. Mas o fato de os nazistas terem posto em execução a campanha antijudaica pelas razões erradas não queria dizer que as leis raciais da Itália fossem injustificadas. O problema do exagerado racismo dos nazistas era que ele se estendia aos católicos. “A Igreja”, disse o bispo, “sempre julgou que viver com os judeus — enquanto continuarem judeus — era perigoso para a fé e para a tranquilidade dos povos cristãos. É por essa razão que vemos uma antiga e longa tradição de legislação eclesiástica e de disciplina destinada a conter e limitar a ação e a influência dos judeus no meio dos cristãos e os contatos de cristãos com eles, isolando os judeus e não lhes permitindo exercer cargos e profissões pelos quais possam dominar e influenciar o espírito, a educação e os costumes dos cristãos.” A Igreja, insistia ele, tinha sido injustamente acusada de opor-se às leis contra os judeus. O que ela condenava era “o exagerado racismo alemão”. A Santa Sé “não condenou e não condena qualquer defesa da integridade e da prosperidade da raça, e qualquer precaução legal tomada contra uma

influência judaica excessiva e danosa na vida da Nação”. 16

O padre Gemelli estava em Bolonha em 9 de janeiro para participar de um muito alardeado tributo a um médico do século XIV que ali vivera. De forma incongruente — pois o médico não era judeu —, no fim dos seus comentários, Gemelli voltou a sua atenção para os judeus. Os italianos hoje, disse ele à ilustre plateia, “têm sofrido acima de tudo por causa do conflito entre a Igreja e o Estado, que, como resultado dos esforços das cabalas judaico-maçônicas, tentava reduzir a religião a um assunto particular”. Graças à solução da questão romana, disse ele, os italianos haviam se tornado “unos em sangue, religião, língua, costumes, esperanças, ideais”. Enquanto isso, “aquela terrível sentença que o povo deicida atraiu para si mesmo e pela qual anda vagando pelo mundo é cumprida. Eles são incapazes de encontrar a paz de uma pátria, enquanto as consequências daquele crime horrível os persegue em toda parte e em

todas as épocas”.17

L’Avvenire d’Italia , de Bolonha, o mais influente jornal católico do país, deu ampla cobertura aos comentários de Gemelli. A lição a ser tirada da palestra era “que os cardeais e os bispos sempre e em toda parte combateram o racismo estrangeiro, mas que este nada tinha a ver com a política racial da Itália”. Voltando à palestra, uma semana depois, o jornal informou aos leitores que “a fala do padre Gemelli e o sermão do monsenhor Cazzani (...) são uma ilustração autorizada e solene dessa doutrina católica, que é praticada e ensinada por todos na hierarquia da Igreja, de alto a baixo, e pelo soberano pontífice na infalibilidade do seu

magistério”. 18

 

* * *

O ADOENTADO PAPA dava sinais de estar perdendo o controle da Igreja que por tanto tempo tinha governado com mão de ferro. Os que o cercavam frustravam todas as suas tentativas de impedir que a Itália se juntasse à causa nazista. Quando leu o texto de Gemelli, Pio não resistiu e

chorou, mandando Pacelli sair da sala para que pudesse ficar sozinho. 19 Mas naquela semana o jornal do Vaticano tinha publicado, aprobativamente, a justificação das leis raciais de autoria do bispo de

Cremona. 20 E, se o pontífice ficou aborrecido com os comentários de Gemelli, isso parece não ter afetado em nada as estreitas relações entre os dois. O papa continuava a dar-lhe acesso singular, recebendo Gemelli

mais uma vez em 22 de janeiro.21 Para os italianos que viam uma disputa entre o Estado fascista e o Vaticano em torno das leis raciais, o que estava em jogo não eram as leis que envolviam os judeus, pois essas o Vaticano endossava, mas o flerte de Mussolini com a ideologia racial nazista, que entrava em choque com a doutrina da Igreja e suas ambições universais.

Convencido de que já não tinha muito tempo de vida, o papa viu o iminente décimo aniversário do Tratado de Latrão como a última chance de se dirigir aos bispos, dos quais dois terços haviam sido nomeados por

ele. 22 Sentia-se responsável por eles e, em meio a todos os perigos que o mundo tinha diante de si e de todas as ameaças aos valores cristãos, acreditava ter o sagrado dever de transmitir a vontade de Deus.

O papa queria muito saber se Mussolini estaria em São Pedro para assistir ao seu discurso. O cardeal Pacelli lhe disse que não tinha certeza, mas achava improvável. “Se ele não quer comemorar o décimo

aniversário”, respondeu Pio, “eu o farei.” 23

No Vaticano, não havia como escapar da sensação de que uma era chegava ao fim. Depois de mais de dezesseis anos, logo haveria um novo papa. Boatos se espalhavam pela Europa. Jornais franceses informavam que o pontífice doente, furioso com Mussolini, queria deixar a Itália e mudar-se para a França, e avaliava os méritos relativos de Avignon e Fontainebleau. O Daily Mail e vários programas de rádio ingleses anunciaram que, enquanto preparava o mundo católico para o seu sucessor, o papa planejava mudar-se para Castel Gandolfo em meados do inverno, para redigir um testamento final, denunciando todos os erros da época. L’Osservatore Romano ridicularizou essas notícias, num artigo intitulado “Cronache della Befana” [Contos de fadas]. O papa, informou

o jornal do Vaticano, gozava de “excelente saúde”. 24

Mussolini ainda estava furioso com as queixas de Pio sobre as perseguições à Ação Católica italiana nos comentários de Natal que fez para os cardeais, as quais a imprensa estrangeira citara para trombetear a

insatisfação do papa com o regime. 25 O embaixador italiano transmitiu o desagrado do Duce ao cardeal Pacelli. Ninguém, respondeu Pacelli, seria capaz de impedir essas explosões papais. “A irritabilidade do Santo Padre fica mais acentuada a cada dia que passa”, informou o embaixador a Ciano, “e torna o trabalho de seus colaboradores extremamente difícil.”

De acordo com Pignatti, o pontífice andava obcecado com a ideia de que o governo perseguia grupos da Ação Católica. Pegava incidentes menores e os transformava em grandes problemas. Num encontro recente, Pio tinha pedido a Tardini as notícias mais recentes da Ação Católica. Quando ele respondeu que não havia incidentes significativos a relatar, o papa perdeu o controle. Jogando uma pilha de cartas diante do infeliz Tardini, berrou: “Você nunca sabe de nada. Leia o que eles me escrevem.”

“Meu medo”, disse Pignatti a Ciano, “é que não se possa esperar muita coisa, pelo menos enquanto este pontificado durar.” Acrescentou que Pio XI sofria de “irritação cerebral patológica”, doença que piorava com a idade.

A situação provavelmente melhoraria quando o papa morresse, mas nada deveria ser deixado por conta do acaso. O governo precisava trabalhar com os cardeais da Itália, discretamente. “É necessário”, aconselhou ele, “(...) que haja um bom grupo de cardeais no futuro conclave que possa afirmar, oficialmente, que o governo fascista continua fiel aos seus acordos e ao espírito que os orienta. O decreto sobre casamentos mistos é uma questão menor, ampliada pela irritabilidade do

papa.” 26

Mussolini estava diante de um dilema. Temia participar de uma espetacular produção do Vaticano na qual todas as atenções se concentrassem no pontífice. Por outro lado, porém, não tomar parte nas comemorações daquilo que o mundo via como um de seus grandes triunfos poderia ser interpretado como sinal de fraqueza, como se ele

achasse que já não podia contar com o apoio da Igreja. 27

Mussolini mandou dizer ao cardeal Pacelli que estava disposto a discutir a melhor maneira de organizar as festividades. Propôs uma série de eventos nos quais ele ocupava o centro do palco, como nas comemorações fascistas que presidia regularmente. Ele e o papa fariam discursos separados, trocariam votos de congratulações e celebrariam missas. Mussolini queria celebrar a sua no imenso campo de esportes romano que tinha sido construído em sua homenagem. Não poria os pés em São Pedro. Também desejava oferecer uma recepção aos bispos da Itália enquanto eles estivessem em Roma.

Pacelli transmitiu as propostas do Duce ao papa no dia seguinte, na esperança de encontrar um jeito de apresentar o evento como uma comemoração conjunta da Santa Sé e do Estado italiano. Mas o papa mudou de assunto de repente, passando a atacar Mussolini por não ter respondido à carta sobre a lei matrimonial. Então, voltando às sugestões do ditador para a comemoração, Pio disse que poderia aceitar a troca de mensagens, mas não permitiria que os bispos comparecessem à recepção no palácio Venezia. Seria ele quem os convidaria a Roma, não Mussolini. E, se o Duce quisesse celebrar uma missa em qualquer outro lugar de Roma, o papa decerto não teria nada com isso.

Quanto mais refletia sobre as propostas de Mussolini, mais aborrecido o pontífice ficava. Dois dias depois, disse a Pacelli que tinha mudado de ideia e que não trocaria mensagens de congratulações com o ditador. O Tratado de Latrão fora assinado em nome do rei, disse ele, e qualquer

troca desse tipo deveria ser feita com o monarca, não com o Duce. 28

 

* * *

 

SETE MESES TINHAM transcorrido desde que o papa convocara em segredo o padre LaFarge a Castel Gandolfo para preparar o rascunho de uma encíclica sobre racismo e antissemitismo. Mas não havia recebido nada. Incapaz de guardar o segredo para seus conselheiros por mais tempo, ele falou do projeto a Tardini e lhe pediu que descobrisse com Ledóchowski o que fora feito do trabalho do jesuíta americano.

Ao mandar o rascunho da encíclica a Rosa, meses antes, Ledóchowski tinha incluído um bilhete na capa: “Envio a Vossa Reverência uma cópia do trabalho do padre LaFarge rezando para que dê uma olhada e me diga (...) se pode ser apresentado desta forma ao Santo Padre como um primeiro rascunho.” Ledóchowski se apressou a responder à própria

pergunta: “Duvido muito!” Rosa nunca terminou sua revisão. 29 Na noite de sábado, 26 de novembro, quando trabalhava sentado à sua escrivaninha, o antigo editor de La Civiltà Cattolica, de sessenta e oito

anos, sofreu um ataque cardíaco morreu. 30

Mesmo assim, Ledóchowski não apresentou o rascunho da encíclica ao papa. Em janeiro, ao encaminhá-lo com relutância ao pontífice, anexou uma carta de própria autoria. De modo revelador, referia-se ao tema da encíclica como “nacionalismo”, e não racismo, menos ainda antissemitismo. “Pareceu-nos, ao padre Rosa e a mim”, disse Ledóchowski ao papa, “que o esboço não corresponde ao que Vossa Santidade desejava.” Rosa estava trabalhando num novo esboço, mas morreu antes de completá-lo. Ledóchowski não deu qualquer explicação sobre o que tinha feito com o material depois da morte de Rosa, mas se ofereceu para ajudar o pontífice no que pudesse para preparar uma versão

mais aceitável.31

Boatos sobre a encíclica secreta contra o racismo tinham vazado de alguma maneira, e Mussolini e seus conselheiros estavam preocupados. No fim de janeiro, um informante da polícia mandou um longo relatório sobre o último alto prelado a criticar o racismo nazista e seus ecos italianos. O arcebispo — ou patriarca, como era chamado — de Veneza tinha proferido um sermão na Epifania, que L’Osservatore Romano publicou. Nada, dissera o cardeal Piazza, justificava as “excessivas exaltações de raças”, que não tinham base científica e eram contrários aos

ensinamentos da Igreja. 32

O informante advertia que o crescente fluxo de pronunciamentos antirracistas feitos por altos clérigos “representa uma corrente contínua que tem efeito substancial na opinião pública, devido à natureza oficial de onde se origina, ao vasto sentimento católico das massas, aos poderosos meios de publicidade constituídos pela imprensa católica, de circulação

cada vez maior e muito lida por diversos estratos sociais”.33

Pignatti, comentando o episódio, afirmou que o problema era em parte criação deles próprios. O cardeal Piazza jamais teria feito suas recentes observações contra o racismo se a imprensa fascista não tivesse sido tão efusiva nos elogios a seus comentários anteriores, mais obsequiosos, sobre as leis antissemitas. O patriarca se sentira obrigado a “esclarecer” suas opiniões. “Nenhum prelado”, afirmou Pignatti, “por mais alta que seja a sua posição, ousaria se opor ao pontífice, sabendo que seria massacrado se tentasse.” Havia apenas uma esperança: “Só um novo pontificado — já escrevi isso diversas vezes no passado — será capaz de

adotar uma atitude diferente, conciliatória, na questão racial.”34

O papa começou a preparar seu discurso, ou melhor, seus discursos, pois tinha resolvido estender as comemorações por dois dias, 11 e 12 de fevereiro. O sábado, dia 11, marcaria o décimo aniversário do Tratado de Latrão com os bispos na presença de dignitários do governo e do corpo diplomático. Na manhã seguinte, o pontífice discursaria só para os bispos

e outros altos prelados.35

Ciano estava nervoso, temendo o que Pio poderia dizer. “O clima para as comemorações do décimo aniversário está ficando sombrio”,

escreveu em seu diário. 36

Mussolini jogava duro. Nenhum funcionário do governo, informou ele a Pacelli, participaria da comemoração sem que houvesse garantias de

que o papa não usaria a ocasião para criticar o regime. 37

O pontífice também mantinha a pressão. Disse a Pacelli para transmitir uma advertência ao Duce: os italianos ficariam chocados se os líderes do país boicotassem a festa de aniversário. Avisou a Mussolini que, se o governo não estivesse representado no mais alto nível, ele se sentiria obrigado a comentar a ausência em seu discurso.

O cardeal Pacelli transmitiu a nova ameaça do papa a Pignatti, acrescentando que Pio ainda estava zangado com o Duce por não ter respondido à sua carta sobre a lei marital. Exasperado, Pignatti lembrou-lhe que Mussolini era quem tinha ditado a resposta do rei ao papa. Portanto, o Duce acreditava já ter respondido. Advertiu que, se o pontífice usasse as cerimônias de aniversário para criticar o regime, “uma situação parecida com a que a Igreja enfrenta na Alemanha poderá ser

criada na Itália”. 38

Pignatti tentou um acordo. Sabia que jamais convenceria Mussolini a assistir ao discurso do pontífice em São Pedro, mas, se Ciano comparecesse, talvez bastasse para impedir que o papa dissesse qualquer

coisa de fato danosa.39

O Duce tornava-se cada vez mais belicoso, achando que a guerra estava próxima e que a grandeza da Itália — e, por consequência, a dele próprio — logo seria demonstrada nos sangrentos campos de batalha. Numa reunião do Grande Conselho, realizada no mesmo dia em que Pacelli e Pignatti discutiam sobre quem do governo deveria participar nas cerimônias de aniversário, Mussolini revelou sua palavra de ordem: “Marcha para o Oceano!” A Itália, disse ele a seus colegas, estava confinada a uma “prisão” mediterrânea. Precisava ganhar acesso aos mares abertos. Um dos seus primeiros alvos seria a Córsega, e, se uma guerra com a França fosse necessária para adquirir a ilha, ele estava preparado. Apenas uma semana antes, forças de Franco, com ajuda italiana, tinham tomado Barcelona, a última grande cidade espanhola a cair nas mãos do

ditador. O mapa da Europa não demoraria a ser redesenhado. 40

O Duce concordou em deixar Ciano representá-lo na comemoração de aniversário em São Pedro. O príncipe do Piemonte, filho e herdeiro

do rei, representaria o monarca. 41 Na metade da semana, todos os jornais da Itália davam notícias da magnífica comemoração a realizar-se no fim de semana, alardeando a participação do ministro do Exterior da Itália e do príncipe.

Com a aproximação do grande evento, a saúde do papa piorou. Seus batimentos cardíacos tornaram-se irregulares, a circulação do sangue, já fraca, ficou ainda mais débil, e ele estava febril. Começara a redigir suas observações para o discurso do sábado no fim da noite de 30 de janeiro. No dia 31, o cardeal Jean Verdier, arcebispo de Paris, foi vê-lo e ficou chocado com a fragilidade de sua aparência. “Uma impressão de fato penosa”, lembrava-se ele. “Fisicamente, esse velho papa não passa de uma ruína. Está muito mais magro, o rosto encolhido e rugoso.” Mas a mente do pontífice estava lúcida, e a voz, ainda clara. Falava depressa, como se

soubesse que tinha pouco tempo de vida e muito a dizer. 42

No começo da manhã seguinte, o antigo bibliotecário Pio repassou com cuidado os papéis nas gavetas de sua escrivaninha, para ter certeza de que tudo estava em ordem. Depois das audiências daquela manhã, releu o texto do discurso. Estava tão envolvido que seus assistentes tiveram que suplicar para que parasse para almoçar, pois já eram três da tarde. No entanto, ele teve dificuldade para largar o texto, lendo-o em voz alta com lágrimas nos olhos. Finalmente abandonou as páginas, entregando-as a monsenhor Confalonieri para datilografá-las. No elevador de subida para seu apartamento, foi alcançado pelo enfermeiro padre Faustino, alarmado com sua palidez e fraqueza. Faustino tomou o pulso do papa e constatou,

espantado, que tinha caído para quarenta. 43

Foi Pacelli que levou ao pontífice, já deitado na cama, a boa notícia de que Ciano e o príncipe estariam na cerimônia. Nas semanas anteriores, o refrão constante do papa tinha sido: “Que cafajeste e que traidor

Mussolini tem sido comigo!” 44 Agora, começava a sentir alguma paz.

O cardeal Pacelli recomendou a Pio que adiasse a comemoração até recobrar as forças, mas o pontífice sabia que lhe restava pouco tempo. Em 7 de fevereiro, ditou uma mensagem para L’Osservatore Romano, que começava dizendo: “O Santo Padre está bem.” Quando, ainda naquele dia, Pacelli voltou a insistir para que o papa gravemente enfermo adiasse a comemoração, ele respondeu: “Mas não anunciamos hoje de manhã que

o papa está bem?” 45

No dia seguinte, parecia que o fim poderia chegar a qualquer momento. A respiração de Pio era difícil, ele estava sob efeito de muitos remédios, os batimentos cardíacos permaneciam irregulares. Mas o papa não esquecia o discurso que significava tanto para ele, e pediu a Pacelli que o lesse. O cardeal fez algumas pequenas sugestões. As folhas de papel foram mandadas à gráfica do Vaticano para tirar cópias a serem

distribuídas entre os bispos. 46

O monsenhor De Romanis normalmente ia receber a confissão do papa às sextas-feiras. Quando o tímido monsenhor apareceu ao lado da cama naquela quarta-feira, o pontífice lhe disse que ele devia ter se enganado. Quando o calado monsenhor balbuciou qualquer coisa, envergonhado demais para explicar por que tinha sido chamado dois dias antes, o papa enfim entendeu o motivo da visita. “Nós compreendemos”, disse o pontífice, de maneira débil. “Confesse-me.”

Na quinta-feira, 9 de fevereiro, sentindo-se um pouco melhor, Pio XI mais uma vez pediu providências a fim de que seu texto para o grande

evento estivesse impresso e pronto para ser entregue aos bispos.47 Junto de seus dois leais assistentes, que trabalhavam para ele desde os tempos de Milão, recitou o rosário deitado na cama. Então lhes pediu que fizessem a oração que aprendera quando menino:

 

Jesus, Maria, José, eu vos dou meu coração e minha alma.

Jesus, Maria, José, assisti-me na minha última agonia.

Jesus, Maria, José, expire em paz entre Vós minha alma.

 

Naquela noite, Pignatti contou a Ciano que o papa estava muito mal. Ciano repassou a notícia para Mussolini, que apenas deu de ombros. O genro do Duce ficou preocupado. Se o pontífice morresse antes da comemoração de aniversário do tratado, o resultado poderia ser “um conclave muito hostil aos nossos objetivos”. Depois de semanas de preocupação, ele enfim se convencera de que o espetacular ritual do Vaticano em São Pedro ajudaria a aliviar a tensão; ficaria impresso na alma dos católicos como ainda era sólida a ligação entre a Santa Sé e o regime fascista. Se a cerimônia fosse cancelada, “podemos esperar

surpresas desagradáveis”.48

Aquela noite, enquanto o papa estava de cama, sua condição piorou, e os últimos ritos foram ministrados mais uma vez. Nas primeiras horas da manhã de sexta-feira, 10 de fevereiro, Pio já respirava com ajuda de uma máscara de oxigênio. Por volta das quatro da manhã, o cardeal Pacelli e outros foram avisados e se juntaram à triste cena. Em lágrimas, pediram a bênção do papa. Com grande esforço, Pio abriu os olhos e, fraco demais para falar de forma clara, murmurou algumas palavras, parou, depois murmurou outra coisa. A maioria não conseguiu compreender o que ele disse, mas os que estavam mais perto depois relataram as palavras, “Deus vos abençoe, meus filhos”, seguidas por outras ainda mais débeis: “Que

haja paz.”49

Às cinco e treze da manhã, o resignado Pio XI morreu. Seguindo a tradição, o camerlengo, cardeal Pacelli, foi incumbido de verificar oficialmente a morte. Ajoelhou-se ao lado da cama, afastou o véu que tinha sido posto sobre o rosto do papa e, em voz alta, falou com ele usando seu nome de batismo, Achille, enquanto lhe batia com delicadeza na testa com um macete de prata. Não havendo qualquer movimento do pontífice, Pacelli pronunciou a declaração ritual: “O papa está deveras

morto.” E tirou o Anel do Pescador do dedo frio do papa. 50

Os bispos já tinham chegado a Roma para a comemoração que significava tanto para Pio, um evento que alimentava as esperanças de Ciano e os receios de Mussolini. Na mesa do papa estava a pasta de Humani generis unitas , a encíclica preparada pelo padre LaFarge. Rejeitando a ideia de que um bom cristão possa abraçar o racismo, ela exigia o fim da perseguição aos judeus. Pio XI desejava ardentemente que essa declaração fosse publicada, mas, entre os que sobreviveram ao pontífice, muitos estavam ansiosos para que fosse sepultada junto com o

papa.51