O Papa e Mussolini
Parte dois
INIMIGOS EM COMUM
CAPÍTULO NOVE
O SALVADOR
Choveram telegramas parabenizando Pio XI pelo acordo histórico. Um jornalista americano que se reuniu com o papa logo depois da assinatura encontrou-o muito sorridente e rejuvenescido, “tão jovial e dinâmico
quanto no dia em que foi eleito”. 1 Em 17 de fevereiro, a Guarda Nobre do papa ofereceu uma lauta recepção no Vaticano, onde a aristocracia negra de Roma confraternizou com altos prelados da Cúria. As luzes foram apagadas quando os convidados se juntaram diante de uma tela de cinema para assistir a um documentário comemorativo da cerimônia de assinatura. Quando a imagem do Duce apareceu, a sala irrompeu em
aplausos e vivas. 2
O ditador ficara ansioso para concluir o acordo, pois tinha pela frente uma votação importante. Uma vez que agora só havia um partido político na Itália, era preciso encontrar uma nova maneira de eleger o parlamento. Um comentário casual feito por Mussolini em 1924, quando do pleito anterior, acabou sendo profético: ele disse que aquela seria a última vez que sofreria a indignidade de disputar com uma oposição. No novo sistema, caberia ao Grande Conselho do Fascismo selecionar os candidatos para os quatrocentos assentos da Câmara dos Deputados. Os eleitores teriam que votar sim ou não na chapa como um todo. Mussolini
não chamava isso de eleição, mas de plebiscito sobre o regime.3
O Vaticano deu todo o apoio à campanha de Mussolini. Em 17 de março, uma semana antes do dia da eleição de 1929, L’Osservatore Romano publicou um apelo para que os católicos votassem “sim”. Não era pouca coisa para o Duce, pois noventa e nove por cento dos italianos eram católicos. O resto da imprensa católica e padres de todo o país aderiram
com avidez à campanha.4
Para a maioria dos observadores, parecia que um papa agradecido tinha mobilizado a Igreja para apoiar a lista de fascistas fiéis ao Duce. Nos bastidores, porém, outra coisa acontecia. O pontífice não queria apenas
carimbar as escolhas de Mussolini. 5 Dos milhares de nomes apresentados ao Grande Conselho por várias organizações fascistas e governamentais, dentre os quais seriam escolhidos os quatrocentos candidatos, o papa julgava três quartos insuficientemente católicos. Com a assinatura da concordata, dizia Pio, a Itália passara a ser um “Estado confessional”. A composição do parlamento deveria refletir aquela nova realidade.
O papa queria que o Duce descartasse sua lista e a substituísse por uma composta de pessoas “livres de laços com a maçonaria, com o judaísmo e, em suma, com qualquer dos partidos anticlericais”. “Assim”, concluía a carta em que Pio manifestava seus desejos, “o Duce coroará do modo mais belo e necessário a grande obra do tratado e da concordata. Mais uma vez mostrará que é (em conformidade com o modo como Sua Santidade recentemente se referia a ele) o Homem enviado pela
Providência.”6
Poucos dias depois, Tacchi Venturi levou para Mussolini uma lista de homens que Pio XI considerava “dignos representantes de um Estado
confessional”. 7 Fazia muito tempo que os papas condenavam a maçonaria, e uma das primeiras medidas de Mussolini para agradar ao Vaticano depois de assumir o poder foi declarar os maçons inaptos para
filiação ao Partido Fascista. 8 Agora o pontífice exigia que judeus e maçons fossem expurgados da lista de candidatos e que fascistas de sólida fé católica fossem acrescentados. O Vaticano esperou que o Duce fizesse as mudanças antes de organizar uma gigantesca mobilização da Igreja para
votar no sim.9 No dia da eleição, um domingo, párocos de toda a Itália
literalmente conduziram seus fiéis para as urnas. 10 O triunfo de Mussolini
foi completo, conquistando 98,3% dos votos. 11
No dia seguinte ao plebiscito, um dos velhos protegidos do papa foi vê-lo. Stefano Jacini era um dos meninos da nobreza de Milão aos quais Ratti tinha, anos antes, servido como mentor espiritual. Ao passar pela porta de bronze ao longo da colunata de Bernini, à direita de São Pedro, Jacini foi saudado por guardas suíços em seus chamativos uniformes listrados. Os homens examinaram seu convite e permitiram que subisse a escadaria para os palácios do Vaticano. Jacini foi então escoltado através dos vastos e esplêndidos corredores por homens da Guarda Nobre do papa, italianos de famílias aristocráticas. Era como se ele tivesse entrado num drama renascentista. Ao passar pelos salões e corredores ricamente decorados, viu grupos de gendarmes papais — italianos trajando réplicas exatas dos uniformes usados pelos granadeiros de Napoleão — de sentinela. Um prelado doméstico do pontífice levou Jacini, de quarenta e dois anos, ao escritório do homem que ele conhecera como um simples padre.
Pio XI sorriu quando ele entrou. Na conversa de setenta minutos que tiveram, o papa adotou com frequência a primeira pessoa do singular, trocando o costumeiro “nós” pelo “eu”. Os dois passaram boa parte do tempo discutindo o Tratado de Latrão.
“Situação resolvida!”, disse-lhe o pontífice, muito feliz. “Sim, estou satisfeito, mas agora vem a parte difícil: fazer com que as cláusulas sejam aplicadas. Nunca precisamos tanto de preces quanto agora, mas o futuro está nas mãos de Deus. Não se pode esperar que eu seja capaz de adivinhar o que vem pela frente.” Ele lembrou a Jacini versos de Metastasio, poeta italiano do século XVIII: “Não existe passado, a memória é que o pinta”, recitou o papa. “Não há futuro, é a esperança
que lhe dá forma. Só existe o presente, que sempre nos escapa.”12
Sabendo que Jacini tinha sido um líder do Partido Popular, Pio fez questão de justificar o acordo com o Duce. Afirmou que não poderia deixar passar a oportunidade pois, se o fizesse, a história o julgaria com severidade. “O Senhor me ajudou em tudo isso.” Queixou-se dos que o criticavam por se entender com o regime fascista. “É como dizer que alguém deve parar de respirar porque está numa sala onde o ar é poluído.” E explicou: “Para a Igreja, há revoluções e revoluções — aquelas que destroem a autoridade e a ordem existente e aquelas que as transformam. A revolução italiana é feita com a aprovação do rei e da monarquia. Não poderíamos querer mais que isso.”
“Não foi uma revolução verdadeira”, prosseguiu o papa, ainda tentando se justificar para o nobre. “Uma sublevação, sim. Precisamos ver o que vai sair disso.” Palavras do seu amado Manzoni lhe vieram à memória: “A hora do crepúsculo não é nem luz, nem escuridão. O que virá dela? Dia ou noite? Espera um pouco e verás.”
Enquanto falava, o papa ia ficando animado, ajeitando-se na cadeira, pondo os cotovelos na mesa, usando as mãos para corrigir a posição do zucchetto branco na cabeça. “Cabelos ainda louros, sorrindo atrás dos óculos de ouro”, lembrava-se Jacini, “o rosto animado, um breve riso abafado pontuando seus comentários; parecia, por um momento, ter se
tornado novamente o Don Achille dos velhos tempos.” 13
* * *
O ACORDO COM o papa fora um grande sucesso de relações públicas para Mussolini, mas isso não queria dizer que não tivera desvantagens. Nada o irritava mais do que ser chamado de bode expiatório do pontífice, e alguns o acusavam de ser exatamente isso. Homem orgulhoso e arrogante, cujo ego não parava de crescer, o Duce era sensível aos murmúrios de que estaria vendendo seus princípios e criando um Estado governado não por fascistas, mas por padres. O fato de La Civiltà Cattolica ter saudado a vitória de Mussolini no plebiscito como uma “restauração cristã da sociedade” não ajudava em nada.
Foi um momento delicado para o Duce. Havia insatisfeitos dentro e fora do parlamento. Fascistas de primeira hora — os que estavam no movimento desde os primeiros dias — viam o acordo como uma traição ao verdadeiro fascismo, cedendo uma influência indesejada ao papa. E outros da velha elite liberal estavam preocupados com o fato de Mussolini ter abandonado a separação entre a Igreja e o Estado.
Em 13 de maio, o ditador levantou-se na Câmara dos Deputados para encerrar os debates sobre a ratificação dos acordos. Aquele se tornaria um dos seus mais famosos discursos.
“Honrados camaradas”, começou ele, perante as galerias lotadas. Muita confusão estava sendo propagada em torno do tratado recente. No Estado italiano, assegurou ele, “a Igreja não é soberana, nem sequer livre”. Continuava sujeita às leis do país. A Itália tinha a grande vantagem de ser a sede de uma religião universal. Mas o êxito da Igreja Católica se devia muito à própria Itália: “Essa religião nasceu na Palestina, mas se tornou católica em Roma.” Acrescentou, num comentário destinado a enfurecer o papa, que, se a comunidade cristã dos primeiros tempos tivesse permanecido na Palestina, “muito provavelmente não teria passado de uma das muitas seitas que floresceram naquele ambiente superaquecido (...) e muito provavelmente teria desaparecido sem deixar
rastros”.14 O Estado italiano, concluiu ele, “é católico, mas também
fascista; a rigor, é antes de tudo exclusiva e essencialmente fascista”.15
No dia seguinte Pio mandou o advogado Francesco Pacelli ver Mussolini. Levava uma ameaça: o papa estava irado e poderia suspender as negociações para implementar os acordos. O Duce tentou acalmar o pontífice. Usaria o próximo discurso no Senado, disse, para esclarecer qualquer mal-entendido.
Três dias depois, quando o Senado submeteu a moção para confirmar os acordos, Pacelli sentou-se na galeria para ouvir a fala de Mussolini. Mas o que escutou foi pouco diferente do que ouvira na Câmara. “Tenho a impressão”, escreveu em seu diário, “de que [o discurso] não vai conseguir agradar inteiramente ao Santo Padre.”
Embora poucos tenham percebido, nas duas semanas seguintes, tanto o Duce quanto o papa ameaçaram jogar por terra o laboriosamente construído Tratado de Latrão. Pacelli servia de ponte, indo e vindo sem parar, num esforço desesperado para evitar o desastre. No fim, os dois lados concluíram que tinham muito a perder. Em 7 de junho, Mussolini foi ao Vaticano e sentou-se nos aposentos do cardeal Gasparri para que os
dois dessem a assinatura final.16
Com o Tratado de Latrão, o papa e o Duce iniciaram uma parceria peculiar. Cada qual se via como chefe de uma organização “totalitária”, termo adotado por ambos. Ela só podia ter um líder e exigia lealdade absoluta. O pontífice estava ansioso para usar o poder dos fascistas a fim de ressuscitar um Estado católico, embora não fosse tolo de pensar que pudesse algum dia “cristianizar” Mussolini. Já o Duce queria usar o poder da Igreja com a finalidade de consolidar seu próprio governo, mas em sua opinião o clero católico deveria servir ao fascismo, uma ferramenta para garantir apoio popular ao regime.
Os dois lados tinham muito a ganhar com o acordo, mas nem Mussolini nem o papa jamais se sentiriam confortáveis com ele. Pio só ficaria satisfeito de fato se pudesse fazer o ditador respeitar o que ele considerava os direitos divinos da Igreja. Mussolini estava disposto a dar ao papa o que o Santo Padre queria, desde que as demandas não entrassem em conflito com sua ditadura e com seus sonhos de glória. Como Pio haveria de descobrir, só era possível pressionar o Duce até certo ponto. Ambos defendiam zelosamente os direitos que julgavam seus. Ambos eram propensos a explosões de ira. Havia muitas razões para suspeitar que a parceria talvez não fosse duradoura.
13. Mussolini e Gasparri depois da ratificação do Tratado de Latrão no Vaticano, em 7 de
junho de 1929. O cardeal Gasparri e Mussolini sentados; o monsenhor Borgongini de pé entre
os dois, tendo, à sua esquerda, Francesco Pacelli e o monsenhor Pizzardo
* * *
COM O ESTABELECIMENTO de relações diplomáticas, Mussolini nomeou Cesare de Vecchi, de quarenta e quatro anos, o primeiro embaixador da Itália na Santa Sé. Formado em direito, de uma família de classe média do Piemonte, De Vecchi comandara uma unidade de tropa de choque durante a guerra. Mais tarde, ele se tornara líder dos squadristi em Turim. Um dos deputados do Partido Fascista eleitos em 1921, seu momento de maior triunfo tinha sido como membro do Quadrunvirato que chefiara a Marcha sobre Roma.
A razão que levou o Duce a escolher De Vecchi para a delicada missão diplomática é um tanto misteriosa. Mussolini costumava zombar da afetação e da burrice do novo embaixador, queixando-se de que ele não tinha senso político. Em maio de 1923, demitiu De Vecchi do cargo de subsecretário do Tesouro, dizendo que era inapto para qualquer coisa que
não fosse a vida de soldado. 17 Então, enviou-o à Somália italiana como governador, onde permaneceu cinco anos. Mas De Vecchi possuía algumas qualidades que o tornavam adequado para o cargo. Era católico devoto e tinha ligações com a família real e com figurões das forças armadas, duas esferas que resistiram muito ao controle fascista. Em agradecimento por sua devoção à monarquia, o rei concedeu a De Vecchi o título de conde de Val Cismon, que ele usava com orgulho. De acordo com Dino Grandi, sempre que alguém mencionava o nome do rei na presença de De Vecchi, um tremor involuntário percorria-lhe o
corpo, como se ele fosse um soldado sendo repreendido.18 Mas sua arrogância, sua falta de discernimento, sua voz tonitruante, a cabeça raspada, os olhos pequenos, o nariz grande e o bigode grotesco — que lhe davam a aparência de um pequeno esquilo — faziam dele uma das
figuras do regime mais alvejadas pela zombaria popular.19
Na manhã de 25 de junho, o novo embaixador chegou ao Vaticano numa carruagem real puxada por dois cavalos arrumados de modo festivo. O cocheiro e três batedores em pé na parte de trás da carruagem estavam vestidos como se fossem para a corte de Luís XIV. Usando um uniforme diplomático que lembrava o almirante da ópera HMS Pinafore, De Vecchi apresentou suas credenciais ao papa. Foi conduzido à sala do pequeno trono, onde o pontífice estava sentado, rodeado por sua corte. O novo embaixador se curvou três vezes, como era costume e, depois da troca formal de cumprimentos, Pio XI o convidou à sua biblioteca para uma conversa particular. De Vecchi falou pouco, enquanto o papa — talvez inspirado pelas raízes nortistas do novo embaixador — recordou com prazer suas antigas proezas alpinas. Ao lembrar os anos de jovem padre na Cidade Eterna, seu humor ficou sombrio por um momento. Ele falou a De Vecchi sobre a época em que rapazes zombeteiros o perseguiam pelas ruas de Roma atirando pedras e gritando “Barata!”.
De Vecchi assegurou-lhe que aqueles dias haviam ficado para trás. Desde que o fascismo assumira o poder, os padres tinham passado a ser
tratados com respeito.20
Um mês depois, o novo embaixador teve outro encontro com o papa, bem menos agradável do que o anterior. De Vecchi pisou na biblioteca do pontífice um tanto apreensivo, sabendo que ele estava furioso com a recente publicação dos discursos parlamentares de Mussolini. Quando entrou, um efeito da luz do sol que invadia o cômodo pela janela lhe deu a impressão de que os óculos de Pio emanavam fogo. O papa se dirigiu a De Vecchi em termos que o embaixador descreveu como “ásperos, ressentidos, por vezes rudes e contundentes”. “Não dá para continuar assim”, advertiu ele, sacudindo a cabeça, “de forma alguma. O comportamento dos senhores”, disse Pio, referindo-se à publicação dos discursos pelo governo, “ofende a Igreja e a mim. Saí ao encontro da Itália de coração aberto e em troca da nossa lealdade o signor Mussolini atirou em nós pelas costas com uma metralhadora.” Remexendo papéis em cima da mesa, o papa puxou relatórios sobre recentes maus-tratos contra sedes locais da Ação Católica. Em algumas regiões, funcionários tinham sido espancados, e as pessoas haviam sido avisadas de que bons italianos não faziam parte da Ação Católica.
14. Cesare de Vecchi, embaixador italiano na Santa Sé, 1929-1935
De Vecchi tentou defender o governo. Não se poderia esperar que ficasse de braços cruzados, disse ele, enquanto antifascistas se ocultavam atrás dos grupos católicos.
O papa reagiu como se tivesse sido picado por uma vespa, batendo na mesa com a palma da mão. “Não quero ouvir isto!” Dera ordens explícitas à Ação Católica para não se meter em política, e o governo não tinha o direito de intimidar os membros da organização.
Isso era muito bom, respondeu De Vecchi, mas uma coisa era dar ordens e outra, muito diferente, era elas serem obedecidas.
A noite caiu em algum ponto do encontro de duas horas e meia. Quando o embaixador se preparava para sair, o pontífice, mais calmo, falou: “Diga ao signor Mussolini, em meu nome, para não confundir amigos com inimigos e vice-versa, pois confusões dessa ordem podem limitar o lugar que ele ocupará na história (...) E diga-lhe que todos os dias, em minhas orações, peço ao Senhor que o abençoe”, acrescentou
disparando. 21
Em meados de setembro, Pio XI discursou para um enorme grupo de jovens católicos italianos. Ainda ofendido com o tratamento dado à Ação Católica, lamentou o “martírio” que a organização enfrentava. Logo depois, De Vecchi contou ao papa como Mussolini ficara chateado com seus comentários. Seria melhor, sugeria ele, que o pontífice calasse suas queixas sobre a Ação Católica, para que De Vecchi e outros pudessem resolvê-las pelos canais diplomáticos.
O embaixador deveria ter pensado duas vezes antes de falar. O papa deu um murro na mesa e perguntou, indignado:
— Então o senhor não quer que eu fale, não quer que eu diga o que é minha obrigação dizer?
— Não foi exatamente o que eu quis dizer, Vossa Santidade — respondeu De Vecchi. — Conheço a pessoa que está do outro lado e meu conselho visa apenas o bem comum.
— O bem comum — repetiu Pio. — Pois vou lhe dizer o que farei de hoje em diante para satisfazê-lo em determinadas ocasiões. Vou abrir esta janela — nesse momento o papa, alterando a voz, apontou para a janela atrás da mesa — e gritar para que todos na praça de São Pedro possam ouvir! — O embaixador ficou sem fala por um momento. — É isto que vou fazer, goste o senhor ou não, senhor embaixador! —
ameaçou Pio. 22
Mais adiante, no outono, o infeliz De Vecchi sofreu outro ataque de mau humor papal. O príncipe Umberto, filho e herdeiro do rei, estava ansioso para se casar em uma das mais importantes igrejas de Roma: São João de Latrão e a monumental basílica de Santa Maria Maggiore eram as opções. Mas Pio XI rejeitou o pedido. Como os reis saboianos tinham mantido os papas prisioneiros do Vaticano por tanto tempo, argumentou, ele mesmo ainda não visitara nenhuma das duas igrejas, e não seria apropriado que o bisneto do rei que tirara as terras dos pontífices se
casasse ali. 23
De Vecchi foi pedir a Pio que reconsiderasse. “Ele está de péssimo
humor”, avisou Gasparri ao embaixador antes que ele entrasse. 24 Mas, sob pressão da família real, o monarquista de bigode insistiu assim mesmo.
Em resposta, o papa “teve um ataque de fúria, erguendo a voz e quase não me deixando falar”, recordou De Vecchi. Incapaz de dizer uma palavra, o embaixador sentou-se reto, imóvel, num esforço para aguentar a invectiva até o fim. Tentou parecer impassível, mas era difícil apagar um sorriso nervoso do rosto.
O pontífice gesticulava dramaticamente. “Estou ofendido, mortalmente ofendido”, repetia Pio, balançando a cabeça e revirando-se na cadeira. “O senhor abre a boca, e seu hálito ofende o papa; mexe-se e me humilha; o senhor mantém seu sinistro cérebro em movimento e o faz tramar coisas que insultam a Igreja. (...) Basta! Basta!”
Então Pio voltou a reclamar da maneira como os membros da Ação Católica eram tratados. Sobrepujado, o embaixador mais uma vez tentou defender o Duce, mas o papa ficou tão zangado que se ergueu de um salto. Os músculos de seu rosto pulsavam, seus dentes estavam cerrados. A pesada estátua de mármore de Cristo em cima da mesa oscilava enquanto o pontífice dava murros. “Mentiras! Mentiras!”, gritava.
Pio andou pela sala, raivoso, como se estivesse falando consigo mesmo. Parava de vez em quando para dar mais pancadas na mesa. “Foi isso que os senhores fizeram”, exclamou, aumentando o tom de voz outra vez. “Os senhores enganaram o papa! Todo mundo diz isso, todo mundo sabe disso, escrevem sobre isso em toda parte, dentro e fora da Itália!”
De Vecchi aguentou tudo, mas, quando o papa disse “Roma é minha”, ele não se conteve.
— Roma — falou, às pressas — é a capital da Itália, lar de Sua Majestade o rei e sede do governo.
— Roma — retrucou o pontífice — é minha diocese.
— Sem dúvida — concordou o embaixador —, no que diz respeito a religião...
— Isso mesmo — interrompeu o papa. — O resto é só uma questão
de manter as ruas limpas. 25
* * *
OS CARDEAIS DA cúria confabulavam sobre o papa, cansados de suas explosões de raiva e insatisfeitos por não serem consultados a respeito questões importantes da Igreja. Ficaram particularmente chateados pelo fato de Pio não ter achado necessário consultá-los durante os dois anos e
meio de negociações com Mussolini.26 No fim de 1928, por instrução do pontífice, Gasparri havia convocado todos os cardeais de Roma a comparecerem aos seus aposentos, para informá-los de que um acordo estava prestes a ser alcançado. Bombardeado por pedidos de detalhes, ele respondeu que o papa lhes relataria tudo no momento oportuno. Na verdade, os cardeais só leriam o texto do Tratado de Latrão em 11 de fevereiro de 1929, dia em que o documento foi assinado e tornado público. O cardeal Cerretti, que estava a bordo de um navio de volta da Austrália, não escondeu sua indignação. Mussolini, disse com sarcasmo,
tinha o papa comendo em sua mão.27
Entre os cardeais insatisfeitos com o acordo do papa com o Duce, nenhum era mais franco do que Basilio Pompili, cardeal vigário de Roma desde 1916. Como vários de seus pares na Cidade Eterna, Pompili, de setenta anos, via Mussolini como alguém tão indigno de confiança quanto os primeiros-ministros anteriores, e não mais católico do que qualquer um deles. Desde que os exércitos italianos haviam tomado Roma em 1870, a Igreja repetia que a Cidade Eterna não poderia ter outro governante que não fosse o papa. O fato de Pio XI abandonar essa reivindicação e receber, aos olhos do cardeal, tão pouco em troca era um escândalo, e esse sentimento era partilhado não só pelos amigos íntimos de Pompili, mas por um círculo mais amplo de conhecidos. O que o irritava em especial era o fato de que o papa nunca chegara a pedir
conselhos a ele, o cardeal vigário de Roma. 28 “Entregaram Roma, seu prestígio, sua importância histórica, seus monumentos, suas igrejas”,
reclamava, “como se estivessem lidando com uma aldeia abissínia.”29 Para Pompili, o pontífice era “incompetente, fraco, a praga e a ruína da Igreja que ele traiu ao se colocar à mercê de um governo que nem remotamente merece o nome de católico”.
Pio insistiu reiteradamente com Pompili para mostrar mais respeito com o papado. Mas, como as notícias de seus veementes protestos
continuaram, ele perdeu a paciência e lhe pediu que renunciasse. 30 O cardeal vigário, pertencente a uma das mais proeminentes famílias nobres de Roma, não se intimidou. “Santidade”, respondeu, “o senhor tem o poder de me tirar do cargo, e faça isso se quiser. Mas até o dia da minha morte eu jamais me afastarei por iniciativa própria deste cargo que ocupo
há tanto tempo e do qual nunca me mostrei indigno.”31
Poucos meses depois, quando o papa lhe fez mais um apelo para renunciar, Pompili voltou a fincar pé. “Vou continuar gritando a mesma
coisa até o senhor não aguentar mais: ‘Não saio, não saio, não saio!’”32 Na realidade, causas naturais acabaram resolvendo o problema de Pio XI.
Em 1931, Pompili morreu.33
15. Monsenhor Giuseppe Pizzardo
* * *
TÃO LOGO MUSSOLINI nomeou De Vecchi o primeiro embaixador da Itália no Vaticano, o papa designou Francesco Borgongini-Duca, protegido de Gasparri, como primeiro núncio da Santa Sé na Itália. No papel de secretário da Congregação para Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, Borgongini servira como um dos dois subsecretários de Estado de Gasparri.
Com a nomeação de Borgongini, Pio XI promoveu o secretário de Estado substituto, Giuseppe Pizzardo, de cinquenta e um anos, à vaga recém-aberta. Pizzardo vinha de uma família modesta das imediações de Gênova, mas de alguma forma abrira caminho até a Pontifícia Academia de Nobres Eclesiásticos em Roma, tradicional campo de treinamento dos altos escalões da diplomacia vaticana. Ingressara na secretaria de Estado do Vaticano logo depois da ordenação. Em 1909, foi mandado para a Alemanha como secretário do enviado papal a Munique, mas acabou se sentindo um peixe fora d’água e deu um jeito de retornar para o Vaticano três anos depois. Seus próprios amigos, segundo um informante, viam nesse desejo desesperado de voltar tão depressa uma prova da sua
“mórbida e elefântica obsessão pelo poder e pelo cargo burocrático”.34
Na época do Tratado de Latrão, Pizzardo era o membro da Secretaria de Estado que tinha relações mais estreitas com o papa. No verão de 1929, um informante da polícia descreveu-o como o principal candidato para substituir Gasparri. De acordo com o relatório, Pizzardo, miúdo e magro, olhos negros dardejantes de energia nervosa, era “o verdadeiro árbitro do coração do papa e dominava todas as situações no Vaticano”. Muitos na Santa Sé se ressentiam de sua influência. Os adversários chamavam-no de camaleão, homem sem caráter e dignidade, valentão com os subordinados e covarde diante dos superiores. Suspeito de intrigas e de se aproveitar do cargo, era pouco querido, menos ainda pelos que
trabalhavam para ele. 35 Segundo um desses relatos, a ávida subserviência de Pizzardo era o que o recomendava ao pontífice, pois ele vivia “se encolhendo como um cãozinho” diante das repreensões constantes do
papa.36
Como capelão dos Cavaleiros de Colombo, Pizzardo tinha acesso a dinheiro americano. Em 1924, reconhecendo a importância cada vez maior da Igreja nos Estados Unidos, Pio XI tinha dobrado o número de cardeais americanos, promovendo Patrick Joseph Hayes, arcebispo de Nova York, e George Mundelein, arcebispo de Chicago. “O dinheiro americano tem alguma coisa a ver com a promoção desses dois arcebispos”, observou na época Odo Russell, enviado britânico à Santa
Sé. 37
Uma vez elevados a cardeais, os dois arcebispos americanos pouco fizeram para mudar a opinião de Russell. Em 1927, num espetáculo deslumbrante de tão suntuoso, mesmo para quem vivia em meio aos esplendores do Vaticano, Mundelein foi anfitrião do Congresso Eucarístico Internacional em Chicago. Para transportar os cardeais que tinham atravessado o Atlântico para o encontro, contratou um trem especial da cidade de Nova York, que mandou pintar de escarlate e ao qual deu o nome do papa. Em 11 de junho, o trem chegou à estação de Chicago, levando a bordo dez cardeais, além de diversos bispos, arcebispos e o benfeitor que pagara por tudo. Nenhum dos dois cardeais seniores dos Estados Unidos quis fazer a viagem no Expresso Pio XI de Mundelein. O cardeal Dougherty, da Filadélfia, chegou em seu vagão particular, e o cardeal O’Connell, de Boston, desembarcou com quinhentos peregrinos de um iate próprio. Para coroar as cerimônias, o cardeal Mundelein enviou ao pontífice um presente no valor de um
milhão de dólares.38
Pizzardo se tornou o principal canalizador desses fundos americanos. Corria o boato de que, recebia cinquenta mil libras de um revendedor de carros americano por ter ajudado a providenciar um automóvel de luxo para presentear o papa. As duas irmãs de Pizzardo moravam com ele no Vaticano e passeavam pelas ruas de Roma no próprio Cadillac, outro presente americano. “O carro”, disse um informante não muito obsequioso, “carrega duas solteironas feias, as faces coloridas lambuzadas
de cosméticos, à caça de maridos.” 39
Borgongini, de quarenta e cinco anos, que passara a vida inteira em Roma, era uma contrapartida à altura de Cesare de Vecchi, pois os dois eram homens de limitado conhecimento do mundo. O papa o teria nomeado por apreciar sua ortodoxia e dar mais valor à obediência do que à sofisticação. Para cuidar de questões mais delicadas, Pio continuaria a usar seu próprio mediador pessoal, Tacchi Venturi, que sobrevivera ao
escândalo do esfaqueamento no ano anterior. 40 Os embaixadores estrangeiros gostavam da cortesia de Borgongini e de sua ânsia em servir, mas ele não se enquadrava no mundo social do corpo diplomático. Recusava-se a frequentar jantares diplomáticos, explicando que, se
comparecesse, seria obrigado a ficar acordado até tarde. 41 O corpulento, devoto e persistente Borgongini e o pequeno e garboso ex-comandante de artilharia fascista formavam um estranho par, embora viessem a desenvolver certa afeição um pelo outro. “No fundo”, disse o núncio sobre De Vecchi, “é um bom homem. Desde que possa andar por aí
usando seus penachos e sua grande medalha, para ele tudo bem!”42
O primeiro encontro do novo núncio com Mussolini se deu no começo de agosto, pouco depois da publicação dos discursos parlamentares que tanto chatearam o papa. O Duce o saudou com um sorriso e lhe perguntou, polido, como estava indo.
— Mais ou menos — respondeu Borgongini, explicando que o papa estava aborrecido com o Duce e dera a entender que talvez tivesse que “fazer alguma coisa muito séria”.
— O que ele pode fazer? — indagou Mussolini.
— Se a situação não mudar, podemos acabar tendo uma ruptura, o que seria muito sério, apenas duas semanas depois do início das relações diplomáticas e faltando tão pouco para a ratificação.
Mussolini não achou graça nenhuma.
— Pelo amor de Deus! Num país onde acabamos de ter o casamento religioso reconhecido, a instrução religiosa adotada, o reconhecimento das ordens religiosas...
Tudo ia bem, explicou Borgongini, até o Duce fazer o discurso na Câmara dos Deputados.
16. Mussolini visita o novo núncio, monsenhor Francesco Borgongini-Duca, agosto de 1929
— Todo mundo ficou espantado. O Santo Padre perguntou quem tinha provocado aquele discurso. Ninguém entendeu por que Vossa Excelência falou daquela maneira.
O papa estava tão aborrecido, contou o núncio, que quase convocara o Sacro Colégio dos Cardeais para anunciar que não ratificaria o tratado. E então, quando a desagradável lembrança dos discursos parlamentares de Mussolini começava a se apagar, Pio soubera que o Duce mandara publicá-los. Ele ficara furioso.
— Ah, mas o papa não sabe das dificuldades em que me meti — respondeu Mussolini.
Críticos se queixavam de que os corpos de Cavour, Mazzini e Garibaldi, heróis da unificação italiana e defensores da separação entre a Igreja e o Estado, estavam se revirando no túmulo. Ele não teve escolha, disse a Borgongini, senão mostrar que não estava colocando o Estado à mercê do clero.
Era natural, acrescentou, que depois dos primeiros dias de exultação após a assinatura do pacto, alguns desentendimentos surgissem. “É como
a primeira briga dos recém-casados quando voltam da lua de mel.” 43