O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 28 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo vinte e cinco

 

A BATALHA FINAL

 

Gustav Gundlach, que ajudara a redigir a encíclica secreta do papa sobre o racismo, estava de volta a Roma, e nada satisfeito. Em setembro, ele e os dois colegas tinham entregado o texto a Ledóchowski, achando que o secretário geral dos jesuítas o repassaria ao pontífice. A aparição do Manifesto de Cientistas Raciais e o anúncio das primeiras leis raciais haviam fortalecido sua crença de que Pio XI queria ver logo a obra. Mas Gundlach, informado de que o jesuíta mandara uma “versão resumida” do rascunho ao padre Enrico Rosa, recomendou ao colaborador americano que contasse ao papa o que tinha acontecido. “Sua intenção de não deixar o documento passar por outras mãos não se realizou”, disse ele a LaFarge. “Sua lealdade ao Chefe” — código para Ledóchowski — “não foi recompensada. Na verdade, você pode estar sujeito à censura porque sua lealdade ao Sr. Fischer” — curioso codinome que usavam para Pio XI — “foi prejudicada por sua lealdade ao Chefe.” E concluía: “Uma pessoa que nada tenha a ver com o assunto poderia ver nisso tudo uma tentativa de sabotar, através de ação dilatória e por razões táticas e

diplomáticas, a missão que o Sr. Fischer confiou diretamente a você.” 1

 

* * *

 

A VIAGEM TRIUNFAL de Hitler pela Itália tinha despertado em muitos americanos uma antipatia pelo Duce. Agora, com a imposição das leis raciais, a popularidade de Mussolini nos Estados Unidos despencara. A embaixada italiana em Washington mandou um longo relatório a Roma narrando o declínio. “Como é sabido, os católicos americanos — a começar pela hierarquia superior da Igreja, com destaque para o cardeal Mundelein, de Chicago — reagiram desde o início com hostilidade e raiva crescente à atitude oficialmente anticatólica, e em parte anticristã, das autoridades nazistas.” A imposição das leis raciais e a mais recente batalha em torno da Ação Católica italiana tinham levado, informou a embaixada, “ao crescimento, aqui, de novos temores sobre o futuro da Igreja na Itália, identificando o fascismo com o nazismo aos olhos não muito perspicazes do público em geral (...) que os vê juntos como os não

muito queridos, e assim chamados, regimes autoritários.” 2

As relações entre o regime fascista e o governo americano esfriavam depressa. Os jornais italianos não ajudavam em nada, afirmando que os judeus mandavam nos Estados Unidos. Publicaram uma lista da composição inteiramente judaica do provável ministério americano prestes a ser nomeado, que seria supostamente capitaneado por Bernard

Baruch e Albert Einstein. 3 Leon Trótski seria secretário de Guerra; ao que parecia, o fato de não ser americano nem viver no país não

representava um obstáculo. 4

 

* * *

 

PIO ANDAVA ABORRECIDO com a nova lei matrimonial planejada por Mussolini, que ameaçava proibir judeus batizados de se casarem com outros católicos. Pediu ao núncio que preparasse um texto formal de

posicionamento. 5 O papa tinha em mente uma declaração católica de princípios, mas Borgongini achava importante que o texto tivesse algo a mais. O Vaticano precisava dar sua orientação na redação de leis raciais, que não poderiam entrar em conflito com os ensinamentos da Igreja. “Precisamos”, disse o núncio, “sugerir uma saída. Do contrário, o governo (...) não saberá encontrá-la sozinho. E, nesse caso, sem dúvida,

haverá um racha.”6 E um racha era o que o núncio passaria as próximas semanas fazendo todo o possível para evitar.

O rascunho preparado por Borgongini recomendava ao governo que não ignorasse o “elemento religioso” na formulação de suas novas leis. “É necessário, portanto, que os judeus não sejam confundidos com os convertidos ao catolicismo, pois estes tiveram a coragem e o heroísmo de

se separarem de uma vez por todas de sua nação de origem.”7

Num esforço para tornar a proposta mais palatável para Mussolini, ele acrescentou um aparte, expressando a empatia do Vaticano com os objetivos das leis raciais. “Sem dúvida, por razões tanto morais quanto de saúde, [a Igreja] utiliza todos os argumentos ao seu dispor para tentar desencorajar uniões entre brancos e negros e qualquer união que seja

heterogênea. 8 Dessa maneira, tenta evitar a produção de mestiços, que combinem os defeitos das duas raças.” Mas “não pode levar seus esforços de dissuasão até o ponto da proibição absoluta”.

Borgongini propunha duas possíveis concessões. Os casamentos em questão seriam permitidos sob a autoridade do rei, já existente, para conceder isenções reais. Como alternativa, poder-se-ia acrescentar uma linguagem à nova lei declarando que os casamentos que entrassem em conflito com suas cláusulas, mas fossem cobertos pelo artigo 34 da concordata — reconhecendo os efeitos civis dos casamentos religiosos —,

seriam reconhecidos se o papa os examinasse e aprovasse. 9

O pontífice se reuniu com Tardini e Tacchi Venturi para discutir os passos seguintes. Tardini lembrou que o governo tinha proibido a publicação de artigos que criticassem o racismo, mesmo que a crítica fosse apenas à variedade alemã. “Mas tudo isto é uma desgraça!”, disse o pontífice. “Tenho vergonha, não como papa, mas como italiano! O povo italiano se tornou um rebanho de ovelhas estúpidas. Vou dizer o que penso, não tenho medo. A concordata significa muito para mim, mas minha consciência significa mais ainda (...) Aqui eles se tornaram um bando de Farinaccis. Estou muito chateado mesmo, como papa e como italiano!”

Quando a tempestade — como Tardini chamava as explosões de Pio — passou, Tacchi Venturi, que era muito teimoso, pegou do bolso, num gesto disparatado, uma foto do pontífice e lhe pediu que a assinasse com uma dedicatória para o filho de Mussolini, Bruno, que se casaria dali a alguns dias. “Não gosto nem um pouco de botar minha assinatura debaixo do nome de Mussolini!”, disse o papa. Mas acabou assinando a

foto, como Tacchi Venturi tinha certeza de que ele faria. 10

Superados os assuntos de serviço, Pio XI e o jesuíta começaram a rememorar. “São dois velhos”, refletiu Tardini, lembrando a cena, “um com oitenta e um e outro com setenta e sete anos, vivazes e inteligentes”. Trocaram referências ao Antigo e ao Novo Testamentos e riram com histórias dos homens que tinham conhecido, alguns mortos havia

muito. 11 Era o tipo de brincadeira leve que o papa se permitia com muito poucos.

Ainda naquele dia, Tardini, Tacchi Venturi e Borgongini se reuniram

no apartamento do cardeal Domenico Jorio. 12 Como chefe da Congregação para a Disciplina dos Sacramentos, Jorio supervisionava os regulamentos sobre matrimônio. O pontífice pedira aos homens que encontrassem uma saída para o impasse. Eles prepararam um plano, que o papa aprovou. O núncio e Tacchi Venturi tentariam convencer as autoridades do governo de que não seria interessante para o regime causar uma ruptura nas relações com a Santa Sé “por causa dos poucos, raros casos [de casamento misto], quando é possível encontrar uma saída”. Tentariam obter uma cópia das leis propostas, “para poderem aconselhar

as alterações apropriadas”. 13

Mas, quando Tacchi Venturi solicitou uma reunião com Mussolini, o

Duce recusou, dizendo-lhe que pusesse por escrito o que queria dizer. 14 Com isso, o jesuíta mandou uma carta ao ditador na qual afirmava que a Igreja Católica se opunha por tradição a casamentos mistos. Eram “extremamente raros e só tolerados por sérias razões de consciência”. O papa, assegurou ele a Mussolini, estava disposto a ir ainda mais longe para chegar a um entendimento: “O Santo Padre está disposto a torná-los ainda mais raros, para que jamais ocorram sem serem submetidos a um exame direto do Santo Pontífice.”

Em seu desespero para chegar a um acordo, Tacchi Venturi não só estava disposto a transformar o papa em participante direto da campanha racial, mas também escondia uma distinção crucial para a Igreja e, que estava no cerne da dificuldade do Vaticano com as leis raciais. A principal objeção de Pio envolvia não uma proibição do que a Igreja considerava “casamentos mistos” — ou seja, casamentos entre judeus e católicos —, mas daqueles que uniam dois católicos, um dos quais tivesse sido judeu ou fosse filho de pais judeus.

O jesuíta dedicou a última página de sua carta a cantar loas ao Duce. Encerrou descrevendo-se como “alguém que Vos ama e à Pátria, alguém que — e digo isto sem sombra de bazófia — se sente incapaz de Vos trair

e ao Fascismo”. 15

Mas a proposta não comoveu Mussolini. Guido Buffarini, o intimidante subsecretário do Interior, deu a notícia: o Duce jamais permitiria ao papa abrir exceções para casamentos mistos; também não

queria que o rei examinasse esses pedidos. 16

 

* * *

 

NO FIM DE outubro, o Duce se encontrou em Roma com Joachim von Ribbentrop, o ministro do Exterior nazista. Ribbentrop tinha ido convencer Mussolini de que era chegada a hora de um pacto militar

unindo a Itália à Alemanha e ao Japão. 17 Sentindo que, apesar do estilo bombástico, o Duce ainda hesitava em assinar uma aliança militar formal, Ribbentrop lhe prometeu que, com o apoio alemão, todo o Mediterrâneo um dia se tornaria um mar italiano. Curiosamente, a principal nota destoante que Mussolini soou no encontro tinha a ver com a Igreja e o papa. A contínua batalha dos nazistas contra a Igreja Católica, disse ele ao ministro do Exterior alemão, ainda era um grande obstáculo a uma aliança militar, pois enfraquecia o apoio popular italiano. E sugeriu que, antes de o pacto ser assinado, o governo alemão desse um jeito de fazer as pazes com a Igreja. Se os alemães chegassem a esse acordo, disse Mussolini, a aliança com os nazistas “se tornaria muito popular”. E não era só do lado alemão que havia problemas com a Igreja. Suas próprias relações com o papa andavam estremecidas ultimamente, disse ele. Achava também que os católicos da Itália ficariam “numa posição difícil”

se o pontífice denunciasse o pacto. 18

Em seu diário, Ciano pintou um quadro arrepiante do encontro com Ribbentrop no Grand Hotel de Roma. “Ele tem na cabeça uma fixação pela guerra”, escreveu. “Quer a guerra, sua guerra. Não tem ou não disse qual é seu plano geral de marcha. Não distingue seus inimigos, nem indica seus objetivos. Mas quer uma guerra dentro de três ou quatro anos.” Quando Ciano discutiu com o sogro a aliança militar proposta por Ribbentrop, Mussolini lhe disse que o anúncio de tal aliança deveria ser postergado, “antes de mais nada por causa do ressentimento contra os

alemães que predomina nas grandes massas católicas”. 19

A campanha antissemita estava chamando muita atenção, de forma negativa, fora da Itália, e, devido à estreita ligação do Vaticano com o regime fascista, Pio XI ficou numa posição desconfortável. Tardini o aconselhou a não colaborar com Mussolini para produzir um texto das novas leis raciais que fosse aceitável para os dois lados. Esse acordo exporia a Santa Sé à acusação de conluio na campanha antissemita. O melhor seria simplesmente deixar o governo fazer o que pretendia, advertiu ele; supondo-se que Mussolini fosse adiante, o Vaticano poderia, então, condenar a cláusula que enfraquecia o artigo 34 da concordata, consolando-se, porém, com o fato de que poucos casamentos seriam afetados. Mais importante ainda, disse ele ao papa, era que o resto da

concordata permaneceria em vigor. 20

De início o papa concordou. Mas, sob pressão dos outros conselheiros para chegar a um acordo com o ditador, acabaria achando impossível

seguir o conselho de Tardini. 21

Em 29 de outubro, uma multidão se reuniu na piazza em frente ao palácio de verão do papa, na esperança de receber uma bênção antes da partida dele. Era um dia frio e ventoso. Uma miserável mistura de granizo, neve e chuva gélida obrigou os fiéis a buscarem refúgio nas lojas vizinhas. Quando o tempo melhorou, Pio apareceu na pequena sacada do palácio, e o povo correu de volta para a praça. Seria a última aparição

pública dele em Castel Gandolfo.22

Um mês antes, para grande surpresa do corpo diplomático do Vaticano, o cardeal Pacelli tinha partido para suas férias regulares na

Suíça. 23 Chegara de volta a Roma no trem noturno na manhã de domingo, 30 de outubro, e seguira da estação direto para o gabinete do

papa.24 Tacchi Venturi, que já estava lá, informou-o dos desdobramentos mais recentes. O pontífice tinha concordado em deixá-lo fazer uma última tentativa de falar com Mussolini para encontrar uma solução

amigável. 25

Num esforço para chegar ao Duce, o jesuíta entregou um bilhete a Buffarini. O Santo Padre, dizia a mensagem, angustiava-se ao pensar nos danos que o apoio católico ao regime sofreria se o governo fosse adiante com as novas leis raciais sem chegar a um entendimento com o Vaticano. Seria uma “imensa alegria para os antifascistas de todos os idiomas e países”. O papa acreditava que ainda era tempo de encontrar uma redação

para a nova lei matrimonial que “satisfizesse ambas as partes”. 26

Embora doente, nas semanas seguintes Pio se reuniu várias vezes com Tacchi Venturi, Pacelli e Tardini para comandar as frenéticas negociações de última hora. Em 2 de novembro, quando enfim obtiveram uma cópia da nova lei proposta, o papa pediu ao grupo, que vinha se reunindo no apartamento do cardeal Jorio, para se reunir mais uma vez.

O artigo 1 o do projeto de lei declarava: “O casamento entre um cidadão italiano da raça ariana com uma pessoa pertencente a outra raça é proibido.” Só isentava aqueles casamentos de que tratava o artigo 7 o, que Mussolini tinha acrescentado para apaziguar o Vaticano: abria exceções

para alguém que estivesse morrendo, ou para legitimar filhos.27

Tardini repetiu o conselho que já tinha dado ao papa: o Vaticano deveria se opor, oficialmente, ao princípio racista que estava por trás da nova lei e deixar claro para o resto do mundo que não havia colaborado em sua redação.

Mas os outros rejeitaram os apelos de Tardini. Aterrorizado com a possibilidade de um racha com o regime, Borgongini, o núncio, propôs que eles ameaçassem anunciar que a nova lei entrava em conflito com a concordata, mas que, se ela entrasse de fato em vigor, não fizessem nenhum protesto público. Isso lhes permitiria fazer lobby nos bastidores

para conseguir as mudanças que desejavam. 28

“É óbvio”, escreveu Tardini ao relatar, mais tarde, os acontecimentos daquele dia, “que a grande preocupação do núncio era evitar um conflito entre a Santa Sé e o governo italiano. E, como qualquer declaração ou protesto da Santa Sé (por mais atenuado que fosse) poderia ser explorado pelos inimigos do fascismo dentro e, em especial, fora do país para provocar um conflito, o núncio tentava encontrar uma fórmula — com alguma oportuna alteração da lei — para evitar qualquer protesto da Santa Sé.”

Borgongini lembrava-se de que, em sua declaração de 6 de outubro, o Grande Conselho fascista afirmara que os filhos de casamentos mistos que professassem outra religião (a saber, o catolicismo) não seriam considerados judeus perante a nova lei. Se o Vaticano pudesse fazer o regime concordar em inserir essa cláusula, o número de casamentos entre católicos a serem afetados diminuiria de modo considerável. Isso bastaria, achava o núncio, para que a Santa Sé permitisse que a nova lei entrasse em vigor sem protestar.

Mas o papa não concordou, pois naqueles termos os católicos convertidos do judaísmo ainda seriam considerados judeus. Ele fazia questão de que a nova lei contivesse uma exceção permitindo casamentos

de ex-judeus com outros católicos. 29

Tacchi Venturi levou as revisões sugeridas para Buffarini, mesmo sabendo que a proposta do pontífice não tinha chance de ser aprovada pelo ditador. Ao ler o texto sugerido enquanto Tacchi Venturi o observava, Buffarini sacudiu a cabeça. Não o mostraria ao Duce, disse, pois aquilo só pioraria a situação.

Naquela noite, Tacchi Venturi recebeu o texto final da lei matrimonial. Viu que até mesmo as poucas exceções contidas em versões

anteriores tinham sido apagadas. 30 Mussolini resolvera apostar que, apesar de todas as ameaças, o papa não romperia com o regime fascista.