O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 11 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo oito

 

O PACTO

 

A “questão romana” tinha causado problemas para os líderes do país desde que o Reino de Itália, formado das cinzas dos Estados Papais em 1861, engolira Roma, nove anos mais tarde. Durante um milênio, os papas haviam governado uma larga faixa da península italiana, que, na época da unificação do país, estendia-se de Roma para o norte, passando pela Úmbria e por Ferrara, até chegar à Bolonha. Em 1860, quando os Estados Papais estavam desmoronando, Pio IX excomungara o rei da Itália e anunciara que nenhum católico poderia reconhecer o seu governo.

Ao longo das três décadas seguintes, Pio IX e seu sucessor, Leão XIII, tinham procurado uma maneira de recuperar a Cidade Eterna. Mas, no fim do século, até os seguidores mais fervorosos do pontífice já percebiam que o esforço era inútil. O conflito contínuo criava complicações internacionais para o novo Estado italiano, pois líderes dos países católicos relutavam em visitar sua capital. O papa não os receberia se eles visitassem autoridades do governo italiano, mas ir a Roma e não prestar homenagem ao Santo Padre significava correr o risco de sofrer consequências desagradáveis ao voltar para casa.

Na virada do século, as coisas enfim começaram a mudar. Alarmado com o rápido crescimento do movimento socialista, Pio X revogou a norma que proibia os católicos de votarem e concorrerem a cargos públicos nacionais. Mas a Santa Sé ainda se recusava a reconhecer o

governo italiano, e o status jurídico do Vaticano continuava obscuro.1

No verão de 1924, em meio à crise desencadeada pelo assassinato de Matteotti, Mussolini criou uma comissão especial para examinar as leis que diziam respeito à Igreja. Seu objetivo era reduzir as causas de atrito entre o clero e o Estado. Como a Santa Sé ainda não reconhecia formalmente a Itália, o papa não podia ser visto colaborando com seu governo. Mas nos bastidores, trabalhando por intermédio de Tacchi

Venturi, o pontífice colocou três prelados na comissão. 2

O grupo se reuniu trinta e cinco vezes em 1925. Em fevereiro de 1926, quando a comissão se preparava para anunciar novos projetos de lei, o papa escreveu à mão uma longa carta opinando sobre o trabalho realizado. Endereçada ao seu secretário de Estado, a mensagem foi publicada no jornal do Vaticano.

A Igreja, escreveu o pontífice, não podia aprovar qualquer acordo sobre seus próprios direitos que fosse produzido simplesmente por uma votação no parlamento. Só negociações diretas entre o governo e a Santa

Sé poderiam conduzir a um novo entendimento. 3

Mussolini ficou animado. A carta do papa, disse ele ao seu ministro da Justiça e da Religião, era “de importância capital”. Tendo se livrado dos “preconceitos do liberalismo”, explicou o Duce, o regime fascista “repudiara tanto o princípio do agnosticismo religioso de Estado quanto o princípio da separação entre igreja e Estado”. Seu governo trabalhara com afinco “para restaurar o caráter de ser um Estado Católico e uma Nação Católica”. Era hora de começar as negociações. Como Mussolini percebeu prontamente, Pio XI lhe oferecia a possibilidade de realizar um acordo histórico, que consolidaria o apoio ao seu regime de um modo

inimaginável.4

Alguns diplomatas duvidavam que o papa algum dia pusesse fim à inimizade formal entre o Vaticano e a Itália. Apresentando-se como implacavelmente contrária ao governo da Itália, a Santa Sé evitava questões embaraçosas sobre o fato de que suas mais altas autoridades eram italianas. Se fizesse as pazes com o Estado, observou o embaixador dos Estados Unidos no país, o papa — que era italiano e vivia cercado de outros italianos — arriscava-se a ser visto como capelão do rei. Uma instituição que deveria ser universal pareceria essencialmente italiana. “A Igreja está convencida”, avisou o embaixador a Washington, “de que sua influência diminuiria em vez de aumentar se houvesse uma reconciliação formal com o Quirinal [o palácio do rei], e eu ficaria muito surpreso se isso viesse a acontecer nos próximos anos ou, melhor dizendo, nos

próximos séculos”.5

Indiferente aos céticos, Mussolini fez o possível para identificar o

Estado com a Igreja Católica. 6 Descrevendo São Francisco de Assis como “o mais santo dos italianos, o mais italiano dos santos”, declarou 4 de outubro feriado nacional em homenagem a ele. Pôs um trem especial à disposição do cardeal Merry del Val, representante do papa nos ritos inaugurais em Assis, providenciando honras militares ao longo da viagem; isso teria sido inconcebível antes da Marcha sobre Roma. O cardeal retribuiu o favor: Mussolini, disse ele à multidão em Assis, era

“visivelmente protegido por Deus”.7 O ditador também decidiu que o país seria autossuficiente não apenas em agricultura, mas também em milagres. Insatisfeito com o fato de tantos italianos serem atraídos para Lourdes, lugar de peregrinação na França, promoveu o culto da Madonna

de Loreto, sem grande sucesso.8

Em agosto de 1926, quando abriu as negociações com o governo da Itália, o papa escolheu um leigo, Francesco Pacelli, para servir como seu representante pessoal. Evitou recorrer ao seu secretário de Estado — ou mesmo a um clérigo — para essa tarefa porque o Vaticano ainda não reconhecia formalmente o Estado italiano. Nascido em 1872 — quatro anos antes do irmão mais famoso, Eugenio, futuro papa Pio XII —, Francesco Pacelli vinha de uma família romana que servia aos papas havia gerações. Quando Roma caiu em poder das tropas italianas em 1870, a elite da cidade se dividiu em duas facções. Os que adotaram o novo Estado foram apelidados de aristocracia branca, os leais ao pontífice, de

aristocracia negra. A família Pacelli pertencia à aristocrazia nera. 9 Seguindo os passos do pai, Francesco se tornou um advogado proeminente do Vaticano.

Mussolini designou Domenico Barone, advogado do governo, para representá-lo nas conversas. Embora tanto o papa quanto o Duce quisessem mantê-las em segredo, o que não faltava eram fofocas. Boatos chegaram a lugares tão distantes quanto Chicago, onde uma notícia de jornal se referia a uma suposta impaciência de Mussolini para criar “uma cidade do papa”. Sensíveis aos rumores, os romanos começaram a examinar com atenção as transações imobiliárias, pois corria o boato de que o pontífice estava adquirindo propriedades em segredo, com o objetivo de criar um Estado papal que se estenderia de São Pedro ao

mar.10

As negociações estavam longe de ser tranquilas. O grande obstáculo costumava ser a atitude ferozmente protetora do papa com a Ação Católica. Mussolini nunca se sentiria à vontade com um grupo que ele mesmo não controlasse. Como uma organização de filiação aberta para as massas sobre a qual ele não tinha autoridade, a Ação Católica lhe despertava suspeitas constantes. Ele tinha certeza de que remanescentes do Partido Popular encontravam guarida nesse movimento. Mas Pio via a organização como seu principal veículo para divulgar o evangelho católico para a população italiana.

Em geral, notícias de violência fascista contra grupos da Ação Católica provocavam a ira e a indignação de Pio XI. Em junho de 1925, num desses episódios, squadristi saquearam a sede da Ação Católica em Pádua; o papa despachou Tacchi Venturi para tomar uma providência qualquer a esse respeito. A investigação policial que se seguiu revelou detalhes sobre os estreitos vínculos entre a Ação Católica e o Partido Popular naquela

cidade. 11 Nesse e em outros casos, o enviado jesuíta do pontífice fez o que pôde para acalmá-lo. Líderes da organização tinham sido aconselhados diversas vezes a manterem suas atividades separadas do Partido Popular, lembrou ele a Pio. Os grupos da Ação Católica eram quem estava se metendo em encrencas. Como poderia o Vaticano, perguntava Francesco, permitir que uma organização da Igreja criticasse o

governo fascista, “tão favorável à religião católica”?12

No começo de 1926, incomodado com as notícias de violência contra uma sede da Ação Católica, dessa vez na cidade de Brescia, no norte do país, o papa pediu mais uma vez a Tacchi Venturi que apresentasse uma denúncia. Depois de um encontro com funcionários do governo, o jesuíta novamente tentou convencer Pio XI e Gasparri a se colocarem no lugar de Mussolini. Muitos dos mais ativos membros da Ação Católica em Brescia, informou Tacchi Venturi, eram também conhecidos militantes do Partido Popular: “Disso vem a confusão e a quase identificação de uns com os outros.” E continuou: “O governo tem provas claras de que a Ação Católica [de Brescia], junto com seu jornal semioficial, Il Cittadino, não são nada além do disfarce usado pelo partido

político contrário ao governo.” 13

Embora fascistas locais atacassem com frequência grupos de adultos da Ação Católica, a grande preocupação de Mussolini era com o papel desempenhado pelos núcleos jovens. Enquanto consolidava sua ditadura, ele tinha visto como era importante moldar as crianças para convertê-las em fascistas leais. Poucos meses antes do início das negociações com o Vaticano, o ditador anunciou a fundação de sua própria organização nacional de juventude, a Opera Nazionale Balilla. A organização tinha quatro divisões. A Balilla era para meninos de oito a catorze anos, e a Avanguardisti, para jovens de catorze a dezoito; suas versões femininas eram as Piccolle Italiane (Pequenas Italianas) e as Giovani Italiane (Jovens

Italianas). Os membros usavam uniformes quase militares.14

Para Mussolini, a rede nacional de grupos jovens da Igreja — dos escoteiros católicos às diversas organizações da Ação Católica para adolescentes — era uma concorrência indesejada. Assumir o controle da juventude lhe parecia tão importante que ele até se arriscou a enfurecer o papa. Começou banindo os grupos de escoteiros. Indignado com a notícia, Pio mandou Tacchi Venturi adverti-lo de que deveria recuar.

No começo de 1927, preocupado não apenas com a dissolução dos escoteiros católicos, mas também com os indícios de que a proibição se estenderia a grupos de juventude da Ação Católica, o papa mandou suspender as conversas. Exigiu que a Ação Católica fosse excluída da regulamentação que só permitia grupos de juventude não fascistas cujas atividades fossem “predominantemente religiosas”. O que mais atraía os jovens para os grupos católicos eram as atividades recreativas. Pio temia que o número de sócios diminuísse se os grupos oferecessem apenas orações e instrução religiosa. Mandou Tacchi Venturi dar um ultimato a Mussolini: ou cedia, ou podia desistir de chegar a um acordo sobre a questão romana. No fim de fevereiro de 1927, percebendo que corria o risco de exagerar na dose, o Duce ordenou a seus prefeitos que deixassem em paz os grupos de juventude da Ação Católica. Satisfeito, o papa

mandou Francesco Pacelli retomar as negociações.15

Nos meses seguintes, com as conversas retomadas, o pontífice passou a se encontrar várias vezes por semana com Pacelli. Novos relatos de violência fascista contra grupos católicos locais chegavam de vez em quando, e o papa ameaçava mais uma vez romper as negociações. Contudo, àquela altura ele já tinha investido demais nas conversas e no apoio a Mussolini e ao regime fascista para correr o risco de fracassar. Atribuía a violência a indivíduos anticlericais que cercavam o Duce e que tentavam frustrar a vontade do ditador. Surgiram também outros pontos de discordância. Em abril de 1928, Pio XI reclamou da recente criação das organizações fascistas de meninas. Entristecia-o em especial sua prática de marchar com mosquete no ombro. Mas, nesse caso, o papa mais uma vez não atribuiu a culpa ao ditador. “Há muitas coisas que acontecem e

que Mussolini nem sabe”, disse Pio. 16

O pontífice dissera aos cardeais da Cúria que as negociações com o governo estavam em andamento. Mas, temendo que uma oposição se formasse, decidiu não os convocar até que houvesse um acordo. Preocupava-se em particular com o cardeal Bonaventura Cerretti, personalidade influente em questões internacionais, conhecida por sua hostilidade ao regime fascista. Para remover Cerretti de Roma durante os meses cruciais das negociações de 1928, ele mandou o cardeal para Sydney, na Austrália, como seu embaixador no Congresso Eucarístico

Internacional. Cerretti só retornaria quando o acordo fosse firmado.17

Em outubro de 1928, quando as negociações pareciam quase concluídas, Pio recebeu uma notícia desagradável: o rei estava hesitante e talvez não assinasse o documento. Vítor Emanuel III — que recebera esse nome em homenagem ao homem que roubara os territórios do papa — não era amigo do papado, como o pontífice bem sabia. Dois anos antes, Pio XI hostilizara o rei quando sua mãe, conhecida pela devoção católica e pelas boas ações, morreu. Vítor Emanuel queria que o papa realizasse o funeral, ou pelo menos prestasse um tributo público, mas ele não fez nenhuma das duas coisas. O conde Dalla Torre, editor do jornal do Vaticano, havia preparado um lisonjeiro obituário da rainha-mãe, mas o

texto nunca foi publicado — porque o pontífice proibiu. 18

Pio agora temia que todos aqueles anos de duras negociações dessem em nada. Desesperado para encontrar um jeito de garantir a aprovação do rei, ele se concentrou no ponto que sabia que mais incomodava o monarca: a possível expansão das terras sob controle do papa. Resolveu desistir de sua demanda inicial para que os vastos jardins da Villa Doria Pamphili, na colina Gianicolo, acima do Vaticano, fossem anexados ao

território da Santa Sé.19

Ao saber da notícia, Domenico Barone, negociador de Mussolini, disse a Pacelli: “Se não aceitarem nessas condições, é porque são

idiotas.” 20

 

* * *

MUSSOLINI E O rei, de personalidades e antecedentes familiares tão diferentes, haviam, no fim dos anos 1920, estabelecido uma relação estável, ainda que peculiar. A certa altura, Mussolini disse que era como se os dois dormissem no mesmo quarto, mas em camas separadas. Tinham, porém, vários traços em comum, como o desconforto na presença de padres. Além disso, ambos costumavam fazer comentários mordazes sobre os homens que os cercavam. Certa vez, em uma de suas observações características, o rei descreveu o mais importante general da Itália, Pietro Badoglio (a quem, anos depois, escolheria para substituir Mussolini como primeiro-ministro) como alguém que tinha “o cérebro de um pardal e o couro de um elefante”. Por sua vez, o Duce gostava de ridicularizar o monarca. Ele se queixava de que o minúsculo rei causava uma má impressão, indigna de uma grande nação. Era um “homenzinho desagradável, traiçoeiro”. Em várias ocasiões, chamou Vítor Emanuel de “carruagem vazia”, “árvore morta” e “galinha velha, cujas penas deveriam ser arrancadas”. Mas não tolerava que outros ridicularizassem o rei, mesmo que fosse sua mulher. Oriunda do mesmo meio antimonárquico do marido, Rachele, pouco à vontade entre os ricos e bem-nascidos, nunca se sentia confortável perto da família real. Mussolini sem dúvida compreendia isso. No entanto, quando ela começava a contar sua piada favorita, dizendo que o rei precisava de escada para montar em

seu cavalo, ele mandava a esposa se calar. 21

Todas as segundas e terças-feiras às dez da manhã, o Duce, de sobrecasaca e cartola, ia se encontrar com Vítor Emanuel III no vasto e majestoso palácio Quirinal, onde o rei assinava vários decretos governamentais e nomeações pessoais. Nessas manhãs, observou Quinto Navarra, era como se ele fosse um Mussolini diferente. Nos outros dias da semana, o imperial e ditatorial Duce, que intimidava os ministros, aparecia com frequência trajando seu uniforme de miliciano, numa série infindável de desfiles e comícios em que desempenhava o papel de líder supremo na complexa coreografia de poder do regime. Entretanto, em suas manhãs no palácio real, Mussolini se comportava como um primeiro-ministro respeitoso, ciente dos direitos do rei no que ainda era,

formalmente, uma monarquia constitucional.22

 

* * *

 

EM 7 DE fevereiro de 1929, o cardeal Gasparri convocou os embaixadores na Santa Sé para lhes dizer que um acordo histórico não demoraria a ser anunciado, encerrando décadas de discordâncias entre a Igreja e o governo italiano. O cardeal estava prestes a se tornar a face pública do tratado que seria saudado por eclesiásticos mundo afora. Para ele, porém, era um momento agridoce. Nos anos anteriores, recebera sinais de que o papa já não apreciava seus serviços. Embora realista, Gasparri tinha seu orgulho. Ficara agastado em 1929, quando Pio XI, por ocasião do quinquagésimo aniversário de sua ordenação, esnobou-o. Seus assessores tinham planejado uma comemoração de gala, uma missa presidida pelo papa a ser celebrada em sua honra na capela Sistina; os cardeais da Cúria estariam todos presentes, assim como o corpo diplomático. Mas o pontífice não apareceu, e os dignitários que compareceram fizeram todo

tipo de conjectura a respeito de sua surpreendente ausência. 23

No começo de 1928, Gasparri já não era jovem. Sofrendo de diabetes e do coração, dormia mal. O outrora jovial secretário de Estado parecia cada vez mais deprimido e chorava com facilidade. Quando outros faziam comentários sobre sua palidez e sobre o tremor que surgira em suas mãos, ele respondia que estava bem. O papa insistia para que ele tirasse uma folga e descansasse um pouco, mas Gasparri, temendo que Pio

aproveitasse sua ausência para substituí-lo, dizia que não era necessária. 24 Não sabia quanto tempo ainda aguentaria, mas queria compartilhar a glória de ver o fim de setenta anos de hostilidades entre a Itália e a Santa Sé.

Um dia depois de Gasparri reunir os diplomatas no Vaticano para lhes dar a notícia, Mussolini mandou um telegrama para todos os embaixadores da Itália com a mesma mensagem. A notícia da iminente cerimônia de assinatura foi publicada em jornais estrangeiros, mas a imprensa italiana ficou calada, e pouca gente no país se deu conta do que

estava prestes a acontecer.25

“Que dias maravilhosos!”, escreveu de Roma o monsenhor Francis Spellman — o único americano no escritório da Secretaria de Estado — para a mãe em Boston, em 8 de fevereiro. “Dias maravilhosos para se estar vivo, e mais maravilhosos ainda para se estar vivo em Roma!” E acrescentou: “Todos aqui estão radiantes de felicidade, e é para estarem mesmo. Este Santo Padre, o cardeal Gasparri e o monsenhor Borgongini

têm lugar garantido na história e, é claro, Mussolini também.” 26

Os detalhes finais do Tratado de Latrão entre o Vaticano e a Itália foram acertados por Mussolini e Pacelli na noite de sábado, 9 de fevereiro

de 1929.27 O primeiro artigo especificava que o catolicismo era “a única religião do Estado”. Os acordos se dividiam em três partes. A primeira, o tratado propriamente dito, estabelecia a Cidade do Vaticano como território soberano, sob governo papal, onde o governo italiano não tinha o direito de interferir. (Antes, os palácios e os jardins do Vaticano, assim como a basílica de São Pedro, estavam sob controle do papa, mas o governo da Itália sempre considerara que eles ficavam em solo italiano, e

seu status jurídico era ambíguo.)28 Os limites da Cidade do Vaticano deveriam coincidir basicamente com os muros medievais existentes; a praça de São Pedro, que não estava circunscrita pelas muralhas, seria considerada parte da nova cidade-Estado, mas ficaria aberta ao público e sob supervisão da polícia italiana. Ao todo, o território abrangia quarenta e quatro hectares. Ofender a dignidade do papa seria considerado crime equivalente a ofender o rei. Os embaixadores na Santa Sé teriam os mesmos privilégios e imunidades dos embaixadores na Itália. Além da soberania sobre a Cidade do Vaticano, a Santa Sé teria direitos especiais sobre as basílicas de Roma e sobre o palácio de verão do papa em Castel Gandolfo, nas vizinhas colinas Albanas. Todos os cardeais em Roma

seriam considerados cidadãos do novo Estado.29

A segunda parte do Tratado de Latrão, a concordata, regia as relações entre a Santa Sé e a Itália. O governo italiano não permitiria que nada acontecesse em Roma que pudesse interferir no caráter do Vaticano como centro sagrado do mundo católico. A concordata passava a considerar feriados nacionais vários dias santos católicos, e pela primeira vez o Estado italiano reconheceria casamentos religiosos. (Até então, os matrimônios realizados apenas na igreja não eram considerados válidos para fins legais.) O documento também especificava que a instrução religiosa católica, que o regime já tornara compulsória nas escolas primárias, seria estendida a todas as escolas secundárias. Apesar do fato de que apenas uma a cada cinco crianças italianas ia além do ensino primário na época, as que passavam desse nível formariam a elite da geração

seguinte, e sua educação religiosa era de grande valor para a Igreja.30 Em outra cláusula cara ao papa, o Estado italiano aceitava o direito de os grupos da Ação Católica operarem livremente.

A terceira e última parte do tratado consistia num acordo financeiro. A Itália pagaria setecentos e cinquenta milhões de liras, acrescidas de um bilhão de liras em títulos italianos (totalizando cerca de um bilhão de dólares americanos em valores de 2013), para que, em troca, a Santa Sé

desistisse de todas as reivindicações relativas à perda dos Estados Papais.31

Às nove da manhã de segunda-feira, 11 de fevereiro, Dino Grandi, subsecretário de Relações Exteriores, chegou à casa de Mussolini. O Duce estava inusitadamente bem-humorado. No carro, a caminho do local da assinatura, o ditador cantou uma velha canção popular da Romanha. Mussolini podia estar feliz, mas Grandi estava nervoso.

“Devo beijar o anel do cardeal?”, perguntou ele.

Era provável que o cardeal Gasparri esperasse que sim, respondeu o Duce. Animado, ele disse a Grandi que sabia qual era a melhor maneira de resolver o assunto. Enfiou a mão no bolso, tirou uma moeda e jogou-a para cima. E, vendo o resultado, o ditador anunciou: “Beijaremos o

anel!”32

No Vaticano, de manhã bem cedo, Gasparri e seu subsecretário, monsenhor Borgongini, tinham se reunido na biblioteca particular do papa, onde asseguraram ao pontífice que estava tudo pronto para a assinatura. Mostraram-lhe o texto do tratado, recém-saído da gráfica do Vaticano, junto com o mapa que mostrava as mudanças de última hora. Depois de examinar com atenção os documentos, Pio XI deu sua aprovação com um aceno de cabeça. Gasparri e Borgongini tinham que ir andando, mas antes de sair se ajoelharam e pediram a bênção do pontífice. Todos sentiam a grandeza do que estava para acontecer. Os

olhos do cardeal Gasparri estavam marejados quando ele saiu da sala.33

A cerimônia foi realizada na Sala dos Papas no palácio de Latrão, no lado da cidade oposto ao Vaticano. O trono do pontífice como bispo de Roma não é a basílica de São Pedro, mas a arquibasílica de São João de Latrão. Durante mil anos, a partir do século IV (quando o imperador Constantino deu aos papas seu próprio palácio naquele sítio) até o século XIV (quando os papas foram exilados para Avinhão), os papas haviam

morado em São João de Latrão. 34 Os vândalos arrasaram o palácio no século V, e ele fora em parte destruído por incêndios no século XIV, mas era sempre reconstruído, cada vez mais magnífico. Como “prisioneiros do Vaticano”, porém, nenhum dos papas tinha posto os pés ali desde que as tropas italianas haviam tomado Roma, em 1870.

Gasparri e Borgongini já tinham chegado — num Chrysler novo doado por um americano rico — quando o carro de Mussolini

estacionou. Chuviscava. 35 O Duce saiu do carro, segurando luvas brancas

na mão esquerda. Usava terno formal completo, com cauda e cartola. 36 O cardeal cumprimentou Mussolini e Grandi, aos quais se juntaram o ministro da Justiça, Alfredo Rocco, e o subsecretário do Duce, Francesco Giunta, e os convidou para subirem com ele a imponente escada. Atravessaram vagarosamente o que Grandi descreveu como um número “interminável” de salas enfeitadas do museu dedicado às missões da Igreja mundo afora. O exaltado Gasparri agitava os braços identificando os países de origem das exposições pela quais passavam, da Nova Guiné às Ilhas Fiji, da Mongólia à Índia e à Nicarágua. “Nomes de terras estranhas e distantes”, relembrou Grandi, “que o Príncipe da Igreja pronunciava com um sorriso, como se quisesse acentuar para nós como eram vastos o poder e o alcance da Igreja Católica no mundo.”

Por fim, chegaram ao seu destino. Num dos lados da grande sala havia uma mesa cor-de-rosa de cinco metros por um metro e vinte; oito cadeiras pretas com braços, bastante esculpidas, estavam arrumadas em fila

do outro lado.37 Mussolini e Gasparri se sentaram no centro. Ao se preparar para assinar o documento, o ditador, antes tão relaxado, pareceu pálido e pouco à vontade, enquanto o cardeal, sentindo-se em casa,

sorria.38

Quando o Duce e Gasparri saíram do palácio de Latrão, a multidão, que se aglomerava depressa, irrompeu em aplausos. Nenhum aviso antecipado sobre a cerimônia tinha sido divulgado, mas a presença de tantos policiais e milicianos na frente da catedral, somada à chegada de Mussolini, havia deflagrado rumores, e jornalistas e fotógrafos apareceram rapidamente. Apesar da garoa, o ânimo era muito positivo. Padres e seminaristas cantavam em coro preces de ação de graças, intercaladas com berros de “Viva Pio, viva nosso papa e rei!”, enquanto outros, aglomerados na piazza em frente à igreja histórica, davam gritos de “Viva Mussolini! Viva a Itália” intercalados com brados fascistas de “alalà!”. Afastando-se de carro, o monsenhor Pizzardo ficou tão empolgado que

respondeu aos gritos da multidão erguendo o braço na saudação fascista.39

11. Assinatura do Tratado de Latrão, em 11 de fevereiro de 1929. Da esquerda para a direita:

monsenhor Francesco Borgongini-Duca, cardeal Pietro Gasparri, Francesco Pacelli, Benito

Mussolini e Dino Grandi

 

12. Logo depois da assinatura dos acordos, no palácio de Latrão, 11 de fevereiro de 1929.

Cardeal Gasparri e Mussolini, na frente, no centro; monsenhor Pizzardo na extrema esquerda;

Francesco Pacelli de cartola, à esquerda de Gasparri; monsenhor Borgongini, à direita de

Mussolini; e Dino Grandi à extrema direita

 

Mussolini, de humor mais contido, permaneceu em silêncio durante toda a viagem de carro de volta ao seu gabinete. Embora aquele fosse o seu maior triunfo, ele nunca se sentia à vontade na presença de sacerdotes

ou dentro de igrejas. 40

Seria difícil exagerar a importância que o pontífice atribuiu aos acordos. Renato Moro, um dos principais historiadores da Igreja na Itália, observa que, apesar do estabelecimento do governo italiano no século XIX — com seus compromissos de separação entre clero e Estado e de democracia liberal, os papas jamais haviam abandonado a crença numa sociedade italiana hierárquica e autoritária, baseada em princípios da Igreja. Depois de anos nos quais esses sonhos de retorno à antiga autoridade do clero pareciam irreais, a aparição do fascismo trouxe uma

nova esperança. 41

Até a assinatura, católicos insatisfeitos com a ditadura podiam afirmar que o pontífice não demonstrava grande entusiasmo pelo regime fascista. Agora isso não era mais possível. Católicos italianos não poderiam mais ter dúvida de que, se apoiassem Mussolini, estariam cumprindo um desejo do papa. O próprio Pio, falando a um grupo de estudantes universitários dois dias depois da assinatura, explicou como o histórico tratado enfim se tornara possível. Disse-lhes que talvez o fato de um dos lados ser encabeçado por um bibliotecário, especialista em examinar à exaustão documentos históricos, tivesse ajudado, e que “talvez o que também fizesse falta fosse um homem como o que a Providência nos fez encontrar, um homem que não compartilha as preocupações da escola liberal”. Nos anos seguintes, a referência do papa a Mussolini como o homem enviado pela Providência seria repetida por bispos, padres e

leigos católicos milhares de vezes.42

Em Bolonha, edições especiais dos jornais locais se esgotaram num instante. O arcebispo anunciou uma missa especial de ação de graças para o dia seguinte, convidando o governo e oficiais militares. O arcebispo de Chieti não esperou até o dia seguinte — uma multidão eufórica se espremeu na catedral para uma missa especial de ação de graças na noite da assinatura. As autoridades fascistas locais participaram com orgulho da cerimônia, carregando suas bandeiras e flâmulas, sem se intimidarem com

a tempestade de neve lá fora. 43 Jornais em todo o país, incluindo o diário do Vaticano, martelaram no tema de que a histórica assinatura jamais teria acontecido se a Itália ainda estivesse sob um governo democrático. Só

Mussolini e o fascismo haviam tornado o acordo possível. 44

Em Roma, edifícios do governo e residências particulares se cobriram de uma combinação antes impensável: estandartes papais brancos e amarelos ao lado de bandeiras tricolores italianas. Na verdade, era o sétimo aniversário da coroação do papa, e estava previsto que ele presidiria a missa comemorativa em São Pedro. Doze homens de uniforme vermelho, seis de cada lado, carregaram o pontífice em sua sedia gestatoria , o trono coberto de seda vermelha, até o interior da imensa basílica. Dezenas de milhares de fiéis, após se acotovelarem durante horas de espera, enfim puderam ter um vislumbre do papa. A Federação Fascista de Roma havia convocado os fascistas para mostrarem o seu entusiasmo se reunindo na praça de São Pedro. Duzentas mil pessoas aguardavam na chuva torrencial. Quando Pio XI apareceu na sacada para abençoá-las, elas urraram de alegria. Abaixo dele estavam representantes de cada uma das unidades da milícia fascista de Roma, erguendo suas flâmulas enquanto a infindável multidão de fiéis e de curiosos se estendia para além dos limites da piazza. Mais para o fim da tarde, convocada pelo Partido Fascista e por milicianos, outra multidão se reuniu na frente do palácio do Quirinal, em cuja sacada o rei apareceu, com a rainha à direita

e o chefe nacional do Partido Fascista à esquerda.45

Ao redor do mundo, o Duce foi saudado como um grande estadista.46 No Vaticano, um alto assessor descreveu a emoção. Nem mesmo as comemorações da vitória na Grande Guerra se comparavam ao delírio da Itália naquele dia: “A alegria era total, sem uma nuvem sequer. Todos sentiam que novos píncaros de grandeza e glória despontavam no horizonte da Itália.” Em todo o país, de Turim à Sicília, bispos e padres ordenaram que suas igrejas repicassem os sinos em comemoração, honrando o homem que enfim trouxera a harmonia entre Igreja e

Estado.47 Para a maioria dos italianos, o fim de décadas de hostilidades foi um alívio imenso. Não havia mais conflito entre ser um italiano leal e um bom católico.

O acordo, como disse um enviado americano a Roma ao secretário de Estado dos Estados Unidos, foi “um triunfo para Mussolini ao encerrar a rivalidade e conquistar o clero para o fascismo”. Em seu diário, o general Enrico Caviglia, herói da Primeira Guerra Mundial e confidente do rei, apresentou uma visão diferente daquele dia: “Esses homens que chegaram ao poder através de golpes de Estado precisam se legitimar por intermédio do Vaticano.” Mas em vinte anos, perguntava ele, o que aconteceria quando o povo se ressentisse da ditadura que usurpara sua liberdade? “Como julgarão o Vaticano”, indagava, “que deu apoio moral

ao regime?” 48

Mussolini ouviu apenas uma nota discordante da sua rede nacional de espionagem. O relatório de 13 de fevereiro, baseado em informantes em Roma, começava de forma promissora: “A notícia da Conciliação produziu alegria e entusiasmo indescritíveis em quase toda a população (...) As pessoas dizem que o acontecimento histórico representa um êxito sem paralelo do genial Duce (...) que o prestígio e a força do fascismo aumentaram enormemente.” Mas havia alguns descontentes, “um punhado de liberais velhos e ressentidos, o que restou dos maçons e dos judeus”. Para os judeus da Itália, o Tratado de Latrão trouxe nervosismo e medo. Pouco mais de meio século antes, o fim dos Estados Papais os tinha libertado dos guetos do papa. A unificação italiana e a separação entre igreja e Estado haviam sido a sua salvação. Agora, eles temiam o

que o futuro poderia trazer.49