O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 8 de 38

Páginas do PDF

O Papa e Mussolini

Capítulo cinco

 

LEVANTAR-SE DO TÚMULO

 

Em 30 de maio de 1924, o terceiro dia do novo parlamento, Giacomo Matteotti subiu à tribuna da Câmara dos Deputados em meio a vaias e ameaças da bancada fascista. Expulso do Partido Socialista dois anos antes num expurgo dos moderados, ele fundara um partido reformista, o Socialista Unitário. Naquele dia, tinha uma mensagem a transmitir: a eleição recente, marcada pela violência, deveria ser anulada. Enquanto narrava detalhes de casos de intimidação de eleitores em todo o país, deputados fascistas o interrompiam sem parar. “Mentiras!”, gritavam. “Volte para a Rússia!” Um deles berrou: “Basta! O que estamos fazendo aqui? Precisamos tolerar esses insultos?” Uma falange enfurecida de deputados fascistas avançou ameaçadoramente para a frente da sala. “Você não deveria estar no parlamento!”, gritou alguém. “Deveria estar em prisão domiciliar!” Quando Matteotti conseguiu terminar, depois de ser interrompido diversas vezes, assobios fascistas sufocaram os aplausos da oposição. “Agora é melhor se prepararem para escrever o meu

obituário”, comentou ele com um colega ao sair do prédio.1

Mussolini, que estava presente naquela sessão, ficou possesso. Virou-se para seu assessor de imprensa, Cesare Rossi, e resmungou: “Não se pode permitir que esse homem permaneça circulando.”

Em 10 de junho, Matteotti deveria falar novamente no parlamento, dessa vez para denunciar o governo de Mussolini por corrupção. Depois do almoço, enquanto caminhava de sua casa, localizada perto da Piazza del Popolo, até a Câmara dos Deputados, dois homens o agarraram e tentaram arrastá-lo para dentro de um sedã. Embora não fosse grande nem musculoso, Matteotti, de trinta e nove anos, era corajoso e rápido. Jogou um dos agressores no chão e estava quase se livrando do outro quando um terceiro caiu em cima dele, com um soco-inglês. Os homens arrastaram o deputado semiconsciente para o carro. Enquanto ele se debatia, quebrando a divisória de vidro que separava o motorista do banco traseiro, os sequestradores o espancaram brutalmente.

 

9. Giacomo Matteotti

 

O sedã disparou pelas ruas de Roma, com o motorista apertando a buzina sem parar para cobrir os gritos de socorro de Matteotti. Os berros logo pararam. Ele estava morto. Se os homens receberam ordem para matá-lo ainda é tema de debate, mas, uma vez com o cadáver no colo, os assassinos procuraram um lugar onde escondê-lo. A cerca de vinte e cinco quilômetros de Roma, enterraram-no numa cova rasa no mato não

muito longe da estrada.2

Quando Matteotti não voltou para jantar em casa, sua esposa descobriu que ele não tinha sequer chegado ao parlamento. O alarme soou. Na noite seguinte, relatos de testemunhas começaram a aparecer, descrevendo a cena do sangrento sequestro do socialista e a fuga frenética no carro em alta velocidade.

O fato de um destacado membro do parlamento criticar os fascistas num dia e ser violentamente sequestrado quase no dia seguinte era chocante para todo mundo, menos para os fascisti mais empedernidos. Em meio ao furor, Mussolini tentou se distanciar do assassinato. Até 14 de junho demitiu tanto o chefe de polícia quanto o subsecretário do Interior. As suspeitas recaíram em Cesare Rossi, que, além de servir como assessor de imprensa do primeiro-ministro, chefiava um bando secreto de valentões fascistas. Rossi se escondeu. Em pouco tempo, outras altas figuras do regime fascista se viram envolvidas na teia das investigações.

Indícios colhidos no carro usado no sequestro permitiram à polícia identificar os homens que tinham assassinado o deputado socialista. O líder dos sequestradores, Amerigo Dumini, gabava-se para os camaradas de já ter matado mais de dez homens por ordem dos altos escalões do regime. Dumini era americano. Nascido em 1894, em St. Louis, era filho de um imigrante italiano e de uma inglesa. Mudara-se para a Itália quando adolescente, ingressando no Exército italiano durante a guerra. Mais tarde se tornaria um dos fiéis escudeiros de Mussolini, trabalhando sob as ordens de Rossi.

Cinco meses antes, Mussolini tinha se reunido com seu assessor de imprensa e vários mandachuvas fascistas para criar um pequeno grupo secreto capaz de cumprir missões violentas. Dumini fora encarregado de formá-lo. Em junho, recebeu a ordem, muito provavelmente de Rossi,

para pegar Matteotti.3

O país entrou em rebuliço. As surras ocasionais e a administração de óleo de rícino a agitadores socialistas eram uma coisa, mas o assassinato do líder de um dos principais partidos de oposição no parlamento — encomendado, segundo todos os indícios, pelos mais altos níveis do regime fascista — era algo bem diferente. O fato de a ação ter sido executada em Roma, em plena luz do dia, só aumentava a indignação. No ano e meio anterior, Mussolini tinha ascendido de chefe de um movimento violento, mais conhecido por seus arruaceiros delinquentes, à condição de um chefe de governo cada vez mais respeitado. Muitos de seus partidários achavam que ele havia deixado para trás esse passado brutal — ou pelo menos esperavam que tivesse feito isso —, mas o assassinato de Matteotti sugeria o contrário. Nos dias e nas semanas que se seguiriam, toda a rede de apoio que Mussolini construíra com tanto cuidado — os velhos nacionalistas e liberais, os grandes industriais e os

pequenos proprietários de lojas — começou a desmoronar. 4

No fim de junho, com o corpo de Matteotti ainda sumido, deputados de oposição se reuniram e decidiram que não participariam de outra sessão da Câmara enquanto Mussolini não dissolvesse a milícia fascista e as outras organizações secretas que criara para aterrorizar a oposição.

Jornais conservadores se voltaram contra ele. Il Giornale d’Italia, que até então o apoiara, exigiu que os responsáveis pelo assassinato fossem identificados claramente. As classes médias, que tinham em grande parte abraçado Mussolini, também se afastaram: queriam um governo conservador e nacionalista, não um tirano sanguinário. As pessoas começaram a rasgar os cartões de filiação ao Partido Fascista, enquanto parlamentares de oposição eram aplaudidos por transeuntes nas ruas de Roma. Em algumas áreas, milicianos fascistas, que até pouco tempo antes desfilavam altivamente, agora tinham medo de aparecer em público

trajando seus uniformes. 5 O regime balançou. Não havia quase nada que o impedisse de cair.

Uma torrente de êxitos inflara o ego de Mussolini. Mas agora, irritado, ele se tornara alguém impossível de abordar. Seu humor estava tão sombrio que até os auxiliares mais próximos tinham medo de chegar perto. “Dentro do palácio Chigi” — onde Mussolini tinha o seu gabinete na época — “respira-se um ar de sepultura”, disse Quinto Navarra, seu

assistente. 6

O silêncio era mais notável ainda porque os berros do tirano costumavam atravessar sua porta, quando ele repreendia e intimidava os subordinados. Agora nem um som saía de lá. Um dia, no auge da crise, Navarra encontrou o primeiro-ministro em seu gabinete: “Dizer que Mussolini, quando o surpreendi ao abrir um pouco a porta naquela manhã, estava apenas chateado, era pouco.” O homem desconsolado sacudia a cabeça de um lado para o outro, batendo-a de encontro à moldura de madeira dourada de sua cadeira de espaldar alto, com os olhos

arregalados, bufando e resmungando. 7

Um grampo — pois aparentemente ele tinha mandado a polícia grampear o telefone da amante — capturou a conversa lamentosa de Mussolini com Margherita Sarfatti:

— Como você está? — perguntou ela.

— Como você acha que estou?

— Alguma novidade?

— Nada... a esta altura, não me surpreendo com mais nada... A coisa que mais me chateia é que não sei o que meus supostos amigos estão pensando... os que me traíram.

Margherita aconselhou-o a não deixar a raiva lhe toldar o julgamento.

— Não é uma questão de raiva — respondeu Mussolini. — Infelizmente o destino jogou a favor dos meus inimigos, e, se eu perder o jogo, o que é quase certo, não será sequer possível preservar a minha

dignidade!8

As tentativas de Mussolini de se distanciar do assassinato naufragaram quando a identidade dos homens responsabilizados pelo crime foi revelada, pois entre eles estavam algumas das pessoas mais chegadas ao primeiro-ministro. O fim do regime parecia próximo.

O Senado — cujos membros eram escolhidos pelo rei, não eleitos — reabriu duas semanas depois do assassinato. Mussolini se levantou para falar. Disse que estava tão ansioso para saber o que de fato acontecera quanto qualquer pessoa, mencionando a prisão dos supostos assassinos e a demissão de altos funcionários do governo como provas de sua

sinceridade.9 Enquanto muitos acharam seus comentários lamentavelmente inadequados, um homem correu para cumprimentá-lo. Numa carta floreada escrita à mão, o padre Tacchi Venturi, enviado secreto do papa, disse a Mussolini que tinha ficado muito impressionado com seu discurso. Despejou elogios ao bom trabalho do primeiro-

ministro e pediu a Deus que assegurasse seu futuro êxito. 10

Enquanto corriam rumores de que seu líder estava em estado de choque, preocupados chefes fascistas das províncias visitavam Roma para tirá-lo do estupor. Para seu horror, encontravam-no atordoado. Leandro Arpinati, o chefe fascista de Bolonha, ficou horrorizado ao ver Mussolini aparentemente febril, os olhos vermelhos, como se tivesse chorado. Parecia, segundo Arpinati, um homem de negócios em vias de decretar

falência.11

Para o papa, o assassinato de Matteotti foi um desastre. Em Mussolini, o Vaticano enfim encontrara um líder italiano com quem poderia trabalhar. Agora, com as forças de oposição se unindo para boicotar o parlamento e pedir a restauração dos direitos constitucionais, a permanência de Mussolini no poder estava em perigo. Pio XI resolveu fazer o que estivesse a seu alcance para salvá-lo, concentrando-se na decisão do Partido Popular de se juntar à coalizão que pedia um novo governo. Embora, no sentido formal, o partido não dependesse da hierarquia da Igreja, era pouco provável que pudesse continuar reivindicando a condição de partido católico da Itália se o papa o

rejeitasse abertamente.12

No fim de junho, com os italianos desorientados e o destino de Mussolini incerto, o jornal diário do Vaticano, L’Osservatore Romano, publicou um editorial sobre a crise, lembrando aos católicos a recomendação da Igreja para obedecer às autoridades civis e advertindo-os contra qualquer “salto no escuro”. La Civiltà Cattolica, a revista jesuíta supervisionada pelo Vaticano, reagiu com um artigo do editor, o padre Rosa, lembrando aos leitores a admoestação da Igreja para obedecer à autoridade do governo. Qualquer tentativa de enfraquecer o governo em curso, afirmava ele, corria o risco de provocar a anarquia. Rosa mirou em especial nos seguidores do Partido Popular, advertindo que não convinha

aos bons católicos colaborar com socialistas. 13

O Vaticano deixou claro para os líderes do partido católico que seus esforços para derrubar o regime fascista não eram bem-vindos. Apesar disso, eles continuaram a trabalhar com outros grupos de oposição para

reconduzir a Itália à democracia parlamentar.14

Pio tentou levantar os ânimos de Mussolini. Na manhã de 20 de julho, um domingo, o papa pediu a Tacchi Venturi que informasse ao prostrado líder que ele ainda contava com o apoio do pontífice. Naquela tarde, o jesuíta mandou um bilhete a Mussolini: “Excelência, esta manhã foi do agrado de Sua Santidade falar-me de Vossa Excelência em tais termos que tenho certeza de que serão especialmente bem-vindos e consoladores.” Sublinhou as últimas palavras e, dizendo a Mussolini que seria melhor se pudesse comunicar os pensamentos do papa pessoalmente, pediu para ter um encontro com ele o quanto antes. Quando, dois dias depois, abriu e leu o bilhete, o acuado chefe de governo escreveu por cima do papel com seu lápis de cor: “Quinta-feira de manhã às 12.” E foi assim que, nos dias mais sombrios de Mussolini, o enviado de Pio XI

apareceu para lhe oferecer o apoio papal.15

Mas o pontífice não se limitou a oferecer palavras de conforto. Mais uma vez recorreu à ajuda do padre Rosa. Encontrando-se com o editor jesuíta em sua biblioteca, o papa o instruiu a preparar um novo artigo sobre a crise. Dois dias depois, no fim de julho, o próprio cardeal Gasparri chegou à sede da Civiltà Cattolica em Roma para pegar o esboço redigido por Rosa. Nos dias que se seguiram, rascunhos viajaram entre o Vaticano e a redação da revista, agora já com as anotações de Pio XI a lápis preto. Após receber a aprovação final do papa, o artigo não assinado

foi para a impressão.16

Depois de elogiar Mussolini por tudo o que fizera pela Igreja e de deixar implícito que ele nada tinha a ver com o assassinato de Matteotti, o artigo da Civiltà Cattolica advertia que uma ação violenta contra o governo jamais poderia ser aceitável. Até mesmo o uso de meios legítimos para derrubá-lo, como a convocação de novas eleições, deveria ser evitado, pois traria “grave infortúnio”. E, o que era ainda mais importante, uma aliança entre o Partido Popular e os socialistas nunca se

justificaria.17

O papa sofreu mais constrangimento quando a mulher e a mãe de Matteotti solicitaram várias vezes um encontro com ele. Suspeitando de que o pedido delas visava enfraquecer ainda mais Mussolini, o pontífice recusou. Mas não queria parecer alguém sem coração, então instruiu Gasparri a receber as duas mulheres e lhes dar de presente rosários que ele

mesmo havia benzido.18

Se ainda havia alguma dúvida a respeito do apoio do papa a Mussolini, ela foi eliminada no começo de setembro daquele ano, quando ele se dirigiu a um grupo de estudantes universitários. Os católicos italianos,

disse Pio, jamais poderiam cooperar com os socialistas.19

 

* * *

MUSSOLINI SABIA QUE o apoio do papa era crucial na sua luta pela sobrevivência. Em meio à crise, providenciou aulas de religião para os filhos. Edda, com doze anos, Vittorio, com oito, e Bruno, com seis,

fizeram a primeira comunhão e foram crismados no mesmo dia.20

Quando recebeu a boa notícia, o pontífice deparou com outro problema. Embora tivesse renunciado como chefe do Partido Popular, Don Sturzo ainda escrevia artigos criticando o regime. Isso era motivo de irritação para Mussolini, e significava que Sturzo continuava a ser uma figura proeminente da oposição. Pio XI ordenou que ele parasse com os

ataques. 21

Em resposta, o padre siciliano propôs deixar o país, sugestão que agradou o papa. Não apenas Sturzo seria removido da cena política italiana, mas também se evitaria o que talvez fosse um grande constrangimento. Enquanto ele estivesse na Itália, haveria o risco de algum bando fascista acrescentar seu nome à lista de vítimas de assassinato, tornando mais difícil para o papa continuar dando apoio ao governo. No fim de outubro, Sturzo partiu para o que esperava ser um breve período

no exterior, mas que se transformaria num exílio de vinte e dois anos. 22

Enquanto isso, Mussolini enfrentava novas dores de cabeça, com os chefes fascistas nas províncias questionando sua determinação. No fim de 1924, um artigo intitulado “Fascismo contra Mussolini” foi publicado, afirmando que o único apoio verdadeiro com que o líder podia contar estava nos pelotões fascistas provinciais e denunciando sua decisão de prender os assassinos de Matteotti. Para piorar, três dias depois disso um relato do assassinato preparado por Cesare Rossi foi publicado na França — responsabilizando Mussolini diretamente pela morte. O editor do jornal mais respeitado da Itália, o Corriere della Sera de Milão, sugeriu que seria melhor Mussolini renunciar. Boatos de um possível golpe de Estado militar se misturavam a conjecturas de que o rei estava prestes a nomear

um novo primeiro-ministro. 23

Mussolini só não foi deposto como resultado da crise Matteotti porque a oposição não conseguiu oferecer uma alternativa viável — em parte devido aos constantes esforços do papa para evitar qualquer aliança destinada a pôr fim ao regime fascista. Na falta dessa alternativa, nem o rei

nem o exército quiseram agir.24

Percebendo essa realidade, Mussolini recuperou a autoconfiança. O momento em que a queda do fascismo parecia certa tinha passado. Em 3 de janeiro de 1925, menos de sete meses depois que os valentões fascistas assassinaram Matteotti, ele se levantou para falar no parlamento. Seria o discurso mais dramático de sua carreira.

— Declaro aqui, diante da Assembleia e de todo o povo italiano — disse Mussolini — que eu, e somente eu, assumo total responsabilidade política, moral e histórica por tudo o que aconteceu.

— Estamos todos com você! — gritaram os deputados fascistas.

— Se o fascismo atuou como uma organização criminosa, eu sou o chefe dessa associação criminosa!

— Estamos todos com você! — Os aplausos aumentavam.

— Se toda a violência foi resultado de determinado clima histórico, político e moral — continuou Mussolini —, então assumo toda a responsabilidade, porque eu criei este clima histórico, político e moral. Senhores! Os senhores estavam enganados! Os senhores acreditaram que o fascismo estava arruinado (...) mas os senhores hão de ver. (...) A Itália, senhores, quer paz, quer tranquilidade, quer calma. Dar-lhe-emos essa tranquilidade, essa calma, através do amor, se possível, e pela força, se necessário.

Com essas palavras, começou o assalto fascista aos últimos vestígios de democracia na Itália.