O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 16 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo treze

 

MUSSOLINI TEM SEMPRE RAZÃO

 

Com a solução da crise da Ação Católica, os vínculos entre a Igreja e o regime fascista ficaram cada vez mais fortes, e a colaboração se tornou mais profunda e mais ampla. Mussolini, que agora contava com o apoio entusiástico do clero católico da Itália, adquiria uma imagem de proporções quase divinas.

Muitos historiadores veem a batalha de 1931 entre papa e o Duce pela Ação Católica como uma luta do pontífice contra o fascismo. Mas uma análise do que a organização fez, de fato, durante os anos 1930 mostra que estão muito enganados. Pio XI não via o regime fascista como um obstáculo aos seus esforços para usar a Ação Católica na cristianização da sociedade italiana, e sim como um aliado indispensável. Sem uma estreita relação de trabalho entre a Ação Católica e as autoridades fascistas, a organização jamais poderia ter êxito. Seu líder nacional laico, Augusto Ciriaci, era um ardente admirador do Duce; como disse De Vecchi a Mussolini, ele não “estava longe de agir como meu homem, e portanto,

vosso” no Vaticano.1

Pio XI considerava os membros da Ação Católica soldados da sua “batalha pela moralidade”. Em cada diocese, uma Secretaria de Moralidade da organização foi estabelecida para identificar e relatar sinais de qualquer atividade imoral. O órgão preparava listas de peças e filmes a serem boicotados, e seus membros importunavam a polícia para tirá-los de cartaz. Membros da Ação Católica eram instruídos a vasculhar seus vilarejos e suas cidades para identificar qualquer coisa que a Igreja

considerasse ofensiva e passar essas informações às autoridades. 2

Entre os sinais de declínio moral que mais contrariavam o papa estavam as mulheres vestidas de modo indecoroso. Desde 1926, Tacchi Venturi se mantinha em contato constante com as mais elevadas autoridades policiais do regime para combater as pernas de fora, as costas

nuas e os bustos parcialmente descobertos das mulheres italianas. 3 Em junho daquele ano, em resposta a essa pressão, o ministro do Interior ordenou que os prefeitos fossem mais rígidos com banhistas seminus. Ele também determinou que danças em trajes de banho — motivo de

especial irritação para o papa — fossem proibidas. 4

O interesse do papa em proibir a exposição pública de corpos femininos era tão grande que, em meio aos intensos últimos dias de negociação do Tratado de Latrão, ele despachou Tacchi Venturi para pedir ao Duce que tomasse uma providência assim que soube que dançarinas seminuas seriam vistas em Roma.

Oito dias antes da histórica assinatura, Venturi se encontrou com o ditador. Começou dizendo que o papa estava muito satisfeito por Mussolini ter proibido espetáculos com danças eróticas em Roma. Mas aquilo que tinha sido expulso pela porta da frente estava voltando pelas janelas. Donos de cinema haviam descoberto que atrairiam mais espectadores se dançarinas se apresentassem durante os intervalos. Essas jovens, disse o jesuíta a Mussolini, se vestiam “como a mãe Eva antes da queda, exceto por uma fita ou faixa estreita sobre as partes privadas, mais um incentivo do que um empecilho aos desejos de concupiscência”. Ele não via a hora de poder dar ao papa a boa notícia de que o governo tinha

mandado acabar com o medonho espetáculo. 5

Entre as ostentações públicas de carne feminina que o pontífice condenava, havia uma que representava uma espécie de bicho-papão para Pio: a participação de moças em competições de ginástica. Em 1928, ao saber que o Partido Fascista planejava realizar um evento dessa natureza em Roma, tanto o jornal do Vaticano quanto La Civiltà Cattolica publicaram uma carta papal denunciando-o. Nem mesmo na Roma pagã, queixava-se o pontífice, houvera paródia tão grotesca da delicadeza

feminina. 6

No começo da década de 1930, em resposta a essa pressão, o presidente da organização da juventude fascista nacional divulgou novas diretrizes para a educação física das moças. Os grupos não deveriam almejar o desenvolvimento das habilidades atléticas das garotas, mas assegurar que “as futuras mães aprendam sobre a necessidade de cuidar da educação física dos filhos”. La Civiltà Cattolica elogiou as instruções, dizendo que eram um exemplo de como o governo fascista estava colaborando de forma eficaz com o Vaticano para aperfeiçoar o bem-estar

espiritual do país. 7

Ainda assim, o papa permaneceu vigilante. No ano seguinte, ficou muito aborrecido ao saber que seria realizada uma competição internacional de ginástica feminina em Veneza. Dessa vez, despachou Borgongini para convencer Mussolini a suspender os planos.

O Duce foi pouco receptivo, explicando que grupos internacionais de atletismo, e não o governo, eram os organizadores desse evento. Numa tentativa de mostrar que, pessoalmente, não dava nenhuma importância às competições atléticas femininas (ou talvez por gostar de constranger o empertigado núncio), acrescentou: “As mulheres servem para duas coisas: ter filhos e apanhar.” Estimulado pelo desconforto de Borgongini, Mussolini foi ficando entusiasmado com o assunto. “As mulheres são como casacos de pele”, explicou. “De vez em quando é preciso bater

para tirar a poeira.”8

As respostas de autoridades regionais a apelos semelhantes feitos por grupos da Ação Católica tampouco eram muito receptivas. Nesses casos, bispos frustrados pediam ajuda ao Vaticano.

Uma carta que o papa recebeu em agosto de 1932 só era inusitada porque vinha acompanhada de algumas fotos fora de foco. O bispo escrevera ao pontífice para denunciar a ostentação de carne feminina na ilha de Capri. Muitas mulheres eram vistas “com as costas quase inteiramente nuas, em geral com os seios pouco cobertos e às vezes usando a parte de cima da roupa de banho feita de tecido transparente”. A maior parte das pessoas decentes da ilha, acrescentava ele, sentia-se nauseada com o espetáculo, pelo qual ele culpava estrangeiros. O bispo recomendava que o Vaticano acionasse a polícia. As quatro fotografias que acompanhavam a carta, todas tiradas de trás, mostravam as costas nuas

de mulheres usando elegantes vestidos de noite.9

Eugenio Pacelli respondeu em nome do papa. A campanha pela modéstia feminina, assegurou ele ao bispo, era um dos pontos centrais do programa da Ação Católica. A organização “não deixa passar nenhuma ocasião apropriada para influenciar as autoridades a exercerem forte

vigilância e severa aplicação da lei”.10

É oportuno fazer uma pausa para examinar a data da carta de Pacelli — 16 de setembro de 1932. Pouco mais de um ano antes, Tacchi Venturi e Mussolini haviam chegado a um acordo para pôr fim ao

conflito em torno da Ação Católica.11 Agora, grupos da organização em

todo o país colaboravam com a polícia fascista. 12

O papa continuava a se queixar da exibição de corpos femininos nas praias da Itália. As tentativas da Igreja de fazer Mussolini tomar providências às vezes iam longe demais, como ocorreu em março de 1934. Naquele mês, o arcebispo de Florença, cardeal Elia dalla Costa, desancou os grupos da juventude fascista por promoverem passeios à praia. O Duce ficou tão exasperado com a queixa que escreveu uma carta a Pacelli.

“O conhecido — talvez conhecido demais — monsenhor Elia dalla Costa escreveu a carta pastoral em anexo para seu rebanho”, dizia o ditador. “Ele graciosamente nos descreve como pagãos e selvagens. Que fique claro para seus superiores que não somos pagãos nem selvagens, nem queremos ser, a despeito da carta pastoral de Dalla Costa.”

De Vecchi, o embaixador italiano, entregou a carta do Duce a Pacelli. Esses ataques, disse ele, eram contraproducentes. Abordando um assunto tabu, De Vecchi acrescentou que era muita audácia do arcebispo acusar os fascistas de selvagens quando o Vaticano esperava que o governo se calasse a respeito dos casos generalizados de imoralidade sacerdotal. Qualquer dia, advertiu o embaixador, o papa acabaria indo longe demais.

E não ficaria nem um pouco satisfeito com o resultado. 13

Pio XI também pressionava as autoridades para que proibissem livros que a Igreja considerava ofensivos, como um best-seller europeu que oferecia conselhos sobre sexo. Ideal Marriage [O casamento ideal], escrito por um ginecologista holandês, descrevia a biologia da reprodução, defendia os prazeres da sexualidade e dava informações úteis para o controle da fertilidade. Em 1930, o Vaticano o incluiu no Índice de Livros Proibidos. Algum tempo depois, aparentemente motivado pela iminente publicação da edição italiana, o papa pediu a Mussolini que

proibisse a venda da obra. O Duce prometeu que o faria. 14

O pontífice também pressionou o ditador a banir filmes e peças de teatro repreensíveis. Mesmo antes da assinatura do Tratado de Latrão, mandou Tacchi Venturi conversar com Mussolini e pedir a sua colaboração nesse sentido. Num encontro em janeiro de 1929, Venturi falou com o ditador sobre filmes americanos, aos quais chamou de “cloaca do pecado e da obscenidade”. Mussolini concordou, classificando o cinema americano como uma “escola de corrupção que, se não for detida, acabará arruinando o país”. Satisfeito, Tacchi Venturi pediu ao Duce que “estudasse uma maneira de tornar o sistema de censura mais

eficiente”. 15

“Itália proíbe sex appeal em filmes (...) Regras de censura ao cinema endurecem devido a protestos do papa.” Assim foram o título e o subtítulo de uma reportagem do Los Angeles Times de 20 de março de

1931 sobre a resposta de Mussolini às queixas de Pio.16

Por vezes, as exigências do papa ao ditador pareciam opressivas. Ele tentava intimidar o Duce para que tomasse medida contra roupas femininas repreensíveis, livros, proselitismo protestante, filmes e peças de teatro. Além disso, cobrava de Mussolini providências contra ex-sacerdotes. Até a queda dos Estados Papais, a Igreja tinha conseguido afastar esses hereges do público. Contudo, depois da unificação italiana, perdeu qualquer poder sobre eles. O que irritava o Vaticano em especial eram os ex-sacerdotes que lecionavam em instituições públicas de ensino,

o que o pontífice considerava um escândalo. 17

Pio começou a cobrar ações do Duce muito antes da assinatura da concordata. Em janeiro de 1925, pediu a Mussolini que demitisse o eminente historiador e ex-padre Ernesto Buonaiuti de sua cátedra na Universidade de Roma. Buonaiuti era uma velha pedra no sapato do Vaticano. Modernista que defendia a separação entre Igreja e Estado, já tinha sido emitido de seu cargo de professor num dos mais prestigiosos seminários de Roma. Em 1921, a Igreja o excomungara por questionar se

o corpo de Cristo estava literalmente presente na eucaristia. 18

Em resposta ao apelo feito pelo papa em 1925, Mussolini mandou suspender o ex-padre das atividades de professor por um ano, mas os

colegas de Buonaiuti intercederam a favor de sua reintegração. 19 No começo de 1927, através de Tacchi Venturi, Pio insistiu mais uma vez com o ditador para que o demitisse. Mussolini respondeu que, embora desejasse ver o papa satisfeito, não queria ser acusado de ignorar a lei só para lhe agradar. Sugeriu então que o pontífice tentasse outras maneiras

de impedir Buonaiuti de lecionar. 20 Três dias depois, Tacchi Venturi fez uma visita ao ministro da Educação, Pietro Fedele, para tentar a sorte. Fedele não gostou de ver o enviado do papa, mas estava ciente de suas ligações especiais com o Duce. No dia seguinte, escreveu a Mussolini: “Acho que será oportuno, de agora em diante, que, sempre que o padre Tacchi Venturi vier ter comigo ou com alguém do meu gabinete, eu lhe mande um relatório da conversa.”

Fedele garantiu ao enviado que o ministério suspenderia Buonaiuti outra vez. Tacchi Venturi manifestou satisfação, mas antes de sair transmitiu uma advertência papal: se o governo voltasse a admitir o ex-padre em sala de aula, Pio proibiria os católicos de estudarem na

Universidade de Roma.21

Buonaiuti continuou no corpo docente da universidade até 1931, quando, ironicamente, entrou em conflito não com o papa, mas com Mussolini. Uma nova lei exigia que os professores universitários italianos jurassem lealdade ao regime fascista. Dos mil e duzentos professores universitários da Itália, apenas cerca de dez, se tanto, recusaram-se a fazê-lo. Um deles era o ex-padre Ernesto Buonaiuti, que foi demitido com os

outros. 22

Em outro caso, que estourou logo depois da assinatura da concordata, o papa exigiu que o ex-padre Giuseppe Saitta fosse demitido do cargo de professor de filosofia medieval na Universidade de Pisa. Esse caso foi especialmente melindroso para Mussolini, porque, ao abandonar o sacerdócio, Saitta se tornara um fascista ardoroso. Editava Vitta Nuova, publicação da Federação Fascista de Bolonha, e era discípulo de Giovanni Gentile, filósofo da corte do Duce, com quem o ex-padre tivera aulas em Palermo.

Em 2 de junho de 1930, o núncio Borgongini teve um encontro com o ditador para lhe apresentar o pedido de Pio. Baseava sua exigência no artigo 5 da concordata, que era muito claro: “Padres apóstatas (...) não podem ser nomeados para, nem mantidos em, cargos de professor, nem ocupar cargos ou ser empregados onde possam estar em contato direto com o público.”

— Não seria difícil para o senhor transferir Saitta para um museu — sugeriu o núncio.

— Por que não paleontologia?! — respondeu com malícia o ditador. Quando estava de bom humor, o Duce quase nunca perdia uma oportunidade de provocar o empertigado núncio. Mas Mussolini não demonstrou grande entusiasmo pelo pedido. — Vedremo. Vamos ver — disse.

Meses se passaram, e Saitta continuava no emprego. Em abril de 1931, o papa mandou um lembrete ao Duce. Mesmo assim nada foi feito. O ex-padre tinha sido nomeado para o cargo universitário antes da assinatura da concordata, argumentou Mussolini, e as cláusulas do acordo não eram retroativas. Dois anos depois, longe de ser despachado para um remoto museu de paleontologia, Saitta foi agraciado com o cobiçado cargo de professor de filosofia na Universidade de Bolonha. Essa foi uma

batalha que o papa nunca conseguiu ganhar.23

 

* * *

 

QUANDO OS ENVIADOS de Pio XI se queixaram a Mussolini a respeito dos filmes americanos, o ditador lhes disse que compartilhava da opinião deles. Contudo, na verdade, o Duce era um grande fã do cinema feito nos Estados Unidos, embora preferisse Charles Chaplin, o Gordo e o Magro e Buster Keaton a Jean Harlow ou Mae West. Ele chegou a instalar uma sala de projeção na Villa Torlonia para que, depois do jantar, toda a sua família pudesse se reunir diante da tela. “Faz com que eu esqueça as preocupações”, explicava. Qualquer que fosse o alívio que lhe trouxesse, durava pouco: enquanto seus familiares assistiam aos filmes até o fim, o ditador raramente permanecia na sala por mais de vinte

minutos.24

As noites no cinema particular eram os momentos mais felizes dos Mussolini. O Duce não gostava de se sentar para comer com a família, e, nas raras ocasiões em que o fazia, um pesado silêncio se abatia sobre a mesa, enquanto ele mexia o garfo nervosamente e reduzia a pó pedaços

de pão entre os dedos.25 Rachele dominava não só a cozinha, mas também a mesa. Ela ficava irada se os filhos não comessem tudo o que havia no prato.

Embora fosse desafiado pela esposa dentro de casa, o Duce se destacava dos outros mortais fora dos limites da Villa Torlonia. Mussolini ha sempre ragione (“Mussolini tem sempre razão”) era um slogan repetido à exaustão. Pintada em letras imensas na fachada de prédios no país inteiro, a frase era

usada para ensinar as crianças a ler. 26

Para lustrar sua imagem no estrangeiro, o Duce achava tempo para se encontrar com um desfile infindável de correspondentes internacionais. Raro foi o repórter que entrevistou o ditador naqueles anos e não sucumbiu aos seus ásperos encantos. Em repouso, disse efusivamente um entrevistador francês, Mussolini parecia uma estátua de mármore esculpida por Michelangelo. Os olhos negros e penetrantes eram

hipnóticos, a grande boca era enfeitada por belos dentes. 27 Ninguém que tivesse sentido a mirada do Duce, comentou outro entrevistador francês, poderia esquecer a sensação: “Dois olhos que veem e que julgam, vendo de cima, julgando de longe.” E, como tantos outros, o francês ficou impressionado com o nítido contraste entre o Mussolini da piazza pública, discursando para as multidões embevecidas, e o homem pensativo das entrevistas, que parecia solitário e reflexivo, adornando seus

comentários com referências históricas e filosóficas. 28

Um destacado jornalista judeu alemão publicou a mais longa e mais

lida entrevista com o ditador italiano.29 Em 1933, Emil Ludwig conversou várias vezes com Mussolini em seu escritório cavernoso. Enquanto refletia sobre uma pergunta, o Duce juntava as pontas dos dedos ou encostava o queixo nas mãos, apoiando os cotovelos na mesa. Olhava para baixo, depois fitava Ludwig e, só então, respondia. Sentia prazer especial em citar estatísticas, de preferência até a terceira casa decimal. O jornalista também notou que o ditador não gostava de desperdício, e, em vez de usar seu bloco de notas, fazia anotações no verso dos cartões de sua agenda diária.

Ludwig tinha ouvido Mussolini discursar em comícios numa voz militar que lhe fazia lembrar o revolucionário russo Leon Trótski exortando a multidão. Mas, nas entrevistas, o Duce nunca falava alto. Embora parecesse não entender piadas, observou o jornalista, tinha uma espécie de humor negro. Disse que só se orgulhava de um ancestral, que havia morado em Veneza e matado a mulher porque ela era infiel. Para Mussolini, o mais admirável no antepassado era o impulso de parar antes de fugir da cidade e depositar duas moedas no peito da mulher, para as despesas com o enterro.

Ludwig, homem de esquerda, sentiu que estava sendo conquistado a contragosto. Quando o Duce manifestou sua admiração por César, o jornalista perguntou se um ditador poderia ser amado.

“Sim”, respondeu Mussolini, “desde que as massas tenham medo dele ao mesmo tempo. A multidão ama os homens fortes. A multidão é como

uma mulher.”30

Mais tarde, o Duce explicou melhor sua afirmação. “Para mim, as massas não passam de um rebanho de ovelhas, contanto que não estejam organizadas.” Eram incapazes de se autogovernar. Criaturas de sentimento e emoção, não de intelecto, não podiam ser conquistadas com argumentos racionais. “É a fé que move montanhas, não a razão. A razão (...) nunca pode ser a força motriz da multidão. (...) A capacidade de fé do homem moderno é ilimitada. Quando as massas são como cera em minhas mãos, quando mobilizo a sua fé, ou quando me misturo com elas e quase sou esmagado por elas, sinto-me parte delas.”

Nesse momento Mussolini fez uma pausa. Havia ocasiões, disse a Ludwig, em que a multidão que ele tinha estimulado lhe causava aversão. “Às vezes, não acontece de o escultor quebrar seu bloco de mármore e reduzi-lo a fragmentos por não conseguir moldá-lo de uma forma que represente a visão que havia concebido?” O que importava era o seguinte: “Tudo depende da capacidade que temos de controlar as massas

como um artista.” 31

Mas, àquela altura, Mussolini perdera seu principal vínculo com o mundo da alta cultura, tendo se afastado de Margherita Sarfatti. Já não sentia necessidade de seus conselhos ou incentivos políticos. A amante não despertava mais sua paixão: passara dos cinquenta anos, estava

engordando e sofria de gota.32 Os americanos ainda não sabiam disso e a viam como uma das pessoas mais chegadas ao Duce. Em 1934, Franklin e Eleanor Roosevelt receberam Sarfatti na Casa Branca, apesar de, na Itália, a estrela dela estar em declínio. Galeazzo Ciano, então subsecretário de Imprensa e Propaganda, mandou tirar de circulação a biografia de Mussolini que Sarfatti escrevera, intitulada Dux. Talvez a esposa de Ciano, Edda Mussolini, o tenha pressionado. Ela desprezava as ex-amantes do pai. Seja como for, na esteira do Tratado de Latrão e, mais tarde, quando o Duce tentava causar boa impressão a Hitler, a envelhecida judia passou a ser motivo de constrangimento. Em 1935, ele deu ordem para que a imprensa italiana a ignorasse. Três anos depois, com a entrada em vigor das leis raciais antissemitas, ela fugiu da Itália e

foi para a América do Sul. Só voltaria ao país depois da guerra.33

Mussolini estava cada vez mais isolado. “No fundo”, disse ele a Ludwig, “sempre fui só. Além disso, hoje, embora não esteja na cadeia,

sou mais prisioneiro ainda.”34 Mais ou menos na mesma época, ele explicou a um admirador: “É preciso aceitar a solidão. (...) Um chefe não pode ter iguais. Nem amigos. O modesto consolo de trocar confidências

lhe é negado. Não pode abrir o coração. Nunca.” 35

O ano de 1932, escreveu um dos primeiros biógrafos de Mussolini, marcou o fim da transição do homem para a máscara, da realidade para a lenda. Ele aprendera a parecer mais alto do que o metro e setenta e dois que tinha, simulando a aparência de um condottiere medieval, um chefe militar renascentista. Sua cintura se alargava; apesar da parca dieta, travava uma luta constante contra a tendência da família a engordar e se pesava todos os dias. Mas a constituição mais robusta dava um novo volume ao

seu rosto e ajudava a alimentar o efeito de um César moderno. 36

Um vasto esforço do governo e do Partido Fascista fomentava o culto ao Duce. Em 1929, um observador francês na Itália ficou maravilhado com a ubiquidade da resoluta face do ditador: “Nas redações, nas confeitarias, nos salões de beleza, nas cabines telefônicas, nas tabacarias (...) é uma obsessão. Faz com que nos perguntemos se ele usa aquela

máscara até mesmo quando está dormindo.”37

Pio XI via esses esforços com algum alarme. Certo dia, durante uma audiência com Cesare de Vecchi, o papa assustou o embaixador ao lhe perguntar se poderia contar com ele para dar um conselho pessoal a Mussolini. Curioso, apesar do nervosismo, De Vecchi concordou.

“Diga ao Signor Mussolini em meu nome”, começou o pontífice, “que não gosto da sua tentativa de se tornar uma quase divindade, e que isso também não lhe traz benefício algum, muito pelo contrário. Ele não deveria tentar se colocar em um lugar entre o céu e a terra. (...) Peça-lhe em meu nome para refletir sobre o fato de que Deus, Nosso Senhor, é único.” Mussolini “só poderia ser um ídolo, um fetiche, um falso deus, ou, mesmo, um falso profeta”. Deveria saber, disse o papa, que “cedo ou tarde as pessoas acabam destruindo seus ídolos. Diga-lhe que, se ele não mudar, isto tudo vai acabar mal”.

O embaixador, ainda vestido com o terno formal que usava de manhã, correu ao palácio Venezia, onde o Duce lhe deu uma olhada de alto a baixo e soltou uma risada. Constrangido, De Vecchi explicou que tinha ido até lá diretamente do Vaticano para transmitir uma mensagem do papa.

— Acalme-se — disse Mussolini — e me conte tudo. — Enquanto o embaixador fazia o possível para repetir o que Pio dissera, um sorriso metade irônico e metade incrédulo aflorou no rosto do ditador. — Tem certeza de que estas são as palavras do papa? — perguntou o ditador. — Por acaso não acrescentou nada por conta própria?

De Vecchi, agitado, lhe garantiu que não.

— Então me diga — pediu o Duce — o que o senhor acha?

— O mesmo que o papa — respondeu o embaixador. Ou pelo menos

foi o que ele afirmou em suas memórias. 38

Embora o pontífice estivesse preocupado com a crescente idolatria a Mussolini, a maior parte do clero não estava. O exemplo dado em 1933 por um padre de Bérgamo, no nordeste da Itália, talvez seja extremo, mas dá ideia da força do culto ao Duce. Tendo recebido uma foto autografada do ditador como prêmio por um gesto especial de lealdade fascista, o padre escreveu um bilhete de agradecimento: “Beijei aquela figura de sua face pensativa e as letras que sua mão escreveu. (...) Sua imagem (...) será sagrada para mim, e com a ajuda de Deus tentarei jamais fazer qualquer coisa que a desmereça. (...) Duce, a cada dia rezo ao Deus onipotente pelas santas almas de seus pais e Arnaldo (...) e pelo senhor e pela

Pátria.” 39

As untuosas preces do padre pela alma do irmão de Mussolini tocaram numa ferida aberta. Num nevoento dia de dezembro de 1931, em Milão, Arnaldo voltava da estação ferroviária para casa quando sofreu um ataque cardíaco fulminante. Tinha apenas quarenta e seis anos. Foi um golpe terrível para Mussolini, que partilhara uma cama com ele quando criança. Não havia ninguém a quem o Duce fosse mais chegado, ninguém em

quem confiasse tanto. 40

Todo dia, às dez da noite, Mussolini e Arnaldo se falavam ao telefone. Discutiam não só o que sairia nos jornais do dia seguinte, mas qualquer outro assunto que viesse à cabeça do Duce. Arnaldo ia a Roma com frequência ver Benito, e não era incomum que o ditador se chateasse e gritasse com o irmão mais novo. Certa vez, informa Navarra, Arnaldo chegou ao palácio Chigi e, talvez para evitar mais uma dessas explosões, pediu para falar apenas com o secretário particular do irmão. Quando Navarra disse a Mussolini que seu irmão estava no prédio, mas não tinha pedido para falar com ele, o ditador, irritado, exigiu que Arnaldo fosse na mesma hora ao seu gabinete. Ele obedeceu. Do lado de fora, Navarra ouviu berros furiosos destinados ao sofrido Arnaldo. Quando o irmão mais novo saiu do escritório, Navarra lhe pediu desculpas por ter mencionado sua presença no prédio.

“Não se preocupe”, respondeu ele. “Se as pessoas o conhecessem como eu conheço, não ficariam preocupadas. Ele ladra, mas não

morde.” 41

Há quem veja na morte de Arnaldo um momento decisivo para Mussolini. A perda tão súbita e inesperada da única pessoa em quem confiava por completo o deixou mais fechado, mais desconfiado dos indivíduos que o cercavam. “Agora”, disse ele no dia do sepultamento do irmão, “só poderei contar comigo mesmo.” Poucos dias depois, escreveu para a irmã Edvige: “O golpe foi tão inesperado e terrível que meus nervos vão precisar de muito tempo para recuperar o equilíbrio. Chorei e

chorei.” 42

Cada vez mais o Duce ia buscar forças na adulação das multidões. Uma cerimônia realizada em Roma três meses após a morte de Arnaldo foi uma das dezenas desses rituais que alimentavam seu senso crescente de que era um homem destinado a conduzir a Itália a uma nova condição de grandeza. Era o décimo terceiro aniversário da fundação do movimento fascista. Uma procissão infindável de camisas-negras de todas as idades desfilava em formação militar rumo à Piazza Venezia. Um esquadrão de aeronaves sobrevoava a cena, enquanto dezenas de bandas atacavam hinos fascistas. Berros de “alalà!” perfuravam o ar. Às seis da tarde, os aviões sumiram, mas dezenas de milhares de fascistas delirantes ainda enchiam a imensa piazza, tremulando seus estandartes. Veteranos da Grande Guerra, e da Marcha sobre Roma, membros de grupos de juventude fascista, operários, universitários, pessoas de todas as faixas etárias e profissões se dirigiram à sacada de onde Mussolini discursaria. Quando a alegre multidão avistou o ditador à janela, braço direito levantado na saudação romana, as bandas tocaram a “Giovinezza”, o hino fascista, e milhares de vozes cantaram juntas em santa comunhão.

“Du-ce! Du-ce!”, exclamavam todos. Em sua vibrante descrição, Il Popolo d’Italia, o jornal de Mussolini, comentou que a manifestação foi como “um imenso rito de fé religiosa”. Quando o chamado de “atenção” soou, o ruído atroador cedeu, e um silêncio estranho e expectante pairou sobre a piazza. Mussolini, de uniforme da milícia fascista, a cabeça descoberta, fez o seu discurso, terminando com o refrão que era sua marca registrada: “Para quem é a Itália?” “Para nós!”, responderam dezenas de milhares de vozes. Quando ele saiu, a multidão o fez voltar à sacada duas, três vezes, a mão erguida na saudação romana oferecendo uma espécie de bênção. Enfim, desgastados emocionalmente, mas radiantes de energia e orgulho, os fascistas, velhos e jovens, tomaram o caminho de casa. Em todo o país, italianos repetiriam esse rito sem parar

nos meses e anos seguintes. 43

A Igreja desempenhou papel fundamental em conferir ao culto do Duce um sabor religioso, promovendo uma inebriante mistura de rituais fascistas e católicos. Padres eram parte integrante das organizações de juventude fascista; dois mil e quinhentos capelães oficiavam para quatro milhões de membros. Nomeado para supervisionar o trabalho dos capelães, um bispo se dedicava inteiramente à juventude fascista. Eles ajudavam a assegurar que os italianos do futuro vissem sua lealdade à Igreja Católica e sua lealdade a Mussolini e ao fascismo como dois lados

da mesma moeda.44

Em outubro de 1933, num dos muitos exemplos dessa natureza, cento e cinquenta e dois padres que serviam de capelães da milícia fascista se reuniram no palácio Venezia. Enquanto seu herói assistia, fizeram um tributo musical que haviam preparado para ele, intitulado “Aclamação do Duce”.

 

Vivas ao senhor, indomável Duce

Salvador da nossa terra

Na paz e na guerra

Estamos prontos para seguir o seu comando,

Inspiração e força, guia e luz

Para os novos heróis da Itália, o senhor é o líder

Duce de todos nós, Duce de todos nós!45

 

Grandes rituais fascistas começavam, tipicamente, com uma missa pela manhã, celebrada por um padre (nas cidades pequenas) ou por um bispo (em cidades grandes). Em seguida, havia um desfile e um comício, e uma mensagem do Duce era lida. Igrejas e catedrais eram importantes suportes desses ritos, intensificando sua potência emocional. Em 1933, para o aniversário da Marcha sobre Roma, a imagem severa do rosto de Mussolini foi projetada à noite na fachada da catedral de Milão; o semblante espectral ergueu-se, imenso, sobre a multidão. “O papa”, observou o historiador europeu Piers Brendon, “dava a impressão de que a Igreja Católica na Itália era o Partido Fascista rezando; e sugeria que era melhor que o cidadão, assim como o crente, cumprisse o seu dever de

joelhos.”46

Os poucos padres que ousavam dizer qualquer coisa ainda que remotamente negativa sobre o regime eram denunciados por fascistas locais. Muitas dessas queixas eram resolvidas por autoridades eclesiásticas regionais, com bispos disciplinando seus padres indóceis. Mas, quando um bispo hesitava, a questão era submetida a Roma. Um dos deveres do embaixador da Itália na Santa Sé era fazer o Vaticano tomar providências quanto a esses relatos. Num caso típico, em novembro de 1932, chegou ao Vaticano uma queixa sobre um pároco na diocese de Cremona. O bispo local recebeu ordem para investigar. Quando ele tentou minimizar a ofensa, o monsenhor Pizzardo lhe informou que sua resposta era inadequada. O bispo deveria instruir o padre a aproveitar a primeira oportunidade “para fazer um discurso dizendo o oposto do que declarou

em 4 de novembro e que não causou boa impressão”. 47

Poucos meses depois, Pio XI tomou providências relativas a queixas de que Giovanni Montini, o capelão da organização universitária da Ação Católica, era antifascista, demitindo-o. Ofendido, Montini, cujo pai tinha sido deputado do Partido Popular, voltou sua ira não contra o pontífice, mas contra Pizzardo, que lhe transmitira a decisão papal. Queixou-se de que Pizzardo o demitira sem “uma palavra de consolo, de estima, de elogio”. Poucos anos mais tarde, já menos enamorado de Mussolini, o papa reabilitaria Montini. O desvio de rota em nada prejudicou a carreira do capelão, que três décadas depois subiria ao trono de São Pedro com o

nome de papa Paulo VI. 48

Em 1932, Mussolini anunciou que o aperto de mãos — costume “burguês” — seria substituído pela saudação romana, mais viril. O Duce não só exigia que professores universitários fizessem um juramento de fidelidade fascista, mas também insistia em que usassem camisas negras em dia de formatura. No fim de 1934, todos os professores de ensino primário passaram a ser obrigados a usar camisa negra e uniforme do

partido para dar aulas. 49

No início daquele ano, foi realizado outro plebiscito. O semanário diocesano de Turim expressou o mesmo sentimento que os católicos ouviam de padres e bispos no país inteiro: “Católicos de Turim! Às urnas para dar o vosso consentimento ao governo de Benito Mussolini. (...) O

antifascismo acabou.”50 Foi a última eleição que Mussolini se deu ao trabalho de realizar. Dez milhões de italianos votaram sim, apenas quinze

mil votaram não. 51