O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 23 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo vinte

 

VIVA IL DUCE!

 

Em agosto de 1937, os jornais começaram a informar sobre os planos de

Mussolini de visitar a Alemanha.1 Seria uma viagem fatídica. Durante cinco dias, no fim de setembro, Hitler esteve ao lado do Duce, coreografando com cuidado uma série de desfiles, marchas e inspeções para impressionar Mussolini com o poder do regime nazista e a devoção dos alemães ao seu Führer. O ponto alto foi em Berlim, em 28 de setembro, quando oitocentas mil pessoas lotaram um campo perto do novo estádio olímpico. Ao longo do trajeto, quase três milhões de alemães, levados até lá por ônibus e trens de todos os cantos do Reich, aplaudiram os ditadores. Quando os dois líderes apareceram no campo, a multidão urrou. Hitler não poupou elogios, saudando Mussolini como “um desses raros gênios solitários que não são criados pela história, mas que fazem história”. Mais tarde, Hitler o chamaria de “o maior estadista

do mundo, ao qual ninguém, nem remotamente, se compara”.2

Mussolini preparara com cuidado seu texto em alemão e, depois da efusiva apresentação de Hitler, levantou-se para falar. Quando a Itália fascista tinha um amigo, proclamou, marchava ao lado dele “até o fim”. Mas um súbito aguaceiro prejudicou o efeito desejado, com o mestre das declarações bombásticas lutando para decifrar as palavras borradas em suas folhas de papel molhadas pela chuva. A multidão não fazia a menor ideia

do que ele estava dizendo.3

“Comparadas às manifestações de Hitler”, comentou um italiano presente à ocasião, “as dos fascistas italianos parecem apenas um monte de gente correndo de um lado para o outro aos berros. Em seus discursos, Mussolini fala desconexamente, expressando lugares-comuns de um jeito dramático e proclamando verdades óbvias com grande solenidade. Ele se dirige às massas ignorantes e lhes fala gesticulando com o rosto, o corpo, os olhos, fazendo os movimentos de um charlatão. Hitler nunca perde a compostura. Quando Mussolini aparece (...) de mãos na cintura, parece um mestre de picadeiro. Já Hitler, em comparação, parece um apóstolo,

um líder político, religioso.” 4

O Duce ficou profundamente impressionado. “O que vi aqui é inimaginável”, disse a Rachele por telefone quando se preparava para

voltar. 5

Embora tivesse prometido transmitir as queixas do papa, Mussolini

jamais fez menção delas a Hitler. 6 Em meio àquelas imensas multidões aduladoras e das imponentes exibições de força militar, faltou-lhe

coragem para tocar num assunto tão desagradável. 7

25. Mussolini e Hitler em Munique, setembro de 1937

 

Mussolini prometeu ser anfitrião de Hitler numa visita à Cidade Eterna que eclipsaria a recepção que o Duce tivera na Alemanha. O cardeal Baudrillart, escrevendo em seu diário, imaginara se o debilitado

Pio XI sobreviria a um espetáculo tão doloroso.8

Para o Vaticano, era cada vez mais importante estabelecer as diferenças entre os dois Estados totalitários. Logo depois da visita de Mussolini à Alemanha, La Civiltà Cattolica publicou um artigo fazendo exatamente essa distinção. As pessoas que equiparavam a Alemanha nazista à Itália fascista, sustentava a revista, “cometem uma grande injustiça contra o Regime Fascista”. Hitler buscava unificar o povo alemão sob uma nova religião pagã, com o lema da divindade do sangue e do solo. Mussolini fazia o oposto, unificando os italianos sob a religião católica. Os dois

eram extremamente diferentes. 9

Quando Mussolini voltou da Alemanha, o papa, apesar de aborrecido por ele não ter tocado na questão da Igreja com Hitler, mais uma vez pediu sua ajuda para lidar com o Führer. Era do interesse do próprio Mussolini, afirmava ele, fazer Hitler parar de perseguir a Igreja. Levando em conta os laços da Itália com o Terceiro Reich, a campanha dos

nazistas contra a Igreja prejudicava o bom nome do fascismo italiano.10

Em outro sinal de entusiasmo pela Alemanha nazista, Mussolini anunciou em dezembro a saída da Itália da Liga das Nações. Hitler tinha tirado a Alemanha da Liga logo depois de assumir o poder, em 1933. O papa via aquilo com crescente inquietação. Constrangia-o também o fato de tantos cardeais não italianos o julgarem ingênuo por esperar que

Mussolini tivesse uma influência moderadora sobre Hitler.11 “Não é o Duce que exerce qualquer influência sobre o Führer”, comentou o cardeal francês Eugène Tisserant, “mas o Führer que exerce influência

sobre o Duce”.12 Em sua fala de Natal aos cardeais, o papa voltou a

lamentar a perseguição da Igreja na Alemanha.13 Era uma mensagem que compartilhava com todos que quisessem ouvir.

Convencido de que lhe restava pouco tempo de vida, Pio XI acreditava que Deus o mantinha vivo por uma boa razão. “Seu frágil estado de saúde”, observou o embaixador francês, “infelizmente está piorando, não sua capacidade intelectual, mas a força física.” O cardeal Jean Verdier, arcebispo de Paris, viu o papa duas vezes perto do Natal. No primeiro encontro, Verdier teve a grata surpresa de encontrá-lo animado e atento, mas no segundo o pontífice lhe pareceu débil, com dificuldade para falar e incapaz de ler os jornais que tinha à frente. Algumas vezes o papa estava alerta, formulando seus pensamentos com clareza e coerência. Já outras, mostrava-se frágil e frustrado. Apesar disso, em suas noites de insônia, sentia a presença de Deus, transmitindo uma

mensagem divina que era seu dever divulgar antes de morrer.14

26. Mussolini inaugura a cidade de Guidonia, enquanto o bispo local se junta à saudação

 

fascista. Novembro de 1937

 

O cardeal Baudrillart anotou a mudança no diário. “O papa continua muito lúcido, mas sua força de vontade está mais hesitante.” O cardeal francês não achava que o secretário de Estado seria um bom substituto. “Apesar de todas as notáveis qualidades”, observou ele, “o cardeal Pacelli

não parece ter uma mente firme, nem uma determinação muito forte.”15 Ainda no fim daquele mês, Baudrillart observou, conciso: “Agora há uma atmosfera de fim de regime: intrigas secretas.”

27. Mussolini, do palácio Venezia, anuncia a retirada da Itália da Liga das Nações, em

dezembro de 1937

 

Mussolini estava irritado. Despertar o entusiasmo dos italianos pela Alemanha era um desafio, mesmo com sua formidável máquina de propaganda. Apenas duas décadas antes, a Itália tinha travado uma guerra contra os alemães, e toda aquela conversa dos nazistas sobre a superioridade da raça nórdica não facilitava nem um pouco a tarefa. A última coisa de que Mussolini precisava era que o papa convencesse os italianos de que Hitler era inimigo da Igreja.

Era hora, pensava Mussolini, de exercer alguma pressão. Mandou seu recado por intermédio de Guido Buffarini. Prefeito eleito de Pisa em 1923, aos vinte e oito anos, Buffarini tornou-se subsecretário do Interior de Mussolini dez anos depois. De pele corada, olhos tristes, gordo, inteligente e esperto, destituído de quaisquer princípios morais, Buffarini era um fanfarrão com talento para a intimidação e um jeito de tirar

partido das situações para enriquecer. 16

Em 30 de dezembro, ele convocou o núncio papal. Disse ter provas de que grupos da Ação Católica estavam se metendo outra vez na política. Se aquilo continuasse, advertiu, uma reação popular violenta seria inevitável. O núncio, atônito, negou a acusação, mas não

adiantou.17

Informado sobre as novas ameaças de Mussolini, Pio XI mandou o núncio fazer um apelo ao genro do Duce. Ciano foi indelicado. Se Mussolini estava insatisfeito com o Vaticano, disse ele, a culpa era do papa. O pontífice sabia que suas constantes críticas à Alemanha

aborreciam o Duce, no entanto, insistia nos ataques.18

 

* * *

 

POUCA GENTE NA itália tinha conhecimento dessa tensão. A ampla maioria do clero ainda considerava Mussolini o homem que Deus havia mandado para salvar o país, mensagem que os padres regularmente partilhavam com seus paroquianos.

Ansioso para ressaltar esse apoio, Mussolini decidiu organizar um grande encontro de bispos e padres no palácio Venezia. A ocasião foi anunciada como uma comemoração em honra do clero que se distinguira na “batalha do grão”, a campanha pela autossuficiência agrícola na qual ele vinha insistindo havia dez anos. Convites assinados pelo editor de uma revista fascista católica foram distribuídos em meados de dezembro. Ao comparecerem ao evento de 9 de janeiro, aqueles bispos e padres estariam oferecendo “a honra mais solene ao Duce, Fundador do Império, aumentando, assim, sua relevância cristã”. O arcebispo de Údine, monsenhor Giuseppe Nogara, se dirigiria ao Duce em nome

deles. 19

Os bispos inundaram a Secretaria de Estado do Vaticano com cartas pedindo orientação. “Parece-me”, escreveu um bispo toscano, “muita coragem da parte do editor de uma revista mobilizar bispos e padres fazerem uma homenagem solene ao Duce, Fundador do Império.” Mas

“eu não gostaria de ser o único ausente”. 20

O cardeal Raffaele Rossi, secretário do departamento da Cúria responsável por questões relativas ao clero, pediu conselho ao secretário de Estado. Pacelli informou-lhe que não fazia objeção alguma à participação do clero no evento. Mas, antes de receber a resposta de Pacelli, o cardeal Rossi encaminhou outra pergunta de um bispo sobre a festa fascista — e adiantou sua opinião de que o convite não deveria ser aceito.

O cardeal tinha deixado Pacelli numa posição incômoda, pois permitir que um jornalista intimasse os bispos da Itália era inegavelmente inapropriado. Pacelli consultou o papa, que concordou que um convite como aquele “não merecia ser aceito”. Apesar disso, nem o papa, nem

Pacelli queriam ofender o Duce.21

A confusão tomou conta da Secretaria de Estado nas duas semanas

seguintes. 22 O monsenhor Tardini, que substituíra o recém-promovido Pizzardo como subsecretário de Estado para Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, iniciou uma dança curiosa com o embaixador italiano. Em 30 de dezembro, disse a Pignatti que se sentia pouco à vontade com uma manifestação política tão espetacular do clero, em especial dos bispos. Pignatti respondeu que se quisesse que ele levasse o assunto a Mussolini, o subsecretário teria que enumerar por escrito as objeções do Vaticano. Poucos dias depois, num encontro com Pignatti, Tardini repetiu o apelo. Pignatti deu a mesma resposta. Mas jamais houve um pedido formal. Tardini redigiu à carta, mas o papa acabou decidindo não

enviá-la.23

28. O clero na comemoração da Batalha do Grão, de Mussolini, em janeiro de 1938

 

Na manhã de domingo, 9 de janeiro de 1938, dois mil padres e sessenta bispos marcharam em uma procissão solene pelas ruas de Roma enquanto curiosos e fascistas renitentes apareciam no trajeto para aplaudir. Eram precedidos por carabinieri em uniforme de gala, uma banda militar e um destacamento de padres de batina preta portando bandeiras italianas. No monumento de Vítor Emanuel na Piazza Venezia aguardava-os Achille Starace, líder nacional do Partido Fascista. Estava ao lado do líder do partido em Roma. Os dois acompanharam os bispos pela escadaria de mármore, onde depositaram coroas de flores nos túmulos do Soldado Desconhecido e dos heróis da Revolução Fascista.

Então a procissão voltou a entrar em forma para uma curta marcha até o palácio Venezia, passando pela sacada do gabinete de Mussolini, onde o Duce, radiante, respondeu às suas saudações fascistas. Ao meio-dia, eles lotaram a Sala Real. Depois de ter feito outra oração, o enorme grupo aplaudiu quando o Duce fez sua entrada. O arcebispo Nogara se ergueu para pedir a bênção de Deus para o homem que tanto fizera pelo cristianismo. Um pároco foi até a frente e recitou uma moção que os dois mil padres tinham aprovado por unanimidade: “Os padres da Itália invocam e continuam a invocar a bênção do Senhor para vossa pessoa, para vossa obra de restaurador da Itália e Fundador do Império, para o Governo Fascista.” E concluiu: “Viva Il Duce!” A sala estremeceu

quando os padres e bispos urraram “Duce! Duce!”.24

Os jornais italianos fizeram uma cobertura de destaque do evento. O jornal La Stampa, de Turim, alardeou a manifestação de entusiasmo do clero pelo regime fascista: “Os inimigos do fascismo são também inimigos da Igreja. Os ideais pelos quais luta o fascismo são os ideais que a civilização católica vem exaltando há séculos.” A imprensa alemã contrastou o apoio patriótico dado aos padres e bispos da Itália ao regime fascista com “a amarga experiência que nós, na Alemanha, temos tido

com o clero alemão”. 25

 

* * *

 

SEMPRE ANSIOSO PARA demonstrar a grandeza da Itália e tendo perdido qualquer senso de proporção, Mussolini vinha tomando uma série de medidas destinadas a mostrar ao mundo como os fascistas zelavam pelo país. As medidas iam da marcha a passo de ganso à proibição de saudar com aperto de mãos. O principal arquiteto dessas mudanças, muito ridicularizadas, era Achille Starace, líder do Partido Fascista desde 1931.

Mestre do mau gosto,26 com a mentalidade de um sargento instrutor do exército e destituído tanto de bom senso quanto de sofisticação política, Starace tinha uma devoção total por Mussolini. Durante anos o obediente e fardado Starace, com tubos de brilhantina emplastrando os cabelos pretos na cabeça, andava um passo atrás de Mussolini em quase todas as aparições públicas do Duce. A certa altura, explicando por que o tolerava, Mussolini disse com um sorriso: “Starace é meu pit bull.” Ao saber desse

comentário, Starace ficou radiante. 27

 

29. Mussolini discursa, acompanhado de Achille Starace, chefe do Partido Nacional Fascista

(primeiro à direita)

 

Em todo esse tempo, o papa nunca deixou de pressionar Mussolini para ajudá-lo a lidar com Hitler. O interesse do Duce em diminuir a tensão entre o pontífice e o ditador alemão era claro: se Pio denunciasse os nazistas ou excomungasse Hitler, seria impossível convencer os italianos a unir seu destino ao do Terceiro Reich.

Em março de 1938, Mussolini relatou ao papa notícias de seus esforços mais recentes, dando a entender que fora por sua causa que os nazistas haviam suspendido os constrangedores julgamentos de fachada do clero católico. Nos dois anos anteriores, centenas de padres e monges tinham sido encarcerados, muitos acusados de cometer crimes sexuais contra meninos. Aqueles “julgamentos de imoralidade” haviam produzido uma imensa cobertura jornalística. Goebbels, num discurso radiofônico para todo o país, disse que a “sacristia se tornou um bordel, enquanto os

mosteiros são terreno fértil para a vil homossexualidade”. 28 O papa agradeceu a Mussolini pela ajuda, mas acrescentou que, se quisesse que as relações normais entre o Vaticano e o Terceiro Reich fossem restauradas, o Duce precisava convencer Hitler a permitir que as escolas católicas e os

grupos da Ação Católica voltassem a funcionar sem restrições.29

O clero da Itália não nutria por Hitler mais amor do que o papa, mas sua atitude para com Mussolini era muito diferente. A maior preocupação dos prelados era que, num mundo cada vez mais incerto, algo ameaçasse o governo do Duce. Um dia, passeando pela praça de São Pedro, Marchetti Selvaggiani, cardeal-vigário de Roma, compartilhou esse pensamento com o cardeal Pizzardo. “Se Mussolini for deposto”, disse ele, apontando para uma luz da rua, “você me verá pendurado naquele

poste.” 30