O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 27 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo vinte e quatro

 

AS LEIS RACIAIS

 

Em 1 o de setembro, o governo italiano revogou a cidadania de judeus nascidos no exterior que tivessem se tornado cidadãos depois de 1919. Ordenou a todos os judeus não cidadãos que deixassem o país no prazo de seis meses. No dia seguinte, todos os professores judeus — do primário à universidade — foram demitidos. Crianças cristãs não podiam ser instruídas por judeus. Crianças judias não teriam mais permissão de frequentar escolas públicas de qualquer nível. Membros judeus de sociedades honorárias de artes, literatura e ciências foram expulsos. De acordo com essas “leis raciais”, judeus eram definidos como os nascidos de pais da “raça judia”, ainda que “professem uma religião que não seja o judaísmo”.

Ao anunciar as novas leis, La Civiltà Cattolica não expressou oposição alguma — o que não era de surpreender, uma vez que pedia essas medidas desde 1880. Mas a revista queria distinguir com clareza as bases de sua própria campanha antijudeus da campanha baseada na pureza do sangue. Os judeus, na opinião da publicação, eram uma ameaça aos

italianos não pela biologia, mas pelo comportamento.1 Os apelos da revista para que o governo agisse contra a ameaça judaica tinham sido “inspirados apenas pela legítima defesa do povo cristão contra” — e neste ponto citava, com aprovação, um artigo anterior — “‘uma nação estrangeira entre as nações onde vive a inimiga jurada do seu bem-

estar’”.2

Nos primeiros dias da campanha antissemita, a imprensa fascista usou generosamente a revista não oficial do Vaticano para conquistar apoio popular às leis raciais. A Santa Sé procurou a eminência parda da revista, Enrico Rosa, para esclarecer o assunto. Seu artigo, “A questão judaica e La Civiltà Cattolica”, não manifestava qualquer oposição às novas leis antissemitas, mas discordava daqueles que, ao apoiá-las, descaracterizavam a base lógica da revista para recomendar que os governos restringissem os direitos dos judeus.

Os acontecimentos tinham demonstrado a sabedoria, declarou o padre Rosa, da profecia da revista de que assegurar igualdade de direitos aos judeus seria catastrófico não apenas para a sociedade cristã, mas também para os próprios judeus. A concessão de direitos iguais tinha desencadeado o ódio generalizado contra eles, uma vez que tinham usado a recém-adquirida liberdade para acumular ocultamente poder e riqueza,

perseguir a Igreja Católica e oprimir os cristãos.3

Quase em pânico, muitos judeus italianos procuraram os párocos para serem batizados. Nos três anos seguintes, um em cada dez judeus renunciaria à sua fé. Quase cinquenta dos mil judeus de Bolonha foram batizados em agosto e setembro de 1938, numa corrida desesperada para

escapar da perseguição. 4

35. Mussolini com crianças de um grupo da juventude fascista, 1938

 

Quando a campanha antissemita dos fascistas fez a fatídica transição da teoria para a perseguição ativa, o clero católico romano do país expressou poucas objeções em público. Nos raros casos em que padres fizeram críticas, Mussolini só precisou ter uma palavrinha com o cardeal Pacelli, e os religiosos foram punidos. Foi o que ocorreu em 1 o de setembro, quando Pacelli recebeu um relatório sobre os comentários críticos de um padre numa remota aldeia ao norte de Milão, perto do lago de Como. Dom Abramo Mauri morava num asilo da Igreja, recuperando-se de exaustão nervosa. As freiras locais o convidaram para rezar uma missa em sua capelinha. Ali, num domingo, ele se queixou de que “eles já estão começando a inculcar um sentimento de orgulho falso nessas crianças de nariz empinado de apenas três anos de idade”. O líder local do Partido Fascista, que estava presente, ficou indignado, certo de que o padre se referia aos grupos da juventude fascista. Para piorar, Mauri ainda criticou

a nova campanha racial, prevendo que ela levaria à guerra. 5

O cardeal Pacelli pediu ao bispo de Como que mandasse investigar. 6 Depois de examinar o assunto, o bispo assegurou a Pacelli que os comentários do padre sobre “crianças de nariz empinado” tinham sido mal-interpretados. Referiam-se, disse ele, às mães excessivamente tolerantes que mimam seus filhos. Mas o bispo não teve como explicar a crítica do padre à campanha racial. Como resultado, proibiu Dom Mauri

de voltar a fazer sermões naquela igreja. 7

 

* * *

 

ENQUANTO ISSO, A o europa marchava para a guerra. Em 1 de setembro, Hitler exigiu que a Tchecoslováquia cedesse sua região da Sudetolândia, de fala alemã, para o Terceiro Reich. A França começou a mobilizar suas tropas.

Em Roma, William Phillips, embaixador dos Estados Unidos, assistia a tudo com crescente preocupação. O manifesto racial de Mussolini em julho tinha provocado um choque nos Estados Unidos e alarme no Departamento de Estado, como o mais recente indício de que Mussolini pretendia vincular o destino da Itália ao da Alemanha nazista. Phillips via poucas alavancas capazes de impedir a catástrofe, nenhuma delas mais promissora do que o papa. Ele informara Washington, muito animado, do discurso do pontífice em 20 de julho, com suas críticas ao afã com que Mussolini tentava imitar Hitler. Um mês depois, perdeu um pouco a esperança ao ler o artigo de L’Osservatore Romano em apoio às restrições aos judeus. Apesar disso, não desistiu por completo. Talvez o papa pudesse ser influenciado.

Logo que as leis raciais mais recentes foram anunciadas, no começo de setembro, expulsando crianças e professores judeus das escolas da Itália, Phillips pediu para ver Joseph Hurley, único prelado americano na Secretaria de Estado do Vaticano. Os dois homens já tinham se encontrado várias vezes, e, na ausência de um embaixador americano na Santa Sé, Hurley era quem mantinha Phillips a par do que acontecia no

Vaticano. 8

Quando os dois se encontraram naquele começo de noite na embaixada dos Estados Unidos, o embaixador foi direto ao ponto. Tanto ele quanto o governo americano estavam horrorizados com as novas leis antissemitas. Não só eram ultrajantes em si; elas fariam os americanos se voltarem com agressividade contra o governo italiano. Phillips via a campanha racial como parte de um cenário maior e mais preocupante. Mussolini estava perdendo o senso de realidade, cercado por bajuladores e se recusando a ver embaixadores estrangeiros que poderiam lhe oferecer uma perspectiva diferente. Se as coisas piorassem, disse Phillips a Hurley, “talvez o Vaticano possa, por meio de prudente intervenção no governo

italiano, prevenir a catástrofe de uma guerra geral”.9

A título de incentivo, Phillips sugeriu que, se o papa denunciasse as novas leis raciais, o público americano ficaria tão satisfeito que “desarmaria a oposição protestante”. Isso permitiria ao governo americano estabelecer relações diplomáticas formais com o Vaticano. A Santa Sé havia tentado esse reconhecimento durante décadas, mas até aquela altura a situação política americana não permitira. Os preconceitos da maioria protestante contra os católicos, mais a crença de que o Vaticano era uma organização religiosa, e não um Estado soberano,

tinham frustrado os esforços no passado.10 No dia seguinte, Hurley passou o recado de Phillips a Pacelli.

Três dias depois, Pio XI recebeu em audiência a equipe de uma rádio católica belga. Com a mensagem do embaixador americano ainda viva na memória, ele ignorou os conselhos de seus assessores e deixou-se guiar pelo coração. A voz ficou embargada de emoção e os olhos encheram-se de lágrimas quando começou a falar sobre a nova campanha racial. “Sempre que leio as palavras ‘o sacrifício do nosso pai Abraão’”, disse o papa, referindo-se a uma frase da bênção sacerdotal durante a missa, “não posso deixar de me comover.” A voz oscilava. “É impossível, para cristãos, participar do antissemitismo. Reconhecemos que todo mundo tem direito à autodefesa e pode tomar as medidas necessárias para salvaguardar seus interesses legítimos. Mas o antissemitismo é

inadmissível. Espiritualmente, somos todos semitas.” 11

Era exatamente o que Ledóchowski, Tacchi Venturi, Borgongini e Pacelli temiam. Mas eles deram um jeito de controlar os danos. Quando L’Osservatore Romano publicou um relato dos comentários do papa,

nenhuma menção foi feita às suas angustiadas palavras sobre os judeus.12 Alguns católicos perceberam o silêncio do jornal do Vaticano, que ficou claro num relatório de inteligência que a polícia preparou no dia seguinte aos comentários de Pio. “Muitos católicos que aprovaram por completo o que o pontífice disse recentemente em defesa dos judeus”, dizia o documento, “agora não sabem explicar por que o jornal do Vaticano, o único que não está sujeito à censura do governo italiano, não voltou ao assunto depois das decisões tomadas pelo Conselho de Ministros. Acham

estranho o silêncio.”13

O que exatamente Pacelli e seu subsecretário, Domenico Tardini, fizeram para garantir que o jornal do Vaticano ignorasse os explosivos comentários do papa é até hoje um mistério. É curioso que a maioria das páginas do diário de Pacelli referentes aos seus encontros com o pontífice naqueles meses não esteja entre as páginas abertas aos pesquisadores nos Arquivos Secretos do Vaticano.

 

* * *

 

MUSSOLINI CONSIDERAVA OS italianos um povo fraco. Ele precisava endurecê-los. Numa reunião do Grande Conselho no começo de outubro, na qual mais leis raciais foram aprovadas, ele explicou: “Meu dever é exigir mais dos italianos. Entendo que existem, marginalmente, aqueles que adoram a vida confortável. Mas eles são apenas a periferia do

país. Vamos eliminá-los.” 14

Aos olhos de muitos italianos, Mussolini tinha adquirido qualidades divinas, mas a adulação vinha acompanhada de uma pitada de medo. Certa noite, quando deixavam a sede do Instituto de Cultura Fascista, dois membros da organização esbarraram com o velho zelador. Um deles apontou para o outro e gracejou para o confuso funcionário:

— Vê este homem? É um imortal.

— Como assim? — indagou o velho. — Todos os homens são mortais!

— Ah, estou vendo. Então quer dizer que o senhor acha que Mussolini é mortal!

— Não foi o que eu disse — insistiu o assustado zelador.15

Mais ou menos na mesma época, o ministro do Exterior Ciano recebeu um visitante, o príncipe Philipp de Hesse, que Hitler costumava usar para mandar seus recados a Mussolini. Foi Hesse que, no começo daquele ano, entregou em mãos a carta em que o Führer informava ao Duce da iminente invasão da Áustria. Neto de um imperador alemão e bisneto da rainha Vitória, da Grã-Bretanha, Hesse era membro do Partido Nazista desde 1930. Muito fizera para converter a aristocracia alemã à causa nazista. Quando chegou ao escritório de Ciano naquele dia, estava visivelmente constrangido. Fora ver o genro de Mussolini, explicou, para tratar de um assunto particular de família. Em 1925, Hesse se casara com a filha de Vítor Emanuel, e sua sogra, a rainha Elena, lhe pedira que intercedesse por elas junto ao Duce. Queriam que uma exceção às leis raciais fosse aberta em benefício do seu médico judeu. “Parece”, escreveu Ciano em seu diário, “que a rainha está furiosa com a expulsão, e também o rei, que confia muito no médico, mas não ousa falar com o Duce. E ambos contam com a minha mediação amiga.” Feliz de estar em posição de vantagem sobre o nervoso aristocrata alemão, o italiano sorriu. Ciano perguntou a Hesse o que diria o Führer se ele lhe falasse sobre

aquele pedido. Diante disso, o sangue sumiu do rosto do príncipe. 16

No começo de setembro, Pio XI mandou Tacchi Venturi redigir uma mensagem a Mussolini sobre a necessidade de isentar das leis raciais os judeus batizados. O papa aprovou o rascunho, mas acrescentou uma coisa. “Diga a Mussolini”, instruiu ele ao enviado jesuíta, “que as leis raciais da Itália podem muito bem provocar represálias da parte dos

judeus no mundo inteiro”. 17 Poucos dias depois, Tacchi Venturi levou ao Duce uma mensagem papal mais explícita. Como italiano, o papa disse que ficava muito triste de ver “toda uma história de bom senso italiano esquecida, para abrir a porta ou a janela a uma onda de antissemitismo

alemão”.18

Contudo, quando as primeiras leis raciais foram divulgadas, o que mais aborreceu o papa, e sem dúvida o que mais incomodou os que o cercavam, não foi o impacto delas sobre os judeus da Itália, mas o fato de que eram aplicáveis também a católicos convertidos do judaísmo.

Depois de um encontro com o papa em 20 de setembro, Tacchi Venturi preparou um memorando, como costumava fazer, para transmitir os desejos do pontífice a Mussolini. Judeus que haviam demonstrado mérito especial — principalmente no serviço militar durante a Grande Guerra — tinham sido isentados das novas leis. O papa estava feliz com essa exceção, mas se indagava por que uma cláusula parecida não tinha sido preparada para os judeus que “se separaram da Sinagoga, pedindo e recebendo o batismo”. A Igreja “queria que cada um deles abominasse a perfídia judaica e rejeitasse a superstição judaica, [e portanto] não pode se esquecer desses, seus filhos”. Os convertidos corriam risco especial, acrescentou o enviado de Pio, porque as próprias famílias os evitavam, vendo-os como traidores.

Não tinha sentido, afirmou Tacchi Venturi, Mussolini isentar os judeus que tinham servido na guerra e não os que haviam adotado o catolicismo. O mérito dos primeiros era “sem dúvida inferior ao mérito muito maior que é a renúncia à cegueira e à obstinação do seu erro, sem

a qual um judeu não pode ser tornar um verdadeiro cristão”.19

Como efeito das leis raciais, uma fila de judeus e ex-judeus resolveu pedir ajuda aos bispos italianos. Sem saber direito o que o papa esperava deles, os bispos bombardeavam o Vaticano com pedidos de orientação. Numa carta típica, no fim de setembro, o arcebispo de Turim falou dos judeus que lhe pediram ajuda. Se achavam que iam conseguir, estavam enganados. “Devo, via de regra, me limitar”, informou ele, “a sugerir que fiquem calmos, que aguardem novos regulamentos e que tenham fé no governo etc.” Mas, embora pudesse ignorar os judeus, achava que não poderia fazer o mesmo com os católicos que haviam se convertido do judaísmo e estavam sendo tratados como judeus. Era por essa razão que ele escrevia.

Tardini, dizendo que mostrara a carta do arcebispo ao papa, respondeu com a promessa de levar os casos de Turim, mencionados pelo arcebispo,

à atenção do governo. Pediu a Tacchi Venturi que cuidasse do assunto. 20

Os judeus da Itália se sentiam cada vez mais isolados. Primo Levi, estudante de dezenove anos da Universidade de Turim, lembrava-se daqueles primeiros meses das leis raciais. “Meus colegas de classe eram pessoas polidas. Nem eles, nem meus professores, me dirigiram sequer uma palavra ou um gesto hostil, mas senti que me distanciava deles (...) Cada olhar que trocávamos era acompanhado de um pequeno, mas perceptível, traço de desconfiança e suspeita. O que pensam de mim? Quem sou eu para vocês? O mesmo de seis meses atrás — um dos seus

pares que não vai à missa — ou o judeu?” 21

Numa anotação de setembro em seu diário, uma mulher judia descreveu a difícil situação da família. O marido, um cientista, estava abatido: tinha acabado de receber uma carta acompanhada de um artigo que escrevera e submetera a um periódico. “‘O editor devolve-o em anexo”, escreveu a mulher; “algumas palavras constrangidas, ‘incapaz de proceder à publicação, lamento muito’ etc. Ele abriu a outra carta. ‘O presidente da Academia de Ciência deseja advertir que, seguindo instruções recebidas sobre o assunto, está removendo seu nome da lista de membros.’ (...) O terrível senso de vazio o invadiu novamente, tomando conta do seu coração. Ele viu, de repente e pela primeira vez, que sua

única e verdadeira razão de viver lhe foi tirada.”22

Em outra família judia, uma menina se recusava a sair do quarto e a se alimentar. Naquele que deveria ter sido o seu primeiro dia na escola, ela não participaria da animação das outras garotas, pois era judia. Preocupada, a mãe entrou no quarto “com o coração na boca”, como anotou em seu diário. Descreveu a cena: “As lágrimas dos jovens são tão difíceis de secar (...) O quarto estava em silêncio, parecia vazio. Então eu a vi, estirada na cama, dormindo. As faces ainda estavam úmidas, a mão ainda segurava o lenço, e o seu ‘por quê’ ainda ecoava no cômodo

silencioso.” 23

 

* * *

 

TENDO ENGOLIDO A áustria em março, os nazistas agora ameaçavam anexar a Sudetolândia da Tchecoslováquia. Num discurso de 12 de setembro em Nuremberg, Hitler jurou que, se o território não lhes fosse

dado, os alemães o tomariam à força.24 O pânico se espalhou pela Europa. Quando chegou o fim de setembro, seiscentas mil pessoas tinham fugido de Paris, temendo que um ataque alemão não demorasse.

No meio desse frenesi, o Duce aproveitou uma oportunidade única. Neville Chamberlain, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, convidou-o para mediar o conflito a sobre a Sudetolândia numa conferência de paz a ser realizada em Munique.

Os líderes franceses, britânicos, alemães e italianos chegaram ao local da conferência em 29 de setembro. O atarracado Mussolini, trajando seu uniforme justo, o queixo projetado para a frente e a face congelada na pose mais cesárea, agia como se ele, e não Hitler, fosse o anfitrião. Ciano, também de uniforme, adejava em torno do sogro. Chamberlain, com seu terno de gala, suas grossas sobrancelhas, seu rosto marcado e as mãos tortas de reumatismo, era o retrato acabado do diplomata aristocrático de extração inglesa. Hitler, de traje de passeio, estava pouco à vontade, sempre em movimento, o rosto pálido. Sabendo apenas alemão, agarrou-se a Mussolini, o único dos outros chefes de governo que falava sua

língua. 25

Uma foto da reunião mostra Mussolini de farda de cor clara, a cabeça toda raspada, olhando de modo um tanto ameaçador, enquanto Chamberlain, de terno escuro e colarinho alto, parece se esforçar para convencê-lo de qualquer coisa. Para Mussolini, o primeiro-ministro britânico, com seu guarda-chuva, era a personificação dos valores decadentes que seu regime combatia. “Jamais quero ver um guarda-chuva perto de mim”, disse ele, certa vez. “O guarda-chuva é uma relíquia burguesa, é a arma usada pelos soldados do papa. Quem anda de guarda-

chuva jamais fundará um império.” 26

Enquanto o Duce estava em Munique, o papa foi à rádio do Vaticano fazer um apelo pela paz. Falou não em latim, mas em italiano, ansioso para que sua mensagem fosse ouvida. Lágrimas lhe avermelhavam os olhos quando ele se dirigiu a “todos os católicos e a todo o universo”. “Enquanto milhões de homens vivem no temor do iminente perigo de guerra e da ameaça de massacres e ruínas sem precedentes”, disse, “compartilhamos, em Nosso coração paternal, os receios de tantos dos Nossos filhos e convidamos os bispos, o clero, os membros de ordens religiosas e todos os fiéis a se juntarem a Nós na prece mais insistente e

esperançosa pela preservação da paz com justiça e caridade.”27

Na conferência de Munique, Mussolini apresentou seu plano de paz — ou, talvez mais corretamente, apresentou o plano de paz de Hitler e disse que era seu. A Alemanha teria permissão para ficar com a Sudetolândia. Os chefes de governo britânico e francês concordaram com essa humilhante capitulação em troca da promessa de Hitler de que pararia ali. Nenhum representante da Tchecoslováquia foi convidado para a reunião que desmembrou o país.

Ao voltar para a Itália, Mussolini foi recebido como herói. Nos campos ao longo dos trilhos, agricultores caíam de joelhos para saudar o homem que trouxera a paz à Europa. Era apenas um dos muitos sinais de que, mesmo um mês depois do anúncio das leis raciais, a popularidade

dele continuava nas alturas. 28 De sua parte, Hitler teria que esperar até o ano seguinte para ver sua guerra começar a sério, mas tirou uma lição importante da conferência de paz. Em agosto de 1939, quando estava prestes a mandar tropas alemãs para a Polônia, disse aos seus generais:

“Nossos inimigos são pequenos vermes. Eu os vi em Munique.”29

Um dos que cantaram loas a Mussolini foi o cardeal Schuster, de Milão. Numa efusiva carta pública, proclamou que “a Itália está orgulhosa porque seu Duce deu uma preciosa contribuição para a paz”. Sugeriu que uma nova igreja dedicada à paz fosse construída para assinalar o triunfo de Mussolini. Ao saber da proposta do arcebispo, o papa explodiu: “Que desastre!”, exclamou em conversa com Tardini. “Eu

jamais acreditaria nisso! Achei que ele fosse mais inteligente!”30

Numa reunião do Grande Conselho poucos dias depois de voltar à Itália, Mussolini se voltou contra as poucas pessoas que ainda resistiam às leis raciais. Insistia em dizer que os judeus estavam por trás do que restava de antifascismo no país. Abespinhado com as críticas do pontífice, rotulou Pio XI de “o mais danoso de todos os papas para o futuro da Igreja

Católica”. 31

36. O cardeal Ildefonso Schuster, arcebispo de Milão, com Mussolini

 

O papa é uma “calamidade”, disse o Duce, de modo pontificante, a Clara Petacci pouco depois da reunião. “Hoje somos os únicos, sou o único, a apoiar essa religião (...) E ele faz coisas vergonhosas, como dizer que todos somos semitas.” E, cada vez mais furioso: “Você não imagina o problema que estão criando”, disse ele a Clara, cujo interesse por esses assuntos era limitado. “Ele transtornou todos os católicos, faz uns discursos torpes, chocantes. Em uma palavra, ele é do mal.” O Duce continuou a discorrer nesse tom, dizendo que havia qualquer coisa de azarado com papas chamados “Pios” — todos tinham causado desastres. Pio VI e Pio VII haviam sido expulsos de Roma por Napoleão; Pio IX perdera Roma e os Estados Papais; e Pio X vira toda a Europa explodir em guerra. “Ele está perdendo o mundo inteiro e agora corre o risco de destruir tudo aqui também. Ah, é uma verdadeira calamidade.” Como católico, concluiu, “tenho que admitir que seria difícil imaginar um papa

pior do que este aí”. 32

O Grande Conselho aprovou as novas leis raciais; La Civiltà Cattolica publicou-as, junto com a justificativa oficial, sem fazer comentários. “Elementos judeus encabeçam todas as forças antifascistas”, proclamou o governo, e, por essa razão, novas medidas contra eles eram urgentemente necessárias. Os judeus italianos seriam expulsos do Partido Fascista; não poderiam possuir nem dirigir empresas com mais de cem empregados, ser proprietários de mais de cinquenta hectares de terra ou permanecer nas forças armadas italianas. Restrições à sua capacidade de exercer profissões logo seriam anunciadas. Escolas secundárias especiais para judeus seriam

criadas, somando-se às escolas primárias já autorizadas.33

Ciano estava preocupado com a reação do papa à última batelada de leis raciais, mas ficou aliviado ao saber que, no fim das contas, tudo talvez desse certo. A Santa Sé não faria objeção, disse-lhe seu encarregado de negócios no Vaticano, desde que as novas leis não tratassem católicos convertidos do judaísmo como se fossem judeus. Mais importante ainda, o Vaticano insistia em que nada fosse feito para violar os termos da concordata: o documento garantia com clareza o reconhecimento pelo Estado de todos os casamentos sancionados pela Igreja. “Este é o único ponto na proclamação racista do Grande Conselho”, disse o diplomata

italiano a Ciano, “ao qual a Igreja faria objeção.”34

Essa leitura da posição do papa é confirmada por uma anotação feita por Domenico Tardini no dia em que as novas leis raciais foram anunciadas. “Esta noite, a pedido do Santo Padre”, escreveu ele, “L’Osservatore Romano publicará um breve artigo mencionando algumas preocupações e manifestando a esperança de que a futura lei elimine

todos os motivos de reserva.” 35

O papa via as novas leis raciais como parte de um quadro maior e mais perturbador. Mussolini, em vez de trabalhar em conjunto com o Vaticano para criar um estado confessional em que o catolicismo infundiria seus valores no fascismo, parecia empenhado em criar uma religião fascista separada. Em meados de setembro, Pio XI abordou essas preocupações em comentários para um grupo de sindicalistas franceses. Alguns argumentam, disse o papa, que tudo deveria pertencer ao Estado, tornando-o totalitário. Mas esse argumento era absurdo. “Se há um regime totalitário”, disse ele, “totalitário de fato e de direito, é o regime

da Igreja, porque o homem pertence totalmente à Igreja.”36

O papa começava a se perguntar se seria possível continuar apoiando Mussolini e seu regime fascista. Mas, embora esses comentários improvisados continuassem a irritar tanto as autoridades fascistas quanto os próprios conselheiros do pontífice, sua oposição a medidas especificamente antissemitas ainda era limitada. Era evidente que os que o cercavam não se opunham a elas. O encarregado de negócios da Itália, Carlo Fecia di Cossato, informou a Mussolini e a Ciano que, de acordo com altos funcionários do Vaticano, as recentes leis raciais “não depararam, no geral, com uma reação desfavorável no Vaticano”. A única objeção levantada ali dizia respeito à violação do direito da Igreja de definir o que constituía um casamento legal. “Tenho a confirmação dessas impressões pelo monsenhor Montini, substituto para assuntos ordinários da Secretaria de Estado, em especial de que a principal, para não dizer única, preocupação da Santa Sé diz respeito ao caso de casamentos com judeus convertidos.”

Cossato acrescentou uma nota sobre os jesuítas, fazendo eco ao conselho anterior de Pignatti. “Os jesuítas”, explicou ele, “sempre foram antissemitas convictos — embora por razões doutrinárias, diferentes das nossas.” Mas não poderiam se deixar retratar como contestadores do papa. Seria melhor, aconselhava Cossato, deixar os jesuítas satanizarem os judeus sem chamar atenção para isso, pois, “na sombra e no nível prático

eles foram e podem vir a ser nossos melhores aliados”. 37

Naquela mesma noite, Cossato teve um encontro com o padre Rosa, cujo último artigo sobre “a questão judaica” fora publicado havia pouco tempo em La Civiltà Cattolica. Rosa lhe disse que tinha escrito a peça por ordem do Vaticano, “para dissipar a impressão que os leitores possam ter de apoio total às medidas racistas adotadas pelo governo fascista pelo órgão da Companhia de Jesus”. Mas, depois de falar com Rosa, o enviado ficou tranquilo. “Os jesuítas”, disse ele a Ciano, “ainda são, clara

e fundamentalmente, antijudeus.” 38

 

* * *

 

POUCO ANTES DE ir à reunião do Grande Conselho, no começo de outubro, Ciano mandou chamar o núncio papal e lhe mostrou relatos que recebera sobre o recente Congresso Eucarístico. Borgongini viu as marcações denunciadoras do lápis colorido de Mussolini nas folhas de papel. O ditador ficara muito aborrecido ao tomar conhecimento de comentários críticos feitos por padres durante o congresso. Um comentário em particular o deixara furioso. “Deus”, advertira o padre, “sem dúvida castigará o povo alemão e todos aqueles que seguirem o mesmo caminho.” O Duce não queria conflitos com a Igreja, disse Ciano, mas o papa precisava saber que, se não impedisse os padres de expressar críticas como aquela, o governo seria obrigado a agir.

“Se houve qualquer intemperança de linguagem”, assegurou o núncio a Ciano, “sem dúvida seremos os primeiros a lembrar os oradores sacros de suas obrigações.” Mas o pontífice não compartilhava da opinião medrosa do núncio. Quando, dias depois, Pio soube das palavras “imoderadas” dos padres, exclamou: “Benissimo! Giustissimo!” [Excelente! Isso mesmo!] E acrescentou: “Alguém precisa dizer essas coisas!”

No mesmo encontro com Ciano, Borgongini mais uma vez transmitiu o apelo do papa para que Mussolini falasse com Hitler em nome dele. O pontífice ficara aborrecido ao saber que a perseguição da Igreja pelos nazistas agora se estendia à Áustria e à Sudetolândia. “Como está claro que ninguém é capaz de influenciar Hitler a não ser Sua Excelência o Chefe do Governo”, disse o núncio a Ciano, “eu lhe suplico que diga a Sua Excelência Mussolini que só ele pode fazer o Führer parar com a perseguição.”

Borgongini então tocou na questão do chefe do Partido Fascista em Bérgamo. Aqui, suas palavras têm interesse especial, pois se referem ao pacto secreto com Mussolini em meados de agosto, prevendo a aprovação papal das leis raciais em troca de concessões em benefício da Ação Católica. “Pedi ao ministro [Ciano] que cuidasse de Bérgamo”, informaria o núncio a Pacelli, “pois foi prometido, oficialmente, que aquele secretário federal seria demitido até o fim de setembro, e apesar

disso continua no cargo.”39

Ao ser lembrado de que não tinha cumprido a sua parte do acordo, Mussolini convocou Tacchi Venturi. A questão de Bérgamo, disse ele, tinha se arrastado demais, ou, como disse em sua linguagem mais pitoresca, deixara crescer “la barba troppo lunga”, a barba comprida

demais.40 Ele substituiria o chefe do partido na cidade imediatamente. Mas, ao mesmo tempo, pedia ao papa que removesse quatro membros do conselho da Ação Católica de Bérgamo, que no passado tinham sido

militantes do Partido Popular.41

Ao ser informado da vontade do Duce, Pio se mostrou surpreso com o fato de homens com aquele passado ainda ocuparem cargos de liderança

na Ação Católica. Achava que todos tinham sido eliminados. 42 Tardini ficou espantado com a rapidez com que o pontífice mandou demitir os quatro. Em 14 de outubro, o jornal de Bérgamo noticiou a demissão dos quatro membros do conselho e a remoção do chefe do Partido Fascista na

cidade. 43

Os humores do papa continuavam a se alternar de modo radical, devido, em parte, à sua saúde. Seus períodos de depressão e reprimendas eram seguidos de dias em que parecia bem mais suave. No começo de outubro, quando pediu a Tardini que enviasse uma carta relativa a um mosteiro milanês, gracejou: “Coisa de frade! É verdade mesmo o que dizem. ‘Os que usam sobrepeliz e capuz nunca dizem uma palavra que

seja de todo bem-vinda!’” 44 Poucos dias depois, pediu à sua equipe que procurasse um jovem padre em Viena que pudesse enviar relatórios secretos reportando os acontecimentos por lá. E brincou: “Se eu fosse

jovem, ia adorar uma tarefa dessas!” 45

Mas o humor de Pio mudava de repente. Tardini, depois de informar que um novo chefe do Partido Fascista tinha sido nomeado em Bérgamo, acrescentou que esperava que a situação melhorasse. “Se tomarem outro cartão de filiação [ao Partido Fascista]”, respondeu o papa, num lampejo do velho temperamento, “intervirei com toda a energia! Farei um escândalo. Contarei ao mundo! Tomar o cartão de filiação de alguém significa tirar-lhe o pão.” E ainda mais agitado: “O fascismo vai parecer bom mesmo! Não se fica velho à toa. Os velhos têm certa imunidade, e

pretendo aproveitá-la!”46

Se o adoentado papa estava aborrecido com Mussolini, a opinião que tinha dos seus compatriotas também ia ficando mais sombria. “Os italianos”, disse o papa a Tardini, quando o assunto das novas leis raciais surgiu numa conversa que tiveram em meados de outubro, “são um bando de ovelhas.” E acrescentou: “Nós sem dúvida não precisamos

agradecer a Mussolini por isso.”47