O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 25 de 38

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O Papa e Mussolini

Capítulo vinte e dois

 

UMA MISSÃO SURPREENDENTE

 

Durante uma visita a Roma, em junho de 1938, John LaFarge, padre jesuíta americano de cinquenta e oito anos, ficou surpreso ao receber um recado de que Pio XI queria vê-lo em Castel Gandolfo.

Ao chegar à residência de verão do papa, LaFarge foi levado a um pátio, onde estava o papa, que acabara de voltar de uma caminhada. Sua bengala branca jazia numa prateleira atrás dele. O pontífice disse a LaFarge que queria conversar sobre o problema do racismo e que o procurara porque seu recente livro, Interracial Justice, era o melhor que ele já lera sobre o assunto.

Embora praticamente desconhecido nos círculos do Vaticano, LaFarge era uma presença intelectual na Igreja americana. Nasceu em Newport, Rhode Island; o pai era um artista importante e a mãe descendia de Benjamin Franklin. LaFarge formou-se em Harvard, em 1901, e foi ordenado quatro anos depois. Em seguida, passou quinze anos em Maryland, servindo basicamente em congregações afro-americanas. Em 1926, juntara-se à equipe de redatores de America, e em 1934 fundara o Conselho Católico Inter-racial, destinado a promover esclarecimento acerca do tema inter-racial. Três anos depois publicou o livro que

chamou a atenção do papa. 1

Quando se sentaram, Pio XI confiou ao sacerdote americano uma missão chocante. O papa queria que ele redigisse em segredo uma encíclica sobre o tema que o pontífice considerava a questão mais premente da época: o racismo e o antissemitismo. A visita de Hitler a Roma no mês anterior ainda não lhe saíra da cabeça, e Pio achava que suas palavras condenando a glorificação da raça na encíclica de 1937 já não bastavam. Justamente quando refletia sobre a ideia de uma nova encíclica, soube que a pessoa certa estava visitando Roma. Deus, disse Pio ao perplexo americano, o enviara.

LaFarge manifestou dúvidas sobre se estaria à altura da tarefa. Mas o pontífice insistiu: “Diga apenas o que diria se fosse papa.” E descreveu em linhas gerais os tópicos que gostaria de abordar e os princípios que deveriam servir de orientação a LaFarge.

“Na verdade”, acrescentou o papa, “eu deveria ter submetido o assunto ao padre Ledóchowski antes de falar com o senhor, mas imagino que dará tudo certo.”

O papa não estava sendo muito sincero, pois sabia que o superior geral dos jesuítas não aprovaria a ação. Mais revelador ainda era o fato de que Pio mantivera segredo sobre o assunto até para o cardeal Pacelli e toda a Secretaria de Estado. Também não consultara os vários departamentos do Vaticano, cujos especialistas em geral redigiam encíclicas papais.

“O papa está maluco”, comentou Ledóchowski, em inglês, depois de um encontro com Pio naquele domingo e de saber que a tarefa tinha sido

atribuída ao jesuíta americano.2

No dia seguinte, Ledóchowski teve um encontro com LaFarge. Aproveitando-se da ansiedade do americano — “Estou simplesmente estupefato (...) A Pedra de Pedro caiu na minha cabeça”, confidenciou LaFarge a um amigo —, Ledóchowski sugeriu que dois jesuítas mais experientes o ajudassem.

Quando LaFarge chegou a Paris, poucos dias depois, esses colegas se juntaram a ele. Ao longo do verão os três trabalharam na encíclica, a ser intitulada Humani generis unitas [A unidade do gênero humano] Se o papa tinha escolhido LaFarge pela sua obra contra o racismo nos Estados Unidos, Ledóchowski escolhera os dois colegas — o alemão Gustav Gundlach, de quarenta e seis anos, e o jesuíta francês Gustave Desbuquois, de sessenta e nove — por razões bem diferentes. Ledóchowski via os judeus como inimigos da Igreja e da civilização europeia e estava disposto a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir que o papa prejudicasse a onda antissemita que varria a Europa. Gundlach e Desbuquois já tinham experiência no preparo de encíclicas papais e laços muito estreitos com o Vaticano. Ajudariam a refrear LaFarge, bastante consciente da própria falta de experiência.

Gustav Gundlach, professor de filosofia moral na Universidade Gregoriana de Roma, era um dos maiores especialistas jesuítas em assuntos judaicos. Em 1930, redigira o verbete sobre antissemitismo na confiável enciclopédia teológica católica alemã Lexikon für Theologie und Kirche. Ali Gundlach fizera a distinção entre dois tipos de antissemitismo. O primeiro, que ia de encontro aos ensinamentos da Igreja, combatia os judeus “simplesmente por sua estrangeirice racial e nacional”. O segundo, adotado pela Igreja, lutava contra os judeus “pela excessiva e deletéria

influência do segmento judaico da população”. 3

Em setembro, os três homens terminaram o rascunho e o enviaram a Ledóchowski, supondo que seria imediatamente repassado ao papa. Em vez disso, o superior geral enviou uma “versão resumida” para Enrico Rosa. Fora Rosa, então diretor de La Civiltà Cattolica, que o papa procurara dez anos antes para explicar a dissolução dos Amigos de Israel. Mas àquela altura a atitude de Pio para com os judeus já não era compatível com a de Rosa. Ao procurar LaFarge, o papa o deixara de lado. No entanto, agora o rascunho da encíclica papal estava em cima da mesa de Rosa.

Apesar da mudança de atitude do papa com relação à questão judaica, ele nada tinha feito para controlar a torrente de veneno antissemita publicada na revista de Rosa. Enquanto Hitler aterrorizava os judeus da Alemanha, e a Áustria, a Hungria, a Polônia e outros países europeus adotavam leis para restringir os direitos dos judeus, a revista — com suas páginas previamente aprovadas pela Secretaria de Estado do Vaticano — os estimulava a ir em frente. Em maio de 1937, La Civiltà Cattolica publicou um artigo intitulado “A questão judaica e o sionismo”, elogiando a obra do “ilustre autor católico inglês Hilaire Belloc”, notório antissemita. O artigo ia direto ao ponto já na abertura: “É fato evidente que os judeus são um elemento perturbador em razão do seu espírito de dominação e da sua preponderância em movimentos revolucionários.” Belloc, informava a revista com aprovação, comparou o judaísmo “a um corpo estranho que produz irritação e reação no organismo em que penetra”. Giovanni Preziosi — ex-padre e conhecido fascista — deliciava-se com as arengas da revista jesuíta. Havia muito tempo que insistia com Mussolini para lançar uma campanha que protegesse a Itália católica da ameaça judaica. O artigo de Civiltà Cattolica, declarou ele efusivamente, era “tão perfeito que eu gostaria de apresentá-lo aos italianos que, por amor ao dinheiro dos judeus, negam a existência do

perigo judaico”.4

A revista dava seu apoio entusiástico à proposta de Belloc de que os

governos segregassem os judeus do resto da população cristã.5 Os judeus, acusava o periódico, controlavam tanto as altas finanças quanto o comunismo, no “jogo duplo” da judiaria para fomentar a revolução e “ampliar seu domínio no mundo”. Como os judeus, por natureza, queriam governar o mundo, nunca poderiam ser leais ao país onde viviam. Por essa razão eram os mais entusiásticos defensores da maçonaria e da Liga das Nações. Em suma, informava o texto supervisionado pelo

Vaticano, os judeus tentavam reduzir os cristãos a escravos. 6

Nos meses anteriores ao assalto de Mussolini contra os judeus da Itália, que seria iniciado em julho, La Civiltà Cattolica ajudou a trilhar ao caminho advertindo sobre a ameaça judaica e a necessidade de agir contra ela. A revista falou da importância de um dilúvio de livros antissemitas recém-publicados. Em fevereiro de 1938, uma resenha de Under Israel’s Mask , de Gino Sottochiesa, corrigia o autor — apresentado como homem de “firme fé católica” — por sua errônea impressão de que La Civiltà Cattolica propunha apenas “caridade e conversão” ao lidar com a ameaça judaica; havia muito a revista vinha recomendando aos governos

que tomassem medidas de proteção contra os judeus. 7

E La Civiltà Cattolica não estava sozinha. Nos meses que precederam a campanha antissemita, boa parte da imprensa católica italiana cobrava uma ação do governo. Especialmente influente era L’Amico del Clero, publicação oficial da associação nacional do clero católico romano, que contava com vinte mil padres como membros.

Um artigo de autoria do monsenhor Nazareno Orlandi, intitulado “A invasão judaica também na Itália”, publicado na primavera de 1938, começava com a ressalva de sempre: “Não somos e, como cristãos, não poderíamos ser, antissemitas.” O monsenhor explicava que, embora o antissemitismo “racista” do nazismo, baseado na crença da pureza de sangue, tivesse que ser repudiado, “o antissemitismo defensivo” era não apenas legítimo, mas também necessário na batalha contra “a invasão judaica na política, na economia, no jornalismo, no cinema, na moral e na vida pública”. Embora, graças à vigilância do governo, a situação na Itália não fosse tão ruim quanto em outros lugares, “é certo que muitos cargos de comando entre nós também estão nas mãos dos judeus, que, se tivessem oportunidade, provavelmente fariam conosco o que conseguiram em outros países”. Apesar de nossos registros serem limitados com relação ao que os milhões de italianos ouviram naqueles meses do púlpito durante a missa dominical e de quase não haver estudos sobre isso, seria surpreendente se eles não tivessem ouvido versões

recondicionadas dessas terríveis advertências.8

Em meados de julho, enquanto LaFarge e seus colegas redigiam em sigilo sua encíclica em Paris, La Civiltà Cattolica publicou um longo e entusiástico artigo sobre a legislação antissemita que acabava de entrar em vigor na Hungria. “Na Hungria”, explicava a revista, “os judeus não têm nenhuma organização individual envolvida em qualquer ação sistemática comum. A instintiva e irreprimível solidariedade de sua nação é suficiente para que se unam a fim de pôr em ação o desejo messiânico de dominação mundial.” O antissemitismo dos católicos da Hungria não era do tipo “vulgar, fanático”, menos ainda “racista”, mas “um movimento de defesa das tradições e da verdadeira liberdade e independência do

povo húngaro”.9

 

* * *

 

EM 14 DE julho, Mussolini deu o pontapé inicial na campanha fascista contra os judeus da Itália com uma declaração sobre raça, publicada no Giornale d’Italia, um dos principais jornais italianos. O Manifesto de Cientistas Raciais, feito por ordem de Mussolini, era um conjunto de proposições preparadas por Guido Landra, um desconhecido antropólogo de vinte e cinco anos, e assinadas por uma salada de acadêmicos italianos,

tanto conceituados quanto obscuros. 10 O texto estabelecia a nova teoria racial do regime fascista. A população da Itália, declarava o documento, era “de origem ariana e sua civilização é ariana”, e de fato “uma raça pura italiana existe”. De modo sinistro, anunciava-se que era chegada a hora de os italianos “se proclamarem francamente racistas. Toda a obra feita até agora pelo regime é, em essência, racismo”. Explicando que “a questão do racismo na Itália deve ser tratada de um ponto de vista puramente biológico”, acrescentava, sem coerência, que “isso não significa, porém,

introduzir na Itália teorias do racismo alemão”. 11

Os historiadores até hoje discutem as razões que teriam levado Mussolini a montar uma campanha contra os judeus da Itália. Durante anos, a judia Margherita Sarfatti fora sua amante e conselheira de

confiança. 12 Vários médicos da família de Mussolini eram judeus, e após anunciar a campanha “racial” ele também teria que procurar um novo

dentista.13 Além disso, anteriormente, o Duce nunca levara a sério a crença nazista de superioridade racial. Na entrevista concedida em 1932 ao judeu Emil Ludwig, ele fez uma declaração famosa: “Nada jamais me fará acreditar que seja possível demonstrar a existência, hoje, de raças

biologicamente puras.” 14

Para muitos historiadores, o momento escolhido por Mussolini para lançar a campanha — apenas dois meses depois da visita de Hitler a Roma — não foi coincidência. O Führer, segundo eles, disse ao Duce durante a visita que, se quisesse de fato consolidar a aliança entre os dois regimes, teria que eliminar a diferença mais óbvia entre eles e declarar guerra aos judeus. Dino Grandi, então embaixador da Itália na Grã-Bretanha, fez esse relato. Segundo Grandi, Hitler tentou convencer Mussolini a entrar também na batalha contra a Igreja Católica. Isso o Duce não quis fazer, mas concordou em participar da campanha

antissemita.15

Há boas razões para pôr em dúvida o relato de Grandi, e uma delas é que foi escrito depois da guerra, quando o embaixador — que jamais fora a favor da aliança nazista — tentava a todo custo jogar a culpa nos nazistas por todos os erros do fascismo. Mas isso não quer dizer que o lançamento da campanha antissemita de Mussolini nada tenha a ver com a visita de Hitler. O Duce queria muito impressionar os líderes nazistas e deve ter achado que nada poderia lhes agradar mais do que perseguir os judeus da

Itália. 16

La Civiltà Cattolica, que publicou o manifesto no fim de julho, saudou com alívio a declaração de que o racismo na Itália deveria ser “essencialmente italiano”. A revista temia, porém, que suas proposições não fossem claras o bastante. Algumas pessoas poderiam interpretá-las como respaldo ao culto do sangue, conceito nazista que ia de encontro aos ensinamentos católicos sobre a universalidade do gênero humano. A revista não fazia qualquer comentário sobre a afirmação de que “judeus

não pertencem à raça italiana”.17 L’Osservatore Romano, ao dar a notícia, citou essa frase, mas sem uma palavra de crítica. Enquanto isso, muitos jornais republicaram, em parte ou na íntegra, um artigo de 17 de julho, de autoria de um membro da cooperativa de La Civiltà Cattolica,

comentando de maneira favorável o manifesto.18 O grande jornal católico da Itália, L’Avvenire d’Italia, foi um deles; quatro dias depois, seu editor, Raimondo Manzini, declarou apoio a um “racismo italiano” em suas páginas. Manzini viria a servir como editor de L’Osservatore Romano por

dezoito anos.19

Às sete e quinze da noite de 14 de julho, horas depois da publicação do manifesto, o correspondente em Roma do jornal do Partido Nazista, Völkischer Beobachter, transmitiu a eletrizante notícia para a Alemanha. “Depois da declaração sobre o problema do racismo, o nacional-socialismo e o fascismo mostram que estão unidos também nesta área. A partir de hoje”, disse, com entusiasmo, o jornalista alemão, “cento e quarenta milhões de homens professam a mesma Weltanshauung [visão de

mundo].” 20 No dia seguinte, jornais alemães deram a notícia em tom de júbilo, expressando a crença de que a Itália logo anunciaria sua própria

legislação antissemita, seguindo o exemplo nazista.21

Depois de considerável trabalho de bastidores, a campanha antissemita deu a largada com grande ímpeto. Mussolini a acompanhava de perto, atribuindo a tarefa ao Ministério da Cultura Popular, responsável pela propaganda do regime. Professores de conhecida aprovação ao regime fascista foram solicitados a acrescentar seus nomes em apoio da campanha, organizaram-se bibliotecas dedicadas à literatura racista e projetou-se um arquivo de vinte mil fotografias racistas. Um grupo de acadêmicos fascistas foi recrutado para escrever sobre a realidade das raças, visando um público mais amplo. Especialmente importante foi o lançamento de uma nova revista popular ilustrada que disseminava teorias raciais, a ser

chamada de La Difesa della Razza [A defesa da raça]. 22

Ao tomar uma atitude contra a supostamente perigosa ameaça judaica, Mussolini enfim dava ouvidos às advertências que os enviados do papa, em especial o padre Tacchi Venturi, vinham lhe fazendo. Mas o próprio pontífice não deu sinal algum de preocupação com qualquer ameaça judaica na Itália. O que mais ocupava a sua atenção era o perigo representado pelos nazistas.

O Duce tinha motivo para temer que o papa se opusesse à sua adoção do racismo alemão. Mas também tinha motivos para achar que poderia impedir o papa de manifestar-se contra. Mussolini pensou que, caso se mantivesse firme e distinguisse seu tipo de racismo do racismo dos nazistas, o papa acabaria recuando. O esforço para estabelecer diferenças entre o racismo fascista e o racismo nazista ajuda a explicar o contorcionismo verbal do manifesto racial. A distinção era importante para o Duce também porque nada o irritava mais do que ser acusado de imitar Hitler.

Mussolini também sabia que, embora o papa se opusesse à ideologia racial alemã, suas opiniões sobre políticas de Estado destinadas a limitar os direitos dos judeus eram muito menos claras. Na realidade, o Duce até pensava em usar as advertências da própria Igreja sobre a ameaça judaica para conquistar apoio popular à campanha antissemita.

Acima de tudo, Mussolini sabia quanto o papa dependia dele para favores que beneficiassem a Igreja. Alguns, como tentar influenciar Hitler em favor do catolicismo, envolviam questões importantes. Outros, como recorrer ao regime para impedir a publicação de livros que Pio XI considerava ofensivos, eram menores, mas ainda assim importantes para ele. Um desses casos ainda estava, sem dúvida, bem vivo na cabeça do pontífice naquela época.

33. Galeazzo Ciano

 

No fim de maio, Pio soubera que uma biografia de César Bórgia seria lançada em breve, para venda em bancas de revista, em fascículos ilustrados e baratos. Bórgia não era bem um assunto que o Vaticano gostasse de ver explorado. Nascido em 1475, foi nomeado cardeal aos dezoito anos. Seu pai era o papa Alexandre VI. Renunciando ao chapéu cardinalício com vinte e poucos anos, Bórgia se tornaria comandante

militar, tendo dois filhos com a esposa e muitos com outras mulheres.23 O papa mandou dizer a Ciano que queria todos os exemplares da

biografia destruídos. 24

O genro de Mussolini ordenou que a distribuição da obra para as bancas fosse suspensa. O governo só permitia que a biografia fosse publicada num volume único e pesado, reduzindo drasticamente o

número de leitores.25 Mas o Vaticano não tardou a descobrir que, apesar da ordem de Ciano, os fascículos populares continuavam à venda. Por instrução do papa, o núncio Borgongini teve um encontro com Ciano em 13 de junho.

Indignado por ver sua ordem desrespeitada, Ciano pegou o telefone e ligou para a segunda maior autoridade do Ministério da Cultura Popular, já que o próprio ministro estava fora da cidade.

“Rizzoli [Angelo Rizzoli, o editor]”, disse-lhe Ciano, “é a pessoa mais anti-italiana, antifascista e anticatólica que se possa imaginar.” O genro do Duce acusou o livro de ser “uma especulação sensacionalista preparada pelos judeus”. Borgongini tinha dito antes a Ciano que o autor da biografia, Gustav Sacerdote, era judeu. Rizzoli precisava de uma lição. “Ponha o joelho na garganta dele”, instruiu Ciano, “e dê-lhe uns tapas

para que ele nunca mais esqueça.”26

Uma semana depois do encontro, Ciano mandou dizer ao núncio que não só os fascículos populares da biografia de César Bórgia tinham sido banidos, mas também o próprio livro. Na semana seguinte, o cardeal

Pacelli escreveu um bilhete de agradecimento. 27

 

* * *

 

SOB A MÃO pesada de Achille Starace, a campanha de Mussolini para demonstrar a virilidade do regime ia a todo vapor. De 30 de junho a 2 de julho, o ditador presidiu competições de atletismo, que receberam máxima publicidade, cujo objetivo era mostrar o espírito intrépido e a dureza dos líderes do Partido Fascista. Convocados a Roma, os chefes do partido nas províncias participaram de uma série de “testes”. Essas provas iam do ridículo (com corpulentos potentados fascistas tentando pular cavalos de madeira) ao perigoso (eles saltando por cima de filas de baionetas eretas). O embaixador americano descreveu o estranho evento, notando que, enquanto Mussolini olhava, “dois competidores não conseguiram pular a barreira de baionetas, com resultados um tanto desconfortáveis”. Os jornais italianos publicaram uma foto do valente

Achille Starace pulando de cabeça por um aro em chamas.28

Naquela época, o foco de Mussolini em seus planos de grandeza italiana foi prejudicado por um assunto pessoal desagradável. Clara Petacci tinha acessos de ciúme cada vez mais frequentes. Ela tinha boas razões para ficar desconfiada, pois, mesmo estando acampada em uma suíte no palácio Venezia, o Duce continuava a ter encontros com ex-amantes. Clara partiu para o ataque; para acalmá-la, Mussolini lhe telefonava várias vezes por dia. Quase diariamente, durante boa parte de julho, ele saía com ela sorrateiramente para a praia de Ostia, onde os dois

ficavam do meio da manhã até o meio da tarde. 29

Coube ao genro do Duce administrar os efeitos adversos da recém-anunciada campanha racial. Em 20 de julho, ele mandou o embaixador da Itália, Pignatti, ao Vaticano tentar descobrir o que o papa pensava. Dois dias antes, falando a um grupo de freiras, o pontífice voltara a lamentar o “nacionalismo exagerado”.

“É verdade”, perguntou Pignatti ao cardeal Pacelli, “que o papa está pensando em adotar medidas em oposição à campanha anti-israelita planejada pelo governo real?”

Pacelli não quis se comprometer: disse que Pio não mencionara qualquer plano de se pronunciar sobre o assunto. Além disso, o cardeal não expressou oposição alguma à campanha antissemita.

O que o papa queria dizer com “nacionalismo exagerado”?, perguntou Pignatti. Esses comentários, observou ele, poderiam ser interpretados como críticas à nova política racial.

Pacelli apressou-se a garantir-lhe que o papa não tinha essa intenção, que os comentários dele visavam, acima de tudo, advertir os católicos de outros países que não se identificassem demais com ideologias nacionalistas.

A doutrina católica, afirmou Pignatti, tinha que reconhecer a existência de raças.

O cardeal Pacelli respondeu indiretamente. O direito canônico, disse ele, era bastante claro: as pessoas batizadas deveriam ser consideradas católicas. Quaisquer que fossem as políticas antissemitas que Mussolini tivesse em mente, era crucial que se restringissem àqueles que fossem

verdadeiramente judeus.30

Seis dias depois, Pignatti teve um encontro com Pio em Castel Gandolfo para discutir a campanha racial direto com o Santo Padre. O papa parecia mais magro, mas recuperara boa parte das forças. Ainda usava meias elásticas para aliviar a dor nas pernas, porém já não precisava de massagens diárias. Seu médico pessoal ia de carro de Roma todas as manhãs para vê-lo, mas não achava mais necessário passar as noites lá, como fizera no verão anterior. O papa não tinha nenhuma ilusão de que

ainda viveria muito, mas queria morrer sentado à sua escrivaninha.31

Pignatti saiu muito satisfeito do encontro. Censurou o pontífice, de modo brando, por condenar o “nacionalismo exagerado”, dizendo-lhe que esse comentário poderia ser mal-interpretado. Em resposta, o papa fez eco à explicação de Pacelli: não se referia à Itália.

Então Pio fez uma reclamação. Ele vinha recebendo relatos perturbadores de que o governo italiano dava tratamento privilegiado a protestantes nas áreas italianas do Leste da África. Isso não era ruim só para o catolicismo, mas também para a Itália, disse ele a Pignatti, pois os

protestantes atuavam como agentes britânicos na África. 32 O papa também manifestou preocupação com acusações recentes de que a Ação Católica estava se metendo em política. “Rezo ao Senhor todos os dias”, disse o pontífice, “para que o Signor Mussolini não toque na Ação Católica.” E acrescentou: “Os senhores podem conseguir qualquer coisa

do papa, desde que não ataquem a Ação Católica.” 33

Uma semana depois do encontro, Pio, ignorando a advertência de Pignatti, retomou seus ataques ao “nacionalismo exagerado”. Em comentários para duzentos alunos da Universidade para a Propagação da Fé, em Roma, ele levou a crítica um passo adiante. Só havia uma grande raça humana, disse aos estudantes; e, num comentário que deixaria Mussolini furioso, acrescentou: “É o caso de perguntar por que a Itália,

infelizmente, sentiu necessidade de imitar a Alemanha.” 34

O papa reservou suas palavras mais duras para a defesa da amada Ação Católica. “Eu vos advirto”, disse, dirigindo-se claramente a Mussolini, “a não atacar a Ação Católica, e vos imploro, para o vosso próprio bem, pois quem ataca a Ação Católica ataca o papa, e quem ataca o papa morre.”

Furioso acima de tudo com a acusação de estar imitando Hitler, o Duce proibiu qualquer jornal italiano de publicar o discurso do

pontífice.35 Ciano disse ao núncio Borgongini que, se continuasse com os ataques o papa acabaria provocando um grande racha. “Falei muito claramente com Borgongini”, lembrava-se Ciano. “Expliquei quais eram as promessas e os objetivos do nosso racismo.” O núncio mais uma vez tentou minimizar os comentários do papa. Pio queria apenas se certificar de que o racismo italiano permanecesse dentro dos limites apropriados. Ciano ficou satisfeito: Borgongini “me pareceu muito convincente. E

acabou se revelando muito antissemita”. 36

34. Embaixador Bonifacio Pignatti (à direita), com Galeazzo Ciano, maio de 1939

 

Em 31 de julho, o embaixador italiano foi ver o cardeal Pacelli para reclamar dos comentários recentes de Pio. O papa não podia continuar com suas críticas e esperar manter a colaboração produtiva da Igreja com o regime. Pacelli prometeu transmitir ao pontífice as preocupações de Mussolini. Pignatti achava que Pacelli estava do seu lado, mas duvidava

que o papa fosse prestar qualquer atenção ao seu conselho. 37

“A colaboração às vezes era difícil”, diria Pacelli, mais tarde, ao cardeal Verdier, o arcebispo de Paris, explicando suas relações com Pio XI. O pontífice não dava ouvidos a ninguém, nem mesmo ao seu secretário de Estado, ou pelo menos assim lhe parecia. “Minha natureza afetuosa sofria muito”, confidenciou Pacelli, “mas eu sabia que ele me amava, e esse pensamento me consolava.” Mais tarde, deu a Verdier outro exemplo dessa relação por vezes tensa. Certa vez, ele se sentiu tão sobrecarregado que, sem perceber, deu murros “quase violentamente” na mesa do papa. Não podia mais continuar como secretário de Estado, disse ao pontífice. “Não me preenche, e estou sofrendo.”

“O papa me olhou com frieza e, bem devagar, disse estas palavras, que jamais esquecerei”, contou Pacelli. “‘Só temos uma obrigação, você e eu, que é fazer a política do bem!’” Pacelli ficou tocado: “Que resposta magnífica! Humilhado pela fraqueza que meus nervos me causaram, caí de joelhos aos pés do papa e lhe pedi perdão. O Santo Padre me levantou, com afeto, e me deu um abraço.” “Quelle tableau!”, observou

Verdier, evocando a imagem: “Que cena!” 38

Preocupado com os danos que Pio XI poderia causar à campanha antissemita, Pignatti procurou um homem que pudesse ajudar. Em 4 de agosto viajou para o sul, até a península de Sorrento, onde o padre Ledóchowski estava hospedado numa residência jesuíta, recuperando-se de um recente problema de saúde. “Fui ver o secretário geral dos jesuítas”, explicaria Pignatti mais tarde, “porque no passado (...) ele não ocultara de mim seu implacável desprezo pelos judeus, que ele considerava a origem de todos os males que afligiam a Europa.”

O embaixador achou Ledóchowski muito bem-informado sobre o problema e bastante solidário à causa de Pignatti. “O padre Rosa”, disse ele, “me contou que o papa não entende.” A doença roubava a capacidade mental do Santo Padre: “É terrível, mas é o que acontece.” Durante a sua enfermidade, Pio rezou para que Deus levasse sua alma para junto Dele, mas “o Senhor não atendeu a prece do papa, e como resultado a Igreja hoje passa por uma crise grave”. Pio “não pensa com lógica e não quer ouvir ninguém que pense assim.” O cardeal Pacelli não sabia mais o que fazer: “O papa já não o ouve como antigamente. Esconde com cautela os planos que tem e não lhe diz nada sobre os discursos que pretende fazer.”

Os que cercavam o pontífice, informou Ledóchowski, estavam aterrorizados com a ideia do que poderia acontecer se sua saúde piorasse

ainda mais.39 O jesuíta encomendou ao embaixador que não deixasse as arengas do papa comprometerem as boas relações da Igreja com o regime fascista.

Pignatti respondeu que não lhes seria possível ignorar as arengas do papa, pois a imprensa estrangeira, em especial a francesa, explorava cada palavra dele, e católicos do mundo inteiro prestavam atenção nelas, “alheios ao fato de que o pai comum de todos os fiéis estava mentalmente debilitado”. Os comentários do pontífice “estão causando uma maré de ódio contra a Itália que a compromete tanto no quesito moral quanto no material”.

Ledóchowski concordava. Uma crise era iminente. Depois de pedir ao embaixador que guardasse segredo, confidenciou: “O perigo é grande

demais para não procurarmos um remédio.” 40

Mas qual “remédio” o superior geral dos jesuítas tinha em mente não ficou muito claro. Ele, porém, passaria os meses seguintes fazendo o possível para impedir o papa de denunciar a política racial fascista, ofender os nazistas, ou dar alguma esperança para os judeus.