O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 4: Introdução à engenharia aeronáutica
CAPÍTULO 4
Introdução à engenharia
aeronáutica
Em 14 de outubro de 1947, um mês depois que Armstrong
chegou à Universidade Purdue, um piloto de testes da Força
Aérea — com quem Armstrong voaria mais tarde — quebrou a
mítica “barreira do som”. Era o capitão Charles E. “Chuck”
Yeager, e o avião revolucionário que ele fizera ultrapassar a
velocidade Mach 1 era o Bell X-1, de propulsão a foguete. Antes
que as Forças Armadas pudessem envolver seu programa de
pesquisa transônico em uma névoa de segredo, saíram notícias
sobre o desempenho do X-1 no Los Angeles Times e na Aviation
Week. Professores e estudantes de aeronáutica de todo o país
discutiam as implicações de “derrubar a muralha do som”.
Para Neil, no entanto, essa nova era da aviação emergia com
um sabor agridoce. “Quando cheguei à idade para me tornar
piloto, as coisas tinham mudado. Os grandes aviões que eu tanto
reverenciava quando menino estavam desaparecendo. Cresci
admirando aqueles que me pareciam heróis de cavalaria dos
pilotos da Primeira Guerra Mundial — Frank Luke, Eddie
Rickenbacker, Manfred von Richthofen e Billy Bishop. Mas na
época da Segunda Guerra Mundial, a cavalaria aérea parecia ter
evaporado (…) A guerra aérea estava se tornando muito
impessoal. Todos os voos que marcaram recordes — de [John]
Alcock e [A. W.] Brown, [Harold] Gatty, [Charles] Lindbergh,
[Amelia] Earhart e [Jimmy] Mattern —, cruzando oceanos,
sobrevoando os polos e chegando aos confins da Terra, já tinham
sido realizados. E eu me ressentia disso. Afinal de contas, para
uma pessoa imersa na aviação, fascinada e dedicada a ela, era decepcionante ser trazido ao mundo com uma geração de atraso
por causa da fenda na história. Eu tinha perdido os tempos
áureos e as aventuras da aviação.”
Na época em que Armstrong entrou na faculdade, a Comissão
Nacional para Aconselhamento da Aeronáutica (NACA), que
antecedeu a NASA, juntamente com a recém-instituída Força
Aérea dos Estados Unidos, em um movimento ambicioso,
propôs-se a construir novas instalações para a pesquisa
dedicada a transônicos, supersônicos e hipersônicos (capazes de
atingir uma velocidade por volta de Mach 5, quando os efeitos do
aquecimento aerodinâmico se tornavam acentuados).
A permanência de Armstrong no curso de engenharia
aeronáutica da Universidade Purdue — incluindo os três anos de
serviço militar — foi de setembro de 1947 a janeiro de 1955.
Esse período de sete anos e meio assistiu a uma nova e
surpreendente era de desenvolvimento aeronáutico global. Três
meses depois do voo histórico do X-1, a NACA pôs em atividade
o primeiro túnel de vento hipersônico (capaz de atingir Mach 7).
Alguns meses depois, logo no início do segundo semestre de
Armstrong em Purdue, uma equipe do Exército liderada pelo dr.
Wernher von Braun lançou de White Sands, Novo México, um
míssil V-2 que atingiu a altitude de 112 mil metros. O primeiro ano
completo de Armstrong em Purdue, 1948, testemunhou o
primeiro voo da aeronave XF-92 da Convair, com sua inovadora
asa-delta; o voo do primeiro piloto de testes civil, Herbert H.
Hoover (nenhum parentesco com o presidente dos Estados
Unidos), a atingir Mach 1; os primeiros voos de teste da aeronave
X-4 sem cauda; e a publicação de uma teoria aerodinâmica que
se provou essencial na resolução do problema de acoplamento
inercial de rolagem em altas velocidades.
Armstrong deixou Purdue e se alistou no serviço militar no
período em que estaria cursando o semestre da primavera de
1949. Durante esses meses, o Exército dos Estados Unidos
conseguiu cumprir os primeiros requisitos formais para a
instalação de um sistema terra-ar de mísseis antibalísticos; o
presidente Truman assinou um projeto que criava uma área de
testes para mísseis teleguiados de longo alcance, posteriormente estabelecida no Cabo Canaveral, Flórida; e um foguete russo de
estágio único com carga útil de 120 quilos de instrumentos voou
a uma altitude de 110 mil metros. Naquele verão, enquanto
Armstrong realizava voos de treinamento em Pensacola, um
foguete V-2 transportou um macaco vivo a uma altitude de 130
mil metros; as Forças Armadas americanas fizeram o primeiro
uso operacional de um traje parcialmente pressurizado durante
um voo pilotado a vinte mil metros de altitude; e o primeiro piloto
americano a usar um assento ejetável escapou de seu jato F2H-1
Banshee a uma velocidade de 930 quilômetros por hora.
Ao retornar a seu curso de engenharia aeronáutica em
setembro de 1952, Armstrong percebeu que o mundo da
aeronáutica estava se transformando no mundo “aeroespacial”.
Em 1950, foi realizado o lançamento do primeiro míssil do Cabo
Canaveral, em que um objeto feito pelo homem alcançou a maior
velocidade até então obtida, Mach 9. Em 1951, a Força Aérea
deu início a seu primeiro projeto de mísseis balísticos
intercontinentais (da sigla em inglês ICBM), precursor do
Programa Atlas, que pôs em órbita os primeiros astronautas. No
ano seguinte, uma centrífuga inaugurada no laboratório de
medicina da aviação da Marinha em Johnsville, Pensilvânia,
conseguiu imprimir a seres humanos uma aceleração de 40 g.
Nesse mesmo ano, o pesquisador H. Julian Allen, da NACA,
previu que o problema do superaquecimento de mísseis e
espaçonaves na reentrada na atmosfera podia ser evitado
achatando a forma de seu nariz pontiagudo. Não apenas a
Mercury, mas também a Gemini VIII e a Apollo 11 de Neil foram
construídas segundo o princípio do “corpo rombudo”. Durante o
primeiro ano de Neil na volta às aulas, em novembro de 1953, o
piloto de testes A. Scott Crossfield, da NACA, tornou-se a
primeira pessoa a voar a uma velocidade Mach 2 no avião-
foguete D-558-2 da Douglas. Quando Armstrong saiu de Purdue
com seu diploma, um ano depois, foi trabalhar para a NACA. Na
verdade, tornou-se piloto de testes da Estação de Voos de Alta
Velocidade (na sigla em inglês HSFS) da NACA na Califórnia,
onde chegou a pilotar a aeronave hipersônica experimental X-15
sete vezes.
Neil Armstrong achou-se mergulhado nesse novo mundo da
Era Espacial assim que deixou a faculdade, em janeiro de 1955.
* * *
No começo da década de 1940, menos de 25% dos americanos
completava o ensino médio, e menos de 5% entravam para a
faculdade. Em muitas comunidades rurais, a educação chegava
em média ao oitavo ano. Em 1944, com a aprovação de uma lei
que beneficiava os veteranos da Segunda Guerra Mundial, a
proporção de universitários começou a subir e chegou a 25% da
população no início da década de 1950.
Neil foi a segunda pessoa de sua família a frequentar uma
universidade, depois de seu tio-avô. A educação superior era um
precedente comum a muitos dos astronautas e engenheiros
ligados ao jovem programa espacial. Neil tinha sido aceito pelo
Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), mas preferiu
estudar na Universidade Purdue em West Lafayette, Indiana, a
350 quilômetros de Wapakoneta.
Armstrong tinha ouvido falar das bolsas de estudos de quatro
anos do Programa da Faculdade de Aviação Naval dos Estados
Unidos. O programa, conhecido como Plano Holloway, exigia um
compromisso de sete anos: dois de estudos em qualquer escola
reconhecida pela Marinha, seguidos por três de serviço, depois
dos quais o aluno concluía seus dois últimos anos de faculdade.
O exame médico registrou que Armstrong tinha 65 quilos e 1,76
metro de altura. Segundo os médicos, sua constituição geral e
sua aparência eram “atléticas”, sua postura, “boa”, e sua
compleição, “média”. Seus 88 batimentos cardíacos em repouso
e 116 depois do exercício mostraram pela primeira vez sua
tendência, frequentemente confirmada em seus anos como piloto
de testes e astronauta, a certa aceleração.
O prontuário médico registrava também vinte horas de voo
solo nos últimos doze meses. A 7 dólares a hora no ar,
Armstrong tinha gastado 140 dólares (cerca de 1.830 dólares em
2018) para voar. A corrida de táxi do aeroporto Lunken de Cincinnati até o local dos testes no centro custava 7 dólares, o
que lhe parecia “uma quantia astronômica, já que com 7 dólares
a hora eu podia pilotar um avião”.
Neil lembra-se do “grande júbilo ao saber que fora aceito e ter
meios de pagar a faculdade. Fora um acordo magnífico”.
Segundo a carta de inscrição de Neil na Marinha, datada de
14 de maio de 1947, sua média de 38 pontos equivalia a 592
pontos no Teste de Aptidão Acadêmica de Princeton (SAT), o que
provavelmente o situaria no quartil superior entre todos os alunos
que iriam para a faculdade.
Um mês antes de receber a boa notícia da Marinha, Neil foi
aceito na Universidade Purdue. “Eu não podia estar mais feliz
com o que estava fazendo, entrando na engenharia.”
O curso de engenharia aeronáutica da Purdue tinha um
enfoque mais prático e menos teórico em relação ao do MIT. No
primeiro semestre, os alunos da nova Escola de Aeronáutica
aprendiam a soldar, a aplicar tratamento térmico aos metais e a
fundir. Seis dias por semana, Neil tinha três horas de aula pela
manhã e três horas de laboratório à tarde.
Em vez de entrar para o corpo de treinamento de oficiais da
Marinha, Neil cumpriu as exigências militares tocando na banda
da universidade, que funcionava como banda militar. No primeiro
semestre, morou em uma pensão de Lafayette; depois disso,
alugou um quarto em uma casa perto do campus. A média
acumulada de Neil em seu primeiro ano foi de 4,65, equivalente a
um B-.
Uma rara carta reminiscente escrita por Armstrong já perto do
fim do segundo semestre detalha sua rotina na faculdade:
Tarde de domingo
Querida mãe e família,
Obrigado pela roupa lavada, cartas e biscoitos de escoteiras. Os outros caras
viram os biscoitos, e quando cheguei, ontem à noite, já haviam quase acabado.
Não se preocupem em conseguir para mim um trabalho no verão. Vou para o
curso de férias. É uma ordem. Tenho meu cronograma de aulas todo pronto:
Cálculo diferencial.
8–10 da manhã — de segunda a sexta
Física
10–12 da manhã — ” ” ” ”
Laboratório de física
1–3 da tarde — terça e quinta
Isso é tudo, mas é bastante coisa. Os dois laboratórios são as únicas aulas da
tarde e não há aula aos sábados. Vou conseguir ir para casa algumas vezes no
fim de semana. Embora as aulas não sejam muitas, terei bastante dever de casa.
Hoje fomos a Indianápolis para o primeiro concurso de aeromodelos. Meus
cabos de controle quebraram no primeiro voo oficial, e não tive chance de ganhar
nada.
Acho que ultimamente estou me saindo melhor nos estudos. Gosto de análise
matemática e sei um pouco da matéria de química que estamos estudando.
Vou mandar a roupa suja de novo e espero que vocês devolvam a manta de
Les. Ainda temos seis semanas de aula. (6) Não estarei livre até meados de
junho. Ontem à noite assisti ao melhor filme que vi nos últimos tempos. Chama-se
Ama-seca por Acaso, com Clifton Webb, Maureen O’Hara e Robert Young.
Recomendo-o especialmente a você e a papai. É uma comédia. O papel está
acabando, vou parar por aqui.
Beijos, Neil
No outono de 1948, Neil soube que começaria
antecipadamente o serviço militar, depois de três semestres
normais mais um período de curso de férias.
Quando foi para o treinamento de voos da Marinha em
fevereiro de 1949, depois de quatro semestres em Purdue, tinha
apenas dezoito anos e meio. Ao voltar à universidade, em
setembro de 1952, havia acabado de completar 22. “Eu estava
mesmo ficando velho”, conta ele, rindo. “Quando voltei à
universidade, os meninos pareciam tão jovens!”
Depois de uma experiência substancial em voos operacionais
e no manejo de jatos de alto desempenho, Armstrong achou que
“talvez houvesse um meio de combinar as duas coisas: projetar
aviões e pilotá-los”. Um estágio no verão de 1954 no Centro de
Testes Aeronavais do Patuxent River, Maryland, consolidou esse
objetivo. Em Purdue, Armstrong agora estava cursando
disciplinas de sua especialização, e em nenhuma disciplina de
engenharia teve nota menor que 5 (a máxima era 6). Ainda no
outono de 1953, Armstrong deu um curso de engenharia geral,
desenho de aeronaves e projeto de execução, disciplina em que
se destacara. Durante sua segunda estada em Purdue, a vida
social de Neil melhorou tanto quanto sua vida acadêmica. Ele
entrou para uma fraternidade, a Phi Delta Theta, e passou a
morar na casa da associação. Armstrong cantou no programa musical da Phi Delta em um show de variedades da escola. Na
primavera seguinte, tornou-se diretor musical da fraternidade.
Para o “Varsity Varieties” Neil escreveu e participou da direção de
dois musicais curtos, “Branca de Neve e os sete anões” e “A terra
de Egelloc” (“college”, faculdade, escrita ao contrário). A carreira
artística deve ter afetado suas notas: ele tirou diversos C e
abandonou introdução à física nuclear.
Sem dúvida, Janet Shearon, de dezoito anos, seu primeiro
amor, também distraiu Neil do trabalho acadêmico. Ele conheceu
Janet, que estudava economia doméstica, em uma festa dada
em conjunto pela fraternidade de Neil e pela sorority (irmandade
só para mulheres) de Janet. Falaram-se pela segunda vez em
uma manhã bem cedo em que ela se dirigia a um laboratório de
economia doméstica e ele estava entregando o jornal da escola.
Neil também dirigiu um caminhão de tomates para uma fábrica
local e no verão vendeu facas de porta em porta.
Como oficial da reserva da Marinha, ele tinha deveres
intermitentes a cumprir nos fins de semana e dividia um carro
com seus camaradas da Marinha que também estudavam em
Purdue para ir à Base Aeronaval de Glenview, Illinois, a norte de
Chicago, para pilotar jatos F9F-6. Em trajes civis, ele voava junto
de pilotos militares veteranos no Aeroclube de Purdue, dirigido
por ele durante o ano acadêmico de 1953–54. O aeroporto Aretz
de Lafayette hospedava os poucos aviõezinhos do aeroclube: um
Aeronca e um par de Pipers de dois e quatro lugares.
Em um fim de semana de 1954, Armstrong sofreu um pequeno
acidente depois de um encontro de aviadores em Ohio. Ele
pretendia pilotar um Aeronca do clube até Wapakoneta, mas um
pouso desastrado em uma lavoura local causou à aeronave
“danos suficientes para impedi-lo de voltar, então tirei as asas e
levei-a desmontada a West Lafayette no trailer de meu avô”.
Armstrong terminou seu último trabalho acadêmico no início de
janeiro de 1955. Ele não compareceu à cerimônia de formatura,
pois voltou a Wapakoneta a fim de se preparar para o trabalho na
NACA Lewis em Cleveland. A Universidade de Purdue enviou
seu diploma de bacharel em engenharia aeronáutica pelos
correios. Sua média final foi 4,8 em uma escala que chegava a 6, o que representa um desempenho respeitável em uma área
muito exigente que se estendeu por quase sete anos. Ao voltar
da Marinha, sua média era 5, o que equivalia a notas A ou B em
26 disciplinas de um total de 34.
Pelo resto da vida, a engenharia seria a principal identidade
profissional de Armstrong. Mesmo durante seu tempo de piloto
de testes e astronauta, Neil se considerava antes de tudo um
engenheiro aeronáutico, cuja ambição de escrever um livro
didático de engenharia o destacava de praticamente todos os
seus camaradas pilotos: “Sou e sempre serei um engenheiro
nerd, de meias brancas e protetor de bolso — nascido sob a
segunda lei da termodinâmica, ancorado em tabelas de
propriedades dos gases, apaixonado por diagramas de corpo
livre, transformado por Laplace, propelido por ar comprimido.
Como engenheiro, tenho imenso orgulho das realizações de
minha profissão.”
Seria, com efeito, a engenharia — mais que a ciência — o que
levaria ao pouso na Lua: e um engenheiro seria o primeiro a pôr
os pés em outro mundo.