O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 7: Sobre o deserto
CAPÍTULO 7
Sobre o deserto
Com o contrato com a Marinha expirado, Armstrong em teoria
poderia voltar à faculdade. No entanto, como o Esquadrão 51
ainda estava em combate, “minhas opções eram prolongar meu
tempo de serviço ou ir para casa, então escolhi a primeira”. Em
1o de fevereiro de 1952, quando se encontrava ainda a bordo do
Essex, a Marinha encerrou seu período normal de convocação e
o nomeou segundo-tenente da reserva.
De volta aos Estados Unidos com seus companheiros de
bordo em 25 de março de 1952, Neil passou os cinco meses
seguintes em terra, no sul da Califórnia, transportando aviões da
Estação Aeronaval de San Diego para o Esquadrão de
Transporte Aéreo 32 e vice-versa. Deixou a Marinha em 23 de
agosto de 1952, mês de seu 22o aniversário; durante seu último
voo sobre a área da baía de São Francisco, comemorou fazendo
uma manobra — não autorizada — em que passava com sua
aeronave sob o vão oeste da ponte São Francisco-Oakland, cuja
altura máxima era de 67 metros. Promovido a primeiro-tenente
em maio de 1953, continuou na reserva até sua dispensa, em
1960. De volta a Purdue, ele voava regularmente com o
Esquadrão 724 da Reserva Naval na Base Aeronaval de
Glenview, nas imediações de Chicago. Ao se tornar piloto de
testes da Comissão Nacional Consultiva da Aeronáutica na Base
Aérea Edwards, em Muroc Dry Lake, a nordeste de Los Angeles,
Neil faria seu voo de reserva com o VF-773 na Base Aeronaval
de Los Alamitos, perto de Long Beach.
Depois de se formar pela Purdue em janeiro de 1955,
Armstrong deparou-se com diversas opções de trabalho. Poderia,
inclusive, ficar na Marinha. Fez entrevistas de emprego na Trans World Airlines (TWA) e na Douglas Aircraft Company. Também
chegou a pensar em trabalhar com engenharia aeronáutica. Se
tivesse aceitado o emprego oferecido pela Douglas, Neil teria se
tornado piloto de testes de produção, avaliando cada nova
aeronave de um determinado modelo.
Neil de fato optou por se tornar piloto de testes, mas por
intermédio da recém-constituída Sociedade de Pilotos de Testes
Experimentais, que, em sua fundação, em 1955, havia se
comprometido a “colaborar no desenvolvimento de aeronaves
superiores”. Para ser exato, a vontade de Neil era se tornar
“piloto de pesquisa”, um tipo especial de piloto de testes
experimentais que emprega seus esforços para o progresso da
ciência e da tecnologia de voo em uma ampla frente. As
oportunidades de trabalho para esse profissional provêm,
principalmente, de organizações de pesquisa privadas ou do
governo federal, sobretudo da Comissão Nacional Consultiva da
Aeronáutica. Desde a infância, Armstrong acompanhava os
resultados das pesquisas da NACA pela revista Aviation Week e
outras publicações sobre aviação, e os relatórios da NACA
faziam parte da ementa de suas aulas de engenharia aeronáutica
em Purdue. No verão que precedeu seu último período na
faculdade, Armstrong apresentou suas credenciais à NACA, mais
especificamente à Estação de Voos de Alta Velocidade na Base
Aérea em Edwards, onde os aeroplanos X voavam em seu
ataque à mítica “barreira do som”. Como a base de Edwards não
tinha vaga, a NACA fez o currículo de Armstrong circular por
todos os seus centros de pesquisa. Irving Pinkel, engenheiro do
Laboratório Lewis de Propulsão de Voo, em Cleveland, Ohio,
perguntou “se ele podia vir conversar comigo”. Pinkel chefiava a
divisão de física do Lewis; seu irmão, Benjamin, era o
encarregado da divisão de pesquisas termodinâmicas. Em algum
momento do outono de 1954, Irving entrevistou Neil, alegando
não ter muito dinheiro a oferecer, mas prometendo-lhe toda a
emoção da pesquisa aeronáutica.
Armstrong aceitou o cargo no Laboratório Lewis. Não havia
problema ficar preso em Ohio por conta do trabalho, porque a
essa altura Neil pretendia se casar com a namorada dos tempos de faculdade, Janet Shearon, uma garota do Centro-Oeste que
trabalhava com economia doméstica no subúrbio de Chicago.
Designado a princípio para a Seção de Propulsão em Voo
Livre do laboratório, Armstrong ocupou o cargo de piloto de
pesquisa aeronáutica, sendo responsável por “pilotar aviões em
projetos de pesquisa e para transporte, além de trabalhar em
engenharia na seção de voo livre de mísseis”. Seu primeiro voo
de teste no Lewis ocorreu em 1o de março de 1955. Para fins de
serviço civil, a NACA classificou Armstrong como “cientista
pesquisador”. Contudo, como a maioria dos funcionários da
NACA, seu trabalho contribuía para a missão declarada da
organização: “O estudo científico dos problemas de voo, com o
propósito de obter soluções práticas.”
O chefe dos pilotos de testes do Lewis era William V. “Eb”
Gough Jr. Como Armstrong, Eb Gough se diplomara em
engenharia e fora aviador naval em combate contra os aviões
Zero dos japoneses na Segunda Guerra Mundial, alcançando a
patente de capitão-tenente. Ao fim da guerra, Gough tornou-se
piloto de testes da NACA. Mel Gough, irmão mais velho de Eb,
chefiava a Divisão Langley de Pesquisa de Voo da NACA desde
1943. O grupo da Langley formou alguns híbridos de piloto e
engenheiro talentosos, entre os quais John P. “Jack” Reeder,
Robert A. Champine, John M. Elliot, John Harper e James V.
Whitten. Neil chegaria a dizer que Reeder era “o melhor piloto de
testes que já conheci”.
Quando Armstrong entrou para a NACA, em fevereiro de
1955, a maior parte de seus pilotos de pesquisa eram
engenheiros formados. Contudo, a maioria dos voos de pesquisa
era realizada em Langley, na Estação de Voos de Alta
Velocidade, ou no Laboratório Aeronáutico Ames, ao norte da
Califórnia. No Lewis da NACA, Armstrong era um dos apenas
quatro pilotos de testes, acompanhado por Eb Gough, William
Swann e Joseph S. Algranti, futuro chefe da Divisão de
Operações Aéreas do Centro de Espaçonaves Tripuladas de
Houston.
Armstrong passou menos de cinco meses no Lewis,
pesquisando sistemas de anticongelamento para aeronaves. Trabalhou também em seu primeiro projeto ligado a voos
espaciais, estudando a transferência de calor em velocidades
Mach elevadas. Nos primeiros testes, vários modelos lançados
do ar desceram a velocidades que chegavam a Mach 1,8. Em 17
de março de 1953, um foguete T40 lançado do ar por um piloto
de testes do Lewis atingiu a velocidade hipersônica de Mach
5,18, marcando a primeira vez que “a NACA fez voar um veículo
instrumentalizado acima de Mach 5 com sucesso”. Em 6 de maio
de 1955, Algranti e Armstrong fizeram o 45o voo de teste dessa
série. Os pilotos conduziram o P-82 Twin Mustang da North
American sobre o oceano Atlântico para além da Estação de
Pesquisa de Aeronaves Não Tripuladas da ilha Wallops, na costa
leste da Virgínia. Preso à fuselagem inferior do P-82 havia um
modelo de foguete de combustível sólido chamado ERM-5. Com
uma forma balística convencional, nariz pontiagudo, corpo fino e
rabo de peixe, o ERM-5 era equipado com um motor-foguete T-
40RKT, desenvolvido pelo Laboratório de Propulsão a Jato de
Pasadena. Ao atingir a altitude indicada, Algranti lançou o
modelo. O ERM-5 atingiu a velocidade hipersônica de Mach 5,02
e uma aceleração média de 34 g.
Armstrong “analisou uma porção de dados; desenhou
componentes para versões avançadas dos foguetes, fez cálculos
e desenhos para eles”. A identidade do piloto de testes proativo
alimentada pela NACA — e por sua sucessora, a NASA — se
encaixava em Armstrong com perfeição. Neil sempre soube que,
embora seu emprego na NACA fosse o mais mal pago dos que
lhe apresentaram após a faculdade, “era o trabalho certo”.
“O único produto da NACA eram relatórios de pesquisa e
documentos de trabalho”, explicou Neil. “Então, quando alguma
coisa estava sendo preparada para publicação, era preciso
enfrentar uma verdadeira inquisição técnica e gramatical (…) O
sistema era preciso e exigente demais.”
O último voo de teste de Neil em Cleveland ocorreu em 30 de
junho de 1955. Mais ou menos uma semana antes disso, ele
tinha sido chamado por Abe Silverstein, vice-diretor do Lewis.
“Entrei no escritório dele”, lembra Armstrong, “e ele disse que
tinha recebido uma carta de Edwards e perguntou se eu ainda estava interessado em me transferir para lá.” Trabalhar em
Cleveland tinha sido interessante, mas Edwards era a terra dos
sonhos para um piloto de testes, o lugar onde fora quebrada a
barreira do som pela primeira vez, em outubro de 1947, e onde
os mais novos e revolucionários aviões — X-1A, X-1E, X-3, X-5,
Douglas D-558-2, YRF-84F, F-100A e YF-102 — eram pilotados
a velocidades acima de Mach 2.
No começo de julho de 1955, depois de uma rápida visita à
família em Wapakoneta, Armstrong partiu para o sul da
Califórnia. Havia comprado seu primeiro carro, um Oldsmobile
1952, igual ao do pai, por 2 mil dólares. Dean Armstrong tinha ido
à Califórnia depois que Neil voltou da Coreia. Os dois irmãos
fizeram uma viagem no Oldsmobile do México ao Canadá antes
de ir para casa. Uma nova travessia do país levou Neil ao novo
emprego em Edwards em julho de 1955. No caminho, Armstrong
pretendia fazer uma parada importante no Wisconsin para visitar
Janet Shearon.
* * *
Neil e Janet tinham se conhecido quando estudavam na
Universidade Purdue, no ano em que Neil voltou da Coreia. Ele,
aos 22 anos, estava no penúltimo ano; ela tinha dezoito e era
caloura. O que mais atraiu Neil em Janet foram seus modos e
sua postura, sua inteligência, sua beleza e sua personalidade
animada. Nascida em 23 de março de 1934, Janet Elizabeth
Shearon era filha do dr. Clarence Shearon e sua esposa, Louise.
O dr. Shearon era o chefe do centro cirúrgico no Hospital St.
Luke e dava aulas na escola de medicina da Universidade
Northwestern, em Evanston, no estado de Illinois.
A família Shearon morava em uma casa confortável de classe
média alta em um subúrbio abastado de Chicago. Curiosamente,
o dr. Shearon tinha o próprio avião, um Piper Cub, que ele
mesmo pilotava. Em novembro de 1945, quando Janet tinha onze
anos, seu pai morreu repentinamente, vítima de um ataque
cardíaco. Embora sua carreira de médico o mantivesse muito tempo longe de casa, Janet gostava muito dele. Às portas da
adolescência, a perda do pai foi arrasadora. Janet nem sempre
se entendia com a mãe, que era tão voluntariosa quanto a filha.
Dessa forma, o pai de Janet permaneceu em sua lembrança
como um herói, a única pessoa que reconhecia o seu valor,
inclusive seu talento como nadadora. Ao concluir o ensino médio,
em 1952, Janet foi para a Universidade Purdue e escolheu a
especialização em economia doméstica. Como parte de sua
atarefada vida universitária, Janet nadava no programa de
esportes da Purdue e entrou para a equipe de nado sincronizado.
Entrou também para a irmandade Alfa Qui Ômega, só para
garotas. Um dos melhores amigos de Janet na faculdade acabou
sendo o homem que viria a se tornar o último astronauta do
Programa Apollo a deixar a superfície da Lua, o comandante da
Apollo 17 Eugene Cernan. Gene e Janet se conheceram por
intermédio de William Smith, que foi companheiro de Cernan da
fraternidade Fi Gama Delta e tinha cursado o ensino médio com
Janet. Neil não conheceu Janet por Cernan ou pelo amigo da Fi
Gama Delta, mas o contrário.
Neil conheceu Janet durante um passeio pelo campus. Não
era muito sociável ou namorador: “Neil já me conhecia havia três
anos quando me chamou para sair”, lembra Janet. “Não seria tão
ruim se, depois que nos casamos, seu antigo companheiro de
quarto não tivesse me dito que Neil falava, desde que me viu
pela primeira vez, que eu seria a garota com quem ele iria se
casar. Neil não é desses que têm pressa para tudo.” Janet, por
sua vez, era dinâmica e segura. Segundo Dean, irmão de Neil,
que entrou para a Purdue em 1953 e a conheceu antes, Janet
era “tão pungente quanto raiz-forte. Ela olha no olho. Sua
linguagem corporal é drástica. Ela cruza os braços e pergunta ‘o
que você quer dizer com isso?!’”
Janet e Neil ficaram noivos em 1955, durante o penúltimo ano
dela em Purdue, quando Neil já estava formado e trabalhava em
Cleveland. O namoro foi incomum, já que na verdade não existiu.
Os prometidos eram praticamente estranhos um ao outro. “Na
realidade, nunca namoramos”, explicou Janet. “Minha filosofia
era ‘bem, terei muitos anos para conhecê-lo’. Ele era uma pessoa muito obstinada. Era bonito, tinha senso de humor e era divertido
estar com ele. Era mais velho. Tinha mais maturidade do que
muitos garotos com quem eu já tinha saído, e olhe que saí com
muitos garotos do campus.” Dean Armstrong recorda: “Quase caí
da cadeira quando soube que eles estavam noivos, porque não
tinha ideia de que a coisa era séria. Talvez os opostos se
atraiam.” Segundo Cernan, “Neil e Jan devem ter encontrado
alguma coisa em comum. Jan era uma garota de classe, e acho
que se sentiu atraída por alguém que não estava tentando
impressioná-la. Ela provavelmente teve que arrancar isso dele.”
O casamento aconteceu na Igreja Congregacional de
Wilmette, Illinois, em 28 de janeiro de 1956. Dean foi o padrinho,
e June, irmã de Neil, foi uma das damas de honra de Janet. Os
recém-casados passaram a lua de mel em Acapulco, México.
O casal alugou um apartamento em Westwood, para que
Janet pudesse concluir os estudos na UCLA. Neil voltou a seus
aposentos de solteiro na Base Norte em Edwards e ia para
Westwood nos fins de semana, uma viagem de trezentos
quilômetros ida e volta. Segundo Neil, “isso durou um semestre.
Depois nos mudamos para o Antelope Valley e alugamos uma
casa numa plantação de alfafa”. No fim de 1957, eles adquiriram
uma propriedade numa encosta em Juniper Hills, que continha
um pequeno chalé. A mudança fez com que Janet nunca se
formasse, algo de que ela sempre se arrependeu.
O chalé de 55 metros quadrados debruçado sobre o Antelope
Valley era rústico. Com piso de madeira crua, não tinha
dormitórios propriamente ditos, apenas um cômodo com quatro
beliches. O chalé tinha um banheiro minúsculo e uma pequena
cozinha, mas contava com um encanamento primitivo e não tinha
eletricidade. Mesmo depois que Neil terminou de instalar a
fiação, Janet cozinhava num fogareiro. Não havia água quente
nem banheira. Neil pendurou uma mangueira em um galho de
árvore para servir de chuveiro. Janet dava banho no pequeno
Ricky — nascido Eric Allen em 30 de junho de 1957 — do lado
de fora, em uma banheirinha de plástico. Bem aos poucos,
depois de muitos ajustes, o chalé ficou realmente habitável.
Apesar de tudo, a vida nas montanhas de San Gabriel era maravilhosa e proporcionava total relaxamento. Depois de Ricky,
veio Karen Anne, nascida em 13 de abril de 1959. O terceiro e
último filho do casal, Mark Stephen, nasceu em 8 de abril de
1963, depois que a família se mudou para Houston, no outono de
1962.
O trabalho de Neil em Edwards ficava, como disse Janet certa
vez, “a uns oitenta quilômetros, mas com apenas um semáforo
daqui até lá”. Neil ia para o trabalho com companheiros da
Estação de Voos de Alta Velocidade (HSFS, na sigla em inglês)
que moravam em cidades vizinhas. Ser piloto de testes fez dele
um dos piores motoristas do grupo. “Ele não era muito confiável”,
lembra Betty Scott Love, um dos “computadores humanos” da
Estação de Voos de Alta Velocidade, que, com outras mulheres
contratadas pela NACA, executava o tedioso trabalho
matemático de converter todos os dados dos voos em unidades
que fossem úteis do ponto de vista da engenharia (na HSFS,
Betty Scott Love desempenhava uma função análoga à de
calculistas como Katherine Johnson e outras mulheres que
trabalhavam no Centro de Pesquisa Langley da NACA/NASA,
cuja história — um grupo segregado de matemáticas negras na
instituição — foi contada no filme Estrelas Além do Tempo, de
2016).
Armstrong tinha uma interessante coleção de carros, alguns
dos quais usava para levar o grupo até o trabalho. Assim que se
mudou para a Califórnia, trocou o Oldsmobile 1952 por um novo
Hillman conversível, um modelo veloz importado da Europa. “Na
época, um dos caras da Estação de Voos de Alta Velocidade
tinha um Dodge 1947”, conta Neil. “Ele quebrou um eixo a
caminho do trabalho e me vendeu o carro ‘do jeito que estava’
por 50 dólares. Levei o carro para casa e reconstruí o motor.”
“Não sei se é mais certo dizer que Neil dirige como voa ou se
voa como dirige”, contou Betty Love. “Ele se sentava de pernas
cruzadas ao volante como se estivesse numa poltrona
confortável.” Certa vez, contemplando toda a matemática do nível
de neve nas montanhas de San Gabriel, Neil passou para a outra
pista na estrada e forçou um caminhão a se jogar numa vala. “O
motorista era um policial da Aeronáutica!”, disse Betty Love, rindo. “Neil lhe mostrou sua identidade, e o policial militar, em vez
de repreendê-lo, ofereceu seus cumprimentos, dizendo que podia
seguir viagem.” Em Edwards, o modo como Neil dirigia era quase
folclórico. No fim das contas, diz uma dessas histórias, “ninguém
queria andar com Neil”. Nem mesmo Janet ficava à vontade com
o marido ao volante. Pelo visto, dirigir um carro preso em duas
dimensões da Terra simplesmente não absorvia sua mente da
mesma forma que pilotar um avião.
Armstrong começou a trabalhar na Estação de Voos de Alta
Velocidade em 11 de julho de 1955. O nome formal de sua
função era “cientista de pesquisa aeronáutica (piloto)”. Com o
crescimento exponencial do poderio aéreo americano durante a
Segunda Guerra Mundial, o campo de pouso do Exército em
Muroc Dry Lake (“Muroc Field”) se expandiu e ganhou funções,
além de se tornar palco de grandes façanhas aeronáuticas
encabeçadas pela quebra da barreira do som do Bell X-1 em
1947. A recém-instituída Força Aérea Americana assumiu
naquele ano a operação que cabia anteriormente ao Exército,
mais tarde mudando seu nome para Base Aérea Edwards, em
homenagem ao capitão da Força Aérea Glen W. Edwards. Foi lá
que o primeiro caça supersônico entrou em serviço nas Forças
Armadas Americanas, o YF-100A, da North American, em maio
de 1953. Embora a Base Aérea Edwards e a Estação de Voos de
Alta Velocidade da NACA fossem entidades oficialmente
independentes, muita gente se referia às duas de maneira
coloquial como “Edwards”.
De início, a NACA tinha apenas 27 funcionários em sua
Unidade Muroc de Testes de Voo. Toda a sua operação estava
radicada em uma área restrita a alguns hectares na Base Sul.
Em 1951, o Congresso concedeu-lhe uma área adicional de
cinquenta hectares e 4 milhões de dólares. Com um novo espaço
de manobra e taxiamento, essas instalações de dois hangares,
inauguradas em junho de 1954, deram à HSFS acesso imediato
à enorme pista de 4,5 mil metros de comprimento e noventa
metros de largura, no lado oeste do leito seco do lago.
O chefe da HSFS, Walter C. Williams, chefiou a primeira leva
de pessoal da NACA de Langley para Pinecastle, Flórida, e de lá para Muroc, em 1946, para o voo do X-1. Ele conduziu a
operação de pesquisa da NACA sobre voo no deserto até sua
entrada no Grupo de Trabalho do Espaço, em setembro de 1959,
com objetivo de desenvolver operações de lançamento e
supervisionar a construção de uma rede mundial de
acompanhamento. Como um dos principais homens do Mercury,
Williams foi diretor das operações dos primeiros três voos do
projeto, realizados por Shepard, Grissom e Glenn entre 1961 e
1962. O setor de Armstrong fazia parte da Divisão de Operações
de Voo. O pessoal da HSFS chegava, ao todo, a 275 pessoas,
uma fração dos quase nove mil que trabalhavam na Base Aérea
Edwards.
A Divisão de Operações de Voo se reportava a Joseph R.
Vensel, antigo piloto de pesquisa. A autoridade de Vensel se
estendia à manutenção e inspeção de aeronaves e às operações
de engenharia. Tais operações requeriam profundos
conhecimentos de projeto de aeronaves, já que a pesquisa
sempre precisava de novas asas, caudas, acessórios ou de
outras alterações feitas na hora nas oficinas da NACA.
Adjacentes a seu escritório, ficavam as mesas de todos os seus
pilotos de testes.
Abaixo de Vensel estava o chefe direto de Neil, Joseph A.
Walker, líder do Setor de Voo e chefe dos pilotos de testes.
Formado em física em 1942, entrou para o Corpo Aéreo do
Exército e pilotou caças P-38 no norte da África durante a
Segunda Guerra Mundial, ganhando a Distinta Cruz de Voo e a
Medalha do Ar. Em março de 1945, Walker se tornou piloto de
testes da NACA em Cleveland, contribuindo para a pesquisa do
laboratório sobre congelamento de aeronaves. Foi para Edwards
em 1951, e sua promoção a chefe dos pilotos de testes ocorreu
poucos meses antes da chegada de Neil. Uma forte amizade se
firmaria entre os dois homens, bem como entre suas esposas.
Armstrong, aos 24 anos, era outra vez o piloto mais novo. Os
dez anos de experiência de Joe Walker como piloto de pesquisa
incluíam cerca de 250 voos em Edwards, dos quais bem mais de
cem em aeronaves experimentais, como o Bell X-1, o Douglas D-
558-1 e o D-558-2, o Douglas X-3 e o Northrop X-4. Walker realizara 78 voos de teste no Bell X-5, o primeiro avião com
geometria variável (swing wing) de alto desempenho.
Ainda mais experiente era o piloto de testes Scott Crossfield,
da HSFS. Foi Crossfield quem Armstrong chegou para substituir,
embora, de acordo com Armstrong, “estivemos lado a lado no
escritório durante quase um ano. Ele tinha anunciado que estava
indo servir como piloto no projeto X-15”. Aos 34 anos em 1955,
Crossfield já era uma lenda. Aviador naval, tinha se graduado em
engenharia aeronáutica pela Universidade de Washington, em
um dos programas aeronáuticos financiados pela Fundação
Guggenheim. Na NACA como piloto de pesquisa em Muroc
desde junho de 1950, Scott fez centenas de voos de pesquisa,
incluindo 87 no X-1 movido a foguete, e outros 65 no avião de
asas fixas D-558-1 movido a jato e no D-558-2 de geometria
variável e propulsão a foguete. Em novembro de 1953, Crossfield
tornou-se a primeira pessoa a voar a uma velocidade Mach 2 —
mais de 2.100 quilômetros por hora — no D-558-2 Skyrocket.
Os pilotos de testes da HSFS em julho de 1955 eram Stanley
P. Butchart e John B. McKay, ambos aviadores navais durante a
Segunda Guerra Mundial. Butchart serviu no VT-51, o mesmo
esquadrão de torpedeiros que o futuro presidente George H.
Bush integrou. Em 1950, Butchart e McKay se formaram em
engenharia aeronáutica, respectivamente pela Universidade de
Washington e pelo Instituto Politécnico da Virgínia. Butchart foi
para a HSFS como piloto de pesquisa em maio de 1951,
enquanto McKay assumiu a posição em julho de 1952. Ambos
tinham pilotado diferentes aeronaves, entre as quais o D-558 e o
X-5. Butchart se tornou o principal piloto de multimotores da
estação. Pilotou centenas de vezes um B-29 Superfortress a
mais de nove mil metros de altitude para lançar aeronaves de
pesquisa.
Stan Butchart conheceu Armstrong por meio de Eb Gough, em
março de 1955, na NACA em Langley. Neil ainda tinha sua velha
jaqueta de voo da Marinha, e Butchart pensou: Cara, esse
menino ainda nem terminou o ensino médio! Parece tão jovem!
Gough disse a Butchart que era em Edwards que Armstrong
queria estar de verdade. Ao ver o currículo de Armstrong, Butchart achou que “alguém tem de ficar com ele logo”. Walker e
Vensel concordaram e o destacaram para a área de Crossfield.
Armstrong começou a voar no primeiro dia em que chegou a
Edwards, em um P-51 Mustang, uma das aeronaves militares
mais representativas e queridas dos Estados Unidos. “É bem
elegante”, disse Armstrong. “Só que não tem o desempenho do
meu jato F8F Panther.”
“Fiquei em modo aprendizagem durante as primeiras
semanas”, contou Armstrong, voando quase todos os dias, tanto
no P-51 (com o nome de F-51) quanto no R4D da NACA, versão
militar do célebre Douglas DC-3 de transporte. “À medida que
ficavam mais confiantes em minha capacidade e eu ganhava
experiência, fui recebendo cada vez mais atribuições.”
Embora em condições de operar os lançamentos do D-558-2
Skyrocket e do X-1A, que acabaram sendo abortados, em 3 de
agosto Armstrong teve sua primeira experiência real de
lançamento com o F-51 no voo do D-558-2 de Crossfield para
investigação de estabilidade e cargas estruturais a velocidades
supersônicas. Naquele mesmo mês, Armstrong avaliou o caça a
jato YRF-84F, protótipo de geometria variável da Republic
Aviation (velocidade máxima de 1.078 km/h) e se tornou o
primeiro tripulante do B-29. Armstrong deu assistência ao
lançamento de um avião de pesquisa pela primeira vez em 24 de
agosto de 1955, mais uma vez com Crossfield pilotando o
Skyrocket.
“Em geral, a pessoa no assento da esquerda comandava o
lançamento”, explicou Neil. “Quem ficava no da direita executava
a maior parte do voo. Ao longo dos anos, devo ter voado o
mesmo número de vezes em cada uma dessas posições.” Sem
dúvida, eram voos desafiadores. “Normalmente exigíamos o
desempenho máximo, por causa do grande arraste provocado
pela aeronave de pesquisa presa à fuselagem inferior do B-29.
Também procurávamos subir o máximo possível para o
lançamento”, entre nove mil e 10,5 mil metros, o que levava uma
hora e meia ou mais. Depois disso, “era só questão de se pôr na
posição certa”.
Um lançamento no ar pode trazer riscos inesperados. Em 8 de
agosto de 1955, logo antes de Joe Walker ser lançado a bordo
do X-1A, uma explosão no motor do foguete sacudiu o B-29.
“Achei que tínhamos nos chocado com outro avião”, lembra o
piloto Stan Butchart, “só que naquela época não havia mais
ninguém lá em cima, a mais de seis mil metros de altitude!”
Assustado com a explosão, Walker imediatamente se esgueirou
para fora do X-1A e entrou no compartimento de bomba da nave-
mãe. O X-1A ficou danificado demais para entrar em operação, e
o B-29 não podia correr o risco de pousar com outra aeronave
ainda enganchada em sua fuselagem. Butchart não tinha
escolha: precisava descartar a nave de pesquisa no deserto. A
máquina explodiu com o impacto, pondo fim ao projeto X-1A.
Armstrong presenciou aquilo tudo. Butchart lembra:
“Armstrong estava voando do nosso lado no F-51. Assim, nós lhe
fizemos uma boa apresentação de como eram as coisas.”
Comprovou-se que a causa do acidente tinha sido uma simples
gaxeta de couro que vedava as junções dos canos de propelente.
Saturado de oxigênio líquido, o couro ficou tão instável que um
choque de qualquer magnitude faria a gaxeta explodir.
Infelizmente, houve diversos acidentes até que os engenheiros
identificassem e corrigissem o problema.
Oito meses depois de chegar a Edwards, Armstrong também
passou pela experiência de escapar por um fio, a mais grave de
sua vida. Em 22 de março de 1956, no voo do B-29 da NACA,
modificado e rebatizado de P2B-1S, Armstrong voava no assento
da direita acompanhado por Butchart no comando à esquerda,
além de outros cinco tripulantes. Sua tarefa seria levar um avião
de pesquisa D-558-2 a uma altitude de pouco mais de nove mil
metros e lançá-lo, para que o piloto de pesquisa Jack McKay, da
HSFS, pudesse efetuar um voo de análise de seu estabilizador
vertical.
Ao chegar a nove mil metros, um dos motores do B-29 parou
de funcionar. Butchart então passou o controle para Neil e se
virou para consultar o engenheiro de voo Joseph L. Tipton. Sem
energia, a hélice do motor número quatro girava apenas movida
pelo ar.
“Não fiquei muito preocupado com aquilo, de verdade”, lembra
Butchart. “Os motores do B-29 não são tão indispensáveis
individualmente.” No painel de controle, Butchart tinha quatro
botões de embandeiramento que poderiam interromper a rotação
de uma hélice ou reduzir sua velocidade em até três vezes. Ao
parar o motor mais a estibordo, ele esperava que a hélice
parasse também. Em vez disso, quando estava prestes a parar, a
hélice começou a girar novamente. Com Neil no comando, ela
passou a girar a toda a velocidade, ultrapassando a velocidade
de rotação das demais.
Armstrong e Butchart estavam diante de um dilema crítico:
“tentar reduzir a velocidade e torcer para manter a rotação da
hélice sob controle” ou “acelerar e nos livrarmos do avião-foguete
que estava embaixo de nós”.
Butchart pressionou o botão de embandeiramento mais duas
vezes sem resultado. Enquanto isso, McKay, lá embaixo na
cabine de comando do Skyrocket, gritou: “Ei, Butch, você não
pode me largar! A válvula do meu carregador Grover acabou de
quebrar.” No entanto, como a hélice rebelde podia se soltar a
qualquer momento, Butchart anunciou: “Jack, vou ter que largar
você!”
Butchart já tinha sinalizado a Armstrong que embicasse para
baixo o nariz do B-29. Se a velocidade de lançamento estivesse
abaixo de 340 quilômetros por hora, o Skyrocket entraria em
estol, não teria capacidade de voo e cairia. E a hélice fora de
controle girava ainda mais rápido, aumentando a probabilidade
de se soltar.
Butchart puxou a alavanca de lançamento de emergência,
mas nada aconteceu. Acionou duas ou três vezes. Nada. Então
alcançou os dois comutadores que armavam o dispositivo usado
para lançar bombas, que a NACA adaptou para lançar aviões de
pesquisa. O D-558-2 se separou abruptamente do B-29, e a
hélice do motor avariado se soltou.
As lâminas giravam em todas as direções, e uma delas rasgou
o interior do compartimento de bomba onde o piloto de testes
Jack McKay estivera sentado segundos antes, atingindo o motor
número dois no outro lado.
Fazer o B-29 descer para pousar não seria nada fácil. O motor
número três a estibordo ainda funcionava, mas suas condições
não eram mostradas pelos instrumentos. Os pilotos desligaram o
motor. O número um não fora danificado, mas precisou ser
desligado também por causa do torque que causava sem
qualquer motor a estibordo para compensar. Butchart e
Armstrong teriam que fazer o B-29 descer de nove mil metros de
altitude com um único motor.
Butchart tentou assumir o voo, mas seu manche estava frouxo
e caído. Ele olhou em volta e perguntou “Neil, você está no
controle?” e Neil respondeu: “Estou, um pouco.” Os dois pilotos
tinham o controle longitudinal e o do leme, mas Butchart não
podia controlar a arfagem nem a rolagem porque os cabos dos
ailerons estavam arruinados. Era impossível determinar quais
controles Armstrong ainda mantinha.
“Então fizemos uma lenta descida em círculo, tentando nunca
entrar em um ângulo de inclinação muito grande, e conseguimos
fazer um pouso direto no leito do lago”, lembrou Armstrong.
Segundo Butchart, durante a descida, “Neil ficou dizendo ‘Baixe o
trem de pouso!’, mas eu disse: ‘Espere um pouco. Preciso ter
certeza de que consigo descer naquele lago!’ Não havia meios
de virar, e eu não podia usar muita potência nem mesmo no
motor número dois, pois não era possível manter o leme
abaixado. E ambos estávamos dependendo do leme (…) Então a
descida foi bem tensa.”
Com sua postura reservada, sem alarde, Armstrong resumiu
assim a experiência: “Tivemos muita sorte. A coisa podia ter
ficado feia.”
McKay, no Skyrocket, também pousou em segurança.
* * *
Ao longo dos sete anos em que esteve em Edwards, Armstrong
foi piloto ou copiloto de aviões de lançamento em mais de cem
ocasiões. Lançou ou pilotou todo tipo de avião de pesquisa da
NACA/NASA existente em Edwards. Em praticamente todos os dias com condições adequadas, o jovem piloto de testes esteve
no ar. Desde que chegou a Edwards, em julho de 1955, até o
momento em que saiu para integrar o corpo de astronautas, no
fim de setembro de 1962, Armstrong fez mais de novecentos
voos, uma média de mais de dez por mês.
Os registros da Divisão de Operações de Voo indicam um
tempo total de aproximadamente 2.600 horas de voo, ou mais ou
menos quinze semanas e meia na cabine de comando de alguns
dos mais avançados e arriscados aviões experimentais de alto
desempenho do país. A maior parte de seus voos foi feita em
jatos. Mais de 350 foram nos famosos caças da série “Century”: o
F-100 Super Sabre da North American, o primeiro caça do
mundo capaz de manter velocidades supersônicas a uma mesma
altitude; o McDonnell F-101 Voodoo; o Convair F-102 Delta
Dagger; o Lockheed F-104 Starfighter; o Republic F-105
Thunderchief e o Convair F-106 Delta Dart.
Armstrong rompeu a barreira do som pela primeira vez em
outubro de 1955, em um voo de pesquisa do F-100A para estudo
da estabilidade longitudinal e de características de controle
envolvendo configurações diversas dos slots e aerofólios
auxiliares.
Em junho de 1956, ele começou a pilotar o F-102, agora
supersônico graças a Richard T. Whitcomb, especialista em
aerodinâmica da NACA que acabava de formular a “regra da
área”, pela qual o arrasto de uma asa e o do corpo de uma
aeronave deveriam ser considerados um sistema aerodinâmico
mutuamente interativo. “Pilotei o YF-102, que foi o F-102 da era
anterior à regra da área”, lembrou Armstrong. “Que porcaria de
avião!”, disse ele, “não era muito divertido pilotá-lo” e “acho que
nunca vai ser supersônico”. Reduzir a cintura de sua fuselagem
melhorou a velocidade do F-102 e seu desempenho geral, ainda
que com praticamente o mesmo empuxo. No entanto, por causa
do peso, seu arrasto era elevado. Nos F-102s da NACA,
Armstrong trabalhou “muito o pouso, porque nós, mais que
ninguém naquela época, estávamos pilotando os aviões-foguetes
e tínhamos que fazer pousos sem motor”. Armstrong fez pousos
sem motor com o F-102 e com o F-104.
Cerca de um terço dos mais de novecentos voos realizados
por Armstrong em Edwards foram realmente “de pesquisa”. Os
outros dois terços foram voos de familiarização, seguimento,
lançamentos aéreos ou transporte. Considerando o período de
1957 a 1958 como amostra representativa, vê-se que a maioria
dos voos de Armstrong foi a bordo do R4D/DC-3, seguido pelos
modelos F-100A, F-104, B-29, F-100C e B-47. Além do F-51
Mustang e dos já mencionados caças da série Century,
Armstrong pilotou o respeitado T-33, ou “T-Bird”, uma variante de
dois assentos do caça F-80 Shooting Star; o F-86E Sabre da
North American; o F4H Phantom da McDonnell’s; o Douglas F5D-
1 Skylancer; e o KC-135 Stratotanker da Boeing. Armstrong voou
a uma velocidade superior a Mach 2 no X-1B e no X-5 da Bell, e
a velocidade hipersônica no X-15 da North American. Também
pilotou um singular veículo experimental chamado Paresev.
Os voos de Armstrong duravam em média menos de uma
hora, sobretudo os voos de pesquisa. Em geral, os voos de mais
de duas horas não chegavam a dez por ano, e apenas quatro ou
cinco duravam mais de três horas. Muitos desses voos mais
longos eram realizados no R4D/DC-3 em missões de transporte
para outros laboratórios da NACA, fábricas de aeronaves ou
bases militares, ou para levar o B-29 a altitudes elevadas em
operações de lançamento no ar.
“Nossa principal atribuição era o trabalho de engenharia”,
explicou Armstrong. “Desenvolver o programa, detectando falhas
de voo. Foi uma época maravilhosa, e era um trabalho que trazia
muita satisfação, principalmente quando se encontrava a solução
para algum problema.”
Quase todas as pessoas que avaliaram Armstrong como
piloto, incluídos seus comandantes da Marinha, mencionavam a
relação entre sua técnica de pilotagem e sua bagagem e seus
talentos em engenharia. Seu colega Milt Thompson, do Centro de
Pesquisa de Voo, escreveu que Neil era “o mais capacitado
dentre os primeiros pilotos do X-15”. William H. Dana, que como
piloto de pesquisa participou dos mais importantes programas
aeronáuticos já realizados no futuro Centro de Pesquisa de Voo
Dryden da NASA, enfatiza que Armstrong era brilhante no entendimento da aeronave que pilotava: “Ele compreendia o que
contribuía para as condições de voo. Tinha uma mente que
absorvia as coisas como uma esponja e uma memória que o
fazia se lembrar dessas coisas como se estivessem em uma foto.
Era um ser além dos meros mortais.”
Por mais impressão que causasse nos pilotos-engenheiros, a
competência de Armstrong era ainda mais apreciada pelos
engenheiros aeronáuticos que não pilotavam. Em Edwards, Neil
trabalhou muitas vezes com Gene J. Matranga, que se formara
em 1954 em engenharia mecânica pela Universidade Estadual
da Louisiana. “Neil conhece muito de engenharia e dá de mil em
muitos pilotos de teste”, declarou Matranga. “Os outros caras que
voavam sabiam de maneira instintiva o que deviam fazer, mas
nem sempre sabiam por quê. Neil sabia.”
“Até se convencer de que alguma coisa viria a ser bem-
sucedida”, Armstrong mostrava uma “abertura para fazer as
coisas”, que na opinião de Matranga levava vantagem sobre uma
“forte relutância por parte de muitos pilotos” a confiar sua
autoridade a não pilotos. “Neil não tinha essa tendência.”
Por fim, não restavam dúvidas de que a experiência e o
talento de Armstrong como engenheiro serviram como uma luva
a sua carreira de aviador. Aqueles que o selecionaram em 1962
para astronauta de segunda classe certamente levaram em conta
sua qualificação como engenheiro.
Um reconhecimento significativo foi dado por Christopher C.
Kraft Jr., pesquisador de voo da NACA e um dos fundadores do
programa espacial americano: “Fui influenciado pelo fato de esse
cara ter sido piloto de testes da NACA. Ele estava acima da
capacidade de outros pilotos de teste em nosso radar porque
tinha passado pelo contato diário com engenheiros de voo, e eu
era um deles.”
Segundo Kraft, integrantes importantes do conselho de
seleção de astronautas, principalmente os veteranos da NACA
Robert R. Gilruth, Walter Williams e Dick Day, foram ainda mais
favoráveis a Armstrong. Williams e Day eram engenheiros que
estavam imersos na cultura da engenharia de pesquisa da NACA
e tinham chegado ao Centro de Aeronaves Tripuladas da NASA depois de vários anos de pesquisa de voo em Edwards, onde
conheceram e passaram a admirar o jovem Armstrong. “Neil
chegava ao máximo possível no que diz respeito à avaliação de
um homem por sua capacidade como piloto de testes.” Havia
uma única incerteza: será que Neil, pessoalmente, queria ser
astronauta?
Por que escolher se tornar astronauta se Armstrong já estava
profunda e criativamente imerso no maior e, pelos aspectos
técnicos, mais desafiador programa de voos já empreendido?
Duas das iniciativas — o X-15 e o Dyna-Soar — tinham como
objetivo não apenas realizar voos em veículos com asas e
tripulados a velocidades hipersônicas, mas levá-los a transpor a
atmosfera e voltar do espaço.