O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 33 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 25: Retorno à Terra

CAPÍTULO 25

 

Retorno à Terra

 

Neil sempre se preocupou mais com a descida final para o pouso

na Lua. “As incógnitas eram incontroláveis. Os sistemas, nesse

modo, só tinham sido testados na Terra e nunca no ambiente

real. Havia umas mil coisas com que se preocupar na descida

final. Era mais difícil para os sistemas, e era mais difícil para a

tripulação. Era a coisa que mais me preocupava, porque era

muito difícil. Andar pela superfície, em uma escala de um a dez,

avaliei como sendo um. A descida lunar nessa escala era

provavelmente treze.”

Em algum ponto entre esses dois níveis de dificuldade estava

a pilotagem do módulo lunar no estágio de ascensão para o

reencontro com Mike Collins. Aquele delicado trecho do voo,

embora talvez fosse classificado com cinco ou seis na escala de

dificuldade, era de mais de dez na escala de sucesso final da

missão. Se a ascensão para o acoplamento por qualquer motivo

não desse certo, tudo sobre o notável desempenho da Apollo 11

até aquele ponto, ou sobre o esforço exclusivo de quatrocentas

mil pessoas talentosas que se empenharam em levar a Apollo 11

à Lua, poderia ser considerado nada mais que uma tragédia. O

primeiro pouso na Lua teria acontecido, mas os astronautas que

o realizaram nunca voltariam para casa.

De volta ao interior da Eagle, já com a escotilha fechada,

Armstrong e Aldrin repressurizaram a cabine, retiraram seus

PLSSs e fizeram a leitura do painel de controle para saber as

condições de segurança do módulo lunar. Começaram a encher

um saco de lixo com equipamentos desnecessários que seriam

deixados na superfície lunar para reduzir o peso do módulo. Os

astronautas voltaram a se conectar ao sistema de controle ambiental do módulo lunar e tiraram os capacetes e visores para,

cansados e famintos, poderem comer.

Antes da refeição, usaram o que restava do filme. A

Hasselblad da atividade extraveicular foi intencionalmente

deixada de fora depois de retirados os rolos de filmes expostos.

Eles focalizaram a Hasselblad reserva através das aberturas,

tirando fotos da bandeira americana, do suporte da TV e da Terra

distante (as fotos intraveiculares da Hasselblad são diferentes

pela ausência do fundo reticulado). Buzz enfim arrumou tempo

para fazer duas fotos de Neil, mostrando o comandante, cansado

e aliviado, usando o que os astronautas chamavam de “boné do

Snoopy”, o boné preto e branco flexível com protetores de

espuma que pareciam as orelhas do cachorro do Peanuts. Neil

fez cinco fotos de Buzz.

Enquanto comiam, Slayton, entusiasmado, enviou os

parabéns:

 

04:18:00:02 Slayton: Só quero que saibam que, como vocês

atrasaram o cronograma em uma hora e meia, todos nós

estaremos de folga amanhã e vamos deixar vocês. Até

mais ver.

04:18:00:13 Armstrong: Eu não culpo você nem um pouco.

04:18:00:16 Slayton: É realmente um grande dia, pessoal. Adorei

de verdade.

04:18:00:23 Armstrong: Obrigado. Você não poderia ter gostado

mais do que nós.

04:18:00:26 Slayton: Câmbio.

 

Para realizar o descarte, os astronautas tiveram que

despressurizar a cabine mais uma vez, recolocando os

capacetes para poder abrir a escotilha. Era quase como outra

preparação para uma atividade extraveicular, embora levasse

menos de vinte minutos e não envolvesse nenhuma troca de

mangueira ou colocação dos PLSSs.

Em um ato que pode ser entendido como poluição lunar, eles

jogaram todo o lixo para fora. Primeiro foram os PLSSs. A água de resfriamento deles foi drenada para um saco plástico e

guardada. “Pudemos descer o bastante em nossos trajes

pressurizados para alcançar as mochilas com nossas luvas e

depois jogá-las em vez de chutá-las para fora como fizeram as

tripulações posteriores”, disse Neil. Pela TV, deu para ver as

mochilas caindo. O momento exato em que elas atingiram o solo

foi detectado na Terra graças ao experimento do sismômetro que

Buzz tinha instalado durante a atividade extraveicular. Neil jogou

fora os dois pares de botas cobertas de poeira, uma sacola cheia

de pacotes de comida vazios e a Hasselblad reserva, sem o filme

exposto. Descartou o rolo de hidróxido de lítio que ele e Buzz

haviam trocado.

Embora menos bagunçada, a cabine não ficou limpa. Era

incrível a quantidade de poeira que os homens tinham pegado

enquanto estavam na superfície. Quando voltaram à gravidade

zero, um pouco da poeira começou a flutuar no interior da cabine,

o que chegou a afetar a voz deles, por causa das partículas que

tinham inspirado. Neil lembra: “Sentimos um novo cheiro na

cabine que vinha sem dúvida de todo o material lunar acumulado

em nossas roupas. Lembro-me de comentar que sentíamos

cheiro de cinzas molhadas.”

Depois de responder a algumas perguntas do controle de

missão, Neil preparou-se para fazer uma pausa. Quando lhe

pediram uma descrição mais longa e detalhada da geologia que

tinham observado, ele disse: “Vamos deixar nossa resposta a

essa pergunta para amanhã, ok?”

Às 2h50 CDT, 21 de julho, o controle de missão finalmente

encerrou a comunicação e desejou aos homens uma boa noite

de sono. Na Columbia, Collins caiu em sono profundo pouco

depois de saber que os companheiros tinham voltado para o

módulo lunar em segurança. Armstrong e Aldrin estavam

acordados havia quase 22 horas. Mas se sentiam aliviados. “Há

sempre algum arrependimento por não ter feito mais, ou não ter

realizado tudo o que se queria, mas conseguimos fazer boa parte

das coisas. Há sempre a grande satisfação de resolver e realizar

coisas. Essa satisfação superou qualquer arrependimento. Além disso, pensávamos: ‘Mais algumas centenas de páginas de itens

do checklist que não precisamos mais lembrar.’”

Foi a única noite de sono deles no módulo lunar, e nem um

pouco agradável. Segundo Neil: “O espaço no chão só dava para

uma pessoa, mas sem poder se esticar, ficando apenas deitada

em uma posição entre a fetal e a esticada. Foi onde Buzz dormiu.

O outro lugar para descansar era a cobertura do motor, uma

mesa circular de uns 75 centímetros de diâmetro. Para apoiar

minhas pernas, penduramos uma de nossas cordas de cintura

como uma alça, que ficou presa a uma estrutura tubular que saía

da parte superior. Era uma boa estrutura para se pendurar uma

alça, então enfiei as pernas ali e mantive a parte central do corpo

na cobertura do motor. Isso me deixou com as pernas

suspensas. Atrás da cobertura, havia uma prateleira plana onde

eu meio que podia apoiar a cabeça. Foi uma operação

improvisada e não muito confortável.”

Nenhum dos dois dormiu bem. Para piorar o desconforto da

posição, eles precisaram dormir de capacete e luvas para

proteger os pulmões de toda a poeira que haviam trazido. E

havia também a temperatura. Apesar dos mais de 90ºC do lado

de fora do módulo lunar, dentro estava bem frio, uns 16ºC.

“Quando pusemos os protetores das janelas para que ficasse um

pouco mais escuro no interior”, explicou Armstrong, “a

temperatura caiu bastante na cabine”. Para atrapalhar o sono

deles havia também as luzes dos painéis de controle e o ruído de

uma bomba-d’água barulhenta. Com uma programação que

contemplava sete horas de sono, Neil talvez tenha dormido de

fato apenas umas duas. Enquanto lutava para dormir, o

comandante pensava na pergunta de geologia a que tinha

prometido responder. Não ficou muito preocupado com a falta de

descanso, que poderia afetar seu voo do módulo lunar no dia

seguinte. “O que era lamentavelmente óbvio é que eu não tinha

escolha. A programação era aquela, eu tinha de cumpri-la. Eu

tinha de fazer aquilo.” O obstáculo estava longe de ser o

primeiro. “Uma noite. A maioria das pessoas pode aguentar uma

noite de pouco sono — várias noites, na verdade”, disse a si

mesmo. “Em geral, eu tinha relaxado e dormido bem no módulo de comando. Mike dizia coisas como: ‘Essa parte do voo é fácil.

Todos os outros caras passaram por isso e não tiveram nenhum

problema. Portanto, relaxe e guarde as energias para quando

precisar ficar alerta.’ E levei aquilo a sério.”

Ron Evans, o comunicador com a cápsula no turno da noite,

ligou para acordar a tripulação do módulo lunar às 9h32 CDT. A

decolagem da Lua, após uma permanência total de 21 horas,

estava programada para pouco depois do meio-dia.

A maior parte desse tempo foi usada para conferir os

checklists na preparação para a ascensão, fazer observação de

estrelas, estabelecer o vetor de estado apropriado para a subida,

inserir códigos de computador e rastrear o módulo de comando

para uma última aferição do local de pouso preciso do módulo

lunar. A única mudança importante no checklist foi a

recomendação de Houston para que o radar de aproximação do

módulo lunar fosse desligado durante a ascensão. Conforme o

CapCom Evans disse à tripulação: “Achamos que isso vai dar

jeito na sobrecarga dos alarmes de programa que ficaram

disparando durante a descida.”

Os especialistas em ciência no solo também estavam

ansiosos para obter mais informações de Neil e Buzz a respeito

do que tinham observado na superfície lunar. Neil agora estava

pronto para contar a eles. “Eu mesmo estava empolgado com a

experiência, sentindo-me honrado e querendo compartilhá-la com

os caras que estavam interessados de verdade no que estava

acontecendo. Foi um dia muito emocionante para alguns deles;

eles trabalhavam havia muitos anos no que talvez viesse a ser

encontrado. De repente, tinham a chance de obter informações

reais. Era importante para eles.”

As observações de Armstrong naquela manhã impressionaram

a todos pela precisão e pela clareza. “Não me lembro de ter feito

anotações. Acho que estava tudo tão fresco na minha memória

que não foi difícil recriar o que eu tinha acabado de ver.”

 

* * *

“Houston, a base da Tranquilidade vai fazer alguns comentários

relacionados à questão da geologia da noite passada.

“Pousamos em um campo de crateras relativamente liso, com

crateras secundárias alongadas… [corrigindo-se] crateras

secundárias circulares, a maioria das quais tinham bordas

elevadas, independentemente do tamanho. Isso não é uma

verdade absoluta. Existem algumas crateras menores que não

possuem borda discernível. A massa do solo em toda a área é

algo entre uma areia muito fina e lodo. Eu diria que a coisa mais

parecida com isso na Terra é grafite em pó. Imersas nessa

massa de solo há uma grande variedade de formas, tamanhos e

texturas de rochas — redondas e angulares — muitas com

consistências variadas. Como já disse, vi o que parecia ser um

basalto e um basalto vesicular. Outras sem cristais, algumas com

pequenos fenocristais brancos, talvez de 1% a menos de 5%.

“E estamos em um campo de rochedos em que a maior parte

das rochas chega até uns setenta centímetros, algumas mais que

isso. Algumas das rochas encontram-se sobre a superfície,

outras estão parcialmente expostas e outras quase nada

expostas. Em nossa passagem — sobretudo usando o pegador

— deparamos com rochas abaixo da superfície; provavelmente

enterradas debaixo de vários centímetros da massa de solo.

“Suspeito de que esse campo de rochas possa ter origem

nessa grande cratera de borda pontiaguda e maciça, que

sobrevoamos na descida final. Ontem eu disse que tinha mais ou

menos o tamanho de um campo de futebol, e devo admitir que foi

um pouco difícil de calcular na descida. Mas quando passamos

por ela achei que poderia caber dentro do estádio Astrodome. E

as rochas próximas dessa cratera de borda maciça são muito

maiores do que estas dessa área. Algumas têm cerca de três

metros de diâmetro ou talvez mais e aparecem em grande

número a uma distância de até um diâmetro da cratera além da

borda. A partir dali, há alguma redução, e até mesmo nesta área

[em torno do módulo lunar], os blocos começam a aparecer em

fileiras e padrões irregulares, e há espaços entre eles com

indícios muito menores de rochas duras. Câmbio.”

* * *

 

Com a hora da contagem regressiva para a decolagem lunar

chegando, a forma de pensar de Neil era a de um típico piloto de

testes: pragmática e obstinada. “O motor de ascensão do módulo

lunar era uma câmara única. Os tanques, os carburantes e o

oxidante eram o que eram. Tínhamos vários meios de controlar o

circuito até as válvulas — abrindo o fluxo de carburantes para o

motor. Então essa era uma alternativa. Propus que colocássemos

apenas uma grande válvula manual ali para abrir as válvulas de

carburantes, em vez de — ou para além de — ficar com todo o

circuito eletrônico. Mas a direção achou que aquilo não estava

nos padrões de sofisticação da NASA. Então eu de fato conhecia

muito bem aquele circuito. Mas não era um problema sério,

porque se acionássemos o motor e ele não pegasse, ainda

teríamos tempo. Haveria muito tempo para analisar o problema e

descobrir o que mais poderíamos fazer. Os pilotos ficam

preocupados de verdade quando estão tanto sem opções quanto

sem tempo.

“A ascensão foi uma trajetória muito simples. Estávamos no

PNGS. Se tivéssemos tido um mau funcionamento no PNGS,

poderíamos ter passado para o AGS e entrado em uma órbita

segura — pelo menos naquele momento, achávamos que

podíamos. Como Houston poderia ajudar? Se o PNGS

apresentasse defeito, ou se surgissem dúvidas, certamente eles

lá embaixo teriam condições melhores do que nós de analisar o

problema. Estávamos em uma posição muito boa, no lado leste

da Lua e nos deslocando para oeste, então durante a fase de

ascensão passaríamos bem pelo centro da Lua e, de lá,

obteríamos dados muito bons vindos dos radares da Terra.

Talvez eles dissessem que precisávamos alternar para o AGS.

Mas, fora isso, não havia muito mais que pudessem fazer. Eles

estariam observando outras coisas também — problemas nos

sistemas, baterias, sistemas ambientais e vários outros aspectos.

Tenho certeza de que se vissem algo estranho, iriam querer

analisar, e teríamos de descobrir o que fazer. Mas a trajetória de

ascensão em si era bastante direta. Durante todo a aproximação, calculamos as diferentes mudanças de trajetória — as queimas

— que precisávamos realizar. Eles faziam a mesma coisa,

usando diferentes fontes de informação na Terra.”

Aos 05:04:04:51 de tempo decorrido de missão, Ron Evans

autorizou a decolagem. “Entendido”, respondeu Aldrin. “Somos

os primeiros na pista.” Cerca de dezessete minutos depois, às

12h37 CDT, chegava a hora daquele único e indispensável motor

ser acionado pela primeira vez. Juntamente com o pouso, não

houve momento mais tenso em toda a missão Apollo 11 —

correção: na história de todo o programa espacial tripulado dos

Estados Unidos.

Na CBS, Cronkite disse a Schirra: “Acho que não ficamos tão

nervosos desde os primórdios da Mercury.” A mãe e a mulher de

Neil sentiam o mesmo medo.

 

05:04:21:54 Aldrin: Nove, oito, sete, seis, cinco, Estágio Abortar,

Acionar Motor, Ascensão, Em frente.

05:04:22:00 OCORRE O LANÇAMENTO

05:04:22:07 Aldrin: [Estática] [Truncado] sombra. Beleza.

 

Em sua autobiografia, Buzz narra a decolagem com

eloquência: “O estágio de ascensão do módulo lunar separou-se

do estágio de descida com seu corpo volumoso e as pernas

finas, soltando uma chuva de partículas brilhantes que haviam

sido arrancadas do motor de ascensão durante a subida.”

 

05:04:22:09 Aldrin: Oito, onze metros por segundo subindo.

Preparar para a inclinação.

05:04:22:14 Armstrong: Inclinação.

 

De novo, Buzz: “Não havia tempo para turismo. Eu estava

totalmente concentrado nos computadores, e Neil estudava o

indicador de atitude, mas olhei para cima tempo o suficiente para

ver a bandeira americana cair. Segundos após a decolagem, o

módulo lunar avançou com uma inclinação de cerca de 45 graus,

e, embora tivéssemos antecipado que seria uma manobra abrupta e talvez até assustadora, as correias e molas que nos

prendiam no módulo lunar amorteceram tanto a inclinação e a

aceleração foi tão boa que passou quase despercebida.”

 

05:04:22:15 Aldrin: Bem suave. Equilibrar par, desligado. Passeio

bem tranquilo. Lá está aquela cratera lá embaixo.

05:04:23:04 Evans: Um minuto e você parece bem.

05:04:23:10 Aldrin: Câmbio. [Pausa] Um passeio bem tranquilo,

só um pouquinho de tranco para a frente e para trás. Sem

muita atividade dos propulsores.

05:04:23:31 Evans: Câmbio. Maravilha.

05:04:23:37 Aldrin: Duzentos e treze [metros por segundo de

velocidade horizontal], 45 [metros por segundo de

velocidade vertical] subindo. Beleza. Dois mil setecentos e

quarenta cinco metros [altitude]. AGS concorda [com

PNGS] em trinta centímetros por segundo.

05:04:23:59 Evans: Eagle, Houston. Vocês parecem bem aos

dois [minutos]…

05:04:24:06 Aldrin: Agora 305. Cinquenta e dois subindo. Beleza.

Quatro mil e trezentos. E trinta centímetros por segundo de

novo (…)

 

A mãe de Neil não foi a única a chorar quando ouviu Cronkite

exclamar. “Nossa! As palavras deles ‘beleza’ (…) ‘muito suave’

(…) ‘passeio muito tranquilo’. Armstrong e Aldrin, pouco menos

de 24 horas na superfície da Lua, em seu caminho de volta agora

para a aproximação com Mike Collins na órbita da Lua.”

Nos seis meses anteriores, o “terror secreto” de Mike Collins

tinha sido a possibilidade de ter de deixar seus companheiros na

Lua e retornar à Terra sozinho. “A Columbia não tem trem de

pouso; não posso ajudá-los se eles não conseguirem decolar da

superfície, ou se caírem de volta.” Se uma dessas tragédias

acontecesse, Mike voltaria para casa, mas sabendo que seria um

homem marcado para o resto da vida. “Melhor seria não ter essa

opção”, ele às vezes pensava.

O estágio de ascensão precisava ficar acionado durante pouco

mais de sete minutos para atingir a altitude e a velocidade

necessárias para alcançar a órbita. No módulo de comando,

Collins acompanhou o progresso deles com muita atenção. Mais

do que qualquer um, ele conhecia a precariedade do “dia da

aproximação”. Desde a hora em que acordou, naquela manhã,

houve uma “infinidade de coisas para me manter ocupado”, entre

elas cerca de 850 toques no teclado, “850 chances de eu

estragar tudo”. Se tudo corresse bem com a Eagle, ele serviria

simplesmente “como um dedicado operador do acampamento-

base e deixaria que eles me encontrassem em meu círculo

constante. Mas se… se… se qualquer uma dentre mil coisas der

errado com a Eagle, eu serei o caçador e não o caçado”. No

momento da decolagem do módulo lunar, Mike parecia “uma

noiva nervosa”. Ele voava havia dezessete anos, já tinha dado a

volta à Terra 44 vezes com a Gemini X, mas “nunca tinha ficado

tão nervoso em um voo” como estava em relação ao módulo

lunar.

Quando a Eagle subiu ao seu encontro, Collins sabia: “Um

breve soluço e eles são homens mortos. Prendo a respiração

durante os sete minutos que eles levam para entrar em órbita.”

Veterano da Gemini, ele estava “mortalmente consciente de

como, de uma hora para outra, a aproximação poderia dar

errado. Um giroscópio inclinado, um computador teimoso, o erro

de um piloto — ah, esse último caso era o que mais me

incomodava. Se Neil e Buzz subissem desequilibrados, entrando

em uma órbita torta, será que eu teria combustível e habilidade

suficientes para pegá-los?” Ao seu lado, no módulo de comando,

havia um caderno com instruções para dezoito possibilidades do

que ele poderia tentar a fim de interceptar o módulo lunar se este

não conseguisse alcançá-lo por si.

No controle da Eagle, Armstrong usou não apenas o

treinamento que teve no Programa Apollo, mas também sua

experiência com a Gemini para voar até o ponto de aproximação

adequado. Em termos do que ele precisava fazer e da atividade

exigida dos propulsores, pilotar o módulo lunar para sua

aproximação com a Columbia era semelhante ao que ele tinha feito com a Gemini VIII: as mesmas estratégia e técnicas, as

mesmas mudanças de velocidade. “Essa foi uma das principais

razões pelas quais nos sentimos à vontade na situação.”

A ascensão foi muito diferente do pouso. Durante grande parte

da descida, a cabine do módulo lunar ficou voltada para cima; a

tripulação não conseguia ver a superfície da Lua. Agora, estavam

olhando diretamente para ela. “É, estávamos olhando para ela

agora de muito perto, subíamos virados para baixo, podendo

olhar as coisas bem de perto. A ascensão tinha uma

característica diferente de qualquer outra parte do voo. Os

foguetes de controle de atitude estavam sendo usados para

posicionar o módulo lunar na atitude adequada. Normalmente,

para uma arfagem ascendente — inclinar o nariz para cima —

era preciso acionar os foguetes frontais apontados para cima e

os foguetes traseiros apontados para baixo, para que o veículo

fosse impulsionado em uma ascendente. Mas, na fase de

ascensão, qualquer foguete acionado apontado para a frente na

verdade reduziria a velocidade e atuaria contra a ação do motor

de ascensão principal. Por isso, os foguetes frontais foram

desativados para o motor de ascensão. Para direcionar o veículo,

usamos apenas a metade dos foguetes — apenas os que

apontavam para baixo. Em decorrência disso, uma vez que o

centro de gravidade nunca estava exatamente no centro, esses

foguetes, quando acionados, moveriam o veículo para cima.

Depois seriam desligados, porque o centro de gravidade estava

deslocado, e seríamos empurrados para o outro lado. Então

entrariam em ação de novo. A coisa toda era como uma cadeira

de balanço subindo e descendo ao longo de toda a trajetória de

ascensão.

“Foi um caso diferente da Gemini. Tínhamos tentado

implementar a experiência desse movimento no simulador do

módulo lunar, mas, como se tratava de um objeto estático, não se

tinha nenhuma percepção do movimento de balanço. Essa foi

uma característica bastante incomum. Não me lembro de

tripulações anteriores que tenham relatado o acionamento do

motor de ascensão na Apollo 9 ou 10. Se relataram, eu, por

algum motivo, não lhes dei atenção.”

Como era típico de Neil quando pilotava, ele falou pouco

durante a ascensão. Voando na direção oeste sobre os mesmos

pontos de referência que tinham tentado identificar quando

desceram, Neil comentou: “Estamos passando bem em cima da

‘Autoestrada Americana 1’.” O segundo e último comentário foi:

“É um passeio espetacular.”

À uma hora da tarde, horário de Houston, 21 de julho, um

funcionário de relações públicas da NASA informou que a Eagle

alcançara a órbita lunar, com um apolúnio de 87,4 quilômetros e

um perilúnio de 14,6 quilômetros. Sair dessa órbita mais baixa

que a da Columbia para o acoplamento com ela levaria mais

quase três horas. Neil, Buzz e Mike estariam ocupados com uma

longa e detalhada série de procedimentos de aproximação,

manobras de navegação e verificações de segurança. “Três

horas podem parecer muito tempo”, observa Buzz, “mas

estávamos atarefados demais para perceber”. Mike lembra que

tinha as mãos muito ocupadas com “manipulações misteriosas,

quase de magia negra” indicadas em seu caderno cheio de

procedimentos para a aproximação.

A Eagle precisava realizar três manobras distintas para

alcançar a Columbia. A primeira, às 13h53 CDT, ocorreu do lado

de trás da Lua. Ao acionar os motores do sistema de controle de

reação (da sigla em inglês RCS, reaction control system) do

módulo lunar, Armstrong levou a espaçonave a uma órbita mais

alta que ficava apenas 24 quilômetros abaixo da órbita do módulo

de comando. Uma hora depois, uma segunda queima colocou o

módulo lunar ainda mais alinhado com seu alvo, reduzindo as

variações de altitude à medida que se aproximava do módulo de

comando e serviço.

Collins lembra a subida deles ao longo do percurso que

faltava. “O módulo lunar está 24 quilômetros abaixo de mim

agora, e uns 64 quilômetros atrás. Está se aproximando a uma

velocidade conveniente de 37 metros por segundo. Eles estão

me observando pelo radar deles, e eu os observo com meu

sextante. Exatamente nesse momento, quando estou sobre eles,

27 graus acima do horizonte, eles se movimentam, dando

impulso na minha direção. ‘Estamos em queima’, avisa Neil, e lhe dou os parabéns: ‘Boa, garoto!’ Estamos em rota de colisão

agora; nossas trajetórias devem se cruzar em 130 graus

percorridos da viagem orbital (em outras palavras, um pouco

mais de um terço do caminho em nossa próxima órbita). Acabei

de passar ‘sobre a colina’, e, na próxima vez que a Terra

aparecer para mim, devo estar estacionado ao lado do módulo

lunar. Quando sairmos do lado de trás da Lua para a luz do Sol, o

módulo lunar vai deixar de ser uma luz piscante no meu sextante

para tornar-se um inseto visível, deslizando, dourado e preto,

cruzando os campos de crateras lá embaixo.”

Tão perto e ainda tão longe, os “estranhos amistosos”

brincavam pelo rádio sobre a maneira de se reencontrarem:

 

05:07:22:11 Collins: Bem, vejo que você não tem nenhum trem

de pouso.

05:07:22:15 Armstrong: Isso é bom (…) Você não está em dúvida

sobre em qual extremidade acoplar, está?

 

Seguindo com a aproximação, até mesmo a conversa entre

Neil e Buzz ficou mais leve:

 

05:07:25:31 Armstrong: Um desses dois pontos brilhantes tem de

ser Mike.

05:07:25:36 Aldrin: Que tal escolher o mais próximo?

05:07:25:44 Armstrong: Boa ideia.

 

Para Neil, a imagem do módulo de comando passando tão

perto acima de sua cabeça trouxe de volta lembranças de seus

dias como piloto de caça:

 

05:07:28:23 Armstrong: Parece que você está fazendo uma

manobra de ataque por cima de nós, Michael.

 

Buzz teve sua primeira boa visão da Columbia:

05:07:32:25 Aldrin: Ok. Vejo a forma do seu veículo agora, Mike.

05:07:32:42 Armstrong: Ah, sim… Estou com a sua [antena] de

alto ganho à vista. Sua luz de rastreamento (…) aparece

todo o veículo. Estou vendo que você está apontado para

mim. Agora está virando um pouco. Ótimo.

05:07:33:49 Collins: Você já está queimando?

05:07:33:50 Armstrong: Estamos queimando.

 

“Agora só falta”, lembra Collins, “eles frearem até a parada

usando a relação correta de alcance versus velocidade de

alcance (…) Enquanto fazem isso, devem certificar-se de que

estão no percurso de aproximação determinado, não se

deslocando nem para a esquerda nem para a direita, nem para

cima nem para baixo (…) O sextante é inútil a essa proximidade,

então encerro as atividades na baía de equipamentos inferior,

passo para o assento esquerdo e giro a Columbia para que fique

de frente para o módulo lunar.”

Quando olhou através da retícula de acoplamento, Mike ficou

maravilhado com a aproximação firme e centralizada do módulo

lunar enquanto Neil e Buzz o traziam para casa:

 

05:07:43:43 Collins: Eu tenho um quilômetro, e tenho vocês a

nove metros e meio por segundo. Parece bom…

05:07:44:15 Aldrin: Sim, sim. Estamos indo bem, Mike. Estamos

freando…

05:07:46:13 Armstrong: Ok, estamos a cerca de três metros e

meio por segundo chegando a você.

05:07:46:43 Collins: Isso é bom…

 

O módulo lunar tornava-se cada vez maior na janela de

Collins, e foi difícil para ele conter o sentimento de júbilo. “Pela

primeira vez desde que eu tinha sido designado para este voo

incrível, seis meses antes, pela primeira vez senti que realmente

ia acontecer.” Dentro da Eagle, no entanto, o comandante e o

piloto do módulo lunar estavam nervosos, concentrados no que

ainda tinha de ser feito — e no que ainda poderia dar errado. 5:07:47:05 Aldrin: Espero que não tenhamos de fazer uma

arfagem na descida.

05:07:47:16 Armstrong: Temos de fazer uma arfagem e depois

uma guinada (…) Está voando bem (…) Ok, se eu inclinar,

ficarei olhando direto para o Sol.

05:07:50:09 Aldrin: Espero que você saiba fazer a rolagem.

05:07:50:11 Armstrong: Sei, sim.

05:07:50:23 Aldrin: Você quer acabar posicionando aquela janela

de frente para a janela direita dele, por isso não quer girar

para a direita. Certo?

05:07:50:32 Armstrong: Isso.

05:07:50:34 Aldrin: O único problema é que está na direção —

direção de noventa [graus de giro], não é? Você poderia

(…) Você (…)

05:07:50:58 Armstrong: Se eu girar 120 — vai girar para a

esquerda.

05:07:51:06 Aldrin: Noventa, hã? (…) Sessenta?

05:07:51:21 Armstrong: Bem, por que não começo a rolagem?

(…)

05:07:51:24 Aldrin: Sim, acho que se você girar sessenta para

cima (…)

05:07:51:29 Armstrong: Estarei olhando para a janela esquerda

dele quando eu inclinar para cima.

05:07:51:32 Aldrin: Acho que não. Se você girasse bem agora

você…

 

Com o módulo lunar a apenas quinze metros de distância, a

aproximação estava tecnicamente concluída. Depois que Neil

girou o módulo lunar, o drogue da Eagle ficou voltado

diretamente para a porta de acoplamento da Columbia. Collins

não conteve a emoção quando ganhou uma vista deslumbrante

do “nascer” da Terra:

 

05:07:51:36 Collins: Peguei a Terra já nascendo. É fantástico!

Houston interrompeu nesse momento crucial para saber o que

estava acontecendo:

 

05:07:52:00 Evans: Eagle e Columbia, Houston. Aguardando.

05:07:52:05 Armstrong: Câmbio. Estamos mantendo as

estações.

 

A resposta lacônica e o tom abrupto de Neil deixaram claro

que a intervenção era indesejada e quase intolerável.

 

05:07:52:24 Aldrin: Incline para cima (…) Deixe passar um

pouco. Você tem uma visão melhor (…) Lado inferior (…)

Mova para trás.

05:07:52:45 Collins: Isso mesmo.

05:07:53:08 Armstrong: Ok, Estou quase chegando à atitude

correta, acho (…)

05:07:53:18 Aldrin: Sim.

05:07:53:21 Armstrong: Essa rolagem está bem longe. Só não

sei quanto (…) Então aí (…) Ah, vai BLOQUEAR!

 

Embora o alinhamento entre a Eagle e a Columbia parecesse

bom, durante o acoplamento dos veículos eles experimentaram o

fenômeno potencialmente indesejável conhecido como trava

gimbal. Para simplificar, dois dos três gimbals pivotantes

localizados entre a plataforma inercial do sistema de orientação

do módulo lunar e a própria espaçonave se alinharam sem

querer e por alguns instantes não puderam se mover, resultando

na perda da estabilidade da plataforma e no acionamento de

alguns jatos de atitude. Armstrong lembra como isso aconteceu:

“A técnica do acoplamento consistia em deixar o módulo lunar se

estabilizar nas proximidades do módulo de comando e manobrar

até um ponto em que o módulo de comando pudesse prosseguir

com o acoplamento. Em seguida, Mike faria o movimento real do

módulo de comando para ativar o mecanismo de acoplamento.

De certa forma, é semelhante ao modo como a espaçonave

Gemini tinha se acoplado à Agena, porque a posição de Mike no módulo de comando era exatamente como a posição do

comandante da Gemini. Ele estava olhando pela janela da frente

e pela retícula de acoplamento, um dispositivo que o ajudou a se

certificar de que os veículos estivessem alinhados de modo

correto. Nós, por outro lado, olhávamos para cima. A escotilha de

acoplamento estava no teto do módulo lunar, então estávamos

olhando para cima através de uma pequena janela plana no teto.

“No intuito de tentar alcançar a melhor atitude para o módulo

lunar, de modo que Mike pudesse fazer um acoplamento fácil, eu

estava olhando pela janela superior e fazendo as correções de

atitude em relação ao módulo de comando. Infelizmente, deixei

de olhar para o indicador de atitude, que teria me informado que

a trava gimbal estava para acontecer. No processo de voar

usando a janela superior, fui direto para a trava gimbal.

“Agora, a consequência disso não foi tão ruim, principalmente

porque estávamos terminando de usar o módulo lunar àquela

altura. Já não ficaríamos nele, íamos deixá-lo para trás. Havia

alternativas para estabilizar o sistema e estávamos mais ou

menos no lugar certo para que Mike concluísse o acoplamento.

“Não é uma coisa que se faça intencionalmente. Mas não

tivemos movimentos importantes ou [trancos] decorrentes disso.”

Talvez porque Collins estivesse controlando o acoplamento

por seu lado, e talvez por ter esperado tanto tempo, sozinho,

para dominar essa manobra final crítica, sua reação à trava

gimbal foi mais extrema. Assim que as duas espaçonaves

ficaram engatadas pelas pequenas travas de captura, ele

acionou um interruptor que disparou uma garrafa de nitrogênio

para unir os dois veículos. Assim que fez isso, ele teve o que

mais tarde chamou de “a surpresa da minha vida”: “Em vez de

um pequeno e dócil módulo lunar, de repente me vejo preso a

uma criatura rodando descontrolada, como se tentasse escapar.”

O que aconteceu foi que o módulo lunar deu uma guinada para a

direita, provocando um desalinhamento de cerca de quinze

graus. Trabalhando com a mão direita para girar a Columbia, não

havia nada que ele pudesse fazer para interromper o ciclo de

retração automática que puxaria a Eagle para um abraço

apertado. “Tudo o que eu podia esperar é que não houvesse danos nos equipamentos, de modo que se aquela retração

falhasse, eu pudesse liberar o módulo lunar e tentar outra vez.”

Lutando com seu controlador, os dois veículos giraram de

volta para o alinhamento correto. O acoplamento foi encerrado.

Mais tarde, quando Neil e Buzz entraram no módulo de comando,

Mike procurou explicar. “Essa foi boa. Sabe, não senti o choque e

achei que as coisas estavam bem estáveis. Eu ia fazer a

retração, e foi aí que o inferno começou.” Armstrong deu a Mike a

própria explicação: “Parece que aconteceu na hora em que dei o

empuxo para a frente, e ele não devia estar centralizado, porque

de alguma forma saí sem querer da atitude e, em seguida, o

sistema de manutenção de atitude foi acionado.” “Tive bastante

trabalho por alguns segundos”, declarou Mike.

Eram 16h38 CDT. Levou bem mais que uma hora para que

Armstrong e Aldrin desabilitassem os sistemas especificados do

módulo lunar (alguns permaneceram ligados), apanhassem e

guardassem os objetos que flutuavam e configurassem a Eagle

para o descarte final.

Às 17h20, Collins abriu o mecanismo da escotilha do seu lado,

e Neil e Buzz, ainda muito empoeirados, subiram, desceram e

entraram na cabine da Columbia. “O primeiro a entrar foi Buzz,

com um grande sorriso no rosto”, contou Collins. “Segurei a

cabeça dele, uma mão em cada têmpora, e estava prestes a lhe

dar um beijo na testa, como um pai que encontra a criança que

se perdeu; mas depois, sem graça, pensei melhor, agarrei a mão

dele e depois a de Neil. Vibramos um pouco, todos sorrindo,

comemorando o sucesso. Depois voltamos ao trabalho como de

costume, enquanto Neil e Buzz preparavam o módulo lunar para

a jornada final.”

Na CBS, Cronkite concluiu as históricas 32 horas com as

seguintes palavras:

 

O homem enfim visitou a Lua depois de uma longa espera. Dois americanos com

os nomes em aliteração, Armstrong e Aldrin, passaram quase um dia terrestre

inteiro na Lua. Eles escolheram e colheram amostras, instalaram experimentos lá

e empacotaram coisas para trazer para casa.

Acima dos homens na Lua, satélite sobre satélite, orbitava o terceiro membro

da equipe da Apollo, Michael Collins. Sua missão amarga e doce era orientar e

tomar conta do módulo de comando e serviço, cujos sistemas de energia e de

orientação eram os únicos meios de voltarem para casa (…)

Com este voo, o homem de fato começou a se afastar da Terra. Mas com este

voo, surgem alguns novos desafios para a humanidade. Um desafio ainda a ser

determinado é se com a ida à Lua transformamos nossa amiga de séculos no céu

em uma inimiga que invadimos, conquistamos, exploramos e talvez um dia

abandonamos mais uma vez como um globo desolado. Ou se tiraremos o máximo

proveito dela, talvez como um caminho para além das estrelas. A Apollo 11 ainda

tem um longo caminho a percorrer — e nós também.

 

Assim encerrou-se a mais longa transmissão contínua

programada da história da televisão.

 

* * *

 

De volta à órbita lunar, Collins ajudou os companheiros a

transferir equipamentos, filmes e caixas de pedras para a nave-

mãe.5 Feito isso, tentaram remover a poeira lunar da Columbia.

Retiraram de um compartimento um pequeno aspirador de pó,

conforme tinham sido orientados pelo pessoal dos micróbios. “O

aspirador não tirou muito do pó”, afirma Buzz. “Tiramos mais pó

uns dos outros com as mãos, mas nem isso adiantou muito.”

Antes de fechar a escotilha, Neil e Buzz arrumaram as coisas no

módulo lunar. Foi muito difícil dizer adeus à máquina. A Eagle

tinha feito tudo o que lhe pediram e mais um pouco.

Eram 18h42 CDT, hora de enviar o módulo lunar para seu

destino. Nas missões lunares subsequentes da Apollo, o módulo

lunar seria atirado contra a Lua para medições sismográficas,

mas a Eagle flutuou durante anos até cair na superfície lunar.

Buzz e Neil ficaram aliviados por ter sido Collins quem acionou

os interruptores para liberá-la. Durante a refeição que veio em

seguida, Collins começou a fazer perguntas e mais perguntas

aos companheiros: “Como foi a decolagem? (…) As rochas todas

se parecem? Elas são diferentes? Muito bom, ótimo. Fico feliz

em ouvir isso (…) Felizmente, vocês conseguiram pegar um

pouco de tudo.”

Às 23h10, horário de Houston, da segunda-feira 21 de julho, o

controle de missão deu à Columbia autorização para a injeção transterrestre (da sigla em inglês TEI, Trans-Earth Injection).

Collins mais tarde chamou a TEI de manobra “tira a gente daqui,

não queremos ser um satélite permanente da Lua”. Foi uma

queima de dois minutos e meio do motor de propulsão de serviço

que deveria enviá-los para casa, aumentando a velocidade para

9.959 quilômetros por hora, a velocidade necessária para

escapar da órbita lunar. Se a TEI não funcionasse bem, como

Neil explica, “teríamos de dar um passeio longo e solitário”.

A TEI ocorreu no lado de trás da Lua, fora de contato com a

Terra. Junto com a reentrada no planeta, era o único momento

realmente tenso que faltava enfrentar. Por mais complicada que

tivesse sido toda a missão, os astronautas precisavam ter

absoluta certeza, quando fizessem a saída da órbita da Lua, de

que estavam voltados para a direção certa. Eles aliviaram a

tensão com humor:

 

05:15:14:12 Collins: Vejo um horizonte. Parece que estamos indo

para a frente [risos].

05:15:14:26 Armstrong: Sombras da Gemini.

05:15:14:29 Collins: É muito importante que estejamos indo para

a frente [mais risos]. Há apenas um erro muito grave que

você pode cometer aí.

05:15:14:50 Aldrin: Sombras dos retrofoguetes da Gemini. Tem

certeza de que estamos [risos]… não, vamos ver, os

motores apontam para este lado e os gases escapam para

aquele, portanto, indicam um empuxo para lá.

05:15:15:03 Collins: Sim, o horizonte parece bom.

 

Na verdade, havia uma chance muito remota de que os

astronautas pudessem se lançar na direção errada. “Eu não diria

uma chance zero”, admitiu Armstrong. “Havia sem dúvida uma

chance — principalmente quando você está no escuro, sem

referências externas e dependente de seus instrumentos. É

possível errar aquela atitude? Eu diria que sim. É algo que

sempre preocupou o controle de missão, porque eles não

conseguem ver você no lado distante e não têm nenhum dado.”

Assim que a espaçonave saiu de trás do disco da Lua, meia

hora depois, Houston quis saber o que havia acontecido:

 

05:15:35:14 Duke: Alô, Apollo 11. Como foi? Câmbio.

05:15:35:22 Collins: Hora de abrir as portas do LRL [Laborátorio

de Recepção Lunar], Charlie.

05:15:35:25 Duke: Câmbio. Vocês estão a caminho de casa. Está

tudo em ordem (…) Todos os seus sistemas parecem

ótimos para nós. Vamos mantê-los informados.

05:15:36:27 Armstrong: Ei, Charlie, aqui parece bom. Esta foi

uma beleza de queima. Não poderia ter sido melhor.

 

Collins lembra que os três homens em seguida se revezaram

com as câmeras, apontando-as alternadamente para a Lua e

para a Terra. “A Lua deste lado está cheia, um globo marrom

dourado glorioso à luz do Sol. É uma visão animadora e otimista,

mas, ainda assim, é maravilhoso olhar pela janela e vê-la

encolhendo e a minúscula Terra crescendo.” Não apenas vê-la a

distância, mas saber que estavam voltando para casa tornou

essa visão “inesquecível”.

 

* * *

 

O restante da viagem de dois dias e meio foi relativamente

rotineiro. A primeira noite de sono após o encontro foi a mais

profunda e satisfatória de toda a viagem, e durou cerca de oito

horas e meia, até o meio-dia, horário de Houston, da terça-feira,

22 de julho. Pouco depois que os astronautas acordaram, a

espaçonave passou pelo ponto em que a gravidade da Terra

predominou e começou a trazer os astronautas de volta para

casa — um ponto a 71.857 quilômetros da Lua e 322.248

quilômetros da Terra. No final da tarde, eles fizeram a única

correção de curso, ajustando levemente o voo para a melhor

trajetória de retorno à Terra. No meio da tarde do dia seguinte, a

Columbia chegou ao meio do caminho de volta, a 187.052

quilômetros do mergulho. Os tripulantes estavam relaxados, e as tarefas eram tão rotineiras que eles fizeram uma brincadeira

tocando pelo rádio, para Houston, uma gravação especial de

efeitos sonoros que tinham levado. Havia latidos de cães e de

uma locomotiva a diesel em alta velocidade.

O que todos na Terra mais lembraram sobre o retorno foram

as duas transmissões noturnas de televisão em cores no horário

nobre. Na transmissão final de TV da Apollo 11, cada astronauta

explicou o que o pouso na Lua significou para ele dentro do

grandioso esquema das coisas. Às 19h03 EDT, Armstrong abriu

a transmissão:

 

Boa noite. Aqui fala o comandante da Apollo 11. Há cem anos, Júlio Verne

escreveu um livro sobre uma viagem à Lua. Sua espaçonave, a Columbia,

decolou da Flórida e pousou no oceano Pacífico depois de fazer a viagem à Lua.

Parece-nos apropriado dividir com vocês algumas das reflexões da tripulação, já

que a Columbia dos dias de hoje completa sua aproximação com o planeta Terra

e com o mesmo oceano Pacífico amanhã. Primeiro, Mike Collins.

 

No controle de missão, Janet e seus meninos, Pat Collins e os

filhos adolescentes e também um dos filhos de Aldrin assistiam

ao programa na sala de exibição.

Mike Collins:

 

Câmbio. Esta nossa viagem à Lua pode ter parecido simples ou fácil para vocês.

Eu gostaria de deixar claro que não foi o caso. O foguete Saturno V, que nos pôs

em órbita, é uma máquina incrivelmente complicada, e cada uma de suas peças

funcionou perfeitamente. Este computador aqui acima da minha cabeça possui

um vocabulário de 38 mil palavras, cada uma cuidadosamente escolhida para ser

do maior valor para nós, a tripulação. Este controle, que está na minha mão

agora, tem mais de trezentos congêneres só no módulo de comando (…) Sempre

tivemos certeza de que todo esse equipamento funcionaria, e funcionaria de

modo correto, e ainda temos certeza de que continuará funcionando pelo restante

do voo. Tudo isso só é possível graças ao trabalho árduo de muitas pessoas.

Primeiro, os trabalhadores americanos que montaram esses equipamentos na

fábrica. Segundo, o trabalho meticuloso feito pelas várias equipes de teste

durante a montagem e a retestagem após a montagem. E, por fim, as pessoas no

Centro de Espaçonaves Tripuladas (…) Esta operação é um pouco como o

periscópio de um submarino. Vocês só estão vendo nós três, mas na superfície lá

embaixo estão milhares e milhares de outras pessoas, e a todas elas eu gostaria

de dizer muito obrigado.

Em sua vez diante da câmera, Buzz deu a primeira de suas

muitas declarações em nome do espírito de exploração:

 

Boa noite. Eu gostaria de falar com vocês sobre alguns aspectos mais simbólicos

do voo de nossa missão, a Apollo 11. Como temos discutido os eventos dos

últimos dois ou três dias aqui a bordo da nossa espaçonave, chegamos à

conclusão de que isso foi muito mais do que três homens em uma viagem à Lua;

mais também do que o esforço de uma equipe de governo e de indústria; mais até

do que o esforço de uma nação. Sentimos que é um símbolo da curiosidade

insaciável de toda a humanidade pela exploração do desconhecido. A declaração

de Neil no outro dia, ao pisar pela primeira vez na superfície da Lua, “É um

pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”,

resume muito bem, a meu ver, esses sentimentos. Aceitamos o desafio de ir à

Lua; aceitar esse desafio foi inevitável. A relativa facilidade com que levamos a

cabo nossa missão, acredito, é um tributo a essa oportunidade. Hoje, sinto que

somos totalmente capazes de aceitar um papel mais importante na exploração do

espaço (…) Pessoalmente, ao refletir sobre os acontecimentos dos últimos dias,

um versículo dos Salmos me veio à mente: “Quando contemplo os teus céus,

obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste; que é o homem mortal

para que te lembres dele?”

 

O homem de menos palavras, o comandante Armstrong,

encerrou a transmissão com eloquência. Seu estado de espírito

foi muito reflexivo, como era de costume em público:

 

A responsabilidade por este voo é em primeiro lugar da história e dos gigantes da

ciência que precederam este esforço; depois, do povo americano que, por sua

força de vontade, indicou seu desejo; em seguida, dos quatro governos e seus

congressos, por implementarem essa vontade; depois, das equipes da agência e

da indústria que construíram nossa espaçonave: o Saturno, a Columbia, a Eagle

e a pequena EMU, o traje espacial e a mochila que era nossa pequena

espaçonave na superfície lunar. Gostaríamos de agradecer em especial a todos

os americanos que construíram a espaçonave, que fizeram a montagem, o

projeto, os testes e dedicaram seu coração e toda a sua competência a esses

ofícios. Hoje fazemos a essas pessoas um agradecimento especial. E para todos

os que estão nos ouvindo e assistindo esta noite, que Deus os abençoe. Um boa-

noite da Apollo 11.

 

Para todos os que estavam assistindo na sala de sua casa

naquela véspera do solstício de verão, aqueles foram momentos

de orgulho. Encerrando a transmissão na CBS, Cronkite chamou

as declarações finais da tripulação de “um voto reconfortante de

apreciação dos três astronautas que fizeram o inacreditável — foram para a Lua e andaram sobre ela”. O sucesso total da

Apollo 11 agora dependia da reentrada na atmosfera da Terra, do

mergulho e do resgate em segurança.

Mas, na volta à Terra, um perigo imprevisto ameaçou os

momentos finais da missão. Uma tempestade violenta formava-

se no Pacífico, e alguns meteorologistas perspicazes perceberam

que ela se deslocava logo acima do ponto de mergulho. A NASA,

portanto, mudou o local de pouso. Logo cedo, na manhã da

quinta-feira, 24 de julho, o navio de resgate principal, o USS

Hornet, um porta-aviões construído em 1943, com o presidente

Nixon a bordo, recebeu ordens para se deslocar para noroeste, a

uma distância de cerca de quatrocentos quilômetros, até uma

área mais calma. A Columbia então mudou sua trajetória de

entrada. Fora isso, a parte da entrada foi normal.

Às 11h35 do dia 24, horário de Houston, a Apollo 11 começou

a descer para a atmosfera da Terra. Bateu nas primeiras regiões

de ar a cerca de 122 mil metros de altitude quando estava a

nordeste da Austrália. Collins, no controle, detalhou graficamente

a reentrada: “Estamos programados para atingir nosso corredor

de entrada a um ângulo de seis graus e meio abaixo do

horizonte, a uma velocidade de 11.032 metros por segundo,

quase quarenta mil quilômetros por hora. Estamos indo em

direção a um ponto situado a treze quilômetros do Havaí.

Descartamos nosso módulo de serviço, nosso tanque confiável

ainda com oxigênio pela metade, e nos viramos de modo que

nosso escudo térmico ficasse na frente. A desaceleração começa

gradualmente e é anunciada pelo início de um show de luzes

espetacular. Estamos no centro de uma cápsula de protoplasma,

na trilha da cauda de um cometa de partículas ionizadas e de

material do escudo térmico. O negro absoluto do espaço foi

embora, substituído por um fino túnel de cores: lavanda delicado,

verde-azulado claro, tons de violeta, todos em volta de um núcleo

central amarelo-alaranjado.” Caindo rápido, mas parecendo em

estado de suspensão da animação, os três astronautas veem as

primeiras formas terrestres, uma grande massa de lindas nuvens

estratos-cúmulos. Em seguida, os três enormes paraquedas

principais se abrem, “belas flores de alívio alaranjadas e brancas desabrochando”. Logo os astronautas conseguiram distinguir a

ampla extensão do oceano abaixo deles. Com 08:03:09:45 de

tempo decorrido de missão, o chefe da equipe de resgate

interserviços notificou por rádio que tinha contato visual com a

cápsula descendente. Amanhecia no sudoeste do Pacífico.

Oito minutos e 33 segundos mais tarde, às 11h51 CDT, a

espaçonave se chocou com a água como uma tonelada de

tijolos, fazendo com que os astronautas emitissem grunhidos.

Armstrong transmitiu por rádio ao chefe de resgate: “Todos bem

aqui dentro. Nosso checklist está completo. Esperando

nadadores.” O chefe de resgate confirmou o pouso no alvo, 1.740

quilômetros a sudoeste de Honolulu e 370 quilômetros ao sul da

Johnston Island. O Hornet estava a apenas vinte quilômetros dali.

Helicópteros da Marinha estavam nas proximidades. Armstrong e

seus companheiros tinham tomado um comprimido contra enjoo

antes da reentrada, mas logo perceberam que deveriam ter

tomado dois, dada a altura das ondas e o fato de o módulo de

comando flutuar com a extremidade menor para baixo. Mike ficou

devendo uma cerveja a Neil, que tinha apostado que o módulo ia

virar. Tecnicamente, essa era chamada de posição “estável dois”

— a escotilha sob a água e os astronautas dependurados em

suas correias. Armstrong lembra: “Era estranho ficar de cabeça

para baixo, olhando para a água, pendurado pelas correias. Tudo

parecia completamente diferente porque a gravidade estabelecia

uma orientação que não existia havia muito tempo. De repente,

tínhamos um vetor de gravidade com o qual nos identificar, mas

não era como nada que tivéssemos visto antes! Tudo parecia

estar no lugar errado.”

Sem demora, a tripulação acionou as bombas motorizadas

para inflar três pequenos balões de ar que mudaram o centro da

gravidade de flutuação da espaçonave e viraram a extremidade

maior para baixo. Demorou quase dez minutos para que os

motores de flutuação enchessem os balões. À espera da equipe

de três homens-rãs da Marinha, eles ficaram sentados em

silêncio, esforçando-se para se manter firme apesar do enjoo,

principalmente Aldrin. “Uma coisa era pousar de cabeça para

baixo”, comentou ele mais tarde, “outra era sair da espaçonave diante das câmeras de televisão vomitando para todo lado.” Os

nadadores prenderam o colar de flutuação laranja e abriram a

escotilha da espaçonave. Eram 12h20 CDT, 6h20, horário do

Havaí. Para os astronautas a sensação era de terem ficado uma

eternidade na água, mas tinham se passado apenas 29 minutos.

Foram lançados para dentro do módulo de comando os trajes de

isolamento biológico (da sigla em inglês BIGs, Biological Isolation

Garments), de material emborrachado verde-acinzentado, com

zíper, capuz e visor, destinados a proteger o mundo dos “germes

da Lua”. Os astronautas tiveram trabalho para vestir seus BIGs

dentro do módulo apertado. Lidando com a gravidade pela

primeira vez em oito dias, estavam zonzos e tinham os pés e as

pernas tão inchados que mal conseguiam ficar de pé, em

especial contra ventos de 33 quilômetros por hora.

Devidamente vestidos com os BIGs, eles se espremeram

através da pequena escotilha; como comandante, Neil foi o

último a sair. Antes de escoltá-los um a um até o bote que

balançava ali ao lado, os homens-rãs borrifaram nos astronautas

um desinfetante preventivo contra microrganismos lunares. Uma

vez no bote, eles receberam panos e duas doses de detergentes

químicos diferentes para continuarem a limpeza. Quando

terminaram, os homens-rãs jogaram no mar os panos amarrados

a pesos. Os BIGs deveriam ser herméticos, mas em poucos

minutos a umidade começou a se infiltrar neles. Quase nada foi

dito pelos astronautas durante todo esse momento,

principalmente porque os visores e os capacetes dos BIGs

tornavam quase impossível ouvi-los, em especial com quatro

helicópteros batendo os rotores acima deles.

Mais uma vez eles ficaram sentados, durante quinze minutos,

até que um helicóptero recebeu ordem de descer e pegá-los. O

Hornet estava agora à vista, a menos de quatrocentos metros de

distância. Com câmeras de TV a bordo de alguns helicópteros,

cada momento do resgate estava sendo transmitido ao vivo para

o mundo. Esperando por eles dentro do helicóptero estava o dr.

William R. Carpentier, o médico aeroespacial do Centro de

Espaçonaves Tripuladas. Ao entrar, os três fizeram sinal de

positivo para ele.

Às 12h57 CDT, o helicóptero pousou no convés de voo do

Hornet. Uma banda de metais estava tocando. Marinheiros

lotavam o convés comemorando. Com um grande sorriso no

rosto e as mãos cruzadas em um corrimão, o presidente Nixon

encontrava-se no passadiço junto do Secretário de Estado,

William P. Rogers, e do diretor-geral da NASA, dr. Thomas O.

Paine, que acompanhavam o presidente em uma viagem de doze

dias ao redor do mundo com uma parada no Vietnã. Os

astronautas mal conseguiram ver o alvoroço. Ainda dentro do

helicóptero e com os BIGs, eles desceram por um dos

elevadores do navio até o convés do hangar. Ao desembarcar,

caminharam por uma linha recém-pintada em meio a uma

multidão animada de marinheiros e VIPs até a instalação móvel

de quarentena — um trailer adaptado de dez metros de

comprimento — no qual permaneceriam até chegar ao

Laboratório de Recepção Lunar em Houston em 27 de julho.

Neil se lembrava de como era pousar em um navio e ficar de

pé. “Todos nos sentimos muito bem. Não tivemos nenhum tipo de

problema com enjoo.” Eles conseguiram entrar direto no trailer de

quarentena, onde se sentaram imediatamente em poltronas para

se submeterem à amostragem microbiológica e a um exame

médico preliminar feito pelo dr. Carpentier.

Só tiveram tempo para um banho rápido antes de ver o

presidente. “Tínhamos de participar do cerimonial de Nixon”, diz

Neil. “Precisávamos fazer [aquilo] e passar por isso antes de

poder comemorar.” Após a execução do Hino Nacional, o

presidente Nixon, a ponto de dar pulos de alegria, dirigiu-se aos

astronautas pelo intercomunicador pontualmente às duas da

tarde CDT. Agachados atrás de uma grande janela na parte de

trás do trailer, os três tripulantes, cansados mas animados,

tomaram posição: Neil à esquerda do presidente, Buzz à direita e

Mike no meio. Nixon deu as boas-vindas aos homens de volta à

Terra em nome dos povos do mundo inteiro e disse-lhes que

tinha telefonado para cada uma de suas esposas, na véspera,

para parabenizá-las. Convidou os casais para um jantar oficial

em Los Angeles. O presidente encerrou suas observações

chamando os oito dias da Apollo 11 de “a maior semana na história do mundo desde a Criação”. A declaração gerou

controvérsias, em especial entre cristãos. Neil considerou-a

hiperbólica: “Foi um momento emocionante. Muitas vezes,

quando alguém está entusiasmado, tende a exagerar um pouco.”

No gramado da frente da sua casa, Janet agradeceu a todas

as pessoas que ajudaram a fazer do voo um sucesso:

“Agradecemos a vocês por tudo — suas orações, seus

pensamentos, tudo. E se alguém me perguntasse o que eu diria

sobre esse voo, só posso dizer que foi uma coisa de outro

mundo!” Em Wapakoneta, os pais de Neil comemoraram.

 

* * *

 

Enquanto o Hornet se encaminhava para Honolulu, os

astronautas ainda não podiam relaxar por completo, pois havia

mais exames médicos pós-voo. Neil apresentava uma secreção

em um dos ouvidos, causada pelo estresse da reentrada, como

foi esclarecido no dia seguinte. Com os médicos interessados na

influência de oito dias de gravidade zero sobre o corpo, era

quase como se a missão ainda estivesse acontecendo, pois os

homens continuavam isolados e não podiam ver o dia ou a noite.

Quando os testes acabaram, foi improvisado um coquetel na

pequena sala de estar das instalações de quarentena móvel. Neil

tomou uísque. Depois foi oferecido um jantar com bifes grelhados

e batatas assadas. Naquela noite, em camas macias com

travesseiros de verdade, a tripulação dormiu pesado durante

quase nove horas. Seu descanso foi programado para restaurar

um padrão de sono regular, que logo seria interrompido pela

perda de seis horas de viagem do leste do Havaí até Houston.

Depois de um farto café da manhã, havia trabalho a fazer. A

Columbia tinha sido trazida a bordo, e suas preciosas caixas de

rochas e outros tesouros precisavam ser descarregados. Através

de um túnel de plástico, Neil, Buzz e Mike se dirigiram até a

espaçonave acinzentada, marcada pelo calor da reentrada e,

com a ajuda de um engenheiro de resgate, retiraram as caixas do

módulo de comando e as levaram para uma unidade especial de esterilização. Algumas horas depois, as caixas deixaram o porta-

aviões e voaram para Houston.

Aquela tarde testemunhou outra cerimônia a bordo. O capitão

presenteou cada um deles com uma placa, uma caneca com

inscrições e um boné. Armstrong continuou a atuar como porta-

voz da tripulação, como faria em todos os eventos públicos.

Alguém no trailer comentou, inocentemente: “E agora vai

começar”, o que se tornaria o bordão dos astronautas nas

semanas seguintes.

Durante duas noites, a tripulação da Apollo 11 permaneceu no

Hornet, experiência à qual Neil estava acostumado desde seus

dias na Marinha. Passou parte do tempo jogando várias partidas

de gin rummy (um jogo parecido com buraco) com Mike enquanto

Buzz lia ou jogava paciência. Eles também começaram a

autografar as fotos destinadas aos VIPs da NASA e da Casa

Branca.

O cenário era frenético quando eles chegaram a Pearl Harbor

no sábado de manhã, 26 de julho. A primeira vez que Neil esteve

em Pearl Harbor tinha sido a bordo do Essex, como aspirante,

dezoito anos antes. As pessoas vibravam, uma banda tocava e

bandeiras tremulavam. Um cabo de vassoura voou do mastro do

Hornet, símbolo de uma missão cumprida. Mas como Neil conta:

“Não estávamos em uma posição muito boa para ver tudo

aquilo.” O comandante das Forças do Pacífico, almirante John

Sidney McCain Jr., pai do futuro senador dos Estados Unidos,

cumprimentou a tripulação que chegava, como fizera Nixon no

Hornet, pela janela traseira do trailer. Eles ficaram em Pearl

Harbor apenas o tempo necessário para fazer a transferência

para o avião que os levaria a Houston. O trailer deles foi içado

para um caminhão-reboque e levado, a uma velocidade de

dezesseis quilômetros por hora, até o aeródromo de Hickam,

próximo dali. Multidões ocupavam as ruas. Finalmente, ao chegar

a Hickam, o trailer foi colocado na barriga cavernosa de um avião

de transporte Starlifter C-141. O longo voo para Houston

acarretaria mais um tempo dentro do módulo de quarentena.

Segundo Neil: “Era quase igual a todo o resto. Aqui estávamos

confinados em um lugar muito pequeno — mas muito maior do que aquele em que tínhamos ficado por algum tempo. Tínhamos

mais espaço. Comida quente. Hora para tomar um drinque. Havia

muitas coisas a fazer. Sempre que sobrava algum tempo livre,

queríamos escrever ou falar a respeito de muitas coisas.”

Chegando à base aérea de Ellington, em Houston, por volta da

meia-noite, eles foram transferidos para outro caminhão-reboque.

O descarregamento em Pearl Harbor e o carregamento em

Hickam tinham corrido bem, mas foram necessárias três

tentativas para o carregamento nesse caminhão. Na janela com

os astronautas, o dr. Bill Carpentier brincou: “Eles são capazes

de enviar homens à Lua e trazê-los de volta, mas não

conseguem tirar os homens do avião.”

Em segurança na traseira do caminhão, eles foram levados

pela pista até uma multidão de milhares de pessoas à sua espera

e a uma série de câmeras de televisão. O prefeito de Houston

dirigiu-se aos astronautas, assim como o diretor do Centro de

Espaçonaves Tripuladas, Bob Gilruth. “Todos estavam reunidos

para nos cumprimentar”, lembra-se Armstrong, entre eles as

esposas e os filhos dos tripulantes. Os astronautas conversaram

com as famílias através de linhas telefônicas especiais. Neil não

se lembra do que disse ou do que lhe disseram, exceto de “que

bom tê-lo de volta”.

O caminhão só saiu de Ellington à uma e meia da madrugada

e se dirigiu lentamente pela Estrada 1 da NASA até o Centro de

Espaçonaves Tripuladas. Apesar da hora avançada, ainda havia

gente gritando nas ruas. Foi somente por volta das duas e meia

que eles chegaram ao Laboratório de Recepção Lunar, onde

deveriam passar o resto da quarentena de 21 dias. Com um

sistema especial de ar-condicionado, o LRL não permitia que o ar

escapasse sem passar por vários filtros e bombas.

O LRL era confiável, seguro e silencioso. Além de quartos

particulares para cada membro da tripulação, contava com uma

cozinha e uma área de jantar. Tinha ainda uma grande sala de

estar e uma área de recreação onde, além de uma televisão,

havia um telão em que eram projetados filmes recentes de

Hollywood. A população do LRL tinha dois cozinheiros, um

funcionário de relações públicas da NASA, outro médico especialista em laboratório e um zelador. Era grande o bastante

para acomodar todos sem tirar o conforto dos astronautas. A

NASA chegou a permitir a instalação de um jornalista, John

Macleish, que emitiu uma torrente de comunicados. No LRL, Neil

fez suas primeiras ligações para a família, incluindo sua mãe.

Mike e Buzz acabaram achando tedioso o tempo passado no

LRL, mas não foi assim para Neil. Ele recebeu bem o refúgio do

tumulto que os cercava. “Nós realmente precisávamos desse

tempo para poder fazer todas as reuniões e conversar com o

pessoal dos vários sistemas. As tripulações subsequentes da

Apollo estavam muito interessadas nessa e naquela questão

relacionada ao planejamento das próprias missões — o que

achavam que poderiam fazer da forma apropriada, se tínhamos

ideias de como eles poderiam melhorar os próprios voos. A

discussão girava principalmente em torno do que era executável

na superfície, pois isso afetava de modo significativo o

planejamento. Então esse tempo foi muito valioso para nós e

para todos os outros.”

Os dias no LRL deram a eles bastante tempo para revisar, lote

por lote, as fotografias da missão que estavam sendo reveladas e

impressas em um laboratório fotográfico especial do Centro de

Espaçonaves Tripuladas. “Elas iam chegando aos poucos”,

recorda Neil. “Eles revelavam um rolo de filme e, assim que

estivesse pronto, faziam cópias para nós. Enquanto olhávamos

as fotos, surgiram muitas outras perguntas, e as tripulações de

outros voos estavam interessadas nas respostas. As fotos

ajudaram a formular perguntas e a respondê-las.” Algumas

reuniões exigiram que os astronautas escrevessem longos

relatórios de pilotagem sobre suas responsabilidades especiais

na missão. Outras foram filmadas em uma sala parecida com

uma cabine de controle de TV; os astronautas sentados a uma

mesa, diante dos que formulavam perguntas, separados por uma

parede de vidro. A missão foi documentada nos mínimos

detalhes e resultou em 527 páginas de transcrições com

espaçamento simples.

Em 5 de agosto, o chef do LRL surpreendeu Neil com um bolo

para seu 39o aniversário.

Ao se aproximar o fim da quarentena, cada astronauta, na

condição de servidor do governo federal, teve de preencher um

relatório de despesas do seu voo para a Lua. Preenchido para

assinatura deles, os formulários diziam: “De Houston, Texas, para

Cabo Kennedy, Flórida, para a Lua, para o oceano Pacífico, para

o Havaí e de volta a Houston, Texas.” O reembolso total foi de

33,31 dólares.

Apenas uma vez, durante a quarentena, houve alguma tensão

entre os três astronautas. Foi quando Aldrin, durante as reuniões,

falou longamente sobre o fenômeno dos clarões que os três

tinham visto durante a viagem de ida. Buzz percebeu a irritação

de Neil, e a discussão terminou.

Ocupados como estavam com as reuniões, os dias em

reclusão deram a Armstrong e seus companheiros tempo

suficiente para pensar sobre seu futuro no programa espacial.

Certo dia, Deke chegou a sugerir que eles considerassem se

queriam ou não retornar à condição de voo. Neil achou que era

muito cedo para chegar a qualquer conclusão, mas esperava

poder voar outra vez.

Os homens também refletiram sobre como todo o glamour e a

publicidade afetariam sua vida pessoal e profissional, e a vida de

suas famílias. Pouco antes da reentrada, Jim Lovell alertara os

astronautas da Apollo 11: “A tripulação reserva ainda está de

prontidão. Só quero lembrar que a parte mais difícil de sua

missão será após o resgate.”

Armstrong entendeu a mensagem de Lovell, e anos depois

relembra o que aconteceu: “Não éramos ingênuos, mas nunca

poderíamos adivinhar qual seria o volume e a intensidade do

interesse público. Sem dúvida seria maior do que qualquer coisa

que qualquer um de nós tivesse experimentado em atividades

anteriores de voo. E foi.”

A quarentena chegou ao fim às nove da noite do domingo, 10

de agosto. A essa altura, até Neil estava querendo muito que

terminasse. Eles estavam em reclusão física havia mais de um

mês. Fora do LRL, um carro com motorista da equipe da NASA

esperava cada um deles para levá-los para casa. A tripulação da

Apollo 11 seguiu caminhos separados, mas não por muito tempo.

A curta viagem de volta ao lar, naquela noite, foi uma amostra

de como seriam os anos seguintes dos astronautas. No momento

em que cada carro cruzou o portão da NASA, três equipes de TV

passaram a seguir os famosos passageiros. Repórteres e

fotógrafos estavam a postos na frente de suas residências.

Neil não queria nada disso, com certeza não naquele

momento. Assim que o carro da NASA que o levava parou na

entrada da garagem, ele correu para a porta da frente. Janet

aguardava para fechá-la rapidamente atrás dele.

A vida de Armstrong no lado escuro da Lua estava

começando.

 

5 Em janeiro de 2015, dois anos e meio depois da morte de Armstrong, Carol Armstrong, sua viúva, informou aos curadores do Museu Nacional do Ar e do Espaço (da sigla em inglês NASM, National Air and Space Museum) que tinha encontrado no fundo de um dos armários de Neil “uma sacola de pano branca com pequenos objetos que pareciam ter vindo de uma espaçonave”. A sacola era um exemplar daquela que ficou conhecida como “bolsa de McDivitt”, assim chamada por causa do comandante da Apollo 9, Jim McDivitt, o primeiro a ter a ideia de levar uma sacola dessas a bordo de sua espaçonave. Dentro dela havia o cinto de segurança de Neil, uma lâmpada de emergência e seu suporte, uma rede, uma chave inglesa para emergência, o visor que tinha sido instalado na janela de Neil no módulo lunar e a filmadora de 16mm que registrara a agora icônica sequência da aproximação final para o pouso lunar, assim como a descida de Neil pela escada para dar seu “pequeno passo” na Lua. Como declarou na ocasião o dr. Allan Needell, historiador espacial do NASM: “A câmera de 16mm DAC, por causa das imagens registradas por ela, se classifica como da maior importância”, embora todos os objetos da bolsa fossem importantes por estarem ligados a Armstrong. Não se sabe por que Neil guardou a bolsa, nem se ele se lembrava de tê-la. Mas como especialista em objetos trazidos do espaço, Robert Pearlman explicou: “Só para esclarecer, a bolsa não era algo que Armstrong tenha trazido da Lua às escondidas.” Depois do retorno à órbita da Lua, a bolsa e seu conteúdo foram levadas da Eagle para o módulo de comando Columbia. Neil falou da bolsa com Michael Collins como se ela tivesse sido transferida de uma espaçonave para outra; o que ele disse exatamente foi: “É só um punhado de tralha que quisemos trazer de volta — partes do módulo lunar, miudezas.” Collins mais tarde ligou para o controle de missão para informar onde a bolsa estava sendo guardada para a viagem de volta e quanto pesava. Pearlman continua sua avaliação (“A bolsa de Neil Armstrong: o primeiro homem na Lua tinha uma sacola escondida com partes da Apollo

11”, collectSpace.com, 6 de fevereiro de 2015): “Não se sabe como a bolsa chegou a ficar de posse de Armstrong depois da missão, mas não era raro que os astronautas guardassem partes de suas cápsulas como lembrança. Em setembro de 2012, um mês depois da morte de Armstrong, o presidente Barack Obama assinou uma lei pela qual os astronautas dos programas Mercury, Gemini e Apollo adquiriam direitos legais sobre suas lembranças.” Atualmente, a bolsa e seu conteúdo estão cedidos pelo espólio de Armstrong ao Instituto Smithsoniano. Dois de seus objetos, a câmera e o cinto de segurança, foram exibidos imediatamente pelo NASM dentro da mostra “Outside the Spacecraft: 50 Years of Extra-Vehicular Activity” (Fora da espaçonave: 50 anos de atividade extraveicular). Além da bolsa de McDivitt, a família de Armstrong doou também ao Instituto Smithsoniano uma vasta coleção de objetos pessoais e lembranças de Neil.