O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 16 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 11: Tenho um segredo

CAPÍTULO 11

 

Tenho um segredo

 

No começo de setembro de 1962, Neil trabalhava em seu

escritório em Edwards quando recebeu uma ligação de Deke

Slayton, chefe do escritório de astronautas do Centro de

Espaçonaves Tripuladas, que naquele momento estava sendo

construído em Clear Lake City, a sudeste de Houston.

Deke foi direto ao assunto:

“Olá, Neil, aqui quem fala é Deke. Você ainda está interessado

no grupo de astronautas?”

“Sim, senhor.”

“Então a vaga é sua. Vamos ter que começar de imediato;

programe-se para estar aqui no dia 16.”

Slayton disse a Armstrong que podia contar a novidade

apenas para a esposa e mais ninguém.

Os pais de Neil só souberam que o filho tinha se tornado

astronauta no fim de semana em que receberam uma ligação da

assessoria de imprensa da NASA, que estava colaborando com a

emissora CBS para viabilizar a participação do casal no

programa de televisão I’ve Got a Secret. (Depois que a jurada

Betsy Palmer adivinhou o segredo — que o filho da família

Armstrong acabara de ser nomeado astronauta naquele dia —, o

apresentador Garry Moore fez uma declaração profética: “Como

a senhora se sentiria, sra. Armstrong, se acontecesse — é claro,

ninguém sabe, mas pode acontecer — de seu filho ser o primeiro

homem a pousar na Lua? Como a senhora se sentiria?” Viola

Armstrong respondeu: “Bem, imagino que diria apenas ‘que Deus

o abençoe’ e lhe desejaria toda a sorte do mundo.”) Quanto à

ligação de Deke Slayton, Neil apenas comentou: “Fiquei contente

em ter recebido aquela ligação.”

Na verdade, o telefonema de Slayton talvez não tenha sido

uma grande surpresa para Neil. Já em meados do verão de

1962, os jornais tinham noticiado que Armstrong seria nomeado

“o primeiro astronauta civil”. Mais tarde, os oficiais da NASA

negaram essa notícia, admitindo que Armstrong estava

“definitivamente na lista” dos 32 homens que tinham passado na

primeira seleção entre 253 candidatos, mas que a escolha final

não havia sido feita. Muitos observadores não acreditaram no

desmentido. Durante todo o processo de seleção, a identificação

de Neil com os procedimentos da NACA/NASA tinham sido uma

vantagem para ele. Armstrong estava relativamente confiante em

ser escolhido como um dos próximos astronautas, mas não podia

ter certeza: “Muitos de nós possuíam experiência de combate.

Acho que minha formação profissional tinha um nível competitivo.

Minha experiência era ampla, tendo pilotado aviões-foguete e

coisas assim, e participado de diversos programas de voos de

teste. No entanto, havia áreas nas quais eu não sabia como

estava em relação aos demais, que eram a física, a emocional, a

psicológica e talvez o modo como eu era percebido por outras

pessoas. Eu não sabia como seria avaliado nessas categorias. E

qualquer uma delas poderia eliminar alguém do programa.”

Durante os meses que se passaram entre o começo de junho

de 1962, quando ele se inscreveu como candidato a astronauta,

e o dia em que foi procurado por Slayton, em setembro,

Armstrong esteve ocupado demais para pensar se conseguiria ou

não a vaga. Passou a segunda semana de junho na Clínica

Lovelace, em Albuquerque, Novo México, fazendo, ao que tudo

indica, o exame médico anual a que se submetiam os pilotos,

mas com os resultados dos testes enviados — sem que ele

soubesse — ao Centro de Espaçonaves Tripuladas para

avaliação, como parte do processo de seleção de astronautas.

De volta a Edwards, Neil fez uma série de voos, recebeu o

prêmio Octave Chanute em Los Angeles e participou de um

programa de testes do foguete Saturno, ainda em

desenvolvimento.

Em 5 de julho, Armstrong viajou a Paris para uma conferência

do Grupo Consultivo de Pesquisa e Desenvolvimento Aeroespacial (AGARD), da Organização do Tratado do Atlântico

Norte (OTAN), onde apresentou um artigo em parceria com Ed

Holleman intitulado “Simulação de voo referente a veículos

espaciais tripulados”. Ao voltar da conferência, Armstrong passou

todo o tempo preparando seu último voo no X-15, com o qual

atingiria a maior velocidade de sua vida no Projeto X-15: Mach

5,74, ou 6.420 quilômetros por hora. Bem no momento em que

Neil acelerava ao máximo o avião-foguete, teve início uma

infiltração de fumaça na cabine de comando, mas ele conseguiu

pousar em segurança.

Mal teve tempo de redigir seus comentários de pilotagem

antes de partir para a Base da Força Aérea Brooks, em San

Antonio. Em Brooks, ele foi submetido a uma semana exaustiva

de testes clínicos e psicológicos que tiveram muita influência na

seleção final de astronautas. Na opinião de Armstrong, “houve

experiências difíceis. Minha sensação na época era que algumas

daquelas coisas deviam ter sido especialmente designadas para

servir como pesquisa médica mais do que como técnicas de

diagnóstico”.

Alguns dos exames foram particularmente diabólicos. “Em um

deles”, lembrou Neil, “os técnicos injetavam água gelada em sua

orelha durante um tempão, até que você ficasse meio

descontrolado, e outro em que punham seus pés em água gelada

durante um longo período. Houve uma porção de testes

esquisitos como esses.”

Um dos testes psicológicos de que Neil se lembrava era o de

isolamento: “Eles punham a pessoa em um quarto escuro do qual

eliminaram todos os sinais sensoriais. Não havia luz, nem som,

nem cheiros. Diziam para você sair depois de duas horas.” Neil

aplicou princípios da engenharia: “Tentei imaginar um modo de

descobrir quanto durava um período de duas horas. Usei uma

música, ‘Fifteen Men in a Boardinghouse Bed’. Eu não tinha

relógio nem nada parecido, mas cantei a música até achar que

as duas horas tinham transcorrido. Bati na porta e gritei: ‘Me

tirem daqui!’” Em 13 de agosto, Armstrong viajou para a Base

Ellington da Força Aérea em Houston para uma rodada final de

testes clínicos e psiquiátricos. Ele foi posto, em primeiro lugar, diante do conselho de seleção de astronautas da NASA, um

grupo de que faziam parte Deke Slayton, Warren North, Walt

Williams e Dick Day. De vez em quando, John Glenn, ou Wally

Schirra, entrava e saía da sala. Armstrong contou que “não me

pareceu aquela dificuldade toda, não me senti pressionado nem

nada parecido. Achei que foi uma conversa natural sobre

assuntos em que eu estava interessado na época”.

Os 32 finalistas (treze da Marinha, dez da Força Aérea, três

fuzileiros navais e seis civis) se reuniram uma noite para jantar

com um pequeno grupo de oficiais do comando do Centro de

Espaçonaves Tripuladas. Armstrong relembrou: “Eu não conhecia

muitas pessoas ali. Conhecia Schirra da avaliação do XF4H-1.

Conhecia ligeiramente alguns outros”, entre os quais Gus

Grissom, que tinha voado em Edwards. Armstrong conhecia John

Glenn e Al Shepard só daquele acontecimento ocasional de voos

de teste. Scott Carpenter era o único astronauta do Programa

Mercury que ele nunca tinha visto.

Apenas quatro astronautas que já tinham feito voos espaciais

— Al Shepard, Gus Grissom, John Glenn e Scott Carpenter —

estiveram fora da atmosfera, como fizera Armstrong com o X-15;

e Neil era o único do grupo inteiro que já tinha pilotado um avião-

foguete ou recebido o prêmio Octave Chanute. De volta a

Edwards, Armstrong se concentrou calmamente em suas tarefas

habituais. Voou quase todos os dias úteis durante as três

semanas que antecederam o telefonema de Deke Slayton.

 

* * *

 

Neil chegou ao aeroporto Hobby de Houston na noite de sábado,

dia 15 de setembro de 1962. Segundo ele, “tudo estava

completamente sossegado. Ninguém deveria saber que

estávamos chegando, ou que aquilo seria anunciado”. Seguindo

instruções da NASA, Neil registrou-se no Rice Hotel com o nome

de “Max Peck”, como os outros oito selecionados. Na manhã

seguinte, em Ellington, a nova classe de astronautas da NASA se

reuniu pela primeira vez sob a direção de Slayton. Walt Williams, o chefe das operações de voo, deu aos homens uma descrição

de suas tarefas. Bob Gilruth, diretor do Centro de Espaçonaves

Tripuladas que tinha chefiado o Grupo de Trabalho do Espaço

desde o início, contou a eles que, como havia no cronograma

onze voos tripulados da Gemini, pelo menos quatro das Apollos

do bloco I (que seriam lançados no Saturno I) e um número ainda

indeterminado de Apollos do bloco II, inclusive a que faria o

primeiro pouso lunar, “haverá muitas missões para todos vocês”.

Slayton os alertou a respeito de algumas pressões e tentações

que enfrentariam. Disse-lhes que tivessem cuidado ao aceitar

presentes e cortesias, sobretudo de empresas que disputavam

contratos da NASA. Shorty Powers, da assessoria de imprensa

da NASA e “Voz do Programa Mercury”, encerrou informando aos

homens sobre a próxima entrevista coletiva. Então organizou os

nove astronautas para a primeira da que viria ser uma sequência

interminável de sessões de fotos.

Os 1.800 lugares do Auditório Cullen, da Universidade de

Houston, foram ocupados para o anúncio. Repórteres e

cinegrafistas das três maiores redes de televisão, das principais

emissoras de rádio, das agências de notícias, de dezenas de

jornais e revistas nacionais e internacionais se espremeram no

auditório à espera de conhecer a identidade dos novos

astronautas dos Estados Unidos. Em abril de 1959, a NASA,

ainda recém-nascida, tinha sido pega de surpresa pela sensação

pública que cercou a apresentação dos sete primeiros

selecionados. Dessa vez, mais calejada, a NASA estava muito

mais preparada para o assédio dos meios de comunicação. Isso

também ocorria com os próprios astronautas.

Os “New Nine” — Neil Armstrong, o major da Força Aérea

Frank Borman, o tenente da Marinha Charles Conrad Jr., o

capitão-tenente da Marinha James A. Lovell Jr., o capitão da

Força Aérea James A. McDivitt, Elliot M. See Jr., o capitão da

Força Aérea Thomas P. Stafford, o capitão da Força Aérea

Edward H. White II e o capitão-tenente da Marinha John W.

Young — formavam, de fato, um grupo notável. Na opinião de

pessoas que tiveram uma importância decisiva nos primórdios do

programa espacial tripulado do país, aquele era indubitavelmente o melhor grupo de astronautas já reunido. O nível de qualificação

do segundo grupo era muito mais alto que o dos Mercury Seven,

com a devida ênfase no conhecimento profundo da engenharia

que o conselho de seleção de astronautas da NASA tinha

buscado. Muitos deles eram engenheiros diplomados, e alguns

tinham mestrado na área. Armstrong tinha tudo isso menos a

conclusão de sua dissertação de mestrado em engenharia

aeroespacial pela Universidade do Sul da Califórnia.

A experiência do grupo em pilotagem e seu histórico no

mundo dos voos de teste era igualmente impressionante: a maior

parte deles contava com mais de duas mil horas no ar, e alguns

tinham recordes estabelecidos. Neil tinha 2.400 horas de voo,

cerca de novecentas em jatos. Era o único dos nove que tinha

voado em aeronaves propelidas por foguetes.

A média de idade do grupo era de 32 anos e meio; tinham

peso médio de 73,2 quilos e altura média de 1,77 metro. Com

1,80 metro de altura e 75 quilos, Armstrong estava ligeiramente

acima da média do grupo. Todos eram casados, nenhum deles

havia se divorciado e todos tinham filhos. Na lembrança de

Armstrong, “as perguntas na entrevista coletiva foram as de

sempre, nada refinadas — com respostas à altura”. Esse

comentário de duas faces — com a segunda parte

autodepreciativa — esclarece bem o que mais tarde se tornou

um mal-entendido sobre a natureza da atitude de Armstrong em

relação à imprensa.

A NASA esperava que Armstrong estivesse no Cabo

Canaveral junto com os outros novos astronautas para o

lançamento da Mercury de Schirra, mas este só foi marcado para

3 de outubro. Deixando nas mãos de Janet a maioria dos

preparativos da mudança da família para o Texas, Neil foi direto

para o trabalho em Edwards. Voou em todos os dias úteis até o

fim do mês.

O último voo de Armstrong como funcionário do FRC foi em 28

de setembro de 1962, em um F5D. Depois de um fim de semana

em casa, Neil pegou um voo comercial de Los Angeles não para

Houston, mas para Orlando, e de lá seguiu de carro até o Cabo

Canaveral, onde, em 3 de outubro, junto aos demais integrantes do New Nine, assistiu ao lançamento impecável de Schirra na

Sigma 7 do Programa Mercury.

No dia seguinte, Neil voltou a Edwards, já que sua

transferência do Centro de Pesquisa de Voo para o Centro de

Espaçonaves Tripuladas só ocorreria entre os dias 11 e 13

daquele mês. Em dois dias, ele e Elliot See, que morava em Los

Angeles, percorreram os 2.600 quilômetros até o Texas (antes da

autopista Interstate) no carro de See. Neil alugou um

apartamento mobiliado bem perto do aeroporto Hobby, e depois

partiu com os novos astronautas para examinar as dependências

dos fornecedores do programa espacial tripulado por todo o país.

De volta a Juniper Hills com uma passagem por Los Angeles

em 3 de novembro, Armstrong trocou seus dois carros por uma

van usada. A mudança da família já tinha sido despachada para

um guarda-móveis em Houston. Neil levou Rick com ele na van e

Janet foi de avião dois dias depois. Durante alguns meses, a

família Armstrong morou naquele apartamento mobiliado, até que

ficasse pronta sua casa na cidadezinha de El Lago, a poucos

minutos do Centro de Espaçonaves Tripuladas.