O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 11: Tenho um segredo
CAPÍTULO 11
Tenho um segredo
No começo de setembro de 1962, Neil trabalhava em seu
escritório em Edwards quando recebeu uma ligação de Deke
Slayton, chefe do escritório de astronautas do Centro de
Espaçonaves Tripuladas, que naquele momento estava sendo
construído em Clear Lake City, a sudeste de Houston.
Deke foi direto ao assunto:
“Olá, Neil, aqui quem fala é Deke. Você ainda está interessado
no grupo de astronautas?”
“Sim, senhor.”
“Então a vaga é sua. Vamos ter que começar de imediato;
programe-se para estar aqui no dia 16.”
Slayton disse a Armstrong que podia contar a novidade
apenas para a esposa e mais ninguém.
Os pais de Neil só souberam que o filho tinha se tornado
astronauta no fim de semana em que receberam uma ligação da
assessoria de imprensa da NASA, que estava colaborando com a
emissora CBS para viabilizar a participação do casal no
programa de televisão I’ve Got a Secret. (Depois que a jurada
Betsy Palmer adivinhou o segredo — que o filho da família
Armstrong acabara de ser nomeado astronauta naquele dia —, o
apresentador Garry Moore fez uma declaração profética: “Como
a senhora se sentiria, sra. Armstrong, se acontecesse — é claro,
ninguém sabe, mas pode acontecer — de seu filho ser o primeiro
homem a pousar na Lua? Como a senhora se sentiria?” Viola
Armstrong respondeu: “Bem, imagino que diria apenas ‘que Deus
o abençoe’ e lhe desejaria toda a sorte do mundo.”) Quanto à
ligação de Deke Slayton, Neil apenas comentou: “Fiquei contente
em ter recebido aquela ligação.”
Na verdade, o telefonema de Slayton talvez não tenha sido
uma grande surpresa para Neil. Já em meados do verão de
1962, os jornais tinham noticiado que Armstrong seria nomeado
“o primeiro astronauta civil”. Mais tarde, os oficiais da NASA
negaram essa notícia, admitindo que Armstrong estava
“definitivamente na lista” dos 32 homens que tinham passado na
primeira seleção entre 253 candidatos, mas que a escolha final
não havia sido feita. Muitos observadores não acreditaram no
desmentido. Durante todo o processo de seleção, a identificação
de Neil com os procedimentos da NACA/NASA tinham sido uma
vantagem para ele. Armstrong estava relativamente confiante em
ser escolhido como um dos próximos astronautas, mas não podia
ter certeza: “Muitos de nós possuíam experiência de combate.
Acho que minha formação profissional tinha um nível competitivo.
Minha experiência era ampla, tendo pilotado aviões-foguete e
coisas assim, e participado de diversos programas de voos de
teste. No entanto, havia áreas nas quais eu não sabia como
estava em relação aos demais, que eram a física, a emocional, a
psicológica e talvez o modo como eu era percebido por outras
pessoas. Eu não sabia como seria avaliado nessas categorias. E
qualquer uma delas poderia eliminar alguém do programa.”
Durante os meses que se passaram entre o começo de junho
de 1962, quando ele se inscreveu como candidato a astronauta,
e o dia em que foi procurado por Slayton, em setembro,
Armstrong esteve ocupado demais para pensar se conseguiria ou
não a vaga. Passou a segunda semana de junho na Clínica
Lovelace, em Albuquerque, Novo México, fazendo, ao que tudo
indica, o exame médico anual a que se submetiam os pilotos,
mas com os resultados dos testes enviados — sem que ele
soubesse — ao Centro de Espaçonaves Tripuladas para
avaliação, como parte do processo de seleção de astronautas.
De volta a Edwards, Neil fez uma série de voos, recebeu o
prêmio Octave Chanute em Los Angeles e participou de um
programa de testes do foguete Saturno, ainda em
desenvolvimento.
Em 5 de julho, Armstrong viajou a Paris para uma conferência
do Grupo Consultivo de Pesquisa e Desenvolvimento Aeroespacial (AGARD), da Organização do Tratado do Atlântico
Norte (OTAN), onde apresentou um artigo em parceria com Ed
Holleman intitulado “Simulação de voo referente a veículos
espaciais tripulados”. Ao voltar da conferência, Armstrong passou
todo o tempo preparando seu último voo no X-15, com o qual
atingiria a maior velocidade de sua vida no Projeto X-15: Mach
5,74, ou 6.420 quilômetros por hora. Bem no momento em que
Neil acelerava ao máximo o avião-foguete, teve início uma
infiltração de fumaça na cabine de comando, mas ele conseguiu
pousar em segurança.
Mal teve tempo de redigir seus comentários de pilotagem
antes de partir para a Base da Força Aérea Brooks, em San
Antonio. Em Brooks, ele foi submetido a uma semana exaustiva
de testes clínicos e psicológicos que tiveram muita influência na
seleção final de astronautas. Na opinião de Armstrong, “houve
experiências difíceis. Minha sensação na época era que algumas
daquelas coisas deviam ter sido especialmente designadas para
servir como pesquisa médica mais do que como técnicas de
diagnóstico”.
Alguns dos exames foram particularmente diabólicos. “Em um
deles”, lembrou Neil, “os técnicos injetavam água gelada em sua
orelha durante um tempão, até que você ficasse meio
descontrolado, e outro em que punham seus pés em água gelada
durante um longo período. Houve uma porção de testes
esquisitos como esses.”
Um dos testes psicológicos de que Neil se lembrava era o de
isolamento: “Eles punham a pessoa em um quarto escuro do qual
eliminaram todos os sinais sensoriais. Não havia luz, nem som,
nem cheiros. Diziam para você sair depois de duas horas.” Neil
aplicou princípios da engenharia: “Tentei imaginar um modo de
descobrir quanto durava um período de duas horas. Usei uma
música, ‘Fifteen Men in a Boardinghouse Bed’. Eu não tinha
relógio nem nada parecido, mas cantei a música até achar que
as duas horas tinham transcorrido. Bati na porta e gritei: ‘Me
tirem daqui!’” Em 13 de agosto, Armstrong viajou para a Base
Ellington da Força Aérea em Houston para uma rodada final de
testes clínicos e psiquiátricos. Ele foi posto, em primeiro lugar, diante do conselho de seleção de astronautas da NASA, um
grupo de que faziam parte Deke Slayton, Warren North, Walt
Williams e Dick Day. De vez em quando, John Glenn, ou Wally
Schirra, entrava e saía da sala. Armstrong contou que “não me
pareceu aquela dificuldade toda, não me senti pressionado nem
nada parecido. Achei que foi uma conversa natural sobre
assuntos em que eu estava interessado na época”.
Os 32 finalistas (treze da Marinha, dez da Força Aérea, três
fuzileiros navais e seis civis) se reuniram uma noite para jantar
com um pequeno grupo de oficiais do comando do Centro de
Espaçonaves Tripuladas. Armstrong relembrou: “Eu não conhecia
muitas pessoas ali. Conhecia Schirra da avaliação do XF4H-1.
Conhecia ligeiramente alguns outros”, entre os quais Gus
Grissom, que tinha voado em Edwards. Armstrong conhecia John
Glenn e Al Shepard só daquele acontecimento ocasional de voos
de teste. Scott Carpenter era o único astronauta do Programa
Mercury que ele nunca tinha visto.
Apenas quatro astronautas que já tinham feito voos espaciais
— Al Shepard, Gus Grissom, John Glenn e Scott Carpenter —
estiveram fora da atmosfera, como fizera Armstrong com o X-15;
e Neil era o único do grupo inteiro que já tinha pilotado um avião-
foguete ou recebido o prêmio Octave Chanute. De volta a
Edwards, Armstrong se concentrou calmamente em suas tarefas
habituais. Voou quase todos os dias úteis durante as três
semanas que antecederam o telefonema de Deke Slayton.
* * *
Neil chegou ao aeroporto Hobby de Houston na noite de sábado,
dia 15 de setembro de 1962. Segundo ele, “tudo estava
completamente sossegado. Ninguém deveria saber que
estávamos chegando, ou que aquilo seria anunciado”. Seguindo
instruções da NASA, Neil registrou-se no Rice Hotel com o nome
de “Max Peck”, como os outros oito selecionados. Na manhã
seguinte, em Ellington, a nova classe de astronautas da NASA se
reuniu pela primeira vez sob a direção de Slayton. Walt Williams, o chefe das operações de voo, deu aos homens uma descrição
de suas tarefas. Bob Gilruth, diretor do Centro de Espaçonaves
Tripuladas que tinha chefiado o Grupo de Trabalho do Espaço
desde o início, contou a eles que, como havia no cronograma
onze voos tripulados da Gemini, pelo menos quatro das Apollos
do bloco I (que seriam lançados no Saturno I) e um número ainda
indeterminado de Apollos do bloco II, inclusive a que faria o
primeiro pouso lunar, “haverá muitas missões para todos vocês”.
Slayton os alertou a respeito de algumas pressões e tentações
que enfrentariam. Disse-lhes que tivessem cuidado ao aceitar
presentes e cortesias, sobretudo de empresas que disputavam
contratos da NASA. Shorty Powers, da assessoria de imprensa
da NASA e “Voz do Programa Mercury”, encerrou informando aos
homens sobre a próxima entrevista coletiva. Então organizou os
nove astronautas para a primeira da que viria ser uma sequência
interminável de sessões de fotos.
Os 1.800 lugares do Auditório Cullen, da Universidade de
Houston, foram ocupados para o anúncio. Repórteres e
cinegrafistas das três maiores redes de televisão, das principais
emissoras de rádio, das agências de notícias, de dezenas de
jornais e revistas nacionais e internacionais se espremeram no
auditório à espera de conhecer a identidade dos novos
astronautas dos Estados Unidos. Em abril de 1959, a NASA,
ainda recém-nascida, tinha sido pega de surpresa pela sensação
pública que cercou a apresentação dos sete primeiros
selecionados. Dessa vez, mais calejada, a NASA estava muito
mais preparada para o assédio dos meios de comunicação. Isso
também ocorria com os próprios astronautas.
Os “New Nine” — Neil Armstrong, o major da Força Aérea
Frank Borman, o tenente da Marinha Charles Conrad Jr., o
capitão-tenente da Marinha James A. Lovell Jr., o capitão da
Força Aérea James A. McDivitt, Elliot M. See Jr., o capitão da
Força Aérea Thomas P. Stafford, o capitão da Força Aérea
Edward H. White II e o capitão-tenente da Marinha John W.
Young — formavam, de fato, um grupo notável. Na opinião de
pessoas que tiveram uma importância decisiva nos primórdios do
programa espacial tripulado do país, aquele era indubitavelmente o melhor grupo de astronautas já reunido. O nível de qualificação
do segundo grupo era muito mais alto que o dos Mercury Seven,
com a devida ênfase no conhecimento profundo da engenharia
que o conselho de seleção de astronautas da NASA tinha
buscado. Muitos deles eram engenheiros diplomados, e alguns
tinham mestrado na área. Armstrong tinha tudo isso menos a
conclusão de sua dissertação de mestrado em engenharia
aeroespacial pela Universidade do Sul da Califórnia.
A experiência do grupo em pilotagem e seu histórico no
mundo dos voos de teste era igualmente impressionante: a maior
parte deles contava com mais de duas mil horas no ar, e alguns
tinham recordes estabelecidos. Neil tinha 2.400 horas de voo,
cerca de novecentas em jatos. Era o único dos nove que tinha
voado em aeronaves propelidas por foguetes.
A média de idade do grupo era de 32 anos e meio; tinham
peso médio de 73,2 quilos e altura média de 1,77 metro. Com
1,80 metro de altura e 75 quilos, Armstrong estava ligeiramente
acima da média do grupo. Todos eram casados, nenhum deles
havia se divorciado e todos tinham filhos. Na lembrança de
Armstrong, “as perguntas na entrevista coletiva foram as de
sempre, nada refinadas — com respostas à altura”. Esse
comentário de duas faces — com a segunda parte
autodepreciativa — esclarece bem o que mais tarde se tornou
um mal-entendido sobre a natureza da atitude de Armstrong em
relação à imprensa.
A NASA esperava que Armstrong estivesse no Cabo
Canaveral junto com os outros novos astronautas para o
lançamento da Mercury de Schirra, mas este só foi marcado para
3 de outubro. Deixando nas mãos de Janet a maioria dos
preparativos da mudança da família para o Texas, Neil foi direto
para o trabalho em Edwards. Voou em todos os dias úteis até o
fim do mês.
O último voo de Armstrong como funcionário do FRC foi em 28
de setembro de 1962, em um F5D. Depois de um fim de semana
em casa, Neil pegou um voo comercial de Los Angeles não para
Houston, mas para Orlando, e de lá seguiu de carro até o Cabo
Canaveral, onde, em 3 de outubro, junto aos demais integrantes do New Nine, assistiu ao lançamento impecável de Schirra na
Sigma 7 do Programa Mercury.
No dia seguinte, Neil voltou a Edwards, já que sua
transferência do Centro de Pesquisa de Voo para o Centro de
Espaçonaves Tripuladas só ocorreria entre os dias 11 e 13
daquele mês. Em dois dias, ele e Elliot See, que morava em Los
Angeles, percorreram os 2.600 quilômetros até o Texas (antes da
autopista Interstate) no carro de See. Neil alugou um
apartamento mobiliado bem perto do aeroporto Hobby, e depois
partiu com os novos astronautas para examinar as dependências
dos fornecedores do programa espacial tripulado por todo o país.
De volta a Juniper Hills com uma passagem por Los Angeles
em 3 de novembro, Armstrong trocou seus dois carros por uma
van usada. A mudança da família já tinha sido despachada para
um guarda-móveis em Houston. Neil levou Rick com ele na van e
Janet foi de avião dois dias depois. Durante alguns meses, a
família Armstrong morou naquele apartamento mobiliado, até que
ficasse pronta sua casa na cidadezinha de El Lago, a poucos
minutos do Centro de Espaçonaves Tripuladas.