O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 29: O lado escuro da Lua
CAPÍTULO 29
O lado escuro da Lua
Não é surpresa que um dos heróis da infância de Armstrong
tenha sido Charles A. Lindbergh. Neil conheceu o aviador e sua
esposa, Anne Morrow, no lançamento da Apollo 8. “Fui
encarregado de recebê-lo e acompanhá-lo em um tour para lhe
mostrar as instalações. Na noite da véspera do lançamento,
levei-o para ver o Saturno V, todo iluminado com luzes de
xenônio. Como eu era o reserva de Frank Borman, não pude
passar muito tempo com Lindbergh.”
Na esfera privada, Neil teve chances de falar com Lindbergh
“diversas vezes” depois da Apollo 11. “Fomos juntos à reunião da
Sociedade de Pilotos de Testes Experimentais (SEPT, na sigla
em inglês) em Los Angeles, no fim de setembro de 1969. Ele
estava sendo admitido como sócio honorário, e nos sentamos
lado a lado no jantar.” Os dois também se correspondiam, e mais
tarde Neil faria o mesmo com Anne Morrow, antes e depois de se
tornar um dos presidentes do Fundo Memorial Lindbergh. O
famoso aviador fez uma pergunta retórica a Neil: “Fico
imaginando se na superfície da Lua você se sentiu como eu após
o pouso em Paris em 1927 — com a vontade de ter tido mais
tempo para olhar tudo ao redor.”
No banquete da SETP, Lindbergh ofereceu um conselho para
Armstrong: “Ele me disse para nunca dar autógrafos.
Infelizmente, passei trinta anos sem seguir esse conselho, e
provavelmente devia ter seguido.”
* * *
As cartas dos admiradores chegavam como um tsunami. Depois
do retorno da Apollo 11, Neil recebia dez mil mensagens por dia.
A correspondência chegava em forma de cartas, cartões,
telegramas, presentes e outros. Durante esse mesmo período,
Neil, Mike e Buzz fizeram sua viagem de 45 dias a 23 países;
Neil fez uma turnê de três semanas com Bob Hope pela
Organização de Serviços Unidos (USO, na sigla em inglês) e
também uma viagem de dez dias à União Soviética. À sua
espera em Houston havia centenas de milhares de cartões e
cartas a que ele deveria responder, sem contar o montante
enorme que ainda estava por vir.
A NASA fez o possível para apoiar enquanto ele ainda era
funcionário do governo, designando quatro funcionários
administrativos para ajudá-lo a lidar com a montanha de cartas.
Mas a NASA não dava conta, como explicou um funcionário da
área de relações públicas a um admirador que reclamava por não
ter recebido uma pronta resposta depois de enviar um presente
para Neil pelo correio. “Lamentamos muito que tenhamos lhe
causado certo descontentamento pelo que talvez pareça um
tratamento inadequado a seu presente ao sr. Armstrong. Na
época do pouso lunar, o Escritório de Astronautas não estava
preparado para a verdadeira avalanche de cartas e presentes
que chegava do mundo inteiro (…) O volume cada vez maior da
correspondência trouxe problemas logísticos e administrativos. A
correspondência precisava ser respondida; os presentes tinham
que ser guardados em segurança, registrados e agradecidos —
tudo isso além da carga normal de trabalho do escritório, sem
aumento de pessoal (…) Os próprios astronautas, quando suas
ocupações permitiam, ajudavam a escrever cartas de
agradecimento; e é bem possível que a carta manuscrita que o
senhor recebeu tenha sido escrita de próprio punho pelo sr.
Armstrong. Tomei a liberdade de enviar sua carta ao sr.
Armstrong, porque se ele soubesse como o senhor se sente, ia
querer lhe escrever diretamente e agradecer de maneira mais
apropriada por sua lembrança. Ele é esse tipo de pessoa.”
Durante os oito anos que Neil passou na Universidade de
Cincinnati, a maior parte da correspondência de admiradores chegava pela agência postal do campus, seu único endereço de
conhecimento público. Quando deixou a universidade, onde duas
secretárias se incumbiam de ajudá-lo com as respostas, Neil
compreendeu que lidar pessoalmente com a correspondência
seria uma carga inviável. Em fevereiro de 1980, alugou uma
pequena sala em Lebanon, Ohio, e contratou uma auxiliar
administrativa. Vivian White trabalhou para ele em tempo integral
durante dez anos; depois disso, reduziu a carga horária para
quatro dias e meio por semana.
“Durante os doze ou treze anos seguintes, ele assinava tudo o
que fosse pedido, exceto envelopes de primeiro dia. Depois, por
volta de 1993, ele descobriu que seus autógrafos estavam sendo
comercializados pela internet e que muitas dessas assinaturas
vendidas eram forjadas. Então parou de assinar. Mesmo assim,
recebíamos cartas dizendo: ‘Sei que o sr. Armstrong já não
assina, mas você poderia pedir a ele que abrisse uma exceção
para mim?’”
A partir de 1993, 99% da correspondência passou a ser
respondida com uma carta-padrão assinada por Vivian. Nos
poucos casos em que Armstrong acatou um pedido, ele escreveu
e assinou uma carta pessoal. Quando decidia responder a
alguma pergunta técnica, ele, segundo Vivian, “redigia a
resposta, eu digitava e acrescentava ao texto ‘o sr. Armstrong
pediu-me que lhe desse a seguinte informação’ e assinava.
Nunca respondemos a perguntas pessoais, era muita invasão de
privacidade”. No sistema de arquivamento de Vivian, elas iam
para o “arquivo redondo”: a lata de lixo.
A caminho do mar da Tranquilidade ainda a bordo do módulo
Columbia da Apollo 11, Neil fez questão de mandar um “oi a
todos os meus camaradas escoteiros do Parque Estadual
Farragut, em Idaho, que estão fazendo seu encontro nacional
nesta semana; a Apollo 11 gostaria de lhes mandar os nossos
cumprimentos.” Durante muitos anos a partir de então, ele
reservou um tempo para escrever cartas de congratulações aos
meninos que chegavam ao nível mais alto dos escoteiros, a
Águia. Depois que seu endereço foi postado na internet e ele
recebeu um dilúvio de pedidos (cerca de 950 pedidos de cartas de congratulações para novas Águias só nos cinco primeiros
meses de 2003), ele não pôde mais escrever cartas pessoais aos
escoteiros.
A decisão tardia de seguir o conselho de Charles Lindbergh
provocou decepção e até antagonismo, principalmente por
especuladores e, com maior frequência, por “colecionadores” de
autógrafos e memorabilia do espaço. Sem dúvida, a assinatura
de Armstrong continua sendo de longe a mais procurada entre os
autógrafos de astronautas. Objetos assinados por ele podem ser
vendidos até hoje em leilões virtuais por mais de 10 mil dólares.
As falsificações da assinatura de Neil Armstrong são muito mais
numerosas que as autênticas, estimando-se que as falsas
representem 90% do catálogo do eBay.
* * *
No terceiro aniversário da Apollo 11, em julho de 1972, foi
inaugurado em Wapakoneta o Museu do Ar e do Espaço Neil
Armstrong. A instituição, orgulho do governador de Ohio, James
Rhodes, começou com uma dotação de meio milhão de dólares
já decidida pela câmara estadual antes mesmo do fim da missão
Apollo 11. A parte externa foi desenhada para parecer uma lua
cheia. A pomposa inauguração do museu contou com a presença
de Tricia Nixon, de 26 anos, filha do presidente, que disse: “Pelo
que você fez, Neil, os céus se tornaram parte de nosso mundo.”
Diante de uma multidão de cinco mil pessoas, Tricia deu de
presente ao museu uma das três pedras que a Apollo 11 tinha
trazido da Lua: “É uma pedra que simboliza a capacidade da
humanidade de grandes realizações para construir um país
melhor e um mundo melhor.”
Armstrong adotou uma feição relativamente simpática para
lidar com a multidão naquele dia, na qual estavam muitos de
seus antigos amigos e vizinhos, mas não estava nem um pouco
satisfeito pela forma como o projeto do museu foi concebido: “Eu
deveria ter sido consultado. A política que segui desde o começo
foi nunca incentivar nem proibir o uso do meu nome em edifícios públicos, mas não aprovo seu uso em qualquer entidade
comercial ou não pública. Se a comissão organizadora tivesse
me consultado, com certeza eu teria dito que sim, porque era a
cidade em que moravam meus pais. No entanto, eu teria ficado
mais feliz se não houvessem usado meu nome, ou, no caso de
usarem, se tivesse sido feita uma outra abordagem no caso do
museu. Tentei apoiá-los como pude, presenteando-os com
materiais que tinha disponíveis, dando-os de presente ou
emprestando-os. Desde o início senti certo desconforto pelo fato
de o museu ter sido construído como ‘Museu de Neil Armstrong’.
Muita gente acreditou que o museu fosse uma propriedade
minha, um empreendimento comercial meu. A Sociedade
Histórica de Ohio em Columbus estava supervisionando o
museu, e eu disse a seu diretor que me sentia pouco à vontade
com aquilo. Perguntei a ele e a outro membro da comissão de
planejamento se seria possível fazer alguma coisa sobre a
questão de minha imagem pública e pedi que me respondessem
o que achavam. Eles disseram que seria possível, mas não o
fizeram.”
O relacionamento de Armstrong com a direção do museu
continuou estremecido durante quarenta anos, até sua morte em
2012. Em meados da década de 1990, por exemplo, houve a
questão de um cartão-postal com uma foto de Neil vestido de
astronauta, posto à venda na loja do museu. A imagem tinha sido
obtida com um fotógrafo oficial da NASA, feita quando ele era
funcionário do governo federal. Para Neil, era uma questão de
propriedade. Os direitos sobre a foto pertenciam ao povo, aos
próprios visitantes, pensava Neil, que “acham que eu sou o dono
do lugar”. O selo da Sociedade Histórica de Ohio era exibido na
porta principal, mas “é tão discreto que a maioria das pessoas
nem nota”. Finalmente, Armstrong cedeu sobre a questão da
foto, dando ao então diretor do museu, John Zwez, “minha
autorização temporária”.
Quanto ao nome do aeroporto de Wapakoneta, “mais uma vez,
ninguém me consultou. É um aeroporto público, portanto, se
tivessem pedido, eu provavelmente teria concordado. O
problema é que há estabelecimentos comerciais no aeroporto que adotaram o mesmo nome, como ‘Loja de Eletrônicos Neil
Armstrong.’”
* * *
Na década de 1990, Armstrong teve um desentendimento com a
Hallmark, empresa de cartões comemorativos. “O caso com a
Hallmark foi simples”, conta Neil. “Eles inventaram um enfeite de
árvore de Natal que continha um pequeno astronauta. Havia
também uma gravação com a minha voz, e o meu nome aparecia
na caixa.” A Hallmark anunciou o produto dizendo: “A Lua brilha
como as famosas palavras ditas por Neil Armstrong quando ele
desceu até lá e entrou para a história.” Infelizmente, o pessoal da
Hallmark não tinha — nem pediu — sua autorização. Nem seguiu
os procedimentos determinados pela NASA para questões dessa
natureza. Assim, em 1994, Neil processou a Hallmark. Wendy
Armstrong, esposa de seu filho Mark, foi sua advogada. No fim
de 1995, as duas partes chegaram a um acordo: “A Hallmark
Cards anunciou hoje que chegou a um acordo com o astronauta
Neil Armstrong, da Apollo 11, sobre o uso de sua imagem em um
enfeite de Natal no ano passado. Armstrong alegou que seu
nome e sua imagem foram usados sem sua autorização no
enfeite, que celebrava o 25o aniversário do pouso da Apollo 11.
Os termos do acordo não foram revelados, mas uma fonte
informou que o montante é elevado. Armstrong pretende doar a
indenização recebida da empresa sediada em Kansas City,
deduzidos os impostos, à Universidade Purdue, da qual foi
aluno.” Mais tarde, a instituição de ensino confirmou ter recebido
o dinheiro.
Neil achava que a “NASA também não era muito cuidadosa
com o assunto. Até então, ela tinha sido bastante desleixada no
trato dos direitos individuais. Agora, recebo cartas que
mencionam corretamente a posição da NASA quanto a pedir
minha aprovação, mas antes isso não acontecia. Recebo muitos
pedidos, a alguns dos quais atendi [alguns sem ônus, outros
mediante pagamento] e a outros, não.
“Em muitos casos, quando são anúncios de organizações sem
fins lucrativos ou de serviços públicos, aprovo. No início, eu não
tinha o cuidado de registrar essas coisas e dizia simplesmente
‘sim, tudo bem.’ Então, depois de conhecer o mundo legal,
reconheço que é preciso ter todo tipo de garantia.”
Uma questão legal ainda mais repulsiva teve relação com a
venda do cabelo de Neil. No começo de 2005, a barbearia de
Lebanon, Ohio, que Neil frequentou durante mais de vinte anos,
vendeu por 3 mil dólares mechas do cabelo do célebre cliente a
um homem de Connecticut, que, segundo o Guinness World
Records, tinha a maior coleção de cabelo de “celebridades
históricas”. Em uma conversa particular nos fundos da barbearia,
Neil pediu ao barbeiro que devolvesse o cabelo ou doasse os 3
mil dólares a uma instituição de caridade escolhida por ele. Como
isso não deu resultado, o advogado de Neil mandou ao barbeiro
uma carta de duas páginas que mencionava uma lei de Ohio de
proteção do nome de suas celebridades. Em vez de tratar o
assunto de maneira reservada, o barbeiro mandou a carta para a
imprensa local. A estranha história atraiu a curiosidade do mundo
inteiro.
* * *
Armstrong também se viu involuntariamente envolvido em
controvérsias religiosas, nenhuma das quais suscitada por ele.
Muitos grupos religiosos desejavam ligar as narrativas de seu
sistema de crenças à exploração do espaço. Alguns críticos do
Programa Apollo chegaram a dizer que caminhar na superfície de
um corpo celeste como a Lua era um ato “sem Deus”. Circularam
boatos de que Buzz Aldrin tinha sido maçom, e que Neil
Armstrong havia se convertido ao islã depois de ouvir uma voz
cantando em árabe conforme caminhava no mar da
Tranquilidade. Mais tarde, depois de voltar à Terra, Armstrong
teria percebido que o canto ouvido na superfície lunar era o
Adhan, o chamado muçulmano para a oração. Então Neil teria se
convertido ao islã, se mudado para o Líbano (e não Lebanon, em Ohio) e visitado diversos lugares sagrados muçulmanos, entre os
quais a mesquita turca onde um dia Malcolm X rezou.
A história da conversão de Armstrong se espalhou de tal forma
no começo da década de 1980 que houve a necessidade de
resposta não só por parte dele, mas também do governo
americano. Em março de 1983, o Departamento de Estado
enviou a seguinte mensagem a todas as embaixadas e
consulados dos Estados Unidos no mundo islâmico negando o
boato:
1. O ex-astronauta Neil Armstrong, agora longe dos
holofotes, foi tema de reportagens da imprensa no Egito,
na Malásia e na Indonésia (e talvez em outros países) que
afirmaram sua conversão ao islã durante seu pouso na
Lua em 1969. Como consequência dessas reportagens,
Armstrong recebeu o contato de pessoas e organizações
religiosas, e sondagens de pelo menos um governo sobre
sua possível participação em atividades islâmicas.
2. Destacando seu mais profundo desejo de não ofender
ninguém ou manifestar desrespeito em relação a qualquer
religião, Armstrong informa que sua conversão ao islã
falta com a verdade.
3. Se forem recebidos convites a respeito, Armstrong
solicita, com cortesia e firmeza, que seja informado que
ele não se converteu ao islã e não tem planos nem
intenção de viajar ao estrangeiro para participar de
atividades religiosas islâmicas.
Fosse qual fosse a ajuda do Departamento de Estado no
sentido de esclarecer o ponto de vista de Armstrong, ela não foi
suficiente. Os pedidos para que fosse a países muçulmanos e a
eventos islâmicos tornaram-se tão frequentes que, em meados
da década de 1980, Neil se sentiu compelido a tomar uma
atitude. “Estávamos recebendo uma enxurrada de informações,
inundados de perguntas sobre o assunto, vindas
predominantemente do mundo islâmico, mas também do mundo
não islâmico, que queria saber: ‘Isso não pode ser verdade, pode?’ Finalmente, concluímos que precisávamos de alguma
coisa oficial à qual os jornalistas pudessem recorrer. Usamos de
novo o Departamento de Estado, dessa vez para ajudar na
produção.” Finalmente, Neil marcou uma entrevista coletiva por
telefone no Cairo, Egito, cidade à qual um grande número de
jornalistas do Oriente Médio poderia ir e “ouvir que não havia
nada de verdade nesse longo boato, fazer perguntas e receber
minhas respostas”. “Até que ponto isso ajudou é impossível
saber, mas com certeza não erradicou por completo as
indagações.” Alguns se apegavam à ideia de que o governo
americano não queria que seu grande herói fosse identificado
como muçulmano, por isso o obrigava a desmentir sua fé em
público.
Posteriormente, a história ficou ainda mais enfeitada ao incluir
que a Apollo 11 tinha descoberto que a Terra emite radiação (o
que é verdade) e que a fonte da radiação ficava na Caaba em
Meca, provando que a cidade sagrada é “o centro do mundo”.
Nos últimos anos da vida de Neil, Vivian White tentou com
insistência esclarecer em definitivo as coisas com uma carta
circular afirmando que “os relatos sobre sua conversão ao islã e
sobre ter ouvido o chamado do Adhan na Lua ou em qualquer
lugar são todos inverídicos.” Até hoje, uma busca na internet de
“Neil Armstrong + Islam” gera 573 mil resultados.
Armstrong entendia por que faziam essas projeções sobre ele.
“Descobri que muitas organizações, às quais não pertenço, me
reivindicam como membro, e uma porção de famílias — de
sobrenome Armstrong e outros — fazem conexões com a minha,
a maior parte delas inexistente. Muitas pessoas se identificam
com o sucesso da Apollo. A afirmação segundo a qual me tornei
muçulmano é apenas uma versão extrema do comportamento
das pessoas que dizem conhecer alguém que não podem deixar
de conhecer.”
Por ser tão fechado, Armstrong acabou virando um mito
personificado, um grande enigma a ser preenchido com
significado.
Na década de 1970, Erich von Däniken, autor de Eram os
deuses astronautas? (1969), tentou transformar Armstrong em um colaborador em sua sensacional (e vendável) teoria dos
“antigos astronautas”, seres extraterrestres que teriam visitado a
Terra no passado remoto e deixado vários traços arqueológicos
de suas atividades civilizatórias. Em agosto de 1976, Armstrong
acompanhou um regimento escocês de fuzileiros em uma
expedição científica à imensa Cueva de los Tayos, situada em
um ponto remoto do Equador, descoberta pelo argentino Juan
Moricz. Na época, Neil não sabia que em O ouro dos deuses
(1972), continuação de Eram os deuses astronautas?, Von
Däniken relatava sua própria exploração da Cueva de los Tayos,
na qual ele dizia ter encontrado inúmeros indícios arqueológicos
de presença extraterrestre, acrescentando que certas passagens
na caverna eram quadradas demais para terem sido esculpidas
naturalmente. “Mas a conclusão de nosso grupo expedicionário”,
declarou Neil, “foi que se tratava de formações naturais.”
As reportagens que saíram sobre a expedição a Los Tayos e o
papel desempenhado por Armstrong tornaram claro que as
afirmações de Von Däniken sobre a caverna eram falsas. Em
uma carta de duas páginas escrita a Neil em sua casa em
Zurique, no dia 18 de fevereiro de 1977, Von Däniken disse ao
astronauta mais famoso do mundo que sua “expedição não pode
ter sido à minha caverna”. Von Däniken instou Armstrong “a
participar de uma expedição à caverna que estou planejando”
com a qual “relíquias de uma civilização extraterrestre seriam
examinadas”. Armstrong respondeu de maneira educada: “Por
causa de minha origem escocesa, e pelo fato de que a
participação do Reino Unido nesse projeto foi em grande parte
escocesa, fui convidado para ser presidente honorário da
expedição e aceitei (…) Não li seus livros e não conheço
nenhuma relação que o senhor possa ter com a caverna. Não
faço afirmações sobre nenhuma das hipóteses que o senhor
propõe (…) Agradeço seu gentil convite para tomar parte em sua
próxima expedição, mas estou impossibilitado de aceitar.”
* * *
E que dizer do “sr. Gorsky”?
Pouco antes de reentrar no módulo lunar, ao término da
atividade extraveicular da Apollo 11, Armstrong teria feito um
comentário enigmático: “Boa sorte, sr. Gorsky.” Alguns jornalistas
na Missão de Controle interpretaram esse comentário como uma
referência a um cosmonauta soviético. No entanto, não havia
nenhum Gorsky no programa espacial soviético. Ao longo dos
anos, muita gente perguntou a Armstrong sobre o significado da
alusão ao sr. Gorsky, mas Armstrong se limitava a sorrir. A
história reapareceu em 1995 durante um discurso em Tampa,
Flórida, quando Armstrong finalmente respondeu à pergunta de
um repórter sobre o tema. Como o sr. Gorsky já tinha morrido,
Neil achou que poderia responder à pergunta. Certo dia, quando
era menino, estava jogando beisebol com um amigo no quintal.
Seu amigo rebateu uma bola que foi parar diante da janela do
quarto da casa vizinha.
Os vizinhos eram o sr. e a sra. Gorsky. Ao se aproximar para
pegar a bola, o pequeno Armstrong ouviu a sra. Gorsky gritar
para o marido:
“Sexo oral! Você quer sexo oral?! Você vai ter sexo oral
quando o menino do vizinho pisar na Lua!”
O caso do “sr. Gorsky” sempre fazia as pessoas rirem, e era
isso que o comediante Buddy Hackett esperava quando contou a
anedota (aparentemente inventada por ele) no programa Tonight
Show, da NBC, lá pelo ano 1990. Apesar da facilidade com que o
caso pode ser desmascarado, e apesar das várias tentativas na
internet de explicar que esse caso é uma lenda urbana (uma
busca de “Armstrong” e “Gorsky” traz 558 mil resultados), ela é
engraçada a ponto de muita gente continuar lendo e passando
adiante, seja qual for sua origem.
“Isso não é verdade em absoluto. Eu mesmo ouvi Hackett
contando essa história em um evento de caridade.”
* * *
Mesmo na época da Apollo 11, houve quem acreditasse que os
pousos na Lua nunca ocorreram — eram uma fraude imposta ao
mundo pelo governo dos Estados Unidos por motivos políticos. A
Sociedade da Terra Plana tinha uma ativa militância. Mas a ideia
de uma farsa ampliou-se muito em 1977 por causa de
Capricórnio Um, uma fantasia conspiratória de Hollywood não
sobre o pouso na Lua, mas sobre a primeira missão tripulada a
Marte. Nessa história, a NASA tentava encobrir os grandes
defeitos de uma espaçonave obrigando seus astronautas a
representar a viagem diante das câmeras e enganar o mundo,
levando-o a acreditar que a viagem tinha sido feita. Embora
medíocre, Capricórnio Um nunca deixou de convencer um
pequeno número de céticos.
Como não podia deixar de ser, houve não só quem preferisse
acreditar em alguma versão da teoria da conspiração lunar como
quem visse um modo de tirar proveito disso. Em 1999, a Fox
transmitiu um “documentário” chamado Conspiracy Theory: Did
We Land on the Moon? (Teoria da conspiração: pousamos
mesmo na Lua?), baseado em um vídeo de baixo orçamento
produzido por um autointitulado “repórter investigativo” de
Nashville, Tennessee. Chamado A Funny Thing Happened on the
Way to the Moon (Aconteceu uma coisa engraçada no caminho
para a Lua), o vídeo dizia que os pousos na Lua eram um truque
engenhoso do governo dos Estados Unidos para ganhar a
Guerra Fria: forçando o Kremlin a investir somas astronômicas
em seu programa lunar, ele apressaria o colapso do comunismo
soviético arruinando a economia e provocando a queda do
governo por ação interna.
Não importava que cada uma das “provas” descobertas pelo
programa sensacionalista repetisse como um papagaio os
mesmos argumentos desinformados sobre a Apollo que foram
ventilados durante duas décadas — ou seja, que a bandeira
americana fincada pela Apollo 11 parece tremular, em um lugar
onde não pode haver vento; que não há estrelas em nenhuma
das fotos feitas na superfície lunar; que as fotos feitas pelos
astronautas da Apollo 11 eram “boas demais” para serem reais;
que as temperaturas de 200ºC ou mais da superfície lunar teriam cozinhado a câmera; que a força do motor de pouso do módulo
lunar teria aberto uma cratera sob o módulo; que ninguém pode
passar incólume pela “radiação mortal” do cinturão de Van Allen;
e outros mais. Alguns telespectadores sucumbiram à farsa;
outros, a seu legado mais sombrio.
Quando respondia por escrito às teorias da conspiração,
Armstrong normalmente o fazia por intermédio de sua secretária,
Vivian White, com palavras dele, mas a assinatura dela. A
explicação de Neil era direta e lógica, como era de esperar de um
engenheiro: “Os voos são indiscutíveis no mundo técnico e
científico. Todas as sociedades científicas respeitáveis confirmam
os voos e seus resultados. As tripulações foram vistas ao entrar
na aeronave na Flórida e vistas ao serem resgatadas no oceano
Pacífico. Os voos foram rastreados por radar em inúmeros
países durante toda a ida até a Lua e a volta. As tripulações
mandaram para a TV fotos da viagem, inclusive de seu voo sobre
a paisagem lunar e sobre a superfície, fotos de cenas lunares até
então desconhecidas e agora confirmadas. As tripulações
trouxeram amostras da superfície lunar, que incluíam alguns
minerais não encontrados na Terra.” Vivian dizia ainda que “o sr.
Armstrong acredita que a única coisa mais difícil que um voo
lunar é falsificá-lo com êxito.”
“As pessoas adoram teorias da conspiração”, disse Neil ao
autor deste livro. “Deixam-se atrair por elas. Pelo que me lembro,
após a morte de Franklin D. Roosevelt, houve quem dissesse
que ele ainda estava vivo em algum lugar. E, claro, ‘Elvis está
vivo!’. Sempre vai haver aquele elemento marginal a respeito de
qualquer coisa, e incluo as teorias da conspiração nessa
categoria. Isso não me incomoda. Com o tempo, vai passar. Em
geral, elas são praticamente ignoradas salvo pelos picos que
ocorrem quando alguém escreve um livro, publica uma matéria
ou mostra alguma coisa na TV.” Infelizmente, o tempo de
acreditar nessa conspiração ainda não passou. Uma pesquisa de
opinião publicada por um jornal britânico de circulação nacional
em 2016 revelou que “52% dos britânicos não acreditam que
aquilo aconteceu de verdade.”
* * *
Ao longo dos anos, Armstrong teve sua cota de “malucos” —
entre seus papéis particulares (atualmente nos arquivos da
Universidade Purdue), há diversas pastas de cartões e cartas
que Neil rotulou como “charlatães”. A maior parte dessas
pessoas era inofensiva, mas algumas eram totalmente
cansativas e até assustadoras. De vez em quando, Neil e a
família precisaram chamar a polícia para avaliar o potencial da
ameaça.
A maior e mais frequente amolação vinha do homem que fez o
vídeo A Funny Thing Happened on the Way to the Moon. O
chato, acompanhado de um assistente que levava uma filmadora,
apareceu em diversas ocasiões, inclusive no encontro anual dos
acionistas da EDO Corporation, em Nova York, em 2001. O
presidente da EDO, James Smith, relembrou a cena: “O cara
apareceu com uma Bíblia, gritando: ‘Neil Armstrong, você jura
diante desta Bíblia que esteve na Lua?’ Bem, os presentes
imediatamente começaram uma avalanche de vaias, mas o
intruso continuou: ‘O resto do mundo sabe que você não esteve
lá, então por que não admite isso?!’ Aquilo logo virou um
empurra-empurra, então eu e alguns outros tiramos o cara dali.
Depois disso, nunca mais fizemos uma reunião sem contratar
seguranças.”
“Se eu tivesse a oportunidade de reviver esse episódio”,
comentou Armstrong, “não teria permitido que meus camaradas
me escoltassem para fora da sala. Simplesmente teria falado à
multidão: ‘Esta pessoa acredita que o governo dos Estados
Unidos cometeu uma fraude contra todos vocês, e ao mesmo
tempo quer exercer o direito de manifestar livremente sua opinião
protegido pelo governo dos Estados Unidos.’”
Poucos meses depois da reunião da EDO, em 9 de setembro
de 2002, o mesmo homem da Bíblia confrontou Buzz Aldrin na
porta de um hotel em Beverly Hills. Buzz, que morava em Los
Angeles, tinha ido ao hotel achando que seria entrevistado por
uma rede de televisão educativa do Japão. De início, Aldrin,
acompanhado da enteada, tentou responder às perguntas do homem, depois fez o que pôde para afastar-se dele. Mas o
insistente cineasta independente o seguiu para fora do hotel,
instruindo o assistente a continuar filmando, enquanto gritava
para Buzz: “Você é um covarde e um mentiroso.” Aldrin foi tão
acossado e se irritou tanto que, aos 72 anos e com setenta
quilos, golpeou o homem de 37 anos e 110 quilos com um rápido
gancho no queixo. O homem de Nashville deu queixa à polícia,
mas, depois de ver o vídeo gravado pelo próprio acusador, o
procurador do condado de Los Angeles não abriu processo.
Como mais tarde a autointitulada “vítima” diria aos repórteres, “se
eu tivesse pisado na Lua e alguém me pedisse que jurasse sobre
a Bíblia, eu juraria sobre uma pilha de Bíblias”.
Mesmo antes dos incidentes da EDO e de Aldrin, o tal
cineasta tinha entrado sem ser convidado na casa da família
Armstrong, no subúrbio de Cincinnati. A segunda esposa de Neil,
Carol, contou o que aconteceu: “Neil estava no escritório. O cara
que bateu na porta trazia consigo um cachorro enorme e um
pacote. Abri a folha interna da porta, deixando a de fora fechada,
e o homem perguntou: ‘Neil está em casa?’ Respondi que não e
perguntei se poderia ajudar em alguma coisa. Ele abriu a porta
interna e entrou, com cachorro e tudo. Disse: ‘Quero que ele
assine isto’, mas contestei: ‘Neil não assina mais nada.’ ‘Ele vai
assinar isto’, gritou, e foi embora. A ficha caiu três minutos
depois. De repente, comecei a tremer.” Nas semanas seguintes,
o intruso começou a pôr cartas e outras coisas na caixa de
correio da família Armstrong. Alguns desses materiais tinha
conotação religiosa, e a maior parte falava sobre a falsificação do
pouso na Lua. A delegacia de polícia local se manifestou:
“Provavelmente não é nada, mas tragam as fitas e as cartas para
darmos uma olhada.” Até que uma ligação para a ABC TV de
Nashville revelou que o homem nunca tinha trabalhado lá. Ele
era, na verdade, um cineasta independente que dirigiu um
empreendimento chamado ABC Video. Semanas depois, Carol
recebeu um telefonema de sua vizinha: “Carol, aquele carro está
parado aqui há um tempão.” A vizinha saiu para investigar e viu
vários equipamentos de filmagem no banco de trás. O cerco continuou por três dias, culminando com uma perseguição de
carro envolvendo a família Armstrong, o intruso e a polícia.
Uma última indicação da extraordinária iconografia associada
a Armstrong e a sua viagem à Lua ocorreu no verão de 2017,
cinco anos depois de sua morte, quando a venda de uma
bolsinha de pano vazia manchada com umas poucas partículas
de poeira lunar usada por Neil em sua atividade extraveicular
tornou-se “o mais valioso artefato espacial já vendido em leilão”.
Na terça-feira, 20 de julho de 2017, no 48o aniversário do pouso
lunar da Apollo 11, a mundialmente famosa casa de leilões
Sotheby vendeu a bolsa de “amostras lunares” (de trinta
centímetros por vinte) por 1,8 milhão de dólares (houve quem
dissesse que a venda foi feita por quatro milhões) durante o
primeiro leilão da empresa totalmente dedicado a relíquias do
programa espacial americano (o leilão ocorreu na galeria nova-
iorquina e pelo eBay).
A descrição do objeto feita pela Sotheby’s (lote 102) dizia:
“Este [a bolsa de descontaminação usada pela Apollo 11 para
transportar amostras lunares] é com certeza o mais raro e mais
importante artefato da exploração espacial já posto à venda.
Trata-se de uma verdadeira raridade: um objeto usado para
proteger a primeira amostra lunar, colhida pelo primeiro homem
na Lua, durante o primeiro pouso lunar.” Em agosto de 2015, a
sacolinha com um bolso fechado a zíper, usada como “bolsa de
descontaminação” para proteger o meio quilo de poeira lunar e
os doze fragmentos de rocha (a “amostra contingencial”)
coletados por Neil, tinha sido vendida por engano em um leilão
pela internet, comandado pela Gaston & Sheehan Auctioneers e
em representação do Serviço de Delegados dos Estados Unidos,
que em 2003 tinha encontrado e apreendido a sacola em uma
busca realizada na garagem de Max Ary, diretor do museu
espacial Cosmosfera em Hutchinson, Kansas. “Como a bolsinha
foi parar lá ninguém sabe”, dizia um artigo da Space.com em
agosto de 2016, na cobertura jornalística de dois processos
judiciais que disputavam a posse legítima do objeto (embora
tenha se declarado inocente, Ary cumpriu dois anos de prisão e
alienou a bolsinha — que, segundo ele, pertencia a sua coleção espacial particular — para ajudar a pagar os 132.274 dólares de
indenização. Atualmente, Ary é diretor do Museu do Ar e do
Espaço em Stafford, Oklahoma).
Quem comprou a bolsa no leilão de agosto de 2015 foi uma
advogada de Illinois, Nancy Lee Carlson, que arrematou o objeto
com um lance de apenas 995 dólares. Querendo saber
exatamente o que tinha comprado, Nancy Carlson entrou em
contato com Ryan Zeigler, curador das amostras coletadas pelo
Programa Apollo no Centro Espacial Johnson da NASA.
Submetida a exame técnico, a poeira encontrada na bolsa não só
era autêntica como originária da Apollo 11, o que até então não
se sabia. Ciente da importância histórica da sacola de amostras
dos primeiros passos da humanidade na Lua, a NASA confiscou-
a e guardou-a a sete chaves no Centro Espacial Johnson — até
que um tribunal federal determinou que ela deveria ser devolvida
à pessoa que foi considerada sua legítima dona, Nancy Lee
Carlson, que depois a entregou à Sotheby’s para ser leiloada.
Obviamente, o alto preço da celebridade — mesmo para uma
sacola — lança uma pesada carga sobre o legado histórico do
Primeiro Homem na Lua.