O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 15: A mulher do astronauta
CAPÍTULO 15
A mulher do astronauta
Para os sete mil habitantes de Wapakoneta, Neil era um “herói
espacial”. Em 13 de abril de 1966, três semanas depois de seus
conterrâneos se sentarem nervosamente em volta de seus
televisores esperando notícias do mergulho de seu garoto na
Gemini, o vilarejo em Ohio recebeu quinze mil convidados para
um baile de gala em homenagem a Neil.
Armstrong não estava em clima de comemoração, mas
Wapakoneta fez o pedido, a NASA deu o selo de aprovação, e o
evento aconteceu. Para seus antigos amigos e vizinhos, o
astronauta fez a cara mais simpática que pôde. Ainda que fosse
um dia frio de início de primavera, Neil e Janet sorriram e
acenaram desfilando pela cidade em um conversível do
aeroporto até o local da festa. Após uma breve coletiva de
imprensa, o desfile seguiu pelo centro comercial embandeirado
de Wapakoneta até a Blume High School, escola onde Neil se
formara. Neil empolgava todo mundo, dizendo: “Vocês são minha
gente, eu tenho orgulho de vocês.” Ele disse que o baile foi
“magnífico” e repetiu várias vezes para as multidões que a
recepção foi “mais do que eu mereço”. Esteve presente o
governador James Rhodes, que anunciou uma parceria entre o
estado e o condado de Auglaize para a construção de um
aeroporto com o nome de Neil. Os pais dele irradiavam orgulho,
aliviados com a chegada do filho depois da missão quase
desastrosa.
Não fosse pela regra tácita da NASA segundo a qual as
mulheres dos astronautas não deveriam comparecer ao Cabo
Kennedy para os lançamentos, Janet Armstrong poderia ter
estado na Flórida naquela noite terrível. Mas ela ficou em casa, em El Lago, cuidando de seus meninos (Mark Stephen
Armstrong tinha nascido em 8 de abril de 1963) enquanto recebia
a irmã e alguns outros hóspedes. A NASA mantinha as esposas
afastadas dos lançamentos para “protegê-las”. Se ocorresse um
desastre na plataforma de lançamento, ninguém iria querer que
uma viúva fosse exposta à audiência televisiva de milhões de
pessoas.
Para os astronautas, o motivo para deixar as mulheres em
casa era outro. Deke Slayton não as queria no Cabo Kennedy.
Nos dias de nervosismo que antecediam o lançamento, a
presença de uma esposa só serviria para distrair a atenção do
marido. Nenhum astronauta se arriscava a incitar a ira de Deke.
Algumas esposas suspeitavam que seus maridos estavam tendo
casos extraconjugais; talvez algumas tivessem certeza disso.
Gente da imprensa que cobria as atividades da NASA sabia de
alguns episódios de indiscrição, mas essas coisas não eram
publicadas no Estados Unidos da década de 1960. A infidelidade
não era um motivo de preocupação para Janet. E ficar sozinha
em casa não era novidade para ela. “Quando os homens estão
se preparando para um voo”, explicou Janet em uma entrevista
para Dodie Hamblin, da Life, em março de 1969, “eles em geral
pouco vêm para casa. Chegam nos fins de semana, mas com
trabalho a fazer. Damos sorte quando eles têm tempo de entrar
em casa, sentar-se no sofá e nos cumprimentar antes de ter que
ir embora de novo no dia seguinte. Tê-los em casa durante oito
horas é um privilégio nessas ocasiões.”
Quanto aos perigos da área em que Neil trabalhava, “sem
dúvida, entendo que haja riscos envolvidos na profissão dele.
Acho que passamos anos nos preparando para uma possível
tragédia, porque o perigo está presente. Mas tenho muita
confiança no programa espacial. Sei que Neil confia nele, então
confio também.”
Ainda assim, a pressão do primeiro lançamento de Neil, em
março de 1966, foi diferente, mais extrema. Para o voo da
Gemini VIII, não foram permitidas câmeras de televisão dentro da
casa dela, mas estavam todos a postos para começar a filmar a
qualquer momento que Janet saísse. Na sala de estar de Janet, havia um fotógrafo da revista Life. Ela se deu conta de que
estava sempre na berlinda, como as mulheres de todos os
astronautas durante uma missão espacial. Quando Neil e Dave
tiveram problemas, Janet foi até a sede do controle da missão.
Com ela estava o encarregado de relações públicas da NASA
escolhido para acompanhar a família e ficar com ela durante a
missão. Assim que o problema com a Gemini VIII se tornou
público, a NASA desligou os comunicadores que a agência
disponibilizava às famílias dos astronautas, deixando Janet e
Lurton Scott, esta em sua casa em Nassau Bay, ali perto,
totalmente no escuro em relação ao que estava acontecendo. O
encarregado de relações públicas de Janet cedeu à sua
insistência e levou-a ao Centro de Espaçonaves Tripuladas, mas
ela foi proibida de entrar. Era compreensível que Janet ficasse
furiosa com o fato de a mulher de um astronauta ser impedida de
entrar em um lugar seguro para acompanhar o que estava
acontecendo dentro da sede do controle da missão.
“Nunca mais faça isso comigo!”, diria Janet a Deke Slayton.
“Se houver um problema, quero estar dentro do controle da
missão, e se você não me deixar entrar, vou contar para todo
mundo!” Em relação ao desligamento dos comunicadores, Janet
foi compreensiva: “A NASA não sabia quem estava em nossas
casas ouvindo os comunicadores. Poderia haver vazamento de
informações que a NASA não queria que fossem divulgadas em
uma situação crítica, e por isso tinha uma política de interromper
a comunicação com nossas casas durante uma crise. Isso era
completamente compreensível por razões de segurança.” O que
ela não aceitava era a proibição de entrar em um local seguro
para acompanhar a situação dentro do controle da missão. “Tudo
bem, os homens teriam se sentido mal se alguma coisa terrível
acontecesse com nossos maridos, e poderia ter sido difícil para
eles nos ver lá, mas meu comentário para Deke foi: ‘Bem… E as
mulheres?’”
A Life criou uma versão da experiência de Janet que a
enfureceu quase tanto quanto o tratamento dispensado a ela pela
NASA. Em sua matéria inicial sobre o voo da Gemini VIII, a
revista publicou uma foto melodramática de Janet de joelhos, “ouvindo, mas não olhando” enquanto ela estava apoiada no
televisor da sala. A legenda dizia que a foto fora tirada assim que
ela “recebera a notícia de que os astronautas haviam sido
resgatados e estavam em boas condições”. A legenda citava
Janet dizendo: “Eu simplesmente sabia que eles iriam conseguir.
Mas também sou fatalista.” A verdade terminava ali. “A foto
publicada na revista Life em que eu aparecia ajoelhada em frente
à TV foi porque o comunicador ficava ali.” (A foto tinha sido feita
na casa dela antes que o comunicador fosse desligado.) “Eu
estava ajoelhada com os olhos fechados tentando me concentrar
no que estava sendo dito, mas parecia que estava rezando e blá-
blá-blá. Bem, isso não é verdade.”
* * *
Por conta da trágica morte de Elliot See e Charlie Bassett dias
antes da Gemini VIII, a NASA deveria ter tido muito mais
consideração pelas mulheres dos astronautas. See e Armstrong,
os dois civis escolhidos pela NASA do grupo dos New Nine em
1962, ficaram muito próximos ao trabalhar lado a lado como
tripulação reserva da Gemini V. Nessa função, passavam
bastante tempo juntos, assim como Janet e a mulher de Elliot,
Marilyn. Desde Chet Cheshire, na Coreia, Neil não tivera outro
amigo tão chegado: “Elliot era trabalhador, diligente. Trabalhou
muito na Gemini V. Tinha boas ideias e gostava de expressá-las.
Ele podia não ter a mesma personalidade que a maioria dos
astronautas, mas ser um pouco diferente não significa
necessariamente ser ruim. Ouvi de outros astronautas que suas
qualidades como piloto — particularmente no trato com
instrumentos — não eram tão boas. Voei com ele durante muito
tempo e não me lembro de nada que me preocupasse muito.”
A morte de Elliot e seu parceiro de tripulação da Gemini XI,
Charlie Bassett, ocorreu durante o pouso de seu T-38 no Lambert
Field, em St. Louis, em 28 de fevereiro de 1966. Os dois homens
tinham saído de Houston acompanhados de Tom Stafford e Gene
Cernan, em outro T-38, para um período de treinamento no simulador de aproximação da McDonnell. Ao se aproximarem do
campo em condições climáticas ruins, os dois aviões saíram da
pista de pouso. Stafford escapou da neblina, circulou e pousou
em segurança. Esperando manter o campo de pouso à vista, See
inclinou para a esquerda a fim de ficar abaixo das nuvens. Seu T-
38 deslizou para uma altitude baixa demais e a aeronave bateu
no Prédio 101, onde os técnicos da McDonnell trabalhavam na
Gemini IX. Elliot e Charlie morreram na hora; não houve mais
vítimas fatais.
Em 2 de março de 1966, a duas semanas do lançamento da
Gemini VIII, Neil e Janet se reuniram a muitas outras pessoas
enlutadas para os dois serviços fúnebres dos colegas mortos. No
dia seguinte, com todos os astronautas presentes, Elliot e
Bassett foram sepultados no Cemitério Nacional Arlington, perto
de Washington, D.C. Em 1964, Theodore C. Freeman tinha sido
o primeiro astronauta americano a perder a vida quando seu T-38
de treinamento caiu ao ir de encontro a um bando de gansos.
Quem primeiro apareceu com a terrível notícia foi um repórter de
um jornal de Houston. Ao saber que o marido estava morto, Faith
Freeman ficou inconsolável. A imprensa não foi mais delicada
com Marilyn See e Jeannie Bassett. Poupada de detalhes
escabrosos pela NASA e apoiada pelas mulheres de outros
astronautas praticamente o tempo inteiro, Jeannie Bassett ficou
sabendo por uma reportagem da revista Time que o marido tinha
sido decapitado no acidente.
* * *
Seis meses antes da tragédia de Freeman, em 24 de abril, às
três horas da manhã, Janet despertou sentindo cheiro de fumaça.
Acordou Neil, que pulou da cama para investigar. Segundos
depois, ela ouviu os gritos dele, dizendo que a casa estava
pegando fogo. Sem conseguir falar com uma telefonista ou com o
número de emergência, Janet correu para o quintal e pediu
socorro aos amigos e vizinhos, Ed e Pat White.
White e Armstrong, membros dos New Nine, tinham chegado
com a família a Houston no outono de 1962. Vários outros
astronautas moravam na mesma área, assim como muitos
gerentes da NASA. Os Bormans, Youngs, Freemans e Staffords
construíram suas casas na área de El Lago, a um quarteirão e à
volta da esquina dos Whites e Armstrongs. Os Sees, Carpenters,
Glenns, Grissoms e Schirras também moravam ali por perto.
Juntas, as duas vizinhanças formavam uma colônia de
astronautas.
Neil e Janet ficaram muito amigos dos vizinhos da casa ao
lado, os Whites. Separando os dois quintais, havia uma cerca de
madeira de 1,80 metro de altura. Ed e Pat ouviram Janet pela
janela de seu quarto. Felizmente, os Armstrongs também
estavam com a janela aberta. Como explicou Janet, “as crianças
só não morreram asfixiadas porque nosso ar-condicionado não
estava funcionando e fazia muito calor, então fechei as portas e
abri as janelas”.
Janet se lembra claramente da imagem de Ed White, ex-atleta
de corrida com obstáculos, arrancando a cerca. Ed correu para o
resgate com uma mangueira. Neil carregava Mark, de dez
meses, enquanto Pat ligava para a empresa responsável pelo
alarme. A parede da sala de estar emitia um brilho vermelho, e a
janela de vidro estava rachando. Ed passou a mangueira para
Janet, tirou Mark do colo de Neil e entregou a criança a Pat por
cima da cerca para poder pegar outra mangueira. O calor estava
tão intenso que Janet teve de molhar o concreto para poder ficar
descalça na calçada. Estacionada na garagem, a carroceria de
fibra de vidro do novo Corvette de Neil começava a derreter.
Neil fez uma segunda entrada no fogo para salvar Rick, que —
sem Neil e Janet saber — tinha se encolhido na cama mesmo
depois que seu pai o acordara e lhe dissera para sair da casa
imediatamente: “Na primeira vez, prendi a respiração o tempo
todo; na segunda, tive de engatinhar e pôr uma toalha molhada
no rosto. Ainda tentava prender a respiração, mas já não
conseguia. É horrível respirar aquela fumaça espessa.” Mais
tarde, ele diria a Janet que os sete metros que percorreu para
salvar Rick foram “a jornada mais longa” que já tinha feito na vida, porque tinha muito medo do que poderia encontrar. Mas
Rick, de seis anos, estava bem. Neil tirou a toalha molhada do
rosto, cobriu o rosto do filho e saiu cambaleando para o quintal
com o menino nos braços. Então, os dois homens pegaram
mangueiras e continuaram tentando apagar o fogo. Os vizinhos
encontraram o cachorro deles, Super, vivo e passando bem.
Os bombeiros voluntários começaram a chegar mais ou
menos oito minutos depois do telefonema de Pat White e levaram
o resto da noite apagando as chamas. Os Armstrongs ficaram
morando com os Whites durante alguns dias até levarem tudo
considerado de valor para uma casa alugada na vizinhança. Os
Armstrongs perderam muitos pertences valiosos, incluindo
fotografias de família, em particular, fotos de Karen. Ficaram na
casa alugada enquanto construíam a nova, no mesmo lote, desta
vez assistidos por um especialista em incêndios. Depois do
incêndio, os inspetores determinaram a causa, não sem a
contribuição de Neil. Os construtores não tinham selado os
painéis da parede, e a umidade foi empenando as placas. Ao
prender as placas empenadas, usaram inadvertidamente um
prego que perfurou um fio. Isso criou um curto-circuito com uma
pequena corrente que ficou fluindo por alguns meses. A
temperatura foi aumentando gradualmente até que o fio pegou
fogo. A casa nova só ficou pronta no Natal de 1964. No incêndio,
Neil perdeu quase toda a coleção de miniaturas de aviões de sua
juventude, assim como cadernos cheios de desenhos de
aeronaves feitos à mão e especificações para projetos de
aeronaves, além de caixas cheias de edições antigas de revistas
de aviação.
Janet não se iludia: “Poderíamos facilmente ter sido engolidos
pela fumaça, foi muito preocupante.” Até mesmo Neil descreveu
o perigo em termos realistas: “Poderia ter sido catastrófico. Se
começássemos a ficar asfixiados antes de acordar,
provavelmente não teríamos sobrevivido.”
No entanto, mais tragédias estavam por vir. Nove meses
depois, em 27 de janeiro de 1967, o vigilante vizinho Ed White
morreu em um incêndio na plataforma de lançamento da Apollo 1, junto com os companheiros de tripulação Gus Grissom e
Roger Chaffe.
* * *
“Sempre me perguntam como é ser casada com um astronauta”,
disse Janet à revista Life durante as entrevistas feitas de 1966 a
1969. “Como é para mim ser mulher de Neil Armstrong é a
pergunta mais apropriada. Eu sou casada com Neil Armstrong, e
ser astronauta é só o trabalho dele. Para mim, para nossos filhos,
para nossas famílias e amigos próximos, ele sempre será o Neil
Armstrong, o marido e pai de dois meninos, que precisa lidar com
os problemas da vida urbana, da casa e da família, assim como
todo mundo.”
Janet não mimava Neil, mas cuidava das roupas dele e
preparava as refeições da família. “Neil nunca deixa transparecer
que teve um dia muito estressante. Ele não traz suas
preocupações para casa. Não gosto de perguntar a ele sobre seu
trabalho”, relatou Janet, “porque ele já precisa conviver demais
com isso. Mas adoro quando alguém pergunta a ele sobre seu
trabalho e posso sentar-me e ouvi-lo falar sobre o assunto. A
única maneira que as esposas têm de participar de verdade do
que os homens estão fazendo é saber o máximo possível sobre
seu trabalho com antecedência e, então, acompanhá-lo com
atenção no rádio, na televisão e através dos comunicados com a
Terra.”
Janet, como Neil, trabalhou muito para manter os meninos
com o pé no chão: “Não quero que meus filhos saiam por aí
fazendo pose e dizendo ‘Eu sou filho de um astronauta’. Por isso,
tentamos fazer as coisas de um modo comum e diário. Sentimos
que para eles é muito importante não se sentirem privilegiados
ante os colegas. Queremos que cresçam e tenham uma vida
regular — uma vida normal. Crianças são crianças, e queremos
que sejam crianças, ainda que o programa espacial exija muito
de nossos filhos. Quando você faz de seus filhos pessoas
públicas, eles precisam ser crianças realmente preparadas.”
O mantra de Janet se tornou: “Viver no presente é o mais
importante. Vivemos nossa vida, um dia de cada vez. Em relação
ao planejamento e à organização para o futuro, é difícil dizer.
Tenho um marido cuja agenda muda todos os dias, às vezes, a
cada minuto. E nunca sei se ele está indo ou vindo,
particularmente durante o voo, quando é escalado para uma
tripulação.”
A pressão sobre as mulheres dos astronautas era
extraordinária. Cada uma carregava um fardo muito grande,
tentando da maneira que podia aparecer em público como a Sra.
Astronauta e a Mãe Americana Perfeita. Elas sabiam o que a
NASA e até mesmo a Casa Branca esperava delas. Para a
mulher de um astronauta, decidir o que vestir é muito mais do
que exercitar o estilo de uma mulher, ou sua vaidade. Trata-se de
manter a imagem impoluta e sagrada de todo o programa
espacial americano e mesmo dos Estados Unidos.
“Nossa vida foi dedicada a uma causa: tentar alcançar a meta
de levar um homem à Lua até o final de 1969. Era um esforço
enorme na agenda de todos. Não só as famílias de astronautas
tiveram a vida posta em modo de espera; milhares de famílias
estavam assim.” A NASA teria sido inteligente se estabelecesse
um programa formal de aconselhamento para as famílias de seus
astronautas, já que dos 21 astronautas que foram à Lua, treze
viram o casamento terminar em divórcio ou separação.
Janet nunca participou ativamente de nenhum clube de
esposas. Preferia, assim como Neil, ficar sozinha. Nos anos
seguintes, o esforço de Janet por manter a própria identidade
apenas se intensificou, porque ela não era mais a mulher de
qualquer astronauta. Carregava o fardo maior de ser casada com
o primeiro homem a pisar na Lua.