O Primeiro Homem na Lua

James R. Hansen · Capítulo 24 de 42

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O Primeiro Homem na Lua

Capítulo 17: Renascido das cinzas

CAPÍTULO 17

 

Renascido das cinzas

 

Até o ano-novo de 1967, muita gente acreditava que o prazo

prometido pelo presidente Kennedy (“até o fim da década”) para

o pouso na Lua poderia se estender para alguns anos além do

previsto. O Programa Gemini tinha sido encerrado com sucesso.

A maior parte do maquinário para a espaçonave do Programa

Apollo estava com a construção em dia. O poderoso foguete

Saturno, que lançaria a espaçonave do Programa Apollo em seu

caminho para a Lua, estava a ponto de se tornar operacional.

Embora alguns astronautas tivessem morrido em acidentes de

avião, nada em relação ao programa espacial em si tinha dado

errado. Tudo parecia estar indo bem, e a vitória contra os russos

na corrida até a Lua era praticamente certa. Então, em 27 de

janeiro de 1967, ocorreu um acidente devastador no Centro

Espacial Kennedy, na Flórida.

Entre 18h31 e 18h32 EST, irrompeu um incêndio no módulo de

comando Block I do Programa Apollo, que estava no topo do

foguete Saturno IB, na plataforma 34. Na cabine, estavam os

astronautas da Apollo 1: Gus Grissom, Roger Chaffee e Ed

White. A tripulação fazia um teste com os trajes espaciais para

um lançamento sem data marcada que ocorreria dali a três

semanas quando uma fagulha transformou tudo em um inferno.

Segundos depois, os três homens estavam mortos. Quando o

relógio marcou zero hora, começava o dia do 11o aniversário de

casamento de Armstrong e o oitavo da morte de Karen.

Um fio elétrico no piso da baia de equipamentos, localizada na

parte inferior da espaçonave, pegou fogo, provavelmente por

causa da movimentação dos técnicos para dentro e para fora da

espaçonave nos dias anteriores ao teste. Uma fagulha do fio queimado atingiu material inflamável, talvez algum enchimento

de espuma ou um pedaço de velcro. Na atmosfera de oxigênio

puro, até mesmo uma fagulha momentânea se tornaria uma

bomba. Os três astronautas morreram asfixiados em questão de

segundos.

Por um momento breve e horrível, os astronautas perceberam

o que estava acontecendo. Roger Chaffee foi o primeiro a gritar

pelo rádio: “Fogo na espaçonave!” Em seguida, foi a vez de

White, que gritou: “Fogo na cabine!” E então, novamente,

Chaffee: “Estamos pegando fogo! Nos tirem daqui!”

Quinze segundos depois das primeiras palavras de Chaffee, o

módulo de comando da Apollo 1 explodiu.

Na hora do incêndio, Armstrong estava na Casa Branca como

integrante de uma delegação de astronautas, juntamente com

Gordon Cooper, Dick Gordon, Jim Lovell e Scott Carpenter, para

testemunhar a assinatura de um acordo internacional conhecido

por seu título complicado: Tratado sobre os Princípios

Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e no Uso

do Espaço Cósmico. Os astronautas o chamavam de “tratado de

não reivindicação”, porque proibia a propriedade de áreas da

Lua, de Marte ou de qualquer outro corpo celeste. O tratado —

assinado simultaneamente em Washington, Londres e Moscou, e

válido até hoje — proibia a militarização do espaço. Garantia

também o retorno seguro a seu país de qualquer astronauta

obrigado a fazer um pouso de emergência em uma nação

estrangeira.

Depois da assinatura do tratado, houve uma recepção na Sala

Verde da Casa Branca, oferecida pelo presidente Johnson e sua

esposa, Lady Bird, com a presença de muitos dignitários do

mundo todo. Os astronautas “entretinham o público”, de acordo

com a orientação da NASA. Após o evento, Armstrong e os

demais foram para o hotel.

Ao entrarem em seu quarto, por volta das 19h15, cada um

deles viu a luz vermelha de mensagem no telefone. A recepção

informou que Neil deveria ligar com urgência para o Centro de

Aeronaves Tripuladas. Transferido para o ramal do escritório do

Programa Apollo em Houston, ouviu o homem do outro lado da linha gritando: “Ainda não sabemos dos detalhes, mas houve um

incêndio na plataforma 34 hoje à noite. Um incêndio bem feio. A

tripulação provavelmente não sobreviveu.” O funcionário da

NASA pediu que Neil não saísse do hotel, para evitar os

jornalistas.

Os astronautas foram para o corredor e ficaram sabendo o

que os outros tinham ouvido. O dono do hotel, compreensivo,

ofereceu uma suíte grande para eles, perto dos quartos.

Antes de se reunirem na suíte, cada astronauta tentou ligar

para casa. Neil não conseguiu falar com Janet. O astronauta Alan

Bean tinha ligado para ela pouco depois do acidente, pedindo-lhe

que fosse à casa da família White. Pat White tinha ido buscar a

filha, Bonnie, na aula de balé, portanto não estava quando Janet

chegou. A esposa de Neil esperava ao lado da porta da garagem

dos Whites quando a mãe, a filha e o filho, Eddie, entraram com

o carro. De acordo com Janet: “Fui até lá sem saber de nada. Só

sabia que tinha havido algum problema. Quando Pat e os filhos

chegaram, tudo o que eu conseguia dizer era ‘houve um

problema. Não sei o que é’, e realmente não sabia.”

A NASA enviou o astronauta Bill Anders para dar a Pat a

horrível notícia. Janet contou que vários outros amigos chegaram

e ficaram até as três da manhã, confortando os membros da

família, que estavam arrasados. Em Washington, Neil e seus

companheiros viravam uma garrafa de uísque na suíte

emprestada. Continuavam conversando até tarde da noite sobre

o que poderia ter acontecido para causar tamanho desastre.

Nenhum dos astronautas gostava do Block I da espaçonave,

construído pela North American Aviation para a NASA. Era a

versão mais antiga do módulo de comando da Apollo que deveria

ser testado na órbita da Terra antes de qualquer missão lunar.

Gus Grissom — que depois de uma visita de inspeção à fábrica

da North American em Downey, na Califórnia, tinha deixado um

limão em cima do simulador do módulo de comando —

certamente também não gostava. Durante aquela interminável

noite no Georgetown Inn, a conversa, segundo lembra Jim Lovell,

passou por diversos assuntos: “A preocupação com o futuro do

projeto; previsões sobre a probabilidade de chegarem à Lua antes do fim da década; o ressentimento pela pressa da NASA

só para respeitar um prazo artificialmente imposto; raiva da

NASA por ter construído essa porcaria de espaçonave e ter se

recusado a ouvir os astronautas quando eles diziam que mais

dinheiro seria gasto no futuro para reconstruí-la da maneira

correta.” “Não culpo as pessoas por nada”, refletiu Neil. “Essas

coisas acontecem no mundo em que vivemos, e é de esperar

que elas aconteçam. Tentamos fazer o possível para evitá-las. E

quando, apesar disso, elas acontecem, esperamos ter

procedimentos, equipamentos, conhecimento e habilidade

específicos para sobreviver a elas. Nunca fui de pôr a culpa nos

outros.”

Em relação à morte de Grissom, Chaffee e principalmente de

seu bom amigo e vizinho Ed White, Neil disse: “Acho que temos

mais facilidade para aceitar a perda de um amigo durante um

voo, dói muito perdê-lo em um teste em terra.” Para Neil, “aquilo

foi uma acusação para nós mesmos. Aconteceu porque de

alguma forma não fizemos as coisas direito. Isso é duplamente

traumático. Quando certas coisas acontecem durante o voo, não

há nada que se possa fazer para lidar com elas. Você faz o que

deve ser feito, portanto aceitar ferimentos e até mortes é mais

fácil do que em um teste em terra, onde deveria haver rotas de

escape para o caso de qualquer acidente. Em relação ao motivo

pelo qual os cérebros da NASA e a indústria aeroespacial não

perceberam o perigo de testar em terra uma espaçonave cujo

ambiente é tão rico em oxigênio, bem, foi uma enorme

negligência. Saímos impunes disso por um tempo, já que fizemos

testes assim durante todo o Programa Gemini, e acho que nos

tornamos tolerantes demais”.

Quatro dias depois do incêndio, em duas cerimônias fúnebres

distintas foram feitas. Naturalmente, Neil e Janet foram às duas.

A primeira, de Grissom e Chaffee, foi realizada com as mais altas

honras militares no Cemitério Nacional de Arlington. O enterro de

Ed White aconteceu na capela Old Cadet, no cemitério de West

Point, já que tanto Ed quanto o pai dele se formaram na

Academia Militar dos Estados Unidos. Neil, juntamente com outros quatro dos New Nine — Borman, Conrad, Lovell e Stafford

—, levou o caixão. Buzz Aldrin estava com eles.

Por mais difícil que a morte dos colegas tivesse sido para os

astronautas, é claro que foi muito mais para as viúvas. Pat White

foi a única que esteve nos dois enterros. Mais tarde, ela não se

lembrava de quase nada. Houve uma coisa que piorou tudo: a

NASA tentou convencê-la a sepultar Ed em Arlington, junto com

Gus e Roger, não em West Point, onde a família sabia que ele

teria preferido. Durante muitos meses, ela mal conseguia fazer as

coisas. Como vizinha e melhor amiga, Janet recorda que Pat era

“totalmente dedicada” a Ed. Preparava refeições sofisticadas

para ele, lidava com toda a sua correspondência. Era “a esposa

perfeita e amava cada minuto disso”. Um dia, no fim de 1968, Pat

faltou a uma aula na academia e não atendia o telefone. Janet e

Jan Evans (mulher de Ronald Evans, astronauta do Grupo V que

se tornaria piloto do módulo de comando da Apollo 17), sabendo

da depressão crônica de Pat, imaginaram o pior. As duas

arrombaram a porta e encontraram Pat com um frasco de

comprimidos na mão, que teve que ser tirado dela à força. Outras

mulheres do Clube das Mulheres de Astronautas ajudaram Pat e

seus dois filhos (Bonnie e Edward III), e Janet continuou sendo

sua confidente até a morte de Pat em 1983, provavelmente um

suicídio após a luta contra um câncer.

 

* * *

 

No dia seguinte ao incêndio, o dr. Robert Seamans, vice-diretor

da NASA, anunciou a formação de uma comissão para investigar

o acidente. O único astronauta integrante foi Frank Borman. O

governo de Lyndon Johnson permitiu que a NASA fizesse toda a

investigação internamente. Em pouco tempo, a causa do

acidente foi encontrada. Em 5 de abril, a comissão enviou seu

relatório oficial declarando que um arco elétrico causado por uma

falha na fiação da baia de equipamentos do módulo de comando

provocou o incêndio. Na atmosfera de oxigênio puro, a tripulação

morreu de asfixia causada por inalação de gases tóxicos. O relatório terminava com uma lista de onze recomendações para o

tratamento do equipamento e mudanças operacionais.

A NASA levaria dois anos para resolver todos os problemas do

Projeto Apollo. Uma Comissão de Controle de Configurações,

especialmente criada e presidida por George Low, supervisionou

1.341 mudanças no projeto da espaçonave. Nunca mais se

correria o risco de usar uma atmosfera de oxigênio puro

altamente explosiva. Na plataforma de lançamento, a cabine

deveria ter uma atmosfera composta de 60% de oxigênio e 40%

de nitrogênio. Oxigênio puro só dentro dos trajes dos

astronautas. O nitrogênio da cabine seria drenado quando a

espaçonave subisse. O Programa Apollo teria alguns meses não

só para consertar a espaçonave como para repensar decisões

anteriores e melhorar muitos aspectos.

Na segunda-feira de manhã, depois de ler o relatório da

comissão, Deke Slayton convocou um grupo de astronautas para

o Centro de Espaçonaves Tripuladas. Foram apenas dezessete

convidados de um corpo que já chegava a quase cinquenta.

Entre eles, um único astronauta originário do Programa Mercury,

Wally Schirra, esteve à mesa de reuniões. Os demais vinham do

segundo e do terceiro grupos. Alguns daqueles homens ainda

não tinham voado para o espaço: Bill Anders, Walt Cunningham,

Donn Eisele e Clifton Williams (Williams morreria alguns meses

depois, na queda de seu avião T-38). Outros eram veteranos com

pelo menos um voo no Programa Gemini: John Young, Jim

McDivitt, Pete Conrad, Schirra, Tom Stafford, Frank Borman, Jim

Lovell, Gene Cernan, Neil Armstrong, Dave Scott, Mike Collins,

Dick Gordon e Buzz Aldrin.

Slayton foi direto ao ponto: “Os astronautas que vão participar

da primeira missão lunar estão nessa sala.”

Todo astronauta sentado à mesa sabia que estava qualificado

como finalista na competição que escolheria o primeiro homem a

pisar na Lua. Os candidatos mais prováveis eram os sete

representantes dos New Nine que já tinham sido comandantes

de voo no Programa Gemini: McDivitt, Borman, Stafford, Young,

Conrad, Lovell e Armstrong. Wally Schirra irritou Deke Slayton ao

reclamar da natureza da missão Apollo 2, originalmente atribuída a ele em 1966. Deke reagiu tirando Schirra da tripulação principal

da Apollo 2 e designando-o para a reserva da Apollo 1.

Durante a reunião, Slayton expôs todo o programa. Sua

primeira missão tripulada, adiada pelo fatídico incêndio, seria

realizada em mais ou menos um ano e meio, depois de uma

série de testes com equipamentos. A NASA passou a chamar

essa primeira missão tripulada de Apollo 7. Em homenagem a

Grissom, White e Chaffee, não haveria outra Apollo 1. Nem

haveria Apollo 2 ou 3. Slayton disse aos astronautas que os

futuros voos do programa seriam designados por letras, de A a J.

A missão A seria executada por voos não tripulados da Apollo 4 e

da Apollo 6, testariam o lançamento do foguete de três estágios

Saturno V, assim como a capacidade de reentrada do módulo de

comando. A missão B, que contaria com a Apollo 5, seria um

teste não tripulado do módulo lunar. A missão C — o primeiro voo

tripulado, que seria realizado pela Apollo 7 — poria à prova os

módulos de comando e de serviço da Apollo, as acomodações da

tripulação e os sistemas de navegação em órbita da Terra. A

missão D testaria as operações combinadas entre o módulo de

comando e serviço e o módulo lunar, também em órbita da Terra.

A missão E também experimentaria operações combinadas, mas

no espaço distante. A missão F seria um ensaio com trajes para

o pouso lunar, enquanto a missão G seria o pouso propriamente

dito. Após o primeiro pouso, viria a missão H, com um pacote de

instrumentos mais completo a bordo do módulo lunar para

aperfeiçoar a exploração da superfície da Lua, seguida da

missão I, com voo do módulo de comando e serviço em órbita

lunar com equipamentos de sensoriamento remoto, sem pouso.

A NASA não tinha planos para além da missão J, que repetia a

missão H, mas com um módulo de pouso capaz de permanecer

na superfície da Lua por mais tempo.

Depois disso, Slayton anunciou as três primeiras tripulações

do Projeto Apollo. Para surpresa de alguns, Deke convocou

Schirra para o comando da Apollo 7, juntamente com Eisele e

Cunningham como tripulantes. Na reserva da tripulação de

Schirra estariam Tom Stafford, John Young e Gene Cernan.

Quando a equipe de Schirra foi transferida da Apollo 2 para a reserva da Apollo 1, em 1966, a tripulação de Stafford ficou na

reserva da Apollo 2, comandada por Jim McDivitt. Agora, McDivitt

seria comandante da Apollo 8, o primeiro teste do módulo lunar.

Com McDivitt na Apollo 8 estariam Dave Scott e Rusty

Schweickart, com Pete Conrad, Dick Gordon e C. C. Williams na

reserva. (Al Bean viria a ser o substituto após a morte de

Williams em dezembro de 1967.) A tripulação da Apollo 9, que

seria um teste do módulo de comando e do módulo lunar na

órbita terrestre alta, era formada por Frank Borman, Mike Collins

e Bill Anders. Neil Armstrong, Jim Lovell e Buzz Aldrin seriam a

tripulação reserva da Apollo 9.

Nisso consistiam as tarefas da tripulação do Programa Apollo

até a missão D. Para Armstrong, ficou claro que seu momento de

comandar uma missão só chegaria no mínimo a partir da Apollo

11, já que um astronauta nunca passava da reserva para a

tripulação principal no voo imediatamente seguinte.

Considerando que as missões E e F teriam que ser realizadas

antes de se chegar de fato ao pouso na Lua — a chamada

missão G —, tudo indicava que o histórico primeiro passo na Lua

só seria dado a partir da Apollo 12. Se Neil acabasse

conseguindo o comando da Apollo 11, participaria do ensaio com

trajes específicos de pouso, mas não do pouso em si.