O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 17: Renascido das cinzas
CAPÍTULO 17
Renascido das cinzas
Até o ano-novo de 1967, muita gente acreditava que o prazo
prometido pelo presidente Kennedy (“até o fim da década”) para
o pouso na Lua poderia se estender para alguns anos além do
previsto. O Programa Gemini tinha sido encerrado com sucesso.
A maior parte do maquinário para a espaçonave do Programa
Apollo estava com a construção em dia. O poderoso foguete
Saturno, que lançaria a espaçonave do Programa Apollo em seu
caminho para a Lua, estava a ponto de se tornar operacional.
Embora alguns astronautas tivessem morrido em acidentes de
avião, nada em relação ao programa espacial em si tinha dado
errado. Tudo parecia estar indo bem, e a vitória contra os russos
na corrida até a Lua era praticamente certa. Então, em 27 de
janeiro de 1967, ocorreu um acidente devastador no Centro
Espacial Kennedy, na Flórida.
Entre 18h31 e 18h32 EST, irrompeu um incêndio no módulo de
comando Block I do Programa Apollo, que estava no topo do
foguete Saturno IB, na plataforma 34. Na cabine, estavam os
astronautas da Apollo 1: Gus Grissom, Roger Chaffee e Ed
White. A tripulação fazia um teste com os trajes espaciais para
um lançamento sem data marcada que ocorreria dali a três
semanas quando uma fagulha transformou tudo em um inferno.
Segundos depois, os três homens estavam mortos. Quando o
relógio marcou zero hora, começava o dia do 11o aniversário de
casamento de Armstrong e o oitavo da morte de Karen.
Um fio elétrico no piso da baia de equipamentos, localizada na
parte inferior da espaçonave, pegou fogo, provavelmente por
causa da movimentação dos técnicos para dentro e para fora da
espaçonave nos dias anteriores ao teste. Uma fagulha do fio queimado atingiu material inflamável, talvez algum enchimento
de espuma ou um pedaço de velcro. Na atmosfera de oxigênio
puro, até mesmo uma fagulha momentânea se tornaria uma
bomba. Os três astronautas morreram asfixiados em questão de
segundos.
Por um momento breve e horrível, os astronautas perceberam
o que estava acontecendo. Roger Chaffee foi o primeiro a gritar
pelo rádio: “Fogo na espaçonave!” Em seguida, foi a vez de
White, que gritou: “Fogo na cabine!” E então, novamente,
Chaffee: “Estamos pegando fogo! Nos tirem daqui!”
Quinze segundos depois das primeiras palavras de Chaffee, o
módulo de comando da Apollo 1 explodiu.
Na hora do incêndio, Armstrong estava na Casa Branca como
integrante de uma delegação de astronautas, juntamente com
Gordon Cooper, Dick Gordon, Jim Lovell e Scott Carpenter, para
testemunhar a assinatura de um acordo internacional conhecido
por seu título complicado: Tratado sobre os Princípios
Reguladores das Atividades dos Estados na Exploração e no Uso
do Espaço Cósmico. Os astronautas o chamavam de “tratado de
não reivindicação”, porque proibia a propriedade de áreas da
Lua, de Marte ou de qualquer outro corpo celeste. O tratado —
assinado simultaneamente em Washington, Londres e Moscou, e
válido até hoje — proibia a militarização do espaço. Garantia
também o retorno seguro a seu país de qualquer astronauta
obrigado a fazer um pouso de emergência em uma nação
estrangeira.
Depois da assinatura do tratado, houve uma recepção na Sala
Verde da Casa Branca, oferecida pelo presidente Johnson e sua
esposa, Lady Bird, com a presença de muitos dignitários do
mundo todo. Os astronautas “entretinham o público”, de acordo
com a orientação da NASA. Após o evento, Armstrong e os
demais foram para o hotel.
Ao entrarem em seu quarto, por volta das 19h15, cada um
deles viu a luz vermelha de mensagem no telefone. A recepção
informou que Neil deveria ligar com urgência para o Centro de
Aeronaves Tripuladas. Transferido para o ramal do escritório do
Programa Apollo em Houston, ouviu o homem do outro lado da linha gritando: “Ainda não sabemos dos detalhes, mas houve um
incêndio na plataforma 34 hoje à noite. Um incêndio bem feio. A
tripulação provavelmente não sobreviveu.” O funcionário da
NASA pediu que Neil não saísse do hotel, para evitar os
jornalistas.
Os astronautas foram para o corredor e ficaram sabendo o
que os outros tinham ouvido. O dono do hotel, compreensivo,
ofereceu uma suíte grande para eles, perto dos quartos.
Antes de se reunirem na suíte, cada astronauta tentou ligar
para casa. Neil não conseguiu falar com Janet. O astronauta Alan
Bean tinha ligado para ela pouco depois do acidente, pedindo-lhe
que fosse à casa da família White. Pat White tinha ido buscar a
filha, Bonnie, na aula de balé, portanto não estava quando Janet
chegou. A esposa de Neil esperava ao lado da porta da garagem
dos Whites quando a mãe, a filha e o filho, Eddie, entraram com
o carro. De acordo com Janet: “Fui até lá sem saber de nada. Só
sabia que tinha havido algum problema. Quando Pat e os filhos
chegaram, tudo o que eu conseguia dizer era ‘houve um
problema. Não sei o que é’, e realmente não sabia.”
A NASA enviou o astronauta Bill Anders para dar a Pat a
horrível notícia. Janet contou que vários outros amigos chegaram
e ficaram até as três da manhã, confortando os membros da
família, que estavam arrasados. Em Washington, Neil e seus
companheiros viravam uma garrafa de uísque na suíte
emprestada. Continuavam conversando até tarde da noite sobre
o que poderia ter acontecido para causar tamanho desastre.
Nenhum dos astronautas gostava do Block I da espaçonave,
construído pela North American Aviation para a NASA. Era a
versão mais antiga do módulo de comando da Apollo que deveria
ser testado na órbita da Terra antes de qualquer missão lunar.
Gus Grissom — que depois de uma visita de inspeção à fábrica
da North American em Downey, na Califórnia, tinha deixado um
limão em cima do simulador do módulo de comando —
certamente também não gostava. Durante aquela interminável
noite no Georgetown Inn, a conversa, segundo lembra Jim Lovell,
passou por diversos assuntos: “A preocupação com o futuro do
projeto; previsões sobre a probabilidade de chegarem à Lua antes do fim da década; o ressentimento pela pressa da NASA
só para respeitar um prazo artificialmente imposto; raiva da
NASA por ter construído essa porcaria de espaçonave e ter se
recusado a ouvir os astronautas quando eles diziam que mais
dinheiro seria gasto no futuro para reconstruí-la da maneira
correta.” “Não culpo as pessoas por nada”, refletiu Neil. “Essas
coisas acontecem no mundo em que vivemos, e é de esperar
que elas aconteçam. Tentamos fazer o possível para evitá-las. E
quando, apesar disso, elas acontecem, esperamos ter
procedimentos, equipamentos, conhecimento e habilidade
específicos para sobreviver a elas. Nunca fui de pôr a culpa nos
outros.”
Em relação à morte de Grissom, Chaffee e principalmente de
seu bom amigo e vizinho Ed White, Neil disse: “Acho que temos
mais facilidade para aceitar a perda de um amigo durante um
voo, dói muito perdê-lo em um teste em terra.” Para Neil, “aquilo
foi uma acusação para nós mesmos. Aconteceu porque de
alguma forma não fizemos as coisas direito. Isso é duplamente
traumático. Quando certas coisas acontecem durante o voo, não
há nada que se possa fazer para lidar com elas. Você faz o que
deve ser feito, portanto aceitar ferimentos e até mortes é mais
fácil do que em um teste em terra, onde deveria haver rotas de
escape para o caso de qualquer acidente. Em relação ao motivo
pelo qual os cérebros da NASA e a indústria aeroespacial não
perceberam o perigo de testar em terra uma espaçonave cujo
ambiente é tão rico em oxigênio, bem, foi uma enorme
negligência. Saímos impunes disso por um tempo, já que fizemos
testes assim durante todo o Programa Gemini, e acho que nos
tornamos tolerantes demais”.
Quatro dias depois do incêndio, em duas cerimônias fúnebres
distintas foram feitas. Naturalmente, Neil e Janet foram às duas.
A primeira, de Grissom e Chaffee, foi realizada com as mais altas
honras militares no Cemitério Nacional de Arlington. O enterro de
Ed White aconteceu na capela Old Cadet, no cemitério de West
Point, já que tanto Ed quanto o pai dele se formaram na
Academia Militar dos Estados Unidos. Neil, juntamente com outros quatro dos New Nine — Borman, Conrad, Lovell e Stafford
—, levou o caixão. Buzz Aldrin estava com eles.
Por mais difícil que a morte dos colegas tivesse sido para os
astronautas, é claro que foi muito mais para as viúvas. Pat White
foi a única que esteve nos dois enterros. Mais tarde, ela não se
lembrava de quase nada. Houve uma coisa que piorou tudo: a
NASA tentou convencê-la a sepultar Ed em Arlington, junto com
Gus e Roger, não em West Point, onde a família sabia que ele
teria preferido. Durante muitos meses, ela mal conseguia fazer as
coisas. Como vizinha e melhor amiga, Janet recorda que Pat era
“totalmente dedicada” a Ed. Preparava refeições sofisticadas
para ele, lidava com toda a sua correspondência. Era “a esposa
perfeita e amava cada minuto disso”. Um dia, no fim de 1968, Pat
faltou a uma aula na academia e não atendia o telefone. Janet e
Jan Evans (mulher de Ronald Evans, astronauta do Grupo V que
se tornaria piloto do módulo de comando da Apollo 17), sabendo
da depressão crônica de Pat, imaginaram o pior. As duas
arrombaram a porta e encontraram Pat com um frasco de
comprimidos na mão, que teve que ser tirado dela à força. Outras
mulheres do Clube das Mulheres de Astronautas ajudaram Pat e
seus dois filhos (Bonnie e Edward III), e Janet continuou sendo
sua confidente até a morte de Pat em 1983, provavelmente um
suicídio após a luta contra um câncer.
* * *
No dia seguinte ao incêndio, o dr. Robert Seamans, vice-diretor
da NASA, anunciou a formação de uma comissão para investigar
o acidente. O único astronauta integrante foi Frank Borman. O
governo de Lyndon Johnson permitiu que a NASA fizesse toda a
investigação internamente. Em pouco tempo, a causa do
acidente foi encontrada. Em 5 de abril, a comissão enviou seu
relatório oficial declarando que um arco elétrico causado por uma
falha na fiação da baia de equipamentos do módulo de comando
provocou o incêndio. Na atmosfera de oxigênio puro, a tripulação
morreu de asfixia causada por inalação de gases tóxicos. O relatório terminava com uma lista de onze recomendações para o
tratamento do equipamento e mudanças operacionais.
A NASA levaria dois anos para resolver todos os problemas do
Projeto Apollo. Uma Comissão de Controle de Configurações,
especialmente criada e presidida por George Low, supervisionou
1.341 mudanças no projeto da espaçonave. Nunca mais se
correria o risco de usar uma atmosfera de oxigênio puro
altamente explosiva. Na plataforma de lançamento, a cabine
deveria ter uma atmosfera composta de 60% de oxigênio e 40%
de nitrogênio. Oxigênio puro só dentro dos trajes dos
astronautas. O nitrogênio da cabine seria drenado quando a
espaçonave subisse. O Programa Apollo teria alguns meses não
só para consertar a espaçonave como para repensar decisões
anteriores e melhorar muitos aspectos.
Na segunda-feira de manhã, depois de ler o relatório da
comissão, Deke Slayton convocou um grupo de astronautas para
o Centro de Espaçonaves Tripuladas. Foram apenas dezessete
convidados de um corpo que já chegava a quase cinquenta.
Entre eles, um único astronauta originário do Programa Mercury,
Wally Schirra, esteve à mesa de reuniões. Os demais vinham do
segundo e do terceiro grupos. Alguns daqueles homens ainda
não tinham voado para o espaço: Bill Anders, Walt Cunningham,
Donn Eisele e Clifton Williams (Williams morreria alguns meses
depois, na queda de seu avião T-38). Outros eram veteranos com
pelo menos um voo no Programa Gemini: John Young, Jim
McDivitt, Pete Conrad, Schirra, Tom Stafford, Frank Borman, Jim
Lovell, Gene Cernan, Neil Armstrong, Dave Scott, Mike Collins,
Dick Gordon e Buzz Aldrin.
Slayton foi direto ao ponto: “Os astronautas que vão participar
da primeira missão lunar estão nessa sala.”
Todo astronauta sentado à mesa sabia que estava qualificado
como finalista na competição que escolheria o primeiro homem a
pisar na Lua. Os candidatos mais prováveis eram os sete
representantes dos New Nine que já tinham sido comandantes
de voo no Programa Gemini: McDivitt, Borman, Stafford, Young,
Conrad, Lovell e Armstrong. Wally Schirra irritou Deke Slayton ao
reclamar da natureza da missão Apollo 2, originalmente atribuída a ele em 1966. Deke reagiu tirando Schirra da tripulação principal
da Apollo 2 e designando-o para a reserva da Apollo 1.
Durante a reunião, Slayton expôs todo o programa. Sua
primeira missão tripulada, adiada pelo fatídico incêndio, seria
realizada em mais ou menos um ano e meio, depois de uma
série de testes com equipamentos. A NASA passou a chamar
essa primeira missão tripulada de Apollo 7. Em homenagem a
Grissom, White e Chaffee, não haveria outra Apollo 1. Nem
haveria Apollo 2 ou 3. Slayton disse aos astronautas que os
futuros voos do programa seriam designados por letras, de A a J.
A missão A seria executada por voos não tripulados da Apollo 4 e
da Apollo 6, testariam o lançamento do foguete de três estágios
Saturno V, assim como a capacidade de reentrada do módulo de
comando. A missão B, que contaria com a Apollo 5, seria um
teste não tripulado do módulo lunar. A missão C — o primeiro voo
tripulado, que seria realizado pela Apollo 7 — poria à prova os
módulos de comando e de serviço da Apollo, as acomodações da
tripulação e os sistemas de navegação em órbita da Terra. A
missão D testaria as operações combinadas entre o módulo de
comando e serviço e o módulo lunar, também em órbita da Terra.
A missão E também experimentaria operações combinadas, mas
no espaço distante. A missão F seria um ensaio com trajes para
o pouso lunar, enquanto a missão G seria o pouso propriamente
dito. Após o primeiro pouso, viria a missão H, com um pacote de
instrumentos mais completo a bordo do módulo lunar para
aperfeiçoar a exploração da superfície da Lua, seguida da
missão I, com voo do módulo de comando e serviço em órbita
lunar com equipamentos de sensoriamento remoto, sem pouso.
A NASA não tinha planos para além da missão J, que repetia a
missão H, mas com um módulo de pouso capaz de permanecer
na superfície da Lua por mais tempo.
Depois disso, Slayton anunciou as três primeiras tripulações
do Projeto Apollo. Para surpresa de alguns, Deke convocou
Schirra para o comando da Apollo 7, juntamente com Eisele e
Cunningham como tripulantes. Na reserva da tripulação de
Schirra estariam Tom Stafford, John Young e Gene Cernan.
Quando a equipe de Schirra foi transferida da Apollo 2 para a reserva da Apollo 1, em 1966, a tripulação de Stafford ficou na
reserva da Apollo 2, comandada por Jim McDivitt. Agora, McDivitt
seria comandante da Apollo 8, o primeiro teste do módulo lunar.
Com McDivitt na Apollo 8 estariam Dave Scott e Rusty
Schweickart, com Pete Conrad, Dick Gordon e C. C. Williams na
reserva. (Al Bean viria a ser o substituto após a morte de
Williams em dezembro de 1967.) A tripulação da Apollo 9, que
seria um teste do módulo de comando e do módulo lunar na
órbita terrestre alta, era formada por Frank Borman, Mike Collins
e Bill Anders. Neil Armstrong, Jim Lovell e Buzz Aldrin seriam a
tripulação reserva da Apollo 9.
Nisso consistiam as tarefas da tripulação do Programa Apollo
até a missão D. Para Armstrong, ficou claro que seu momento de
comandar uma missão só chegaria no mínimo a partir da Apollo
11, já que um astronauta nunca passava da reserva para a
tripulação principal no voo imediatamente seguinte.
Considerando que as missões E e F teriam que ser realizadas
antes de se chegar de fato ao pouso na Lua — a chamada
missão G —, tudo indicava que o histórico primeiro passo na Lua
só seria dado a partir da Apollo 12. Se Neil acabasse
conseguindo o comando da Apollo 11, participaria do ensaio com
trajes específicos de pouso, mas não do pouso em si.