O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 6: Esquadrão de Caça 51
CAPÍTULO 6
Esquadrão de Caça 51
Os homens do VF-51 estavam mais entusiasmados do que
assustados ante a perspectiva de combate, com a sensação de
que estavam embarcando em uma das maiores aventuras de sua
vida.
Como um mau presságio do que estava por vir, o tufão Marge
açoitou o Essex durante dois dias consecutivos, fazendo-o
adernar até chegar a apenas dez graus do ponto de emborco.
Em 22 de agosto, o Essex juntou-se à Força Tarefa 77, a 110
quilômetros da costa de Wonsan. Olhando do convés do hangar
pelas imensas portas de compartimento, Armstrong viu pela
primeira vez um grupo de combate naval americano. O porta-
aviões Bon Homme Richard; o encouraçado New Jersey; dois
cruzadores, o Helena e o Toledo; e mais quinze ou vinte
contratorpedeiros entre duas dúzias de navios de guerra que se
multiplicariam nos meses seguintes, chegando a quatro porta-
aviões e três cruzadores em ação simultânea.
A primeira série de operações de combate do Grupo Aéreo 5
começou em 24 de agosto, quando o CVG-5 lançou 76 ataques
contra “alvos de oportunidade”. Armstrong não foi escalado para
voar naquele primeiro dia. Nem participou, no 25o dia, do pesado
ataque aéreo ao pátio de manobras ferroviárias em Rashin, perto
da fronteira soviética — a primeira vez que caças da Marinha
escoltaram bombardeiros da Aeronáutica sobrevoando território
hostil. Segundo Armstrong, “a esquadrilha composta de quatro
aeronaves era a base da operação”. Uma esquadrilha
compunha-se de dois elementos de duas aeronaves cada. Em
voo, os elementos permaneciam separados por uma distância
que variava de quatrocentos a novecentos metros.
Beauchamp organizou seus 24 pilotos em seis esquadrilhas
programadas para receber mais ou menos o mesmo número de
voos. O comando da sexta esquadrilha ficou com John
Carpenter. O líder do elemento de Carpenter era John Moore. Os
oficiais juniores pilotavam como alas. No começo do cruzeiro,
Armstrong em geral voava como ala de Carpenter, na
esquadrilha liderada por John Moore. Mais tarde, Neil passaria a
voar principalmente com Wam Mackey. Como os demais pilotos,
Armstrong também pilotou diversos aviões de escolta a
aeronaves de reconhecimento fotográfico, que não estavam
organizados em esquadrilhas.
O fato de o comandante Marshall Beebe sempre recrutar o
aviador mais jovem para pilotar como seu ala não passou
despercebido. A atitude agressiva de Beebe no combate aéreo
teria posto Neil em um perigo ainda maior. Beebe, o super-ás da
Segunda Guerra Mundial com quatorze mortes, parecia
destemido. “Marsh” tinha uma merecida reputação de ficar tempo
demais de “pés secos” — voando sobre terra — para maximizar
o tempo no ar sobre alvos inimigos, mas deixava os aviões tão
sem combustível que mal dava para retornar ao porta-aviões. Em
algumas ocasiões, Beebe conseguiu autorização para que seus
jatos sobrevoassem a MiG Alley (alameda dos MiGs) nas regiões
mais altas da Coreia do Norte, mesmo sabendo que o requisito
defensivo em uma manobra contra MiGs teria exigido
combustível demais para garantir um retorno seguro ao porta-
aviões. Armstrong lembra-se de quando “eu teria agradecido por
mais algumas centenas de libras de combustível para o pouso”.
A primeira ação de Armstrong sobre a Coreia do Norte ocorreu
em 29 de agosto, quando ele escoltou um avião de
reconhecimento fotográfico sobre o paralelo 40, acima do porto
de Songjin, e depois voou em uma patrulha aérea de combate de
rotina sobre a frota. Em três dos quatro dias seguintes ele pilotou
aeronaves de reconhecimento armado sobre Wonsan, Pu-Chong
e, mais uma vez, Songjin. No 29o dia, poucos VF-51 se
depararam com fogo de armas terrestres leves, mas
experimentaram pela primeira vez o fogo das potentes Artilharias
Antiaéreas (AA) em 2 de setembro. O principal objetivo das esquadrilhas de Beauchamp era interromper o sistema de
transporte que alimentava os exércitos norte-coreano e chinês.
“Fazíamos isso explodindo trens, pontes e tanques”, explicou
Armstrong, “e sendo os mais adversos quanto possível”.
Em seus dez primeiros dias de ação, o Grupo Aéreo 5 sofreu
uma grave sequência de baixas. Sobre a semana que terminou
no domingo 2 de setembro, o relatório de combate do navio dizia:
“Não se passou um dia em que pelo menos um avião não tenha
sido atingido pela AA.” Na semana seguinte, por pouco Neil
Armstrong não perdeu a vida.
Em 3 de setembro de 1951, Armstrong vestiu seu uniforme
para sua sétima missão de combate. Colocar o traje de duas
peças conhecido como “poopy suit” (traje de cocô) do aviador é
comparável a vestir uma camisa de força. Ao chamado de “A
seus postos!”, teve início uma coreografia barulhenta e frenética
no convés. O mecânico de voo deu a partida nos motores dos
jatos antes mesmo que os pilotos pudessem subir à cabine de
comando, onde o comandante prendeu as correias de peito e de
pernas, e o arnês do paraquedas. Depois de checar a máscara
de oxigênio e a condição do bote salva-vidas e do rádio, o
aviador era impulsionado pelas poderosas catapultas H8 da
embarcação. O “cat shot” seria o 28o de Armstrong em três
meses.
A missão de Armstrong consistia em um reconhecimento
armado dentro de uma zona de perigo que os serviços de
informação da Marinha chamavam de “Green Six”. Situado a
oeste de Wonsan, Green Six era o nome em código de uma
estrada estreita por um vale que levava à fronteira interior da
Coreia do Sul.
Os alvos principais para a missão de 3 de setembro de 1951
eram estaleiros e uma ponte. Segundo Rick Rickelton, piloto de
ala de Mackey: “Entramos em uma terrível concentração de AA;
uma coisa bem pesada. Acho que dava para caminhar sobre
ela.” A artilharia antiaérea atingiu o AD Skyraider do tenente
Frank Sistrunk enquanto ele bombardeava a ponte. O Skyraider
caiu, e Sistrunk tornou-se a quarta baixa do Grupo Aéreo 5
durante a incursão do Essex.
Armstrong, que pilotava como ala de John Carpenter, fez
diversos ataques naquele dia. Em um voo de bombardeio, a uma
velocidade aproximada de 630 quilômetros por hora, Neil cortou-
se com um cabo, supostamente uma armadilha para aeronaves
de ataque em voos baixos. A asa direita de Neil perdeu quase
dois metros. Ele mal conseguiu voar até território amigo, onde a
única possibilidade seria ejetar. Carpenter ficou com ele até que
Neil se ejetasse como planejado nas vizinhanças de um campo
de pouso perto de Pohang, designado pela sigla K-3, situado
mais abaixo na costa sul-coreana e operado por fuzileiros navais
americanos. O termo “pular fora” não faz justiça ao “pé na bunda”
aplicado pelo assento ejetável britânico Stanley modelo 22G do
Panther, cujo ocupante poderia sobreviver caso ejetado a pouco
mais de 150 metros de altitude se não estivesse comprometido
por excessiva razão de afundamento. A ejeção de Armstrong em
um assento ejetável foi a primeira do Esquadrão de Caça 51. Seu
salto também foi o primeiro.
Neil “pretendia descer na água”, mas avaliou mal o vento,
pairou sobre terra e pousou em uma plantação de arroz. Fora
uma fissura no cóccix, saiu praticamente ileso. Mal Neil tinha se
levantado do chão, chegou um jipe vindo do K-3. Dentro dele —
Neil mal podia acreditar no que via — estava um de seus
companheiros de quarto da escola de voo, Goodell Warren.
“Goodie” agora era tenente da Marinha e operava a pista de
pouso de Pohang. Ele contou a Armstrong que as explosões que
estavam ouvindo além do litoral vinham de minas norte-coreanas
posicionadas na baía. Se o paraquedas de Neil tivesse
permanecido em seu curso, ele bem poderia ter caído em meio
ao mortífero campo minado.
No fim da tarde de 4 de setembro, Armstrong voltou ao Essex
a bordo de uma embarcação de transporte de correspondência e
de pessoal apelidada “bacalhau”. Segundo Ken Dannenberg,
oficial do serviço de informações do VF-51: “Claro que tínhamos
de espezinhá-lo um pouco.” No procedimento de ejeção, Neil
tirou e largou o capacete, que se quebrou ao cair no chão. “Neil
trazia o capacete quebrado em uma das mãos e um sorriso no
rosto”, lembra Dannenberg. “Sabe como é, Neil, você vai ter de ressarcir o governo pelo capacete.” Deixando as brincadeiras de
lado, Armstrong “recebeu uma porção de notas elogiosas por ter
administrado a situação com serenidade”, recorda Herb Graham.
Em suas cartas para a família, Neil quase nunca falava sobre
combate, e com certeza não mencionou nada do que havia lhe
acontecido naquele dia. A única coisa que fez foi anotar em seu
diário na entrada correspondente a 3 de setembro de 1951:
“Resgatado de Pohang.” Ao lado, desenhou um paraquedas com
um homenzinho minúsculo pendurado. O avião foi o primeiro
Panther abatido do Esquadrão de Caça 51. Mas não foi essa a
razão pela qual não houve comemoração no Essex na noite em
que Armstrong voltou. Naquele dia, mais cedo, dois de seus
companheiros de esquadrão, James Ashford e Ross Bramwell,
tinham sido mortos em ação. Bramwell, de 24 anos, perdeu o
controle de sua aeronave ao ser atingido pela artilharia antiaérea
inimiga. Neil voava na mesma divisão de Ashford, de 25 anos, e
poderia ter estado em operação com ele não fosse pela ejeção
da véspera. Durante uma missão de reconhecimento na região
situada entre Simp’yong e Yangdok, a noroeste de Wonsan, o
jato de Ashford, excessivamente carregado de armamento, não
conseguiu retirar-se depois de uma investida sobre um
caminhão, voou direto para o chão e explodiu. “Que preço a
pagar por um maldito caminhão!” foi o lamento de todo o
esquadrão.
Segundo o relatório de ações de combate de Beebe, ao longo
de 4 de setembro de 1951, “o Grupo Aéreo tinha destruído sete
pontes, noventa vagões de trem, 25 caminhões, 25 carros de boi,
250 soldados, além de danificar cerca do dobro de cada item; o
preço foram as vidas de cinco pilotos, um tripulante e dez
aviões.” Em 5 de setembro, toda a força-tarefa teve um dia de
folga para se recuperar, o que lhes deu uma chance para refletir.
“Eles nunca perderam uma oportunidade de atirar contra você”,
relataria Armstrong. “Vimos todo tipo de arma, de todos os
tamanhos, algumas controladas por radar. Eles possuíam
aqueles 85 de cano longo e grande alcance. Estávamos sempre
achando que poderíamos ser atingidos. Tive uma porção de
perfurações de projéteis nos aviões que pilotei, mas em geral trouxe-os de volta.” Nos nove dias seguintes, Neil participou de
quatro patrulhas de combate aéreo, um reconhecimento e quatro
missões de reconhecimento armado.
O maior desastre de todo o cruzador Essex não aconteceu no
espaço aéreo da Coreia do Norte, mas no convés do porta-
aviões. Em 16 de setembro de 1951, um F2H Banshee do VF-
172 chegou para um pouso de emergência. O tenente John K.
Keller tentava trazer seu Banshee de volta depois de uma colisão
em pleno ar. No comando de sua divisão Panther, Ernie
Beauchamp acabava de pôr o Essex em modo de pouso. O
comandante estava virando contra o vento para a aproximação
final quando ouviu um chamado de Keller pedindo “pouso direto”.
Beauchamp aumentou a potência, recolheu as rodas e os flapes
e se afastou da rota de pouso, como fizeram os outros três
aviões de sua esquadrilha, pilotados por Rostine, Kaps e Gott.
Uma série de erros levou à catástrofe. Keller se esqueceu de
baixar o gancho de parada para o pouso, e o localizador de
gancho e o LSO acharam equivocadamente que o gancho tinha
sido baixado. A negligência fez o Banshee, de oito toneladas, se
chocar contra a pista a uma velocidade de cerca de 240
quilômetros por hora. O jato saltou por cima das pesadas
barreiras e precipitou-se direto contra um grupo de aviões que
tinham acabado de ser transferidos a fim de abrir espaço para a
aeronave que retornava. Pilotos e mecânicos de voo tiveram de
sair de suas aeronaves. A explosão dos aviões estacionados —
alguns com os tanques cheios com quase mil galões de gasolina
de alta octanagem — foi tremenda. O convés de voo frontal do
Essex virou uma bola de fogo. A única coisa que a esquadrilha
de Beauchamp podia fazer era continuar voando e pousar no
Boxer, onde passariam a noite. As consequências do desastre
foram terríveis. Quatro homens morreram queimados. Envolvidos
pelo gás produzido pelas chamas, cinco outros pularam no mar
de uma altura de vinte metros e se chocaram contra uma
superfície cheia de gasolina de aviação em chamas. Um trator
empurrou o Banshee abatido para o mar, com o jovem piloto
morto ainda no interior, e alguns outros aviões em chamas.
Quando o incêndio foi debelado, muitas horas depois, sete homens estavam mortos. Dezesseis tinham ferimentos graves.
Oito jatos tinham virado cinzas. Por sorte, os Skyraiders, com
tanques cheios de combustível e uma carga de duas toneladas
de bombas, estavam estacionados em segurança do outro lado.
Armstrong estava como oficial de serviço do esquadrão na
ocasião. Segundo as regras, ele deveria ficar na sala de
prontidão. Por isso, não viu o fogo e não participou da luta contra
o incêndio. Os homens do Essex ficaram os três dias seguintes
de luto. Com a perda do avião de Armstrong, os mortos e
gravemente feridos e a incandescente destruição de outros
quatro Panthers, a um Esquadrão de Caça 51 desmoralizado
restavam apenas nove aeronaves úteis, das dezesseis
anteriores, e 21 dos 24 pilotos.
Uma tripulação enlutada reuniu-se no Essex para o serviço
fúnebre enquanto rumava para Yokosuka, em 20 de setembro. A
cerimônia homenageou a memória dos treze homens do CVG-5
mortos desde o início do cruzeiro. Armstrong achou que teve
sorte. Sobreviveu ao voo de 3 de setembro por um triz. Ademais,
se não estivesse como oficial de serviço no dia da queda do
Banshee, provavelmente estaria no convés taxiando um dos
Panthers.
Ao chegar a Yokosuka ao anoitecer de 21 de setembro, Neil
Armstrong vivenciou momentos de “descanso e relaxamento”
pela primeira vez em além-mar. A Marinha dos Estados Unidos
tinha tomado diversos hotéis no lado leste do Japão, dos quais o
mais belo e luxuoso “espaço de descanso e recuperação” era o
Hotel Fujiya, à sombra fresca do magnífico monte Fuji. Por
diversas vezes, Armstrong aproveitou a ótima comida, as bebidas
e o serviço, tudo muito barato. No campo de golfe do resort, Neil
decidiu tentar jogar, e no futuro veio a se apaixonar pelo jogo. O
Essex permaneceu ancorado durante dez dias. Em 1o de outubro
de 1951, dirigiu-se para a costa nordeste da Coreia para se
reunir à Força-tarefa 77.
Durante esse segundo período de combate, Neil cumpriu dez
missões. Uma delas tornou-se uma experiência que ele jamais
esqueceria, mas sobre a qual preferiu quase não falar, nem
mesmo com os companheiros de esquadrão.
Ao passar por cima de uma cadeia de montanhas baixas em
seu jato Panther durante uma patrulha de combate aéreo (CAP)
ao amanhecer, em meados de outubro de 1951, Neil viu diante
de si fileiras e mais fileiras de soldados norte-coreanos,
desarmados, fazendo exercícios físicos do lado de fora de suas
tendas. Poderia tê-los dizimado com sua metralhadora, mas
preferiu tirar o dedo do gatilho e seguir voando. Muitos anos
depois, Neil contaria ao autor deste livro (depois de publicada a
versão original, em 2005): “Parecia que eles já estavam tendo
aborrecimento suficiente com aqueles exercícios matinais.”
Ninguém em seu esquadrão jamais ouvira essa história, pois Neil
nunca a tinha contado, mas, quando souberam, depois da morte
dele, em 2012, aceitaram-na como verdadeira sem hesitação.
Todos eles teriam disparado, reconheciam, mas “havia em Neil
uma coisa respeitável demais para que ele matasse homens que
não estavam em posição de se defender”.
Mas Armstrong voou com bravura, lutou com coragem e
sempre cumpriu as ordens recebidas. Em 22 de outubro de 1951,
sua divisão deparou com dois trens que os ADs e Corsairs
deviam destruir para depois atingir diversos pontos de
abastecimento. No 26o dia, sua divisão derrubou pontes e
inutilizou trilhos na região de Pukch’ ong. No trigésimo dia, Neil
participou de um ataque que avançou bastante para o norte, bem
além do paralelo 40. Na véspera, tinha voado para oeste e
chegara mais longe do que nunca em uma operação de
varredura na área de Sinanju, parte da MiG Alley.
O Esquadrão de Caça 51 não sofreu uma só baixa durante
esse segundo período. Ao todo, o grupo aéreo inteiro perdeu
apenas três pilotos e o avião que os transportava, o que foi um
grande progresso em relação às semanas iniciais do primeiro
período operacional. Durante o mês de outubro, o esquadrão
disparou 49.299 tiros de vinte milímetros e lançou 631 bombas
de 45 quilos de uso geral. Estima-se que Neil tenha realizado
sete mil disparos, soltado 48 bombas e lançado trinta foguetes
durante os primeiros dois meses e meio de combate. Durante
seus 26 voos, nove dos quais em patrulhas de combate aéreo,
ele acumulou mais de 41 horas de voo.
Depois de outro reparo da embarcação em Yokosuka, que
durou de 31 de outubro a 12 de novembro de 1951, os homens
voltaram à ação, mais uma vez diante da baía de Wonsan. Com
a chegada do inverno, as atividades no porta-aviões no mar do
Japão tornaram-se dificílimas. Em novembro e dezembro de
1951, os Screaming Eagles — o Esquadrão de Caça VF-51 —
despejou sessenta mil quilos de bombas. A arma mais eficaz do
VF-51 foi o tiro terrestre, com 43.087 tiros disparados, uma média
de 2.051 disparos por piloto. Em dezembro de 1951, antes de
seguir para novo restauro em Yokosuka, no 13o dia, Armstrong
voou oito vezes. Em 2 de dezembro, em grande altitude e sobre
a água, o motor de seu Panther deixou-o na mão. As panes eram
um problema sério para os motores a gasolina. No caso de Neil,
a pane foi causada por uma falha no mecanismo de controle de
combustível causada por corrosão por sal. O acionamento do
afogador nas altitudes elevadas exigidas pelas missões de
patrulha de combate aéreo tinha injetado combustível em
excesso à mistura, extinguindo a faísca do jato. Felizmente, o
jato reacendeu, e Armstrong terminou o voo sem mais
problemas.
Durante seu terceiro período no mar do Japão, o VF-51
escapou algumas vezes por pouco, mas não teve baixas fatais.
Em 14 de dezembro, o Essex chegou a Yokosuka, onde passaria
o Natal de 1951. No dia 26, a embarcação partiu para outra
rodada de combates na Coreia. Esse quarto período seria de
longe o mais perigoso, extenuante e prolongado de todo o
cruzeiro. Durante 38 dias, até 1 o de fevereiro de 1952, os pilotos
do Grupo Aéreo 5 fizeram um total de 2.070 voos. Armstrong
cumpriu 23 missões, com um tempo total de mais de 35 horas no
ar. Vinte e três “cat shot”, 23 pousos no porta-aviões, tudo isso
em um mês, tudo isso em situação de combate: essa foi a
experiência de Neil. Fiando-se em catapultas meio congeladas e
aviões carregados de armas nos quais fazia um frio gélido,
Armstrong e seus camaradas desempenharam uma tarefa nada
invejável.
Em 4 de janeiro de 1952, ao terminar a primeira semana do
quarto período do Essex, os homens do CVG-5 receberam boas notícias. No fim de janeiro, passariam duas semanas no porto de
Yokosuka e voltariam aos Estados Unidos. Mas, antes que isso
pudesse acontecer, o Panther do segundo-tenente Rick Rickelton
foi atingido pela artilharia antiaérea, mergulhou de nariz e
explodiu no solo. Naquela noite, em seu diário, seu companheiro
de esquadrão Bob Kaps escreveu: “Espero que o Senhor consiga
ver através dessa confusão; não creio que eu consiga. Deve
haver uma razão para prolongar essa história, mas não a vejo.”
Sem Rickelton, a esquadrilha de Wam Mackey precisava de
outro piloto como ala. A tarefa coube a Neil. Durante o resto do
cruzeiro, ele voou principalmente com Mackey, Chet Cheshire e
Ken Kramer. Dois dias depois da morte de Rickelton, como
lembra Mackey: “O almirante desceu à sala dos oficiais e disse:
‘Tenho más notícias: tal navio teve problemas e vai se atrasar
para nos substituir, e vamos ter de voltar mais uma vez.”
Mais uma vez, o objetivo seriam as pontes em plena Coreia do
Norte. Desde o início da guerra, pontes tinham sido o alvo
principal da campanha de interdição. Segundo estatísticas
oficiais do Pentágono, os aviões da Marinha destruíram 2.005
pontes norte-coreanas de um total de 2.832 destruídas por todas
as Forças Armadas.
Com o tempo, a Marinha aprendeu — a um alto preço — que
o segredo dos ataques eficazes a pontes era a coordenação dos
aviões a hélice e jatos em um ataque único e simultâneo.
Marshall Beebe e os comandantes de esquadrão do Grupo Aéreo
5 bolaram o plano básico no Essex nos últimos meses de 1951.
Os jatos, com aproximação mais alta e picada na “aproximação
para o bombardeio” de um alvo e fuga mais rápida, tinham
melhores chances de penetrar as defesas de uma ponte.
Contudo, os jatos não eram os melhores aparelhos para destruir
uma ponte, o que demanda novecentos quilos de bombas que
eles não podem carregar. A função dos jatos era neutralizar o
fogo antiaéreo. Então entravam em cena os Corsairs, que
também bombardeavam e metralhavam as posições da artilharia
antiaérea, seguidos, por fim, pelos Skyraiders, que despejavam o
armamento pesado. Normalmente, pelo menos 24 aeronaves
participavam de um grande ataque a uma ponte: oito jatos, oito Corsairs e oito Skyraiders. A nova tática bem-sucedida foi logo
adotada por toda a Força-tarefa 77, com uma alteração: para
evitar que a nuvem provocada pela explosão das bombas dos
jatos ocultasse os alvos a serem atingidos pelos aviões a hélice,
os grupos aéreos instruíram os jatos a deslocar seus alvos para
mais longe das pontes.
Embora a nova tática tenha diminuído o número de baixas nos
grupos aéreos, não houve como evitar a perda de alguns
homens. Três outros pilotos morreram depois de Rickelton. A
morte que mais abalou Armstrong e o restante do VF-51 foi a do
tenente Leonard R. Cheshire, em 26 de janeiro de 1952.
Como Rickelton, “Chet” Cheshire era do Novo México — de
Albuquerque, para ser exato. Ele tinha se casado pouco antes de
ir para a Coreia. Terminada a guerra, pretendia ser professor. Neil
e Chet dormiam um em frente ao outro, cada um de um lado do
corredor, nos estrados inferiores. Os dois — o membro mais
jovem do esquadrão e seu mais velho tenente — ficaram muito
amigos. A divisão de Mackey estava em sua segunda incursão
contra um trem camuflado parado na área de Kowan, adjacente à
baía de Wonsan, quando o avião de Cheshire foi atingido pela
fatal artilharia antiaérea.
Naquela noite, pelo alto-falante da embarcação, o capelão
rezou uma prece, como sempre fazia, pelos homens que tinham
perdido a vida. Desde que tinham deixado o Havaí para ir à
Coreia, ele fez essa oração pelos homens de Beebe 28 vezes.
Às 13h30 de 1o de fevereiro de 1952, o Essex deixou a Força-
tarefa 77 rumo a Yokosuka, pondo fim a seu quarto período de
combate depois de duríssimos 37 dias fora de porto. Depois de
bem mais de dois mil voos durante o período (441 deles pelo VF-
51), o Grupo Aéreo 5 tinha disparado cerca de quatrocentos mil
projéteis, lançado quase dez mil bombas, disparado
aproximadamente 750 foguetes e atingido o inimigo com pouco
menos de 1.300 quilos de napalm. Isso resultou em 1.374
interrupções em vias férreas, na destruição completa de 34
pontes e parcial de outras 47, além de uma grande quantidade
de material bélico e de infraestrutura destruído ou danificado.
Para realizar esses ataques, o CVG-5 perdeu cinco homens, dois deles do VF-51, e ficou com mais de uma dúzia de aeronaves
fora de serviço.
O quinto e último período de combate de Armstrong começou
em 18 de fevereiro de 1952. Felizmente, durou apenas duas
semanas. Neil esteve no ar em cada um dos dias em que se
realizaram voos, em um total de treze voos. No dia 25, Neil
acabou com o trabalho noturno do inimigo em um ataque matinal
que destruiu as locomotivas e os quarenta vagões de um trem. O
último voo de Neil na Guerra da Coreia foi em 5 de março de
1952. Naquele dia, os pilotos do VF-51 transferiram suas
aeronaves para o Valley Forge. Ao todo, Neil pilotou cada um dos
F9F do VF-51 pelo menos uma vez, menos os que foram
abatidos precocemente.
Armstrong cumpriu um total de 78 missões e passou mais de
121 horas no ar. Trinta delas foram de patrulhamento de combate
aéreo, quinze de escolta em reconhecimento fotográfico e uma
de treinamento de tiro. Nas outras 32, ele fez voos de
reconhecimento, varredura com caças, interrupção de vias
férreas e supressão de artilharia antiaérea.
Em 11 de março de 1952, o Essex partiu rumo ao Havaí.
Finalmente, em 25 de março, avistou-se o glorioso litoral da
Califórnia. Assim como seus camaradas aviadores, Armstrong
chegou em casa com o peito cheio de medalhas. À semelhança
de muitos de seus companheiros de tripulação, Neil costumava
fazer pouco de suas conquistas, dizendo: “Eles distribuíam
medalhas como se fossem estrelas douradas na escola
dominical.” Sua primeira condecoração, a Medalha do Ar, foi-lhe
dada em reconhecimento por seus vinte primeiros voos de
combate; a segunda, a Estrela de Ouro, pelos vinte voos
seguintes. Juntamente com seus companheiros, Neil recebeu
também a Medalha de Serviço na Coreia e a Estrela de
Compromisso.