O Primeiro Homem na Lua
Capítulo 24: Um pequeno passo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
CAPÍTULO 24
Um pequeno passo
Viola Armstrong e seu marido, junto com o pastor de sua igreja,
fizeram orações em agradecimento quando os homens pousaram
na Lua. “Se eu lhes dissesse que sentia a força de milhões de
orações, talvez vocês não acreditassem em mim, e eu não os
culparia. Mas as ondas dessas orações chegavam até mim e eu
estava sendo apoiada, com firmeza e delicadeza, pela força
invisível de Deus.” Diante da casa dos pais de Neil em
Wapakoneta, os repórteres de TV entrevistaram o casal logo
após o pouso:
VIOLA: Eu temia que o chão da Lua fosse muito inseguro para eles. Estava
preocupada, achando que eles podiam afundar demais. Mas não, isso não aconteceu. Então foi maravilhoso.
REPÓRTER: Sr. Armstrong, o que o senhor sentiu?
STEVE: Fiquei preocupado porque, pelo que eu tinha entendido, Neil tinha levado a
nave para outro local. Por isso, a área não era exatamente o ponto que eles tinham planejado.
REPÓRTER: E a voz dele? Estava diferente? Ou estava calma e normal para vocês?
VIOLA: Percebi que ele estava satisfeito, entusiasmado e emocionado. Ele estava
com sempre foi.
STEVE: Tive a mesma impressão, de que era o mesmo Neil de sempre.
Em El Lago, em casa com os dois filhos, a experiência de
Janet Armstrong em relação ao pouso foi diferente. Ela preferiu
não assistir à cobertura televisiva. Ficou andando de lá para cá
entre as duas caixas de som da NASA, uma delas na sala, para
que todos os seus convidados ouvissem, e a outra em seu quarto
para que ela pudesse ouvir com privacidade. “Não assisti ao voo
pela TV. Mas vimos TV durante o pouso e enquanto os homens
caminhavam na superfície lunar, porque era uma boa maneira de
ouvir e ver, já que eles tinham as câmeras. As especulações dos comentaristas de TV — o drama das coisas que poderiam
acontecer se houvesse um problema ao longo do percurso —, eu
realmente não precisava ouvir tudo aquilo. Me deixava maluca.”
A casa de Janet estava cheia de vizinhos e conhecidos, nem
todos convidados. Suas irmãs estavam lá, uma com o marido e
os filhos. Dentro da casa encontrava-se o pessoal onipresente da
revista Life; do lado de fora, um enxame de repórteres. O irmão
de Neil, Dean, a esposa e o filho estavam lá. Havia um padre
local, convidado por Janet. A mãe de Janet tinha ido a Houston
para o lançamento, mas depois voltou para o sul da Califórnia. As
pessoas iam e vinham ao longo do dia. Janet prendeu uma
prancheta na porta da frente com uma folha de presença e uma
caneta esferográfica pendurada nela. Não fosse isso, ela não
teria sabido quem tinha estado lá. “Eu estava prestando atenção
ao voo, e isso era o mais importante. Não era um evento social.”
Como sempre, outros astronautas e suas esposas apareciam
para dar apoio emocional às famílias dos tripulantes. Janet
conhecia bem a missão. Em seu quarto, tinha mapas da Lua e
outros materiais técnicos que Neil lhe dera. Estudava os gráficos
que mostravam os estágios da descida propulsionada e, de lápis
na mão, conferia os pontos de referência quando as
comunicações de rádio informavam que a Eagle estava
passando por eles. Depois que a NASA escolheu a tripulação da
Apollo 11, ela recebeu um pouco de treinamento de pilotagem,
também para ter uma ideia de como pousar o Beechcraft
Bonanza que Neil acabara de comprar em sociedade caso
houvesse alguma emergência enquanto a família estivesse em
voo. Ela também quis entender melhor o que o marido estava
fazendo para se comunicar com a imprensa e com os filhos.
“Rick tinha doze anos, cinco a mais que Mark. Estava
interessado, mas Mark era muito pequeno. Mark não se lembra
de muito — de nada disso.” Na ocasião, o garotinho repetia:
“Meu pai está indo para a Lua. Ele vai demorar três dias para
chegar lá. Quero ir à Lua algum dia com meu pai.”
Janet se lembra de “ter conversado com o marido pouco antes
de ele partir para o voo da Apollo, pedindo-lhe que conversasse
com os meninos e explicasse o que estava fazendo. Eu disse a Neil: ‘Existe a possibilidade de você não voltar.’ Falei bem na
frente das crianças. Eu disse: ‘Gostaria que você contasse aos
meninos.’ Mas acho que isso não foi adiante.”
Para os meninos, o dia do pouso, com a casa cheia de gente,
foi uma grande festa. Com a presença das irmãs e da cunhada,
Janet teve ajuda. “Havia gente em casa. Não precisei me
preocupar muito com os meninos. Eles iam nadar, e as pessoas
ficavam de olho neles. Alguns amigos deles estavam lá. Tentei
manter a vida o mais normal possível para eles, mas aquele dia
provavelmente não foi muito normal.”
Durante as transmissões de TV da tripulação durante a
jornada de ida, ela dizia: “Mark, anda logo. Vamos ver o papai.”
Quando o braço de Neil apareceu na tela, ela comentou: “Deve
ser o papai bem ali. Lá está ele!” Rick ficava atento, mas Mark,
que era pequeno, se distraía com outras coisas. Com todos os
preparativos para os convidados, Janet mal pôde dormir na noite
anterior ao pouso. Sem dúvida, toda aquela pressão a afetou, e
ela acendia um cigarro atrás do outro para aliviar a tensão. Na
tarde anterior, quando achou que o controle de missão estava
demorando um pouco para relatar a aquisição de sinal da
Columbia, ela deu um soco na mesa de centro.
Quando a PDI começou, o dia já ia adiantado na casa dos
Armstrongs. Para suportar a aflição do pouso, Janet mais uma
vez precisou ficar sozinha e se retirou para a privacidade do
quarto. Bill Anders decidiu ficar com ela. Bill e Janet tinham dado
a Pat White a notícia daquela terrível noite de janeiro de 1967,
quando o marido dela, Ed, morreu no incêndio da Apollo, e Bill
achou que deveria ficar com Janet durante o pouso. Rick, um
menino muito inteligente e sensível, também quis ficar com a
mãe. Ela e Rick vinham acompanhando o mapa de voo da
NASA, passo a passo, agora com a ajuda de Anders. Rick se
acomodou no chão, perto da caixa de som, e Janet ficou de
joelhos ao lado dele, abraçando forte o filho enquanto a Eagle
descia seus 76 metros finais.
Janet lembra-se de ter dado um grande suspiro de alívio no
momento do pouso. Outras pessoas entraram para abraçá-la,
beijá-la e dar-lhe os parabéns. De volta à sala de estar, ela e todos os convidados tomaram um drinque para comemorar. No
entanto, a preocupação estava longe de terminar. “Eu não estava
realmente tão preocupada com o pouso. Eu achava que Neil
conseguiria fazer aquilo se fosse possível. Mas, Deus, não se
sabia se aquele motor de ascensão iria pegar no dia seguinte. Se
você escutasse a TV, como eu mais tarde naquela noite, o drama
era o pouso. Bem, esqueça o pouso! Será que eles conseguirão
sair de lá?!”
* * *
Olhando para trás, duas questões podem parecer curiosas a
respeito da situação técnica da Apollo 11 logo após o pouso.
Primeiro, ninguém na NASA sabia onde exatamente a Eagle
tinha pousado. “Poderíamos achar que o radar deles era muito
bom para conseguir nos dar a localização mais rápido”, observou
Neil. Quando uma espaçonave estava em uma trajetória ou em
órbita, com todas as medições ópticas e de radar sendo feitas,
tanto a base quanto a tripulação tinham uma ideia bem
aproximada de onde estava o veículo de voo, mas quando o
objeto estava localizado em um ponto e se obtinha sempre a
mesma medição, a situação era bem diferente. “Aquilo gerava
uma incerteza maior do que eu imaginava que haveria.”
Na Columbia, que estava passando sobre a base da
Tranquilidade a uma altura de cem quilômetros, Collins olhou
com atenção pelo sextante tentando localizar o módulo lunar.
Pelo rádio, ele tinha ouvido tudo e, com razão, sentiu que fazia
parte da conquista.
“Base da Tranquilidade, sem dúvida daqui de cima pareceu
ótimo”, disse Mike por rádio aos companheiros. “Vocês fizeram
um trabalho fantástico.”
“Obrigado”, respondeu Neil, calorosamente. “Trate de manter
essa base em órbita pronta para nós aí em cima.”
“Farei isso”, respondeu Collins. Forçando o olho direito pelo
visor, Mike rastreou-os até onde pôde durante a descida, até que
eles desapareceram de vista como um “ponto minúsculo”, a cerca de 185 quilômetros do local de pouso. Agora, mesmo com
a equipe de solo enviando números de rastreamento para que
ele inserisse em sua unidade de monitor-teclado de modo que o
computador de orientação do módulo de comando pudesse
apontar com precisão seu sextante, Mike, frustrado, não
conseguia vê-los.
04:07:07:13 Collins: [Para Houston] Vocês têm alguma ideia se
eles pousaram à esquerda ou à direita da linha central? Só
um pouquinho mais longe — é tudo o que vocês sabem?
04:07:07:19 CapCom [Charlie Duke]: Aparentemente, é tudo o
que podemos dizer, câmbio e desligo.
As informações limitadas fornecidas por Houston pouco
ajudaram Mike: “Não consigo ver nada além de crateras.
Crateras grandes, crateras pequenas, arredondadas,
pontiagudas, mas nada do módulo lunar no meio delas. O
sextante é um instrumento óptico poderoso, aumenta 28 vezes o
que se vê, mas o preço que se paga por esse aumento é um
campo de visão muito estreito, com apenas 1,8 grau de largura
(correspondente a 950 metros no solo), então é quase como
olhar para baixo pelo cano de uma arma. O módulo lunar pode
estar por perto, e eu movimento o sextante para a frente e para
trás em uma busca frenética, mas no pouco tempo que tenho,
posso vasculhar apenas cerca de 2,5 quilômetros quadrados da
superfície lunar, e desta vez é a área errada.”
Collins nunca localizou a Eagle na superfície lunar, em
nenhuma de suas buscas, o que foi uma preocupação para ele
mais do que para qualquer outra pessoa. A principal
preocupação no controle de missão sobre a localização exata do
módulo lunar não era dos geólogos — eles já estavam bem
satisfeitos com o pouso da Apollo 11 em qualquer ponto daquela
planície escura. “Eles só queriam que a gente fosse lá e pegasse
algumas coisas!” Mas o controle de missão, com certeza, ficou
preocupado com a questão de onde exatamente o módulo lunar
tinha pousado, como explica Neil: “Muita gente estava interessada em saber onde havíamos pousado, em especial os
que tinham a ver com o controle da trajetória de descida. Afinal
de contas, em voos posteriores, tentaríamos chegar a pontos
específicos da superfície e precisávamos obter todas as
informações possíveis sobre métodos que pudessem ajudar na
precisão. No entanto, não saber o local exato onde o módulo
lunar havia pousado não afetou muito o que fizemos. Nem quem
estava em solo pensou que se tratava de uma ocorrência
desastrosa. Mas o fato era que eles não sabiam o local exato
onde estávamos e queriam muito saber.”
Relacionado à questão de onde exatamente havia sido feito o
pouso estava o mistério sobre como as mascons (do inglês mass
concentration, concentração de massa) poderiam ter afetado o
caminho da Eagle até a superfície. A NASA já tinha uma ideia de
como as perturbações causadas pelas mascons nas
proximidades do equador da Lua poderiam afetar uma
espaçonave, mas na época da Apollo 11, conforme observou
Armstrong, a NASA estava “tentando reduzir o erro dessas
incertezas a ponto de podermos ter cada vez mais certeza de
chegar a um ponto determinado da superfície”.
Muito mais premente era a questão de saber se Neil e Buzz
deveriam permanecer na superfície mesmo que por pouco
tempo. Sempre havia a possibilidade de algum sistema da
espaçonave não funcionar bem, exigindo uma rápida decolagem
pelo estágio de ascensão da Eagle. “Se algo indicasse que não
era seguro continuar na superfície”, relatou Neil, “teríamos de
fazer uma decolagem imediata.”
Durante a vida útil do sistema de energia elétrica no módulo
lunar, havia três momentos iniciais em que o módulo lunar
poderia decolar e entrar em uma trajetória satisfatória para a
aproximação com o módulo de comando. O primeiro, designado
como T-1, viria apenas dois minutos após o pouso. O T-2 viria
oito minutos depois, mas o T-3 só viria depois que a Columbia
completasse outra órbita, em um período de duas horas. Se
houvesse uma emergência que obrigasse a Eagle a partir em
qualquer outro momento que não esses três, caberia a Armstrong
e Aldrin, no módulo lunar, e a Collins, no módulo de comando, encontrar alguma forma, qualquer que fosse, de assumir uma
posição viável para o acoplamento.
À primeira vista, os sistemas do módulo lunar pareciam operar
bem. A Equipe Branca de Gene Kranz chegou a um acordo sobre
a decisão de “permanecer/não permanecer” que Charlie Duke
transmitiu para Neil e Buzz.
04:06:47:06 CapCom: Eagle, permanecer para T-1.
04:06:47:12 Armstrong: Câmbio. Entendido. Permanecer para T-
1.
Cinco minutos depois, após mais verificações nos sistemas da
espaçonave, Duke transmitiu à Eagle: “Permanecer para T-2.” Os
astronautas ficariam na Lua pelo menos até a decisão final de
permanecer/não permanecer.
Um dos grandes problemas técnicos nos primeiros minutos
após o pouso foi a possibilidade de acúmulo excessivo de
pressão nas mangueiras de combustível do módulo lunar por
causa da alta temperatura na superfície lunar durante o dia.
“Essas mangueiras de combustível não eram novidade”, lembra
Armstrong. Nos dias que antecederam o lançamento,
especialistas em hidráulica conversaram com a tripulação sobre
o que poderia acontecer se os tanques ficassem quentes demais,
e as mangueiras, superpressurizadas. “Se fechássemos todas as
válvulas e contivéssemos o fluido em certas mangueiras”, explica
Neil, “estaríamos sobre uma superfície de duzentos graus de luz
solar com muito calor refletido subindo em direção ao fundo do
módulo lunar e esquentando os canos. A pressão do fluido
poderia aumentar demais nessa mangueira, e então teríamos um
problema. Foi uma coisa sobre a qual falamos antes do
lançamento no que se refere a procedimentos ideais, e sabíamos
que era algo em que devíamos prestar atenção quando
pousássemos, mas não uma situação incontrolável. Tínhamos
algumas opções sobre como lidar com aquilo e sabíamos que os
caras no solo iriam fazer sua parte, então não estávamos muito
preocupados nesse aspecto.”
Como prevíamos, assim que o motor foi desligado houve um
aumento acentuado na pressão dentro das mangueiras de
combustível do motor de descida do módulo lunar. “Com dois
minutos de pouso”, nas palavras de Neil, “ventilamos tanto o
tanque de combustível quanto o de oxidante, conforme
planejado. Mas a pressão ainda assim subiu, provavelmente por
causa da evaporação de carburante residual no tanque
decorrente da alta temperatura da superfície. Então, ventilamos
outra vez. A equipe de solo estava recebendo uma leitura
diferente da nossa, devido a uma localização diferente do
transdutor; acho que o deles estava em uma mangueira presa.
Eu achava que o pior que poderia acontecer seria o rompimento
de uma mangueira ou de um tanque. Como não usaríamos mais
o estágio de descida, não seria um problema grave, na minha
opinião. Aquilo não me preocupou muito.”
No entanto, Houston considerou a situação perigosa. Se o
combustível se espalhasse pelo motor de descida ainda quente,
poderia ocorrer um incêndio, embora fosse improvável no vácuo.
Felizmente, a ventilação aliviou a pressão e o problema foi
resolvido.
Para Armstrong e Aldrin, sem dúvida, não havia tempo para
aproveitar o pouso. Mesmo depois de receber o comando de
“permanecer”, e antes mesmo que pudessem dar uma olhada de
perto na paisagem lunar, eles tinham de repassar o ensaio geral
completo para a decolagem do dia seguinte. Segundo Neil: “A
intenção era repassar todos os procedimentos para uma
decolagem normal e verificar se todos funcionavam bem. Foi
preciso alinhar a plataforma do módulo lunar, pela primeira vez,
já que ninguém jamais tinha feito um alinhamento de plataforma
na superfície. Usamos a gravidade para determinar a vertical
local, e o brilho de uma estrela para estabelecer um azimute;
dessa forma, deixamos a plataforma alinhada e pronta para a
decolagem. Muito embora todos considerassem isso uma
simulação, mesmo assim repassamos todas as verificações de
sistemas como faríamos em uma decolagem real.”
Na opinião de Neil, o tempo de execução da simulação
permitiu que o controle de missão fizesse uma avaliação completa do progresso da missão. “Nossos recursos de dados
sobre a superfície lunar eram limitados. Se descobríssemos que
havia algum problema, precisaríamos maximizar o tempo
disponível para que o controle de missão o resolvesse e
descobrisse o que poderíamos fazer a respeito. Então, acho que
foi uma boa estratégia fazer essa decolagem simulada antes de
mais nada.”
Só depois que Collins passou pela segunda vez lá em cima,
Buzz e Neil pararam com a contagem regressiva simulada,
iniciada com o permanecer para T-3, e respiraram aliviados.
Durante as duas primeiras horas na Lua, enquanto Aldrin
transmitia em detalhe à Terra as medidas e os alinhamentos que
estava fazendo para fins de navegação, Armstrong teve a
primeira oportunidade de descrever o que via lá fora:
04:07:03:55 Armstrong: A área da janela da esquerda é uma
planície relativamente nivelada, com um número bastante
grande de crateras que variam de 1,5 metro a quinze
metros, e algumas cristas pequenas, com seis, nove metros
de altura, eu diria, e literalmente milhares de pequenas
crateras de trinta a sessenta centímetros ao redor da área.
Vemos alguns blocos angulares a várias centenas de
metros à nossa frente, provavelmente com sessenta
centímetros de tamanho e bordas angulares. Há uma colina
à vista, mais ou menos no caminho diante de nós. Difícil
estimar, mas pode ter de oitocentos metros a 1,5
quilômetro.
04:07:04:54 CapCom: Entendido, Tranquilidade. Câmbio, desligo.
04:07:05:02 Collins: Parece que está muito melhor do que ontem,
naquele ângulo muito fechado do Sol. Parecia um sabugo.
04:07:05:11 Armstrong: Bem irregular mesmo, Mike. Acima do
local de pouso especificado, era extremamente acidentado,
com crateras e um grande número de rochas — algumas,
muitas — que tinham provavelmente mais de 1,5 metro e
três metros.
04:07:05:32 Collins: Na dúvida, pouse longo.
Neil voltou a falar da cor da Lua: “Eu diria que a cor da
superfície local é bastante comparável àquela que observamos
em órbita nesse ângulo do Sol — cerca de dez graus de ângulo
solar. É praticamente sem cor. É cinza, e muito branca, cinza
esbranquiçado, quando se olha para a linha de fase zero. E é um
cinzento bem mais escuro, tipo cor de cinzas, quando se olha
com o Sol a noventa graus. Algumas das rochas de superfície
próximas daqui que foram fraturadas ou atingidas pela fumaça do
motor do foguete estão cobertas com esse cinza-claro por fora,
mas onde foram quebradas mostram um interior cinza muito
escuro, talvez basalto vulcânico.” De acordo com o plano de voo,
a simulação da decolagem seria seguida da hora da refeição e,
depois, oficialmente, por um período de descanso de quatro
horas. Aldrin recorda: “Era chamado de período de descanso,
mas também era uma margem de folga reservada para o caso de
precisarmos descrever uma órbita lunar extra antes do pouso, ou
se houvesse algum tipo de dificuldade que pudesse atrasar o
pouso. Como pousamos na hora programada e não estávamos
muito cansados, optamos por pular o período de descanso de
quatro horas. Estávamos empolgados demais para dormir, de
qualquer forma.”
A ideia de pular o período de descanso tinha sido discutida e
planejada à exaustão antes do lançamento. “Nas discussões
iniciais sobre como organizaríamos o cronograma de atividades”,
conta Neil, “concluímos que a melhor coisa a fazer, se tudo
estivesse indo bem, seria ir direto lá para fora, o mais rápido
possível, e fazer o trabalho de superfície antes de nosso período
de sono. Reconhecíamos que até mesmo as chances de descer
em segurança — com tudo funcionando bem em todos os
sistemas para permitir a saída — eram problemáticas. Se
programássemos a atividade de superfície para assim que
possível depois da primeira revolução da Columbia e após a
decolagem simulada, e tudo o mais — imediatamente depois
disso — e não realizássemos tudo a tempo, o público e a
imprensa nos crucificariam. Essa era simplesmente a realidade
do mundo. Então tentamos amenizar as coisas dizendo que
íamos dormir e depois sairíamos para a atividade extraveicular.
“Mas nunca pretendemos fazer as coisas dessa maneira.
Conversamos sobre isso com Slayton e Kraft — e algumas
outras pessoas. Minha lembrança é que todos achavam que era
razoável o que queríamos fazer. E então todos concordaram que
faríamos assim se fosse possível. Sabíamos que haveria uma
mudança que não era esperada, mas achamos que era dos
males o menor.”
Com tudo em ordem, às cinco da tarde, hora da costa leste
dos Estados Unidos, Armstrong transmitiu por rádio a informação
de que pretendiam iniciar a atividade extraveicular em mais ou
menos três horas, às oito da noite, antes do programado. Ciente
do acordo preestabelecido, Charlie Duke aprovou a mudança.
Aldrin e Armstrong fizeram uma refeição, conforme o
programado, mas não antes de Aldrin pegar seu kit de
preferências pessoais (personal preference kit) e tirar dali dois
pacotinhos dados a ele por seu pastor presbiteriano em Houston.
Um continha um frasco de vinho; o outro, pão. Despejando o
vinho em um pequeno cálice que também trazia em seu kit, ele
se preparou para a sagrada comunhão.
Com 04:09:25:38 de tempo decorrido da missão, Buzz
transmitiu: “Houston, aqui fala o piloto do módulo lunar. Eu
gostaria de pedir alguns minutos de silêncio. Gostaria de
convidar todas as pessoas que me ouvem, onde quer que
estejam ou quem quer que sejam, para contemplar os eventos
das últimas poucas horas e agradecer a sua própria maneira.”
Então, com o microfone desligado, Buzz leu para si mesmo o
texto de João 15:5, tradicionalmente usado na cerimônia de
comunhão presbiteriana, que ele transcrevera em um cartão.
Sua intenção era ler a passagem para a Terra, mas Slayton
aconselhou-o a não fazer isso, e Buzz concordou. A leitura de um
trecho da Gênesis na véspera do Natal da Apollo 8 tinha gerado
controvérsia o suficiente para que a NASA passasse a evitar
mensagens religiosas públicas. Madalyn Murray O’Hair, a célebre
ateísta americana, tinha processado o governo federal por causa
da leitura da Bíblia feita por Borman, Lovell e Anders. Na época
da Apollo 11, Madalyn O’Hair apresentou uma queixa contra a
NASA, que estaria ocultando de propósito o “fato” de Armstrong ser ateu. Embora a Suprema Corte dos Estados Unidos tenha
rejeitado o processo, a NASA, como era de esperar, não queria
arriscar outra batalha do tipo. Para azar da NASA, a notícia da
cerimônia religiosa de Aldrin chegou à imprensa. Cronkite
passou-a adiante, dizendo aos espectadores: “Buzz Aldrin levou
mesmo algo incomum consigo, e isso tornou-se público — foi
divulgado fora de Houston pelo pastor de sua igreja. Ele levou
um pedaço de pão consagrado, para que durante sua refeição
desta noite ele possa, de certa forma, compartilhar a comunhão
com as pessoas de sua igreja, tomando um pedaço daquele pão
lá em cima na superfície da Lua. A primeira comunhão na Lua.”
Como seria de esperar, Neil recebeu o ritual religioso de Buzz
com um silêncio educado. “Ele tinha me dito que planejava uma
pequena comunhão comemorativa”, lembra Neil, “e perguntou se
eu tinha algum problema com isso, e eu respondi: ‘Não, vá em
frente.’ Eu estava ocupado com muitas coisas. Simplesmente
deixei ele fazer o que queria.”
Depois da refeição e de algumas tarefas domésticas, os
astronautas voltaram toda a sua atenção para os preparativos da
atividade extraveicular. Por mais que tivessem praticado dentro
do simulador do módulo lunar, fazer a coisa para valer era muito
mais difícil e demorado. “Quando você faz simulações de
preparação da atividade extraveicular”, Neil explicou na reunião
técnica da NASA após a missão, “você tem uma cabine limpa,
com todas as coisas que vai usar lá e nada mais. Mas, na
realidade, há muitos checklists, dados, pacotes de comida,
lugares para guardar um monte de apetrechos cheio deles,
binóculos [na verdade, um monóculo], cronômetros e diversas
coisas, e você se sente obrigado a avaliar se estão guardados
em lugar satisfatório para a atividade extraveicular e se talvez
não seria bom mudar alguma coisa nos planos de pré-voo.
Seguimos o checklist da preparação da atividade extraveicular
praticamente à risca, exatamente como fizemos durante os
exercícios de treinamento — ou seja, as conexões e onde
colocar os equipamentos — e as verificações foram feitas
exatamente de acordo com nosso checklist. Estava tudo certo. Foram essas outras coisinhas que não tinham sido pensadas que
tomaram mais tempo do que imaginávamos.”
Levou uma hora e meia para que Buzz e Neil ficassem prontos
para iniciar os procedimentos preparatórios da atividade
extraveicular, e mais três horas para fazer os preparativos, que
deveriam ter tomado duas horas. A maior parte do tempo foi
usada para colocar as mochilas, vestir os capacetes e as luvas e
configurar tudo para a saída. Uma das principais razões para
terem demorado tanto foi porque estava muito apertado dentro
do módulo lunar. Aldrin recorda: “Nós nos sentimos como dois
atacantes de futebol americano tentando trocar de posição dentro
de uma barraca pequena para escoteiros Lobinho. Também
precisávamos ter muito cuidado com nossos movimentos. No
módulo lunar, o peso era um fator ainda mais crítico do que na
Columbia. A estrutura lá era tão fina que um de nós poderia ter
pegado um lápis e tê-lo enfiado pela lateral da nave.
Neil explicou: “Estava bem apertado lá dentro, com os trajes
inflados. Era sem dúvida uma cabine maior que a da Gemini,
então havia mais espaço do que eu estava acostumado. Todavia,
era preciso ter muito cuidado e movimentar-se devagar. Era
muito fácil esbarrar nas coisas. Aquela mochila pendurada nas
costas tinha quase trinta centímetros de profundidade e uma
superfície dura; se fizéssemos um movimento rápido,
poderíamos facilmente bater nas coisas.” E eles bateram nas
coisas. Por exemplo, o botão externo de um disjuntor de um
circuito de armação do motor de subida quebrou, e Buzz
conseguiu apertá-lo antes da decolagem com a ponta de uma
caneta hidrográfica.
Procedendo com grande cuidado, os dois homens usaram
todo o tempo reservado para vestir os trajes e um pouco mais.
Também levaram mais tempo que o previsto para pôr em
funcionamento as unidades de resfriamento nas mochilas de seu
sistema primário de suporte à vida (da sigla em inglês PLSS,
Primary Life Support System) e ainda mais tempo do que o
esperado para despressurizar o módulo lunar para a saída.
Segundo Neil: “Tínhamos de despressurizar a cabine e
queríamos proteger a superfície lunar dos germes da Terra, por isso havia filtros em todas as saídas de ar. Nunca tínhamos feito
os testes com filtros, e demorou muito mais tempo para
despressurizar a cabine do que havíamos previsto.” Eles
estavam prontos para abrir a escotilha e para a saída de Neil à
superfície uma hora depois do estimado, ainda que cinco horas
mais cedo que no cronograma original.
Abrir a escotilha foi uma tarefa árdua. “Foi um esforço mais de
paciência do que qualquer outra coisa”, explica Neil. “Era uma
escotilha de bom tamanho — trinta a quarenta decímetros
quadrados mais ou menos. Então, quando diminuímos a pressão
da cabine para um nível PSI muito baixo, foram necessárias
duzentas libras de pressão para abri-la. Não é nada fácil exercer
uma pressão de novecentos newtons para puxar uma alavanca
— não usando aqueles trajes pesados. Então tivemos de esperar
que diminuísse a diferença de pressão entre o lado de dentro e o
lado de fora da porta antes de abri-la. Tentamos várias vezes,
mas não queríamos entortar nem quebrar nada. Na maior parte
do tempo, era Buzz quem fazia força porque a porta abria na
direção dele; era mais fácil ele puxar do que eu empurrar.”
A escotilha enfim se abriu, e Neil começou a passar de costas
pela pequena abertura. Olhando para baixo e ao redor, Buzz
ajudou-o a se movimentar. Segundo Neil: “A saída exigia que
você atravessasse a escotilha de costas, pondo os pés para fora
primeiro. A técnica consistia em abrir bem a porta, ficar de frente
para a parte traseira da cabine do módulo lunar, depois ajoelhar-
se e deslizar para trás, fazendo os pés passarem pela escotilha
primeiro. Então, era preciso se haver com a mochila, que se
estendia bem além das costas. Era necessário ficar bem
abaixado, mas também havia coisas no caminho que não podiam
ser danificadas. Por isso, tínhamos de executar esse tipo de
procedimento desajeitado com o maior cuidado possível para não
danificar nada.”
Armstrong estava tão concentrado na técnica de saída que
quando chegou à pequena entrada do módulo lunar esqueceu-se
de puxar o cordão logo acima da escada para liberar a unidade
de armazenamento do equipamento modular (da sigla em inglês
MESA, Modular Equipment Storage Assembly). O cordão também ativava a câmera de televisão que transmitiria à Terra as
imagens da descida de Neil pela escada e seu primeiro passo na
superfície lunar. Percebendo a omissão, Houston lembrou-o
disso, e Neil recuou um pouco para puxar o cordão.
A câmera de televisão era em preto e branco. “Tínhamos uma
câmera colorida no módulo de comando”, explica Neil, “mas era
grande e pesada, e estávamos muito preocupados com o peso
no módulo lunar. O peso e a energia elétrica foram os fatores
principais que determinaram o uso da câmera de TV orthicon
com imagens em preto e branco, muito menor.” A orthicon é
basicamente um tubo de captação que usa um feixe de elétrons
de baixa velocidade para escanear um mosaico fotoativo.
“Quando saí pela primeira vez do módulo lunar para a entrada
e puxei o cordão que ia liberar o painel da MESA, pelo que me
lembro, Buzz acionou um disjuntor do circuito que ligava a
câmera. Perguntei a Houston se eles estavam recebendo a
imagem, e eles disseram que sim, mas de cabeça para baixo.
Provavelmente fui eu quem ficou mais surpreso do que todos os
que estavam ouvindo aquela conversa, porque eu não esperava
que eles recebessem imagens [ninguém tinha recebido imagem
alguma durante as simulações pré-voo].”
Ficar ali no alto da escada não parecia nada perigoso. “Você
fica tão leve lá em cima e cai tão devagar que, se tiver onde se
segurar, vai conseguir controlar a queda. Então, nem me
preocupei em cair da escada.”
Na posição de CapCom, o astronauta Bruce McCandless
substituiu Owen Garriott para a atividade extraveicular:
04:13:22:48 McCandless: Ok, Neil, podemos ver você descendo
a escada agora.
04:13:22:59 Armstrong: Ok, acabei de checar a volta para o
primeiro passo, Buzz. A barra não ficou tão longe, mas está
ao alcance para subir de volta.
04:13:23:10 McCandless: Câmbio. Entendido.
04:13:23:25 Armstrong: É preciso dar um bom pulinho [para subir
de volta para o primeiro degrau].
04:13:23:38 Armstrong: Estou na base da escada. Os pés do
módulo lunar afundaram só entre 2,5 e 5 centímetros na
superfície, embora a superfície pareça ter grãos muito,
muito finos, conforme você se aproxima dela. É quase
como pó. [A] consistência do solo é muito fina.
04:13:24:13 Armstrong: Vou descer do módulo lunar agora.
Dos milhões de telespectadores que viram o que apareceu em
seus aparelhos de televisão, nenhum deles vai se esquecer do
momento em que Armstrong pisou pela primeira vez na
superfície da Lua. Ao ver as imagens escuras da TV em preto e
branco chegando de uma distância de quatrocentos mil
quilômetros, era como se tivesse se passado uma eternidade até
que Neil, com a mão direita na escada, finalmente pisasse na
Lua, primeiro com a bota esquerda.
O histórico primeiro passo foi dado às 22:56:15 EDT, ou
02:56:15, horário de Greenwich. Em termos de tempo decorrido
da missão, o passo foi dado, segundo o comunicado oficial da
NASA à imprensa, aos quatro dias, treze horas, 24 minutos e
vinte segundos.
Nos Estados Unidos, a maior parcela da audiência televisiva,
incluindo todos os que estavam nas casas da família Armstrong
em Wapakoneta e em El Lago, assistia à CBS e ouvia Cronkite,
que, em uma das raríssimas vezes em sua carreira de repórter,
ficou quase sem palavras. Depois de tirar os óculos e enxugar as
lágrimas, Cronkite declarou: “Armstrong está na Lua! Neil
Armstrong, um americano de 38 anos, está de pé na superfície
da Lua! Neste dia 20 de julho de 1969.”
O que também impressionou tanto Cronkite, assim como a
todos, foi o fato de que o mundo estava assistindo a algo que
acontecia tão longe, em um lugar onde nenhum ser humano
jamais estivera, através de uma transmissão de televisão ao vivo.
“Nossa! Olha essas imagens!”, exclamou o jornalista veterano.
“Está um pouco escuro, mas ele [Neil] disse que esperava isso à
sombra do módulo lunar.”
As imagens de televisão proporcionaram ao público a
sensação virtual de estar lá com Armstrong quando ele pisou na Lua. Sem elas, a experiência humana do primeiro passo do
Primeiro Homem ainda teria sido significativa, mas sem dúvida
muito diferente. Como diria Neil depois: “As imagens eram
surreais, não porque a situação fosse de fato surreal, mas só
porque a técnica e a qualidade da imagem de televisão davam
uma espécie de imagem irreal sobreposta.” Mesmo considerando
todas as teorias de conspiração ridículas das últimas quatro
décadas sobre o pouso na Lua ter sido uma transmissão falsa de
um estúdio de cinema localizado em um ponto remoto no meio
do deserto, Armstrong confessa: “Tenho de dizer que quase
parecia encenada.”
“Aquilo sem dúvida não foi de propósito. Se tivéssemos a
capacidade de obter uma imagem muito mais clara, com certeza
teríamos optado por ela.”
“Do ponto de vista técnico, a TV também foi valiosa”, lembrou
Armstrong, “para várias pessoas dentro da NASA e no entorno
dela.” Mas nenhuma informação tinha mais valor, ou estava mais
bem guardada do que as palavras que Armstrong diria ao pisar
na superfície lunar. Ninguém sabia, nem mesmo seus
companheiros de tripulação. Buzz recorda: “A caminho da Lua,
Mike e eu perguntamos a Neil o que ele ia dizer quando pisasse
na Lua. Ele respondeu que ainda estava pensando.”
Armstrong afirma que não perdeu tempo pensando no que
diria até pouco depois de executar com sucesso o pouso.
Com 04:13:24:48 de tempo decorrido da missão, alguns
segundos antes das 22h57 EDT, Neil pronunciou as palavras que
ficariam famosas para sempre:
É um pequeno passo para homem, um grande salto para a
humanidade.
Em El Lago, Janet teria dito, quando Neil estava descendo a
escada: “Não acredito que esteja realmente acontecendo.”
Depois, quando Neil tirou o pé do último degrau: “Esse é o
grande passo!” Quando ele começou a andar na Lua, ela pediu:
“Seja descritivo agora, Neil.” Em Wapakoneta, Viola, apertando com força os braços da cadeira, agradeceu a Deus por seu filho
não ter afundado na poeira lunar, um medo que muitas pessoas
ainda tinham mesmo depois do módulo lunar ter pousado. Janet
repetia para os convidados que ela não fazia a menor ideia do
que o marido diria quando pisasse na Lua. Uma hora antes,
enquanto todos ficavam cada vez mais ansiosos para que Neil e
Buzz começassem a atividade extraveicular, ela brincou: “Está
demorando tanto porque Neil está tentando decidir quais as
primeiras palavras que vai dizer quando pisar na Lua. Decisões,
decisões, decisões!”
A brincadeira de Janet não estava muito longe da verdade,
como contou Neil: “Uma vez na superfície e me dando conta de
que o momento estava próximo, por sorte tive algumas horas
para pensar sobre isso depois da chegada. Na minha opinião, foi
uma declaração facilmente explicável: o que se pode dizer
quando se tira os pés de algum lugar? Bem, algo a ver com um
passo. Essa ideia meio que evoluiu durante o período em que eu
estava fazendo os procedimentos da prática de decolagem, os
preparativos para a atividade extraveicular e todas as outras
atividades que constavam em nosso cronograma de voo naquele
momento. Eu não achei que fosse tão importante, mas outras
pessoas obviamente acharam. Mesmo assim, nunca pensei ter
escolhido uma declaração especialmente brilhante. Foi uma
declaração muito simples.”
Então, veio a questão do “um” que faltou — o fato de que Neil
pretendia mesmo dizer: “É um pequeno passo para um homem”,
mas, na pressa do momento, esqueceu-se de dizer ou
simplesmente não disse o “um”. Ou disse, mas de tal maneira
que ficou inaudível ou indistinto como palavra separada para o
público global.
Em relação à memória: “Não consigo recapitular isso. As
pessoas que me ouviram durante horas nas gravações da
comunicação por rádio sabiam que eu comia muitas sílabas. Não
era raro eu fazer isso. Não sou lá muito articulado. Talvez tenha
sido um som suprimido que não foi captado pelo microfone de
voz. Quando ouvi com atenção, pareceu que não havia tempo
para a palavra estar lá. Por outro lado, acho que pessoas razoáveis perceberão que não fiz intencionalmente uma
declaração tola, e que sem dúvida o “um” foi planejado, porque
essa é a única maneira de a afirmação fazer algum sentido.
Então, espero que a história me dê um crédito por ter cortado a
sílaba e entenda que ela certamente foi planejada, mesmo que
não tenha sido dita — embora na verdade deva ter sido.”
Quando lhe perguntaram como ele preferia que os
historiadores citassem sua declaração, Neil respondeu meio de
brincadeira: “Eles podem pôr entre parênteses.”
“Quanto ao que eu disse na Lua, dei um pequeno passo —
portanto essa parte foi muito fácil. Então não foi uma sacada
muito grande dizer com o que se poderia comparar isso.” Muita
gente pensou que Neil tirou a ideia da sua declaração depois ler
O Hobbit, de J. R. R. Tolkien (no livro, o protagonista Bilbo
Bolseiro salta sobre um vilão naquele que “não é um grande salto
para um homem, mas um salto no escuro”). Mas Neil não tinha
lido O Hobbit até bem depois da Apollo 11 (incentivados pelos
dois filhos, fãs de Tolkien, Neil e Janet dariam o nome de
Valfenda à fazenda que viria a ser sua casa em Lebanon, Ohio,
em 1971). Uma teoria muito menos quimérica é a de que um alto
funcionário da NASA teria lhe dado a ideia. Essa hipótese se
baseia na existência de um memorando de 19 de abril de 1969,
de Willis Shapley, um vice-diretor adjunto da sede da NASA, para
o dr. George Mueller, chefe do Escritório de Voo Espacial
Tripulado. Logo no início do memorando, ao falar sobre que tipo
de mensagem o pouso na Lua deveria apresentar ao mundo,
Shapley escreveu: “O aspecto de um ‘passo à frente para toda a
humanidade’ do pouso deve ser simbolizado principalmente por
uma inscrição adequada a ser deixada na Lua e por declarações
feitas na Terra.” Conta-se que Mueller teria passado esse
memorando para Deke Slayton, que o mostrou a Armstrong. No
entanto, Armstrong não tinha absolutamente nenhuma lembrança
do memorando nem sequer de ter ouvido falar dele. Parece ser
outro exemplo de declaração semelhante que foi feita
independentemente.
“Então, Neil, em sua cabeça, nunca houve um contexto em
particular para você criar a frase? Não estava ligada a nenhuma outra citação ou experiência?”
“Não que eu saiba ou consiga me lembrar. Mas nunca se sabe
de onde vêm subliminarmente as coisas em seu cérebro. Mas
com certeza não foi consciente. Quando uma ideia passa pela
primeira vez por sua cabeça, ela se mostra como um
pensamento original.”
* * *
Nos primeiros minutos fora do módulo lunar, Armstrong limitou
sua exploração às proximidades da escada. Estava intrigado com
as propriedades peculiares da poeira lunar. Disse a Houston: “A
superfície é fina e poeirenta. Chuto com a ponta do pé e ela
sobe. Adere em camadas finas, como carvão em pó, às solas e
às laterais das minhas botas. Minha pisada chega a apenas
alguns milímetros, talvez uns três, mas vejo as pegadas das
minhas botas e o rastro nas partículas finas de areia.” Como era
de esperar, movimentar-se não era nenhum problema. “Talvez
seja até mais fácil do que nas simulações a um sexto da
gravidade que realizamos várias vezes em terra. Andar por aqui
não é problema algum.” Ainda bem próximo ao módulo lunar, Neil
notou que o motor de descida não tinha deixado um buraco
maior. “Ele ficou a cerca de trinta centímetros de distância no
chão. Estamos em um lugar praticamente plano aqui. Vejo alguns
indícios [de erosão provocada pela exaustão] dos raios que
emanaram do motor de descida, mas em quantidade
insignificante.”
Neil estava ansioso para que a câmera fotográfica da missão,
uma Hasselblad de setenta milímetros, chegasse a suas mãos.
Para isso, Buzz, ainda do lado de dentro da escotilha, precisava
prender a câmera a um dispositivo conhecido como transportador
de equipamento lunar (da sigla em inglês LEC, Lunar Equipment
Conveyor). Os astronautas o apelidaram de “varal de Brooklyn”
porque funcionava quase que da mesma maneira que os varais
nos prédios de apartamentos de Nova York usados para
pendurar e secar roupas. O LEC não foi idealizado para resolver o problema de descer a câmera e outros objetos do módulo lunar,
mas principalmente para subir com as coisas da superfície lunar
após a conclusão da atividade extraveicular. Neil explicou:
“Fizemos algumas sessões práticas no segmento final do
trabalho na superfície lunar quando trouxemos todas as caixas
com rochas, câmeras e vários equipamentos que precisavam ser
levados para dentro. Foi muito trabalhoso. Achamos muito difícil
carregar aquilo e deixar tudo na posição adequada para que a
outra pessoa — o homem de cima — pudesse pegar. Acho que
foi minha a sugestão para que tentássemos a técnica do varal.
Então fizemos assim, e parece que funcionou bem.”
Depois de desprender a câmera pesada do LEC, Armstrong
instalou-a na estrutura de suporte da unidade de controle remoto
(da sigla em inglês RCU, Remote Control Unit), que estava
embutida, como ele mesmo havia projetado, bem na frente do
seu traje. Ao montar a câmera, Armstrong estava com tanta
vontade de tirar algumas fotos que se esqueceu de colher a
amostra de contingência de poeira lunar, um item da mais alta
prioridade que devia ser obtido primeiro, caso algo desse errado
e ele precisasse voltar às pressas para o módulo lunar. A NASA
não queria ir até a Lua e não ser capaz de voltar com uma
amostra lunar para estudo científico. Umas duas vezes, Houston
precisou lembrar a Neil, que nunca precisou ser apressado, de
colher a amostra. “Daria um pouco mais de trabalho pegar (…) o
equipamento e o recipiente para aquela amostra do que tirar
algumas fotos. Minha intenção era só tirar algumas fotos rápidas
— uma sequência panorâmica dos arredores do módulo lunar —
enquanto estivesse lá, e em seguida eu pegaria a amostra.”
Na reunião técnica após a missão, Neil explicou sua lógica
conservadora para mudar a ordem de realizar essas duas
primeiras tarefas. Ele disse que a princípio tinha ficado na
sombra do módulo lunar, de onde poderia tirar boas fotos. Para
colher a amostra, teria que guardar o LEC e andar três metros ou
mais pela área sem sombra, e por isso mudou a ordem. Também
precisava montar um dispositivo semelhante a um coletor de
cocô de cachorro, com cabo retrátil e uma sacola removível na
ponta. Depois de ter coletado uma pequena quantidade de amostra do solo, ele depositou a sacola dentro de um bolso
preso a sua coxa esquerda. Cavar na superfície superior não foi
problema, pois o solo estava bem solto. Embora não fosse
exigido que ele tirasse alguma amostra de grande profundidade,
Neil tentou cavar uns dois centímetros ou mais abaixo da
superfície e descobriu que ela logo ficava muito dura. Além disso,
ele teve o cuidado de guardar umas pedrinhas em sua mochila
antes de fechá-la. Por fim, executou um pequeno experimento de
mecânica do solo, enfiando a extremidade do cabo de seu coletor
de amostras uns dez ou quinze centímetros abaixo da superfície.
Com a coleta concluída, Neil ficou um momento contemplando
a paisagem lunar. “Ela tem um tipo próprio de beleza crua”,
relatou ele. “Parece muito com o deserto dos Estados Unidos. É
diferente, mas é muito bonito aqui.” Então, ainda pensando no
que mais poderia experimentar, ele removeu o anel que prendia a
bolsa de coleta com a amostra contingencial e lançou-o para ver
até onde chegaria. “Não sabia que você podia lançar tão longe”,
brincou Aldrin, olhando pela janela. Rindo baixinho, Neil
respondeu: “Dá mesmo para lançar as coisas bem longe aqui!”
* * *
Aos dezesseis minutos da atividade extraveicular, chegou a hora
de Aldrin sair, algo que ele estava se coçando para fazer.
De pé a sudoeste da escada, Neil usou a Hasselblad para tirar
uma série de fotografias extraordinárias de Buzz emergindo
lentamente da escotilha, descendo a escada com cuidado,
ajoelhando-se na entrada, descendo até o último degrau, pulando
no tapete e saltando para a superfície lunar. Estas são as
imagens que as pessoas mais tarde veriam e recordariam
sempre que pensassem no primeiro ser humano a pisar na Lua:
Buzz fazendo isso, não Neil, de quem nenhuma foto de um
ângulo de baixo pôde ser feita já que ele foi o primeiro a sair. Na
verdade, Buzz desceu até o último degrau duas vezes antes de
sair — a primeira vez só como ensaio.
04:13:41:28 Aldrin: Ok. Agora quero subir de novo e fechar
parcialmente a escotilha. [Longa pausa] Ter certeza de que
não vai travar quando eu sair!
04:13:41:53 Armstrong: [Risos] Muito bem lembrado.
* * *
Não que os dois homens estivessem muito preocupados em ficar
trancados do lado de fora, já que escotilha poderia ser aberta por
esse lado se necessário. O que levou Aldrin a fechar em parte a
escotilha deve ter sido a tentativa de evitar o resfriamento
radiativo da cabine do módulo lunar.
Aliás, embora Buzz e Neil não tenham pensado nisso na
ocasião, havia sim um modo de ficarem trancados do lado de
fora: se a válvula de pressão da escotilha por algum motivo
começasse a funcionar mal e a repressurizar. “Já tínhamos,
alguma vez, investigado esse problema?”, perguntou Aldrin.
“Provavelmente teria sido uma boa ideia usar um tijolo ou uma
câmera para impedir que fechasse. Alguém deveria ter pensado
nisso. Havia uma alavanca [do lado de fora] para destravar a
escotilha, mas, considerando a dificuldade que tínhamos, se
houvesse alguma PSI [na cabine], nunca conseguiríamos abri-la.
Bem, até conseguiríamos, mas nunca mais a escotilha amassada
fecharia!”
Uma vez na superfície, Buzz referiu-se à beleza única da Lua
como a “magnífica desolação”. Inclinando-se para Buzz e
chegando tão perto que seus capacetes quase se tocaram, Neil
deu uns tapinhas com a mão enluvada no ombro do
companheiro. Segundo a autobiografia de Buzz, Neil disse a ele
então: “Não é divertido?” (Isn’t fun?) Mas Neil mais tarde afirmou
que o que ele disse foi fine, referindo-se à fina poeira que os dois
astronautas estavam examinando.
Depois disso, eles se separaram e começaram a testar sua
mobilidade. Apesar das horas em um ambiente de um sexto da
gravidade não terem possibilitado muito movimento ou muita
rapidez, dentro do módulo lunar eles ficaram de pé, se curvaram e se inclinaram, e, nas palavras de Neil, tiveram “uma boa noção
de como seria o ambiente de um sexto da gravidade antes de
sairmos”. Porém, eles não estavam acostumados a movimentos
corporais mais amplos e muito rápidos. Nas simulações em solo
e em aviões com um sexto de gravidade, eles tinham praticado
uma série de diferentes movimentos possíveis na Lua. Em uma
das simulações em solo, Neil lembra: “Você ficava suspenso de
lado contra um plano inclinado e andava de lado, preso a um
conjunto de cabos.” Embora uma sensação mais real tenha
ocorrido no avião com um sexto de gravidade — um KC-135
adaptado, voando em parábolas — eles só tinham alguns
segundos por voo para aperfeiçoar suas técnicas.
Durante a atividade extraveicular, era tarefa de Aldrin testar
todos os diferentes passos lunares. Entre eles estavam os
“passos largos” (o preferido de Neil), nos quais o astronauta
alternava os pés, dava um impulso com um dos pés, flutuava um
pouco para a frente e pisava com o outro pé; o “galope”, no qual
ele mantinha um pé sempre à frente, batia com o pé de trás
apenas uma fração de segundo antes do pé da frente, depois
dava um impulso com os dois pés, lançando-se para o próximo
salto; e também os “saltos de canguru”, que poucos astronautas
da Apollo já executaram, exceto de brincadeira, porque seus
movimentos eram rígidos demais.
Com a mochila grande e o traje pesado, cada astronauta
pesaria 163 quilos na Terra; na Lua, com um sexto da gravidade,
pesavam apenas 27. Como se sentiam tão leves, era preciso
tomar cuidados especiais com todos os movimentos,
principalmente por causa das mochilas, que exerciam um efeito
sobre o equilíbrio que eles não demoraram a descobrir: o andar
ficava um pouco inclinado para a frente. Ao olhar para o
horizonte em qualquer direção, os dois homens se sentiram um
pouco desorientados. Como a Lua é uma esfera muito menor que
a Terra, ela se curva mais nitidamente para baixo do que o
habitual para eles. Além disso, como o terreno variava bastante
em relação à capacidade de locomoção deles, era preciso estar
sempre alerta. “Na Terra, você só se preocupa com um ou dois
passos à frente”, lembra Buzz. “Na Lua, precisa ficar bem atento a quatro ou cinco passos.” Na maioria das vezes, os dois
astronautas, treinados para serem muito conservadores em sua
mobilidade na atividade extraveicular, andavam com os pés
pregados no chão, com um deles sempre plantado com firmeza
na superfície lunar.
Armstrong tentou dar alguns saltos bem altos para cima. O
que descobriu foi uma tendência a cair para trás ao pisar no
chão. “Uma vez quase caí e resolvi parar com aquilo.” Depois
que ele e Buzz esticaram o cabo de TV para que a câmera de
televisão pudesse ser posicionada a uns quinze metros de
distância do módulo lunar, Neil tropeçou no cabo. “O cabo de TV
tinha sido guardado enrolado, então, quando o esticamos, ele
formou uma espiral no chão que ficava para cima, e com a baixa
gravidade isso se acentuou um pouco mais. Era muito fácil
tropeçar naquele cabo, o que aconteceu comigo algumas vezes.”
Para piorar, os astronautas não conseguiam ver os pés muito
bem. “Por causa dos trajes, era difícil ver qualquer coisa logo
abaixo de nós. Era difícil ver os pés; eles estavam bem lá
embaixo.” Os cabos também ficaram empoeirados quase que no
mesmo instante, o que contribuiu para complicar o problema.
Costurado à luva esquerda de cada homem, havia um
checklist das tarefas da atividade extraveicular. Embora depois
das numerosas simulações Neil e Buzz soubessem de cor e
salteado a ordem dos eventos, ainda usavam os checklists, como
fazem os pilotos profissionais, mesmo conhecendo bem os
procedimentos.
A tarefa seguinte dos astronautas (outra acrescentada
tardiamente) foi descerrar a placa comemorativa montada na
perna da escada do módulo lunar. “Para aqueles que não leram a
placa”, disse Neil ao mundo aos 04:13:52:40 de tempo decorrido
da missão, “leremos a placa que está no trem de pouso dianteiro
deste módulo lunar. Primeiro, há dois hemisférios, representando
os hemisférios da Terra. Abaixo, está escrito: ‘Aqui homens do
planeta Terra pisaram pela primeira vez na Lua, em julho de 1969
d.C. Viemos em paz em nome de toda a humanidade.’ Ela tem a
assinatura dos membros da tripulação e a do presidente dos
Estados Unidos.”
Outra ação que não estava no checklist deles, mas que a
NASA queria que fosse executada logo no início da atividade
extraveicular, era fincar a bandeira americana. Conforme
discutido anteriormente, a decisão de hastear uma bandeira
americana na Lua era controversa. Armstrong lembra: “Houve um
grande debate antes do voo sobre a bandeira que seria levada.
Seria a americana ou a das Nações Unidas?” Uma vez decidido
(sem a participação da tripulação) que seria a bandeira
americana, Neil, um ex-escoteiro águia, pensou em como ela
deveria ser exibida. “Eu achava que a bandeira deveria ser
apenas fincada, que deveria pender do mastro como aqui na
Terra. Não deveria chamar a atenção ou ser posta em uma
moldura rígida, o que acabou acontecendo. Logo percebi que
isso tinha se tornado uma questão tão grande, fora da minha
alçada e do meu ponto de vista, que não valia a pena me
preocupar. Seria uma decisão para outras pessoas, e o que quer